23.12.20

Terceiros recolhidos na Igreja Matriz de Ovar - 2020

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2020)
TEXTO: Fernando M. Oliveira Pinto

O pároco de Ovar, P.e Manuel Pires Bastos, presidindo à celebração
FOTO: Fernando Pinto

A Quaresma é uma caminhada
A procissão das Cinzas saiu pela primeira vez à rua em 1663, três anos após a fundação da Ordem Terceira de Ovar. Há 357 anos que os vareiros dão o teste­munho da sua fé, percorrendo as principais artérias da cidade. Nos últimos anos, como constatou um dos Irmãos das fraternidades que se deslocaram a Ovar para figurarem no préstito religioso, são sobretudo os velhos que teimam em não dei­xar morrer aquela que é considerada uma das mais belas procissões do país.
Como o céu de 8 de março de 2020 ameaçava chuva miudinha, a multissecular Procissão dos Ter­ceiros, organizada pela Ordem Franciscana Secular de Ovar, não saiu à rua. (Em 2010 e 2015 fez-se também dentro de portas).
"Estarmos aqui na Igreja é uma maneira de fazermos a nossa procissão interior", disse o pároco de Ovar, P.e Manuel Pires Bastos, que presidiu à celebração.


Frei Bruno - FOTO: Fernando Pinto

"Esta semana foi muito com­plicada para alguns de nós, por motivos de saúde, de falecimento de familiares. Não foi fácil, mas com a graça do Senhor e de São Francisco conseguimos ter tudo pronto para que hoje a procissão dos Terceiros se pudesse reali­zar. Como o Frei Bruno diz, só o Senhor manda no tempo, por isso, estamos à mercê do Senhor, e não da nossa própria vontade", referiu Vera Marques Cruz, Mi­nistra da Ordem Franciscana Se­cular de Ovar, no final da celebração, aproveitando para agradecer a todos os que ajudaram na montagem dos andores, aos Ir­mãos Terceiros, à Irmandade do Senhor dos Passos (que este ano está formada), às zeladoras dos andores e às fraternidades que vie­ram de fora (Gondomar, Penafiel, Vila Real, Vila do Conde, Leça da Palmeira e Braga).

Vera Marques Cruz, ministra da Ordem Terceira de Ovar
FOTO: Fernando Pinto

A Ministra da OFS deixou ainda um obrigado "ao presidente da Assembleia da Câmara Municipal de Ovar, Pedro Braga da Cruz, ao vice-presidente da CMO, Domingos Silva, aos acólitos, aos escuteiros, ao Frei Mário, que veio de Penafiel pela primeira vez a Ovar, ao Frei Bru­no, nosso assistente, que mais uma vez esteve cá, e ao Sr. Padre Bastos, porque se preocupou con­nosco durante a semana e por es­tar sempre disponível para nós.
Após a leitura própria daque­le domingo – Segunda Carta do apóstolo Paulo a Timóteo –, Bru­no Peixoto, começou por cumprimentar os Irmãos e Irmãs das fraternidades, com o habitual "Paz e Bem", dizendo que "o tem­po da Quaresma é um tempo que nos interpela à cons­ciência, à avalia­ção, ao exame pes­soal, a olharmos a nós próprios", e que a Quaresma é uma caminhada: "A Liturgia, neste 2.º Domingo da Quaresma, mos­tra-nos uma caminhada que Jesus faz, com os seus discípulos Pedro, Tiago e João, ao cimo do Monte, e Jesus Cristo caminha com eles para depois descer, e que depois terminará na caminhada do Cal­vário".


