22.6.19

JOÃO SEMANA, jornal de Ovar, é uma das Publicações Centenárias Portuguesas


Publicações Centenárias Portuguesas
Diploma
"A Associação Portuguesa de Imprensa reconhece que o jornal "João Semana"
está em publicação ininterrupta há 100 anos, fazendo parte do projeto das 
Publicações Centenárias Portuguesas, o qual será candidato a 
Património Cultural Imaterial"
(Lisboa, 25 de abril de 2017)

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1.3.19

Aron Hakodesh de São Vicente de Pereira

Mais do que história, o respeito

Jornal JOÃO SEMANA (01/03 e 01/04 de 2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Mais do que a história de um monumento que, pela sua singularidade arquitetónica e cultu­ral, se apresta a entrar no acervo do património nacional, pretendemos com este trabalho pôr em relevo as providenciais circunstâncias que permitiram conservar intacto, ao longo de cinco séculos, o Aron Hakodesh de São Vicente de Pereira e sublinhar o procedimento exemplar da família Martins, que desde o início do século XIX manteve devoluta aquela velha casa, merecendo especial menção os seus últimos proprietários, Padre Juiz Domingos Martins de Oliveira e Padre António de Oliveira Martins, os quais, conhecendo e respeitando a história comum do povo hebreu e do povo cristão, garantiram a preservação desse património até aos nossos dias [1].

Foi na década de 80 que passei a conhecer o P.e António Martins (27/01/1921-26/04/1989), regressado de Moçambique, que celebrava missa aos domingos, na Capela de Santo António, em Ovar. Residindo em S. Vicente de Pereira, perto da capela de São Geraldo, na casa assobradada do Rexio de Cássemes, que fora de seu tio, P.e Juiz Domingos Martins de Oliveira (17/05/1890-13704/1951), e que pertencera a seus ascendentes maternos desde o casamento, em 1816, de Manuel Martins de Oliveira (†1862), da Rua Nova de Válega, com Ana Maria Gomes da Conceição (1798-1879), esta possivelmente até aí domiciliada na velha casa térrea de origem judaica que se situa do outro lado da rua[2].

Registo de uma atafona
No quintal dessa antiquíssi­ma casa de lavoura, desabitada há pelo menos dois séculos, e onde, até há pouco se criavam galinhas e ovelhas, e onde o P.e António mantinha algumas col­meias, das quais me abastecia de mel, tive a fortuna de observar, nos anos oitenta, uma atafona desativada, com a nora e o res­petivo moinho em estado de de­gradação, o que me despertou curiosidade e me levou a falar dela ao pelouro da Cultura mu­nicipal, na pessoa da Dr.ª Ângela Castro, que levámos, posterior­mente, a visitar o local, tal como fizemos com outras pessoas ami­gas, entre as quais o P.e António de Pinho Nunes, colaborador do nosso jornal[3].

Registo fotográfico de um armário
Entretanto, ainda antes da morte do P.e António (1989), ao vasculhar um recanto da velha casa, algo de imprevisto se nos deparou: um estranho armário de pedra embutido na parede de uma pequena sala, estrutura que registei fotograficamente e que levou muito tempo a interpretar. Um lugar de oração? Um espe­cioso altar cristão? (Havia sacer­dotes na família, e até ouvi dizer que estiveram ali recolhidos sa­cerdotes fugidos da guerra civil de Espanha…)
Cheguei a interrogar-me se não seria um “altar judeu”. Mas como seria isso possível em terra profundamente católica? E nem a fotografia, que eu olhava oca­sionalmente na janela do álbum em que lhe dei destaque, respon­dia às minhas interpelações… E nas ocasionais pesquisas que fazia em S. Vicente sempre ou­via respostas negativas acerca da existência, ali, de famílias de origem judaica.
Só Lauro Santos, da família Martins, me deu o lamiré de que duas das suas tias lhe falaram de terem habitado ali “famílias judias”[4], acrescentando recen­temente (em 23 de janeiro de 2019), que também seu pai, Ho­rácio Santos, lhe falou nisso[5]. E, mais recentemente ainda, o Dr. Álvaro Ribeiro, de Maceda, deu-me a saber que o P.e Antó­nio, quando ambos frequenta­ram o Seminário do Porto, se referiu à presença de símbolos hebraicos na velha casa da famí­lia, e que conviveu, no Furadou­ro, com raparigas de S. Vicente de quem se dizia poderem ter ligação com gente judaica.
Penso que o silêncio que se mantinha sobre essa possível ligação genética explicar-se-ia por receio de reação antissemita.
Até por isso merece reco­nhecimento a atitude reservada e positiva dos dois sacerdotes Martins em relação àquele “ar­mário sagrado” que fotografá­mos, e que eles viam como sinal religioso a manter como relicá­rio da fé judaico-cristã dos re­motos moradores da casa, sendo ou não ascendentes da sua pró­pria família[6].

O Aron Hakodesh (armário da Lei)

Vários anos correram. Em 1989, quando da morte do Padre António, não deixámos de estimu­lar as autarquias locais a adquiri­rem o prédio, que pertencia, agora, a D. Matilde Trigo, para servir de Museu da freguesia. Nessa altura, como se lê na revista “Reis” de 1997, a nossa atenção centrava-se ainda na atafona, alertando para, “através de um protocolo, a restau­rarem ou a reconstruirem em local onde possa ser visitada pelo públi­co”[7] (O re­tardamento da nossa interven­ção escrita em relação com o “nicho de pe­dra de configu­ração estranha daquela secular moradia” de­veu-se ao facto de então não termos perce­bido ainda a sua origem e a sua verdadeira função.)
Por 2003, um jovem estudante de Arqui­tetura de S. Vicente de Pereira, Paulo de Carvalho, apresentou como estudo de curso o projeto de um Centro Interpretativo da lavoura a implantar ali, apre­sentando-o ao presidente da Junta de Freguesia, Filipe Mes­quita, como proposta de uma “Quinta Pedagógica”, tendo em conta a casa secular e os respe­tivos anexos, incluindo, a nas­cente, uma casa de arrumos, de muito recente construção (séc. XIX–XX), não fazendo alusão ao pentassecular “armário” da pequena sala[8].
Filipe Mesquita, a quem, por diversas vezes, falara da velha casa como ideal para se tornar es­paço museológico da freguesia, acabou por apresentar à Câmara a proposta do jovem arquiteto, mas sem resultado imediato.

