22.2.17

A mais antiga história de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2017)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

A Trupe de Reis JOC/LOC de Ovar apresentou este ano, como primeiro número do seu programa (saudação), um texto baseado num documento histórico de Ovar datado de 28 de abril de 1026, e que vem publicado (em latim e em português) nas páginas 36, 37 e 38 da obra “Ovar na Idade Média” (C.M. Ovar, 1967) do historiador vareiro padre Miguel de Oliveira.

CLIQUE na gravura para aumentar

Do texto original reproduzimos parte da tradução portuguesa:
“Cristo. Em nome de Deus, eu Meitili, faço-te a ti, Octício carta de venda de toda a quarta parte das nossas propriedades, que possuí­mos por herança de pais e avós, na vila de Cabanões e em Muradões, sob o monte Castro de Recarei, no território da cividade de Santa Maria, junto do curso do rio Ovar (…) porque nos resgataste do cati­veiro a mim Meitili e a minha filha Guncina e nos tirastes das barcas dos Normandos, dando por nós um manto de pele de lobo, uma espada, uma camisa, três lenços, uma vaca e três moios de sal, tudo no valor de 70 módios, em presença dos próprios senhores que moravam na casa de Santa Maria da Civi­dade, Tedom, Galindes, Fernando Gonçalves e Erro Teles, e do preço nada deixaste de pagar. (…) E eu Meitili reboro por minha mão esta carta de venda, perante as testemu­nhas presentes: Ederónio, Cáceme, Erigo, David, Songemiro. Notário, o abade Vasco”.
(O Castro de Recarei situa­-se em S. Martinho da Gândara. Cássemes é o nome de um lugar de S. Vicente de Pereira. A Casa de Santa Maria da Cividade é o Castelo da Feira.)

A mais antiga história de Ovar

Voz: Este ano, em noite de Reis,
Diferente é o nosso saudar,
Trazendo à memória
A mais velha história
Da antiga terra de Ovar.

Coro: Há mil anos, em mil e vinte e seis,
Cumprindo dura sina,
Vão p’ra o mar,
De canastra e rapichéis,
Meitili e Guncina.
Noite de abril. Cobre o mar
Um céu de anil,
E num esteiro há um veleiro
Com piratas a espiar.

Trupe de Reis JOC/LOC 2017
(Foto: Fernando Pinto)
Voz: É um bando normando
Que assalta e rapina,

Coro: Que prende Meitili e Guncina.

Coro: O sol já brilha,
No veleiro há um debate
– Maravilha! – mãe e filha
Vão obter o seu resgate.

Voz: E um jovem pirata
Vendo tão bela donzela,

Coro: Suspira ficar cativo dela.

Voz: Este ano, na noite de Reis,
Diferente é o nosso saudar,
Trazendo à memória
Amais velha história
Da antiga terra de Ovar.

Coro: Há mil anos, em tarde de abril,
Finda tão dura sina,
Deixam o barco e o bando normando
Meitili e Guncina.
A um certo Octício,
Deram terras, p’ra as livrar,
Em Cabanões e Muradões,
Junto do rio Ovar.

Voz: E o bando normando
Alto preço determina

Coro: P’ra soltar Meitili e Guncina:
Uma espada,
Um manto de pele lupina,
Uma camisa, um animal
E muitos módios de sal.

Voz: Quando no esteiro há nevoeiro,
A voz do mar
Fala de um pirata a suspirar…

Letra de Manuel Pires Bastos

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/a-mais-antiga-historia-de-ovar.html

O Carnaval da minha juventude

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2017)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Depois de terminarem os festejos do Ano Novo e do cantar das trupes de Reis, Ovar prepara-se para viver o Carnaval, que é hoje um enorme cartaz de propaganda da nossa cidade, atraindo a ela muitos forasteiros e foliões. Mas nem sempre foi assim.

As cegadas
Contaram-me algumas pessoas que viveram a sua juventude nas primeiras décadas do passado século XX, que até aos anos 30 havia em Ovar, pelo Carnaval, as cegadas, uma espécie de represen­tação teatral de rua, com versos musicados a criticarem certos acontecimentos que decorreram durante o ano na nossa terra. Entre os vários factos criticados há um que não resisto a descrever, por ser atual: Trata-se da execução da estrada de Ovar a Pardilhó.
Quando os nossos antepassados necessitavam de se dirigir a esta e outras localidades vizinhas, bem como à Senhora de Entráguas, caminhavam através dos pinhais que se estendiam a partir do antigo Matadouro do Casal. Os políticos de então, sempre que havia elei­ções, prometiam ao povo que, se ganhassem, mandariam construir a estrada. Mas nunca cumpriam o prometido.
Na última metade do século passado, aquela via foi finalmente construída. Mas enquanto isso não aconteceu, nas antigas cegadas de Carnaval cantava-se ironicamente:

“A estrada de Pardilhó
Vai ser feita p’ra janeiro
Os carros vão-se arranjar
No Guilherme Serralheiro”.

A serralharia do Guilherme era na Rua Alexandre Herculano, junto ao Passo do Encontro.

Os entrudos
Embora já tivesse escrito um texto no “João Semana” de 15 de fevereiro de 2002 fazendo alusão aos precursores do Carnaval de Ovar, recordo agora como era o Carnaval da minha infância, com­posto essencialmente pelos entru­dos (hoje chamados mascarados), que desfilavam pelas ruas da vila, dando-lhes bastante alegria desde o domingo gordo até à terça-feira de Carnaval, também conhecida pelo dia do Entrudo.

