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31.10.13

Ti Proserpina moleira

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2009)
TEXTO: António Valente

– Tono, anda cá, faz-me um favor. Olha, vai à loja da Marquinhas[1] comprar-me arroz. Sabes, hoje não posso mesmo das minhas pobres pernas, que teimam em não andar!
O Tono deixou o jogo da bola de rua, e lá foi, como já era habitual, em grande correria, satisfazer o pedido da Ti Proserpina, que já trazia consigo o peso de 80 anos de idade, há pouco completados.

Ti Proserpina
03/1/1880 - 12/3/1963 
Ti Proserpina, viúva já lá vão uma dúzia de anos, vive só, sem filhos. Simpática, conta com a solidariedade dos vizinhos que nutrem um grande afecto e carinho por ela.
Vive muito pobremente, usufrui de uma reforma de miséria, que mal dá para os medicamentos, quanto mais para a sua alimentação. Vive numa casa já muito tocada pelo tempo, bastante húmida, que não conhece obras de manutenção já há muito tempo, o que contribui para aumentar as dores insuportáveis dos “ossos” das suas pernas.
A Ti Proserpina ainda se recorda dos momentos em que, no rio dos Pelames – sem o brilho desses tempos, hoje tudo à volta é uma desolação –, lavava a roupa das senhoras da vila, e com a sua voz bem afinada cantarolava as canções da época.
Era contagiante: as outras lavadeiras, que ocupavam cada uma a “sua pedra” no rio de cima e no de baixo, também entravam na “desgarrada”, cantando e rindo a bom rir. E quem estivesse na estação do caminho-de-ferro ouvia este belo cantar, logo reconhecendo a voz da Ti Prosepina.
Casou muito nova, como era costume das raparigas nesses tempos tão difíceis, depois de ter conhecido o seu Manuel, quando este se deslocava com regularidade para Ul, Oliveira de Azeméis, com a carroça carregada de sacos de milho que os clientes lhe entregavam para a moagem em moinho alugado. (A clientela era tanta que os moleiros tinham de socorrer-se desta alternativa, pois existiam em Ul inúmeros moinhos de água, alguns deles hoje recuperados, em contraste com os existentes nos Pelames, em ruína…). Por lá permanecia até que a moagem estivesse completa. No percurso, cruzava em Madaíl (Ul faz fronteira, a norte, com Madaíl), com a então jovem Proserpina, com quem metia conversa e de quem  nunca mais tirou a vista, começando, repentinamente, uma relação amorosa. Tempos que recorda com saudade…
Mas – há sempre um mas – o Manuel, já casado e com um copito a mais, transformava-se num outro homem. Ficava nervoso, completamente modificado, batia-lhe mal entrava em casa...
Com o tempo, Ti Proserpina, adivinhando o estado do marido, refugiava-se em casa de uma vizinha, a uns poucos metros dos moinhos, até que as coisas arrefecessem. (Fora estes momentos, o Manuel era um bom trabalhador, recorda, com saudade).
A levada do rio estava sempre um esmero, que o diga quem a conhecia, principalmente as lavadeiras que frequentavam o rio dentro da sua propriedade.
Quantas memórias lhe vêm à mente, das noites passadas no moinho sem conhecer cama e descanso, atenta à moagem da farinha. Uma vida difícil, mais ainda com a doença do marido. A tuberculose o levou, ainda bastante novo. Não o merecia, dizia a Ti Proserpina muitas vezes, para si mesma. “Mas Deus lá sabe porquê”.
A partir daqui, a vida complicou-se. Faltavam-lhe as forças, tudo se desmoronava. Com o Manuel, apesar daqueles momentos de mau génio, tudo se ultrapassava. Agora…
Estava nestes pensamentos quando apareceu o jovem Tono, que logo regressava ao jogo da bola. Lá foi fazer uma sopita para enganar o estômago, pois mais nada havia.
“Quantas vidas sós, depois de anos e anos de trabalho, se multiplicam por aí à nossa volta”!
De tão apressados que andamos, nem reparamos nelas, ou, pior ainda, tantas vezes com indiferença.
Tantas Proserpinas que hoje só vivem de recordações… e que, tantas vezes, ficam a murmurar consigo mesmas: “Ao menos se Deus me levasse”…

Nota: 
[1] A Marquinhas era a dona da Loja dos Canecos, na esquina da Rua dos Pelames com a Alexandre Herculano.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/11/ti-proserpina-moleira.html

18.5.13

Florbela Espanca – Uma mulher desfasada no tempo

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2012)
TEXTO: José de Oliveira Neves

No passado dia 8 de março celebrou-se o Dia Internacional da Mulher, e na mesma data foi exibido em vários cine­mas do país o filme “Florbela”, permitindo que o nome desta escritora fosse referenciado em toda a comunicação social.
Pelas atitudes que tomava, nada comuns nos finais do séc. XIX e princípios do XX, Florbela Espanca é bem o símbolo da mulher livre de preconceitos.

Nos passos da Hortênsia

Florbela Espanca
É curioso que em Vila Viçosa, a terra que foi seu berço, já no séc. XVI uma outra mulher se distin­guiu pelo seu comportamento, fora dos parâmetros sociais da época. Estudando Ciências na Universi­dade de Coimbra e usando traje de homem, Pública Hortênsia da Costa – era esse o seu nome – dis­cutia, aos 17 anos de idade, com os doutos mais velhos, mostrando uma invulgar instrução, a ponto de Filipe II, Rei de Castela e Portugal, lhe conceder uma tença de 20$00 reis.
Mas não é para divulgar a vida e a obra desta ilustre calipolense do séc. XVI que me proponho a escre­ver este texto. É somente para evo­car Florbela Espanca, uma grande senhora da literatura portuguesa, de quem o saudoso Dr. Fragateiro me dizia ter sido das nossas melhores sonetistas, utilizando símbolos nos seus poemas, tal como fazia Antó­nio Nobre, o poeta do , cujo livro ela guardava religiosamente na sua mesinha de cabeceira.
Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa a 8 de dezembro de 1894. A certidão de batismo indica que é filha de pai incógnito e filha natural de Antónia da Conceição Lobo, solteira, empregada no servi­ço doméstico, e que foi batizada na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição de Vila viçosa, com o nome de Flor Bela Lobo, tendo por madrinha Mariana do Carmo, a esposa legítima do pai natural, que levou a menina para ser criada em sua casa, por ela e pelo marido, João Espanca, que a convencera a tomar essa decisão passados sete anos do casamento, por ela não engravidar.

