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5.3.16

Jornal “João Semana” esteve na casa do escritor Ferreira de Castro

Ferreira de Castro
Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2015)
TEXTO: Fernando Pinto

«Eu devia este livro a essa majestade verde, soberba e enigmática, que é a selva amazónica, pelo muito que nela sofri durante os primeiros anos da minha adoles­cência e pela coragem que me deu para o resto da vida.
(...) A luta de cearenses e maranhenses nas florestas da Amazónia é uma epo­peia de que não ajuíza quem, no resto do Mundo, se deixa conduzir, veloz e como­damente, num automóvel com rodas de borracha - da borracha que esses homens, humildemente heróicos, tiram à selva misteriosa e implacável.» (Ferreira de Castro, no Pórtico do romance “A Selva”)

Há muito que o padre Manuel Pires Bastos queria juntar os cola­boradores do jornal “João Sema­na” para que pudessem conviver e trocar impressões sobre este pe­riódico centenário que muito tem feito pela cultura e historiografia vareiras. Em 10 de agosto o desejo do Sr. Abade concretizou-se, e as pessoas que apareceram nesse dia na redação foram conhecer alguns lugares dos concelhos de Ovar, Es­tarreja e Oliveira de Azeméis.

Ossela, terra natal do escritor Ferreira de Castro

A casa do escritor Ferreira de Castro, em Ossela (Oliveira de Azeméis)
FOTO: Fernando Pinto

O ponto alto do passeio foi a visita à casa onde nasceu, em 24 de maio de 1898, o escritor José Maria Ferreira de Castro (na foto).
A tarde escaldava quando o grupo de Ovar chegou ao lugar de Salgueiros, em Ossela. (Os pneus da velha carrinha da Paró­quia, conduzida pelo artista Mar­cos Muge, puderam arrefecer um pouco depois de terem andado uns bons quilómetros lá para os lados da serra).

Os colaboradores do jornal "João Semana" na casa de Ferreira de Castro

Já no interior da Casa­-Museu Ferreira de Castro, foram­-nos mostrados a adega e, no piso superior, a cozinha, a sala e os dois quartos – o de sua mãe Maria Rosa e o seu –, onde se encontram a mala e os sapatos que o escritor usou na viagem reali­zada em 1939 à volta do mundo (na foto).

 A mala e os sapatos do escritor Ferreira de Castro
FOTO: Fernando Pinto
Ferreira de Castro, que também abraçou a carreira de jornalista, é um dos autores portu­gueses mais traduzidos de sempre, sendo as suas obras “Emigran­tes” e “A Selva”, as mais lidas. Esta última foi escrita de 9 de abril a 29 de novembro de 1929, e foi impressa “em princípios de maio de 1930, andava eu, de novo como enviado de O Século, em viagem pelos Aço­res”, lembrou o escritor osselense nas páginas iniciais de “A Selva”. (Partiu aos 12 anos de idade para o Brasil, vivendo no Seringal Pa­raíso, no interior da Amazónia, e posteriormente, em Belém do Pará, na foz daquele rio brasileiro. Viria a falecer em 1974, com 76 anos de idade, sendo sepultado, a seu pedi­do, na Serra de Sintra).
Antes de descer a escadaria de pedra daquela casa de meados do século XIX, de traça rural, o grupo de Ovar deixou algumas palavras no último dos muitos livros de visi­tas – o escritor José Saramago tam­bém passou por lá em 21 de maio de 1999, no Centenário do Nascimen­to de Ferreira de Castro –, e depois atravessou a rua e entrou na Biblio­teca de Ossela, edifício doado pelo escritor, onde se podem apreciar, para além das suas obras, entre outro espólio, alguns quadros de artistas oferecidos ao romancista.

Outros lugares visitados
Da parte da manhã, o primei­ro ponto de paragem foi Pereira Jusã, antigo lugar e concelho, da freguesia de Válega, Ovar, com o seu pelourinho (na foto). O artista Marcos Muge tem ali um pequeno painel de azulejo doado aos vale­guenses em 2 de junho de 2014, por altura das comemorações dos 500 anos da outorga do Foral Ma­nuelino a Pereira Jusã.

Pereira Jusã, antigo lugar e concelho, da freguesia de Válega, Ovar
FOTO: Fernando Pinto

Em Estarreja, o grupo entrou na Igreja de São Tiago de Beduí­do e pôde dar uma espreitadela na Casa da Areosa, do séc. XVIII.
Na Bemposta, Oliveira de Aze­méis, visitámos o centro histórico do antigo concelho e a casa e ca­pela de São Gonçalo, propriedade do Juiz Desembargador Carlos Joa­quim Almeida e Sousa (na foto), assumido vareiro, que recebeu de braços abertos os seus conterrâneos.


A Quinta do Barão, em Lou­reiro, foi o local escolhido para os colaboradores do jornal retempera­rem forças (na foto).

Na Quinta do Barão, em Lou­reiro
FOTO: João Elvas

Depois de um anima­do almoço, partimos em direção ao Parque de La Salette, onde desfrutámos do ambiente festivo que se vivia naquele santuário.
O passeio terminou no aprazível Parque Temático Molinológico localizado ao longo dos rios Ul e An­tuã, nas freguesias de Ul e Travanca, região de molei­ros e moinhos, onde ainda se pode assistir às várias fases do fabrico do pão.

