22.2.12

Colégios da Estação de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2007)
Isabel Almeida Ferreira
TEXTO: Isabel Almeida Ferreira

Da Dr.ª Isabel Almeida Ferreira, ilustre vareira residente na Póvoa do Varzim e sempre atenta às notícias da sua terra natal, recebemos uma amável carta com achegas ao artigo intitulado “Colégios da Estação de Ovar”, assinado pelo P.e Pinho Nunes e publicado na edição de 1 de Abril de 2007. [Ler artigo em baixo]
Com o seu escrito, a Dr.ª Isabel Ferreira pretende “rectificar um detalhe (de pouca monta) em nome apenas do rigor histórico da informação, e acrescentar algo que no artigo não vem referido”.

Estado actual do antigo Colégio Júlio Diniz, no Largo da Estação, Ovar
O edifício onde funcionou o Clégio de N.ª Sr.ª da Esperança e depois uma fábrica de confecções pertenceu ao meu avô paterno, cujo nome completo era José António Rodrigues de Almeida, conhecido, sim, por “Almeida dos Vinhos” (porque negociava e era proprietário de um armazém de vinhos, contíguo ao Colégio). O meu avô nasceu em Maceda, e vivia em Ovar, num casarão de esquina, que ele comprou ao Padre Luzio, rente à passagem de nível da linha-férrea, em direcção a S. João de Ovar. Além do negócio dos vinhos, o meu avô tinha também a Agência de Viagens Almeida, onde hoje se encontra a Agência Delmar (aliás, a ele comprado pelo Sr. Delmar).
Em Válega, vivia o irmão do meu avô, Manuel Rodrigues de Almeida, seu sócio dos vinhos, e também nascido em Maceda.
No tempo em que frequentei o Colégio (entre 1958 e 1962) ele era um estabelecimento de ensino exclusivamente feminino. Os rapazes frequentavam o Colégio Júlio Diniz, instalado num grande edifício frente à estação de Caminhos-de-ferro, este edifício pertencia ao meu avô materno, Manuel Ferreira Soares, juntamente com mais dois sócios (a sociedade era conhecida por Soares Amaral & Cia.) que tinham um comércio de material de construção civil, precisamente onde se encontra hoje a “Casa Coutinho”.
Na altura, eu era uma adolescente com fantasias e vaidades, como todas as adolescentes, e achava interessante ter um avô “dono” do Colégio das meninas”, e o outro avô “dono” do Colégio dos rapazes. Isto não me fazia nem melhor nem pior do que as outras. Apenas apresenta-se-me como um saudável “despique” entre os meus dois queridos e saudosos avós, e eu entre eles, a não atinar com qual dos dois colégios era o mais “bonito”.
Colégio Júlio Diniz (Largo da Estação, Ovar)


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2007)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 154)

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Colégios da Estação de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/04/2007)
TEXTO: A. Pinho Nunes

Pode chamar-se-lhes assim. De facto, estão naquela área, um a Norte e outro a Sul.
O Dr. A. Lamy refere-se a este estabelecimento de ensino, bem como aos demais que existiam em Ovar, nos 2.º e 3.º vols. da “Monografia de Ovar” e no livro “Datas da História de Ovar”.
O Colégio Júlio Dinis esteve instalado num grande edifício frente à Estação, da parte Norte. Na esquina do prédio está a “Casa Coutinho”. É curioso notar que, do nome do colégio, pintado na fachada, resta apenas o nome “Diniz”.
Antigo colégio de N.ª Sr.ª da Esperança (Ovar)
A sul do edifício da Estação, frente à gare, está o prédio em que funcionou o Colégio de N.ª Sr.ª da Esperança. Antes que se apague totalmente o que está escrito na fachada, aqui fica o registo fotográfico. Assim, do lado direito da varanda, lê-se: “Para Meninas e Rapazes”, do lado esquerdo “Confecções”, por baixo da varanda: “Formação de Nossa Senhora da Esperança” (por cima teria “Colégio”). Funcionou aí uma fábrica de confecções, depois do Colégio. O edifício pertencia a António Rodrigues de Almeida, mais conhecido por “Almeida dos Vinhos”, de Válega, proprietário de um armazém de vinhos contíguo.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Abril de 2007)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 153)

12.2.12

Recordando o Dr. Mário Cunha – Um grande médico e um grande humanista

Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2005
Dr. Mário Cunha
TEXTO: José Oliveira Neves

O Dr. Mário – assim era conhecido entre nós – faz parte de uma geração de prestantes médicos da nossa cidade, numa época em que raramente um doente era tratado no hospital. (Só o era quando tivesse de submeter-se a uma cirurgia ou fosse portador de doença grave).
Médico distinto, o Dr. Cunha exerceu com humanidade a sua profissão, nunca se esquivando a ir a casa de alguém sempre que para isso a sua presença fosse solicitada, só não o fazendo por falta de saúde ou por outro motivo de força maior. (Algumas vezes veio a minha casa – próximo da sua – e às dos meus familiares a altas horas da noite, apenas vestido com um pijama e um roupão sobreposto).
Verdadeiro “médico de família”, não só tratava o doente como dialogava com ele, preocupando-se com a sua saúde.

Homem abnegado e crente

Um dia, minha mulher sentiu-se mal, e eu chamei-o a minha casa. O Dr. Mário examinou-a, receitou e despediu-se de nós. Por volta da meia-noite, quando todos dormíamos, fomos acordados por alguém a bater nos vidros da janela da rua. Levantei-me, e qual não foi o meu espanto ao ver o senhor Doutor a perguntar como estava a reagir a doente. Mandei-o entrar, e ele, depois de a ver de novo e de verificar as suas melhoras, retirou-se com um até amanhã, como alguém que se vai deitar com a consciência do dever cumprido.
Este gesto, a par de muitos outros similares demonstra bem a grandeza moral do homem e do médico que foi o Dr. Cunha, a quem, devido a este espírito humanista, alguém comparou ao Dr. João Semana.
Era um católico praticante. Encontrava-o algumas vezes na missa e via-o passar, incorporado na procissão dos Terceiros, com o seu hábito de franciscano, Ordem a que pertencia. No entanto, só fiquei a conhecer melhor a sua convicção religiosa quando, em Setembro de 1987, a convite do nosso saudoso amigo Sr. Delmar, eu e a minha mulher passámos férias na aldeia das Açoteias, no Algarve, onde o Sr. Dr. Mário possuía uma casa de férias e onde com ele convivemos durante quinze dias.
Foi um tempo inesquecível. Num Domingo, fomos todos à missa à igreja de Quarteira, e na segunda-feira fizemos praia na Falésia. Nesse dia, e como era habitual, o médico fazia a sua caminhada pela beira-mar. Durante o percurso, virou-se para mim, e disse: “– Ó Zé, tu ontem, na missa, sabias responder ao padre quando era preciso. Por isso, também deves saber rezar o terço! Enquanto caminhamos, vamos rezando! E assim fizemos! Lá seguimos o nosso caminho, a rezar um com o outro, beneficiados pelo regalo de uma maravilhosa brisa marítima… Isto demonstra bem a sua grande fé, confirmada por muitos dos seus doentes.

Uma história, entre tantas...