Santa Camarão (vestido de guerreiro), Fernando Alçada e o seu cunhado João Costa
no desfile do domingo go
rdo de 1956, saído de S. Miguel
Fantasiavam-se usualmente enfiando uma meia na cabeça ou tapando a cara com um pano ou uma máscara, e algumas ve­zes caricaturando certas figuras públicas. Vestiam-se com roupa velha de homem ou de mulher, conforme o gosto de cada um, e alguns seguravam nas mãos placas com inscrições de piadas, muitas vezes em verso, criticando certos acontecimentos na nossa terra…
No conjunto das brincadei­ras mais hilariantes dessa época carnavalesca destacava-se a do “rabo-levar”, que consistia em colocar um rabo de pano ou de papel seguro por um alfinete nas costas do Entrudo, sem o seu co­nhecimento, provocando imenso riso a quem assistia. Por vezes, os mais jovens cantarolavam, ao lado dos mascarados: “Ó Entrudo cabeludo, sete saias de veludo”.
No passeio do lado norte da Câmara, na Praça da República, junto das antigas lojas do Teixeira e do Camarão, aglomerava-se muita gente para os ver passar, e algumas pessoas atiravam para a estrada rebuçados, que os rapazes tentavam apanhar, provocando grande confusão no trânsito.
João Salvador (João da Vareiri­nha), pai do António Salvador (Rei do Carnaval entre 1979 e 1983), era um desses habituais atiradores de rebuçados.

O corso de domingo
Entretanto, os anos foram correndo, e noutras localidades portuguesas já desfilavam cortejos carnavalescos, que estimularam al­guns conterrâneos nossos a porem também nas ruas da nossa terra um corso similar.

Carro do Bairro da Arruela (1952)

No extinto jornal “Notícias de Ovar” costumavam encontrar-se três amigos, só um dos quais, o saudoso bairrista José Maria da Graça, era de Ovar. Os outros dois, Aníbal Emanuel da Costa Rebelo e José Alves Torres Pereira, eram naturais do Porto e da Póvoa do Varzim, respetivamente.
Nas suas longas conversas, estes amigos abordavam o tema do Carnaval, admirando o entusiasmo do povo vareiro que, em grande número, se fantasiava, em grupos isolados, nos dias de Entrudo. Porque não saírem em cortejo? Com o apoio de António Coentro de Pinho, presidente da Câmara, e, posteriormente, de outros ilustres ovarenses, os três começaram a organizar o primeiro corte­jo de Carnaval, formado em S. Miguel, de onde saiu em 1952.
Nos pri­meiros anos o cortejo desfila­va apenas no domingo gor­do, com car­ros alegóricos enfeitados a cargo de comissões de pessoas dos respetivos bairros ou de empresas locais.

O Carnaval sujo
Na terça-feira de Carnaval, por volta das 17h00, com anún­cios de morteiro, dava-se início ao chamado Carnaval sujo, onde muitos dos participantes atiravam casca de arroz, serradura, farinha e outros produtos. Era no Largo Serpa Pinto, em redor do chafariz do Neptuno, que essas brincadei­ras atingiam o auge, provocando as gargalhadas de quantos a isso assistiam.
Durou poucos anos esse tipo de divertimento, passando a repetir-se na terça-feira o cortejo de domin­go, conforme acontece nos nossos dias.
O Carnaval de Ovar da minha juventude era diferente daquele a que assistimos hoje. Sem am­bições comerciais ou turísticas, não possuía escolas de samba, nem outras imi­tações bra­sileiras, que hoje atraem à nossa terra milhares de forasteiros e foliões. No entanto, em­bora fosse um Carnaval caseiro, ge­nuíno e espontâneo, também era muito alegre e divertido.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/o-carnaval-da-minha-juventude.html

8.2.17

Grupo Folclórico “As Morenitas” do Torrão de Lameiro

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2016)
TEXTO: João M. Gomes Costa

Em todas as épocas da História o Homem teve necessidade de preservar as suas raízes e tradições, necessidade essa que se torna particularmente ligada a todo o cidadão atento e com gosto pela cultura.
Sendo Portugal um país bastante rico em costumes etno-musicais, apesar da sua reduzida dimensão geográfica e populacional, teremos alguma dificuldade em compreender como conseguiu, musicalmen­te, uma linguagem original, abundante e variada, para além de toda uma imensa variedade e riqueza instrumental.
Ao longo dos tempos, cada indivíduo transmite aquilo que considera de maior interesse e valor para as gerações mais jovens. Esta transmissão, no plano individual ou no coletivo e abrangendo as mais diferentes áreas de expressão musical, surge por via oral ou pela escrita, ou por ambas, entregando ao tempo presente uma longa herança cultural.
Gallop (1988) afirma que o “ folclore Português assume a sua forma definitiva no séc. XVIII. Os alicerces em que assenta a Canção Popular Portuguesa são puramente genuínos, isto é, nasceram nas suas próprias terras natais”, e encara o nosso folclore, sob o ponto de vista recreativo, como uma imagem caracteristicamente infantil e inconsequente.
Para Lopes Graça (1988), “o Folclore mostra a verdadeira face da nossa Música Popular, um Folclore singularmente rico não só morfologicamente como, na sua essência etnográfica e sociológica, um Folclore musical em que avulta, sobretudo, a extrema diversidade temática, a enorme riqueza modal, grande potencialidade rítmica e surpreendente fertilidade polifónica”.

As Morenitas do Torrão do Lameiro
O Torrão do Lameiro insere­-se numa das zonas turísticas mais bonitas de Portugal, desfrutando, simultaneamente, da proximidade da ria, do pinhal e do mar. Situado na zona ribeirinha da ria de Aveiro, tem sido e continua a ser um autên­tico alfobre do folclore, atendendo aos jovens que desde tenra idade o integram.
O Rancho Folclórico “As Mo­renitas”, do Torrão de Lameiro, fundado em 1960, e que em 1981, seguindo indicações da Federação Portuguesa de Folclore, passou a designar-se Grupo Folclórico “As Morenitas”, pode hoje considerar­-se um representante ímpar no Folclore Português, traduzindo caraterísticas únicas, resultantes da singularidade do seu povo e da realidade piscatória.
Tendo como objetivo preservar o património Etnográfico da região, o Grupo assume-se como o fiel depositário dos usos e costumes do seu povo, preservando as suas músicas e danças, bem como as suas memórias, dando-as a conhe­cer em eventos em que costuma participar, como congressos, feiras à moda antiga e festivais nacionais e internacionais.