Altar judaico (Sabugal)
FOTO de Rui Mendez ("Olhares/2008")
A confirmação do achado
Em abril/maio de 2012, na re­dação deste quinzenário vareiro, ao preparar o texto "Pereira" da autoria do nosso colaborador e ilustre medievalista Dr. Armando de Almeida Fernandes (rubrica “Algumas Notas Toponímicas Ovarenses”, no "João Semana" de 01/11/1993), para o reprodu­zir na internet, no sítio “Artigos do Jornal João Semana”, algo de surpreendente aconteceu. Pedin­do o diretor-adjunto do jornal, Dr. Fernando Pinto, algumas fo­tografias para ilustrar o tex­to, uma delas, precisamente aquela que tínhamos ex­posto na capa do álbum, fez ressaltar aos meus olhos, do rebordo alto da janela que a emol­durava, a ima­gem da cruz que se manti­nha no alto do armário, em­butida na parede, levando-me, de imediato, a exclamar: – “Isto não pode ser um armário. Só pode ser um altar judaico, do tempo dos “cristãos novos”[9].
Consultando a Net e buscando o sítio “Olhares”, onde Fernando Pinto partilha o seu trabalho de fotografia, logo nos apercebemos da presença de um Ekhal judaico há pouco descoberto (na foto). Estava confirmada a dedução que desde há muito vínhamos fazen­do sobre o “estranho armário” de São Vicente de Pereira.

Na Rota do Judaísmo
Fechada uma etapa nesta aventura, outra se abria. Para além de um texto elucidativo a publicar na edição do “João Se­mana” de 15/06/2012, achámos prudente ouvir pessoas ligadas às práticas judaicas, para conhe­cimento do nosso achado e para garantir o maior rigor na sua transmissão escrita.
E foi mesmo no serão dessa noite (às 0h16 do dia 5 de junho de 2012) que seguiu o primei­ro e-mail informativo, enviado para a Sinagoga de Lisboa pelo jornalista Fernando Pinto.
Dias depois, por dever ético e cívico, demos conhecimen­to destes factos ao setor cultu­ral do Município, na pessoa do Técnico Superior da Câmara Municipal de Ovar Dr. António França, que se congratulou com a notícia, assumindo a tarefa de seguir os trâmites sobre achados patrimoniais, ações a que nos re­feriremos no próximo número.

Notas:
[1] Em 1498 o Rei D. Manuel I promulgou a lei que impunha a ex­pulsão dos judeus.
[2] Maria Gomes da Conceição era filha de Manuel Gomes Rodri­gues, de Cássemes, e de Maria Joana da Conceição (1746–1833), natural de S. Tiago de Riba Ul.
[3] Jornal "João Semana" de 15/09/1994: Património invulgar ‒ Uma atafona em São Vicente de Pereira".
[4] Revista "Reis" 2014, Ovar.
[5] "João Semana”, 01/02/2019.
[6] Terá a família Martins, de Válega, pelo casamento com Ana Maria Gomes da Conceição en­troncado com sangue hebreu? Ou será que a casa entra na família por compra?
[7] Revista “Reis” Ovar, 1997, pág. 48, “SOS por uma atafona exemplar único na região”.
[8] Nunca ali habitaram os dois sacerdotes Martins, que sempre re­sidiram na casa assobradada, da fa­mília, e que usavam a aquele espaço apenas como casa de arrumos.
[9] Lei de D. Manuel I, de 598.

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(Continuação do texto de 1 de março de 2019)


Às voltas com o Ekhal
À comunicação expedida de Ovar na madrugada de 5 de junho de 2012, via internet, pelo jornalista Fernando Pinto, sobre o Ekhal de São Vicente de Pereira, respondeu o rabino de Lisboa Eliezer Shai com uma sentença pronta e radical, mas não tão negativa como parece, atendendo ao espanto que lhe terá causado a referida informação:
"No judaísmo ou seja nas sina­gogas, não há altares, a única coi­sa que poderia ser, vendo que está pegado a uma parede, seria um Ekhal, o armário onde se guardam os rolos da Torá, mas dado o tama­nho não pode ser tal coisa. Portan­to, em resumo, não é um vestígio judaico"[1].
A posterior inserção do tex­to "Culto judaico em S. Vicente de Pereira?" na internet, no sítio "Artigos do jornal João Semana", foi suficiente para, pouco depois, recebermos do mesmo rabino a opinião de que provavelmente se tratava de um Ekhal.
À Câmara, na pessoa de Antó­nio França, caberia iniciar o proces­so de reconhecimento oficial e de classificação científica deste penta­centenário Aron Akodesh (Ekhal).

