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7.6.14

Ovar possui a primeira imagem do Imaculado Coração de Maria

 Imagem do Imaculado Coração de Maria (de Ovar)
 executada em 1946 pela Casa França
FOTO: Fernando Pinto
Jornal JOÃO SEMANA (01/05 e 01/06/2014)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 1946 foi colocada na Igreja Matriz de Ovar uma nova imagem, sob a denominação de Imaculado Coração de Maria, em substituição de outra mais antiga que passou a estar ao culto na Capela do Furadouro.
A nova imagem, ligada às revelações de Nossa Senhora em Fátima foi sinalizada pelo jornal “João Semana” em 25/07/1946 como sendo a primeira que se esculpiu com esse tí­tulo em Portugal (e, obviamente, no mundo), o que constitui uma honra para Ovar.
Só que, por razões que nos escapam, estas particularidades têm sido, desde então, silencia­das pelos historiadores de Fátima.
Este texto, em complemento de outros que vimos publicando desde 2005, é mais um desafio à transparência e à transmissão lógica dos factos.

1 - As razões deste trabalho

Em 1 de julho de 2005, num texto intitulado “Ovar no culto de Fátima” publicado no quinzenário ovarense “João Semana”, demos a notícia de termos encontrado na­quele jornal e no Arquivo Paroquial de Ovar documentação comprova­tiva de que a imagem do Imaculado Coração de Maria que desde 1946 se encontra ao culto na Igreja Ma­triz da cidade vareira é “a primeira que em Portugal se esculturou se­gundo as indicações da vidente de Fátima”[1].


Por sugestão do Município lo­cal, o mesmo tema foi desenvol­vido em 2006 na revista concelhia “Dunas & Perspectivas”[2], agora sob o título “O culto de Fátima no concelho de Ovar”, onde à in­formação referida acrescentámos alguns pormenores sobre a aqui­sição daquela imagem quando da comemoração do Tricentenário da Padroeira de Portugal, e sobre a sua entrada solene em Ovar em 12 de julho de 1946, com a presença do Bispo do Porto D. Agostinho de Jesus e Sousa que, por provisão de 8 do mês anterior [na carta, ao lado], autorizara subs­tituir a antiga imagem do Sagrado Coração de Maria[3] por outra que concentra “as duas devoções na mesma imagem: Senhora de Fáti­ma e Imaculado Coração de Ma­ria”[4].
Tanto quanto nos apercebemos, foi nula a reação a estas informa­ções por parte das instituições liga­das à temática desta obra de arte sa­cra a quem fizemos chegar o texto.
Ressalvamos duas exceções: Monsenhor João Gonçalves Gaspar, no seu livro “Macieira de Alcoba – Ermida e Imagem de Nossa Senho­ra de Fátima” (2006), e o Doutor Marco Daniel Duarte, na sua tese de doutoramento, que prestaram aten­ção aos dados por nós fornecidos em 2005 e 2006, sem que, no entanto, tivéssemos conhecimento de achegas adicionais provindas de outras fontes.
Só em 2013, alguns anos depois de o referido texto de 2005 ter sido editado na Internet, no sítio “Arti­gos do jornal João Semana”, é que nos chegaram alguns comentários, vindos de pessoas ligadas às famí­lias Fânzeres (de Braga), Thedim (da Maia) e França (do Porto), que davam e pediam informações sobre esta questão, para nós tão apaixo­nante como inexplorada.
Igreja Matriz de Ovar (década de 40)
Nesse ano de 2013, decorrendo em Fátima uma grande exposição dedicada ao Imaculado Coração de Maria, seria lógico que se falasse da imagem de Ovar, de 1946, da qual déramos informação jornalísti­ca desde 2005.
Para maior estranheza, quando, em janeiro último, compulsámos a obra “Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Ima­culado”[5], não encontrámos ali qualquer alusão à histórica imagem, que o “João Semana” de 25/07/1946 assevera ter sido esculturada segun­do as indicações de Lúcia. 
Porque o assunto ainda não le­vedou, e porque se nos depararam mais algumas achegas, vamos par­tilhar a nossa investigação para que seja possível que a “luz ilumine to­dos os que estão em casa”.





2 - O começo da história

A partir da publicação do 3.º volume das “Memórias de Lúcia” (1941), em que a vidente expõe a mensagem relacionada com a con­sagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, as Irmãs do Sa­grado Coração de Maria desejaram ter nos seus colégios uma imagem alusiva à aparição, como incentivo à devoção dos primeiros sábados.

Pedida a colaboração das Irmãs Doroteias, estas, através de contac­tos com Lúcia, então a viver em Es­panha, dispuseram-se a recolher os dados necessários para satisfazer o objetivo em causa. Feito um esboço figurativo da aparição (na foto), foi este aprovado pelo Cardeal Patriar­ca e pelo Bispo de Leiria, e logo enviado à vidente, que em 1943 deu o seguinte parecer, escrito pelo próprio punho, e com emendas as­sinaladas por traços e uma cruz.
“A mão direita mais à altura do ombro como que refletindo, ao mesmo tempo, para os assistentes. Do lado esquerdo, o manto caindo menos para diante. O coração com os espinhos à volta. Nem o cora­ção, nem as mãos, nem a imagem tinha raios, era luz, reflexo”.
Depois de um encontro da primeira Diretora do Colégio do Sagrado Coração de Maria, Madre Chantal, com José Ferreira The­dim (1891-1971), em Lisboa, para o acerto dos pormenores referentes à imagem a esculpir, tudo levava a crer que a obra se concretizaria pe­las mãos hábeis daquele artista.
Sagrado Coração de Maria,
 calcando a serpente, atri­buto
distintivo da Imaculada Conceição

(Colégio do Instituto do Sagrado
Coração de Maria, Lisboa)