O grupo de Ovar no Parque Temático Molinológico, em Oliveira de Azeméis. 
Da esq. para a direita: Fernando Pinto, Teresa Queirós, padre Bastos, Joaquim Castro,
 David Tavares, Joaquim Fidalgo, Manuel Malícia, Aníbal Gomes, José Pinto,
João Elvas, Ilda Elvas e António Valente (foto de Marcos Muge)

A “família” do “João Sema­na” está bem viva, e espera que os ovarenses sigam os seus passos apoiando este jornal que resistiu a duas Grandes Guerras, e que dese­ja continuar a cumprir o papel que lhe foi conferido há 101 anos, por­que um povo sem memória é um povo sem futuro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de setembro de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/03/jornal-joao-semana-esteve-na-casa-do.html

30.1.14

Júlio Dinis e Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

As principais obras de Júlio Dinis, exceptuando “Uma Família Inglesa”, que é um romance urbano cuja acção se desenrola na cidade do Porto, têm os seus enredos na província.
Joaquim Guilherme Gomes Coelho – era este o seu verdadeiro nome – esteve em Ovar, entre os anos 1863 e 1866 em casa de sua tia Rosa Zagalo, para convalescer de uma tísica, a doença que, na época, mais vidas dizimava, especialmente entre a população jovem.
O Dr. Egas Moniz e outros biógrafos deste magnífico escritor dizem serem oriundas de Ovar muitas das personagens e dos ambientes narrados por Júlio Dinis nos seus romances, especialmente nas “Pupilas do Senhor Reitor”.
Este texto vem a propósito de algumas conversas que, há anos atrás, mantive com uma tia-avó, nascida em 1879, e que sempre manifestou muita vontade de conversar e de recordar factos da sua infância.
Dizia-me ela ter ouvido sua mãe contar muitas histórias de quando era mais nova, sendo uma delas relacionada com a ida à nossa Igreja ouvir um missionário cujos sermões chegavam, por vezes, a assustar os fiéis.
Afirmava ele, numa das suas práticas, ser a vaidade a maior ofensa a Deus e a responsável pela queda de muitas almas no Inferno. Para remir tal pecado, uma forma de expiação sugerida por esse sacerdote consistia no corte do cabelo das raparigas jovens, e não só, especialmente daquelas cujo penteado era composto de lindas tranças ou outros enfeites.
Essas pregações, que se desenrolavam, geralmente, ao longo de uma semana – a Santa Missão –, eram anunciadas de véspera, ao toque de uma campainha, enquanto o seu portador ia cantarolando:

“Vinde pais e vinde mães,
Vinde todos à missão,
Vinde ver os vossos filhos,
À mesa da comunhão.”

Ao reler, agora, a “Morgadinha dos Canaviais”, e ao entrar no episódio do missionário que manda cortar as tranças às raparigas para fazerem penitência, levando Ermelinda, filha do Cancela, a tomar essa atitude perante o desespero do pai, logo me lembrei das conversas tidas com minha tia-avó, interrogando-me se a personagem do missionário não será também fruto do que Júlio Dinis viu ou ouviu durante a sua estadia em Ovar, embora ele dê sempre a ideia de que tudo isso tenha acontecido no Minho.
Deixo essas considerações ao cuidado dos estudiosos do laureado escritor, falecido precocemente em 1871, com apenas 32 anos de idade.
 
Páginas de rosto do livro “Missão Abreviada” (1861)
pertencente a Maria de Oliveira Zagallo, do Largo dos Campos,
irmã de Rosa Zagallo Gomes Coelho (casada com António Gomes Coelho,
tio paterno de Júlio Dinis). O livro está assinado em 1863, ano em que o escritor
pela primeira vez para casa destas suas tias.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/01/julio-dinis-e-ovar.html

18.5.13

Florbela Espanca – Uma mulher desfasada no tempo

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2012)
TEXTO: José de Oliveira Neves

No passado dia 8 de março celebrou-se o Dia Internacional da Mulher, e na mesma data foi exibido em vários cine­mas do país o filme “Florbela”, permitindo que o nome desta escritora fosse referenciado em toda a comunicação social.
Pelas atitudes que tomava, nada comuns nos finais do séc. XIX e princípios do XX, Florbela Espanca é bem o símbolo da mulher livre de preconceitos.

Nos passos da Hortênsia

Florbela Espanca
É curioso que em Vila Viçosa, a terra que foi seu berço, já no séc. XVI uma outra mulher se distin­guiu pelo seu comportamento, fora dos parâmetros sociais da época. Estudando Ciências na Universi­dade de Coimbra e usando traje de homem, Pública Hortênsia da Costa – era esse o seu nome – dis­cutia, aos 17 anos de idade, com os doutos mais velhos, mostrando uma invulgar instrução, a ponto de Filipe II, Rei de Castela e Portugal, lhe conceder uma tença de 20$00 reis.
Mas não é para divulgar a vida e a obra desta ilustre calipolense do séc. XVI que me proponho a escre­ver este texto. É somente para evo­car Florbela Espanca, uma grande senhora da literatura portuguesa, de quem o saudoso Dr. Fragateiro me dizia ter sido das nossas melhores sonetistas, utilizando símbolos nos seus poemas, tal como fazia Antó­nio Nobre, o poeta do , cujo livro ela guardava religiosamente na sua mesinha de cabeceira.
Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa a 8 de dezembro de 1894. A certidão de batismo indica que é filha de pai incógnito e filha natural de Antónia da Conceição Lobo, solteira, empregada no servi­ço doméstico, e que foi batizada na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição de Vila viçosa, com o nome de Flor Bela Lobo, tendo por madrinha Mariana do Carmo, a esposa legítima do pai natural, que levou a menina para ser criada em sua casa, por ela e pelo marido, João Espanca, que a convencera a tomar essa decisão passados sete anos do casamento, por ela não engravidar.

