Jornal JOÃO SEMANA (01/12/1990)
TEXTO: Manuel Pires Bastos
Num dos últimos dias de Outubro assistimos, pesarosos, junto ao cais da Ribeira, a um ritual inglório, digno de dó, já pela forma como foi concretizado, já pelo que significa em relação aos valores tradicionais de Ovar.
Tratou-se do
carregamento, para um grande camião, de um barco mercantel, “embarcado” tão sem
jeito, assim tão prosaicamente, a caminho de Setúbal.
Era um dos últimos mercantéis ainda em actividade na Ria de Ovar, todos pertencentes a José Marques de Oliveira, negociante de sal com armazém naquele lugar ribeirinho.
Era um dos últimos mercantéis ainda em actividade na Ria de Ovar, todos pertencentes a José Marques de Oliveira, negociante de sal com armazém naquele lugar ribeirinho.
Com 18 metros de
bica a bica, o A684T (=Aveiro 684 Tráfego) foi construído há 20 anos em
Pardilhó, encontrando-se ainda em bom estado, já que foi reparado recentemente
(1989).
O seu valor actual,
acordado entre o vendedor e um particular de Setúbal, que o utilizará como meio
de transporte de materiais para a reparação das marinhas da foz do Sado, rondou
os 400 contos, bem mais do que custou há 20 anos – 12.500$00 – e muito menos do
que o preço actual de um exemplar novo – cerca de 2.500 contos.
Como causas da
diminuição da quantidade destes barcos típicos da Ribeira de Ovar, José Marques
de Oliveira, que chegou a ter uma frota de 8 unidades, aduziu, para além do seu
preço actual, o desaparecimento progressivo do sal de Aveiro (10% do existente
há 20 anos) e a opção por transportes terrestres.
Foi doloroso para
nós ver partir, daquela maneira, um mercantel ainda válido. Como foi doloroso
descobrir dois outros a desfazerem-se, debaixo de água, do outro lado do cais.
Isto leva-nos a
recear pelo futuro dos três exemplares que sobrevivem à hecatombe que se
abateu, desde há anos, sobre os mercantéis da Ribeira, que desde há séculos
foram, com os moliceiros, reis e senhores da Ria, transportando, desde Mira e
Aveiro, pessoas e mercadorias, num vai-vem que se escoava, através da Rua
Direita, a caminho de Ovar, daqui seguindo, pela Feira, para o Norte do País.
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| Cais da Ribeira de Ovar na época áurea dos mercantéis. O sal chegava de Aveiro e daqui partia já tratado. |
É tempo de se olhar
com realismo para os valores patrimoniais em risco de se perderem. Há que agir,
e depressa, sob pena de contribuirmos, nós também, para a hecatombe total.
Salvem-se, ao
menos, os barcos que restam. Não se deixem apodrecer no lodo da Ria.
Quando haverá, no
Museu de Ovar, instalações suficientemente espaçosas para se acondicionarem e
se preservarem, em ordem ao futuro, alguns exemplares de todos os barcos
típicos que encheram de vida e de beleza a nossa Ria?
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Dezembro de 1990)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/05/barcos-da-ria-hecatombe.html
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