3 - Primeira fase de imagens

Algo de imprevisível terá for­çado Thedim a abandonar aquele projeto. Terá sido o compromisso de esculpir uma nova imagem de Nos­sa Senhora de Fátima – a Virgem Pe­regrina –, cujo esboço em fotogra­fia Lúcia tinha aprovado em 1943, e que, após o regresso da vidente a Portugal, em 15 de maio de 1946, depressa foi concretizado (1947)? Ou terá sido o facto de as Irmãs Cor­dimarianas, face à de­mora do escultor, terem optado por outro tipo de modelo de escultura? [Imagem ao lado]
Tais contratempos mereceram do antigo Reitor do Santuário de Fátima, Monsenhor Antunes Borges, em 1959, o seguinte co­mentário: “Longa foi a expectativa, não che­gando sequer a apa­recer aquela primeira imagem que devia servir de modelo para todas as outras”[6].
Entretanto, à Casa França passa a caber o protagonismo de exe­cutar essa imagem, a mesma que em 12 de julho de 1946 deu entrada em Ovar, bem como outras da mes­ma fase (com “o braço à altura do ombro”), entre as quais a da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (1946), em pedra, que reproduz o modelo da de Ovar, e a da Igreja dos Clérigos (1948), ambas no Porto[7].

As imagens do Imaculado Coração de Maria das Igrejas
da Senhora da Conceição (à esquerda) e dos Clérigos (Porto)

A primeira, com data de 1946, e a segunda, de 1948. As primeiras pombas
só surgem junto da Imagem Peregrina a partir de dezembro de 1946. 
Marca de Maias Irmãos, na imagem do Imaculado Coração de Maria
da Igreja dos Clérigos do Porto (1948)

4 - Segunda fase de imagens

Irmã Lúcia junto à maqueta do Imaculado Coração
de Maria não executada pelo Padre Mc Glynn (1947),
no livro "A Vidente de Fátima Dialoga e responde
pelas Aparições", de Sebastião Martins dos Reis,
mas de acordo com a maqueta de José Ferreira
Thedim para as imagens de 1948/49 
Em 1947 é apresentada a Lúcia, no Colégio do Sardão (V. N. Gaia), uma recente maqueta (na foto, ao lado), executada pelo escultor Pa­dre Mc Glynn, correspondendo a uma segunda fase iconográfica do Imaculado Coração de Maria, que se demarca da primeira fase sobre­tudo pela posição das mãos, mais próximas da cintura, iconografia esta que será assumida por José Ferreira Thedim em duas imagens (1948 e 1949, particularmente na segunda, a mais preciosa, do Car­melo de Coimbra) e pela generali­dade dos escultores seguintes.

5 - Adenda
No livro “Um caminho sob o olhar de Maria”, a pág. 352 lê-se: “Há muito que a Irmã Lúcia de­sejava que se fizesse uma imagem representando Nossa Senhora na posição tomada quando mostrou o Seu coração Imaculado. Tinha feito diligências e deu indicações, por duas vezes vestiu uma menina representando esta aparição, para ser fotografada e servir de modelo, mas nunca acontecia (…)”.
Referem-se os autores neste texto à primeira fase iconográfica, na época em que Lúcia e as Irmãs Doroteias, correspondendo ao ape­lo das Irmãs do Sagrado Coração de Maria, procuravam, em colabo­ração com José Thedim, delinear a imagem do Imaculado Coração, que o próprio escultor deveria re­produzir, mas que viria a ser escul­turada por Albano França, proprie­tário da Casa França, do Porto.
Extrato do jornal “João Semana”, de Ovar, de 25/07/1946

(Continua...)

Notas
[1] “João Semana”, 25/07/1946
[2] “Dunas & Perspectivas”, n.º VI, no­vembro de 2006, págs. 89 a 106)
[3] A partir daí a imagem ficou ao culto na Igreja do Furadouro
[4] “Como se pede” do Bispo do Porto de 08/06/1946
[5] “Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Maria Lúcia de Je­sus e do Coração Imaculado”, edições Carmelo, 2013
[6] Borges, Monsenhor Antunes, “Como surgiu a primeira imagem do Imacula­do Coração de Maria”, em “Fátima 50”, ano II, n.º 23, de 13/03/1969, pág. 10-16.
[7] Marco Daniel Duarte refere que José Thedim foi colaborador de Albano França, adquirindo parte dos utensílios de trabalho da Casa França

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de maio de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/05/ovar-possui-primeira-imagem-do.html

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Ovar possui a primeira imagem do Imaculado Coração de Maria

(Continuação)


6 – Primeiras tentativas de representação (1.ª fase)

Pintura a óleo executada pela Irmã
Henriquieta Malheiro Vilas Boas (1946)
Aprovada superiormente, em 21/12/1943, uma fotomontagem elaborada pelo Reitor do Santuário de Fátima Amílcar Martins Fontes, e corrigida a mesma por Lúcia, logo em 1946 surgiram, titubeantes, as primeiras versões da imagem do Imaculado Coração de Maria, de que se destacam:
a) O quadro a óleo da colega de Lúcia Irmã Henriqueta Malheiro Vilas Boas, doroteia (1876-1971), apresentado como “a verdadeira imagem da aparição do Imaculado Coração de Maria que a vidente de Fátima conservava profundamente gravada na sua viva e colorida ima­ginação”[1].
b) “A imagem do Imaculado Co­ração de Maria, executada no Porto, na Casa França [2], entronizada na Igreja Matriz de Ovar em 12 de ju­lho de 1946, e que o jornal “João Semana” identificava como “a nova imagem do Imaculado Coração de Maria, a primeira que em Portugal se esculturou, segundo as indicações da vidente de Fátima, e que foi oferecida por uma família devota desta vila”[3].
Um pormenor desta imagem de Ovar – “a mão direita mais ou menos à altura do ombro” – indicado por Lúcia em 1943, passa a identificar a primeira fase de esculturação deste modelo, repetido em imagens simi­lares da Casa França (Igreja de N.ª Sr.ª da Conceição, Porto, 1946)[4], de Maias Irmãos (Igreja dos Clérigos, Porto 1948) e de outros artistas.