Ouvi dele também muitas histórias reais, que aconteceram ao longo dos anos na sua actividade profissional, algumas das quais hilariantes…
Refiro apenas uma delas, que ilustra bem essa faceta.
Uma paciente, de nome Rosa, já de provecta idade, vivia só, numa mansarda sem luz eléctrica, alumiada por um candeeiro de petróleo suspenso, a pouca altura, por um cadeado, no meio da sala, e por uma lamparina de azeite que servia também para alumiar um oratório.
Um dia, adoecendo, mandou chamar o Dr. Mário. Deixando a porta da rua encostada, meteu-se na cama e esperou pelo médico. Quando este chegou, empurrou a porta e perguntou:
 Posso entrar, Tia Rosa?
 Pode sim, Sr., Doutor! – respondeu, do seu leito, a doente. Ao entrar, resoluto, na sala, o médico bateu com a cabeça no candeeiro, que se apagou, ficando ele com um respeitável hematoma.
Sem perder a calma, e dirigindo-se à doente, diz-lhe:   Ó Tia Rosa, acenda uma vela, que eu estou ferido e às escuras!...
 Nunca mais me esqueço disto! – dizia-me o Dr. Mário.

Um consultório histórico

Nascido em 04/03/1915, e formado na Faculdade de Medicina de Coimbra em 1941, Mário Pereira de Carvalho e Cunha, que descendia de uma família de médicos, começou a exercer Medicina com seu pai, o Dr. Salviano Pereira da Cunha, no consultório deste, que mais tarde foi o seu, na casa da Rua Alexandre Herculano, onde hoje se encontra instalado o Centro Comunitário Espaço Aberto. Disse-me, há tempos, um conhecido médico especialista do Porto, muito seu amigo, que o consultório do Dr. Mário Cunha, em Ovar, era o mais bonito de quantos – e foram muitos! – conheceu.
O avô, Dr. António Pereira da Cunha e Costa (o Dr. Cunha), que morava à entrada do Lamarão, num prédio lá existente, junto ao Largo onde havia um chafariz e tem início a rua com o seu nome, exerceu medicina e foi um bom tocador de órgão, violoncelo e piano. Eça de Queirós, numa passagem do seu romance “A Capital”, refere-se à “soirée dos Cunhas”. Possivelmente esses serões musicais eram realizados nesse vetusto edifício.
Seu pai, Dr. Salviano, falecido em 1955, foi também um excelente médico e director clínico do Hospital da Misericórdia de Ovar (de 1940 a 1946).
Com toda esta ascendência ligada ao ramo da saúde, o Dr. Mário estava predestinado a seguir a mesma profissão, que honrou de modo notável e exemplar. Distinguiu-se ainda o Dr. Cunha em várias áreas do desporto. Não sendo tão famoso como o seu irmão Rui, atingiu, alguma notoriedade no futebol, primeiro no Sporting Club de Ovar, mais tarde no Aliança Foot-Ball Club e, em 1932, no grupo de honra da Associação Académica de Coimbra.
Praticou ainda a pesca desportiva e gostava muito dos desportos náuticos, passando algum do seu tempo na Ria.
Fez parte duma direcção do Fado Académico de Coimbra e presidiu à Junta de Turismo do Furadouro (de 1943 a 1945).
Médico distinto, desportista categorizado e cidadão exemplar, o Dr. Mário Cunha deixou-nos em 6 de Janeiro de 1989, dia em que Ovar ficou mais pobre.
A cidade não o esqueceu. Em 1993 a Câmara deu o seu nome a uma rua de Ovar, e em 25 de Julho de 1997 atribuiu-lhe, a título póstumo, e com toda a justiça, a Medalha de Mérito Municipal de Ouro.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Julho de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 152)

9.2.12

Uma curiosidade na Matriz de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2005)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Na soleira da porta principal da Igreja Matriz de Ovar, sobre o lado esquerdo de quem entra, encontram-se incrustadas duas peças em metal amarelo: uma chapa com a indicação NP 161, e um pequeno espigão.
Dada a pequena dimensão dessas peças, elas passam praticamente despercebidas, acontecendo que, ao longo dos 30 anos que tenho como Pároco, nunca ninguém me perguntou o seu significado.
A primeira informação que recebi sobre o assunto, há cerca de 20 anos, depois de algumas indagações, foi de que se tratava de uma sinalização da Rede Nacional de Nivelamento normalmente colocada em pontos estratégicos das localidades – pelo menos das mais importantes –, e que servia de ponto de referência topográfica em relação ao nível do mar.

A chapa com a indicação NP 161 e o pequeno espigão
(Igreja Matriz de Ovar)

As letras NP significam Nivelamento de Precisão, e o número 161 corresponde ao código do sítio onde se encontra localizado aquele ponto de referência.
Por querermos dar aos nossos leitores conhecimento desta curiosidade existente na Igreja Matriz, pedimos mais informações aos Serviços Cartográficos da Câmara Municipal, que gentilmente no-las concederam.
Cada Marca de Nivelamento tinha 4 testemunhas.
No caso da Matriz - NP161 -, a 1.ª testemunha é o ferro que se vê ao lado direito da chapa (15,443 m acima do nível do mar); a 2.ª está no extremo direito da mesma soleira, a 3.ª no cunhal sul da Igreja, e a 4.ª a meio do 2.º degrau das escadas exteriores (14,528 m), que dão acesso à rua.
Na base das cruzes das torres sineiras estão as marcas de coordenadas (a 45,56 m acima do nível do mar), ligadas, a partir de 1938, à base do Sistema Nacional, situada em Melriça (Vendas Novas).
Este sistema foi praticamente abandonado quando da instalação de um aparelho de medição no alto do depósito de águas, com mais fácil acesso, e, mais recentemente, com a actual triangulação via satélite, que em poucos segundos fornece, através de máquinas de campo sofisticadas, as informações topográficas pretendidas.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 151)

O transporte da sardinha em Ovar nos anos 30 e 40

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Até surgirem as indústrias em Ovar, na primeira metade do séc. XX, foi a agricultura e a pesca que mais contribuíram para a subsistência da sua população.
Muito se tem falado sobre a actividade piscatória na nossa costa do Furadouro, sabendo-se ter sido importante no princípio do referido século. Em 1906 já laboravam quatro companhas, e a fábrica Varina, sedeada na vila, inaugurara, no ano anterior, uma sucursal naquela praia, devido à grande quantidade de sardinha que ali se pescava.

Eram assim as lotas de sardinha no Furadouro no início do século XX
Nos anos 30 e 40 passei muito tempo no armazém de sardinha do meu avô (mais tarde dos meus tios), convivendo bastante com a azáfama da acamação do peixe em caixas ou em barricas, e via como se efectuava o transporte desse produto para a estação do caminho-de-ferro de Ovar, onde era despachada para várias terras do Douro, Beira Alta, Beira Baixa, Algarve, etc.
Nessa época, teve tanta importância o comércio da sardinha na nossa terra, e dava tanto trabalho à CP, que havia, junto à estação, um despachante exclusivamente destacado para esse serviço, que ele desempenhava numa barraca de madeira.
Cada mercantel possuía umas guias próprias, denominadas “Declaração de Expedição”, timbradas com o nome da firma, as quais, depois de preenchidas, eram entregues aos transportadores juntamente com a mercadoria, para, através delas, se fazerem os respectivos despachos.
Estrada do Furadouro nos anos 30 e 40
Recordo o nome dos homens que, em carros de bois ou carroças puxadas a cavalos, levavam o peixe desde o Furadouro até à Estação, através da velhinha estrada de piso muito degradado e irregular, poeirento no Verão e lamacento no Inverno, ladeada por enormes e frondosos eucaliptos.
Eram eles o Gris, o Pita, o Ti Zé Bolacha, o Ti Azóia (também conhecido por Regedor), o Noruega, o Belmiro, e outros mais que, sendo simultaneamente lavradores, faziam estes carretos como complemento da sua actividade normal.
O ti Bolacha, em cima da sua carroça, segurando as rédeas do cavalo, era uma figura muito engraçada. Sempre que passava por um grupo de jovens, batia com a mão na perna e exclamava: Viva mocidade!... (Muitas vezes recebia da boca dos rapazes, que gostavam de gracejar com ele, algumas respostas brejeiras!...)
Os homens que transportavam a sardinha do Furadouro para a estação do caminho-de-ferro de Ovar ficaram bastante ligados a este comércio, que foi importante para a economia da nossa terra até meados do séc. XX.
Ao recordá-los, estamos a fazer a história dos nossos antepassados e a lembrar aos mais novos uma actividade já extinta, mas que engrandeceu Ovar, levando o seu nome, marcado a fogo na madeira das caixas, através de muitas terras de Portugal.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Dezembro de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 150)