Início do processo
Associações judaicas em Por­tugal entenderam por bem incluir a notícia do achado no programa do 2.º Ciclo de Cultura Judaica reali­zado em Tomar e em Belmonte, em 19 e 20 de setembro de 2012, tendo o técnico da câmara apresentado algumas fotos do Ekhal e do edifí­cio e estruturas envolventes.
Entretanto, para a certificação e classificação deste património, a Câmara fez convites a peritos em arqueologia e história para visita­rem e se debruçarem sobre a es­trutura da habitação, com o quintal e a atafona, entre os quais Gabriel Rocha Pereira, Mestre em arqueo­logia, e Elvira Mea, docente uni­versitária.
O referido texto[2], publicado no sítio "Artigos do jornal João Semana" abriu uma inesperada cla­reira no horizonte do património judaico português.
Jorge Martins, autor da obra "Portugal e os Judeus", afirmou em 2 de outubro de 2012:
"Parabéns. Fizeram um ótimo trabalho. Essa casa (esse conjun­to) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-lo, dignificá-lo e dá-lo a conhecer. Inclusivamente contactar com a Rede de Judia­rias (se a Câmara assim o enten­der)"[3].
De José Levy Domingos, da Comunidade Judaica de Belmonte, a quem também pedíramos opinião sobre o assunto, recebemos a 20 de novembro de 2012, após o seu re­gresso do Brasil, esta agradável e pedagógica missiva:
‘Caro padre Manuel Pires Shalom Uvracha!!
(…) Depois de analisar pelas fotos, esperando em breve visitar no local este EKHAL (em sefar­dita, os Askenazim dizem ARON­-AH-KODESH) que significa "pa­lácio", numa alusão ao templo de Salomão, e depois de meus conhe­cimentos nesta área por tradição familiar judaica minha e pelos si­nais que encontro, NÃO TENHO DÚVIDAS DE QUE SE TRATA DE UM HEKHAL.
É importante dizer que este tipo de armários onde era depositado o rolo da Torah existia também em casas de famílias e aqui muitas ve­zes era o local das "Torinhas" que tantas vezes saiam em procissão, sobretudo em ocasiões festivas.
É importante referir que estes armários teriam uma função de culto familiar, aliás o judaísmo é sobretudo uma religião familiar na sua essência. Foi isso que preser­vou as nossas famílias resistentes e descendentes dos judeus da In­quisição e de outras “inquisições” quantas vezes políticas, sociais e económicas.
O Ekhal habitualmente divide­-se em duas partes, a superior, onde era colocado o Rolo ou o Livro da Lei, ladeado ou não pela vela. Ao lado poderia existir uma mísula como acontece nos casos de Freixo de Espada à Cinta ou Castelo de Vide. Na parte inferior seriam colocados os elementos li­túrgicos judaicos.
A cruz que encima o armário nada mais é do que a expressiva demonstração de uma cristianiza­ção forçada naturalmente’.
Também Jorge Patrão, Secretá­rio Geral das Judiarias de Portugal, nos felicitou, em 4 de novembro de 2012, por "esta fantástica desco­berta".

A ação da Câmara
A primeira das personalidades convidadas pela Câmara Municipal a deslocar-se ao local foi a inves­tigadora da Universidade do Porto Elvira Mea, que esteve em São Vi­cente de Pereira em 26 de outubro, tendo o "João Semana" registado esta visita em 1 de novembro se­guinte, com o texto "Confirmação do culto judaico em S. Vicente de Pereira[4] com registos fotográfi­cos, e em vídeo, do jornalista Fer­nando Pinto.



A investigadora voltaria ao lo­cal em 16/11 acompanhada pelo rabino Daniel Litvak, do Porto, que afirmou, numa atitude discreta, a importância do Ekhal.
Elvira Mea aconselhou um aprofundado estudo arqueológico e a pesquisa das fontes documentais das propriedades e seus donos, e em 20/11 enviou-nos cópia do seu "Parecer sobre o Ekhal do lugar de S. Geraldo, na freguesia de São Vi­cente de Pereira, Ovar".
Em 9 de novembro, o arqueólo­go Gabriel Rocha Pereira entregou também à Câmara o seu "Informe Técnico-científico".
Falecida no verão de 2013 a proprietária, D. Matilde Trigo, perguntava o jornal "João Sema­na" em 1/10 desse ano: "Altar judaico em S. Vicente de Pereira – Por que se espera?", pedindo a classificação oficial deste Ekhal, único na nossa região, citando Jorge Martins, atrás referido, e lembrando que os atuais proprie­tários estão sensíveis ao desejo de preservar este original espólio, de acordo com as normas que vigo­ram nesta matéria, esperando que "sejam iniciadas as diligências in­dispensáveis para o levantamento arqueológico recomendado em 26/10/2012, por Elvira Mea".


Casa afidalgada, no Porto da Igreja, S. Vicente de Pereira, adquirida a uma rica família de origem judaica pelo vicentino Elias Correia de Azevedo (dos Calrotes), casado com uma judia alemã, cuja família foi vítima dos nazis

Pesquisar mais fundo
Em 01/01/2014, o "João Sema­na" publica um texto do Dr. Gui­lherme Godgel de Oliveira Santos sobre este tema, em que o nosso distinto colaborador, com ligações familiares a S. Vicente de Pereira, afirma ser "um pouco enigmático, porque não há tradição nem no­tícia de famílias de judeus ou de cristãos-novos que houvessem vivi­do em S. Vicente. Além disso, esta região não é das que mais atraíram os seguidores da Tora"[5].
Em 28 de agosto de 2014, a Câmara Municipal de Ovar pedia à D.C. Centro parecer favorável so­bre a eventual classificação, e em reunião camarária de 18/12/2014 foi deliberado abrir processo de classificação não só do conjunto que integra o Aron Hakodesh ou Ekhal[6] e o espaço restante (con­tendo a atafona).
Em 23/02/2015, na visita de Isabel Policarpo Gertrudes Branco, técnica na área do Património, foi feita uma primeira inventariação dos elementos do edificado a clas­sificar como de interesse munici­pal ou público. Participaram nesta visita os elementos da comissão técnica apresentada pela Câmara, a saber: Ana Paula Reis, chefe da Divisão da Cultura, Raquel Elvas técnica da Divisão da Cultura, e António França, Técnico Superior, acompanhados pelo P.e Manuel Pires Bastos, pároco de Ovar e li­cenciado em História, e por Gabriel Pereira, Mestre em Arqueologia.
Desta visita foi publicada a se­guinte notícia no "João Semana":
"O edifício de propriedade particular, é modesto, mas rico em história. Desabitado há mais de um século[7], degrada-se a olhos vistos, com telhados abatidos. A mesma sala de culto, considerada um exemplar excecional do crip­tojudaísmo, merece – exige – uma rápida intervenção"[8].
A proposta de classificação do Haron como de Interesse Público é aceite em 5 de maio de 2015[9], enquanto a do restante espaço foi arquivada[10].