7 – Outros modelos icono­gráficos

Como escrevemos, e por razões que não apurámos completamente, as Irmãs do Sagrado Coração de Maria, que na busca de um modelo de imagem do Imaculado Coração de Maria muito colaboraram com as Religiosas Doroteias (incluin­do Lúcia), e com o escultor José Thedim, acabaram por procurar outros artistas, que satisfizeram o seu pedido, mas seguindo modelos iconográficos diferenciados. Assim, enquanto no Colégio de Lisboa o Imaculado Coração de Maria é representado pela Virgem com um coração no peito e uma serpente sob os seus pés (tal como nas imagens de Nossa Senhora da Conceição), no do Porto quem pontifica é uma Senhora do Rosário, já que o Colé­gio tem esta titular como patrona.

A maqueta do Padre McGlynn
(1947)
8 – Um recuo na imagem de McGlynn

O Padre McGlynn junto
da imagem do Imaculado
Coração de Maria
A maqueta do Imaculado Co­ração de Maria (na foto) executada pelo escultor americano Padre Thomas McGlynn (1906-1977), e benzida pelo Papa em Roma em Março de 1947, após alguns acer­tos sugeridos pela vidente (ver J. S. 1/5/2014), marca uma 2.ª fase em relação à imagem de Ovar, apresentando as mãos espalmadas, frente à cintura.
Intrigante é o facto de McGlynn, que apresentara, em 1947, a maquete inovadora, tenha seguido, dez anos depois, o modelo da primeira, ao esculpir, entre 1956/58, em Roma, em mármore de Pietrasanta, a gigan­tesca estátua da fachada do Santuário de Fátima (4,73 m e 13 toneladas), inaugurada em 13/05/1959.

9 – As imagens de José Ferrei­ra Thedim (2.ª fase)

Livre de compromissos com as Religiosas do Coração de Maria, José Ferreira Thedim pôde idealizar e executar duas novas criações de estatuária fatimita: a Imagem Pere­grina de Nossa Senhora de Fátima, e o antigo projeto assumido com Madre Chantal em 1944-45, mas agora estribado no modelo da ma­queta do P.e McGlynn, apadrinhada por Lúcia em 1947 quando religiosa doroteia em V.N. de Gaia.
A entrada da Irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra em 25/3/1948 impulsionou o escultor a levar a cabo a missão adiada. Escreve Lúcia nesse mesmo ano: “O The­dim espera dar-me a imagem do Coração Imaculado de Maria para a festa do dia 8 de dezembro” [5].
A primeira imagem do Imaculado Coração de Maria
executado por José Ferreira Thedim (1948)
Porque a imagem (na foto) não lhe agradou plenamente, veio uma segunda, que foi benzida em 25 de março de 1949, 1.º aniversário da sua Profissão Solene.
A propósito, lê-se na obra “Um caminho sob o olhar de Maria:
“Uma primeira imagem não foi aprovada pela Irmã Lúcia, por ter a mão direita demasiado erguida. Perante as apreciações da vidente, o escultor José Ferreira Thedim ofereceu essa, que se encontra no Carmelo do Bom Jesus de Braga, e realizou uma nova escultura. Agora, sim, tinha a posição das mãos que a Lúcia interpretava como o gesto maternal que levanta o filho caído: com a mão esquerda o filho que caiu, e com a mão direita ampara-o e abençoa-o. Este filho é cada um de nós, explicava... Na Profissão Solene foi uma fotografia desta imagem que serviu para o recordatório” [6].
Achamos que “a mão demasia­do erguida” aqui atribuída à primei­ra destas imagens (a de 1948, hoje em Braga), tê-la-ão relacionado os autores da obra com as imagens da 1.ª fase, como a de 1946 (de Ovar) [7].
Irmã Lúcia acolhendo­-se sob a mão direita
 da imagem do Carmelo de Coimbra, de José
 Ferreira Thedim, escul­pida em 1949
Quanto à simbologia da mão direita nestas duas imagens de Thedim, a Irmã Maria da Paz de Cristo, que conviveu com a Irmã Lúcia durante oito anos em Coim­bra, e hoje vive no Carmelo de Braga, refere que a vidente afirmava que na mão um pouco elevada da primeira (foto), via uma atitude “impositiva”, enquanto na segunda, de Coimbra (ao lado) ela descobria um gesto de acolhimento. Que teria imaginado Lúcia, em 1943, ao propor “a mão mais à altura do ombro”, tal como a recriaria, em 1946, a Casa França? Talvez um gesto de bênção e carinho de uma mãe que convida os seus filhos a cumprirem a mensagem de Fátima.

