Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves
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| Varina de Ovar (postal) |
Começa por contar uma história, em voga
no século XIX, que atribuía às varinas origem fenícia.
Escreve Marina Tavares
Dias: “Dois diletantes estão pregados à porta da Casa Havaneza, no Chiado,
entretendo o tempo na avaliação carnal do mulherio que passa. Entre os
espécimes a que fazem olhinhos, registam com agrado a beleza superior das
peixeiras. Passando elas, não se contém um dos imbecis em lhes atirar a frase
feita: – “Que belos exemplares de raça fenícia!” .
De entre as ovarinas, lestas
na resposta, uma replica logo: – “Fenícia é a sua tia!”
Gustavo de Matos Sequeira considerava a
varina como uma “herança fenícia refundida em moldes gregos, com atributos que
atestam tal herança: tez morena, feição carregada, olhos escuros, tronco curto
e direito e porte altivo.”
Varino e Vareiro
Pinho Leal escreveu que a designação de
“varino” e de “vareiro” abrangia todos os habitantes da orla marítima que vai
de S. Jacinto até Espinho, o que é errado, pois deveria ser atribuída apenas
aos habitantes de Ovar (“ovarinos”).
Caldas Aulete (Dicionário Portuguez)
atribui a herança etimológica a uma tribo de suevos, denominada “varinos”, e
historiadores mais recentes explicam-na através da mecha, ou vara com que se
muniam os moliceiros da Ria. A respeito desses lindíssimos barcos que vão sendo
cada vez mais raros, tenho lido em muitas ilustrações de revistas e jornais que
são de origem fenícia, indo, deste modo, ao encontro da tese desses
historiadores.
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| Varina de Lisboa que, por 1930, segundo Marina Tavares Dias, começou a desfazer-se dos seus acessórios |
A etimologia da palavra “varina” tem
gerado muitas discussões.
“Tal como a fadista da Mouraria, a
peixeira da Madragoa foi tema inesgotável de romances populares, peças de
teatro, poemas mais ou menos famosos, pinturas, esculturas, desenhos,
caricaturas e fotografias artísticas”, diz-nos a autora de “Lisboa Misteriosa”.
Depois da construção da linha-férrea,
partiram para Lisboa, de Ovar e povoações vizinhas da beira-ria, especialmente
da Murtosa, muitos homens e mulheres para procurarem o trabalho que não
encontravam nas suas terras.
Habituados a tarefas árduas no mar ou na
praia, onde começavam, desde crianças, a puxar e a carregar com as redes e cordas das companhas
do Furadouro, eles, ainda muito jovens, encontravam nas águas do Tejo o seu
modo de vida, trabalhando nas fragatas, que eram, ao mesmo tempo, a casa onde
ganhavam o sustento deles e da família, e onde comiam e dormiam. Elas, acostumadas
a calcorrear caminhos longos de canastra à cabeça, apregoando a “sardinha do
nosso mar”, facilmente se adaptavam a correr as ruas de Lisboa apregoando o
“peixe fresco”, “viva da costa”, “pescada do alto”, e outros pregões que, como
estes, deixaram há muito de se ouvir nesta cidade.
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| Varina de Lisboa (postal) |
Marina Tavares Dias continua a
descrevê-las no seu livro duma forma encantadora, dizendo: “As mulheres de Ovar
deixaram as chatas e as labregas da ria de Aveiro e migraram, nos primeiros
comboios, para um dos bairros mais pobres de oitocentos: “A Madragoa”. Mais
adiante fala-nos da indumentária “de características tidas por sagradas, passou
a incluir o chapelinho de feltro, cinta de lã a altear a saia axadrezada,
avental e, apoiando a canastra, a célebre rodilha ou “sogra”. “Uma patrona,
bolsinha lateral também de feltro, servia para guardar os trocos”.
É curioso que quase todos os
articulistas de jornais ou outras publicações, quando escrevem sobre as
varinas, referem sempre o bairro da Madragoa como sendo uma espécie de colónia
onde se agrupavam as peixeiras de Lisboa, esquecendo-se de Alfama, outro bairro
típico da capital, onde moraram muitas vendedeiras de peixe e fragateiros de
Ovar, que por lá deixaram descendência. Há uns anos atrás, era de Alfama a
maior parte dos excursionistas que vinham de Lisboa a Ovar para verem o nosso
Carnaval.
Hoje, com o peixe congelado e as grandes
superfícies de supermercados, as varinas de Lisboa desapareceram. O mesmo
aconteceu com os fragateiros e profissionais de outras artes do Tejo, que
fizeram história no passado e que se foram perdendo no tempo, mas que devem ser
recordadas para não se perderem também na nossa frágil memória.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Setembro de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/02/as-varinas-foram-fenicias.html
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/02/as-varinas-foram-fenicias.html
“As varinas são também Madragoa, são também Ovar”, disse
o Presidente da Junta de Freguesia da Estrela, Luís Newton, no dia 31
de janeiro de 2015, no Convento das Bernardas, onde a comitiva vareira, composta por
autarcas e reiseiros, foi recebida de braços abertos pelos moradores daquele
bairro lisboeta.
Domingos Silva, vice-presidente da Câmara Municipal de
Ovar, lembrou que foi Américo Oliveira, recentemente falecido, que quando era
Presidente da Junta de Freguesia fez a ponte entre Ovar e a Madragoa, trazendo
a marcha até à nossa cidade.
“Queremos retomar esse intercâmbio que ele começou”, disse
Domingos Silva, ideia reforçada pelo presidente da Junta de Freguesia da
Estrela, Luís Newton: “Esperamos desta forma iniciar um ciclo regular entre as
nossas autarquias de deslocação destas dinâmicas de índole cultural”.
Antes do almoço oferecido à comitiva, os ovarenses foram
convidados a visitar o antigo lavadouro público das Francesinhas, construído
em 1876, onde muitas mulheres de origem vareira lavavam a roupa.
Pelas 15 horas, no coreto do Jardim da Estrela, as trupes de Reis do Orfeão de Ovar, da Associação Desportiva Ovarense e da JOC-LOC interpretaram os três números da praxe, dando a conhecer a sua forma peculiar de Cantar os Reis, cuja candidatura a Património Cultural Imaterial é também apoiada pela Junta de Freguesia da Estrela.
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| A Trupe da JOC-LOC no coreto do Jardim da Estrela, em Lisboa |
Pelas 17 horas, a embaixada vareira marcou presença na
inauguração da Exposição “Varinas de Lisboa – Memórias da Cidade” que estará
patente até 24 de maio no Pavilhão Preto do Palácio Pimenta, Museu de Lisboa
(antigo Museu da Cidade), sendo a visita gratuita.
Depois do jantar, o Chafariz da Esperança, uma das
principais entradas para o Bairro da Madragoa, foi o cenário escolhido para a
segunda atuação das trupes vareiras, apreciada pelos lisboetas.
| A Trupe da ADO, atuando no Chafariz da Esperança (Madragoa) |
| Trupe da JOC-LOC |
| Trupe do Orfeão de Ovar |
Texto da notícia: Fernando Pinto