LEIA TAMBÉM: O Carregal no início do século XX – Os mercantéis de Sardinha
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30.1.12

Assassinato de Ana Rosa foi há 50 anos

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2005 - 01/02/2005)
TEXTO: Manuel Pires Bastos e Gil Guedes

Sobre a morte violenta de Ana Rosa, lia-se no “João Semana” do dia 3 de Fevereiro de 1955:
“No passado dia 23 de Janeiro apareceu morta, sob a ponte da Rua Elias Garcia, Ana Rosa Valente da Silva, criada de servir, de 11 anos de idade, em circunstâncias tais que revelam a existência de crime.
Felizmente que as diligências feitas pelo Comando do Posto da GNR descobriram rapidamente o criminoso, António Joaquim da Silva, engraxador, já várias vezes preso por furto e tentativa de sedução.
O funeral da pobre vítima foi concorridíssimo, incorporando-se nele as pessoas de mais destaque desta Vila, bem como as pessoas mais humildes, para manifestarem a sua repulsa pelo vil atentado.
A conclusão a tirar: falta de temor de Deus no criminoso, virtude heróica na vítima e sentimentos nobres e dignos da gente de Ovar.”

Campa de Ana Rosa no Cemitério de Ovar
No próximo dia 22 completam-se 50 anos sobre a morte, por assassínio, da menina Ana Rosa Valente da Silva, a cuja memória os vareiros erigiram um bonito mausoléu no 5.º quarteirão do nosso cemitério, local que passou a ser, desde então, ponto de visita para muita gente.
Visitando o Cemitério de Ovar há alguns anos, à procura de referências do Padre José Ribeiro de Araújo, antigo Coadjutor de Ovar e natural de Perosinho, um cidadão daquela freguesia gaiense, Gil Guedes, mostrou-se impressionado com a campa da Ana Rosa, cuja figura lhe foi delineada por mim, que o acompanhava.
Daí nasceu o interesse de Gil Guedes em aprofundar os dados sobre a vida e morte da pequena vítima, bem como sobre a sua família e o seu agressor.
Aos dados coligidos, entendi juntar novas informações que, entretanto, também foi recolhendo junto de vizinhos e de conhecidos de Ana Rosa, bem como de António Gama, o jovem ovarense que encontrou o seu corpo algumas horas após o assassínio.
Desse conjunto de dados resultou o texto que vamos publicar no “João Semana” como memória de um acontecimento que marcou Ovar há meio século.

A vítima

Ana Rosa Valente da Silva nasceu no lugar das Quintas do Norte, freguesia da Torreira, concelho da Murtosa, a 7 de Junho de 1943, sendo seus pais António Joaquim Lopes da Silva, lavrador e barbeiro(1), e Rosa Pereira Valente, doméstica.

A 3.ª porta da casa mais baixa, à esquerda, na Rua Elias Garcia, era a da barbearia
de Luís Pereira, para onde, pelas 20h30 de 23/01/1955, se dirigia a Ana Rosa
Como qualquer criança do seu estrato social e do seu tempo – fim e rescaldo da 2.ª Grande Guerra Mundial”, teve uma infância penosa, mas despreocupada.
Tinha apenas dois anos e meio quando perdeu a mãe, falecida no Hospital de Salreu, em 13/12/1945.
Quase três anos depois, em 03/03/1948, o pai, então com 43 anos de idade, contraiu segundo casamento, com Lucinda de Pinho, de 34 anos, doméstica, do lugar da Marinha, Ovar, a quem a criança passou a chamar “madrinha”(2).
A Ana Rosa frequentou a Catequese (na Igreja da Torreira) e a escola (no lugar das Quintas), sendo uma criança humilde e ingénua. Tão ingénua que não suspeitava dos perigos morais que a rodeavam(3).
Terá sido por estas circunstâncias que, pelos 8 anos, a criança deixou as Quintas para encontrar protecção em casa de uma família amiga, da vila de Ovar, o casal Luís Pereira e Maria(4), residentes na Rua Padre Ferrer, 86, até porque na barbearia do Sr. Luís, situada na Rua Elias Garcia, junto à Capela da Sr.ª da Graça, trabalhava, como barbeiro, um filho da madrasta, de nome José Pereira(5).

Casa da Rua Padre Ferrer, n.º 86, onde vivia o casal Luís e Maria
com a pequena Ana Rosa, que daqui saiu na noite do seu assassínio
No parecer de várias pessoas por nós contactadas, a Ana Rosa seria tratada como protegida e não como criada (6). Mas a ideia geral é de que seria uma criadita de casa, ocupada em tarefas domésticas.
“– Era pequena, mas forte. Não era leviana. Era boa menina. Só um pouco ingénua.” (António Gama, Ovar).
“– Era uma criança viva, baixa e forte, de inteligência normal, frequentando a escola." (Áureo Neves, Ovar).
“– Era baixa e roliça, de constituição forte.” (Rosa Maria Valente, da Ribeira).

Conta uma sua amiga e colega mais velha, Francelina Gomes Pereira (n. 25/03/1939, em Ovar)(7), que costumavam assistir à Missa das Almas (6h00 da manhã) e que, depois de tomarem o pequeno-almoço, iam lavar roupa ao rio do Peixoto (rio Cáster), debaixo da ponte da Senhora da Graça.
Como era habitual, a profissão de barbeiro tinha o Sábado como o dia de maior movimento, prolongando-se o trabalho pela noite fora. Daí ser habitual os barbeiros cearem no próprio estabelecimento.
Nestas circunstâncias, cabia à Ana Rosa a tarefa de levar a comida ao Sr. Luís Pereira.
Ninguém suporia que esse serviço trivial viesse a dar motivo para um desenlace trágico, e que uma criança de 11 anos e meio, mesmo que de constituição desenvolta, pudesse vir a ser beliscada na sua honra por alguém que a conhecia bem(8).
Aquela noite de Sábado, dia 23 de Janeiro de 1955, foi fatídica para a menina que, pelas 20h30, levando a refeição ao Sr. Luís, não chegou à barbearia nem regressou à Rua Padre Ferrer, onde a esperava a Sr.ª Maria.
Foram de angústia e de maus presságios as horas que aquela família viveu ao longo de toda a noite, com algumas buscas totalmente infrutíferas.