10 - Conclusão

Na sua tese de doutoramento, Marco Daniel Duarte afirma, acerca da imagem de Coimbra, benzida em 1949: “Trata-se, efetivamente, da primeira imagem escultórica do Imaculado Coração de Maria, pelo menos a que tradicionalmente se aceita como tal” [8]. Mas reco­nhece o autor que, não obstante, deve atender-se às investigações por nós publicadas no jornal “João Semana” de 01/07/2005 e na revista “Dunas” de 2006, onde se afirma, “em argumentação plausível”, que “a primeira imagem do Imaculado Coração de Maria está em Ovar”, sugerindo que o gesto da imagem de 1946 – e, acrescentamos nós, de muitas outras posteriores (inclusive na de McGlynn (1956-1958), seja “enquadrado num estudo mais desenvolvido que vise esclarecer essa genealogia final das primeiras representações do Imaculado Cora­ção de Maria a partir da Mensagem de Fátima”.
A “genealogia” parece-nos sim­ples e de boa cepa: nasceu da infor­mação da própria Lúcia ao corrigir a fotomontagem de dois esboços que lhe apresentaram em 1942 e em 1943: “A mão direita à altura do ombro, como que refletindo, ao mesmo tempo, para os assistentes”. Ao recuperar esta posição da mão direita, depois de ter experimentado uma nova postura (a da 2.ª fase, que Thedim assumiria com a total apro­vação de Lúcia), não terá o Padre McGlynn pretendido nobilitar essa “genealogia”, bem expressa na “pri­meira imagem que em Portugal se esculpiu segundo as indicações da vidente de Fátima”?

Notas
[1] Borges, Monsenhor Antunes, “Como surgiu a primeira imagem do Imaculado Coração de Maria”, Fátima 50, Ano II, n.º 23, pág. 10 a 14.
[2] Albano da Silva França, escultor de prestígio, formado na Escola de Belas Artes do Porto, com obras espalhadas por todo o país, inclusive em Fátima. Era filho do santeiro José da Silva França, e irmão de Olívio da Silva França (afilhado do san­teiro José Fernandes Caldas, da freguesia de Sequeira, Caldas, Guimarães, pintor da imagem de Ovar, e pai do escultor de arte Sousa Caldas, segundo informações de D. Maria Paula França Macedo da Cunha Mendes, neta do Olívio.
Sérgio de Oliveira e Sá, autor do livro “Santeiros da Maia no último ciclo da es­cultura cristão em Portugal”, em comentá­rio que nos enviou pela internet, opina que França Esculp. se refere a Albano França, e não a José Ferreira Thedim (Neto), como admitimos em textos anteriores.
[3] “João Semana”, 25/07/1946 (Ver transcrição mais completa da notícia em J. S. 01/05/2014).
[4] Imagem em pedra ançã, com algu­mas pombas (J. S. 01/05/2014).
[5] Ver Tese de Doutoramento de Marco Daniel Duarte "Fátima e a criação artística (1917-2007): o Santuário e a Iconográfica - a arte como cenário e como protagonista de uma específica mensagem"  
[6]  “Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado”, Edições Car­melo, 2013.
[7] A relacionar rigorosamente a mão direita com a imagem de 1948, deveria tê-la descrito como “um pouco elevada”.
[8] Esta conclusão não corresponde, de facto, à realidade, já que a primeira imagem, como se constata, é de 1946. A imagem de 1948 é, simplesmente, a primeira de José Ferreira Thedim.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de junho de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/05/ovar-possui-primeira-imagem-do.html




(Leia os comentários deixados no referido artigo)

22.11.12

Zeladoras da Igreja Matriz [de Ovar]

Memórias de um antigo sacristão de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2012)
TEXTO: António Dias Fernandes

Recordar, passo a passo, todos os meus 28 anos entregues à vida da Igreja e ir buscar ao fundo da memória todas estas recordações e pô-las em folha, sei que é o meu melhor agradecimento a todas aquelas senhoras que durante anos e anos dedicaram à Igreja alguns dos seus dias e muitas das suas tardes, com o fim de cuidarem dela e de a adornarem, para que todos os que ali entrassem sentissem um ar de conforto, de asseio e de amor. Para muitos, elas foram umas desconhecidas, talvez nunca procurando saber de quem eram as mãos habilidosas que com carinho e competência enfeitavam os altares da nossa Matriz.
Igreja Matriz de Ovar (cerca de 1910)

Altar do Senhor da Agonia
É justo realçar aqui a posição da Sr.ª D. Ester Augusta Nunes da Silva, esposa do Dr. Nunes da Silva, que fez deste altar uma coisa sua, que o tratou como um filho seu e que, com sacrifício, o valo­rizou com uma restauração total, douramento, ofertas de castiçais e serpentinas, carpetes, ricas toalhas bordadas e cortinados em damasco. Mas o restauro que mandou fazer na imagem de Cristo Crucificado terá sido a sua melhor ação. Que Deus a tenha consigo, juntamente com todas aquelas zeladoras que com ela colaboraram no arranjo deste altar: Manuela Belo, Rosa Alminha, Eduarda Alminha, Laura Correia Dias, Ema Antero, e Olívia Dias.

Altar do Senhor dos Passos
A zeladora que mais recordo é a Sr.ª D. Eduarda Vilas, com mais de 50 anos dedicados a este altar, sempre pronta, zelosa e cheia de amor por tudo o que fazia.

Zeladoras do altar do Passo da Igreja com dois irmãos
da Ordem Terceira em meados dos anos 70

É admirável como mulheres com responsabilidades nos seus lares conseguem sair deles, e que na Igreja encontram um segundo lar, onde há dedicação e asseio. Acompanharam-na sempre: Irene Dias, Nazaré do Grande, Encarna­ção do Céu Pinto, Maria Carolina, Adelaide Elvas, Ana Dias, Aninhas Catalão, Nazaré Saboga, Cecília Marcelino, Maria do Céu Constantino. Esta última senhora foi, sem dúvida, uma benemérita que a Igreja não deve esquecer. Lembro-me do lindo lustre e da bonita carpete que ofertou. A Sr.ª D. Maria do Céu Picado deixou tam­bém valores importantes a este altar.