Da esquerda para a direita: o irmão Apeles,
o pai João Espanca e Florbela
A sombra de Apeles

Antónia Lobo teve ainda um outro filho, Apeles, que será o gran­de amor de Florbela. Uma paixão que alguns historiadores dizem ter chegado perto do incesto.
Em 6 de junho de 1927, Apeles, que era piloto-militar, despenhou­-se com o avião que pilotava nas águas do Tejo, ao lado da Torre de Belém, nunca tendo sido en­contrado o seu corpo. A partir daí Florbela jamais conseguiu dormir tranquila, andando sempre triste e não deixando o luto.
Aos 19 anos, ainda estudante, casou, pela primeira vez, com Alberto Moutinho, também estu­dante, tendo-se ambos dedicado, para sobreviverem, a dar explica­ções. Aos 23 anos, frequentando o 3.º ano de Direito, em Lisboa, e como o marido vivia no Algarve, conheceu num baile um jovem militar, António Guimarães, com quem viria a casar, e de quem ao que consta, re­cebia maus tratos.
Em 1923, depois de Alberto Moutinho lhe ter pedido o divórcio, co­nhece o terceiro marido, o médico militar Mário Lage, e vem residir para Esmoriz, no concelho de Ovar, indo posteriormen­te, em 1926, viver para Matosinhos, na casa dos pais de Mário Lage.

Casa no lugar de Casela, em Esmoriz, onde residiu Florbela Espanca de 1923 a 1926

Tem ainda um caso com o pianista e médico Luiz Maria Cabral, e ou­tro com Ângelo César, no Grande Hotel do Porto.
Aurélia Borges, sua discípula, amiga e confidente, diz que “o amor era por parte de Florbela uma procura quase doentia”. A poetisa, num soneto intitulado de “Ambiciosa”, escreve: “Amor dum homem?  – Terra tão pisada, / Gota de chuva ao vento baloiçada… / Um homem? -, Quando eu sonho o amor de um Deus!...”.

Os males de Anto

A sua existência inconstante e angustiosa, marcada, face aos padrões da sua época, por escânda­los comportamentais que levavam algumas vezes a sua família a cortar relações com ela, teve um desenlace extemporâneo e trágico, no dia 8 de Dezembro de 1930, às duas da manhã – a mesma hora, dia e mês do seu nascimento – após de ter esgotado dois frascos de “Veromal”.
Quis o destino que Florbela Espanca passasse os últimos tem­pos da sua existência, antes de pôr termo à vida, na terra onde também já tinha padecido, com os males da tísica, o seu poeta predileto, António Nobre, de quem dizia, no poema “Impossível”: “Os meus males ninguém mos adivinha… / A minha dor não fala, anda sozi­nha… / Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!... / Os males de Anto, toda a gente os sabe! / Os meus… ninguém… A minha dor não cabe / Nos cem milhões de versos que eu fizera.”

Para além do tempo...

O seu corpo ficou sepultado no cemitério de Sendim, Matosinhos, no jazigo de D. Josefina Sant’Ana Pereira Lage, sendo trasladado para Vila Viçosa, sua terra natal, onde se realizaram várias cerimónias e onde viria a ser inaugurado o seu busto no Parque Municipal.
Quando das cerimónias da Igreja, cuja doutrina não aprova o comportamento da poetisa, antagó­nico à sua doutrina cristã, o próprio arcebispo de Évora reconheceu publicamente Florbela como uma grande escritora.
A Divisão da Cultura da Bi­blioteca e Património Municipal de Ovar organizou, de 4 a 23 de janeiro de 2010, uma exposição sobre a poetisa, que pisou durante cerca de três anos, a nossa terra, apreciando as paisagens do litoral, muito diferentes do seu Alentejo.

Florbela Espanca deixou-nos as seguintes obras:
Poesia: “Livro de Mágoas” (1919), “Livro de Soror Saudade” (1923), “Charneca em Flor” (1931, edição póstuma), “Reliquiae” e “Juvenília”.
Prosa: “Dominó Preto” e “Más­cara do Destino” (livros de contos).
Principais fontes: Rui Guedes, “Florbela Espanca – fotobiografia”; jornais e revistas e apontamentos enviados pelo Município de Vila Viçosa, a quem agradeço.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de maio de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/05/florbela-espanca-uma-mulher-desfasada.html

3.10.12

Almeida Garrett e a pesca do Furadouro

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2010)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Furadouro, Ovar
Quem já leu o livro “A Pesca no Furadouro – 1800-1955”, de que sou autor, e que foi editado por este jornal, tomou conhecimento da importância que teve na economia vareira a quantidade de sardinha colhida no mar da costa do Furadouro na segunda metade do século XIX e primórdios do século XX.
De um dos autores que mais escreveram sobre este tema, o Dr. Eduardo Lamy Laranjeira, transcrevemos aquilo que nos diz a este respeito em “O Furadouro – O Povoado – O Homem e o Mar”, justificando o realce que dou a essa actividade na referida época:

Pesca da Arte Xávega (Furadouro, Ovar)
“A classe piscatória vareira, nascida e residente na paróquia de S. Cristóvão, foi sempre bastante numerosa, conforme “Memórias e Datas”, que refere o número de 10 companhas em 1600 e de 6 em 1869, empregando cerca de 2000 almas, homens e rapazes. Ora, tendo em atenção o elemento feminino, mais numeroso que o masculino – umas 2400 mulheres e raparigas, não para menos –, temos que a globalidade da classe atingia, nesse ano, umas 4400 pessoas. 
O ano de 1864 acusa para o concelho 17.167 pessoas (Ovar, Válega, S. Vicente e Arada), pelo que a demografia da paróquia de S. Cristóvão devia, em 1864, apresentar entre 40 a 50% de elementos da classe piscatória”.

Isto vem a propósito da releitura que fiz recentemente do romance histórico “O Arco de Sant’Anna”, de Almeida Garrett, cujo primeiro volume foi publicado em 1845. Nele encontrei, no capítulo XIV, a seguinte passagem, alusiva a uma possível revolta devida ao descontentamento do povo do Porto:
“Sangue!... E o meu sangue é o que eles querem, os desmandados, o ruim populacho que aí se está a juntar mais basto do que um bando de sardinhas em Ovar”. 
Esta referência à faina marítima em  Ovar na primeira metade do século XIX confirma a importância que teve, naquele tempo, a costa de Ovar na pesca da sardinha, com o valor acrescentado de ter sido feita por um dos clássicos das nossas letras pátrias.
As duas primeiras fotografias que apresentamos, do início do século XX, mostram-nos como ainda há um século era basto o bando de sardinhas a saltar nas lotas ao longo do areal.