Grupo Folclórico “As Morenitas” do Torrão de Lameiro

O grupo folclórico Morenitas do Torrão do Lameiro realiza o seu Festival Nacional em cada ano, no mês de julho, na celebração do seu aniversário. Esta comemoração é conhecida, entre nós, como a festa da sardinha, porque ligada à nossa realidade geográfica e cultural (o mar, o pescador e as varinas), e é organizada, desde há vários anos, em conjunto com o Grupo Folcló­rico as “Varinas de Ovar”. Este ano o programa foi preenchido com atividades várias, nomeadamente, a atuação dos Grupos Folclóricos da Região do Vouga e Grupo de Danças e Cantares do Centro Social de Soutelo (Rio Tinto, Gondomar), terminando com a partilha de sar­dinha assada, grelhados e outros petiscos para todos os veraneantes na praia, com a presença do presi­dente da União de Freguesias de Ovar, São João, Arada e S. Vicente, e do representante da Federação do Folclore Português.
O Grupo Folclórico “As Mo­renitas de Ovar” também realiza, no 1.º fim de semana de agosto, o Festival Pró-Emigrante – já vai no 30.º –, uma sentida homenagem aos nossos emigrantes em férias, importantes veículos culturais das nossas terras.
Este grupo folclórico é sócio fundador da Federação Portuguesa de Folclore (1960), e filiado no INATEL, tendo já editado dois discos em vinil, uma cassete áudio e outras gravações.
Tem participado com brio e autenticidade em festas, romarias e festivais de norte a sul do país, salientando-se a participação, re­presentando o Distrito de Aveiro, em dois grandes festivais, um em Lisboa e outro no Algarve, este transmitido diretamente pela RTP. Fora de portas, salientamos a sua atuação em Festivais Internacionais na Alemanha e em Espanha.

Dados etnográficos
Fiel às suas origens, o Grupo Folclórico “As Morenitas”, cons­tituído por uma “família” de 38 a 40 elementos, comprometidos na preservação e melhoria do grupo, continua, através dos seus res­ponsáveis, a pesquisar espécimes Etnográfico/Folclóricos que re­montam de meados do séc. XIX ao início do séc. XX, apresenta trajes típicos que, de um modo genérico, se reportam à caraterização de figuras típicas da região de Ovar, representando a classe piscatória da Beira Litoral do fim do séc. XIX e início do séc. XX: Mulher de Ovar (1875 a 1895); Vendedor de Peixe (de manaias e casaco, 1845 a 1860); Varina (envergando colete vermelho cintado); Varina (de saia rodada e de cores claras, com um cordão de pontas na cinta); Par de romeiros (1870); Varina (de saia rodada de cores claras e cordão de pontas na cinta, 1860 a 1875); Casal de noivos (1870, envergando ela um chapeirão); Lavadeira (1870); Leiteira (1900); Lavradores com traje de trabalho (1990); Lavradores com traje de festa (1900); Homem das pinhas (mestre das redes de peixe, que nas horas vagas da pesca se dedicava à apanha de pinhas para vender nas padarias e às varinas e pescadores, 1900).


No séc. XX surgem as Varinas de saia até ao tornozelo, de avental comprido e de xaile chinês traçado à volta do tronco. Os pescadores usavam umas ceroulas aos quartos e camisa de xadrez, com faixa e barrete preto.
Quanto aos ins­trumentos musicais, o Grupo utiliza to­dos aqueles que, de um modo geral, são representativos do folclore e da música tradicional portugue­sa, sendo de desta­car o Cavaquinho, os Ferrinhos, o Bombo, as Concertinas e o Violão.
Do vasto repertó­rio de danças e can­tares deste Grupo, de que se realçam os Viras, destacamos: “Ó mar alto, ó mar alto”, “Olha a triste viuvinha”, “Rusga”, “Marujinho”, “Sou uma vareira”, “Quando as pombas se beijam”, “Varina de Ovar”, “Numa bandeja de prata”, “Vira vareiro”, “Vira pescador”, “Real das canas”, “Vira antigo”, “Vira flor”, “Vira real caninha”, “Vira de trempes”, “Vira do Minho” ou “Ensarilha­do”, “Caninha Verde”, “Tirana”, “Catrapuzana”, “Ó Ilda”, “Fui-me confessar”, “Escrevi teu lindo nome” e “Perdiz”.
Uma particularidade: nas suas exibições públicas há a referir que os Morenitas dançam sempre descalços, quer na areia, quer no tabelado, ou na eira.

Gratidão
As Morenitas têm sobrevivido ao longo destas décadas graças à colaboração do Museu de Ovar e às ajudas da Câmara Municipal e da União de Freguesias, e ainda ao apoio técnico da Federação Portu­guesa de Folclore.

Bibliografia:
“Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX”, Gallop, Rodney, 1980
“Canção Nacional”, Graça, Lopes, 1988
Hélder Manuel Rodrigues Gon­çalves e Paulo Nunes Gonçalves (fontes locais de informação)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de agosto de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/grupo-folclorico-as-morenitas-do-torrao.html

4.2.17

A Rainha da Cadeia

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2016)
TEXTO: Orlando Caió

Para uns era “Rainha da Cadeia”, para outros Aurorinha “Pinta-Ratos”. Este seria o apelido atribuído ao companheiro da mãe, mas o seu verdadeiro nome era apenas e só, Aurora de Jesus, natural da freguesia de Aldoar, concelho do Porto, onde nasceu às 4 horas da tarde do dia 17 de Novembro de 1894.
Foi batizada no dia 29 de Junho de 1895 com 7 meses de idade, na igreja Matriz de Ovar. Era filha ilegítima de António de Oliveira Costa, estucador, solteiro, natural da freguesia de Pedroso-Gaia e de Leopoldina de Jesus, doméstica, viúva, natural da freguesia de Granjinha de São Pedro das Águias, concelho de Tabuaço, distrito de Viseu.