Da esquerda para a direita: o irmão Apeles,
o pai João Espanca e Florbela
A sombra de Apeles

Antónia Lobo teve ainda um outro filho, Apeles, que será o gran­de amor de Florbela. Uma paixão que alguns historiadores dizem ter chegado perto do incesto.
Em 6 de junho de 1927, Apeles, que era piloto-militar, despenhou­-se com o avião que pilotava nas águas do Tejo, ao lado da Torre de Belém, nunca tendo sido en­contrado o seu corpo. A partir daí Florbela jamais conseguiu dormir tranquila, andando sempre triste e não deixando o luto.
Aos 19 anos, ainda estudante, casou, pela primeira vez, com Alberto Moutinho, também estu­dante, tendo-se ambos dedicado, para sobreviverem, a dar explica­ções. Aos 23 anos, frequentando o 3.º ano de Direito, em Lisboa, e como o marido vivia no Algarve, conheceu num baile um jovem militar, António Guimarães, com quem viria a casar, e de quem ao que consta, re­cebia maus tratos.
Em 1923, depois de Alberto Moutinho lhe ter pedido o divórcio, co­nhece o terceiro marido, o médico militar Mário Lage, e vem residir para Esmoriz, no concelho de Ovar, indo posteriormen­te, em 1926, viver para Matosinhos, na casa dos pais de Mário Lage.

Casa no lugar de Casela, em Esmoriz, onde residiu Florbela Espanca de 1923 a 1926

Tem ainda um caso com o pianista e médico Luiz Maria Cabral, e ou­tro com Ângelo César, no Grande Hotel do Porto.
Aurélia Borges, sua discípula, amiga e confidente, diz que “o amor era por parte de Florbela uma procura quase doentia”. A poetisa, num soneto intitulado de “Ambiciosa”, escreve: “Amor dum homem?  – Terra tão pisada, / Gota de chuva ao vento baloiçada… / Um homem? -, Quando eu sonho o amor de um Deus!...”.

Os males de Anto

A sua existência inconstante e angustiosa, marcada, face aos padrões da sua época, por escânda­los comportamentais que levavam algumas vezes a sua família a cortar relações com ela, teve um desenlace extemporâneo e trágico, no dia 8 de Dezembro de 1930, às duas da manhã – a mesma hora, dia e mês do seu nascimento – após de ter esgotado dois frascos de “Veromal”.
Quis o destino que Florbela Espanca passasse os últimos tem­pos da sua existência, antes de pôr termo à vida, na terra onde também já tinha padecido, com os males da tísica, o seu poeta predileto, António Nobre, de quem dizia, no poema “Impossível”: “Os meus males ninguém mos adivinha… / A minha dor não fala, anda sozi­nha… / Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!... / Os males de Anto, toda a gente os sabe! / Os meus… ninguém… A minha dor não cabe / Nos cem milhões de versos que eu fizera.”

Para além do tempo...

O seu corpo ficou sepultado no cemitério de Sendim, Matosinhos, no jazigo de D. Josefina Sant’Ana Pereira Lage, sendo trasladado para Vila Viçosa, sua terra natal, onde se realizaram várias cerimónias e onde viria a ser inaugurado o seu busto no Parque Municipal.
Quando das cerimónias da Igreja, cuja doutrina não aprova o comportamento da poetisa, antagó­nico à sua doutrina cristã, o próprio arcebispo de Évora reconheceu publicamente Florbela como uma grande escritora.
A Divisão da Cultura da Bi­blioteca e Património Municipal de Ovar organizou, de 4 a 23 de janeiro de 2010, uma exposição sobre a poetisa, que pisou durante cerca de três anos, a nossa terra, apreciando as paisagens do litoral, muito diferentes do seu Alentejo.

Florbela Espanca deixou-nos as seguintes obras:
Poesia: “Livro de Mágoas” (1919), “Livro de Soror Saudade” (1923), “Charneca em Flor” (1931, edição póstuma), “Reliquiae” e “Juvenília”.
Prosa: “Dominó Preto” e “Más­cara do Destino” (livros de contos).
Principais fontes: Rui Guedes, “Florbela Espanca – fotobiografia”; jornais e revistas e apontamentos enviados pelo Município de Vila Viçosa, a quem agradeço.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de maio de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/05/florbela-espanca-uma-mulher-desfasada.html

24.3.10

Lavadeiras das Luzes – Vozes que ainda cantam no rio

Jornal JOÃO SEMANA (01/12/2009)
TEXTO: Fernando Pinto

Lavadeiras das Luzes, Ovar
FOTO: M. Pires Bastos
Sempre que um turista atravessa a ribeira da Graça, nas Luzes, fica com os pés colados no tabuleiro da ponte a contemplar o cenário bucólico que se estende lá em baixo no rio. Mulheres de chapéu e lenço na cabeça, com as suas bacias coloridas a transbordarem de roupa, batem as peças na pedra fria e cantam para passar o tempo, para espantar a crise...
O “João Semana” esteve à conversa com as lavadeiras das Luzes e trouxe de lá alguns recados: “Ponha lá no jornal, se faz favor, que as mulheres que lavam neste rio ainda não desistiram do seu sonho, do lavadouro que nos andam a prometer há anos”, repetiam elas, enquanto lhes tirávamos o retrato da praxe.

