18.2.14

As varinas foram fenícias?

Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Varina de Ovar
(postal)
Este título encabeça um magnífico texto da escritora Marina Tavares Dias, acompanhado de belíssimas fotografias das varinas dos anos 30, no seu livro: “Lisboa Misteriosa” da editora Quimera.
Começa por contar uma história, em voga no século XIX, que atribuía às varinas origem fenícia. 
Escreve Marina Tavares Dias: “Dois diletantes estão pregados à porta da Casa Havaneza, no Chiado, entretendo o tempo na avaliação carnal do mulherio que passa. Entre os espécimes a que fazem olhinhos, registam com agrado a beleza superior das peixeiras. Passando elas, não se contém um dos imbecis em lhes atirar a frase feita:  “Que belos exemplares de raça fenícia!”
De entre as ovarinas, lestas na resposta, uma replica logo:  “Fenícia é a sua tia!”
Gustavo de Matos Sequeira considerava a varina como uma “herança fenícia refundida em moldes gregos, com atributos que atestam tal herança: tez morena, feição carregada, olhos escuros, tronco curto e direito e porte altivo.”

Varino e Vareiro

Pinho Leal escreveu que a designação de “varino” e de “vareiro” abrangia todos os habitantes da orla marítima que vai de S. Jacinto até Espinho, o que é errado, pois deveria ser atribuída apenas aos habitantes de Ovar (“ovarinos”).
Caldas Aulete (Dicionário Portuguez) atribui a herança etimológica a uma tribo de suevos, denominada “varinos”, e historiadores mais recentes explicam-na através da mecha, ou vara com que se muniam os moliceiros da Ria. A respeito desses lindíssimos barcos que vão sendo cada vez mais raros, tenho lido em muitas ilustrações de revistas e jornais que são de origem fenícia, indo, deste modo, ao encontro da tese desses historiadores.

Varina de Lisboa que, por 1930,
segundo Marina Tavares Dias, começou
a desfazer-se dos seus acessórios
As "Varinas" de Lisboa

A etimologia da palavra “varina” tem gerado muitas discussões.
“Tal como a fadista da Mouraria, a peixeira da Madragoa foi tema inesgotável de romances populares, peças de teatro, poemas mais ou menos famosos, pinturas, esculturas, desenhos, caricaturas e fotografias artísticas”, diz-nos a autora de “Lisboa Misteriosa”.
Depois da construção da linha-férrea, partiram para Lisboa, de Ovar e povoações vizinhas da beira-ria, especialmente da Murtosa, muitos homens e mulheres para procurarem o trabalho que não encontravam nas suas terras.
Habituados a tarefas árduas no mar ou na praia, onde começavam, desde crianças, a puxar e a carregar com as redes e cordas das companhas do Furadouro, eles, ainda muito jovens, encontravam nas águas do Tejo o seu modo de vida, trabalhando nas fragatas, que eram, ao mesmo tempo, a casa onde ganhavam o sustento deles e da família, e onde comiam e dormiam. Elas, acostumadas a calcorrear caminhos longos de canastra à cabeça, apregoando a “sardinha do nosso mar”, facilmente se adaptavam a correr as ruas de Lisboa apregoando o “peixe fresco”, “viva da costa”, “pescada do alto”, e outros pregões que, como estes, deixaram há muito de se ouvir nesta cidade.