O achado do corpo

A manhã seguinte encarregar-se-ia de pôr a claro a situação, desvendando toda a verdade do misterioso desaparecimento.
Pelas oito horas da manhã, e aproveitando os primeiros alvores do dia, o jovem António Pinto da Gama resolveu abrir a porta das traseiras do talho de seu pai, onde tinha já aviado alguns fregueses que regressavam da missa das seis horas, e aproximou-se do rio, mesmo ao lado, para observar a altura e os estragos das águas, já que chovera muito de véspera.
– “Vamos ver o rio!” – disse ao irmão José que, no entanto, não anuiu ao convite(9).
Poucos metros andados, observando algo estranho debaixo do arco poente da ponte, alertou o irmão:
– “Olha que está ali uma criança morta! Vamos lá ver.”

Ponte da Senhora da Graça (ou do Peixoto), no Rio Cáster. O corpo de Ana Rosa
apareceu, na manhã seguinte, debaixo do 3º arco (à esquerda)
Descidas as escadas de acesso ao rio, e caminhando sobre uma língua de areia molhada, onde as mulheres – e a própria Ana Rosa – costumavam lavar, chegaram junto ao corpo inerte, acocorado, descomposto, com a boca dentro da água. No mesmo lugar onde, viva ou já morta, a menina tinha sido violentada(10).
– "Se não tinha já morrido quando a deixaram naquela posição, acabaria por morrer afogada, porque a água era muita" – lembra o António, 49 anos depois do macabro achado.
– “Vou avisar o cabo Santos e tu ficas aí para não deixares passar ninguém!” – disse ao irmão.
Vendo, ali perto, o talhante João Silva à porta do seu estabelecimento – era normal conservarem a porta fechada ao Domingo, por causa da fiscalização “, inteirou-o do que acabara de descobrir, e ele logo correu ao local.
A partir daí o ajuntamento e o alarido foram-se avolumando.
Nesse Domingo, a Francelina não tivera a companhia da amiga na Missa das 6 horas. Pensou que não tivesse vindo por ter de ficar a tratar a patroa(11).
Mas a razão viria a encontrá-la pouco depois, quando, como de costume, trazia a roupa para o lavadouro, sob a ponte, agora transformado em pouso do corpo morto da amiga.
De tal modo ficou incomodada que, lembra-se bem disso, nem quis participar no cortejo que se realizou nesse dia à tarde, em favor do relógio da Igreja.

A notícia do crime

Sobre a morte violenta de Ana Rosa na noite de 22 de Janeiro de 1955(12), um Sábado, depressa apareceram relatos na imprensa diária. Um deles, expedido de Ovar no dia seguinte, 23, dia do encontro do cadáver, e publicado em “O Comércio do Porto” de 24 ou 25, é do teor seguinte:

“Uma criança morta e abandonada à beira de um rio
Ovar, 23 - Nas mais estranhas e trágicas condições, foi hoje de manhã encontrado, abandonado à beira-rio o cadáver de uma criança de 12 anos, de nome Ana(13), cujos pais se sabe residirem no sítio da Quinta da Torreira, na Murtosa, que andava a servir numa moradia localizada na rua Padre Ferrer desta vila.
António Pinto da Gama no mesmo talho onde trabalhava,
há 50 anos, com seu irmão José. Foi a primeira pessoa a
descobrir, debaixo da ponte do rio Cáster, mesmo ao lado
 do talho, o corpo inanimado de Ana Rosa
Embora as autoridades não tenham chegado a qualquer investigação definitiva, tudo indica que se estava na presença dum crime. A criança desaparecera da residência dos seus patrões às 20.30 horas de ontem, e apesar das diligências encetadas nesse momento por se tornar notada a sua falta, estas foram infrutíferas. O seu cadáver apareceu hoje debaixo dum dos arcos da ponte sobre o rio Cáster, que atravessa o centro da vila e foi o rapaz dum açougueiro da rua Elias Garcia que deparou com ele quando se aproximava daquele ponto da margem a buscar água. 
Postas imediatamente ao corrente do trágico acontecimento, as autoridades iniciaram rápidas averiguações, recolhendo elementos tendentes a esclarecer as causas da morte e procedendo a um exame pericial no local onde foi encontrado o cadáver. Cumpridas que foram estas formalidades o corpo da infeliz criança foi removida para a capela da Misericórdia, onde amanhã os médicos devem proceder à autópsia.”

O nosso colaborador Aníbal Gomes, então com 14 anos, dá-nos mais algumas achegas sobre o acontecimento:
“Conhecia muito bem a Ana Rosa e os seus patrões, assim como o assassino, António Godinho (engraxador). Este era uma figura popular e bem conhecida em Ovar, pois engraxava calçado no Largo Família Soares Pinto, na zona envolvente ao chafariz Neptuno.
Na manhã desse Domingo, ainda cedo, quando eu saía da Capela do Instituto Jesus Maria José, na Rua Coronel Galhardo, onde ajudava à Missa ao saudoso capelão privativo, Padre Coelho, alguém que passava à porta contou-me que tinha aparecido um cadáver debaixo da ponte da Senhora da Graça e que se suspeitava de crime.
De imediato fui ao local e, nessa altura, eram poucas as pessoas que se encontravam na zona envolvente à referida ponte. Desci as escadas que a vítima também tinha descido na véspera, para se encontrar com o criminoso que a tinha convidado a ir buscar um embrulho à margem do rio, e que, quando ela lá chegou, já tinha saltado pelo lado norte-poente, aí tendo consumado o crime. Vi, então, o corpo da Ana Rosa, que jazia no leito do rio, debaixo do arco do lado das referidas escadas.
Só mais tarde é que as forças da GNR, comandadas pelo Cabo Santos, começaram a recolha de elementos com vista à descoberta do assassino. Claro que a água do rio e as lamas da areia não permitiam que as pessoas se aproximassem do corpo. Foi o que aconteceu comigo.
Na manhã desse Domingo, e já quando em Ovar não se falava de outra coisa, o António Godinho compareceu a engraxar, na praça e chegou a afirmar: – “Quem fez aquilo à rapariga merecia que lhe fizessem o mesmo!” Isto a escassos metros do Posto da GNR, que ficava no edifício da Câmara Municipal de Ovar, junto à Farmácia Lamy”.

Francelina Gomes Pereira junto ao mausoléu de Ana Rosa, sua colega e amiga,
a quem acompanhava aos Domingos, à missa das 6 horas e com quem, muitas vezes,
depois do pequeno-almoço, ia lavar roupa ao rio Cáster, precisamente no local do assassínio
Por se tratar de uma menina, fácil é compreender a reacção das outras crianças, particularmente das que, naquela manhã, demandavam a missa das 9 horas e a catequese paroquial, e que foram tomadas de pânico ao confrontarem-se com o que acontecera à colega.
Uma dessas crianças ainda hoje se lembra da grande multidão que se aglomerava sobre a ponte, assistindo à retirada do corpo pelos bombeiros.
Outra, Adelaide Alçada, garante que entre os curiosos postados no gradeamento sobre o rio se encontrava o próprio criminoso, “alto e ainda novo”, comentando: – “Coitadinha! Coitadinha!”
E não esquece os cabelos soltos da vítima.
Manuel Mendonça conta que nessa manhã, pelas 10 horas, indo com uma delegação do seu Agrupamento de Escuteiros entregar uma queixa por um roubo acontecido, durante a noite, no acantonamento de fim-de-semana realizado no lugar do Brejo(14), encontrou os elementos da GNR absorvidos pelo caso da Ana Rosa.
Maria Rodrigues Ramos dos Santos (n. 06/06/1925) acrescenta que nessa mesma manhã houve um casamento na Igreja.

