15.8.17

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Capa do jornal ovarense "JOÃO SEMANA"
Edição de 15 de agosto de 2017

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NA CAPA:
- 15 de agosto – Assunção de Nossa Senhora 
- Os Alegre – De Ovar a Roma
- Volta dos vencedores num dia pela vida
- A Casa dos Pobres de Ovar

NO INTERIOR:
- Escuteiros de Ovar no ACANAC 2017
- Lição de São Cristóvão continua presente
- "Correio do Tempo" – Rui Resende
- Realizador vareiro premiado em Avanca
- "Palavras com Sentido" [n.º 33]
(entre outros artigos e notícias)

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1.8.17

OVAR – Origem etimológica

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2017)
TEXTO: M. Antonino Fernandes

Sobre a origem do topónimo Ovar, o P.e Miguel de Oliveira, em “Ovar na Idade Média”, houve por bem fazer uma pertinente recensão de cinco explicações, vulgarizadas em corografias, enciclopédias, etc., que ele tachou de falsas. Permito­-me recordá-las, em síntese:
1.ª - do verbo “Ovar – pôr ovos”, por Ovar “ficar na orla ma­rítima e servir de refúgio às aves”.
2.ª- = de Vale, por se estender num vale e os moradores trocarem o l por r e dizerem Bar por Vale;
3.ª - de Var, por haver em França um rio assim chamado, e os autores pensarem que se estabele­ceram aqui marinheiros franceses e lhe teriam dado também o nome de “Vila do Var”.
4.ª- do radical céltico balt, comparado com o grego bar e o árabe bahr, que daria o substantivo grego ò bar;
5.ª de Oduarii, antropónimo germânico, por haver na Galiza uma herdade chamada Ovar, que fora de um presor Oduário.
Ora a raiz Bal e Var, proposta nos n.º 2, 3 e 4, prova-se documen­talmente. Tanto assim que vemo-la bem clara na onomástica mevieval, já em 922, e, depois, em 1046, 1081, 1083 e 1151, primeiro como “porto de Obal” e seguidamente como “villa Obar” e “rio (ou ria) Ovar”. E, até mesmo arqueológica e cartograficamente, ela figura em “Lavara”, topónimo mencionado em Monarchia Lusitana, t. I, p. 130 verso, bem como em “Lava­re”, outro topónimo, sito na nossa costa marítima, entre as cidades Lancóbriga e Talábriga, como revelou Manuel Malícia em 1-8- 2013, no n.º 150 deste jornal.

DO ATLAS DE JOÃO TEIXEIRA (ALBERNAZ) - 1648
O mais prolífico cartógrafo português da 1.ª metade do século XVII
Sociedade de Geografia de Lisboa - Reservados 14 A-1

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Assim sendo, como se explica e justifica esta incontroversa raiz do topónimo Ovar?
Atendendo à sua situação ge­otopográfica, num amplo vale banhado pela ria e pelo mar, onde aportaram vários invasores, no­meadamente os Mouros, que do­minaram na área mais de 5 séculos, é natural que este vale fosse visto e nomeado por eles “ALBAHR”, pois este vocábulo significa “Lagoa e mar”, na lín­gua deles. A presença deles aqui é, aliás, também confirmada pelo topónimo ALMIARES, mencio­nado pelo sobredito P.e Miguel, o qual significa “celeiro, depósito de provisões”.
O dito vocábulo Albahr serviu também para nomear ALBUFEI­RA, no algarve, que se encontra em situação idêntica à de Ovar, e disso nos dão conta o Elucidário de Santa Rosa Viterbo e o Dicionário Onomástico de J. Pedro Machado.
De resto, o próprio P.e Miguel de Oliveira aponta-o no n.º 4, mas não se deu ao trabalho de o aproveitar e explorar, o que acho estranho, pois não tenho a menor dúvida sobre a origem árabe deste radical de Ovar.
Mas, o problema fundamental, em que esbarraram as sobreditas explicações, foi a origem do prefi­xo Ò (aberto), para o qual chamou a atenção o mesmo autor de “Ovar na Idade Média”.
O certo é que o prefixo ò é uma contração oral de ao e este ao resulta da junção da preposição latina ad com o artigo árabe Al, que “he huma partícula inseparável dum nome e serve para todos os géneros, números e casos”, como esclarece Frei Joan de Souza, em “Vestígios da língua Arábica”, pág. VIII. Este artigo Al deu la e le, em francês, donde se escrever Lavara e Lavare, já referidos; e os artigos definidos a e o, em vernáculo, os quais, juntos com ad, que perdeu o d por apócope, se aglutinaram em à (= aa) e ò (= ao). Isto, desde longa data, na língua oral, donde ser vulgar dizer-se: vou à ria; vou ò mar, vou ò Porto, etc.
Fica, assim, esclarecido e jus­tificado aquilo que os intérpretes, na sua visão onomástica, não atinaram.
É que o típico OVAR fala-nos duma origem histórica remota, que tem raízes profundas no mar. Disso não tenho a menor dúvida, nem receio contraditas.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de julho de 2017)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/08/ovar-origem-etimologica.html

ADENDA -----------------------------------------

Leia AQUI mais informação sobre este Atlas do século XVII 
[clique nos links]

Na edição de 1960 dos Portugaliae Monumenta Cartographica é dado a conhecer um pequeno atlas de Luís Teixeira, que descreve a costa de Portugal, datado de 1648. Na época foram identificados quatro exemplares e mais uma cópia do mesmo. Na Nationalbibliothek de Viena existem dois exemplares deste atlas. No British Museum, em Londres existe um outro exemplar. Finalmente, em Portugal tinha sido também encontrado um exemplar, que se encontra na Sociedade de Geografia de Lisboa.