Varina de Lisboa
(postal)
Dizia o viajante e escritor René Bazin, em 1895: “Na rua próxima (da Praça da Figueira), nas que se lhe seguem, em todas as ruas de Lisboa simultaneamente, de canastra à cabeça apregoam o peixe fresco… Algumas dessas mulheres são lindíssimas.”
Marina Tavares Dias continua a descrevê-las no seu livro duma forma encantadora, dizendo: “As mulheres de Ovar deixaram as chatas e as labregas da ria de Aveiro e migraram, nos primeiros comboios, para um dos bairros mais pobres de oitocentos: “A Madragoa”. Mais adiante fala-nos da indumentária “de características tidas por sagradas, passou a incluir o chapelinho de feltro, cinta de lã a altear a saia axadrezada, avental e, apoiando a canastra, a célebre rodilha ou “sogra”. “Uma patrona, bolsinha lateral também de feltro, servia para guardar os trocos”.
É curioso que quase todos os articulistas de jornais ou outras publicações, quando escrevem sobre as varinas, referem sempre o bairro da Madragoa como sendo uma espécie de colónia onde se agrupavam as peixeiras de Lisboa, esquecendo-se de Alfama, outro bairro típico da capital, onde moraram muitas vendedeiras de peixe e fragateiros de Ovar, que por lá deixaram descendência. Há uns anos atrás, era de Alfama a maior parte dos excursionistas que vinham de Lisboa a Ovar para verem o nosso Carnaval.
Hoje, com o peixe congelado e as grandes superfícies de supermercados, as varinas de Lisboa desapareceram. O mesmo aconteceu com os fragateiros e profissionais de outras artes do Tejo, que fizeram história no passado e que se foram perdendo no tempo, mas que devem ser recordadas para não se perderem também na nossa frágil memória.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Setembro de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/02/as-varinas-foram-fenicias.html


ADENDA -----------------------------------------




“As varinas são tam­bém Madragoa, são também Ovar”, disse o Presidente da Junta de Freguesia da Estre­la, Luís Newton, no dia 31 de janeiro de 2015, no Con­vento das Bernardas, onde a comitiva vareira, composta por autarcas e reiseiros, foi recebida de braços abertos pelos moradores daquele bairro lisboeta.



Domingos Silva, vice­-presidente da Câmara Mu­nicipal de Ovar, lembrou que foi Américo Oliveira, recentemente falecido, que quando era Presidente da Junta de Freguesia fez a ponte entre Ovar e a Madra­goa, trazendo a marcha até à nossa cidade.
“Queremos retomar esse intercâmbio que ele começou”, dis­se Domingos Silva, ideia reforçada pelo presidente da Junta de Fregue­sia da Estrela, Luís Newton: “Espe­ramos desta forma iniciar um ciclo regular entre as nossas autarquias de deslocação destas dinâmicas de índole cultural”.
Antes do almoço oferecido à comitiva, os ovarenses foram con­vidados a visitar o antigo lavadouro público das Francesinhas, construí­do em 1876, onde muitas mulheres de origem vareira lavavam a roupa.

Pelas 15 horas, no coreto do Jardim da Estrela, as trupes de Reis do Orfeão de Ovar, da Associação Desportiva Ovaren­se e da JOC-LOC interpretaram os três números da praxe, dando a conhecer a sua forma peculiar de Cantar os Reis, cuja candidatura a Património Cultural Imaterial é também apoiada pela Junta de Fre­guesia da Estrela.





A Trupe da JOC-LOC no coreto do Jardim da Estrela, em Lisboa



Pelas 17 horas, a embaixada vareira marcou presença na inau­guração da Exposição “Varinas de Lisboa – Memórias da Cidade” que estará patente até 24 de maio no Pavilhão Preto do Palácio Pimenta, Museu de Lisboa (antigo Museu da Cidade), sendo a visita gratuita.




Antigas varinas homenageadas no Museu de Lisboa

Depois do jantar, o Chafariz da Esperança, uma das principais en­tradas para o Bairro da Madragoa, foi o cenário escolhido para a segunda atuação das trupes vareiras, apreciada pelos lisboetas.
A Trupe da ADO, atuando no Chafariz da Esperança (Madragoa)
Trupe da JOC-LOC
Trupe do Orfeão de Ovar


Texto da notícia: Fernando Pinto
Fotos: Fernando Pinto, Joaquim Aurélio e Virgílio Neves

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