 José de Oliveira Neves junto ao que resta
do Arco de Sant’Ana, perto da Sé do Porto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE MARÇO DE 2010) 
Endereço que deve colocar numa bibliografia
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/10/almeida-garrett-e-pesca-do-furadouro.html

17.9.12

Júlio Dinis: Carácter do Homem e do Escritor

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2007)
TEXTO: António Ferreira Valente
Júlio Dinis
A Igreja de S. Francisco, no Porto, foi o local de culto de predilecção de Júlio Dinis durante a sua breve existência. Em frente a esta Igreja viveram os pais do escritor, na antiga Rua do Reguinho, a actual Rua de S. Francisco, na freguesia da Vitória. Nasceu e viveu, aqui,onde passou também a conviver com a morte, que atingiu a sua família e a ele próprio, aos 31 anos de idade.
Contrariamente à opinião de alguns críticos, que consideraram Júlio Dinis avesso à crença em Deus, a sua vida foi atravessada por valores e causas que reflectiam o contrário. Homem de alta moral, sempre foi, isso sim, crítico em relação a alguns que professavam a fé mas que, para ele, contrariavam o pensamento e o belo exemplo de vida de Cristo.
Isso mesmo se reflectiu nos seus registos, nas cartas trocadas com familiares e amigos íntimos, ou nos belos painéis pintados nos seus romances, em que é forte essa componente de homem de fé, mas resistente à hipocrisia da sociedade, seja ela religiosa ou pública. Em quantos momentos de angústia, de tristeza pela perda de mais um elemento da família ou de amigos, Júlio Dinis, no interior da Igreja de S. Francisco, encontrava a paz interior.
Por motivos da demolição de uma vasta zona ribeirinha (…), teve que se transferir, com seu pai, o vareiro Dr. Joaquim Gomes Coelho, para uma casa modesta da Rua de S. João Novo.
O seu irmão, Dr. Guilherme, falecido em 1855, viveu na zona de Monchique, onde deixou viúva sua esposa, com três filhos: Guilherme, Alberto e Ana, ou Anita, como Júlio Dinis a tratava.
Vem para Ovar, em Maio de 1863, por motivo do agravamento da sua saúde, precisamente numa altura em que tudo apontava para a possibilidade da sua entrada como Demonstrador na Escola Médico-Cirúrgica, no concurso aberto em Abril desse ano.
Igreja Matriz de Ovar, que Júlio Dinis frequentou, e em cujo adro observava
as brincadeiras da sobrinha Anita
Na casa da Tia Rosa Zagalo, no Largo dos Campos, onde estava hospedado, recebeu, por volta de Julho desse ano, a sobrinha Anita, a quem acompanhou pelas ruas centrais de Ovar, dando-lhe a conhecer alguns locais com interesse. No átrio da Igreja Matriz, enquanto aguardava pela hora da Missa, Júlio Dinis, à sombra de um plátano, observava as brincadeiras da sobrinha que, com as suas pequenas mãozitas, abria uma cova, e assim se entretinha.
Quarto que Júlio ocupou durante a sua
permanência em Ovar
Já no interior da igreja, Júlio Dinis colocava-se junto à nave direita, num gesto que se repetiria enquanto permaneceu em Ovar, como se o fizesse transportar até à igreja de S. Francisco, no Porto.
Momentos deliciosos e de encanto viveu-os Júlio Dinis quando, após o regresso da Anita a Monchique, se deslocava à Igreja e, estando debaixo daquele plátano, vindo-lhe à recordação a sua sobrinha, agora ausente, tomava a atitude, um tanto discreta (talvez porque não seria entendida por quem o visse), de renovar a covita que ela tinha feito.
Esta cena de extrema ternura – sua mãe falecera de tuberculose quando ele tinha 5 anos de idade –, os afectos maternais que encontrou da parte de sua tia D. Rosa Zagalo e os seus encontros com a ruralidade das personagens com quem conviveu intensamente, fizeram com que em alguns momentos se esquecesse da doença, razão que o tinha trazido a Ovar.
Recordar estes episódios é a melhor homenagem que podemos prestar a Júlio Dinis na passagem do 168.º aniversário do seu nascimento, ocorrido em 14 de Novembro de 1839 na rua do Reguinho, freguesia da Vitória, da cidade do Porto.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE NOVEMBRO DE 2007) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/09/julio-dinis-caracter-do-homem-e-do.html 

ADENDA -----------------------------------------

«Quando Júlio Dinis esteve em Ovar, em 1863, tinha a Anita 13 anos. Pouco tempo antes ela ali o visitara. À partida de seu tio do Porto, não se cansou de lhe pedir que escrevesse e desse notícias da terra, recordando-lhe as suas brincadeiras debaixo dos álamos que, ao tempo, ensombravam o largo da Igreja». (Egas Moniz, revista Aveiro e o seu Distrito, n.º 15, Junho 1973)

Aconselhamos a leitura dos artigos publicados no sítio da revista Aveiro e o seu Distrito. (Clique nos links que se seguem).