Frei Bruno - FOTO: Fernando Pinto

O frade franciscano, no seu belíssimo sermão, explicou o sentido das palavras "Penitência", "Abstinência" e "Jejum", dizendo que são o convite à conversão, à mudança de vida: "A maior parte dos Santos que estão aqui passa­ram pelo processo de Penitência, principalmente São Francisco de Assis, que vivia como um boémio e, a certa altura, deixou as coisas do mundo, voltando­-se para as coisas de Deus".
A maioria das pessoas procura viver no conforto, no comodismo, "e às vezes critica de barriga cheia", frisou Frei Bruno.
"Creio que ficamos con­tentes por saber que temos estas imagens ao dispor dos nossos olhos, muito espe­cialmente do nosso cora­ção e da nossa fé. Muitas pessoas poderão achar que já são coisas ultrapassadas, mas hoje em dia há tantas coisas que se querem e que têm pouco a ver com os nossos gos­tos. Mas nós somos cristãos, cató­licos, e não nos esqueçamos que este ano, em que refletimos sobre o dia do nosso batismo, não po­demos fugir aos nossos compro­missos. É daí que nasce a nossa vocação para levarmos uma vida seguindo os valores de Cristo, como estes Santos fizeram", disse o Pároco, voltando os rostos dos fiéis para os 14 andores que embe­lezavam a Matriz: Nossa Senhora da Conceição, S. Lúcio e San­ta Buona (“Os Bem Casados”), Santa Rosa de Viterbo, S. Fran­cisco prostrado nas silvas, Santa Margarida de Cortona, Santo Ivo, S. Roque, S. Luís Rei de França, Santa Isabel da Hungria, Santa Isabel de Portugal, Santo António de Lisboa, Santa Clara de Assis, S. Francisco abraçado a Cristo, e o Andor da Ordem Terceira.

Os andores da Ordem Terceira e de Nossa Senhora da Conceição
FOTOS: Fernando Pinto

"Os meus cumprimentos a to­dos, às autoridades e às pessoas que estiveram a represen­tar alguém que não pôde estar", disse o P.e Bastos, voltando a lembrar que a presença das crian­ças, jovens e seus pais nas procis­sões é muito importante para que estas festividades, que atraem há séculos milhares de fiéis a terras vareiras, possam ter o brilho e a dignidade de outrora. Como fri­sou Frei Bruno, no seu sermão, "ir pelas ruas da cidade é ir em ca­minhada, uns atrás dos outros, em espírito de oração, caminhando", porque "a nossa vida, toda ela, é uma peregrinação".

Página 5 da edição de 15/03/2020 do jornal "João Semana"
TEXTO e FOTOS: jornalista Fernando M. Oliveira Pinto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE MARÇO DE 2020)

3.7.20

Monumento aos Mortos da Grande Guerra

Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2020)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Há 100 anos...  A Torre e Espada, e um monumento 
Em 6 de fevereiro de 1920, a Câmara Municipal de Ovar deliberou considerar o dia 12 de fevereiro como feriado do concelho, dado ter sido um ano antes, em 12 de fevereiro de 1919, que as tropas republicanas entraram, como vencedoras, em Ovar, a caminho do Porto, depois de vencida a rebelião monárquica de Paiva Couceiro. 


Um ano depois, em 12 de fevereiro de 1920, na Câmara Municipal, um grupo de ovarenses residentes em Lisboa entregou uma bandeira do município com as insígnias da Torre e Espada pouco antes atribuídas pelo Governo ao município de Ovar, e o general Mouzinho de Albuquerque colocou ao peito do Capitão Zeferino Camossa, Comandante do 3.º Batalhão de Infantaria de Ovar, o Colar da Torre e Espada, que lhe fora atribuído pela sua ação patriótica quando da referida rebelião couceirista, e que os amigos lhe ofereceram. 


Esta exaltação patriótica deu azo a que a Câmara, em sua sessão de 15 de julho seguinte – precisamente há cem anos –, decidisse levantar um monumento de homenagem aos militares de Ovar que morreram na Grande Guerra de 1914-1918, monumento cuja primeira pedra seria lançada a 19 de abril de 1925, e que viria a ser inaugurado em 3 de maio seguinte, no então Largo Dr. Francisco Zagalo, hoje Largo dos Combatentes. 


Evocação do Centenário da Grande Guerra 
1914-1918 
Homenagem ao Combatente Português 
Mortos do Concelho de Ovar 

Alferes
- Aníbal Marques Barbosa
Sargento
- Alonso de Araújo de Oliveira Cardoso
Cabos 
- João Albano de Pinho Campos
- Manoel Pereira dos Reis 
- Manuel Joaquim Pereira da Silva 
Soldados 
- João Albano de Pinho Campos 
- Augusto d’Oliveira Amaro 
- José Francisco do Bem 
- António Francisco de Oliveira 
- José Maria Pereira de Mendonça 
- José Joaquim dos Reis 
- António Joaquim Chibante 
- Fortunato Alves 
- Manoel Dias Borges 
- Óscar de Oliveira 
- Arnaldo da Silva Castro 
- José Maria Pereira de Rezende 
- Joaquim d’Oliveira Félix 
- António José d’Almeida 

“O Povo de Ovar”, 8/12/1918 


Dos que perderam a vida no campo de batalha, a Pátria gravou-lhes o nome em monumentos evocativos que perdurarão pelos anos fora. A outros ter-lhes-á agradecido com o reconhecimento do seu heroísmo que, pelo menos, deixou Portugal mais respeitado à face das nações. 





Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE JULHO DE 2020)

18.10.19

A primeira escultura do Imaculado Coração de Maria está em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 2004, numa consulta ocasional ao jornal “João Sema­na”, encontrámos, na edição de 25/07/1946, uma notícia surpre­endente: que a imagem do Imacu­lado Coração de Maria da Igreja Matriz de Ovar foi a primeira que se esculturou em Portugal, seguindo indicações de Lúcia, vi­dente de Fátima[1].
Logo nos questionámos: – Será possível ter Ovar o privilégio de guardar tal tesouro? E desde então decidimos conhecer a sua história, tão encantadora e apai­xonante quanto desconhecida[2].

FOTO do jornalista Fernando Pinto

A Imagem vai a Fátima
Porque em 2020 se comemora o Centenário da primeira imagem de Nossa Senhora de Fátima (da Capelinha), e porque o Santuá­rio entendeu incluir no respetivo programa festivo uma grande ex­posição de imagens e de objetos artísticos ligados às Aparições, esteve em Ovar, no passado dia 5, o Dr. Marco Daniel Duarte, res­ponsável pela referida exposição, com o fim de solicitar à Paróquia, em nome do Reitor do Santuário, o empréstimo da imagem do Ima­culado Coração de Maria, exem­plar único, que o jornal “João Semana” noticiou como sendo a primeira desse título, e que, ofi­ciosamente, se considerou como “desaparecida” até dela termos conhecimento na referida edição deste jornal.

O início da história
Em dezembro de 1943, após aturados ensaios coordenados pelas Religiosas do Sagrado Co­ração de Maria, com a ajuda da Irmã Lúcia, foi aprovado pelos senhores Cardeal Patriarca e Bis­po de Leiria o estudo definitivo para reproduzir uma imagem do Imaculado Coração de Maria, para presidir aos seus colégios, cumprindo-se um propósito for­mulado por aquelas Irmãs em se­tembro do ano anterior, após um retiro em Fátima.
Chamado a Lisboa, o escultor José Ferreira Thedim não pôde corresponder à tarefa que as Irmãs lhe propuseram, por se ter com­prometido com o Bispo de Leiria a executar a Imagem Peregrina, o que levou as Irmãs a consultarem outros artistas.

A prova final em Ovar
Enquanto em Lisboa, impa­cientes, as Religiosas encontra­vam solução para servirem os seus colégios, em Ovar também fermentava a ideia de possuir uma imagem com a nova invocação.
Já em 09/04/1940 o “João Se­mana” elucidava: “A devoção dos primeiros sábados tem a sua ori­gem numa aparição à vidente de Fátima, Lúcia”; e em 02/12/1943 explicava que essa devoção fora incentivada pelo livro "Jacinta", do Padre José Galamba de Olivei­ra, inspirado nas "Memórias" de Lúcia, recentemente publicadas.

O Bispo D. Agostinho, tendo, à sua direita o padre Crispim, e à sua esquerda, 
o padre Ribeiro de Araújo, com o Clero de Ovar nas soleníssima festas de 06/07/1944,
em que o concelho de Ovar foi consagrado aos Corações de Jesus e de Maria
FOTO: Arquivo do jornal "JOÃO SEMANA"

Em 06/07/1944 o mesmo pe­riódico daria conta de que nas soleníssimas festas da vila e do padroeiro São Cristóvão, o con­celho de Ovar foi consagrado aos Corações de Jesus e de Maria na varanda da Câmara Municipal.
Entretanto, em março de 1944, com a chegada de novo pároco, padre Crispim Gomes Leite, e por sugestão sua, a Arquiconfraria do Imaculado Coração de Maria, de acordo com a autoridade diocesa­na, decidiu em Assembleia Geral de 23 de maio destinar a verba de 3.500$00, resultante de uma deliberação consensual a respei­to de uma pendência familiar, “à compra duma nova imagem, que representava as duas invocações conjuntamente – de Nossa Senho­ra de Fátima e Imaculado Cora­ção de Maria –, de harmonia com as revelações da Virgem Santíssi­ma aos pastorinhos em Fátima”.
Aprovada aquela decisão, tudo indica que o Pároco tenha consultado as casas da especiali­dade, escolhendo a Casa França para encomendar a imagem, cuja feitura foi sendo retardada devido à sua singular figuração[3].
Baseando-nos no relaciona­mento pessoal e comercial da Casa França com José Ferreira Thedim, e dado que já havia a estampa elaborada pelas Irmãs do Coração de Maria com a co­laboração da vidente Lúcia, achamos lógico que, para produ­zir a imagem tenha sido escolhida aquela firma, de que fazia parte o escultor Albano França[4].