Sobre a “Rainha da Cadeia” sabe-se que quando foi batizada em 1895, a mãe, Leopoldina de Jesus, vivia em Ovar na então rua do Outeiro, atual rua Dr. José Falcão, numa casa que ainda existe de rés­-do-chão e primeiro andar, situada a poucos metros da antiga churrascaria “Zé dos Canecos”. Sabe-se também que em meados da década de 1920, ainda moravam na mesma casa.
Posteriormente, mãe e filha foram morar para o lugar das Tomadias de Baixo na freguesia de Válega-Ovar, numa casa que ainda existe e tem o número 102.
Há bem poucos anos, a casa era habitada por uma senhora de idade bastante conhecida em Válega, de seu nome Maria “Caldeirada”, antiga guarda de linha da CP nas passagens de nível de Válega e de São Miguel.
Na referida casa, que ao tempo  década de 1930  era um palheiro de tábuas, viveu a Aurora com a mãe, Leopoldina, que viria a falecer no dia 22 de Janeiro de 1938, aos 84 anos de idade. Quando a mãe faleceu, a Aurora ficara só, porque o com­panheiro da mãe, que era ferroviário, já tinha falecido há alguns anos.
A Leopoldina, mãe da Aurora, por morte do companheiro recebia um pequeno subsídio mensal.
Após a morte da mãe o subsídio fora suspenso, e a Aurora entrou em depressão. Em atitude de revolta chegou a per­noitar nas escadarias dos Paços do Concelho, onde por diversas vezes na década de 1930, nas mesmas esca­darias e varanda do edifício, em anos diferentes dera vivas à República.

De Válega para a cadeia de Ovar
Para sobreviver, a Aurora dedica­-se a executar por encomenda peças de renda ou croché, como por exem­plo colchas de cama, toucas, nape­rons, cachecóis e toalhas de mesa. Anos mais tarde, na cadeia, chegou mesmo a receber raparigas de cá de Ovar como por exemplo a Rosinha Seixas, que lá iam de propósito, para a Aurora lhes ensinar a fazer renda e a bordar à mão.
A Aurora vivia com dificuldades e a depressão não ajudava. Em Vá­lega era vista a caminhar sem rumo, não só pelos pinhais, mas também a caminhar perigosamente pelo meio da via-férrea, que ficava a escassos metros do palheiro onde vivia.
Mais do que uma vez, foi a po­lícia chamada a intervir, porque ela perturbava o tráfego ferroviário. E, certo dia, a Aurora recebe ordem de prisão e dá entrada na cadeia de Ovar. Estes episódios ocorrem em 1938, ano da morte da mãe, ou durante o ano seguinte.
Cumprido o tempo de prisão, como a Aurora não tinha família e precisava de apoio, o carcereiro Fran­cisco Rocha, responsável pela cadeia entre 1934 e 1952 interfere no caso. A Aurora passa então a viver na cadeia, e nela permanece até ao fim da vida.

A antiga cadeia de Ovar
Na cadeia dispunha de um quarto e um divã só para ela, assim como liberdade total para sair à rua quando bem entendesse. Em boa verdade, a Aurora, que também ajudava nas limpezas da cadeia, era uma espécie de moça de recados dos presos, que lhe pediam para ir buscar tabaco, uma sandes ou bebida, compras que habitualmente fazia nas lojas de mercearia do Serafim da Barateira ou do Zé Rico nos Campos, levando no bolso um papel mata-borrão, com o apontamento das coisas a comprar.

“Com gente fina é outra coisa”
Nas décadas de 1950 e 1960, na segunda-feira de Páscoa, era frequen­te realizar-se em Ovar uma procissão com a presença das autoridades civis e religiosas. A procissão terminava com uma visita aos enfermos aca­mados no hospital, e aos detidos na cadeia de Ovar que, ao tempo, funcionava no Alto Saboga.
Acresce que, a cadeia que fun­cionou ao longo de sensivelmente 60 anos, foi desativada em Outubro de 1973 e seria demolida em Julho de 1975.
Nesse dia especial, em que a procissão integrava figuras de certa importância, o almoço então servido na cadeia, era substancialmente me­lhorado. E, a Aurora, com alguma graça e ironia, comentava: – “Assim, sim, com gente fina é outra coisa!”.
A Aurora, que bem conheci, era uma das fi­guras típicas mais emble­máticas de Ovar. Quando ela imponente, com o seu ar majestoso passava na rua, ninguém lhe ficava indiferente. Era uma mu­lher bonita, de fala meiga e olhar doce um tanto misterioso. Alta, cabelo louro natural, rosto branco e faces le­vemente rosadas, olhos azuis-claros, brincos compridos e porte altivo, mais parecia uma rainha!
Na década de 1950, andava eu na escola primária da Praça, e muitas vezes me cruzei com ela no Jardim dos Campos.
A “Rainha” gostava de vestir roupas de cores garridas como o ver­melho. Serena e imperturbável, lá ia ela fazer compras.
Às vezes saía à rua de chapéu ou touca de lã encarnada, outras vezes com uma flor presa no cabelo e uma fita vermelha ou amarela apanhada entre a nuca e a testa e, em determina­das ocasiões, saía para a rua com uma coroa de flores silvestres na cabeça. E daí, a origem de lhe chamarem “Rainha da Cadeia”.
Aurora de Jesus, solteira e sem profissão definida, estivera alguns meses recolhida no Asilo da Miseri­córdia de Ovar, onde viria a falecer a 1 de Setembro de 1973 aos 78 anos, vítima de acidente vascular cerebral.
Depois de aturada pesquisa em di­versos arquivos e contactos com cerca de uma dúzia de pessoas, aqui fica em traços gerais a história da circunspecta “Rainha da Cadeia”, uma das figuras populares mais interessantes de Ovar no século XX.