Antologia Aveirense – Júlio Dinis, por Waldemar Gomes de Lima
http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/Boletim15/page039.htm

Júlio Dinis – O médico das almas simples, pelo Dr. António Tavares Simões Capão
http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/Boletim11/Page07.htm

29.12.11

Obras a “bom ritmo” na Casa-Museu Júlio Dinis

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2011)
TEXTO: António Ferreira Valente

Após sete anos e sete meses de encerramento ao público da Casa-Museu Júlio Dinis, em Ovar, de que eu fui o último “monitor”, estão ali a decorrer, a “bom ritmo”, obras de reconversão que, na minha maneira de ver, constituem graves agressões ao imóvel do século XIX.
Começou logo pela demolição do compartimento contíguo à cozinha, espaço que fazia parte integrante da mesma, e que continha, até ao momento do encerramento, um acervo museológico da época. Existem divergências sobres este espaço, mas ele já existia quando das fotografias publicadas na revista “Serões” de fevereiro de 1906, tiradas pelo Dr. Antero Figueiredo, quando do seu contacto, nesta casa, com D. Maria Zagalo, prima do Dr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Júlio Dinis).
Casa onde morou o escritor Júlio Dinis
Devia ter sido evitada esta solução, que resulta em transformações irreversíveis em toda a configuração da Casa-Museu.
Mais grave é que o novo edifício que está a ser edificado, de arquitetura moderna, ocupa parte do compartimento que, entretanto, foi demolido, passando a constituir a entrada direta na cozinha da Casa-Museu, criando nos visitantes um impacto negativo pela envolvência de construções do séc. XIX e do séc. XXI).
O objetivo da intervenção que desde há muito tempo se impunha, deveria ter sido reavivar o aspeto da Casa-Museu Júlio Dinis, evitando-se o acrescento de novos edifícios com ligação direta à Casa, conforme está a acontecer, e integrá-la dentro das características tipológicas que marcam a arquitetura do Largo dos Campos, onde ela se insere, respeitando um dos raros imóveis do século XIX.
Estranhamente, a cota do edifício que está a ser edificado é superior à área útil da Casa-Museu, o que provoca um total esmagamento, emparedando a ligação da Casa ao quintal, área importante no contexto museológico, dada a sua ligação ao romance “As Pupilas do Senhor Reitor”.
Nas cartas do Dr. Joaquim Guilherme (Júlio Dinis) podemos encontrar algumas das vivências que teve neste espaço exterior, não só nas suas horas de confortável repouso, como nas idas ao poço, colaborando com a prima Maria (na altura com 20 anos de idade), no escutar o canto do rouxinol, ou no contacto precioso com o jornaleiro José Travanca, da Ponte Reada, que lhe proporcionou a inspiração da personagem José das Dornas, do romance “As Pupilas do Senhor Reitor”.
Com a edificação deste novo edifício, desaparecerá lamentavelmente toda a relação do espaço com a ruralidade, elementos que deveriam ser tidos em conta no projeto.
É verdade que, depois da obra pronta, quando for a sua inauguração com a habitual “pompa e circunstância”, tudo à volta parecerá bonito aos presentes, mas os visitantes mais atentos e conhecedores da história desta Casa, esses irão sofrer um impacto negativo.
Aqueles que, após a visita no interior da Casa, estavam habituados, ao saírem da cozinha, a apreciar o espaço exterior vivido por Júlio Dinis, jamais terão essa ligação direta ao quintal e ao tanque, parte importante do acervo e do ambiente dinisiano.
Através da expropriação que levou a efeito com o caráter de urgência para avançar com o projeto, a edilidade perdeu a oportunidade de adquirir a área suficiente a sul do tanque (acervo museológico). É bom lembrar o belo exemplo da intervenção na Casa Camilo Castelo Branco, onde uma nova edificação não foi fator perturbador, não criou desequilíbrios.
Constitui desagrado para mim a intervenção que está a decorrer no interior da Casa-Museu, e que penso não se coadunar com os princípios de “manutenção” do antigo edifício de forma a travar a sua decadência. O soalho em tábua pregada, completamente apodrecida, tal como os rodapés e outros elementos, foram retirados na sua totalidade, e até aí tudo bem.
As paredes de toda a casa foram picadas, do meio até ao rodapé, com exagerada profundidade, e tanto esta como a zona do soalho foram preenchidas por betão.
O reboco de cimento, através de uma armadura interna em vara de ferro, em todas as paredes da Casa-Museu, irá, futuramente, agravar o problema da humidade, que resulta do exterior. A cota do piso subiu em relação à época, e não foi feita uma drenagem adequada na zona envolvente. Aqui residia à causa do problema, que depois se transferiu para as paredes da Casa.
A recuperação tem de respeitar o existente, tem de salientar o edificado antigo, e não adulterá-lo, como infelizmente aconteceu.
A aplicação deste material (betão) é incompatível com a construção do século XIX, e pode provocar a degradação rápida. Foi um erro não terem reposto o reboco de cal, brando e poroso, sem qualquer adição de cimento.

Casa-Museu Júlio Dinis em obras

Estas obras que estão a decorrer a “bom ritmo” implicaram, até ao presente, alterações profundas no edifício existente, alterando os aspetos estruturais (interior e exterior do imóvel) e espaciais que os caracterizavam.
Questiono: A GIESPAR será conhecedora da profundidade desta intervenção na Casa-Museu Júlio Dinis, e se a mesma colide ou não, sob todos os aspetos, com as histórias e as vivências que ela guarda?

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de dezembro de 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 147)


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Casa-Museu Júlio Dinis merecia melhores acessos

O artigo publicado no “João Semana” de 15 de dezembro último [texto anterior] pelo nosso colaborador António Ferreira Valente, particularmente a referência a “transformações irreversíveis em toda a configuração da Casa-Museu”, despertou o interesse de alguns leitores. Mas também o acesso principal à casa, pela viela a nascente, exígua e descontextualizada, deixa muitas dúvidas quanto às expetativas criadas à volta de uma obra que deveria ser emblemática.

Na foto, à esquerda, veem-se os diversos módulos acrescentados às traseiras da casa original, com frente para a Rua Júlio Dinis e Largo 5 de Outubro (Jardim dos Campos). À direita, uma casa cujo 1.º andar ocupa metade da dita viela.