"França, Esculp Porto - 1946"
FOTO: jornalista Fernando Pinto

Em 08/06/1946 chegou o des­pacho do Bispo D. Agostinho de Jesus e Sousa, autorizando "a substituição da antiga imagem do Sagrado Coração de Maria por uma outra, maior e melhor, que concentra as duas devoções na mesma imagem: Senhora de Fátima e Imaculado Coração de Maria, segundo a vidente de Fáti­ma", imagem que, depois de pin­tada por José Gomes Fernandes, de Sequeira, Caldas (Braga), veio para Ovar, onde desde há dois anos era desejada.

"José Gomes Fernandes (Pintor) Freguesia-Sequeira - Caldas - Braga"
FOTO: jornalista Fernando Pinto

Em 25/07/1946, o “João Se­mana” dava, desta forma, a notí­cia da sua chegada a Ovar:
“A nova imagem do Imaculado Coração de Ma­ria, a primeira que em Portu­gal se escultu­rou, segundo as indicações da vidente de Fáti­ma[5], e que foi oferecida por uma família de­vota desta vila, foi transportada em procissão, no dia 12, da capela de Santo António para a Igreja, onde ficou exposta à veneração dos fiéis. 
No trajeto estacionou em frente dos Paços do Concelho, onde foi coro­ada no meio de vivas, palmas, hossanas e cânticos, estralejar de foguetes e repique fes­tivo dos sinos”[6].


“A mão direita mais à altura do ombro como que refletindo, ao mesmo tempo, para os assistentes.
Do lado esquerdo, o manto caindo menos para diante. O coração com os espinhos à volta. 
Nem o cora­ção, nem as mãos, nem a imagem tinha raios, era luz, reflexo”.

Da carta que Lúcia enviou com a indicação das correções a fazer
no esboço (à esquerda) e que se encontram na imagem de Ovar (à direita)
FOTO n.º 2: jornalista Fernando Pinto


O silêncio na história
Apesar do evidente entusias­mo manifestado em Ovar nas comemorações do Tricentenário da Padroeira (1946), terá passado despercebida à comunidade lo­cal a singular importância deste “tesouro”. Esta postura reflete-se na ausência de referências a seu respeito no livro de atas da Ar­quiconfraria, inclusive quando da sua compra e da sua entrada so­lene em Ovar, em 12 de julho de 1946, e utilizando no seu nome, indistintamente, os termos Con­fraria e Arquiconfraria e Sagrado ou Imaculado.
O próprio "João Semana" não fez qualquer alusão ao escultor e às caraterísticas físicas ou estéti­cas da imagem, e também nem sempre teve na devida conta o nome exato da Arquiconfraria quando noticiava as suas festas anuais.
O silêncio que se abateu sobre este assunto foi de tal sorte que, em 1969, passados 23 anos, o Reitor do Santuário, Monsenhor Antunes Borges, deixou escrito: “Longa foi a expectativa, não chegando a aparecer aquela pri­meira imagem que devia servir de modelo para todas as outras"[7].

FOTO: jornalista Fernando Pinto

Esta conclusão, que em 2004 constatámos ser errada, terá con­tribuído para a desvalorização da origem da imagem de Ovar, e a passividade dos investigadores de Fátima levou a opinião públi­ca a aceitar a imagem do Carme­lo de Coimbra, de 1949, como a primeira do seu título, quando o próprio escultor, José Ferreira Thedim, em entrevista que deu em 1958 à jornalista brasileira Regina Helena de Paiva Ramos [jornal "A Gazeta" de São Paulo, de 5 de março de 1958], afirmou ter sido esse seu trabalho artístico iniciado após o regres­so da Irmã Lúcia a Portugal, o que aconteceu em maio de 1946, altura em que a imagem de Ovar recebia, no Porto, os últimos re­toques, sem que Lúcia, que tanto se empenhara na sua conceção, e que vivia perto (no Colégio do Sardão), jamais viesse a ter co­nhecimento dela. 