Altar do Coração de Maria
Foram zeladoras deste altar: Maria Cândida R. Anselmo, Amé­lia Criosa, Madelana e Maria José Carosa, Luciana Vinagre, Palmira Lopes Tanásia e Judite Lopes Ta­násia, Maria Helena Felintra, Al­bertina Coelho, Rosa Lírio e Maria Manuela Lírio, e Emília Malaquias Batatel.
Sinto-me ainda na obrigação de lisonjear a Sr.ª D. Maria Cândida R. Anselmo, com 50 anos dedicados, com sacrifício e muito amor a este altar.

Altar-mor (antes, do Santíssimo Sacramento)
Boas senhoras deixaram ali o testemunho dos seus tra­balhos cuidados e asseados. Foram elas: D. Maria Godinho, Ana Lamarão, Carmina Silva Lamarão, Maria do Carmo Salvador, Ester Soares de Sousa, Deolinda Gomes, Maria de Jesus Ferreira, Maria Mar­garida Travessa, Francelina Baeta, Joaquina Ribeiro Araújo, Maria Helena Araújo Oliveira Cardoso, Maria Carolina de Oliveira Car­doso, Raquel Ferreira Malaquias, Leonor Prado Bueno do Amaral e Emília Malaquias Batatel.

Altar da N.ª Sr.ª do Rosário
Outro punhado de senhoras entregou-se, com amor e sacrifí­cio, a este altar. É justo realçar o trabalho da Sr.ª D. Rosa Pinto, da Ponte Reada. Foi, sem dúvida, uma vida inteira dedicada a este altar. Acompanharam-na: Marquinhas Formigal, Glória Lopes Marques (Marcelino), Leonor Prado Bueno do Amaral, Ester Redes, Alzira Redes, Rosa Safanó.

Altar do Santíssimo (ou Sagra­do Coração de Jesus)
Das suas zelado­ras, dotadas de extre­ma dedicação, pode dizer-se que em cada flor que ofertavam ia uma mão aberta de amor e sacrifício.
Margarida Go­mes da Silva Capoto (n. 1917) tomou o encargo do mês de julho, sucedendo a Margarida e a Rosa Polónia (muito an­tigas, tias de Maria Gomes Polónia, que em 1917 teria 60 anos de idade e era Secretária do Apos­tolado da Oração). Eram suas auxiliares: Celeste Camarão, Al­bertina Coelho, Rosa Afonso (uma zeladora que deu muito a este altar), Rosa Oliveira Dias, Sofia Vidal, Maria Carolina de Oliveira Cardo­so (tesoureira depois de 1917), D. Maria Amélia Antero (mais tarde substituída pela sua filha Maria Ema), Conceição Faustina, Agos­tinha Moura, Maria Abragão.

Antigo altar provisório
da Imacu­lada Conceição
Altar da Imaculada Conceição
Foram zeladoras: Sofia Vi­dal, Agostinha Moura, Conceição Faustina, Marília Valente, Maria de Oliveira da Silva, Maria Bárbara Quadros de Almeida, Laurinda Cor­reia Vermelho, Margarida Capoto (tomou conta deste altar quando assumiu também o do Coração de Jesus), Ester e Alzira Redes, Celes­te Camarão (no mês de Maio), Rosa de Oliveira Dias.
A imagem da titular deste altar foi pertença do Colégio das Doro­teias de Ovar, onde era padroeira das Filhas de Maria. Mais tarde, quando da Implantação da Repú­blica, transitou, por compra, para a casa da família Peixoto. Por ini­ciativa e generosidade de Piedade Emília Pinto, Sofia Vaz Vidal e outros, foi adquirida e oferecida para a Igreja Paroquial, onde lhe foi dedicado um altar provisório, até à sua mudança para o altar onde esteve o Sagrado Coração de Jesus.
Acho conveniente relembrar a iniciativa, tomada anualmente pela Sr.ª D. Sofia Vidal, de se fazer uma lavagem a toda a Igreja, depois de espanar todas as paredes interiores, vitrais e guarda-vento, e de limpar altares, imagens e lustres.

Um apelo final
Numa última palavra, gostava que a generosidade feita à Igreja não ficasse por estas grandes bene­méritas, e que neste mesmo jornal, mais tarde ou mais cedo, se venham a relembrar outros grandes atos de pessoas bondosas que, com os seus sacrifícios, tenham ajudado a zelar, a preservar e a enriquecer o nosso património.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE NOVEMBRO DE 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/11/zeladoras-da-igreja-matriz-de-ovar.html

22.8.12

Restauro da imagem de São Cristóvão - Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2007)
TEXTO: Raquel Elvas(*)

Imagem de S. Cristóvão (séculos XV/XVI),
muito deteriorada, de que será feita uma
réplica que passará a ocupar o nicho
da fachada, guardando-se a antiga
Há cerca de um ano, foi apeada da fachada da Igreja Matriz de Ovar a imagem de S. Cristóvão. 
Está, como então foi anunciado, em fase de restauro. Em terras de Ovar. E nas mãos de uma técnica vareira, Raquel Elvas, especialista na matéria, que nos forneceu uma informação actualizada sobre o seu trabalho. Ela aqui fica, para conhecimento de todos.

