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12.6.12

"O Uso das Coisas" – A MOEGA E A MOENDA

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2010)
TEXTO: Fernando Pinto

A moega e a moenda
A moega é a peça de moinho constituída por uma caixa de madeira (vasilha) em forma de pirâmide invertida, com um orifício no vértice por onde sai, regulado, o grão para a moenda (pedra superior, redonda e giratória, mais conhecida por mó, na qual se trituram os cereais ou outros produtos nos moinhos).
Na década de 80, ía muitas vezes buscar farinha ao moinho de José da Silva Pode, na Ponte Reada, para que a minha mãe pudesse fazer pão num pequeno forno de barro que tínhamos ao fundo do quintal. (Como todas as crianças, preferia ficar a ver as séries de aventura que passavam na televisão em vez de ir fazer os habituais recados próprios da minha idade).
Já na companhia do moleiro (moendeiro ou dono da moenda), com as pernas morenitas enfarinhadas, ficava a ver cair, a conta-gotas, os grãos de milho da moega para a moenda. Na minha imaginação pareciam pingos dourados a precipitarem-se do tecto de uma gruta, ou, então, uma espécie de ampulheta, de relógio feito de grãos de areia. Mas toda aquela espera valia “a canseira”, já que o cheirinho do pão caseiro a sair do forno fazia crescer água na boca de qualquer um...


O moinho do Pode, na Ponte Reada, junto à linha de caminho-de-ferro  
As crianças e adolescentes de hoje passam a maior parte dos seus tempos livres enfiados em casa. Alguns, quando não estão com os olhos colados na TV, ou no monitor do computador, moem, vezes sem conta, a paciência aos progenitores. Agora pergunto: quantos pais, nos dias que correm, “fazem farinha” dos seus filhos?

Fotos: Manuel Pires Bastos (1) e Fernando Pinto (2)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JUNHO DE 2010)


ENDEREÇO PARA COLOCAR NUMA BIBLIOGRAFIA

LEIA TAMBÉM "A RODILHA" [CLIQUE NO LINK A AZUL]

16.3.12

"O Uso das Coisas" – A RODILHA

A rodilha
FOTO: DAQUI
Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2009)

TEXTO: Fernando Pinto

A partir deste número vamos trazer para esta rubrica, onde os leitores podem colaborar,  alguns objectos que se revelaram muito úteis no dia-a-dia dos nossos pais e avós. Quem não se lembra das cangalhas dos pescadores, do fuso e da roca, da sovela do sapateiro, do tear das tecedeiras, da moega do moinho, ou da canga vareira? Para começar, peguei na rodilha.

O que é e para que serve este pequeno objecto? Para aqueles que nasceram no século XX, não será difícil responder a esta questão. Todos sabem que a rodilha (ou “sogra”, como também é conhecida), é uma pequena almofada em forma circular, aberta no centro, ou um simples pano enroscado em que assentam os objectos que se levam à cabeça. As mais elaboradas eram feitas de trapos, lãs e linhas de bordar, entrançadas e bordadas.

A rodilha na cabeça de uma "peixeira de Ovar"
 (I Desfile de Trajes do Concelho de Ovar: o Trabalho e as Artes - Ovar, 16 de Outubro de 2011) 
E os mais novos, será que já tinham ouvido falar neste objecto curioso em forma de “donut”? Era eu ainda criança quando vi, pela primeira vez, junto ao chafariz Neptuno, o “Rei dos Mares”, uma rodilha a coroar a cabeça de uma peixeira. Agachada, a senhora, vestida de negro da cabeça aos pés, pegou na canastra e, para aliviar o peso que transportava, colocou-a em cima desta pequena almofada, soltando, logo ali, o habitual pregão:
– “Carapau do nosso mar!...”
E lá continuou, num passo cadenciado, a calcorrear as ruas da cidade.