Antiga Cadeia, no Alto Saboga, com a procissão da visita aos enfermos e aos presos 

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de maio de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/a-rainha-da-cadeia.html

Jornal “João Semana” e o Cine-Teatro de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2016)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 9 de setembro de 1943 é publicada no “João Semana” a escritura de uma sociedade deno­minada Empresa de Melhoramentos de Ovar, Lda, constituída em 15 de julho anterior, cujo objetivo era a exploração de “cinema, teatro e quaisquer espetáculos, festas e di­versões públicas e outros negócios que a mesma Sociedade resolva explorar”.
Meses depois, em 11 de maio de 1944, crescendo o cinema em altura, sem que o “João Semana” se pronunciasse sobre o assunto, e parecendo a muitos vareiros ser isso estranho, os responsáveis pelo jor­nal vieram a público para justificar o seu silêncio e a não intervenção da Paróquia, com o texto “Varrendo a testada”, de que salientamos a se­guinte passagem: “(...) Não há que estranhar o nosso silêncio, quando outro mais alto se levanta: o das entidades oficiais que nisso tinham que intervir. Pôr embargos... Mas que embargos?, se, enquanto não fôr dada licença para tal obra ela está por natureza embargada? ou não é isto? (...)”.
Entretanto, em 1 de junho, re­gressados de um retiro em Fátima, visitaram a paróquia os Bispos do Porto, D. Agostinho de Jesus e Sousa, e de Vila Real, D. António Valente da Fonseca, este natural de Válega. Sem fazer qualquer referência ao Cine-Teatro, a notícia acrescenta que D. Agostinho, que “pela primeira vez, esteve nesta vila, admirou a grandeza e majesta­de da nossa paróquia, regressando ao Porto após uma breve paragem”.
D. Agostinho, que voltaria a Ovar em 22 de julho seguinte para ministrar o Crisma – os últimos crismas haviam sido em 1905, 1918 e 1923 –, terá manifestado tolerân­cia em relação a um ato consumado, até porque “a Igreja não pode im­pedir o progresso”. (Clique no link para ler “O Cine-Teatro que (não) temos”, texto do jornalista Fernando Pinto, publicado em 01/12/2002).

Cine-Teatro de Ovar

Inconformado com a construção do edifício, o padre Boaventura deixou Ovar em 24 de fevereiro de 1944, ao fim de oito anos de paro­quialidade exemplar, sendo logo substituído pelo padre Crispim Gomes Leite, vindo de Gondomar, onde fora Pároco e presidente da Câmara.
A fama de bom gestor nas coi­sas religiosas e civis terão sido os predicados que aconselharam a sua nomeação, no intuito de ultrapassar a crise que se instalara na sua nova paróquia, intenção a que o “João Semana” de 23 de março parece aludir ao referir, um mês depois da sua chegada: “Causou a melhor impressão e está conquistando a mais grande das simpatias a apre­sentação e ação do novo pároco de Ovar”.
Em 30/12/1944, quando da inauguração do Cine-Teatro em que o “João Semana” não pôde tomar parte (“por motivos estranhos à nossa vontade”, tal como versa a notícia) , os seus responsáveis fazem votos para que o Cinema se oriente na esteira das “tradições de trabalho, honestidade e fé do povo”.
Em 1 de março de 1945 e nos números seguintes, este periódico anunciou, com publicidade da própria empresa, que em breve seriam exibidos os filmes “O Bom Pastor” e “Fátima, terra de Fé”, com comentários muito positivos. (De imediato, a mesma empresa viria a constituir a Sociedade de Melhoramentos da Praia do Fura­douro, com o fim de dotarem Ovar com um hotel que funcionaria em 1946 o “Mar e Sol”, que substituiu uma anterior Pensão de Turismo.)
O padre Crispim partiria de Ovar em 7 de janeiro de 1952, dei­xando atrás de si uma obra notável, embora nem sempre reconhecida nos seus méritos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de agosto de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/jornal-joao-semana-e-o-cine-teatro-de.html

ADENDA -----------------------------------------

Na tarde de 9 de agosto último, o presidente da Câmara Municipal de Ovar, Salvador Malheiro, decidiu avançar para a posse adminis­trativa do prédio do Cine-Teatro de Ovar, propriedade privada, que desde há vários anos estava sem utilização por falta de condições de segurança no interior e no exterior, e que por isso está a ser demolido quando do fecho desta edição do jornal “João Semana”
Segundo o autarca, “este imóvel faz parte da história ovarense e a demolição parcial está a ser feita por um empresa qualificada, tentando­-se manter o máximo do seu património arquitetónico”. TEXTO: Jornal "João Semana" (15/08/2016)

Cine-Teatro de Ovar, dias antes de demolido
Foto:João Elvas
Momento em que as letras do Cine-Teatro de Ovar estavam a ser retiradas
por ordem da Câmara Municipal (09/08/2016)

Foto: Fernando Pinto

19.10.16

O Baldim do Furadouro

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2003)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Quem, nascido depois dos anos 40, frequenta, hoje, a zona sul da praia do Furadouro, não faz ideia nenhuma de como era a paisagem e o ambiente que se vivia naquela época por essas paragens. Antes de surgir a toponímia em vigor – parte dela atribuída em finais do séc. XIX e outra posteriormente, até aos nossos dias, com a abertura de novos arruamentos –, a zona sul da praia era denominada “o Baldim”, nome mantido numa rua actual.
Era ali que estavam instalados os armazéns dos mercantéis, nalguns dos quais se preparava e comercializava o peixe, e noutros se tratava e se expunha, para venda, o escasso, adubo natural composto por restos do pescado.
Era também naquele local que se concentrava a maior quantidade de palheiros habitados pelos pescadores, os quais chegavam a ficar quase soterrados, com areia até ao telhado, quando os ventos mais fortes a sacudiam e a arrastavam contra eles. As abegoarias, onde as companhas guardavam o gado e os apetrechos da pesca, completavam a paisagem daquela zona piscatória, praticamente vedada a veraneantes.
A Rua das Companhas (antiga zona do Baldim), ao sul da Praia, nos anos 40. Repare-se
no piso de areia e no barco da Companha ali estacionado, para se proteger das marés vivas
A praia de lazer, essa era no norte, onde se situavam as barracas dos banheiros e se pescava com menos frequência, deixando os banhistas mais libertos do incómodo dos bois enquanto puxavam as redes, e do peixe estendido no areal. Essa azáfama acontecia no sul, onde as ruas que hoje conhecemos como Mercantéis, dos Lavradores, das Companhas, etc., a partir da Avenida Tomaz Ribeiro para o lado do mar, tinham como piso a areia da praia, e ali descansavam, muitas vezes, os barcos, refugiados das marés vivas que galgavam a praia e a fustigavam com as suas águas turbulentas.
No lugar onde se encontra a casa pré-fabricada da Capitania, perto do actual Café Concha, mas um pouco mais para junto do mar, que ao tempo estava bastante afastado da costa, havia uma grande elevação de areia formada por uma duna que tinha início em frente da actual Rua dos Mercantéis e se prolongava até ao elegante chalé do Sr. Matos. Esse sítio elevado era conhecido por Alto das Praças, por ali se encontrar um armazém do peixe dum conceituado negociante de pescado conhecido por esse nome.