Notas:
[1] Internet, 05/06/12 (12h52).
[2] "João Semana", 15/06/2012.
[3] http://portugal e os judeus. blogspot.pt
[4] Ver http://artigosjornaljo­aosemana.blogspot.com/2012/06/culto-judaico-em-s-vicente-de-pe­reira.html.
[5] Pesquisas por nós avança­das nos livros de assentos paro­quiais de S. Vicente, mostram-nos haver essas ligações desde finais do século XVI, com topónimos de caráter bíblico.
[6] Ofício de 09/01/2015.
[7] É possível que a partir do século XVII o culto judaico fosse ali diminuindo, por as novas gera­ções judaicas se terem integrado na vida católica da freguesia.
[8] "João Semana", 01/04/2015.
[9] Edital 383/2015.
[10] Despacho do Diretor Geral da DCDC, de 12/10/2016.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março e 1 de abril de 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/03/aron-hakodesh-de-sao-vicente-de-pereira.html

2.2.19

S. Vicente de Pereira – Famílias do Rexio de Cássemes

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Ao consultarmos os livros paroquiais de S. Vicente de Pereira, iniciados em 1589, fomo-nos apercebendo da importância histórica e linguística de alguns topónimos da freguesia, bem como da singularidade das suas famílias. Saber-se que na fidalguia portuguesa se apontam os Azevedos como originários do lugar de Azevedo, desta freguesia, que na Idade Média se chegou a chamar Pereira de Susã (isto é, Pereira de Cima, por oposição geográfica a Pereira Jusã, ou Pereira de Baixo, em Válega)?

A entrada para o Rexio, a partir da Rua Padre Juiz Domingos Martins de Oliveira

Outro lugar de destaque é Cássemes, que nos séculos XVII e XVIII nos aparece com várias designações aditivas: Rexio de Cássemes, Barreiras de Cássemes (1731), Lagoa de Cássemes (“lugar da Lagoa”), Relva do lugar de Cássemes (1731), Termo de Cássemes (1747) e Lavoura de Cássemes (1842).
No Rexio situa-se a casa que foi dos Alves (até cerca de 1820?) e, depois dos Martins, e que, antes, foi residência de uma família judaica.

Rexio (ou Rossio?) de Cássemes
Rossio significa logradouro público. (Em Aveiro foi recinto de feiras, e em Lisboa transformou-se num centro cosmopolita).
O Rexio

Rexio significa terreno lamacento. Dado serem essas as caraterísticas do local a norte e a nascente da rua com esse nome (embora ali erradamente escrito "Rochio"), deveria ser esse o espaço partilhado por algumas famílias locais – Vaz, Fernandes, Alves, Gomes, Martins, Herdeiro –, e onde, a nascente, fica a Capela de São Geraldo, implantada por Rafael Valente, em 1656, e logo na estrada, para norte, Cássemes, Relvas e Torre.
Saída do Rexio

Vaz/Alves (Álvares)
O mais antigo Vaz por nós encontrado no “Rexio” é Domingos Vaz, casado com Catarina Jorge, pais de Lourenço Vaz, que viria a casar com Paula Álvares[1].
Deste casal viria a nascer Manuel Alves, que casou com Maria Francisca da Cruz[2], de Cássemes, sendo seus filhos António da Cruz (casado, em 01/01/1784, com Maria Rodrigues de Jesus[3], residente no Rocio de Cássemes e Maria Alves da Cruz, casada em primeiras núpcias com António Rodrigues dos Santos, e, depois de viúva, com José Joaquim Gomes Leite, residentes em “S. Geraldo”)[4].

Herdeiros/Fernandes
Esperança Maria, filha de António Vaz e de Maria Fernandes, do Rocio, casou em 18/01/1738 com Diogo de Oliveira, tendo sua neta Ana Maria de Oliveira[5] casada com João Francisco Herdeiro, do Rocio[6].
No Rexio moraram João António e Domingas Fernandes, bem como seu filho António Fernandes, casado com Sebastiana Fernandes, de Cássemes, bem como o filho deste casal, António Rodrigues dos Santos († 1790), e sua esposa, Maria Alves da Cruz[7], pais do Sargento Manuel Rodrigues da Cruz, que viria a casar com Ana Maria da Luz de Jesus, filha de José Fernando Morgado e de Maria Rosa, da Devesa.

Gomes
Manuel Gomes e Maria Luís, do Rocio de Cássemes, foram pais de Mariana Gomes, casada no lugar do Outeiro com Manuel Fernandes[8], e avós maternos de Rosa Maria, que viria a casar, em 30/11/1781, com Manuel Álvares, filho de Manuel Alves e de Maria Francisca da Cruz, de “Cássemes”, atrás referidos.
Maria Luís, filha de Manuel Gomes e de Maria Luís, do Rocio, casou, em 30/04/1741, com Mateus Gomes, filho de António Gomes e de Maria Gomes, de Cássemes.

Martins
P.e Juiz Domingos Martins de Oliveira, que 
foi proprietário da casa do Aron Hakodesh 
(† 13/05/1951, com 61 anos)
Manuel Martins de Oliveira, filho de Domingos Martins e de Teresa Maria de Oliveira, da Rua Nova, Válega, veio casar em S. Vicente com Ana Maria Gomes da Conceição, do Rocio de Cássemes[9].
Tiveram a seguinte geração: Maria Gomes da Conceição (n. 10/11/1818), Luísa Maria de Oliveira Martins (casada em S. Vicente com Manuel da Costa, do Lourinhal, residindo em Cássemes), Ana Maria Oliveira Martins (casada em 24/11/1853 com Manuel Gomes de Pinho, filho de Manuel Gomes de Pinho e de Maria Gomes de Pinho, e neto materno de José Alves da Cruz e de Maria Gomes de Pinho), Rosa (nascida a 29/05/1829), Manuel (n. 23/11/1819, casado em 1864 com Ana Maria Gomes), António Martins de Oliveira (n. 18/10/1821, casado com Maria Rodrigues de Jesus, pais, entre outros filhos, do futuro Padre e Juiz Dr. Domingos Martins de Oliveira, José Martins de Oliveira, e de Maria Joana da Conceição (casada com Manuel Gomes dos Santos).
Segundo informação de Lauro Martins, residente na rua do Cruzeiro de Cássemes, sua tia Ana Maria Oliveira Martins, atrás citada, terá dito que "naquela casa viveram duas famílias judias". (Possivelmente ali nascidas ou refugiadas antes do século XVIII)[10].