5.7.17

As origens do Folclore em Ovar (I)

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/2016)
TEXTO: João M. Gomes Costa

Era através de canais, por meio de embarcações (bateiras, mercan­telas, moliceiros e os mercantéis de sal) que o lugar da Marinha fazia as suas ligações com as localidades da Nossa Senhora de Entráguas, Ribeira de Mourã (Avanca), Bunheiro, Murtosa, Aveiro, entre outras. Em Pardilhó realizava-se, mensalmente, a feira dos 9 e 23, local onde se vendiam, entre outros, produtos hortícolas e animais, sendo também as embarcações o meio privilegiado de transporte para ali. Era mais fá­cil ir às feiras de Pardilhó do que às de Ovar, pois os acessos para esta vila eram menos acessíveis. A atual descendência do povo da Marinha resulta de laços matrimoniais que ao longo dos tempos foram sendo es­tabelecidos entre as gentes daquelas regiões, com particular ênfase de Pardilhó e do Bunheiro.

Os serões, as festas...
Antes de 1950 já havia entre os jovens a tradição de aproveitarem as longas noites dos serões inver­nosos para cantarem e dançarem nas eiras, cobertos e pequenas salas das localidades da Marinha, Torrão do Lameiro e Quintas do Norte. Findo o verão, e iniciando-se o ou­tono, começavam as tradições das escolhedelas de feijão, momentos sempre propícios à animação das gentes, com danças e cantares que serviam, igualmente, para os rapa­zes e raparigas estabelecerem os primeiros namoricos. Em setembro começavam as estonadas (designa­das noutras regiões por desfolha­das), período da recolha do milho e das escolhedelas. Também era nes­ta altura que se faziam as cortadas de tiras feitas em tecidos de roupa velha, que se destinavam quer à criação de mantas de farrapos, quer às abridelas de lã, que se destina­vam ao fabrico de mantas.

Uma atuação do Rancho Folclórico de Ovar

Na Marinha e no Torrão do La­meiro cultivava-se aveia, centeio, cevada, milho e feijão. O grão do milho e do centeio, depois de se­parado respetivamente dos canulos e da palha, era moído, para depois se fazer broa, que servia tanto para consumo próprio como para venda, tal como os respetivos cereais. Os animais domésticos que criavam também eram alimentados tanto com os cereais como com a palha que deles resultava. O feijão era uma leguminosa que também fa­zia parte da subsistência do povo, nesta localidade. A cevada, sendo igualmente de subsistência, tam­bém era comercializada, tal como a palha, para o gado. As palhas des­tes cereais tinham ainda uma ou­tra funcionalidade: com elas eram enchidos os colchões das camas, servindo ainda de acomodamento, proporcionando um certo conforto nas proas dos barcos que povoa­vam os canais da ria, já que eram as pequenas embarcações o meio de transporte privilegiado nas des­locações. Em todas as atividades que implicassem o trato e a prepa­ração dos dife­rentes cereais, bem como após a realização das estonadas e cor­tadas de tiras e abridelas de lã, o povo, anima­do, procurava o lado lúdico da confrater­nização e do convívio. As­sim, os rapazes e as raparigas juntavam-se, rotativamente, nas várias casas – as raparigas, tendo sempre como fir­me e claro propósito a realização dos (referidos) trabalhos agrícolas –, e só no final das tarefas, aprovei­tavam o resto do serão para então dançarem e cantarem. O tocador em algumas modinhas poderia dan­çar, não necessitando de as acom­panhar musicalmente, pois eram exclusivamente cantadas.
O único moinho de vento que existia no lugar da Marinha estava montado em cima de 2 ou 4 rodas de carro de tração animal. A pro­prietária deste moinho era conheci­da pelo epíteto de “Ti Pataca”, pro­veniente de uma família abastada da localidade.
No quotidiano doméstico, para além dos trabalhos da lavoura, as mulheres iam buscar às margens da Ria molhos de tojo, giesta ou carqueja, que chegavam dos bar­cos provenientes do rio Vouga, e que traziam à cabeça. Por sua vez, os homens transportavam dois molhos no bordão (pau de dois metros e com um diâmetro de 8 a 10 cm), fazendo o percurso da Ria até às dunas. Tal tarefa constituía uma preparação/defesa para que as areias não arrasassem as plantações de pinheiros, além de que era ne­cessário protegerem-se construin­do abrigos, contra ventos e marés, do Torrão do Lameiro até Maceda. Ao regressarem das suas tarefas aproveitavam para se divertirem, dançando e cantando ao desafio. As raparigas, quando iam carregadas com os molhos, levavam a concer­tina ao ombro, pois era impossível ao tocador transportá-la, uma vez que também ele ia carregado com o referido bordão.