Investigações e funeral

O semanário Notícias de Ovar deu a notícia do acontecimento em 27/01/1955, de acordo com os dados que aqui deixámos na edição anterior, acrescentando algumas particularidades descobertas através das diligências policiais, e sublinhando a excepcional participação do povo vareiro no funeral, realizado no dia 25.
Eis o texto completo:

Relato da morte de Ana Rosa
no "Notícias de Ovar" de 27 de Janeiro de 1955
Por certo, a saída do funeral da Travessa da Rua Castilho, no Poço de Baixo, da casa de Generosa Pinho (a Generosa Coveira, do Cachimbó, irmã de Lucinda de Pinho, a madrasta de Ana Rosa), foi uma forma de evidenciar a formação católica da menina em relação aos seus patrões, que eram evangélicos.
Pátio da casa de Generosa de Pinho, no bairro do Poço
de Baixo, donde saiu o funeral da Ana Rosa
Conta João Gomes Vaz (n. 05/09/1935) que, pelas 5 horas da tarde de 25 de Janeiro, chegando de comboio, de Matosinhos, onde a família tinha negócio de peixe, e querendo ver o funeral, que já tinha chegado ao cemitério, entrou pelo portão pequeno, do lado sul, encontrando ali uma imensa multidão que pouco antes enchera as ruas de Ovar patenteando em seus rostos um sentimento de pena e de revolta.
É voz corrente que o assassino assistiu à passagem do enterro do lado de dentro da janela poente do Posto da GNR (actual posto de Turismo), escoltado por guardas(15).
Segundo Aníbal Gomes, e como era habitual nessa época, alguns dias após o crime, apareceram em Ovar, na zona da Praça, pessoas de fora que cantavam quadras apaixonantes alusivas ao crime e à investigação do mesmo, o que comovia a população vareira.

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Notas: 
(1) Ele foi baptizado no Bunheiro, sendo filho de António Lopes da Silva (natural da Torreira) e de Rosalina Francisca de Jesus (de Perafita, Matosinhos). Do casal nasceu outra filha, de nome Maria dos Prazeres, a viver em França.
(2) A Lucinda era filha de João Augusto Gomes Calixto, natural de Avanca, e de Domingas de Pinho, da Marinha, Ovar. Uma irmã, Generosa de Pinho, residiu no Poço de Baixo, Ovar, tendo filhos a residir em Ovar e em Lisboa. (Foi da casa desta tia, paredes meias com a casa do assassino, que viria a sair o funeral de Ana Rosa). João Gomes Vaz (n. 05/09/1935), residente no Poço de Baixo, diz que a família da menina era “gente pobre mas muito boa, e que a Ana Rosa era educada e modesta.
(3) Estas informações foram colhidas, em Novembro de 2004, nas Quintas do Norte, junto de uma vizinha e contemporânea, Maria do Céu Pinto, que acrescentou ser do conhecimento público que Ana Rosa teria sido vítima de assédio por parte de um idoso do lugar.
(4) O casal, dos lados da Murtosa, vivia numa casa de Laurinda Correia Meladas, casada com Francisco de Oliveira Meladas, emigrante no Brasil e Estados Unidos. Dado que o casal tinha aderido a um grupo evangélico, dizia-se acerca da menina, que continuou a ser católica: “– Está a servir em casa do protestante”. O Luís era irmão de Albino (pai de Aurora), de Silvério Leite (casado com Maria José – Zezinha) e de Eduardo (da Aurora “dos tremoços”).
(5) Além do José, que esteve depois no Canadá e que reside actualmente nas Quintas do Norte, a Lucinda Pinho teve outro filho, Francisco.
(6) Dessa opinião é Áureo Neves, que se lembra do ambiente que se vivia nessa família, especialmente na loja que a Sr.ª Maria explorava na Rua Cândido dos Reis (onde a Ovarense tinha a sede que se incendiou).
(7) Filha de José Pereira Sona e de Margarida Gomes, hoje a residir na Rua dos Fragateiros, Ponte Reada, S. João de Ovar.
(8) Que o assassino já a cortejava prova-o o facto de na mala de Ana Rosa ser, posteriormente, encontrada uma carta sua. (Informação de Joaquim da Silva Godinho, meio-irmão de António Joaquim Godinho, o assassino).
(9) José Ribeiro Gama, já falecido, que casou em Estarreja, onde possuiu um talho e onde residiu e ficou sepultado.
(10) Os médicos legistas terão concluído que terá sido violentada depois de morta.
(11) Para além de mal-humorada, a Sr.ª Maria abusava, por vezes, do vinho (informação da amiga Francelina Pereira).
(12) Por lapso, a data da morte saiu errada (21 e 23) no último número do “João Semana”. Foi feita a correcção no blogue.
(13) Relevando a imprecisão da idade e do nome de Ana Rosa, que tinha, de facto, 11 anos e meio, as demais informações da notícia estão de acordo com o que aqui se escreveu há 15 dias, acrescentando um dado importante: a deslocação do cadáver, para efeito de autópsia, para a Capela da Santa Casa da Misericórdia, então gestora do Hospital de Ovar.
(14) O roubo, que incluiu mantimentos e panelas, aconteceu depois da chegada do Mendonça, pela meia-noite, ao acampamento, quando dormiam todos. (Uma grave falha aos princípios de um escuteiro que, deve estar sempre alerta!)
(15) Informação de Maria Rodrigues Ramos dos Santos (n. 06/06/1925).


(Continuará)


Artigos publicados no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro e 1 de Fevereiro de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 149)

18.1.12

Ovar no culto de Fátima – Uma imagem histórica na Igreja Matriz

Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2005)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

No início da década 40, a Irmã Lúcia foi consultada pelas religiosas do Sagrado Coração de Maria sobre a forma como Nossa Senhora estava vestida durante as Aparições e, particularmente na de 13 de Junho de 1917, quando revelou aos pastorinhos o seu Coração Imaculado.

Pagela de 1943 com um desenho para uma nova imagem de Nossa Senhora de Fátima,
 com parecer da Irmã Lúcia e que serviu de modelo para a imagem da Virgem Peregrina, esculpida por José Ferreira Thedim (espólio de Manuel Cascais de Pinho, de Ovar)

A 1.ª imagem de N.ª Sr.ª da Fátima (da Capelinha das Aparições) data de 1920, e é da autoria de José Ferreira Thedim, que a retocou em 1951. Há uma 2.ª imagem (da Virgem Peregrina), do mesmo autor, que data de 1947. Destas imagens se trata mais desenvolvidamente em "O Culto de Fátima no Concelho de Ovar", na revista "Dunas Temas e Perspectivas", da Câmara Municipal de Ovar.
Sobre estes temas, e em especial sobre a imagem do Coração Imaculado de Maria, Ovar tem uma importante palavra a dizer. Tão importante quanto capaz de esclarecer alguns pontos ainda em aberto nesta matéria.