Notas
[1] Filha de Manuel Álvares e de Catarina Manuel, de S. Martinho [da Gândara], do “Rocio de Cássemes”.
[2] Filha de Manuel Francisco e de Isabel Fernandes, do Rexio, neta materna de Domingos e de Catarina Fernandes.
[3] Filha de António Fernandes e de Sebastiana Fernandes, de “Cássemes”, e neta paterna de João António e de Domingas Fernandes, do Rocio, e materna de Manuel Fernandes e de Maria Rodrigues, de “Cássemes”.
[4] José Joaquim era filho de João Gomes Leite, de S. Vicente, e de Rosa Maria Dias, de Ovar.
Ainda em 24/01/2018 ouvi designar como a "casa do Álves" a casa do Aron Hakodesh, que, pela sua configuração e textura material, os peritos consideram do séc. XV ou XVI. Terá passado desta família – e talvez já desabitada – para a família Martins, vinda de Válega por 1818 (há 201 anos), o que ajudará a explicar ter o "armário da lei" permanecido intacto ao longo dos séculos.
[5] Filha de Baltasar de Oliveira (1751-1828) e de Teresa Rodrigues († 1910, em Cássemes).
[6] Filho de José Francisco Herdeiro e de Maria Francisca, de Cássemes.
[7] Filha de Manuel Alves da Cruz e de Maria Francisca da Cruz, do Rocio. Casou, em segundas núpcias, com José Joaquim Gomes Leite (pai de um padre com o mesmo nome).
[8] Filho de Manuel Fernandes e de Páscoa Fernandes, de Pigeiros.
[9] Filha de Manuel Gomes Rodrigues e de Maria Joana da Conceição, do Rocio, neta paterna de João Rodrigues da Silva e de Antónia Gomes, de Cássemes, e neta materna de Manuel Gomes e de Caetana Maria da Conceição, de Vila Cova, São Tiago de Riba Ul.
[10] Em 23/01/2019 Lauro Martins reforçou esta informação que nos deu para a revista "Reis" de 2014, acrescentando, agora, que seu pai também era conhecedor de que judeus habitaram essa casa (no Rexio de S. Vicente de Pereira).

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Do “armário estranho” ao Aron Hakodesh
Em próxima edição do “João Semana” diremos aos leitores, como testemunho pessoal e para memória futura, as circunstâncias em que, na década de 80, no Rexio de Cássemes, São Vicente de Pereira (perto da capela de S. Geraldo), numa casa desabitada há mais de dois séculos, encontrei uma atafona desativada, da qual dei notícia na revista vareira “Reis” de 1997, e, algum tempo depois, descobri um armário de pedra de configuração estranha, cuja função só mais tarde entendi, por ter encontrado a resposta precisa para as interrogações que vinha fazendo e partilhando com pessoas amigas. (Ler artigo na internet, jornal “João Semana” de 15 de junho de 2012).

 Casa onde se encontra o Aron Hakodesh

"Essa casa (esse conjunto) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer. Inclusivamente, contactar com a Rede de Judiarias (se a Câmara assim o entender)." (Jorge Martins, na Internet, no sítio Artigos do Jornal João Semana ("Culto judaico em S. Vicente de Pereira?"), em 2 de outubro 2012.

Rabino Daniel Litvak, da comunidade judaica do Porto, visitando o ekhal
de S. Vicente de Pereira

“Este achado reveste-se dum inegável interesse cultural para a história de Ovar e também para o conhecimento da herança judaica em Portugal”. (Elvira Mea, em visita a S. Vicente de Pereira, em 26 de outubro de 2012).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/02/s-vicente-de-pereira-familias-do-rexio.html

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Se o leitor conhecer algum pormenor de interesse para complementar este tema (Culto judaico em S. Vicente de Pereira), agradecemos que o comuniquem para o nosso e-mail:

16.11.18

Jornal “João Semana” em festa [no ano do centenário 1914-2014]