O rancho da Marinha
Segundo um artigo de Lamy Laranjeira na edição n.º 14 de 1980 da Revista Reis, José Coito, ensaia­dor do Grupo Folclórico de Ovar, era “exigente, severo para as faltas cometidas e condescendente para ocorrências felizes”. Na mesma re­vista, o poeta Homem de Mello as­severa que “o marido da cantadeira é um elemento precioso”, dadas as exigências das suas funções e os conhecimentos na arte de dançar.
O professor Manuel Lopes Conde formou e preparou um gru­po de jovens e adultos da classe lavradeira para atuar no Campo da Associação Desportiva Ovarense, nas festas sanjoaninas, junto com outros grupos de marchas de Ovar. De acordo com a revista Reis de 1987, num artigo publicado por Maria Luísa Resende, ao apresen­tar-se no referido local, o grupo das Marinhas “apareceu a destoar: em vez de arcos e balões, trouxe as lan­ternas de ir às minhocas e trajos de trabalho… Quando entrou no Cam­po, foi uma vaia geral, um gozo in­descritível. Começaram a dançar as suas modas e o público, estupefac­to, parou de rir e de assobiar.
No fim, aplaudiu de pé! Aí nas­ceu o primeiro rancho folclórico de Ovar!”.

Esta era uma forma de se ma­nifestarem, reivindicando por não existir luz elétrica na Marinha e no Torrão do Lameiro. A eletrificação destes lugares só surgiu em 1959, sendo inaugurada, simultaneamen­te, em ambas as localidades. Foi nesse grupo organizado, e com esse ensaiador, que nos anos de 1950 nasceu o Rancho da Marinha. A partir deste espetáculo a Junta do Turismo passou a incentivar a ma­nutenção deste grupo para a reali­zação de outros espetáculos a nível regional e nacional. 

(Continua)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de abril de 2016)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/07/as-origens-do-folclore-em-ovar-i-e-ii.html

4.7.17

Memória do Dr. Álvaro Esperança

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2016)
TEXTO: Eduardo Tomás Alves

1) Um ovarense adotivo, mas apaixonado
Dr. Álvaro Esperança
Passará no próximo dia 17 de abril o 117.º aniversário de nasci­mento do médico Álvaro dos Santos Esperança (1899-1988). O Dr. Es­perança viveu cerca de 70 anos em Ovar, onde foi médico, sub-delegado de saúde e político conservador nos tempos do anterior regime. Era filho de gente do centro-sul do nosso país. Seu pai (falecido em 1936) era origi­nário de Coimbra e foi contramestre das oficinas da CP em Ovar; além de adepto do líder político António José de Almeida, embora fosse católico e muito devoto da rainha Santa Isabel. Já sua mãe nascera em Santarém e tinha ligações de família ao Dr. José Frederico Pereira Marecos (1802-44), diretor da Imprensa Nacional e redator do Diário do Governo.
O Dr. Esperança nasceu em Al­cobaça (S. Martinho do Porto) e veio a falecer na cidade do Porto, em casa da sua única filha, Isabel, onde passou os últimos 8 anos de vida. A sua outra ausência de Ovar fora por causa do curso de Medicina, que fez na sua também querida Coimbra. Toda a vida, aliás, seria fanático por Ovar, pela Ria, por Coimbra e por Portugal.

2) Médico e eterno sub-delegado de saúde
Médico zeloso e competente, ocupou por quase 40 largos anos o referido cargo de sub-delegado de Saúde em Ovar, recusando promo­ções só para não se afastar da terra que tanto amou. Foi um fiscal incor­ruptível, implacável para com as frau­des e os mixordeiros. Teve também um louvor do Governo, aquando da crise do tifo-exantemático. Herdara de sua mãe o carácter e o visual algo “pombalinos”, mas tal não o impedia de ser um bom conviva, à mesa ou na pesca, o seu passatempo favori­to. Em velho, uma sua imagem de marca era também a de fumar cachimbo.

3) Foi casado com a Prof. Leonilde Coelho, da Feira
Uma beldade feirense e esti­madíssima professora primária em Ovar por cerca de 20 anos, sua esposa nascera na terra de sua mãe, Travanca, a 5 km de Ovar. Mas seu pai era o Prof. Vicente Coelho, natural de Fiães da Feira, primo do deputado republicano Dr. Elísio de Castro (1869 – 1956), o qual foi sogro da filha do famoso primeiro­-ministro Afonso Costa. D. Leonilde (que morreu com 97 anos) foi amiga íntima da mãe do cantor Manuel Frei­re e da avó do Dr. Carlos Encarnação (PSD). Outra pessoa muito chegada foi D. Romana Fragateiro, nora do Dr. Ginestal Machado, um fugaz primeiro-ministro da Primeira República (em 1923). Irmão da Prof. Leonilde foi também o notável mé­dico e político oposicionista feirense Dr. Arnaldo Santos Coelho (1913 – 2001), que foi o primeiro presidente do município da Feira depois de 1974 (não eleito), e que era primo do duas vezes autarca salazarista Dr. Domingos Coelho, da mesma Feira.

4) Dois cunhados que nunca se zangaram
A relação do Dr. Esperança, situacionista, com o Dr. Arnaldo, oposicionista, irmão de sua mulher, foi sempre exemplar. E discutiam muito sobre política. Um verdadeiro exemplo, uma harmonia que conti­nuou depois de 1974.