Irmã Lúcia junto à maqueta do Imaculado
 Coração de Maria, imagem que foi executada
e lhe oferecida por José Ferreira Thedim
(1948/49)


NOTAS:
[1] Jornal “João Semana”, 25/07/1946: “Tricentenário da Pa­droeira”, pág. 3.
[2] Bastos, Manuel Pires, “Ovar no culto de Fátima – Uma imagem histórica na Igreja Matriz de Ovar”, em “João Semana” de 01/07/2005, sítio http://artigosjornaljoaosema­na.blogspot.pt, e “Dunas – Temas e Perspetivas”, ano VI, 2006, págs. 59-106, “O culto de Fátima em Ovar”, textos que em 2014 e 2016 foram objeto de atualizações.
[3] Pouco tempo antes, a Casa França fornecera uma imagem de Nossa Senhora do Parto, titular da Capela dos Campos, Ovar.
[4] Albano França foi o autor dos dois anjos que encimam a fa­chada da Basílica de Fátima.
[5] Em 1943, na última colabo­ração, fez correções relacionadas com “a mão à altura do ombro”, os espinhos à volta do coração e o recuar do manto, como se vê na imagem de Ovar.
[6] Foi esta notícia que nos levou à descoberta de pontos de convergência entre esta “primeira imagem” do Imaculado Coração de Maria e a que o Reitor de Fá­tima em 1969 dava como “desapa­recida”.
[7] Borges, Antunes, “Como surgiu a primeira imagem do Ima­culado Coração de Maria”, em “Fá­tima 50”, ano II, 1969, n.º 23.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE OUTUBRO DE 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/10/a-primeira-escultura-do-imaculado.html

16.8.19

Alfredo Rodrigues de Pinho – O vareiro do vinho “Rainha Santa”

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Alfredo Rodrigues de Pinho. Um nome nitidamente vareiro, que o nosso biografado só terá assumi­do, assim completo, anos depois do seu nascimento.
De facto, no registo de casa­mento com Margarida Ferreira de Pinho, celebrado na Igreja de Ovar em 9 de outubro de 1892, declara-se que fora exposto e batizado no Ora­tório do Hospital dos expostos do Porto[1], que foi criado "de leite e secco" em Espargo (Feira) pela ama Eufrásia Maria da Conceição, mu­lher de Manuel Dias de Sá, pedreiro, e a partir dos 7 anos, em Ovar, na companhia de Francisco Rodrigues de Pinho, e de Teresa de Oliveira, pescadores, da Rua do Lamarão, de quem adotou os sobrenomes e que lhe deram rumo como fragateiro.


Rodrigues Pinho & Cia.
Alfredo Rodrigues de Pinho e Margarida Ferreira de Pinho cria­ram, em 1891, a firma Rodrigues Pi­nho & Cia., destinada à exploração, comércio e exportação de Vinho do Porto[2], firma que viria a alcançar extraordinário êxito, particularmen­te com o afamado Porto Rainha Santa (na foto, em baixo). Com a redução dos apelidos Rodrigues Pinho, terá ha­vido a intenção de se demarcar de outros Rodrigues de Pinho de Ovar.

"Incalculáveis sacrifícios"
Porque um terceiro sócio, João Pereira de Carvalho, entretanto integrado na sociedade, dela se re­tirou em 1908, Rodrigues Pinho associou-se a António Fortunato de Almeida Brandão e a José Pacheco Polónia, iniciando, como Comissão Instaladora, a “Nova Companhia de Vinhos Finos do Douro”, que conti­nuou o negócio da Casa Rodrigues Pinho & Cia., tendo como diretor técnico o próprio Alfredo, e sendo a maior parte do capital constituído pela aquisição de todo o ativo da so­ciedade anterior.
Alguns desencontros (1909-1919) levaram Alfredo Rodrigues de Pinho a abandonar a nova Com­panhia, mas continuando a pedir registo de marcas Rodrigues Pinho, Lda., para que, após a sua morte, e não tendo descendentes, “não desa­parecesse uma casa que lhe havia custado incalculáveis sacrifícios”[3].
Em 1931, depois de ter compra­do o ativo e o passivo da antiga casa Rodrigues Pinho, com armazém na Rua Senhor d’Além 3 – 7, e tendo apenas como sócia a sua esposa, deixou de ter intervenção direta na sociedade, constituindo seus procu­radores, com excecionais poderes, Manuel Simões Júnior e Alfredo Gomes da Costa.