Maria do Céu, uma das lavadeiras mais antigas de Ovar
FOTO: Fernando Pinto
Dona Maria do Céu fez do rio a sua segunda casa. “Já não passo sem isto. Há anos que venho para aqui de manhã e só saio por volta das quatro horas”, confessa, cabisbaixa, passando a escova numa peça de roupa escura.
“Estamos para aqui esquecidas”, lembrou a Sr.ª Benvinda Oliveira, “mas os turistas gostam muito de nós! Estão ali no hotel, atravessam a rua Dr. João Semana”, e quando chegam aqui ficam a olhar para nós. Gostam de nos ver a ensaboar, a esfregar, a ensaboar”.

Ribeira das Luzes, onde as lavadeiras costumam lavar a sua roupa e a das freguesas
FOTO: Fernando Pinto
Rosa d’Assunção no seu texto Lavadeiras de Ovar, publicado na revista Reis de 1993 [clique no link], explica que a “roupa era ensaboada com sabão amarelo, bastante gordo. Ficava a roupa de um dia para o outro e só depois se lavava com o dito sabão, tirando-se primeiro o sujo. Lavava-se, em seguida, e depois de corrida em água corrente, voltava-se a ensaboar com sabão de veia azul e estendia-se a corar ao sol. Durante o dia, várias vezes se regava a roupa, a fim de não secar o sabão que continha. A determinada altura dava-se uma volta à roupa. Dizia- se mesmo: Vou dar volta à roupa.

Lavadeiras das Luzes, Ovar
FOTO: M. Pires Bastos
No fim do dia, às peças mais brancas tirava-se-lhes aquele sabão do coradouro, voltava-se a ensaboar e, no dia seguinte, voltava-se a estender. Só no fim do segundo dia de cora era corrida, torcida e posta a secar. Não havia lixívias, apenas se usava um pouco de cloreto nas toalhas de mesa com nódoas difíceis. Depois de seca, bem sacudida e dobrada, entregava-se ao dono e recebia-se o ajustado, conforme as peças”.

Uma grávida nas Luzes

No dia 20 de Maio, deste ano, recebemos este e-mail da jornalista Sónia Morais Santos, que nos deixou boquiabertos: “Estou a fazer uma reportagem para a revista de Sábado do novo jornal i, em que me era útil conversar com as Lavadeiras das Luzes. Vi no seu fotoblogue Olhar Ovarense, aquela fotografia belíssima, assim como um artigo do Ovarvirtual, de Joaquim Castro. O que eu queria perguntar-lhe, antes de me meter a caminho (sou de Lisboa e estou grávida de nove meses), é se me sabe dizer quando é que será mais fácil encontrar lavadeiras neste sítio. Agradeço a sua ajuda.”
Respondemos ao e-mail desta colega de profissão, deixando-lhe algumas dicas para que pudesse realizar o seu trabalho sem se cansar demasiado, devido ao “estado de graça” em que se encontrava. Passados dois dias, as lavadeiras das Luzes tinham a seu lado uma jovem de 35 anos, a poucos dias de dar à luz, sentada “confortavelmente” nos degraus escorregadios que levavam ao leito da ribeira da Graça!!!
No dia 20 de Junho, Sónia Morais Santos partilhava a sua experiência com os leitores da revista Nós. Deixamos-lhe a introdução desta sua aventura por terras vareiras, para que também possa ficar atónito: “É como se não fosse verdade. Como se fosse cenário. Como se houvesse uma câmara algures, de certeza, uma claquete, um ‘Corta!’ pronto a ser disparado por uma voz decidida. E, afinal, vai-se a ver e não. Não é uma cena de um filme, nem de uma novela, nem de uma série a relembrar tempos idos. Há mesmo mulheres dentro do rio, com alguidares de roupa suja e barras de sabão e escovas, há espuma e mãos que esfregam, há até cantorias para ajudar a passar o tempo, há tudo o que havia antes, num tempo que não é o de hoje”.
Lavadeiras das Luzes - FOTO: Fernando Pinto
Quem sabe se não é neste Natal, ou no próximo, que as lavadeiras das Luzes vão ter a prenda há muito desejada no “sapatinho”: um lavadouro condigno, desses que não deixam entrar água nas botas de borracha no Inverno, quando o caudal do rio engrossa e fica da cor do barro, desses que não gastam nada a não ser as mãos delicadas das vareiras que lavam passadeiras, colchas e carpetes para fora, para irem ganhando uns “tostões”, vencendo esta crise que teima em não passar.
Como disse uma das senhoras que passava pela ponte das Luzes – na altura em que a Dona Maria do Céu e a Sr.ª Benvinda Oliveira cantavam a “Aldeia da Roupa Branca –, “é ou não é verdade que os políticos passam a vida “a lavar roupa suja” e, no final, continuam todos amiguinhos uns dos outros e quem paga o pato somos nós?... E as duas lavadeiras continuaram a ensaboar, a esfregar, a cantar...

Ai rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.

Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol.

Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.

Um lençol de pano cru,
Vê lá bem tão lavadinho,
Dormindo nele, eu e tu,
Vê lá bem, está cor de linho.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Dezembro de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/03/lavadeiras-das-luzes-vozes-que-ainda.html




Um dos postais da minha exposição de Fotografia "FRUTOS DO OLHAR"
MUSEU DE OVAR (30 de junho a 28 de julho de 2012)

9.8.09

Madre Rita Amada de Jesus

Percurso de Madre Rita
nas dioceses do Porto, Viseu e Guarda

Jornal JOÃO SEMANA (1/6/2006)
Rita Amada de Jesus teve uma experiência
religiosa muito ligada à Diocese do Porto.
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Nascida em 5 de Março de 1848 em Casalmendinho, freguesia de Ribafeita, numa família de agricultores com 7 filhos, passou algumas temporadas da sua infância em casa de outras famílias, nomeadamente na de um distinto médico de Viseu, cuja filha a ensinou a ler e a escrever, proporcionando-lhe uma educação esmerada, que muito a ajudou nos seus contactos apostólicos futuros.