5) Uma marca na toponímia?
O apaixonado ovarense Dr. Espe­rança, cuja vida, como se viu, marcou por tantas décadas esta nossa terra, não logrou, até ao momento, qual­quer menção na toponímia do glo­rioso município vareiro, uma cidade em contínua expansão. Por que não agora? É uma ideia que aqui deixo, em abono da Saudade e da Justiça…

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 2016)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/07/memoria-do-dr-alvaro-esperanca.html

17.6.17

Ovar e Póvoa de Varzim no trilho de Fátima

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2017)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Uma breve notícia de um jornal diário, dando conta de um documento inédito relacionado com as aparições de Fátima, acordou em mim um mundo de emoções e instigou-me a visitar o Museu Municipal de Póvoa de Varzim.
O que referia, então, essa notícia? Que foram há pouco encontradas, bem no fundo de um velho baú de recordações, as respostas, sucintas, da Vidente de Fátima a um inquérito que lhe foi feito em 1946 pelo escultor José Ferreira Thedim a fim de este se documentar para a criação de uma nova imagem de N.ª Sr.ª de Fátima. Ora, este tema toca-me de perto, por ser da mesma época uma imagem histórica de que Ovar se orgulha, por ser a primeira esculpida com a invocação do Imaculado Coração de Maria. 

A primeira imagem do Imaculado Coração de Maria, na Igreja Matriz de Ovar (1946)
[FOTO: Fernando Pinto]

Foi neste estado de espírito que contactei o descobridor desse documento, Arquiteto Rui Bianchi, neto do mestre Thedim, que me informou que o achado se encontrava na exposição “Caminhar com Maria – O culto mariano no Arciprestado de Vila do Conde/Póvoa de Varzim”, patente no museu local.

Ontem o comboio; hoje o metro
Tomado o comboio em Ovar com destino ao Porto, acompanhado pelo jornalista Fernando Pinto, Diretor-adjunto do “João Semana”, logo fomos aclarando as razões e os contornos da viagem, iniciada na estação do caminho de ferro de Ovar, em que, pouco depois da chegada da linha férrea até Gaia (1863), “um pobre homem da Póvoa”, como se retratou Eça de Queirós, abriu o seu romance “A Capital”, com o protagonista Artur Corvelo a embarcar para Lisboa.
Passámos Espinho, onde, naquele tempo, alguns comboios paravam, exclusivamente para carregar peixe da arte xávega, ali introduzida pelos pescadores de Ovar.
Até Campanhã houve lembranças de Lúcia, um dos videntes de Fátima, que viveu, em jovem, em Gaia e no Porto. Em curta correria, tomámos o metro para a Póvoa, um percurso que até há pouco era feito por comboio, e atravessámos as terras da Maia, onde diversos santeiros produziram para todo o mundo milhares e milhares de imagens da Virgem da Cova da Iria.
O antigo convento e o aqueduto de Vila do Conde, e a figura tutelar de José Régio, o poeta dos "Poemas de Deus e do Diabo", dos Cristos Crucificados e de "uma Nossa Senhora de madeira arrancada a um calvário de capela", deram-nos sinal da proximidade da Póvoa.

Sabores e saberes
Tal como tinha sido combinado, esperava-nos junto à velha estação poveira o arquiteto Rui Bianchi, assessor do município, que nos guiou até ao Museu Municipal, onde nos esperava a diretora, Dr.ª Deolinda Carneiro. Pouco nos faltava para se concretizar o móbil da visita. Ei-lo, o inquérito a Lúcia, bem guardado numa vitrina, no centro da exposição, junto a uma bela Virgem de Fátima (ver foto AQUI). Fazendo eu menção de fotografar o documento, a Diretora, delicadamente, com um não vale a pena, porque tenho uma cópia completa para lhe dar, convidou-nos a uma visita rápida à Exposição e ao Museu, através de salas e corredores pejados de obras de arte, detendo-se no seu gabinete, que transmitia, através de livros e de peças artísticas, o perfume e o encantamento do belo.
A visita transformava-se em festa, partilhada com alguém que, transpirando saber já provado em muitas páginas escritas com sabor à terra, ao mar, às tradições e à fé da gente poveira, nos mostrou e ofereceu fotos de imagens de Maria e catálogos de exposições de Arte Sacra ali realizadas.
A conversa fluía livre e espontânea quando, reparando num belo álbum sobre insetos, o pensamento do Fernando Pinto voou para Ovar, onde, em tempos idos, numa vasta área ribeirinha, houve marinhas de sal e campos de arroz, e que hoje são o habitat natural de plantas e borboletas raras, das mais raras que há no mundo, tal como a borboleta pavão diurno, que ainda em maio se poderia observar na foz do rio Cáster, e cuja fotografia, deste artista ovarense, tem deliciado os cibernautas.
Atento ao diálogo, o arqueólogo José Flores, marido da diretora, e que, como ela e como o jornalista do “João Semana”, se entrega a trabalhos de campo nessa área da natureza, deixou o seu gabinete, trazendo na mão um livro da especialidade, "As Borboletas de Portugal", de Ernestino Maravalhas, repleto de fotografias coloridas, uma das quais reproduzindo, nada mais, nada menos do que um daqueles delicadíssimos lepidópteros.