Tendo Alfredo Rodrigues de Pi­nho falecido em 6 de julho de 1947, com 77 anos de idade, em Ovar, na Rua Associação Desportiva Ovaren­se, onde vivia com a esposa, ficou esta como única herdeira e sócia maioritária de “uma sociedade co­mercial em nome coletivo de res­ponsabilidade solidária e ilimitada”, que passou a contar quatro sócios: a viúva, a sua sobrinha Teresa Rodri­gues Pinho e Costa, o marido desta, Alfredo Gomes da Costa, e António Rodrigues Sampaio[4].
Em 1949 António Rodrigues Sampaio cede parte da sua quota a Hermenerico Pinho da Costa, filho de Teresa Rodrigues Pi­nho e Costa e de Alfredo Go­mes da Costa.

A caminho da desagregação
Em 1950, por morte de Margarida Rodrigues Ferreira de Pinho[5], e com reintegra­ção de capital, Alfredo Gomes da Costa passou a sócio maio­ritário, seguido de António Rodrigues Sampaio, Herme­nerico e Teresa Rodrigues Pi­nho e Costa.
Em 1956 Hermenerico divide a sua quota com os ir­mãos Alfredo Pinho da Costa e António Pinho da Costa; em 1958 António Rodrigues Sampaio vende a sua aos restantes sócios, abandonando a firma; em 1966 Hermenerico cede parte da sua quota à irmã Maria Teresa Pinho da Costa Oliveira Duarte; e em 1974 Alfredo Gomes da Costa e Teresa Rodrigues Pinho e Costa cedem as quotas aos quatro filhos (Hermene­rico, Maria Teresa, Alfredo e Antó­nio Pinho da Costa), agora únicos sócios da empresa com o património de 5.000.000$00 (em 1917 era de 200.00$00, em 1947 560.000$00).
A estrutura do Rainha Santa foi­-se desgastando até à “solução fi­nal”, com a reorganização do grupo Martini, de que em 1988 faziam par­te a Forrester e a Rodrigues Pinho, e com a fusão deste naquele grupo (1991), sendo anulado o registo Ro­drigues Pinho & Cia. como exporta­dor, e passando os seus stocks para a Forrester & Cia. Lda.

Na vida social vareira
O “Rodrigues Pinho do Vi­nho Rainha Santa”, cognome pelo qual era referenciado em Ovar, foi um grande amigo desta terra, que reconhecia como sua, possuindo um pequeno chalé no Furadouro, praia que frequentava no Verão.
O vareirismo de Rodrigues Pi­nho ficou bem patente no legado de 300.00$00 à Santa Casa da Mi­sericórdia de Ovar (cativo de sua esposa, enquanto viva), provando que este homem, que poderia ter passado pela terra incógnito e hu­milhado, soube elevar-se, firme e bem ereto, no inseguro pedestal que lhe ofereceram à nascença.
Parece-nos, no entanto, que Ovar ainda não reconheceu de­vidamente a trajetória empreen­dedora deste vareiro, particular­mente naquela faceta que sempre andou colada ao seu perfil e ao Porto, e, por simpatia, a Ovar e ao Furadouro: o vinho Porto Rainha Santa.
A notória indiferença desde há muito tributada pela sociedade ovarense à sua memória poderá explicar a razão estranha de o seu nome benquisto não constar se­quer na bibliografia ovarense, em­bora presente em algumas notícias e em reclames dos periódicos da época.