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2014)
TEXTO: José Castro

Quando em 1994 terminei a minha carrei­ra de 40 anos no Banco Nacional Ultramarino fui imediatamen­te “repescado” pelo meu amigo Dr. Pires Bastos para voltar a colaborar em atividades paroquiais, as quais tinham sido interrompidas alguns anos antes por motivos profissionais.
Contudo, a minha colaboração na Paróquia remonta aos anos 60, quando fui convidado pelo meu amigo João Costa para fazer parte de um C.P.M. (Centro de Preparação para o Matri­mónio), numa equipa “capitaneada” pelo particular amigo Dr. António José da Silva e os casais: Dr. Tigre, Joaquim Monteiro, Norberto Andrade, Teixeira e o organizador.
José Castro
Quando a organização das bi­lheteiras e entradas do Carnaval – bilheteiras e entradas, ficou à nossa responsabilidade, recaiu em mim centralizar as receitas e, já noite alta, na companhia do José Palhas e com a proteção de dois agentes da P.S.P., transportá-las para a casa-forte do banco, cuja gerência me confiava as chaves para o efeito, a fim de serem depositadas no dia seguinte.
Criado o Estatuto Paroquial, fui chamado por João Costa para colabo­rar com o Grupo de Apoio Paroquial na criação das comissões de rua que efetuavam as respetivas cobranças, casa a casa, no recolhimento e confe­rência dos valores entregues.
Nesta fase da minha colaboração acabei por ficar responsável pela con­tabilidade da Fábrica da Igreja, da qual dava conhecimento aos paroquianos através de um mapa mensal que fazia questão de afixar no átrio da Igreja.
Estamos em 1974, ano em que acabei o meu mandato de Presidente da Junta de Ovar (com S. João de Ovar) e que a minha carreira profissio­nal me obrigava a residir em Lisboa, dada a minha nomeação para o Quadro da Inspeção do Banco e, mais tarde, como gerente e como coordenador, acabando como responsável pela área operacional da Beira Alta, que incluía todas as agências da periferia da Serra da Estrela.
No “João Semana”
Foi por junho de 1994 que, ao saborear um café, se deu o convite do Padre Manuel Pires Bastos.
Senti-me moralmente obriga­do, dado que ia receber em mãos a “herança” que deixei ao meu amigo Armindo Godinho de Almeida quan­do, em 1979, lhe transmiti as mesmas funções.
Ainda vim a tempo da gestão do Jardim Infantil Alvorada, sobre o qual, numa próxima oportunidade voltarei a estas colunas.
Face às funções que passei a desempenhar nos últimos 20 anos, o meu relacionamento com o Sr. P.e Bastos era assíduo, dadas as várias frentes de atuação da Paróquia, prin­cipalmente nas obras da Igreja e no Infantário, que implicavam reuniões frequentes.
Foi nesta fase que observei a sua grande dedicação ao jornal, ao qual dispensava uma parte do dia, ora colhendo elementos, ora participando em reuniões ou eventos das várias agremiações/instituições para que era convidado.
A chegada do meu amigo Dr. Fer­nando Manuel Oliveira Pinto, atual Diretor-adjunto do “João Semana”, foi uma importante ajuda ao Diretor, permitindo, ao mesmo tempo, dar uma lufada de modernismo ao nosso quinzenário.
A minha colaboração no “João Semana” limitava-se a pouca “escrita” e a “emprestar” a minha assinatura na movimentação das contas bancárias, cujo cancelamento solicitei em 2013, quando completei os meus 80 anos de idade, prometendo à minha mulher dar por finda qualquer atividade social, até porque já tinha solicitado ao meu amigo Dr. Oliveira Dias a minha subs­tituição nos corpos sociais da Santa Casa da Misericórdia de Ovar, que servi durante 10 anos.
Termino desejando ao nosso jornal centenário e aos seus colaboradores muitos anos de vida.

Parabéns, “João Semana”.
Obrigado, Padre Bastos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 2014)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/11/jornal-joao-semana-em-festa-no-ano-do.html

Ovar pretende oito “freguesias autónomas”

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/2018)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 3 de outubro foi aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal de Ovar uma moção apresentada pelo PSD pedindo a desa­gregação da atual União de Freguesias de Ovar (Ovar, S. João, Arada e S. Vicente de Pereira), e voltando a ser autónomas as 8 anteriores.
Achamos que o processo que deu origem a essa agregação não foi devidamente ponderado, tanto mais que evidenciou, no tocante à freguesia de São Vicente de Pereira a lamentável atribuição do termo espúrio Jusã, que desde há anos lhe vinha sendo imposto, e que pertence, efetivamente, ao lugar com o mesmo nome, Pereira, da freguesia de Válega, que, por ficar a poente (= a jusante), recebeu o determinativo Jusã (= de Baixo), e que foi, ao longo de muitos séculos, sede de concelho e município, de que restam ainda os edifícios onde se instalavam, até 1852, a Câma­ra, a Cadeia e o Tribunal. A esse concelho pertenceu, durante longo tempo, a parte poente da freguesia de S. Vicente, que aparece também denominada, em documentos da primeira dinastia de Portugal (tem­po de Afonso III e de D. Dinis), como S. Vicente de Pereira Susã (= de Cima).
A admitir um novo (mas agora inoportuno) apêndice, S. Vicente de Pereira teria de optar por Susã, e nunca por Jusã.
Uma nova reorganização admi­nistrativa das freguesias virá facili­tar a reposição da verdade histórica, geográfica e toponímica, que desde há muito se vem reclamando, resti­tuindo e fixando o genuíno nome da freguesia – S. Vicente de Pereira –, o único que os livros paroquiais utilizaram ao longo dos séculos –, e erradicando dele um termo que só por descuido ou negligência alguns funcionários públicos lhe atribuíram quando da extinção do vizinho concelho situado na vizi­nha freguesia de Válega. Erro que, apesar de já ter sido denunciado no século XIX na obra "Portugal Antigo e Moderno", do historiador Pinho Leal, foi desacertadamen­te oficializado pelo Decreto-Lei 46.139 de 31/12/1964, e assumido pelo Ministério da Justiça, cujo Centro de identificação Civil e Militar chegou ao cúmulo de pedir ao Conservador do Registo Civil de Ovar, em 03/01/1978, para lhe indi­car “a disposição legal que atribuiu à freguesia de S. Vicente de Pereira Jusã a designação de São Vicente de Pereira”, uma vez que “pelo Boletim Oficial do Ministério da Justiça a designação da freguesia é efetivamente São Vicente de Perei­ra Jusã”. (Só por essas trocas verdadeiramente inconsistentes, a Justiça de Lisboa deu trunfos à justiça de Fafe...).
É de esperar que, finalmente, faça justiça a sério numa questão de tão clara e fácil solução.

Sítio do lugar de Pereira Susã, do tempo medieval, onde foi construída a primeira igreja
de S. Vicente de Pereira (a atual igreja foi reconstruída a cerca de 100 metros)

Da História:
Um documento de 978 refere “o porto de Sancto Vicenti de peraira”, correspondente ao topónimo local “porto de Igreja” (Port. M. H.).
Das Inquirições de D. Dinis (Li­vro 4.º f.ªs 4 e verso, e 5 de 1288: “De Parochia Sancti Vicenti de Pereyra de Sosaa: nom logar que chamam Pereyra ha hũa quinta que foi de Fernam Pereira e de seus irmaos”.

Dos dicionários:
“Susã – forma feminina de Susão. Susão – adj. ant. Que está acima. Dizia-se especialmente de algumas localidades divididas em duas partes que se distinguem pela sua posição: bairro susão e bairro jusão. Fem. susã".