De Viseu para o Porto
Apesar de mostrar, desde muito cedo, vocação para a vida consagrada, só aos 29 anos, em 1877, iniciou a sua formação religiosa, como aspirante, no Porto, na Casa das Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora (de Calais), poucos anos antes chegadas a Portugal, e que residiam num antigo palacete (“a Casa das Sereias”) ao fundo da Rua da Bandeirinha, 31, sobranceiro à Alfândega do Porto, Religiosas essas a quem chama, nos seus escritos, “Irmãs da Caridade”(1).



Casa das Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora, no Porto.
(O portal da casa está ornado com duas colunas simulando sereias)

Na foto, restos do antigo colégio de Sanguedo, na actualidade
Dali saiu, ao fim de um ano, doente e insatisfeita, mas mais conhecedora dos regulamentos conventuais, com vontade decidida de concretizar o seu sonho antigo: fundar um Instituto próprio, direccionado para a defesa dos valores da Família e para a formação de raparigas pobres ou em perigo moral.
Em Sanguedo (concelho da Feira), frequentou, durante um ano, como pensionista, o colégio das Religiosas Franciscanas (Associação de Santa Clara)1, de onde saiu com 32 anos.
Foi ainda na Diocese do Porto, a sul do Douro, que passou os anos seguintes, na busca de novos horizontes para a sua missão: em Esmoriz (concelho de Ovar), numa visita ao pároco local, este apresentou-lhe uma senhora que prometia deixar-lhe os seus bens se aceitasse ficar na sua companhia, mas ela rejeitou a ideia. Em Lourosa e em Lamas partilhou, durante largos meses, habitações de famílias locais, donde partia para as freguesias vizinhas em acções de apostolado, serviços esses a que se dedicava desde muito jovem, dada a sua intensa devoção à Eucaristia e ao Sagrado Coração de Jesus (muito contribuindo para o desenvolvimento do Apostolado da Oração), ao mesmo tempo que promovia a recitação do Rosário e chamava à conversão pessoas de vida escandalosa.
A morte da mãe levou-a de regresso a Ribafeita, mas por pouco tempo.

Uma obra querida por Deus
Acolhida na citada família de Viseu, que todos os anos costumava ir a banhos para a Granja, Rita retomou o caminho do Porto, ali contactando o P.e Francisco Pereira, da Companhia de Jesus, seu confessor quando estivera nas Franciscanas Missionárias, esperando dele um conselho avisado acerca da sua pretendida Obra.
Se no primeiro contacto a opinião do P.e Francisco foi negativa, o que a deixou amargurada, mas em humilde conformação com a vontade divina, num segundo encontro, um ano depois, o mesmo sacerdote afiançava-lhe que essa Obra era querida por Deus. Rita ficou radiante, não lhe faltando o ânimo necessário para iniciar, de imediato, a sua missão.
Após algum desencanto com as autoridades visienses, que não lhe queriam dar crédito, por ser uma mulher do povo, e depois de utilizar alguma diplomacia, em que tiveram acção meritória o Bispo de Viseu, D. António Alves Martins, e um deputado às Cortes, natural de Viseu (o Cónego Gaudêncio, futuro bispo de Portalegre), conseguiu obter do Governo a necessária licença para a fundação de um Colégio para meninas (14 de Setembro de 1880, dia que passou a ser considerado como a data da fundação da Pia União que, anos depois, na hora permitida pela lei, viria a dar origem à Congregação Jesus Maria José).

De Gumiei a Paramos
O Colégio funcionou primeiro em Gumiei (Ribafeita), durante dois anos, e posteriormente, ao longo de mais oito anos, em Farejinhas, concelho de Castro Daire, para onde se transferiu para evitar a perseguição das autoridades visienses, que não viam com bons olhos uma mulher de 32 anos a orientar um colégio no seu concelho, embora não houvesse, então, em todo o distrito, uma única escola feminina…


Antigo colégio de Farejinhas

Padre Conde
Em Farejinhas, e apesar de idênticas perseguições, e até de provações internas criadas por algumas das suas religiosas, a Obra que Rita sonhara dava passos cada vez mais firmes.
Seguiram-se: em 1880, o Colégio de Tourais (Seia), e em 1890, o de Louriçal do Campo, ambos na Diocese da Guarda, e em 1905 o Colégio do Sagrado Coração de Jesus, em Paramos (Espinho), na Diocese do Porto, ocupando uma casa construída pela Paróquia a cargo do Padre António Rodrigues Conde, natural de Ovar [na foto] e orientada, até 1903, por outra Congregação Feminina); em 1906 o colégio da Lapa do Lobo (Nelas, Viseu) e em 1907 o Colégio de N.ª Sr.ª de Lurdes e o Asilo dos Órfãos, em Castelo Branco. [CLIQUE NO LINK A AZUL]

Entretanto, em 10/5/1902, num período de maior abertura política, a Santa Sé aprovou as Constituições da Congregação (de votos simples de direito pontíficio, mantendo-se, contudo, para pessoas leigas, a Pia União).


A criação do Noviciado em Louriçal do Campo, e a assistência aí prestada pelo jesuíta P.e José Lapa Rodrigues, muito contribuíram para a evolução do Instituto, dando-se a feliz circunstância de esse sacerdote, que ficara depositário do manuscrito autobiográfico de Madre Rita, ter emigrado para o Brasil, após a implantação da República (5/10/1910), e ali ter continuado a prestar assistência espiritual às Irmãs, actualizando os seus Estatutos.

Abertura ao mundo

De facto, em 1911, as religiosas foram obrigadas a deixar as suas casas, de que foram espoliadas pelo governo republicano, tendo a Fundadora providenciado para que as Irmãs mais válidas partissem, em 1912, para terras brasileiras.
Madre Rita Amada de Jesus faleceu na sua terra natal em 6/1/1913, pouco depois da saída do 2.º grupo de Irmãs para o Brasil.


