Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2020)
TEXTO: Fernando M. Oliveira Pinto
A Quaresma é uma caminhada
A procissão das Cinzas saiu pela primeira vez à rua em 1663, três anos após a fundação da Ordem Terceira de Ovar. Há 357 anos que os vareiros dão o testemunho da sua fé, percorrendo as principais artérias da cidade. Nos últimos anos, como constatou um dos Irmãos das fraternidades que se deslocaram a Ovar para figurarem no préstito religioso, são sobretudo os velhos que teimam em não deixar morrer aquela que é considerada uma das mais belas procissões do país.
Como o céu de 8 de março de 2020 ameaçava chuva miudinha, a multissecular Procissão dos Terceiros, organizada pela Ordem Franciscana Secular de Ovar, não saiu à rua. (Em 2010 e 2015 fez-se também dentro de portas)."Estarmos aqui na Igreja é uma maneira de fazermos a nossa procissão interior", disse o pároco de Ovar, P.e Manuel Pires Bastos, que presidiu à celebração.
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| Frei Bruno - FOTO: Fernando Pinto |
"Esta semana foi muito complicada para alguns de nós, por motivos de saúde, de falecimento de familiares. Não foi fácil, mas com a graça do Senhor e de São Francisco conseguimos ter tudo pronto para que hoje a procissão dos Terceiros se pudesse realizar. Como o Frei Bruno diz, só o Senhor manda no tempo, por isso, estamos à mercê do Senhor, e não da nossa própria vontade", referiu Vera Marques Cruz, Ministra da Ordem Franciscana Secular de Ovar, no final da celebração, aproveitando para agradecer a todos os que ajudaram na montagem dos andores, aos Irmãos Terceiros, à Irmandade do Senhor dos Passos (que este ano está formada), às zeladoras dos andores e às fraternidades que vieram de fora (Gondomar, Penafiel, Vila Real, Vila do Conde, Leça da Palmeira e Braga).
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| Vera Marques Cruz, ministra da Ordem Terceira de Ovar FOTO: Fernando Pinto |
A Ministra da OFS deixou ainda um obrigado "ao presidente da Assembleia da Câmara Municipal de Ovar, Pedro Braga da Cruz, ao vice-presidente da CMO, Domingos Silva, aos acólitos, aos escuteiros, ao Frei Mário, que veio de Penafiel pela primeira vez a Ovar, ao Frei Bruno, nosso assistente, que mais uma vez esteve cá, e ao Sr. Padre Bastos, porque se preocupou connosco durante a semana e por estar sempre disponível para nós.
Após a leitura própria daquele domingo – Segunda Carta do apóstolo Paulo a Timóteo –, Bruno Peixoto, começou por cumprimentar os Irmãos e Irmãs das fraternidades, com o habitual "Paz e Bem", dizendo que "o tempo da Quaresma é um tempo que nos interpela à consciência, à avaliação, ao exame pessoal, a olharmos a nós próprios", e que a Quaresma é uma caminhada: "A Liturgia, neste 2.º Domingo da Quaresma, mostra-nos uma caminhada que Jesus faz, com os seus discípulos Pedro, Tiago e João, ao cimo do Monte, e Jesus Cristo caminha com eles para depois descer, e que depois terminará na caminhada do Calvário".
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| Frei Bruno - FOTO: Fernando Pinto |
O frade franciscano, no seu belíssimo sermão, explicou o sentido das palavras "Penitência", "Abstinência" e "Jejum", dizendo que são o convite à conversão, à mudança de vida: "A maior parte dos Santos que estão aqui passaram pelo processo de Penitência, principalmente São Francisco de Assis, que vivia como um boémio e, a certa altura, deixou as coisas do mundo, voltando-se para as coisas de Deus".
A maioria das pessoas procura viver no conforto, no comodismo, "e às vezes critica de barriga cheia", frisou Frei Bruno.
"Creio que ficamos contentes por saber que temos estas imagens ao dispor dos nossos olhos, muito especialmente do nosso coração e da nossa fé. Muitas pessoas poderão achar que já são coisas ultrapassadas, mas hoje em dia há tantas coisas que se querem e que têm pouco a ver com os nossos gostos. Mas nós somos cristãos, católicos, e não nos esqueçamos que este ano, em que refletimos sobre o dia do nosso batismo, não podemos fugir aos nossos compromissos. É daí que nasce a nossa vocação para levarmos uma vida seguindo os valores de Cristo, como estes Santos fizeram", disse o Pároco, voltando os rostos dos fiéis para os 14 andores que embelezavam a Matriz: Nossa Senhora da Conceição, S. Lúcio e Santa Buona (“Os Bem Casados”), Santa Rosa de Viterbo, S. Francisco prostrado nas silvas, Santa Margarida de Cortona, Santo Ivo, S. Roque, S. Luís Rei de França, Santa Isabel da Hungria, Santa Isabel de Portugal, Santo António de Lisboa, Santa Clara de Assis, S. Francisco abraçado a Cristo, e o Andor da Ordem Terceira.A maioria das pessoas procura viver no conforto, no comodismo, "e às vezes critica de barriga cheia", frisou Frei Bruno.
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| Os andores da Ordem Terceira e de Nossa Senhora da Conceição FOTOS: Fernando Pinto |
"Os meus cumprimentos a todos, às autoridades e às pessoas que estiveram a representar alguém que não pôde estar", disse o P.e Bastos, voltando a lembrar que a presença das crianças, jovens e seus pais nas procissões é muito importante para que estas festividades, que atraem há séculos milhares de fiéis a terras vareiras, possam ter o brilho e a dignidade de outrora. Como frisou Frei Bruno, no seu sermão, "ir pelas ruas da cidade é ir em caminhada, uns atrás dos outros, em espírito de oração, caminhando", porque "a nossa vida, toda ela, é uma peregrinação".





