Como numa gare de estação, onde as pessoas descansavam e conversavam enquanto não chega o comboio, também no Alto das Praças os mercantéis e mercantelas, as peixeiras e as mulheres que trabalhavam nas lotas da sardinha sentavam-se a conversar, enquanto não avistavam no mar as calas ou arinques que indiciavam a breve chegada da rede. Havia então conversas as mais variadas!... Falava-se de tudo ali. Dos negócios do peixe, de acontecimentos trágicos, de infidelidades conjugais. E contavam-se anedotas, algumas com muito sentido de humor, que causavam gargalhadas a muita gente. Lembro-me do Sr. Mendonça, um negociante de escasso que, quando se ria, fazia-o com tal intensidade que as suas gargalhadas contagiavam todos os presentes. Era mesmo frequente ouvir-se dizer: - “Ó mulher, parece que tens as gargalhadas do Sr. Mendonça!”.
Quando se aproximava a saída do lanço, e porque as conversas não chegavam ao fim, fazia-se a despedida com um “logo na rede eu te conto o resto!...”
Os armazéns da sardinha dos mercantéis – todos no sul e perto da praia, para que o peixe acartado pelas mulheres à cabeça levasse o menor tempo possível a transportar desde a lota – estavam distribuídos pelas Ruas do Comércio, dos Mercantéis, dos Lavradores e das Companhas. Nos anos 40, dois deles postavam-se em pleno areal da praia, onde actualmente só existe mar. Eram os armazéns de Eduardo Vilas e do Soares.
Ainda mais para sul, seguindo a mesma rota, e perto da costa, ficava o lindo palheirão do Palavra, construído em cima duma duna, rodeado de chorões.
Consumados os lanços com a venda dos lotes aos mercantéis, e depois de acartado o peixe para os respectivos armazéns, ecoava naquelas redondezas da praia uma enorme vozearia, cujos sons mais pareciam uma sinfonia musical. Era o falatório dos pescadores, o pregão das peixeiras, o murmúrio do mar, o toque das campainhas ao pescoço dos bois no seu contínuo labor, o tinir dos martelos repregando as caixas com a sardinha que saía dos armazéns em laboração, os pescadores cantando o “Bendito” no arribar dos barcos, o piar das gaivotas sobrevoando as redes. Esses momentos de magia, feitos de som e beleza, ainda hoje perduram na minha memória. Como perdura o sabor das sardinhadas que se realizavam em plena Rua dos Mercantéis, ao tempo Bartolomeu Dias, toda composta de areia.
Livro à venda na Secretaria da Paróquia de Ovar
Uma grande fogueira, que mais parecia a do São João, acesa e alimentada com canastras burriqueiras e caixas velhas usadas no peixe, servia para assar as sardinhas há poucas horas saídas do mar e que agora serviam de refeição para as pessoas que trabalhavam no armazém, saboreadas de mistura com a boroa do Jerónimo do Carregal e regadas com o vinho da loja do Couto e de outras tabernas do Furadouro.
Ao recordar a praia do Sul do Furadouro dos anos 4º, apetece-me dizer como o poeta António Nobre, numa época ainda mais distante, quando, em Paris, recordava as romarias e procissões da sua pátria: “Qu’é dos pintores do meu país estranho,/ Onde estão eles que não vêm pintar?”
Hoje, quem visitar ou frequentar esta zona do Furadouro, já não distingue a praia do Sul da do Norte, porque ambas se converteram em estância balneares que, no Verão, se enchem de gente, gozando o seu belo areal. Um areal com menos poesia do que outrora, já sem bois, sem barcos, sem redes, e sem o barulho mágico que ecoava e se esvaía no ar!...

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2003)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/10/o-baldim-do-furadouro.html

3.8.16

Horácio Lopes – O Piquica

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2016)
TEXTO: Orlando Caió

Horácio "Piquica" sentado numa pipa
na rua Júlio Dinis (década de 70)
Em Ovar era conhecido por “Piquica”, termo que habitualmente pro­nunciava, mas o seu verdadeiro nome era simplesmente Horácio Lopes, nascido em Ovar a 3 de Fevereiro de 1928, na rua Rodrigues de Freitas, filho de Manuel Maria Lopes e de Ana Antónia Moreira.
O Horácio era uma humilde figura de estatura mediana, rosto moreno e quase sempre descalço, com notória dificuldade em se expressar.
O seu vocabulário era bastante pobre. Poucas eram as palavras que conseguia articular com clareza, à exceção de algumas como, por exemplo, olá, pão, água, vinho, e mais três ou quatro palavrões.
Costumava vaguear pelas tascas existentes junto à estação dos cami­nhos de ferro, pela taberna e loja de mercearia do Zé Rico, junto ao Jardim dos Campos, pelas tascas da Arruela e Praça da República. Pelo caminho ia parando e cumprimentando as raparigas com um “Olá”, e se visse alguém a fumar dirigia-se à pessoa, pedindo um cigarro.
Com alguma frequência entrava no estabelecimento de almoços, vinhos e petiscos do Manuel Mal-Casado, do Gato Preto e do João Gomes, no intuito de encontrar uma alma cari­dosa que lhe pagasse um bolinho de bacalhau, uma isca de fígado ou, com muita sorte, uma sande de bacalhau frito e um copo de vinho.
Costumava ajudar em fretes que outras figuras populares faziam, e nas décadas de 1950 e 1960, era habitual vermos passar o Horácio ajudando a empurrar um carro de mão de rodas altas conduzido por outra figura popular, concretamente o João “Pata­chão”, pela então estrada de paralelo em frente à antiga fábrica de telhas e tijolos da SIOL, onde atualmente se situa a rua de Timor.
O Horácio era um fumador in­veterado. Por vezes, na Praça da República e a pedido de alguém, para obter um cigarro entrava em parceria com outra figura típica, o Zé Luta, o qual consentia em levar um ou dois “borrachinhos” aplicados pelo “Piquica” e, logo a cena se invertia, com o Piquica a encher a boca de ar e a consentir um ou dois “borrachinhos” aplicados pelo “Zé Luta”.
Pela demonstração recebiam dois tostões cada um, dinheiro que logo era gasto em cigarros.
Finalmente, na década de 1980, alguém se lembrou do Horácio, e em boa hora decidiram interná-lo no asilo da Santa Casa da Misericórdia de Ovar.
Terminava assim um longo período de carências de toda a ordem, das quais o Horácio seria o menos culpado.
Não é sem alguma emoção que recordo esta humilde figura, que bem conheci ao longo de quase 40 anos.
Horácio Lopes, o popular “Piquica”, faleceu em Ovar, na referida instituição que o acolhera, no dia 12 de Dezembro de 1991, com 63 anos de idade.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de julho de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/08/horacio-lopes-o-piquica.html