"VARINA" - quadro de Eduardo Malta - 1942
(A figura é Irene dos Santos Ramiro, natural de Lisboa, casada
com Dionísio Gomes Ramiro, de Ovar. D. Irene veio viver
para esta cidade, onde faleceu na Rua Visconde de Ovar,
em 1977, com 68 anos)
Há dias, o mesmo pregão fez-se ouvir na minha rua. Fui ao seu encontro e descobri uma senhora a vender peixe... com um carrinho de mão. Perguntei-lhe se tinha uma rodilha em casa para que eu a pudesse fotografar para um artigo que estava a escrever. Respondeu-me que não, mas que conhecia uma pessoa que ainda devia ter uma. (A rodilha, pelos vistos, passou à categoria de objecto raro, até mesmo para as vendedoras de peixe. Sinais dos tempos...) 
Não eram só as peixeiras que as usavam. Antigamente, como não havia água canalizada, as mulheres iam à fonte ou ao chafariz com os seus cântaros e bilhas, e a rodilha não podia faltar. Como também fazia companhia às lavadeiras do rio das Luzes, às mulheres que iam à lenha ao pinhal, às lavradeiras que transportavam as cabaças à cabeça, às leiteiras da Ribeira, ou até mesmo às senhoras que carregavam os instrumentos dos músicos quando as Bandas iam actuar nas festas que se realizavam nas redondezas.
Ultimamente, só as vislumbro nos festivais de folclore que se fazem por aí, especialmente no Verão, altura em que somos inundados por olhares sedentos por estas coisas da Etnografia.
Para terminar, aqui deixamos um aforismo adequado ao tema: “Quem não pode com o pote não pega na rodilha”. Pelo menos, para que o leitor mantenha por muito tempo a rodilha na cabeça...

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE SETEMBRO DE 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/03/o-uso-das-coisas-rodilha.html

22.4.09

Relógios “de gaiola” em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2005)
TEXTO: Mota Tavares

Não é por mero acaso que se encontra, na região de Aveiro, uma razoável quantidade de relógios – de torre e de caixa alta – dos séculos XVIII e XIX. Não podemos dissociar desta realidade o facto de existirem bons portos de mar, utilizados pelo comércio internacional desde os alvores da nossa nacionalidade.


O antigo relógio da Igreja (1782) está a ser recuperado por Áureo Neves, de Ovar

Da importação da relojoaria estrangeira à fabricação nacional não mediou muito tempo. Logo que os nossos artistas tiveram ao seu alcance as matérias-primas necessárias e suficientes, aplicaram o seu engenho na produção artesanal, pois nesta e noutra arte os portugueses nunca deixaram os seus créditos por mãos alheias.

O mesmo relógio na actual fase de recuperação
Temos, assim, na região, a mistura das máquinas importadas com as de fabricação nacional, de igual qualidade e mais baixo preço. E se aludimos à qualidade é porque os relógios que conhecemos, reconhecidamente portugueses, nada ficam a dever aos seus congéneres franceses ou ingleses.
É englobado nesta análise que figura o relógio “de gaiola” apeado da torre da igreja paroquial de Ovar , feito em Aveiro, em 1782, por João Rodrigues Branco – IOAM RODRIGVES BRANCO OFES EMAVEIRO.ANNO.1782. Assim está gravado na estrela medial que suporta e centra a roda contadora das horas (na foto).

Trata-se de uma máquina da segunda fase da construção dos relógios “de gaiola”, pois já é usado o bronze polido em lugar do ferro, que se utilizou até ao séc. XVII. A perfeição dos acabamentos denota um cuidado acrescido, em ordem à regulação, precisão e durabilidade da máquina. Usa o pêndulo de Galileu, adaptado à relojoaria pelo sábio holandês Huygens, a partir de 1657.Esta máquina, que se encontra numa dependência da igreja paroquial, é digna de ocupar melhor lugar, com direito a preservação e possibilidade de visita pública, já que se trata de um exemplar único e pertencente a um património a preservar, assinado por um relojoeiro da região, o que lhe confere um valor nacional.
Infelizmente, em Portugal tem presidido, em muitas paróquias, o princípio de “não trabalha, atira-se fora e compra-se uma modernice sem valor futuro”. Não se imagina a quantidade de máquinas de relojoaria férrea que têm sido vendidas a quilo para a Alemanha, França, Inglaterra, etc. Infelizmente, estou a escrever com conhecimento de causa. Assim tem desaparecido o nosso património.
Outro relógio “de gaiola” de Ovar, mas este preservado e a trabalhar – e em bastante bom estado –, é o da Capela de St.º António. Somente por dedução, baseada na análise do pêndulo, poderemos arriscar que poderá ser de fabricação nacional.
Tem gravado o ano de fabrico: 1846. Uma aturada investigação, que ainda não se fez, poderá levar a conclusões, desde que se encontrem documentos. A máquina, por ser mais moderna, é mais elaborada do que a da igreja paroquial, executando mais funções. É um lindo exemplar, bastante bem cuidado, o que se deve à dedicação e entusiasmo do senhor Carlos Barbosa, da Comissão da capela, a quem os ovarenses devem estar agradecidos, pois verifiquei ser um amante do património da sua terra no respeitante à capela e ao seu relógio.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Agosto de 2005)