“Está a ser alvo de intervenção pelo Atelier de Conservação e Restauro do Núcleo Museológico de Arada, a escultura de S. Cristóvão da Igreja Matriz de Ovar.
Tratando-se de uma escultura em pedra de Ançã, calcário muito poroso, com baixa resistência mecânica e elevado coeficientes de absorção de água, desde logo possui elevada susceptilidade aos agentes de alteração.
Depois de um diagnóstico ao seu estado de conservação, concluiu-se que os principais agentes de alteração da escultura têm a sua origem na cristalização de sais minerais patentes no seu interior, provocando danos mecânicos que se manifestam através de lascagem, escamação, esfoliação, pulverização, etc., e que se traduzem por fortes transformações na aparência da superfície. Foram detectadas uma série de lacunas e várias lacunas de material pétreo, assim como inúmeros repintes e preenchimentos resultantes de intervenções anteriores.
A intervenção de conservação rege-se pelo princípio da intervenção mínima, limitando-se esta ao estritamente necessário, respeitando a obra no seu aspecto estético e histórico, bem como na sua matéria original. Os tratamentos realizados e a realizar pretendem eliminar ou estabilizar os fenómenos de deterioração que a vêm prejudicando.
A intervenção iniciou-se com uma limpeza mecânica da peça, para remoção de sujidades superficiais (poeiras, teias de aranha, dejectos de pombos, etc.); remoção mecânica (a bisturi) dos inúmeros repintes existentes, tentando tornar visível a maior área de policromia original; e uma limpeza química de algumas manchas de origem biológica existentes.
O tratamento em curso é a extracção de sais solúveis, através da aplicação de pachos de pasta de papel embebidos em água desionizada, em toda a superfície da escultura.
Quando este tratamento for concluído, irão ser preenchidas todas as fissuras, procedendo-se à consolidação da escultura, melhorando a sua resistência mecânica ao introduzir modificações na sua estrutura interna, dificultando também o acesso e migração interna da água e soluções salinas prejudiciais.
Segue-se a fixação da policromia que se encontrar em destacamento, e a aplicação de uma camada de protecção, caso se verifique que o produto usado na consolidação apresenta um grau de hidro-repelência satisfatório”. (*) Técnica de Conservação e Restauro
Imagem de S. Cristóvão na frontaria da Igreja Matriz de Ovar
FOTO TIRADA NOS ANOS 90, DA AUTORIA DE FERNANDO PINTO

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE JANEIRO DE 2007)

9.2.12

Uma curiosidade na Matriz de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2005)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Na soleira da porta principal da Igreja Matriz de Ovar, sobre o lado esquerdo de quem entra, encontram-se incrustadas duas peças em metal amarelo: uma chapa com a indicação NP 161, e um pequeno espigão.
Dada a pequena dimensão dessas peças, elas passam praticamente despercebidas, acontecendo que, ao longo dos 30 anos que tenho como Pároco, nunca ninguém me perguntou o seu significado.
A primeira informação que recebi sobre o assunto, há cerca de 20 anos, depois de algumas indagações, foi de que se tratava de uma sinalização da Rede Nacional de Nivelamento normalmente colocada em pontos estratégicos das localidades – pelo menos das mais importantes –, e que servia de ponto de referência topográfica em relação ao nível do mar.

A chapa com a indicação NP 161 e o pequeno espigão
(Igreja Matriz de Ovar)

As letras NP significam Nivelamento de Precisão, e o número 161 corresponde ao código do sítio onde se encontra localizado aquele ponto de referência.
Por querermos dar aos nossos leitores conhecimento desta curiosidade existente na Igreja Matriz, pedimos mais informações aos Serviços Cartográficos da Câmara Municipal, que gentilmente no-las concederam.
Cada Marca de Nivelamento tinha 4 testemunhas.
No caso da Matriz - NP161 -, a 1.ª testemunha é o ferro que se vê ao lado direito da chapa (15,443 m acima do nível do mar); a 2.ª está no extremo direito da mesma soleira, a 3.ª no cunhal sul da Igreja, e a 4.ª a meio do 2.º degrau das escadas exteriores (14,528 m), que dão acesso à rua.
Na base das cruzes das torres sineiras estão as marcas de coordenadas (a 45,56 m acima do nível do mar), ligadas, a partir de 1938, à base do Sistema Nacional, situada em Melriça (Vendas Novas).
Este sistema foi praticamente abandonado quando da instalação de um aparelho de medição no alto do depósito de águas, com mais fácil acesso, e, mais recentemente, com a actual triangulação via satélite, que em poucos segundos fornece, através de máquinas de campo sofisticadas, as informações topográficas pretendidas.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 151)

18.1.12

Ovar no culto de Fátima – Uma imagem histórica na Igreja Matriz

A 1.ª imagem que se fez de
Nossa Senhora de Fátima
(1920)
Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2005)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

No início da década 40, a Irmã Lúcia foi consultada pelas religiosas do Sagrado Coração de Maria sobre a forma como Nossa Senhora estava vestida durante as Aparições e, particularmente na de 13 de Junho de 1917, quando revelou aos pastorinhos o seu Coração Imaculado.

A 1.ª imagem de N.ª Sr.ª da Fátima (da Capelinha das Aparições) data de 1920, e é da autoria de José Ferreira Thedim, que a retocou em 1951. Há uma 2.ª imagem (da Virgem Peregrina), do mesmo autor, que data de 1947. Destas imagens se trata mais desenvolvidamente em "O Culto de Fátima no Concelho de Ovar", na revista "Dunas  Temas e Perspectivas", da Câmara Municipal de Ovar.
Sobre estes temas, e em especial sobre a imagem do Coração Imaculado de Maria, Ovar tem uma importante palavra a dizer. Tão importante quanto capaz de esclarecer alguns pontos ainda em aberto nesta matéria.