18.7.11

Alexandre Herculano – O Homem

Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2010)
TEXTO: Orlando Caió


Alexandre Herculano (1810-1877)



Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, historiador, jornalista, poeta e romancista, nasceu em Lisboa no dia 28 de Março de 1810, no seio de uma família da classe média.
Aos 11 anos, Herculano foi estudar com os padres da Congregação do Oratório de S. Filipe de Néri, que lhe ensinaram latim, grego, francês e filosofia, mas que também o tornaram um cristão convicto e um profundo conhecedor da Bíblia. Tendo sido sempre um espírito religioso, não deixa de ser curioso que os principais detractores da sua obra historiográfica fossem homens da igreja, que não lhe perdoaram a audácia de secularizar as origens da nacionalidade, dispensando a alegada intervenção divina na batalha de Ourique.
Herculano, juntamente com Almeida Garrett, é considerado o introdutor do romantismo em Portugal. Os seus primeiros contactos com a literatura ocorreram em ambiente pré-romântico, nos salões da Marquesa de Alorna. Foi ele, pois, que introduziu no nosso País o romantismo histórico, tão característico do romantismo. A inspiração directa veio-lhe naturalmente do romancista inglês Walter Scott, e dessa figura maior da literatura francesa que foi Victor Hugo.
Os méritos do cidadão Alexandre Herculano, escritor e estudioso, eram reconhecidos quase unanimemente pelos seus contemporâneos, e por isso foi distinguido com as mais diversas honrarias. Aceitou algumas de natureza científica, mas as distinções honoríficas sempre as recusou, ao contrário de outros conhecidos intelectuais do seu tempo.

Casa de Alexandre Herculano em Vale de Lobos (Santarém)
(FOTO DO JORNALISTA FERNANDO PINTO)
Em 1866 viria a casar com D. Mariana Meira, namorada da juventude, e pouco tempo depois retirou-se para a sua quinta de Vale de Lobos, bem próximo de Santarém, onde permaneceu até ao fim da vida, ocupado com a produção de azeite de qualidade, e com os seus escritos políticos e literários. Viria a falecer a 13 de Setembro de 1877, em consequência de uma pneumonia, poucos dias depois de uma curta viagem a Lisboa.
Da sua vasta obra, podemos destacar “Eurico o Presbítero”, “O Bobo”, “Lendas e Narrativas”, “O Alcaide de Santarém”, “A Dama de Pé de Cabra” e “O Monge de Cister”.
Pena é que este grande vulto das letras e da nossa história Pátria, 200 anos volvidos após o seu nascimento, seja praticamente um desconhecido para a maioria dos estudantes portugueses.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Setembro de 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 132)

31.5.11

Homenagem à poetisa Glória de Sant’Anna

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2010)
TEXTO: Fernando Pinto

De Lisboa-menina, imersa na frescura de pregões, partiu para Moçambique-gigante, sorvendo do vento os mistérios da terra e as saudades do mar.
Cresceu por dentro, sentidos receptivos aos cheiros e às cores, coração dilatado respirando vida, cérebro febril congeminando ideias, palavras, poesia.
Avessa às armas, a guerra apurou-lhe o gosto pela paz e pela justiça, as grandes causas por que se batia.
Pemba foi o seu campo de batalha. A pena foi o instrumento da sua luta.
Exausta, voltou às suas origens. Calada, sentida, mas não rendida. Válega foi o relicário onde guardou o seu silêncio. Como se de um pacto com África se tratasse. (P.e Bastos)

Glória de Sant'Anna
Faz amanhã um ano que a poetisa Glória de Sant’Anna deixou este mundo. Na madrugada do dia 2 de Junho de 2009 desaparecia uma das principais vozes do lirismo de Moçambique.
No dia do seu 84.º aniversário, ao passarmos de carro por Válega, eu e o Padre Manuel Pires Bastos fomos bater à sua porta para lhe dar os parabéns e agradecer a entrevista concedida ao nosso jornal, no qual chegou a colaborar em 2004 (clique AQUI para ler o artigo "Glória de Sant’Anna – Memórias a preto e branco").

Naquela tarde de 26 de Maio de 2009 fomos recebidos por sua filha Inez, que nos disse “que a sua querida mãe se encontrava hospitalizada”. À despedida, junto ao portão, ficámos a saber que a escritora tinha acabado de publicar Trinado para a Noite que Avança, o mais recente livro de poesia desta ilustre senhora para quem “a escrita surgiu através das Letras, do estudo, dos bons professores, das literaturas”, como ela própria confidenciou ao “João Semana” no dia 19 de Maio de 2009, em entrevista publicada há precisamente um ano neste quinzenário que caminha a passos largos para o Centenário.

Eterna poetisa do mar azul de Pemba
Glória de Sant’Anna nasceu em Lisboa em 26 de Maio de 1925 e concluiu o curso Complementar de Letras no Colégio de Odivelas.
Casou em 1949 com o arquitecto valeguense Afonso Henriques de Andrade Paes (da família Soares Paes, comerciantes em Ovar), autor do projecto da entrada do Parque Marques da Silva da Associação Desportiva Ovarense.
Em 1951 partiu com o seu esposo para Moçambique, onde fixaram residência em Nampula.
Em 1953 a família Paes mudou-se para Porto Amélia (hoje Pemba), onde permaneceu quase até ao seu regresso à pátria, em Dezembro de 1974, junto à baía que ficaria guardada para sempre no coração de Glória de Sant’Anna. (De 1972 a 1974 viveram em Vila Pery, actual Chimoio). Viver em África deu-lhe tudo o que a vida poderia oferecer: os seus filhos.
Um dos últimos desejos da autora de Livro de Água (laureado em 1961 com o prémio Camilo Pessanha) era que o mundo dos mortais mergulhasse “numa Paz verdadeira, sem hipocrisias”.
Antes desta obra que a tirou do anonimato, escreveu Distância (1951) e Música Ausente (1954).
Em 1964 publicou Poemas do Tempo Agreste e, um ano mais tarde, Um Denso Azul Silêncio. Em 1972, Desde que o Mundo e 32 Poemas de Intervalo, e, em 1975, já em terras lusas, Do Tempo Inútil (prosa). Em 1988 Amaranto e Não Eram Aves Marinhas. De 1996 até ao seu desaparecimento, para além de poesia, publicou uns livros para a infância, prosa e crónicas.
Silêncio, solidão, música e mar atravessam, segundo a crítica, a obra poética de Glória de Sant’Anna, uma alma que nunca se deixou amordaçar pelo poder.