Sobre o assunto, ler AQUI

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de novembro de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/11/ovar-pretende-oito-freguesias-autonomas.html

15.6.18

A Sociedade Metalúrgica Ovarense Limitada

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2017)
TEXTO: Orlando Caió

Os tornos da SMOL – orgulho da metalurgia nacional

A extinta empresa SMOL, Sociedade Metalúrgica Ovarense Limitada, fundada em 1943 pelo vareiro Manuel de Oliveira Muge, (1901-1960), abriu inicialmente como fundição de metais, e pouco tempo depois passou a executar serviços de serralharia-mecânica. Uns anos mais tarde, a empresa enveredou pela construção de máquinas industriais, que aqui em Ovar eram desenhadas e produzidas.
A empresa funcionou durante dezenas de anos na rua Dr. Manuel Arala 151, no exato local onde está o Quartel dos Bombeiros Voluntários de Ovar.

Uma das últimas imagens da empresa
de máquinas industriais SMOL. Foto de José Lopes

Na SMOL, popularmente conhecida em Ovar por “Metalúrgica”, trabalhavam bons quadros, como o encarregado geral, Sr. Alberto, que era um verdadeiro fora de série em matemática, e com o qual colaborei durante alguns meses quando da sua passagem pela empresa Fopil. A SMOL tinha operários qualificados, que trabalhavam e desempenhavam funções de chefia, como o serralheiro-ajustador Sr. Lamas, o torneiro-mecânico Sr. Manuel Fonseca e o chefe da fundição Sr. Lourenço, que foi um dos primeiros colaboradores da empresa, e que conheci nos primeiros anos da década de 1950.
Recordo os torneiros Eduardo Paiva, António Pacheco, Manuel Catarino, José Franco e Artur Santos, os serralheiros Sr. Américo, Sr. Alves e António Maria, o Sr. Azevedo e o Sabino da fundição, o Fernandes fresador, António Valente, Manuel Godinho, José Lopes e António Graça, entre outros. Infelizmente, algumas das pessoas citadas já deixaram o nosso convívio.
O autor torneando uma peça em aço,
num torno modelo TA-25 da SMOL
Foto de 1998
A empresa SMOL era como uma escola, onde se forjava a nata dos operários qualificados do ramo da metalurgia e metalo-mecânica. De lá saíam bons torneiros-mecânicos, fresadores, serralheiros-mecânicos, fundidores, mandriladores e serralheiros-ajustadores.
A maioria dos profissionais saídos da SMOL eram competentes, e não havia o receio de ingressar em qualquer empresa do ramo da metalo-mecânica, ou outro diferente ramo de atividade.
Bem mais difícil era um torneiro, serralheiro ou fresador, saído de outra empresa que não do ramo, poder singrar na SMOL. Porque na SMOL, o trabalho era diversificado e não executado em série, facto que ainda hoje se verifica em muitas empresas de outros ramos de atividade. Porque nas empresas onde o trabalho não é diversificado, é mais difícil evoluir tecnicamente na profissão.
O simples facto de se ter trabalhado na SMOL era quase como possuir um certificado de garantia para arranjar emprego. Do mesmo modo que o era para os alunos com o curso industrial tirado na Escola Infante Sagres no Porto.
Pelos anos de 1960, 1970 e parte dos anos 80, a SMOL era conhecida no País pela elevada qualidade das máquinas industriais que então produzia, especialmente tornos mecânicos e limadores-mecânicos.
Ao longo dos meus 45 anos como torneiro-mecânico de profissão, em fases diferentes, cheguei a trabalhar em tornos-mecânicos de diferentes marcas. Num da marca Cegonheira, do Jacinto Ramos, da marca Selva, num torno de origem polaca, cuja marca não me ocorre, do Eduardo Ferreirinha & Irmão, e, durante 37 anos, num torno modelo TA-25 da SMOL, de 2 metros entre pontos.
Dos tornos-mecânicos citados, nunca tive a menor dúvida em classificar como o melhor torno, na época, o TA-25 da SMOL, e por várias razões: pela estética, facilidade de adaptação aos manípulos, robustez e precisão.
O Torno modelo Apolo-25,
última criação da SMOL
Mais tarde, a SMOL lançou no mercado o torno Major-25, e por último o modelo Apolo-25. Este torno, ao tempo apetrechado com os últimos aperfeiçoamentos como por exemplo a vantagem do barramento temperado, era de facto uma excelente máquina. Pela robustez, alto rendimento e elevada precisão.
A Sociedade Metalúrgica Ovarense Lda., graças à elevada qualidade das máquinas que então produzia, foi durante dezenas de anos, em Portugal, um dos grandes orgulhos da indústria metalúrgica e metalo-mecânica.
   Depois do 25 de Abril de 1974, a empresa passou por uma ou outra fase conturbada, marcada por greves e incompreensões, tendo o seu fim chegado a 5 de Dezembro de 1984, com a venda de diversas máquinas em hasta pública.
Em boa verdade, as empresas são, de certo modo, como as pessoas: nascem, vivem e morrem. Tudo tem o seu tempo, e tudo acaba.
Resta a saudade e a memória de, quando ainda menino, ver os operários da SMOL passarem apressados, pela rua Dr. Manuel Arala. A maioria caminhando a pé, outros de bicicleta, e alguns, muito poucos, fazendo o trajeto em veículos motorizados de duas rodas, para irem pegar ao trabalho.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de junho de 2017)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/06/a-sociedade-metalurgica-ovarense_15.html

7.6.18

Capelas do Furadouro (1759-1968)

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2016)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Antecedentes – O Furadouro
O termo “Furadouro” relacionado com a costa de Ovar aparece citado documentalmente pela primeira vez em 1354, num texto relativo a Cabanões, cujo domínio se estendia “da foz do Vouga até ao Furadoiro”, numa época em que, formada a ria, as suas águas, aprisionadas, sem barra definida, abriam brechas no cordão litoral que as separava do mar[1].
A primeira Capela (oratório em madeira, 1759-1766?)
A primeira ermida, erigida em pleno areal do Furadouro, era em madeira, e teve como objetivo acolher, em 14 de Outubro de 1759, um domingo, as imagens do Senhor da Piedade e de N.ª Sr.ª do Livramento dos homens do mar, que ali chegaram em procissão vindas da Capela de Santo António, da vila de Ovar, ali celebrando a primeira Missa o respetivo Pároco, vigário João Bernardino Leite de Sousa[2]. (Por essa época não havia moradores fixos no Furadouro, e em Ovar acabavam de ser implantadas as Capelas dos Passos). Segundo uns, o pequeno templo situava-se numa zona hoje submersa pelo mar, para lá do rebentamento das águas[3]. Segundo outros, estaria implantado na mesma duna onde se veio a construir a capela seguinte, de pedra.