NOTAS:
[1] Livro de Casamentos da Paró­quia de Ovar (São Cristóvão), ano de 1892, n.º 85. Testemunhas: o P.e Fran­cisco Valente Lopes e o sacristão Fran­cisco dos Santos Adrião, casado, da rua da Fonte. O assento de óbito em Ovar (1947) refere que o nome Alfredo cor­responde ao pedido deixado junto da criança na "roda do Porto".
[2] A memória da casa regista 1895 como início da atividade
[3] Ver, na Internet, Arquivos do Arquivo Histórico A.A.F: O Caso de Rodrigues Pinho & Cia.”, por Marlene Cruz e Paula Montes Real.
[4] Este António Rodrigues Sam­paio poderá ser familiar de Francisco de Oliveira Granja (1891-1981) de alcunha Chico Sampaio ou Chico da Margarida, casado com Maria Olivei­ra Alegre (1892-1980), do Lamarão, Ovar, mestre de pesca em Matosinhos. Ver Manuel D. Alegre Almeida e Silva, "Foi assim que foram" vol. II, pág. 372.
[5] Falecida na Rua Cândido dos Reis, Vila Nova de Gaia, com fama de benemerente, em 26 de janeiro de 1950, com 79 anos, filha legítima de Manuel José Oliveira Granja e de Rosa Rodrigues Ferreira, pescadores, da Rua da Oliveirinha, Ovar, e aqui sepultada (Assento n.º 85)

Para este estudo, que há mui­tos anos me foi sugerido por Fátima Granja, e que merece ser continuado, deram o seu contributo os seguintes colaboradores do "João Semana": jornalista Fernando Pinto, Joaquim Fidalgo, António Valente e engenhei­ro Manuel Alegre. (TEXTO do padre Manuel Pires Bastos).

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História de vida vivida
Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2019)
TEXTO: Fátima Granja

Alfredo Rodrigues Pinho era varei­ro, casado com Margarida Ferreira de Pinho, não tendo filhos. Tinham ape­nas seis sobrinhos, um dos quais era o meu avô, que tinha o mesmo nome do pai, Francisco de Oliveira Granja.
O tio Alfredo pensou ser vinhateiro, e foi para Gaia, onde abriu umas caves em 1895. Com o seu Vinho do Porto, a que deu o nome de “Rainha Santa”, e que era muito vendido em Portugal e no estrangeiro, construiu uma grande fortuna. Os atuais sobrinhos são de 3.ª geração, sendo eu, com 75 anos, sua sobrinha neta, a re­sidir na Rua Dr. José Falcão, depois de ter vivido no Lamarão, com loja aberta, onde não faltava o vinho “Rainha Santa”.
Tive outra familiar no Porto, Teresa, irmã mais nova de meu avô Francisco de Oliveira Granja, que teve três filhos, na zona da Boavista.

Fátima Granja (*)

Tal como o meu tio Alfredo, uma sobrinha e um sobrinho não tinham filhos. Meu tio morreu em 1947, era eu muito pequenina, pois tinha três anos. Conheci-o só por uma fotografia existente no seu mausoléu privativo do Cemitério de Ovar. (Foto, em cima. A da esposa está gasta).
Porque o tio Alfredo foi benemérito da Santa Casa da Miseri­córdia, a quem deixou 300 contos, sempre pensei, desde que tive idade para pensar na vida, que o tio fez bem, pois a Santa Casa precisava de ajuda. Era uma altura má, e ali se criavam muitos meninos e meninas, porque os pais tinham muitas dificuldades.
Toda esta história de vida me foi contada pelo meu pai, que con­viveu muito com o tio avô, o tio Alfredo, que não esqueceu os seus sobrinhos, deixando uma quantia em dinheiro – não sei quanto – a cada um.
O que também sei é que as caves passaram para o nome da sua sobrinha mais nova, uma Teresa, irmã do meu avô, Francisco de Oliveira Granja. Alfredo Rodrigues Pinho construiu uma grande fortuna, e a sua firma, teve, mais tarde, outros sócios. Os meus pri­mos, que eram três, ficaram sozinhos.
Consegui estas informações através de algumas pesquisas junto de uma pessoa amiga de Ovar, a quem agradeço.
Eu gosto de lembrar os meus antepassados, porque são um pou­co de mim, por pertencerem às minhas raízes. Todos os que crescem na vida e que vivem por bem não devem ser esquecidos. Eu penso nos meus amigos, e gostava de saber mais sobre os meus avós e bisavós do lado do meu pai, de quem nem sei os nomes. Do lado da minha mãe ainda conheci alguns. Agora o que desejo é que eles estejam no caminho do Senhor, e que os homens de sucesso nunca sejam esquecidos.

(*) Fátima Granja é bisneta de Manuel José de Oliveira Granja, 
sogro de Alfredo Rodrigues de Pinho)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE AGOSTO DE 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/08/alfredo-rodrigues-de-pinho-o-vareiro-do.html