Cada imagem o seu gesto
A nossa pesquisa voltou-se, de novo para o documento que nos trouxe ali, o Inquérito de 1946, cuja cópia tínhamos já entre mãos, juntamente com alguns recortes de jornais estrangeiros e fotos relacionadas com Fátima. De facto,  logo pudemos  constatar que, sendo o questionário assinado pela Vidente em 09/11/1946, não poderia ter influenciado a escultura de Albano França acolhida na Igreja Matriz de Ovar quatro meses atrás, em 12 de julho desse ano, imagem que Lúcia não chegou sequer a conhecer, e que tão pouco conheceram as entidades de Fátima, que ainda em 1969 a julgavam “desaparecida”.


A 1.ª escultura do Imaculado Coração de Mariaassinada pela Casa França, existente, desde 1946, na Igreja Matriz de Ovar, com as correções pedidas pela Irmã Lúcia em 1943/44.
(O escultor não teve em atenção o “franzido do cinto”)
[FOTO: Fernando Pinto]


Chancela do escultor na base da imagem
do Imaculado Coração de Maria reproduzida acima

[FOTO: Fernando Pinto]


Irmã Lúcia junto à maqueta do Imaculado Coração
de Maria não executada pelo Padre Mc Glynn (1947),
no livro "A Vidente de Fátima Dialoga e responde
pelas Aparições", de Sebastião Martins dos Reis,
mas de acordo com a maqueta de José Ferreira
Thedim para as imagens de 1948/49 
Pelo n.º 43 do Inquérito concluímos, até, que, embora coincidindo com as informações dadas por Lúcia em 1943 e que serviram de base para o esboço corrigido por ela, em tudo correspondendo à imagem de Ovar, a resposta sobre o Imaculado Coração de Maria está direcionada para a confeção de uma nova escultura que Thedim viria a produzir e a oferecer à própria Lúcia em 1948, como recordação da sua entrada no Carmelo, mas que, não tendo agradado totalmente à Religiosa, foi substituída por outra, que lhe foi entregue em Coimbra em 1949 e que erradamente é tida como a primeira imagem daquele título, em desfavor da de Ovar, esculpida três anos antes, em 1946, pela Casa França, do Porto, em circunstâncias ainda não de todo aclaradas, e que é para Ovar motivo de santo orgulho.
A jornalista brasileira Regina Helena de Paiva Ramos, afirma no jornal "A Gazeta" de São Paulo, de 5 de março de 1958, que numa entrevista que fez a José Ferreira Thedim, este lhe contou que conversando com Lúcia, no Colégio do Sardão, em Gaia, em 1946, pouco depois do seu regresso de Espanha, iniciou um trabalho artístico. "Fiz primeiro a maqueta e depois o modelo mais perfeito em gesso. Mostrei-o à Irmã Lúcia (na foto) para que o aprovasse ou não. Depois executei a imagem e levei-a à Vidente. Ela abraçou-se à Nossa Senhora, dizendo: "É a que mais se parece com a minha mãe do Céu".


Extrato da pergunta n.º 43 do Inquérito feito pelo escultor
José Ferreira Thedim à Irmã Lúcia que o assinou em 09/11/1946

Poderá esta imagem corresponder a uma maqueta ao lado da qual foram fotografadas, em 1947, quer a religiosa, quer uma jovem noviça, ou poderá referir-se mesmo à versão definitiva de uma das imagens do Carmelo.
Apesar de não de todo esclarecedora, ficou bem marcada esta visita do “João Semana” à Póvoa do Varzim, cidade irmã de Ovar porque o mesmo mar as acaricia e alimenta, e similares tradições lhes fortalecem as almas gémeas.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/06/ovar-e-povoa-do-varzim-no-trilho-de.html

Clique neste link para ler o texto

Ovar no culto de Fátima – Uma imagem histórica na Igreja Matriz


31.5.17

Alberto Ramires – Do “Poço da Morte” à Fapral

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2016)
TEXTO: Orlando Caió

Alberto Ramires
Alberto Ramires é um nome incontornável na área dos parques de entretenimento e diversão em Portugal. Filho de mãe espanhola – de seu nome Agostinha Ramirez – e de pai português, viera ao mundo no dia 2 de Maio de 1921 na freguesia de Santa Maria, concelho da Covilhã, distrito de Castelo Branco.