6.7.16

Fátima na Imprensa Vareira – Há 60 anos: o “milagre do sol”

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/1977)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 13 de Outubro passado completaram-se 60 anos sobre a última das seis aparições da Cova da Iria. Entre os muitos milhares de peregrinos presentes às solenes comemorações, encontravam-se, segundo noticiou a imprensa, 30 testemunhas do célebre “milagre do sol”. Este fenómeno, ocorrido em 13/10/1917, concitou sobre Fátima, a atenção de Portugal inteiro, envolvido, então, na 1.ª Grande Guerra, e deu maior credibilidade aos acontecimentos que ali vinham ocorrendo desde 13 de Maio [1].
Por uma busca sumária que fizemos, ficou-nos a impressão de que o “João Semana”, jornal de formação católica, então com três anos de idade, foi o único periódico local a noticiar um assunto de tanto impacto popular e, mesmo assim, apenas em 28 de Outubro, 15 dias após a última aparição.
Os outros jornais vareiros de então – “A Discussão” (1895-1919), “A Pátria” (1908-1928), “O Ovarense” (1883-1921), e o “Ideal Vareiro” (1916-1918) – silenciaram, por completo, o acontecimento, decerto propositadamente, já que os ventos sócio-políticos da época eram manifestamente anticlericais, e porque as manifestações de Fátima logo foram interpretadas pelas forças republicanas como manobra reacionária.

Representação da aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos (Lúcia, Francisco e Jacinta)

Admira tanta precaução do “João Semana” em relação aos fenómenos da Cova da Iria, ao constatarmos que deu razoável e imediata cobertura a umas pretensas aparições ocorridas no lugar do Barral, São João da Vila de Chã, concelho de Ponte da Barca, em 10 e 11 de Maio de 1917, vésperas, portanto, da 1.ª aparição de Fátima [2].
Teriam as novas de Fátima tardado em chegar aqui? Teria sopesado a favor do crédito do Barral o facto de o seu caso ter vindo a público no semanário católico “A Ordem”, do Porto, de 9 de Junho imediato? Seria apenas por acatamento às reservas impostas pela Igreja relativamente aos acontecimentos de Fátima? Ou um pouco por prudência, para evitar as críticas dos detractores, escandalizados por tantas manifestações do sobrenatural?
Certo é que os responsáveis do “J. S.” só se dispuseram a quebrar o silêncio depois de todo o País ter comentado, estupefacto, o “milagre do sol” através de reportagens da grande imprensa, nomeadamente do "Século" do dia 15 imediato [3].


Em 28 de Outubro, o nosso jornal não só noticiou, finalmente, as aparições, como ainda teceu solenes considerações, prevendo para Fátima aquilo que veio a acontecer mais tarde – transformar-se em grande centro internacional de devoção mariana.
Eis o curioso texto, não assinado, por certo escrito pela redação do “Mensageiro Parochial”, de Viseu, um dos semanários que se publicavam em duplicação com o “João Semana”:

Jornal "João Semana" (28/10/1917)
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O tema volta na semana seguinte (4/11/1917), na 3.ª página, na secção "Por aqui e por alli"
Depois de duas notas abordando, respetivamente, os maus jornais e as baixas alemãs na Grande Guerra, vem uma terceira nota nos seguintes termos:
"Falla-se muito em paz. Para que esta seja em breve uma realidade consoladora, devem todos os crentes orar muito.
Já deves ter ouvido fallar, caro leitor, nas apparições de Fátima. Affirma-se que uma creanças d'aquelle logar, tiveram a graça de ver e ouvir Nossa Senhora várias vezes.
Como a Senhora lhes havia annunciado que a última apparição seria no dia 13 d'outubro, ellas assim o fizeram constar, e n'esse dia uma multidão enorme, talvez 50 000 pessoas, vindas de todos os pontos do paiz, alli se reuniu para observar o prodigio.
As creanças dizem ter visto realmente a Senhora n'esse dia e ter-lhes ella recommendado algumas coisas e annunciado o fim proximo da guerra.
Será verdade?
O nosso dever de catholicos é aguardar os acontecimentos e as decisões da auctoridade ecclesiastica."

Oito dias depois, duas locais sobre o assunto. Uma na secção "Por aqui e por alli" e outra com o título "A propósito".
Diz a primeira:
"A Associação de Registo Civil vergonha da nação portuguesa, representou ou vai representar ao Governo para que jamais consinta casos como o de Fátima. / Ó Ceus! Aqqueles demonios um dia são capazes de pedir ao Governo que mande apagar o sol para que elle não allumie nem aqueça os que crêem em Deus! Que ferocidade e que estupidez!" 