Madre Rita no dia do seu funeral, em 7 de Janeiro de 1913, em Ribafeita.
Os seus restos mortais foram transferidos para o cemitério de Viseu em 17/06/1972
No Brasil, a Congregação – hoje Instituto Jesus Maria José – consolidou-se fortemente, espalhando Colégios e uma Faculdade por diversos Estados da Federação, e alargando a sua acção apostólica por outros países da América Latina (Bolívia, Peru e Paraguai) e da África (Angola, Moçambique e Cabo Verde).

Casa-Geral do Instituto Jesus Maria José em S. Paulo, Brasil

Entretanto reabria sucessivas comunidades em Portugal: Trancoso e Viseu (1934), Paços de Brandão (Noviciado, 1942-1952), Espinho (Hospital em 1949 e Patronato em 1958), Porto (Lar de Santa Rita, 1950 – 1952, e Centro Social da Sé, 1952-1953), S. João de Ver (1952-1953), Ovar (Casa Provincial e Noviciado, desde 1951), Asilo-Creche da Misericórdia de 1952-1957, Jardim de Infância Jesus Maria José desde 1958, Centro de Promoção Social do Furadouro desde 1969, Jardim de Infância Alvorada desde 1978), Coimbra (Lar da Sagrada da Sagrada Família, para estudantes, desde 1954 e Casa de S. José, para o Noviciado desde 1982), Viseu (Lar de Santo António e Centro JMJ de Jugueiros), Paul e Dominguizo (Covilhã), e Alverca do Ribatejo.
Casa da Província Portuguesa do Instituto Maria José, instalada em Ovar, desde 1952

Nos altares

O Processo de Canonização teve a abertura oficial em Viseu em 4/12/1991, sendo enviado para a Cúria Romana em 23/10/1994. Após a aceitação de autenticidade de um milagre acontecido em Franca, Brasil (cura de uma senhora desenganada da medicina), João Paulo II marcou a sua beatificação para 24 de Abril de 2005, o que não aconteceu em virtude da morte do Papa.


Um ano depois, a Diocese de Viseu e muitas outras de Portugal, do Brasil e de outros países, particularmente aquelas onde as Irmãs Jesus Maria José prestam serviços, viveram intensamente esta hora de exaltação, celebrando jubilosamente a liturgia da Beatificação presidida pelo Cardeal D. José Saraiva Martins [foto], um português que é Prefeito da Congregação de Causas dos Santos e que veio de Roma como legado do Papa Bento XVI.

Notas
(1) O governo só permitia, então, a existência de congregações estrangeiras, e apenas as que se dedicassem a serviços de beneficência e à missionação. Só pelo Decreto de 18/4/1901 foi regulada a instituição de associações religiosas, e só quando se destinassem à acção social, ao ensino e à missionação.
(2) Uma das Irmãs do Convento de Sanguedo, falecida depois de 1910, a Irmã Júlia, levou para a sepultura o seu hábito azul, das Irmãs de Santa Clara. (Informação de Justino Francisco Pinto, de Sanguedo).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Junho de 2006)


Estiveram presentes nas cerimónias da Beatificação, em Viseu, em 28 de Maio de 2006, cerca de vinte Bispos, cerca de centena e meia de sacerdotes e vários milhares de leigos, particularmente oriundos das terras por onde Madre Rita passou ou por onde actuam as religiosas do Instituto que ela fundou em 1880.
A cidade de Viseu viveu intensamente a festa e os seus preparativos, envolvendo não só a Diocese e as Paróquias, como as instituições civis, militares, associativas e de saúde.
Em diversos momentos da celebração esteve bem evidente a dimensão multicontinental do Instituto Jesus Maria José, com a intervenção de religiosas e membros do clero (bispos e sacerdotes), oriundos do Brasil, do Peru, do Paraguai, da Bolívia, de Angola e de Moçambique.
Um grande grupo coral, acompanhado por órgão e por diversos instrumentos, deu brilho aos cânticos litúrgicos, e algumas centenas de escuteiros prestaram serviços na orientação dos participantes.

Madre Alda Mishelin e Irmã Inês, respectivamente Superiora Geral e Superiora Provincial Portuguesa
do Instituto Jesus Maria José ao tempo da Beatificação de Madre Rita

20.6.09

A “Albertina das Roscas”

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/1981)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Albertina das Roscas
Chamava-se Maria Albertina Marques Romão, mais conhecida por Albertina das Roscas, e faleceu com 95 anos de idade.
Natural de Coimbra, veio aos 6 anos para Ovar, na companhia da mãe, Margarida de Jesus Marques, com o fim de tratar de uma deficiência numa perna. Destinada ao famoso clínico local Dr. Cunha, que não lhe deu grande esperança de cura, acabou por cair nas mãos do Sr. Lima, do Jardim da Estação, que, para além de ferrador de profissão, era habilidoso em tratamento de ossos. Mau grado a paga da libra combinada pelo serviço, o habilidoso não foi feliz, e a menina ficou manca para sempre.
Tinha 23 anos quando casou. Habituada a ver a fabricação de roscas na casa das senhoras Carrelhas, junto à actual Vareirinha, onde foi criada com a mãe, mulher de muitas libras e que vestia mandil e capucha, veio a construir forno próprio na casa que alugou e que depois adquiriu ali mesmo em frente, junto da capela do Passo do Horto, onde labutou até aos 80 anos [na foto].
No período de adaptação e ensaio laboral, chegou a deitar ao rio algumas fornadas menos conseguidas. Mas a mão foi-se-lhe tornando certa, e as suas roscas começaram a ter cada vez mais fama e a correspondente procura.
Construiu um forno no Furadouro, na Rua da Capela “nova”, onde cozia, à tarde, para os veraneantes, vindo a pé, à noite, com a criada, para nova fornada em Ovar.Fez também forno em Matosinhos, onde fabricava, para além das roscas – a sua especialidade –, pão-de-ló, pastelinhos e padas. Nessa altura só vinha à terra nos fins-de-semana, também para cozer. De tal modo o trabalho era absorvente que chegavam a dar com ela a dormir, de pé, agarrada à pá do forno.
Desde que ficou viúva, ainda nova, e durante cerca de 40 anos, foi seu principal colaborador Manuel Dornas, de S. João de Ovar, que tanto enfornava como amassava. Seguiram-se-lhe António de Oliveira e Francisco Ruela, este apenas durante 4 anos, por ausência do anterior.
As roscas feitas em Ovar percorriam todas as feiras e festas da região, levadas, em canastras, à cabeça, por vendedeiras que ganhavam ao dia. E tal era a fama das roscas da Albertina, que outras fabricantes e vendedoras se escudavam com o seu nome, para melhor venda.
Há 2 anos, com a saída do António de Oliveira para a Suiça, o forno fechou-se de vez. Nessa altura já o segredo do fabrico passara para a filha, que possui o mesmo nome da mãe, mas que não quis aproveitar-se das facilidades que a tradição materna por certo lhe concederia.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE DEZEMBRO DE 1981)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/06/uma-figura-tipica-que-desaparece.html