Construtor do próprio “poço da morte”
Em meados da década de 1940 construíra o seu próprio “Poço da Morte” com 6 metros de diâmetro por 7 metros de altura, onde, na qualidade de principal atração, ar­riscava a vida montado numa moto da marca inglesa Williers. A afina­ção da moto era feita pelo conhe­cido mecânico Alexandre Seixas. Na véspera das atuações, Alberto Ramires levava a moto à garagem do referido mecânico, ao tempo si­tuada na Travessa Júlio Dinis.
Alberto Ramires foi o primeiro artista português a atuar no Poço da Morte que, nas décadas de 1940 e 1950, era uma das principais atrações que percorriam as mais importantes feiras do País, assim como festas e romarias.
Pouco tempo depois de sozi­nho ter alcançado notável sucesso, convencera a sua irmã mais nova, Zulmira Ramires, a formar com ele uma dupla. E passaram a atuar em simultâneo, montados cada um na sua própria moto, rodopiando pe­las paredes de madeira do “Poço da Morte” sem qualquer rede de proteção, a uma velocidade próxi­ma dos 90 quilómetros/hora.
A ideia da dupla era algo de novo que agradava ao público, e os “Irmãos Ramires” passaram a ganhar a vida desafiando a morte.
Alberto Ramires chegou a atuar no Poço da Morte em diversos locais de Ovar, por exemplo no Furadouro, por altura das Festas do Mar, e em Arada durante os dias de Festa de Nossa Senhora do Dester­ro, depois de atuações na Feira de Março em Aveiro, festas de Lame­go, Covilhã, Espinho, Palácio de Cristal no Porto e ilhas da Madeira e dos Açores.
Alberto Ramires, que crescera em Viseu e viveu algum tempo em Aveiro, fixou-se em Ovar na década de 1950, depois de ter residido no lugar de Souto, Santa Maria da Feira.
Em finais da referida década deixara de ser artista do Poço da Morte, para se dedicar exclusiva­mente a outros géneros de diversão como por exemplo os carrosséis de girafas e aviões e as pistas de automóveis elétricos.
Moto antiga Williers
Na decisão de deixar o “Poço da Morte” talvez tenha pesado o facto de numa das atuações ter esmagado as pontas de alguns dedos da mão direita.
Conheci-o em finais da década de 1950 ou inícios da década de 1960, quando na cabine de coman­do da pista de automóveis insta­lada no local onde atualmente se encontra o Palácio da Justiça e no Largo dos Combatentes – bem per­to da sua residência –, de microfo­ne na mão e com estilo, anunciava: – “Vamos para nova corrida e nova viagem, que esta terminou!”.
Depois da incursão pelos car­rosséis e pistas de automóveis, Al­berto Ramires viria ainda a fundar em 1965 uma empresa de plásticos industriais, à qual foi dada o nome “Fapral”, que funcionou até Março de 2013 em São João de Ovar, jun­to à estrada nacional 109.
Alberto Ramires foi de certo modo um aventureiro, mas tam­bém um homem de coragem, inteligência e visão, que a 16 de Julho de 2011 chegaria ao fim da corrida da vida, já com a bonita idade de 90 anos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/06/alberto-ramires-do-poco-da-morte-fapral.html

17.3.17

Homenagem de Ovar ao Dr. Ramiro Salgado

Dr. Ramiro Salgado
(1932-2014))
Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2016)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Entre as pessoas e as instituições contempladas pela Câmara Munici­pal de Ovar com medalhas de ouro, prata e cobre, conta-se, a título póstumo, o Dr. Ramiro Benjamim Cordeiro Fernandes Salgado, já detentor, desde há anos, da medalha de cobre, que há alguns anos, lhe foi atribuída pelos bons serviços prestados à comunidade vareira quando aqui exerceu as funções de médico cardiologista, e a quem agora foi entregue a Medalha de Mérito Municipal Ouro, pelo facto de ter composto uma canção – “Ovar” – excecionalmente feliz quer na parte melódica, quer no texto poético, que expressa os valores morais, patrimoniais e paisagísticos da nossa cidade, constituindo um verdadeiro ex-líbris de Ovar, que a Tuna “Os Voluntários de S. João da Madeira” mantém, desde há 30 anos, no seu repor­tório, como a pedra mais preciosa do tesouro que lhe legou o seu fundador.


OVAR
Letra e música de Ramiro Salgado

Capa do 1.º de diversos discos gravados pela Tuna
dos Voluntários de S. João da Madeira
Ovar! Perto de ti o nosso mar.
Ovar! Tens a riqueza desse mar.
Ovar! A ria é, quando a brilhar
Nas noites mornas de luar,
De uma beleza sem igual!

Ovar hoje é cidade, sem favor.
Ovar, de tanta história e fervor.
Ovar tem Carnaval,
Tanta alegria e cor!

Ovar! Vou à praia ficar
Junto à duna a sonhar.

Ovar! Tens a varina e o pescador.
Ovar! Do Pão de Ló tens o sabor.
Ovar! Tantos comboios a chegar,
Trazendo vidas a lutar
Numa aposta de amor.

Ovar! Vou à praia ficar
Junto à duna a sonhar.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de agosto de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/03/homenagem-de-ovar-ao-dr-ramiro-salgado.html



Manuel Colares Pinto
Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2017)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Recordando o “Hino de Ovar”

Em 1952, nas Festas Centená­rias, foi cantada pelo Orfeão de Ovar uma composição musical da autoria do Padre Agostinho de Oliveira Félix, então Pároco de Ovar, construída sobre uma letra de Manuel Colares Pinto, composição essa (na gravura ao lado) que, não tendo a divulga­ção necessária, não alcançou o sucesso que se esperaria, estando praticamente esquecida.