Pagela de 1943 com um desenho para uma nova imagem de Nossa Senhora de Fátima,
com parecer da Irmã Lúcia e que serviu de modelo para a Virgem Peregrina,
esculpida por José Ferreira Thedim 
(espólio de Manuel Cascais de Pinho, de Ovar)

Lúcia e o Coração Imaculado de Maria

A estampa/fotografia com as correcções
feitas pela Irmã Lúcia: a cruz (a indicar a
subida da mão direita), a cercadura à volta do
coração (no lugar dos espinhos) e o franzido
do vestido e do pescoço
Foram as religiosas da Congregação do Sagrado Coração de Maria que, em Setembro de 1942, após um retiro em Fátima, sensíveis às revelações do Coração Imaculado de Maria à vidente Lúcia “ correspondentes ao 2.º segredo de Fátima (13 de Junho e 13 de Julho de 1917, na Cova da Iria) e às revelações subsequentes (17/12/1927 em Pontevedra e 13/06/1927 em Tuy), descritas, sobretudo, na 3.ª Memória (de 31/08/1941), e querendo incrementar a devoção dos primeiros Sábados nos seus colégios “, assumiram a tarefa de investigar as particularidades iconográficas da imagem, sob a orientação de Madre Maria Chantal de Carvalhaes.
Pedindo informações à Irmã Lúcia sobre a forma como Nossa Senhora revelara o seu coração aos três pastorinhos, e após vários esboços feitos quer por religiosas, quer por um artista e por fotógrafos – estes utilizando como modelo a própria imagem da Capelinha das Aparições –, foi elaborada uma composição fotográfica que, depois de apreciada pelas autoridades religiosas (Setembro de 1943) e pela Vidente, esta corrigiu pelo seu próprio punho (tal como acontecera, anos antes, com a imagem da Capelinha), acompanhada das seguintes instruções escritas:
“A mão direita mais à altura do hombro como que reflectindo, ao mesmo tempo, para os assistentes. Do lado esquerdo, o manto caindo menos para diante. O Coração com os espinhos à volta. Nem o coração, nem as mãos, nem a imagem tinha raios, era luz, reflexo. Não tinha cordão, nem facha, mas formava sinto, com algum franzido no sinto e pescoço”.
Feito novo estudo, foi este enviado à Irmã Lúcia, que sobre ele deu o seguinte parecer em 29/12/43:
“Agradeço a fetugrafia; gostei, das que tenho visto são as que mais se aproximam da realidade”. (Apreciação semelhante à da estampa aqui reproduzida em 15/04/2005).
A edição definitiva das estampas chegar-lhe-ia às mãos em Abril de 1944.

A primeira imagem… está em Ovar
Entretanto, desejando colocar uma estátua do Imaculado Coração de Maria em cada um dos colégios da sua Congregação, e querendo que fosse o mais fidedigna possível em relação às indicações fornecidas pela Irmã Lúcia, Madre Chantal chamou a Lisboa o escultor José Ferreira Thedim (Neto) de S. Mamede de Coronado, que tinha executado, em 1920, a primeira imagem de N.ª Sr.ª do Rosário de Fátima (a da Capelinha das Aparições, alterada em 1951).
É neste período (1944-1945) que, com as informações disponíveis recolhidas pelas Religiosas do Coração de Maria, Thedim dá forma à primeira escultura do Imaculado Coração de Maria.
Na revista “Fátima C 50”, Ano II, n.º 23, de 13/3/1969, pág. 10 a 14, no artigo “Como surgiu a primeira Imagem do Imaculado Coração de Maria”, o então Reitor do Santuário, Mons. Antunes Borges dá a entender ser desconhecido o percurso histórico dessa imagem:
“Longa foi a expectativa, não chegando sequer a aparecer aquela primeira imagem que devia servir de modelo para todas as outras”.
Um enigma? Cremos que agora deixará de o ser!
A 1.ª escultura do Imaculado Coração de Maria, assinada
pela Casa França, existente, desde 1946, na Igreja Matriz
 de Ovar, já com as correcções pedidas pela Irmã Lúcia.
 (O escultor não teve em atenção o “franzido do cinto”)
[FOTO: Fernando Pinto]

Em 1946, ano do Tri-Centenário da Padroeira de Portugal, cujas comemorações tiveram eco em todo o país, a Paróquia de Ovar encomendou à Casa França, do Porto, a expensas de uma família vareira (família Cunha), uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, que substituiria a antiga imagem do Coração de Maria até então existente na Igreja Matriz e titular do altar que fora dedicado, em séculos passados, ao Espírito Santo e a N.ª Sr.ª do Pilar.
Afirma o jornal “João Semana” da época, então dirigido por um probo historiador local (o Padre Manuel Lírio), que “a nova imagem de Nossa Senhora de Fátima, com o coração segundo a revelação feita à Irmã Lúcia das Dores” (edição de 05/05/1946) é “a primeira que em Portugal se esculturou segundo as indicações da vidente de Fátima” (edição de 25/07/1946).
Embora tendo, na base, a indicação “França esc. (escultores) Porto 1946”, essa imagem deve corresponder à executada por José Ferreira Thedim, não só pelas circunstâncias do tempo e da forma da sua concepção, mas também porque era normal as oficinas de comercialização de estatuária religiosa (como a Casa França e a Casa Estrela, do Porto), aporem o seu rótulo a obras que encomendavam a outros artífices [1].
Esta encomenda tê-la-á entendido o Artista como vantajosa, já que, satisfazendo o interesse da paróquia de Ovar, se ressarcia das despesas até aí havidas com o seu trabalho que, entretanto, ficara suspenso, em virtude da alteração iconográfica da imagem proposta pelas Irmãs do Coração de Maria.

Pormenor da 1.ª imagem do Imaculado Coração de Maria
[FOTO: Fernando Pinto]
Pintura a óleo da Irmã Henriqueta Malheiro
Vilas Boas seguindo as últimas sugestões
da Irmã Lúcia sobre a Aparição do Coração
Imaculado de Maria (1946)
Segundo refere o “João Semana”, essa imagem do Imaculado Coração de Maria foi solenemente coroada junto à Câmara Municipal de Ovar, em 12 de Julho de 1946, após “uma entusiástica saudação a Nossa Senhora feita pelo Pároco, Padre Crispim Gomes Leite, no seu trajecto da Capela de Santo António para a Igreja Matriz, onde ficou exposta à veneração dos fiéis. No dia 14, o Bispo do Porto D. Agostinho de Jesus e Sousa, que viera, na véspera, administrar o Crisma, presidiu a uma solene procissão eucarística, durante a qual, na varanda da Câmara Municipal, consagrou o concelho de Ovar ao Coração Eucarístico de Jesus e ao Coração Imaculado de Maria.