Eis parte da segunda transcrição:
“A Propósito / Ora sempre hão-de fazer o favor de nos dizer se acreditar no milagre de Fátima será coisa mais criminosa que acreditar no bacalhau a tres vinténs”. (O Governo tinha prometido esse preço, embora o bacalhau custasse oito tostões…).
Como em números anteriores, em 18/11 um anúncio convidava os leitores a comprar postais ilustrados na Rua Júlio Dinis, 33. Desta vez, porém, avisa que vendiam “alguns com os pastorinhos de Fátima a quem Nossa Senhora apareceu”.
Talvez por censura interna do jornal (de Ovar? De Viseu?), o anúncio de 23/12, em vez de “apareceu” trazia: “se diz ter aparecido”.

NOTAS
[1] – As aparições com exclusão da de Agosto, tiveram lugar nos dias 13. A de Agosto foi a 19, data aproveitada em 1977 como comemorativa da elevação de Fátima a vila.
[2] – Em 01/07/1917 noticiava o “J. S.”:


Um rapazito de dez anos, chamado Severino Alves, pastor, filho duma pobre e virtuosa viúva, é o protagonista do caso".

E segue a transcrição de “A Ordem” de 09/06/1917, em que se narra ir o pequeno pastor, em dia da Ascensão, a caminho do monte, eram cerca das 8 horas da manhã, rezando o terço, quando um relâmpago o impressionou. “Dá mais uns passos, atravessa um portelo e defronta uma Senhora, sentada, com as mãos postas, tendo o dedo maior da mão direita destacado, em determinada direção. O seu rosto era lindo como nenhum outro, toda Ela cheia de luz e esplendor, de maneira a confundir a vista, cobrindo-lhe a cabeça um manto azul, e o resto do corpo um vestido branco. Logo que o pequeno vidente A viu, caiu para o lado surpreendido com tal acontecimento. Readquirido animo, levantou-se e exclamou: “Jesus Cristo”. Nesse mesmo momento desapareceu a visão”. (…)
No dia seguinte, à mesma hora e no mesmo local encontrou a mesma Senhora. “Nesse dia o rosto da Aparição despreendia-se em sorrisos. Quando A viu caiu de joelhos e disse um pouco surpeeendido (para não dizer assustado), o que o seu pároco lhe havia aconselhado: – Quem falou ontem fale hoje. Então a Aparição com uma voz que era um misto de rir e cantar, diferente do falar de todos os mortais que tem visto, tranquilizou-o dizendo-lhe: “Não te assustes. Sou Eu, menino. E acrescentou: “Dize aos pastores do monte que rezem sempre o terço, e que os homens e mulheres cantem a Estrela do Céu. E as Mães que têm filhos lá fora, que rezem o terço, cantem a Estrela do Céu e se apeguem comigo, que hei-de acudir ao Mundo e aplacar a guerra”. (…)
Depois de observar que, com a comoção, o pequeno não mais quis voltar ao local da aparição, “A Ordem” acrescenta: “A criança, apesar da sua extrema pobreza, tem uma aparência sadia, sem aspecto e antecedentes nervosos que permitam supor que fosse uma alucinação, aliás repetida. É uma criança que é considerada na freguesia, gozando fama de verdadeira, e não mentirosa”.
E a notícia continua, explicando que a “Estrela do Céu” é uma antiga oração já esquecida naquela terra e que o povo considerava a aparição como de Nossa Senhora.
Em 8/7, 15/7 e 22/7, “J. S.” volta ao assunto, a propósito da antífona “Estrela do Céu”, e na semana seguinte (29/7) afirma que a autoridade eclesiástica iniciou o processo e que, enquanto o arcipreste local concluía pela veracidade dos factos, milhares de pessoas citavam milagres e deslocavam-se ao Barral.
O probo historiador e professor universitário P.e Avelino de Jesus Costa, que se debruçou sobre o assunto, admite a veracidade dos factos:

[3] “O Século” do próprio dia 13, em 1.ª página, anunciava: “Em pleno sobrenatural! As Aparições de Fátima / Milhares de pessoas concorrem a uma charneca nos arredores de Ourém, para verem e ouvirem a Virgem Maria”.
O jornalista Avelino de Almeida foi, como enviado especial, disposto a fazer a reportagem da aparição e, como livre pensador, ia preparado para escalpelizar o anunciado “sinal” previsto para aquele dia. Do que observou escreveu com imparcialidade, logo no dia 15, em 1ª página, um artigo intitulado: “Coisas espantosas! Como o Sol bailou ao meio dia em Fátima. As Aparições da Virgem – Em que consistiu o sinal do Céu – muitos milhares de pessoas afirmam ter-se produzido um milagre – A guerra e a paz” e uma fotografia dos três pastorinhos (a única ilustração vinda na 1.ª página), acompanhava o texto.

Em 13 de Outubro de 1917: Grupo de pessoas olhando para o céu. Gravura gentilmente cedida pela “Voz de Fátima”. Esta mesma cena veio reproduzida na “Ilustração Portuguesa” de 29/10/1917, embora apenas com as personagens do lado direito (cf. Sebastião Martins dos Reis, “Síntese crítica de Fátima”). Não foi possível constatar se algum vareiro esteve nesse dia em Fátima entre as 50 000 testemunhas do “milagre do Sol”

A “Ilustração Portuguesa”, revista de grande tiragem, apresentou em 29 de Outubro, a páginas 353-356, uma reportagem do mesmo jornalista com nada menos que onze fotografias tiradas em 13 de Outubro. Do artigo, que tinha por título “O Milagre de Fátima” (Carta a alguém que pede um testemunho insuspeito”) transcrevemos a parte final: “E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora prenunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei – disco de prata fosca – em pleno zénite, aparecer e começar dançando n’um bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfície solar… / Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi… o resto é com a Ciência e com a Igreja…”
Outras publicações, mesmo humorísticas, comentaram e glosaram as aparições de Fátima, como “O Século Cómico” (Suplemento de “O Século”) de 29/10/1917.