Viagem

Na última vaga que a contém e arrasta
a casquinha é de ouro, de vento ou de água.
Nem âncora a amarra,
nem vela a segura,
mas o pescador
cheira a sal e a espuma.

Na última vaga que a contém e solta
a casquinha é de água, de vento ou de ouro.

Nem mastro a segura
nem leme a norteia,
mas o pescador
cheira a sal e a areia.

(E o pescador cheira a sal e a areia
e deixa tombar sobre os búzios claros
os peixes de vidro que traz do mar largo.

E o pescador cheira a sal e a espuma
e deixa tombar sobre a areia húmida
seu longo cansaço).

A casquinha solta da última vaga,
espera sob as nuvens translúcidas,
pousada na areia como uma concha de nácar.

Glória de Sant'Anna ("Livro de Água", 1961)

Amanhã, pela manhã, vamos recordar-nos com saudade desta “Princesa da Poesia”, que em Música Ausente, livro que gentilmente nos enviou com uma dedicatória, confessa que “largo é o silêncio do pensamento. Triste a distância de toda a parte”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de junho de 2010)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2011/05/homenagem-poetisa-gloria-de-santanna.html

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Glória de Sant’Anna
Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2010)
TEXTO: Pinto Soares

No arquivo do “João Semana” guardávamos, desde há anos, um belo texto sobre Glória de Sant’Anna e a sua obra literária, subscrito por Pinto Soares no “Jornal de Matosinhos” de 23/3/1990.
Aqui inserimos esse texto, que dedicamos à memória da grande escritora luso-moçambicana falecida em Válega, e da qual publicamos, poucos dias antes da sua morte, pela pena do jornalista Fernando Pinto, a última intervenção como escritora.

Jaime Ferraz Gabão, em homenagem justíssima, escreveu, para a sua rubrica “Postal da Régua”, um artigo sobre a figura e a obra da consagrada poetisa Glória de Sant’Anna – trabalho que veio a lume, nestas páginas, na edição de 23/2/1990.
Nele afirma o estimado colega (trabalhámos, durante anos, no mesmo Jornal) e prezado Amigo (de longa data), que o signatário conheceu, muito bem, em terras de África, mais concretamente em Moçambique, essa extraordinária mulher que era, no Índico, uma das figuras representativas do florescente meio literário: com nome feito e prestígio invejável, conquistado mercê de uma obra que continua a ressumar a qualidade de outrora.
Nunca ninguém pôs em dúvida as qualidades excepcionais, nem a cultura de tão destacada princesa, que se distinguia, sobretudo na poesia – uma poesia fresca, luminosa, com substância e mensagem, recriadora –, também, frequentemente, repertório das suas vivências e daquilo que, atenta, circunvagando o olhar, presenciava e retinha, emprestando-lhe a elegância do seu verbo, não descurando o pormenor nem, tão-pouco, o cromatismo.
Segui, de perto, a trajectória de Glória de Sant’Anna, não pude trazer os seus livros – com pesar – ,li as críticas, sempre favoráveis, que lhe eram tecidas, a colaboração que oferecia a publicações diversas, e, mantive, em Nampula, um afável relacionamento com o seu marido, Andrade Paes, arquitecto, piloto de aviões, sabedor e corajoso, amigo de Carvalho Durão, do Catoja & Saldanha, firma sita na rua fronteira à Delegação do “Diário de Moçambique”, que eu chefiava, em instalações alugadas por Manuel Justino Sargento, “O Napoleão de Macuana”, segundo o juiz Paiva.

Glória de Sant’Anna deslocava-se com frequência de Porto Amélia a Nampula, sendo natural que, volvidos anos de tanto sofrimento para quem amava África e em particular aos habitantes de Pemba tanto se dedicou sem restrições de alma e coração, haja esquecido o cabouqueiro que um dia, afrontando o poder, se apresentou a sufrágio sem outros apoios do que aqueles que nunca lhe faltaram da parte do povo simples, mais tarde envenenado na sua candura e vítima de credulidade congénita, a macerá-lo numa guerra desumana e cruel, cujo termo ainda não se vislumbra.
Agradece, Glória de Sant’Anna, a divulgação, nestas páginas, da sua personalidade e da sua obra, graças ao dedicado empenho de Jaime Ferraz Gabão. Sentindo-nos honrados, auguramos que ela persista, enriquecendo as letras nacionais com o seu talento e forma especialíssima de versejar.
– “Não me recordo do seu nome. Muitos anos passaram…”
De Matosinhos para Válega, com ternura, “aquele abraço, a disponibilidade do JM e do seu Director – para Glória de Sant’Anna, um nome grande, respeitado, com lugar na literatura de Moçambique, nas antologias, no coração das suas gentes, na memória dos seus intelectuais.”