Lúcia e o Coração Imaculado de Maria

A estampa/fotografia com as correcções
feitas pela Irmã Lúcia: a cruz (a indicar a
subida da mão direita), a cercadura à volta do
coração (no lugar dos espinhos) e o franzido
do vestido e do pescoço
Foram as religiosas da Congregação do Sagrado Coração de Maria que, em Setembro de 1942, após um retiro em Fátima, sensíveis às revelações do Coração Imaculado de Maria à vidente Lúcia “ correspondentes ao 2.º segredo de Fátima (13 de Junho e 13 de Julho de 1917, na Cova da Iria) e às revelações subsequentes (17/12/1927 em Pontevedra e 13/06/1927 em Tuy), descritas, sobretudo, na 3.ª Memória (de 31/08/1941), e querendo incrementar a devoção dos primeiros Sábados nos seus colégios “, assumiram a tarefa de investigar as particularidades iconográficas da imagem, sob a orientação de Madre Maria Chantal de Carvalhaes.
Pedindo informações à Irmã Lúcia sobre a forma como Nossa Senhora revelara o seu coração aos três pastorinhos, e após vários esboços feitos quer por religiosas, quer por um artista e por fotógrafos – estes utilizando como modelo a própria imagem da Capelinha das Aparições –, foi elaborada uma composição fotográfica que, depois de apreciada pelas autoridades religiosas (Setembro de 1943) e pela Vidente, esta corrigiu pelo seu próprio punho (tal como acontecera, anos antes, com a imagem da Capelinha), acompanhada das seguintes instruções escritas:
“A mão direita mais à altura do hombro como que reflectindo, ao mesmo tempo, para os assistentes. Do lado esquerdo, o manto caindo menos para diante. O Coração com os espinhos à volta. Nem o coração, nem as mãos, nem a imagem tinha raios, era luz, reflexo. Não tinha cordão, nem facha, mas formava sinto, com algum franzido no sinto e pescoço”.
Feito novo estudo, foi este enviado à Irmã Lúcia, que sobre ele deu o seguinte parecer em 29/12/43:
“Agradeço a fetugrafia; gostei, das que tenho visto são as que mais se aproximam da realidade”. (Apreciação semelhante à da estampa aqui reproduzida em 15/04/2005).
A edição definitiva das estampas chegar-lhe-ia às mãos em Abril de 1944.

A primeira imagem…
… está em Ovar

Entretanto, desejando colocar uma estátua do Imaculado Coração de Maria em cada um dos colégios da sua Congregação, e querendo que fosse o mais fidedigna possível em relação às indicações fornecidas pela Irmã Lúcia, Madre Chantal chamou a Lisboa o escultor José Ferreira Thedim (Neto) de S. Mamede de Coronado, que tinha executado, em 1920, a primeira imagem de N.ª Sr.ª do Rosário de Fátima (a da Capelinha das Aparições, alterada em 1951).
É neste período (1944-1945) que, com as informações disponíveis recolhidas pelas Religiosas do Coração de Maria, Thedim dá forma à primeira escultura do Imaculado Coração de Maria.
Na revista “Fátima – 50”, Ano II, n.º 23, de 13/3/1969, pág. 10 a 14, no artigo “Como surgiu a primeira Imagem do Imaculado Coração de Maria”, o então Reitor do Santuário, Mons. Antunes Borges dá a entender ser desconhecido o percurso histórico dessa imagem:
“Longa foi a expectativa, não chegando sequer a aparecer aquela primeira imagem que devia servir de modelo para todas as outras”.
Um enigma? Cremos que agora deixará de o ser!
A 1.ª escultura do Imaculado Coração de Maria de José
 Ferreira Thedim, existente, desde 1946, na Igreja Matriz
 de Ovar, já com as correcções pedidas pela Irmã Lúcia.
 (O escultor não teve em atenção o “franzido do cinto”)
[FOTO: Fernando Pinto]

Em 1946, ano do Tri-Centenário da Padroeira de Portugal, cujas comemorações tiveram eco em todo o país, a Paróquia de Ovar encomendou à Casa França, do Porto, a expensas de uma família vareira (família Cunha), uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, que substituiria a antiga imagem do Coração de Maria até então existente na Igreja Matriz e titular do altar que fora dedicado, em séculos passados, ao Espírito Santo e a N.ª Sr.ª do Pilar.
Afirma o jornal “João Semana” da época, então dirigido por um probo historiador local (o Padre Manuel Lírio), que “a nova imagem de Nossa Senhora de Fátima, com o coração segundo a revelação feita à Irmã Lúcia das Dores” (edição de 05/05/1946) é “a primeira que em Portugal se esculturou segundo as indicações da vidente de Fátima” (edição de 25/07/1946).
Embora tendo, na base, a indicação “França esc. (escultores) Porto 1946”, essa imagem deve corresponder à executada por José Ferreira Thedim, não só pelas circunstâncias do tempo e da forma da sua concepção, mas também porque era normal as oficinas de comercialização de estatuária religiosa (como a Casa França e a Casa Estrela, do Porto), aporem o seu rótulo a obras que encomendavam a outros artífices (1).
Esta encomenda tê-la-á entendido o Artista como vantajosa, já que, satisfazendo o interesse da paróquia de Ovar, se ressarcia das despesas até aí havidas com o seu trabalho que, entretanto, ficara suspenso, em virtude da alteração iconográfica da imagem proposta pelas Irmãs do Coração de Maria.

Pormenor da 1.ª imagem do Imaculado Coração de Maria
[FOTO: Fernando Pinto]

Pintura a óleo da Irmã Henriqueta Malheiro
Vilas Boas seguindo as últimas sugestões
da Irmã Lúcia sobre a Aparição do Coração
Imaculado de Maria (1946)
Segundo refere o “João Semana”, essa imagem do Imaculado Coração de Maria foi solenemente coroada junto à Câmara Municipal de Ovar, em 12 de Julho de 1946, após “uma entusiástica saudação a Nossa Senhora feita pelo Pároco, Padre Crespim Gomes Leite, no seu trajecto da Capela de Santo António para a Igreja Matriz, onde ficou exposta à veneração dos fiéis. No dia 14, o Bispo do Porto D. Agostinho de Jesus e Sousa, que viera, na véspera, administrar o Crisma, presidiu a uma solene procissão eucarística, durante a qual, na varanda da Câmara Municipal, consagrou o concelho de Ovar ao Coração Eucarístico de Jesus e ao Coração Imaculado de Maria.

A segunda imagem

2.ª imagem do Imaculado Coração
de Maria de José Ferreira Thedim
(1947/48). Carmelo de Coimbra

Mercê de novas investigações e de novas informações da Irmã Lúcia, terá sido proposto a José Ferreira Thedim esculpir um novo modelo, de braços mais abertos, de aspecto mais sóbrio e comunicativo, na linha da figura que, em 1946, Madre Henriqueta Malheiro, também religiosa Doroteia, acabava de realizar na tela, apresentando-a como “a verdadeira imagem da aparição do Imaculado Coração de Maria, que a vidente de Fátima conservava profundamente gravada na sua viva e colorida imaginação”(2).

A nova estátua estava pronta em 1947, porque nesse ano há referências à “recente” maquete para a monumental estátua do Imaculado Coração de Maria, destinada à fachada da Basílica de Fátima e esculpida mais tarde (entre 1956 e 1958) em Itália pelo artista norte-americano Padre Thomas McGlynn, O. P. [CLIQUE NOS LINKS A AZUL]

O Padre Thomas McGlynn ultimando
a imagem do Imaculado Coração de Maria
A estátua existente no Carmelo de Coimbra, que lhe serviu de modelo, só em 1948, dois anos após a bênção da imagem de Ovar, é que foi entronizada ali, junto ao Penedo da Saudade, em Coimbra, passando a ser considerada o modelo oficioso – e, por isso, o mais divulgado – daquela invocação (foto ao lado).
Retomemos a leitura do texto de Monsenhor Antunes Borges:
“Entretanto, a Irmã Lúcia deixava as Doroteias e entrava no Carmelo de Coimbra, em Quinta-feira Santa, pelas 5 horas da manhã do dia 25 de Março de 1948. Devia ser o Carmelo de Santa Teresa que acolheria a primeira estátua do Imaculado Coração de Maria, feita à luz de todos estes longos e meticulosos estudos, acrescidos apenas de pequenos e ulteriores dados, fornecidos pela Irmã Lúcia.”
Carece de ser corrigida esta conclusão, porquanto “aquela primeira imagem que devia servir de modelo de todas as outras” existiu e existe ainda, e nunca esteve desaparecida, como imaginava Mons. Borges. Apenas ficara de reserva, talvez por acabar, na oficina do escultor, até seguir para a Casa França, no Porto, e daqui para Ovar, em 1946.