13.5.08

“Não te esqueças das morcelas!” – As irmãs “Zulmiro"

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2003)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Na década de 30, vinham muitos vareiros residentes em Lisboa passar as férias de Verão em Ovar. Ainda se vivia muito das fragatas.
Muitos desses nossos conterrâneos traziam consigo a incumbência de, no regresso, levarem uma determinada quantidade de morcelas que as irmãs “Zulmiro” preparavam a primor. Quem alguma vez as provava jamais esquecia o seu inigualável sabor, uma verdadeira especialidade, mesmo requintada, podemos dizer.
Mas não eram só as morcelas que despertavam a gula das pessoas que sabiam distinguir o que tinha qualidade. Também os rojões e os salpicões eram disputados.Mas historiemos um pouco: Talvez no início do século XX, um casal (Alice Amélia e Zulmiro Rodrigues dos Santos) e as suas quatro filhas, ainda meninas, vieram de Oliveira de Azeméis para Ovar, donde nunca mais saíram. O pai encontrou emprego, como carregador, na nossa estação dos CF. A mãe, doméstica, veio a falecer ainda nova, deixando as quatro filhas em situação precária. Para carregar de negro o cenário do modesto agregado familiar, o pai também se finou pouco tempo depois.
Às referidas meninas, transformadas, mais tarde, em senhoras muito respeitáveis, valeu-lhes uma tia, Margarida Tavares, irmã da mãe, que tinha um modestíssimo estabelecimento no mercado, então situado no local onde está hoje o Palácio da Justiça. Essa “barraca”, chamemos-lhe assim, onde vendia cereais, utilizando medidas de madeira, muito em uso nesse tempo, passou-a ela às pequenas, que ali montaram um pequeno talho – também modestíssimo, como se pode calcular –, enquanto ela passou a fazer o seu negócio de cereais no desconfortável chão do mercado, mesmo em frente das sobrinhas.
Isto é o que se poderá chamar solidariedade no mais alto grau. Difícil será imaginar como, sem este precioso auxílio, poderiam aquelas jovens ter encontrado uma solução razoável para o seu drama familiar.
Com a ajuda da tia, as quatro irmãs “Zulmiro” – Alice Amélia, Maria, (Quinhas) Grácia e Palmira – deram muito boa conta do recado, criando nome e prestígio no ramo de actividade a que se dedicaram, constituindo isso a forma mais digna de honrarem a memória de quem tanto se sacrificou por elas.
Moraram sempre na Rua Marquês de Pombal, numa casa pegada à fábrica de descasque de arroz da firma Bonifácio & Filhos, Ld.ª, sendo a mais velha, a Alice Amélia, a última ali residente.

As irmãs Zulmiro com familiares e pessoas amigas da Família Teixeira de Pinho, no Furadouro.
Em cima: Rosa Amélia Pinho, Palmira de Jesus Teixeira Lopes, Amélia Tavares, e as irmãs Alice Amélia, Palmira e Grácia dos Santos.
Em baixo: José Teixeira de Pinho e filha Maria Clara de Jesus; Maria Angelina dos Santos (Marquinhas); Alfredo Tavares (filho da Amélia Tavares); Olívia (cunhada da Amélia Tavares, da Póvoa do Varzim) e Maria Amélia Pinho (filha de Lúcinda Tavares).
O palheirão, o barco e a bateira pertenciam à companha do Valente.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE AGOSTO DE 2003)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/p/textos-editados-neste-sitio-172.html

4.5.08

As Sachadeiras

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2004)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Com o aproximar do Verão, vêm-me à lembrança as sachadeiras que, no tempo quente, há uns anos atrás, passavam pelas ruas da nossa cidade trazendo às costas as ferramentas do trabalho: sachos e enxadas. Quase sempre em grupos, vinham das nossas aldeias mal o sol rompia no horizonte e quando o dia era ainda uma criança.
Chamavam-lhes, aqui em Ovar, as Marias de Arada, talvez por grande parte delas provir dessa nossa freguesia.
Contou-me uma lavradeira de provecta idade que, no seu tempo (princípio do séc. XX), as sachadeiras vinham das aldeias e das zonas rurais de Ovar para o Mercado – ou praça, como então lhe chamavam –, junto da Câmara, para aí serem contratadas por quem necessitasse dos seus serviços.