A 2.ª capela, de porta voltada para o mar, e a 3.ª capela, frente à marginal,
ambas flageladas e engolidas pelas vagas

A segunda Capela (“Capela velha”, 1766-1936)
Logo em 1766 foi erigida ao cimo da rua de acesso à praia (atual Avenida Central) e na duna mais ocidental da costa, uma capela de pedra e cal, qual sentinela do mar, em forma de forno, a que acoplaram, a sul, uma sacristia com a porta voltada para a praia, então povoada de algum casario constituído por palheiros e barracos de madeira que se foram estendendo, a partir dali, ao longo do areal, então muito mais extenso do que hoje. Ao longo dos anos, esta capela, dedicada ao Senhor da Piedade, tornou-se o ex-libris do Furadouro, imortalizada em postais turísticos.
Entretanto, as moradias de tábua foram sendo engolidas pelas vagas, e a própria capela, molestada pelas ondas, foi ameaçando ruína. Em 1917 ainda se celebrou ali missa pelas intenções da companha do arrais Valente[4]. Cingida, em 1935, por um anel-miradouro, imprudentemente construído em cimento armado, viria a ser derrubada pelas águas em 22/02/1939[5], com a perda da cruz de pedra com a imagem do Senhor da Piedade, acabando os seus alicerces por serem totalmente submersos em 1940[6].

A terceira Capela (“Capela nova”, 1890-1958)
Em 1887, dada a exiguidade do segundo templo e por a sua configuração não ser consensual, é iniciada uma campanha de angariação de fundos para a construção de uma nova capela dedicada a Nossa Senhora o Livramento, a qual, com ajuda camarária, viria a ser erigida ao cimo da rua O Jornal Comércio do Porto[7] (paralela à Avenida Central, do lado do norte)[8], com a entrada voltada para terra, a nascente, tendo-se realizado a sua bênção em 24 de setembro de 1890, e tendo-lhe sido instalado, em 1925, o guarda-vento antigo da capela de Santo António.
Em 1929 falava-se em construir uma esplanada entre as duas Capelas para “substituir a palheirada que corre para o sul”[9].
Esta terceira capela (da Sr.ª da Piedade), que que o autor destas linhas frequentou na década de 40, e que passou a ser flagelada pela fúria do mar a partir de 1946 (com a destruição da sacristia e a deterioração da parede sul), viria a ser demolida em 1958.

Salão de culto dominical
Em finais de 1957, devido ao avanço do mar e à degradação da capela nova, os atos de culto religioso passaram a ter lugar nas instalações da antiga fábrica de conservas “A Varina”[10], a sul da praia, edifício em madeira de 1905 (na foto), que o industrial Júlio Mateiro adquirira para apoio da colónia balnear do Centro Vidreiro do Norte de Portugal, de Oliveira de Azeméis e que foi berço do Centro de Promoção Social do Furadouro.

Quarta Capela (a Igreja atual do Furadouro, 1968)
Idealizada em 1948, com anteprojeto de 1950 do Arquiteto Januário Godinho e um primeiro projeto (edifício com cripta) de dezembro de 1958, a atual Igreja só viria a concretizar-se após um segundo projeto (sem cripta) e um terceiro aprovado em 18 de agosto de 1964, seguindo as normas litúrgicas saídas do Concílio Vaticano II, prevendo uma Igreja mais larga, sacristia e torre, um salão e uma residência para o pároco. (A primeira missa foi celebrada em 23 de junho de 1968, e não se chegaram a construir o salão e a residência).

NOTAS:
[1] Sobre a etimologia e origem do Furadouro, cf. Alberto Sousa Lamy “Monografia de Ovar”, vol. I, Lamy Laranjeira, “O Furadouro – O Povoado, O Homem e o Mar”, C.M. Ovar, 1984; “A antiga Capela do Senhor da Piedade”, Mário Miranda, “João Semana” de 1/8/1994, “Furadouro – uma terra com passado e com futuro”, Comissão de Melhoramentos do Furadouro, Ovar, 2000.
[2] Ver mais pormenores em Pinho, João Frederico Teixeira de, “Memórias e Datas para a História de Ovar”, Ovar, 1959, pág. 206.
[3] J. S, 15/03/1948.
[4] “João Semana”, 11/11/1917.
[5] O “João Semana” de 02/03/1939 relata o acontecimento. Em dezembro de 1863, foram destruídos “32 palheiros firmados na costa”, e em 1887, mais 18. Em 1912 foram 200. Lamy Laranjeira, “O Furadouro”.
[6] P.e Miguel de Oliveira “Em memória do Senhor da Piedade”, Noticias de Ovar, 9/11/1967. Ali se afirma que no novo Palácio da Justiça de Ovar há uma sugestão da antiga Capela do Furadouro.
[7] Assim denominada desde 1881, por decisão da Câmara, grata pelo apoio dado por aquele jornal às vítimas de um grande incêndio na localidade. Pelo mesmo motivo, foi dado o nome de “Bombeiros Voluntários de Ovar” à rua central. Ainda em 1891 (ano em que foi feita uma procissão de Ovar ao Furadouro por motivo de grande seca), a ligação desta com Ovar ainda era feita através de areias soltas.
[8] Em 1869 foi construída, em macadame, a estrada entre a vila e a praia, com termo frente à capela, permitindo a utilização de carruagens para passageiros.
[9] “O Povo de Ovar”, setembro de 1929.
[10] Inaugurada em maio de 1905, como sucursal de “A Varina”, de Ovar.
  
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de novembro de 2016)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/06/capelas-do-furadouro-1759-1968.html