Conclusão

A Irmã Lúcia em 1945, na pose
recriada em pintura, pela Irmã
 Henriqueta assinada em 1946
A imagem de Ovar, que o “João Semana” de 25/07/1946 identifica como “a primeira que em Portugal se esculturou segundo as indicações da vidente de Fátima”, é, claramente, anterior à de Coimbra, como se pode inferir da cronologia apresentada no citado artigo de “Fátima 50”.
A imagem do Carmelo, mais tardia e mais elaborada, constitui a segunda versão escultórica do mesmo tema, apresentando novos pormenores figurativos entretanto aduzidos quer pela Irmã Lúcia, quer por interpostos artistas, através de esquissos, desenhos e pinturas.
Sem deixar de tecer elogios à beleza desta imagem, conhecida e venerada em todo o mundo cristão, vamos passar a nutrir um carinho especial por aquela que a antecedeu e que, humilde e quase rejeitada, mas também muito bela, foi acolhida com muito afecto pelo povo de Ovar, que a entronizou, em 1946, na sua Igreja Matriz.


José Ferreira Thedim

Foi durante uma pesquisa relacionada com a celebração dos 250 anos da Irmandade do Sagrado Coração de Jesus em Ovar e do Cinquentenário do Congresso do Coração de Jesus nesta cidade (1955), que encontrámos nas páginas amarelecidas do jornal “João Semana” de que somos Director, as referências históricas que tornaram possível, aqui e agora, comunicar a todos os amigos e investigadores de Fátima que a primeira imagem de N.ª Senhora “com o coração segundo a revelação feita à Irmã Lúcia das Dores”, que desde 1946 se julgava perdida, foi, finalmente, “encontrada”! Em 2005.
Em Ovar. Para proveito dos amigos e devotos de Fátima, que passam a conhecer um capítulo novo do culto ao Coração Imaculado de Maria. E para espanto dos próprios vareiros que, desde há 59 anos, a veneram e amam sem saberem a sua linda história.


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Notas:
(1) Cf. Sérgio de Oliveira e Sá, “Santeiros da Maia”, Maia, 2002, pág. 120.
(2) “Fátima 50”, artigo citado.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Julho de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 148)



Leia também este texto da autoria do Padre Manuel Pires Bastos,
publicado no n.º 6 da revista DUNAS (novembro 2006)

29.12.11

Obras a “bom ritmo” na Casa-Museu Júlio Dinis

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2011)
TEXTO: António Ferreira Valente

Após sete anos e sete meses de encerramento ao público da Casa-Museu Júlio Dinis, em Ovar, de que eu fui o último “monitor”, estão ali a decorrer, a “bom ritmo”, obras de reconversão que, na minha maneira de ver, constituem graves agressões ao imóvel do século XIX.
Começou logo pela demolição do compartimento contíguo à cozinha, espaço que fazia parte integrante da mesma, e que continha, até ao momento do encerramento, um acervo museológico da época. Existem divergências sobres este espaço, mas ele já existia quando das fotografias publicadas na revista “Serões” de fevereiro de 1906, tiradas pelo Dr. Antero Figueiredo, quando do seu contacto, nesta casa, com D. Maria Zagalo, prima do Dr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Júlio Dinis).
Casa onde morou o escritor Júlio Dinis
Devia ter sido evitada esta solução, que resulta em transformações irreversíveis em toda a configuração da Casa-Museu.
Mais grave é que o novo edifício que está a ser edificado, de arquitetura moderna, ocupa parte do compartimento que, entretanto, foi demolido, passando a constituir a entrada direta na cozinha da Casa-Museu, criando nos visitantes um impacto negativo pela envolvência de construções do séc. XIX e do séc. XXI).
O objetivo da intervenção que desde há muito tempo se impunha, deveria ter sido reavivar o aspeto da Casa-Museu Júlio Dinis, evitando-se o acrescento de novos edifícios com ligação direta à Casa, conforme está a acontecer, e integrá-la dentro das características tipológicas que marcam a arquitetura do Largo dos Campos, onde ela se insere, respeitando um dos raros imóveis do século XIX.
Estranhamente, a cota do edifício que está a ser edificado é superior à área útil da Casa-Museu, o que provoca um total esmagamento, emparedando a ligação da Casa ao quintal, área importante no contexto museológico, dada a sua ligação ao romance “As Pupilas do Senhor Reitor”.
Nas cartas do Dr. Joaquim Guilherme (Júlio Dinis) podemos encontrar algumas das vivências que teve neste espaço exterior, não só nas suas horas de confortável repouso, como nas idas ao poço, colaborando com a prima Maria (na altura com 20 anos de idade), no escutar o canto do rouxinol, ou no contacto precioso com o jornaleiro José Travanca, da Ponte Reada, que lhe proporcionou a inspiração da personagem José das Dornas, do romance “As Pupilas do Senhor Reitor”.
Com a edificação deste novo edifício, desaparecerá lamentavelmente toda a relação do espaço com a ruralidade, elementos que deveriam ser tidos em conta no projeto.
É verdade que, depois da obra pronta, quando for a sua inauguração com a habitual “pompa e circunstância”, tudo à volta parecerá bonito aos presentes, mas os visitantes mais atentos e conhecedores da história desta Casa, esses irão sofrer um impacto negativo.
Aqueles que, após a visita no interior da Casa, estavam habituados, ao saírem da cozinha, a apreciar o espaço exterior vivido por Júlio Dinis, jamais terão essa ligação direta ao quintal e ao tanque, parte importante do acervo e do ambiente dinisiano.
Através da expropriação que levou a efeito com o caráter de urgência para avançar com o projeto, a edilidade perdeu a oportunidade de adquirir a área suficiente a sul do tanque (acervo museológico). É bom lembrar o belo exemplo da intervenção na Casa Camilo Castelo Branco, onde uma nova edificação não foi fator perturbador, não criou desequilíbrios.
Constitui desagrado para mim a intervenção que está a decorrer no interior da Casa-Museu, e que penso não se coadunar com os princípios de “manutenção” do antigo edifício de forma a travar a sua decadência. O soalho em tábua pregada, completamente apodrecida, tal como os rodapés e outros elementos, foram retirados na sua totalidade, e até aí tudo bem.
As paredes de toda a casa foram picadas, do meio até ao rodapé, com exagerada profundidade, e tanto esta como a zona do soalho foram preenchidas por betão.
O reboco de cimento, através de uma armadura interna em vara de ferro, em todas as paredes da Casa-Museu, irá, futuramente, agravar o problema da humidade, que resulta do exterior. A cota do piso subiu em relação à época, e não foi feita uma drenagem adequada na zona envolvente. Aqui residia à causa do problema, que depois se transferiu para as paredes da Casa.
A recuperação tem de respeitar o existente, tem de salientar o edificado antigo, e não adulterá-lo, como infelizmente aconteceu.
A aplicação deste material (betão) é incompatível com a construção do século XIX, e pode provocar a degradação rápida. Foi um erro não terem reposto o reboco de cal, brando e poroso, sem qualquer adição de cimento.