As sachadeiras
Era um trabalho sazonal, que apenas durava alguns dias, no chamado tempo da sacha.
Por entre o milho e outras culturas, sachavam a terra manualmente, removendo-a, tornando-a mais fofa e destruindo as ervas daninhas.
À tardinha, quando o astro-rei começava a esconder-se no mar e a Terra ficava iluminada pelo crepúsculo, era muito bonito vê-las passar de volta, depois de um dia de trabalho árduo, cantando a várias vozes, num tom harmonioso, como se de um coro orfeónico se tratasse.
Muitas vezes, os rapazes da época, levados pela sua juventude impetuosa, lançavam-lhes alguns piropos, a que elas respondiam com a sua piada brejeira, continuando a seguir o seu percurso, sempre a cantar…
Aquelas vozes ainda hoje parecem chegarem aos meus ouvidos, trazidas pelo vento.
E dos versos que cantavam ainda retenho alguns na minha memória, como estes que aprendíamos nos livros da escola: “Indo um lavrador p’ra Arada, ai Jesus / Encontrou um pobrezinho, ai Jesus!”, cujo poema continuava, descrevendo uma velha lenda, ou como aqueloutro que lembrava os canários com penas muito bonitas, fazendo inveja àquelas mulheres do campo: “Canário, lindo canário! / Canário, meu lindo bem. / Quem me dera ter as penas / Que o lindo canário tem!...” Estes versos, cantados a várias vozes, misturadas com o piar das aves que, na época, costumavam cruzar os céus, eram encantadores!...
Pouco a pouco, o trabalho das sachadeiras deixou de ser feito de forma manual, sendo o sacho e a enxada substituídos pelas máquinas, que não têm alma nem poesia.
Quem as viu sachar, em grupos, as terras cultivadas, até ao pôr-do-sol, e passar pelas ruas a cantar melodiosas cantigas que o vento arrastava para longe, hoje, ao recordá-las, sente saudade!...


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE JUNHO DE 2004) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/05/as-sachadeiras-texto-jos-de-oliveira.html

22.3.08

Lembrando as Senhoras Silveiras

Jornal JOÃO SEMANA (01/07/1981)
TEXTO: Maria José Vinga

Foi por 1905. Devia eu ter seis anos quando, pela primeira vez, minha mãe me foi vestir de anjo a casa das Senhoras Silveiras, para eu ir na procissão do Senhor dos Passos.
Eram três irmãs solteiras, que habitavam a casa que já tinha sido dos pais, ali no largo do Quartel, onde vestiam anjinhos para festas e dirigiam uma agência funerária. As senhoras deixaram-me muito linda, com um vestido de seda branca e umas asas grandes e brancas nas costas. Creio ter sido por esta razão que eu fiquei a gostar das Silveiras, embora lhes tivesse de sofrer os perdigotos com que me agrediam quando falavam, inconveniente contrabalançado pela amabilidade das suas palavras, dos seus sorrisos e dos seus gestos sempre senhoris, delicados e atenciosos.
Fui crescendo, e comigo crescia também a amizade por D. Maria Luísa, D. Joaninha e D. Hortense. Já eu andava no Colégio e aos domingos ia visitá-las, com consentimento de minha mãe, pois das janelas de sua casa via-se o movimento da vila ou, mais propriamente, da Arruela.
Um dia, disse-me a D. Maria Luísa: – Sabe, quando eu era pequena, Ovar tinha menos gente. Quando se fazia uma festa na rua, não se podia fazer nada na Igreja. Mas agora há gente que chega para tudo: Igreja; cinema, cafés, jogo da bola. E tudo se enche. Depois que se montaram fábricas, veio gente de toda a parte viver para Ovar, e por cá ficaram para sempre. Nós somos hospitaleiros, mas nem sempre compreendidos.

Um dia, era eu já crescidita, estava à janela entre a D. Hortense e a D. Maria Luísa, quando passou um grupo de rapazes que olharam para cima com modos um tanto atrevidos D. Maria Luísa desviou-se um pouco para dentro, observando: – Sabe, minha querida, um botão de rosa tem o direito de escolher um cravo para a acompanhar na vida, mas é preciso saber escolher! Pois uma menina que esteja habituada a lavar os dentes não deve afeiçoar-se a um moço que não tenha esse hábito. Pois quando os hábitos e educação são semelhantes, há melhor compreensão, melhor ajustamento.
Sábios e santos conselhos, que ainda hoje são bem actuais!... (Que pena eu tenho de não os poder transmitir a todas as meninas de 16 anos do mundo inteiro!)
Estas boas senhoras deram na minha educação um toque subtil que eu jamais esqueci.
As Silveiras tinham mais três irmãs, que se chamavam D. Maria Mafalda, D. Estefânia e D. Hermínia, todas casadas, as primeiras com escrivães de Direito, e a última com o sr. Abreu, inspector dos caminhos-de-ferro. Este último casal tinha duas filhas que eram minhas colegas e grandes amigas.
Conheci também o único irmão das Silveiras. Era o sr. Isaque, farmacêutico, dono da farmácia das pontes, na Senhora da Graça, onde eu ia muitas vezes aviar receitas para a minha família.
Quando ficou viúvo, o sr. Isaque acabou com a farmácia e foi viver para a Quinta das Luzes, que tinha sido do avô paterno.
Toda esta boa gente – seis meninas e um rapaz – era herdeira de um nome célebre. Seu pai era o Dr. João José da Silveira, a quem o grande escritor Júlio Dinis imortalizou com o nome de “João Semana” no romance “As Pupilas do Senhor Reitor”, onde é apresentado como modelo do médico trabalhador e paciente. O Dr. Silveira foi, de facto, um benfeitor dos pobres, que o adoravam. Diariamente, à tarde, ia, a cavalo, visitar os seus doentes. Nas tardes de mais calor levava, aberto, um grande guarda-sol branco. Por casualidade, a montada era da mesma cor, pelo que chamavam o “João da burra branca” ao criado – um rapazito – que o acompanhava para tomar conta da azémola, nome que ele conservou até morrer.
E fico-me por aqui nesta peregrinação pelo meu passado.Casa das Silveiras no Largo do Quartel
Nesta casa residiu, depois do casamento, o Dr. João José da Silveira (o “João Semana” das Pupilas), que ali tinha o seu consultório, bem como sua esposa, D. Maria Luísa da Fonseca, e seus filhos Mafalda, Hortense, Hermínia, Isaque Júlio, Manuel Maria (falecido novo), Estefânia, Maria Luísa e Joana.

