5.4.08

Onde e porque “dormem” os nossos barcos moliceiros?

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/1995)
TEXTO: Fernando Pinto

Barcos moliceiros na ria de Ovar
FOTO: FERNANDO PINTO
Onde e porque “dormem” os nossos barcos moliceiros? Esta pergunta pode, à primeira vista, parecer um tanto ou quanto ingénua. Mas não é!... Para fotografar o rosto destes dois belos exemplares, tive que andar um bom bocado.
Confesso que quase caí na tentação de ir comprar um postal para ilustrar o meu artigo.
Nos dias que correm, poucos são os barcos que “dormem” nas margens magras da ria. Um sono que só não é eterno porque o turismo e os turistas, felizmente, lá os vão acordando. Quando isso acontece, dá gosto vê-los espreguiçarem-se nas águas espelhadas da ria, num gesto quase humano, como que acabados de acordar de uma noite merecida de descanso.
Antigamente, os barcos moliceiros eram talhados para o trabalho. Hoje, não passam de simples embarcações de recreio.
Barcos moliceiros no Areinho, Ovar
As algas é que beneficiaram com esta preguiça involuntária, tomando, pouco a pouco, conta daquilo que foi, outrora, um bonito e perfumado lençol de água, deixando-o, principalmente na maré-baixa, enegrecido e com um aroma nada agradável.
Ao contemplarmos as pinturas que caracterizam as proas e as popas dos barcos moliceiros
, onde, normalmente, impera o vermelho, o azul e o amarelo, descobrimos que foram essas “pinturas de guerra” que não deixaram morrer a esperança, despertando a atenção de todos nós.

Dentro dos moliceiros iam, normalmente, mais de duas pessoas. Estas, descaíam os seus corpos na diagonal, e, enquanto caminhavam pelas bordas do barco, mergulhavam lentamente um enorme ancinho na água pouco profunda. Após esta operação, vinha à tona o alimento que iria saciar, mais tarde, as terras de cultivo. Este gesto repetia-se até que o monte de moliço quase fizesse submergir o barco.
O moliceiro encanta-nos com a sua rara beleza… O moliceiro é, e sempre foi, filho legítimo da ria. Sem ele, não teríamos postais com tanta cor para “oferecer” aos forasteiros que por cá passam. Aproveito esta oportunidade para perguntar aos responsáveis pelo desassoreamento da ria:
– Quando é que começam a limpar este nosso património?
Ah! Para os que não sabem, o moliceiro “sabe nadar”. Contudo, são precisas mãos “fortes”, calejadas, e muita, muita força de vontade, para limpar a lama que o prende.
É urgente colocá-lo na água. Depois, ele faz o resto…
Barcos moliceiros na ria de Ovar: um novo em folha e outro votado ao abandono
FOTO: BENJAMIM DE SOUSA E SILVA
Barco moliceiro a precisar de trato, de mãos habilidosas
FOTO: BENJAMIM SILVA

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE OUTUBRO DE 1995)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/onde-e-porque-dormem-os-nossos-barcos_05.html

1 comentário:

sergio silva disse...

O visitor de Valencia - Espanha hoje domingo sou eu , Sergio nascido na Murtosa e com saudades da minha Ria ...da Cambeia,do Chegado, da Gafanha Baixa, do Bico da Bestida , da Torreira , Sao Jacinto...
Aqui existe a Albufeira de Valencia...imaginei muitas vezes um barco moliçeiro navegando nela !!! Abraço