A segunda imagem

2.ª imagem do Imaculado Coração
de Maria de José Ferreira Thedim
(1947/48). Carmelo de Coimbra

Mercê de novas investigações e de novas informações da Irmã Lúcia, terá sido proposto a José Ferreira Thedim esculpir um novo modelo, de braços mais abertos, de aspecto mais sóbrio e comunicativo, na linha da figura que, em 1946, Madre Henriqueta Malheiro, também religiosa Doroteia, acabava de realizar na tela, apresentando-a como “a verdadeira imagem da aparição do Imaculado Coração de Maria, que a vidente de Fátima conservava profundamente gravada na sua viva e colorida imaginação”[2].

A nova estátua estava pronta em 1947, porque nesse ano há referências à “recente” maquete para a monumental estátua em mármore do Imaculado Coração de Maria, destinada à fachada da Basílica de Fátima e esculpida mais tarde (entre 1956 e 1958) em Itália pelo artista norte-americano Padre Thomas McGlynn, O. P. [CLIQUE NOS LINKS A AZUL]

O Padre Thomas McGlynn ultimando
a imagem do Imaculado Coração de Maria
A estátua existente no Carmelo de Coimbra, que lhe serviu de modelo, só em 1948, dois anos após a bênção da imagem de Ovar, é que foi entronizada ali, junto ao Penedo da Saudade, em Coimbra, passando a ser considerada o modelo oficioso – e, por isso, o mais divulgado – daquela invocação (foto em cima).
Retomemos a leitura do texto de Monsenhor Antunes Borges:
“Entretanto, a Irmã Lúcia deixava as Doroteias e entrava no Carmelo de Coimbra, em Quinta-feira Santa, pelas 5 horas da manhã do dia 25 de Março de 1948. Devia ser o Carmelo de Santa Teresa que acolheria a primeira estátua do Imaculado Coração de Maria, feita à luz de todos estes longos e meticulosos estudos, acrescidos apenas de pequenos e ulteriores dados, fornecidos pela Irmã Lúcia.”
Carece de ser corrigida esta conclusão, porquanto “aquela primeira imagem que devia servir de modelo de todas as outras” existiu e existe ainda, e nunca esteve desaparecida, como imaginava Mons. Borges. Apenas ficara de reserva, talvez por acabar, na oficina do escultor, até seguir para a Casa França, no Porto, e daqui para Ovar, em 1946.

Conclusão

A Irmã Lúcia em 1945, na pose
recriada em pintura, pela Irmã
 Henriqueta assinada em 1946
A imagem de Ovar, que o “João Semana” de 25/07/1946 identifica como “a primeira que em Portugal se esculturou segundo as indicações da vidente de Fátima”, é, claramente, anterior à de Coimbra, como se pode inferir da cronologia apresentada no citado artigo de “Fátima 50”.
A imagem do Carmelo, mais tardia e mais elaborada, constitui a segunda versão escultórica do mesmo tema, apresentando novos pormenores figurativos entretanto aduzidos quer pela Irmã Lúcia, quer por interpostos artistas, através de esquissos, desenhos e pinturas.
Sem deixar de tecer elogios à beleza desta imagem, conhecida e venerada em todo o mundo cristão, vamos passar a nutrir um carinho especial por aquela que a antecedeu e que, humilde e quase rejeitada, mas também muito bela, foi acolhida com muito afecto pelo povo de Ovar, que a entronizou, em 1946, na sua Igreja Matriz.

José Ferreira Thedim,
autor da Imagem da
Capelinha das Aparições
(1920)
Foi durante uma pesquisa relacionada com a celebração dos 250 anos da Irmandade do Sagrado Coração de Jesus em Ovar e do Cinquentenário do Congresso do Coração de Jesus nesta cidade (1955), que encontrámos nas páginas amarelecidas do jornal “João Semana” de que somos Director, as referências históricas que tornaram possível, aqui e agora, comunicar a todos os amigos e investigadores de Fátima que a primeira imagem de N.ª Senhora “com o coração segundo a revelação feita à Irmã Lúcia das Dores”, que desde 1946 se julgava perdida, foi, finalmente, “encontrada”! Em 2005.
Em Ovar. Para proveito dos amigos e devotos de Fátima, que passam a conhecer um capítulo novo do culto ao Coração Imaculado de Maria. E para espanto dos próprios vareiros que, desde há 59 anos, a veneram e amam sem saberem a sua linda história.


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Notas:
[1] Cf. Sérgio de Oliveira e Sá, “Santeiros da Maia”, Maia, 2002, pág. 120.
[Sobre a autoria da 1.ª imagem leia o texto publicado em http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/05/ovar-possui-primeira-imagem-do.html]
[2] “Fátima 50”, artigo citado.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Julho de 2005)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2012/01/ovar-no-culto-de-fatima-uma-imagem.html

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Nota: Sobre alguns pormenores atualizados dos textos anteriores relacionados com o "Imaculado Coração de Maria", leia os seguintes artigos: 





Leia também este texto da autoria do Padre Manuel Pires Bastos,
publicado no n.º 6 da revista DUNAS (novembro 2006)



Trechos do livro "Os grandes fenómenos da Cova da Iria - A história da primeira imagem
de Nossa Senhora de Fátima", de Gilberto Fernandes dos Santos (edição de autor, 1956)
(ver capa do livro, em cima)