Casa onde residiu o Dr. João José da Silveira, o "João Semana" das Pupilas
No rés-do-chão do prédio, e já depois da morte do Dr. João Semana, as Senhoras Silveiras, que eram modistas, montaram um novo comércio – uma agência funerária (com porta para o caminho que dá para as Luzes), e alugaram outra parte a João Mendonça, que ali instalou uma oficina de sapataria manual e uma barbearia (esta última bem identificada na gravura).
Esta casa, verdadeiramente histórica, por ter sido a segunda casa do Dr. João Semana – a primeira foi a Quinta das Luzes, onde nasceu e viveu a mocidade estudantil –, veio a ser demolida em 1958, após ter sido vendida (1956) pelos herdeiros sobreviventes. Uma terça parte (pertencente às filhas solteiras) ficou para a criada Augusta, que passou a viver numa pequena habitação anexa (também visível na gravura) que, felizmente, ainda se conserva.
Chamamos a atenção dos leitores para o jardim dos Combatentes (do muro para cá) e para a estrada da Arruela, por onde passava grande parte do movimento da vila.
Resta acrescentar que a feliz criança que posou para a posteridade, acompanhando a já demolida casa das Silveiras, é o Dr. Joseph Fernando Pinho Cruz, residente em Elizabeth, nos Estados Unidos, a quem cumprimentamos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE JULHO DE 1981)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/03/prole-de-joo-semana-lembrando-as.html


ADENDA ----------------------------

Três das filhas, as que mencionámos primeiro, casaram fora. As outras são as personagens evocadas hoje por D. Maria José Vinga e que ficaram solteiras na casa natal. O Isaque, farmacêutico, viveu na Quinta das Luzes, que fora de seu avô paterno, e que lhe foi deixada por seus tios Manuel e Margarida Silveira, que lá faleceram solteiros. O Manuel Maria faleceu novo, vítima da tuberculose, quando estudava medicina.

8.3.08

Mulher vareira – Beleza que vem de longe

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/1977)
TEXTO: António Pinho Nunes

Quando se fala em Vareiros, geralmente são esquecidas as Vareiras. Há, no entanto, quem fale nelas e em termos que, de certo, as envaidece. Mais que isso: todos concordam com as suas graças, cuja origem alguns discutem: fenícia, grega?Ora bem. Isto é difícil de definir, porque passou por aqui uma data de povos.
Em História (e histórias) vai-se, muitas vezes por aí fora, de marcha atrás, até ao pai Adão. (Neste caso seria até à mãe Eva). Não iremos tanto. Vamos, porém, recuar uns milhares de anos, ver quem andou por cá, e tentar localizar num desses povos a graça vareira. Será possível? Não é fácil!
Não sei se ainda hoje se ensina na Escola quais foram os primeiros povos que habitaram estes sítios. A gente tinha isso de cor: vândalos, suevos e alanos; fenícios, gregos e cartagineses; celtas, celtiberos, lusitanos, romanos, etc.


Varinas (Ovar)
Todos nós sabemos que não somos uma raça, mas sim uma data delas em mistura. Pelo sangue que nos anda cá dentro – se pudéssemos analisá-lo (não sei o processo) e chamar nomes aos seus milhões de glóbulos – poderíamos chamar a uns fenícios, a outros gregos, etc., etc.
Por Ovar também passou de tudo. Vamos, por exemplo, ver os fenícios. Há cerca de 3000 anos vieram por aí fora, dos lados do Oriente (Líbano), à procura do ferro, do cobre e da prata da Andaluzia. Eram marinheiros, pescadores e mercadores. De certo também traziam para cá tecidos de púrpura, que era a sua especialidade. E que mais? Trouxeram ainda o alfabeto e ensinaram-nos as 1.as letras. – Sim, porque foram eles que inventaram o alfabeto! E, finalmente, nas suas andanças por cá, terão influenciado o tipo de construção dos nossos barcos.
E os grupos? Dizem alguns que o tipo de beleza da mulher vareira será indício da colonização grega. Dizem outros que não há certeza, pois os grupos não deixaram cá grandes vestígios. Supõe-se, no entanto, que no séc. VI A. C. (há 26000 anos) já eles andavam por cá. Mas não andaram muito tempo.
Será, então, que as parecenças gregas das nossas vareiras serão só coincidência?Raul Brandão diz que a mulher vareira é bonita por causa da luz da ria, produto de beleza feito apenas de água azul trespassada de sol…
Varina - Ovar
Mais diz ele que as vareiras são altas, bem proporcionadas, delicadas, fortes e cheias de predicados domésticos e morais. Mais ainda (que o não saibam as murtoseiras!...): que as vareiras não se confundem com as mulheres da Murtosa, que são baixas e atarracadas (e usam óculos – digo eu) …O professor Patrício escreveu que dos povos que por cá passaram nada mais existe hoje que a beleza tradicional da mulher vareira, de tipo fenício – grego, e a elegância dos nossos moliceiros, de estilo fenício.
Dias Simões, por sua vez, a respeito das suas conterrâneas, faz rimar com «busto romano» «uns olhos de fazer perder um franciscano…»
Então, em que ficamos? Continue a discutir quem souber. É difícil. E o melhor será continuarmos na tal mistura de raças, e dizer das vareiras com Belmiro Adelino:

Rostos fenícios
Tez muçulmana
Olhos egípcios
Graça romana.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE OUTUBRO DE 1977) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/03/mulher-vareira-beleza-que-vem-de-longe.html