Padre Félix
No fim da década de 80, o Dr. Ramiro Salgado, natural de Torre de Moncorvo e residente em S. João da Madeira, médico cardiologista que durante muitos anos exerceu clínica em Ovar, terra a que ficou indelevelmente ligado por laços afetivos, criou uma canção de nome “Ovar” que a tuna “Os Voluntários de S. João da Madeira” gravou no primeiro dos seus discos, e que passou a ser considerada como que o ex-líbris daquele agrupamento.
Esta canção que muitos consideram como o “Hino de Ovar” tem sido muito utilizada na abertura e no fecho da emissão da Rádio Antena Vareira e antes e no fim dos jogos de futebol da Ovarense.
O autor destas linhas, que colaborou com o inspirado médico na transcrição musical de várias das suas criações, honra-se de ter contribuído para fixar o ritmo desta composição, e, após a sua morte, com o consentimento de sua esposa e de seus filhos, ousou ajustar pequenos detalhes do texto: duna em vez de barra; chegar em vez de passar, e “Ovar tens a varina e o pescador /Ovar do Pão de Ló tens o sabor” (em vez da repetição das duas primeiras linhas do poema), e ainda repe­tindo, no final da canção, as linhas 9 e 10: “Ovar! Vou à praia ficar junto à duna a sonhar”, com o acrescento do nome “Ovar”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/03/homenagem-de-ovar-ao-dr-ramiro-salgado.html



Texto que acompanhou, em 25/07/2016 a canção "Ovar", interpretada por Américo Oliveira e Ana Andrade, com acompanhamento das duas Bandas Filarmónicas de Ovar – Ovarense e Boa União – em homenagem ao Dr. Ramiro Salgado, seu autor, em cerimónia que continuou nos Paços do Concelho com a entrega da Medalha de Mérito Municipal Ouro, a título póstumo.


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22.2.17

A mais antiga história de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2017)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

A Trupe de Reis JOC/LOC de Ovar apresentou este ano, como primeiro número do seu programa (saudação), um texto baseado num documento histórico de Ovar datado de 28 de abril de 1026, e que vem publicado (em latim e em português) nas páginas 36, 37 e 38 da obra “Ovar na Idade Média” (C.M. Ovar, 1967) do historiador vareiro padre Miguel de Oliveira.


CLIQUE na gravura para aumentar

Do texto original reproduzimos parte da tradução portuguesa:
“Cristo. Em nome de Deus, eu Meitili, faço-te a ti, Octício carta de venda de toda a quarta parte das nossas propriedades, que possuí­mos por herança de pais e avós, na vila de Cabanões e em Muradões, sob o monte Castro de Recarei, no território da cividade de Santa Maria, junto do curso do rio Ovar (…) porque nos resgataste do cati­veiro a mim Meitili e a minha filha Guncina e nos tirastes das barcas dos Normandos, dando por nós um manto de pele de lobo, uma espada, uma camisa, três lenços, uma vaca e três moios de sal, tudo no valor de 70 módios, em presença dos próprios senhores que moravam na casa de Santa Maria da Civi­dade, Tedom, Galindes, Fernando Gonçalves e Erro Teles, e do preço nada deixaste de pagar. (…) E eu Meitili reboro por minha mão esta carta de venda, perante as testemu­nhas presentes: Ederónio, Cáceme, Erigo, David, Songemiro. Notário, o abade Vasco”.
(O Castro de Recarei situa­-se em S. Martinho da Gândara. Cássemes é o nome de um lugar de S. Vicente de Pereira. A Casa de Santa Maria da Cividade é o Castelo da Feira.)

A mais antiga história de Ovar

Voz: Este ano, em noite de Reis,
Diferente é o nosso saudar,
Trazendo à memória
A mais velha história
Da antiga terra de Ovar.

Coro: Há mil anos, em mil e vinte e seis,
Cumprindo dura sina,
Vão p’ra o mar,
De canastra e rapichéis,
Meitili e Guncina.
Noite de abril. Cobre o mar
Um céu de anil,
E num esteiro há um veleiro
Com piratas a espiar.

Trupe de Reis JOC/LOC 2017
(Foto: Fernando Pinto)
Voz: É um bando normando
Que assalta e rapina,

Coro: Que prende Meitili e Guncina.

Coro: O sol já brilha,
No veleiro há um debate
– Maravilha! – mãe e filha
Vão obter o seu resgate.

Voz: E um jovem pirata
Vendo tão bela donzela,

Coro: Suspira ficar cativo dela.

Voz: Este ano, na noite de Reis,
Diferente é o nosso saudar,
Trazendo à memória
Amais velha história
Da antiga terra de Ovar.

Coro: Há mil anos, em tarde de abril,
Finda tão dura sina,
Deixam o barco e o bando normando
Meitili e Guncina.
A um certo Octício,
Deram terras, p’ra as livrar,
Em Cabanões e Muradões,
Junto do rio Ovar.

Voz: E o bando normando
Alto preço determina

Coro: P’ra soltar Meitili e Guncina:
Uma espada,
Um manto de pele lupina,
Uma camisa, um animal
E muitos módios de sal.

Voz: Quando no esteiro há nevoeiro,
A voz do mar
Fala de um pirata a suspirar…

Letra de Manuel Pires Bastos

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/a-mais-antiga-historia-de-ovar.html



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O Carnaval da minha juventude

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2017)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Depois de terminarem os festejos do Ano Novo e do cantar das trupes de Reis, Ovar prepara-se para viver o Carnaval, que é hoje um enorme cartaz de propaganda da nossa cidade, atraindo a ela muitos forasteiros e foliões. Mas nem sempre foi assim.