Casa-Museu Júlio Dinis em obras

Estas obras que estão a decorrer a “bom ritmo” implicaram, até ao presente, alterações profundas no edifício existente, alterando os aspetos estruturais (interior e exterior do imóvel) e espaciais que os caracterizavam.
Questiono: A GIESPAR será conhecedora da profundidade desta intervenção na Casa-Museu Júlio Dinis, e se a mesma colide ou não, sob todos os aspetos, com as histórias e as vivências que ela guarda?

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de dezembro de 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 147)
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Casa-Museu Júlio Dinis merecia melhores acessos

O artigo publicado no “João Semana” de 15 de dezembro último [texto anterior] pelo nosso colaborador António Ferreira Valente, particularmente a referência a “transformações irreversíveis em toda a configuração da Casa-Museu”, despertou o interesse de alguns leitores. Mas também o acesso principal à casa, pela viela a nascente, exígua e descontextualizada, deixa muitas dúvidas quanto às expetativas criadas à volta de uma obra que deveria ser emblemática.

Na foto, à esquerda, veem-se os diversos módulos acrescentados às traseiras da casa original, com frente para a Rua Júlio Dinis e Largo 5 de Outubro (Jardim dos Campos). À direita, uma casa cujo 1.º andar ocupa metade da dita viela.

Diamantino Santos – 40 anos ao serviço da música

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2011)
TEXTO: Joaquim Santos

Diamantino Santos
Conhecendo o Diamantino como os dedos das minhas mãos, sabíamos bem lidar um com o outro. Homem de metro e oitenta e cinco centímetros de altura, com pouca carne em cima dos seus ossos e menos sete costelas, fez quase tudo e mais alguma coisa até à sua morte. Contudo, não chegou onde queria.

Vou falar um pouco da vida de Diamantino Júlio dos Santos. Mas, afinal, quem era, e de quem? Filho de gente modesta e honrada na vida, Diamantino veio, com poucos meses de idade, da praia do Furadouro para o Alto de Saboga, junto à antiga cadeia.
Foi crescendo e, de repente, chegou a hora de ir para a catequese e para a escola primária, a Escola do Castelo (onde hoje é o Palácio da Justiça em Ovar), onde iria aprender a ler e a escrever, tendo como mestre o velho Patrício, um bom professor, que nessas décadas pedia aos alunos ricos para darem aos pobres.
Diamantino não foi mau aluno, mas, como era filho de gente pobre e não tinha a ajuda de ninguém, teve mesmo de ficar só com a 4.ª classe.
Ao sair da escola retomou o trabalho, para que um dia pudesse vir a ser alguém na vida.
Um dia, Diamantino e um colega de trabalho, Salviano Pinto, resolveram ir aprender música. Contactaram, em 1953, António Roma da Silva Capoto, no Largo dos Combatentes, e em 11 meses, a 28 de Março de 1954, ficaram aptos para cumprirem a sua tarefa de músicos, tocando clarinete incorporados na Procissão dos Passos. Poderiam ter ido longe na música estes dois jovens, que permaneceram amigos, quer no trabalho quer fora dele.
Diamantino casou, a 23 de Agosto de 1959, na Igreja Matriz de Ovar, com uma moça do Torrão do Lameiro, sendo muito bem recebido pelas gentes do lugar, onde fez muitas amizades e onde colaborou no Coral da Capela, grupo que vinha das mãos da família Adelino Matos.
A partir deste trabalho realizado na Capela, e com a colaboração de algumas pessoas do lugar, resolveu formar um grupo de rapazes e raparigas que, mais tarde, deu origem ao rancho “As Morenitas do Torrão do Lameiro”. Em 1960, tendo em cima das suas costas e no fundo dos seus pés uma carga de trabalhos, que conciliava com o seu labor profissional de torneiro mecânico, Diamantino lá ia andando, sempre cheio de alegria. Na flor da idade, nada o fazia temer. Até que, em 1962, por motivo de doença pulmonar, teve de ser internado no hospital do Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia, onde perdeu várias costelas. Mesmo assim, não se deixou ir abaixo. Querendo que o seu trabalho iniciado neste lugar não parasse, pediu-me para ficar à frente do rancho com outro colega, até que o seu estado de saúde melhorasse. Eu, embora com pouca prática e poucos conhecimentos de música, aceitei o encargo. E o que é certo é que, com a força de vontade de todos, o rancho nunca parou. E quando o Diamantino regressou, vieram também ideias novas, e o rancho conseguiu ir mais longe.
Em Março de 1970, sentindo que as andanças que tinha não chegavam para ocupar os seus tempos livres, decidiu criar um conjunto típico, formado por ele e por mais sete ou oito figuras, grupo esse que durante 23 anos de actividade obteve bons sucessos nas suas actuações de norte a sul do país, e até no Canadá (1976 e 1979) e em França (1984).
Este sucesso fez com que o Diamantino fosse tendo cada vez mais gosto no seu trabalho e não se ficasse só por aqui. A prática na vida artística e os conhecimentos culturais adquiridos proporcionaram-lhe a participação, com o rancho “As Morenitas”, em dezenas de festivais de folclore nacionais.

Um homem de projectos

Diamantino Santos
Juntamente com vários colegas e povo do lugar, fundou, em 1978, a Associação Desportiva e Cultural do Torrão do Lameiro, e, entretanto, ensaiou vários grupos, lançou trupes de reis com músicas e letras da sua autoria, e deu aulas de música no lugar.
Durante 40 anos, Diamantino foi um homem de projectos, que punha em cima da mesa de trabalho perante os outros colegas, sempre em benefício da terra vareira, destacando-se na organização dos Festivais de Folclore Pró-Emigrante de 1988 a 1993, e do Festival da Canção de Ovar nas festas da cidade de 1989 a 1993, tendo sido dos primeiros homens a organizar a “festa dos marretas” na praia do Torrão do Lameiro, e chegando a reger a Música Nova de Ovar.
Mesmo tendo de remar contra a maré, nunca virou a cara às entidades oficiais, quer às ligadas ao folclore, quer à Câmara Municipal, Turismo, Junta de Freguesia, INATEL…
Diamantino não foi ídolo, mas por onde passou deu provas de que era um homem para fazer mais e melhor tanto na sua carreira como em prol dos outros.
Caindo de cama devido a uma mazela num pé, não deixou, mesmo assim, de dar aulas de música a jovens do lugar, morrendo agarrado às notas de música em 20 de Abril de 1994.
Diamantino Santos pertencia a uma geração descendente de pescadores e doutores, tendo, nos anos de 1900, três segundos tios ao serviço da música na Banda de Espinho.

Conjunto Típico “Os Marinheiros”, do Torrão de Lameiro
Fico-me por aqui. Não peço nada a ninguém, mas seria bom lembrar a quantos lidaram com ele que façam justiça à sua memória. Por tudo aquilo que ele fez ao serviço da cultura portuguesa durante quarenta anos, presto-lhe a minha melhor e merecida homenagem.

Texto lido pelo autor por ocasião da homenagem que lhe prestaram o Grupo Folclórico “As Morenitas” e o Conjunto Típico “Os Marinheiros”, do Torrão de Lameiro, em 21 e 22 de Abril de 2007 no Salão da Capela do Torrão de Lameiro e no Jardim do Cáster.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 146)