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de junho de 2010)

Sobre Glória de Sant’Anna leia ainda:
- "Glória de Sant’Anna em Ovar – Uma escrita de água e fogo" (texto de Maria Luísa Resende, in revista REIS/1989)

20.11.10

Ovar na evolução literária de Júlio Dinis

Júlio Dinis
Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2008)
TEXTO: António Ferreira Valente

O Dr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que usou o pseudónimo de Júlio Dinis, faleceu à primeira hora do dia 12 de Setembro de 1871, depois de uma longa agonia de três quartos de hora, em casa de seu primo José Joaquim Pinto Coelho, na Rua Costa Cabral, n.º 323, no Porto, onde, nos últimos momentos, teve a presença do seu amigo Custódio Passos (irmão do poeta portuense ultra-romântico Soares de Passos).
Foi sepultado no cemitério que então havia junto da Igreja de Cedofeita.
Com a extinção deste cemitério, em 20 de Agosto de 1888 foram transladados os restos mortais do escritor, assim como os de seu irmão José Joaquim Gomes Coelho Júnior, para o jazigo n.º 58 do cemitério privativo da Ordem de São Francisco em Agramonte, onde já estava sepultado seu pai José Joaquim Gomes Coelho, irmão daquela Ordem, da qual também fora médico. (O pai faleceu em Lisboa, em casa de sua neta Ana, no dia 21 de Julho de 1885).
Em 1939, o 1.º centenário do nascimento do escritor Júlio Dinis foi comemorado com forte adesão popular e de várias instituições portuenses, com iniciativas próprias, culminando com a romagem que partiu do Palácio de Cristal para o cemitério de Agramonte, com uma enorme moldura humana que ladeava a campa humilde onde pai e filhos repousam para a eternidade.
Actualmente, este pequeno jazigo é pouco frequentado, para não dizer esquecido, pois que até nos dias de finados raramente algum anónimo vai ali depor algumas flores.
Sinto um desgosto profundo quando visito este túmulo, pois, apesar de já ter denunciado o facto, há anos que permanece na mesma a desastrosa intervenção ali efectuada na intenção de avivar caracteres, mas que levou à adulteração ridícula das quadras de Soares de Passos dedicadas a José Joaquim Gomes Coelho Júnior, que faleceu em Dezembro de 1855, com 20 anos.
Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Júlio Dinis), enamorado por Ovar, aqui permaneceu em 1863, na casa modesta de sua tia Rosa Zagalo, por um período de quatro meses, e em outras breves passagens posteriores, aqui encontrando motivos para escrever. Ovar, com o decorrer dos dias, ia-lhe dando elementos, desde a ida ao Furadouro, que o inspirou a escrever “O Canto da Sereia”, à intensa correspondência enviada e recebida, até à criação da sua obra-prima, “As Pupilas do Senhor Reitor”, e de “A Morgadinha dos Canaviais”.
Em Ovar o seu coração também foi tocado quando confrontado com os primeiros encontros com Ana Simões, uma das filhas de Tomé Simões, cuja casa Júlio Dinis passou a frequentar com maior regularidade. “Venceste meu coração com subtil arte de amor” é a dedicatória gravada, a seu pedido, num coração de madrepérola que, num momento único e íntimo, ofereceu a D. Ana Soares Barbosa Simões, personagem retratada na Margarida de “As Pupilas do Senhor Reitor”.
Esta jóia, que resistiu ao tempo, encontra-se entre o acerbo de Júlio Dinis instalado no Museu de História da Medicina “Maximiano Lemos” (na sala José Carlos Lopes, na Faculdade de Medicina do Porto, no 6.º piso do Hospital de S. João, no Porto). A mesma sorte não tiveram as cartas enviadas por Júlio Dinis a D. Ana Simões, porque esta, sentindo a vida extinguir-se, pediu à sua filha Emília para as queimar. Uma perda irreparável, pois as carta contribuiriam para dissipar o grande enigma, que alguns teimam em recusar, da possível paixão do escritor por D. Ana. Ou então, a hipótese provável da ida de Júlio Dinis, com familiares e conhecidos do lugar dos Campos, à tradicional e popular romaria ao Santuário de Nossa Senhora da Saúde em Vale de Cambra, “tão alto que a Senhora da Saúde é vista por quem anda no mar. (Os pescadores, em hora de aflição, viram-se para a santa e prometem pagar a ajuda divina. É por isso que os peregrinos são conhecidos por ‘vareiros’”).
Vejamos em que assenta aquela hipótese: Por essa altura, aquando da visita de dois dos seus melhores amigos vindos do Porto, o poeta Augusto Luso e Custódio Passos, estes não encontram Júlio Dinis na casa dos Campos, da qual se ausentara.
Tudo isto, e outros episódios interessantes são indicadores claros e evidentes da importância que Ovar veio a ter na vida literária de Júlio Dinis.

Casa-Museu Júlio Dinis

É bom lembrar que “Uma Família de Ingleses” se encontrava, há anos, metida numa gaveta, e só perante o êxito que tiveram “As Pupilas do Senhor Reitor” (no ano de 1866, em episódios no “Jornal do Porto”), e após ter regularizado o seu projecto pessoal, ao ser integrado na Escola Médica do Porto, onde leccionou, é que finalmente em 1887 é impressa essa obra, que viria a tornar-se outro êxito literário (a par da outra obra “A Morgadinha de Canaviais”, que sai nesse mesmo ano).
Lamentavelmente para Ovar, decorridos que vão quatro anos e oito meses (desde Janeiro de 2004), a Casa-Museu Júlio Dinis “continua encerrada temporariamente” para obras de remodelação. Recentemente foi deliberado e aprovado pela C.M.O. o anteprojecto de Requalificação e Ampliação do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense. Mas é bom lembrar que este objectivo, que já é do conhecimento público há meses, continua sem qualquer resolução à vista, e neste já longo compasso de espera ainda não se vislumbra um final feliz, com todas as consequências da progressiva degradação que este edifício está sofrendo e da falta de cuidado por uma limpeza regular ao exterior que dignifique todo este espaço.
A obra de Júlio Dinis é “impregnada de bondade e de beleza, tão doce e tão afável, de tal modo conquistou o agrado do público”.
“O Homem morrera, mas o Escritor resistiu à morte, pois deixou uma obra que teve o raro condão de eternizar a memória do sublime artista que a concebera”!

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Agosto de 2008)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/11/ovar-na-evolucao-literaria-de-julio.html