As cegadas
Contaram-me algumas pessoas que viveram a sua juventude nas primeiras décadas do passado século XX, que até aos anos 30 havia em Ovar, pelo Carnaval, as cegadas, uma espécie de represen­tação teatral de rua, com versos musicados a criticarem certos acontecimentos que decorreram durante o ano na nossa terra. Entre os vários factos criticados há um que não resisto a descrever, por ser atual: Trata-se da execução da estrada de Ovar a Pardilhó.
Quando os nossos antepassados necessitavam de se dirigir a esta e outras localidades vizinhas, bem como à Senhora de Entráguas, caminhavam através dos pinhais que se estendiam a partir do antigo Matadouro do Casal. Os políticos de então, sempre que havia elei­ções, prometiam ao povo que, se ganhassem, mandariam construir a estrada. Mas nunca cumpriam o prometido.
Na última metade do século passado, aquela via foi finalmente construída. Mas enquanto isso não aconteceu, nas antigas cegadas de Carnaval cantava-se ironicamente:

“A estrada de Pardilhó
Vai ser feita p’ra janeiro
Os carros vão-se arranjar
No Guilherme Serralheiro”.

A serralharia do Guilherme era na Rua Alexandre Herculano, junto ao Passo do Encontro.

Os entrudos
Embora já tivesse escrito um texto no “João Semana” de 15 de fevereiro de 2002 fazendo alusão aos precursores do Carnaval de Ovar, recordo agora como era o Carnaval da minha infância, com­posto essencialmente pelos entru­dos (hoje chamados mascarados), que desfilavam pelas ruas da vila, dando-lhes bastante alegria desde o domingo gordo até à terça-feira de Carnaval, também conhecida pelo dia do Entrudo.

Santa Camarão (vestido de guerreiro), Fernando Alçada e o seu cunhado João Costa
no desfile do domingo go
rdo de 1956, saído de S. Miguel
Fantasiavam-se usualmente enfiando uma meia na cabeça ou tapando a cara com um pano ou uma máscara, e algumas ve­zes caricaturando certas figuras públicas. Vestiam-se com roupa velha de homem ou de mulher, conforme o gosto de cada um, e alguns seguravam nas mãos placas com inscrições de piadas, muitas vezes em verso, criticando certos acontecimentos na nossa terra…
No conjunto das brincadei­ras mais hilariantes dessa época carnavalesca destacava-se a do “rabo-levar”, que consistia em colocar um rabo de pano ou de papel seguro por um alfinete nas costas do Entrudo, sem o seu co­nhecimento, provocando imenso riso a quem assistia. Por vezes, os mais jovens cantarolavam, ao lado dos mascarados: “Ó Entrudo cabeludo, sete saias de veludo”.
No passeio do lado norte da Câmara, na Praça da República, junto das antigas lojas do Teixeira e do Camarão, aglomerava-se muita gente para os ver passar, e algumas pessoas atiravam para a estrada rebuçados, que os rapazes tentavam apanhar, provocando grande confusão no trânsito.
João Salvador (João da Vareiri­nha), pai do António Salvador (Rei do Carnaval entre 1979 e 1983), era um desses habituais atiradores de rebuçados.

O corso de domingo
Entretanto, os anos foram correndo, e noutras localidades portuguesas já desfilavam cortejos carnavalescos, que estimularam al­guns conterrâneos nossos a porem também nas ruas da nossa terra um corso similar.

Carro do Bairro da Arruela (1952)

No extinto jornal “Notícias de Ovar” costumavam encontrar-se três amigos, só um dos quais, o saudoso bairrista José Maria da Graça, era de Ovar. Os outros dois, Aníbal Emanuel da Costa Rebelo e José Alves Torres Pereira, eram naturais do Porto e da Póvoa do Varzim, respetivamente.
Nas suas longas conversas, estes amigos abordavam o tema do Carnaval, admirando o entusiasmo do povo vareiro que, em grande número, se fantasiava, em grupos isolados, nos dias de Entrudo. Porque não saírem em cortejo? Com o apoio de António Coentro de Pinho, presidente da Câmara, e, posteriormente, de outros ilustres ovarenses, os três começaram a organizar o primeiro corte­jo de Carnaval, formado em S. Miguel, de onde saiu em 1952.
Nos pri­meiros anos o cortejo desfila­va apenas no domingo gor­do, com car­ros alegóricos enfeitados a cargo de comissões de pessoas dos respetivos bairros ou de empresas locais.

O Carnaval sujo
Na terça-feira de Carnaval, por volta das 17h00, com anún­cios de morteiro, dava-se início ao chamado Carnaval sujo, onde muitos dos participantes atiravam casca de arroz, serradura, farinha e outros produtos. Era no Largo Serpa Pinto, em redor do chafariz do Neptuno, que essas brincadei­ras atingiam o auge, provocando as gargalhadas de quantos a isso assistiam.
Durou poucos anos esse tipo de divertimento, passando a repetir-se na terça-feira o cortejo de domin­go, conforme acontece nos nossos dias.
O Carnaval de Ovar da minha juventude era diferente daquele a que assistimos hoje. Sem am­bições comerciais ou turísticas, não possuía escolas de samba, nem outras imi­tações bra­sileiras, que hoje atraem à nossa terra milhares de forasteiros e foliões. No entanto, em­bora fosse um Carnaval caseiro, ge­nuíno e espontâneo, também era muito alegre e divertido.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/o-carnaval-da-minha-juventude.html