Mostrar mensagens com a etiqueta COLABORADORES. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta COLABORADORES. Mostrar todas as mensagens

9.4.11

Algumas notas toponímicas ovarenses – Cáster

A. de Almeida Fernandes
FOTO: M. Pires Bastos
Do insigne historiador e medievalista Dr. Armando de Almeida Fernandes, que ao “João Semana” dedicou atenções que não podemos esquecer, publicamos o precioso trabalho, relativo à toponímia ovarense.

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/1993)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

Por amável sugestão e porque uma elucidação toponímica tem sempre interesse (não são do próprio povo tantas e tantas “explicações” – naturalmente quase sempre erradas?) –, tentarei obter das minhas hoje fracas disposições intelectuais, e, mais fracas ainda, da minha saúde física, algumas que me permitam ir-me ocupando de certos casos.
Seja, para principiar, o nome do pequeno rio que nasce pouco distante e passa na ex-Vila da Feira, para vir acabar em Ovar – nome este que se lhe deve, certamente: tenciono tomar o caso noutra ocasião. É Cáster esse nome e, como Ovar, foi aquele que teve (e muito bem se lhe documenta), resulta, imediatamente, que houve uma substituição: portanto, Cáster é nome relativamente moderno – o que não quer dizer recente.
E compreende-se a substituição, desde que o nome primitivo começou a designar, cerca da foz do pequeno rio, um centro populacional em constante crescimento (origem da actual cidade) na área de Cabanões-Muradões: uma elementar necessidade de distinção – se bem que não impositiva, claro está. Mas sucedeu, sem dúvida, em meu entender –, passe a presunção que o não é.
Um caso para ventilar noutra oportunidade.
Ponte medieval sobre o rio Cáster em Ovar
Ponte Reada (=derreada)
FOTO: Fernando Pinto
Seria ocioso insistir muito em que desvendar a origem e significação de um topónimo repousa, essencialmente, num exame cuidadoso da palavra, mas sendo já e em absoluto necessário jamais se esquecer que regularmo-nos pelo ouvido e pela vista (escrita actual e pronúncia) é a “recomendação” mais eficaz para o erro rotundo. Sobretudo, ou como corolário disso mesmo, não é possível, e nunca deve tentar-se, qualquer explicação sem conhecer-se a forma antiga do topónimo – ou, melhor direi, a mais antiga, pois que a evolução fonológica pode oferecer várias. Exceptuam-se – mas nem sempre – estruturas muito simples. O caso do rio Cáster está no médio termo.
Quero eu com isto significar, apenas, que a forma anterior do nome pouco deve ter diferido, porque, realmente, a estrutura fonológica é singela, e foi-o por certo de origem, parecidamente. Não é preciso lucubrar muito, nem ser muito versado na ciência da nossa fonética, para, desde logo, se concluir que o problema não se põe na primeira sílaba, desde que convicto como estou de ser ele a tónica. Acho que Cáster é mesmo – e com razão – a pronúncia mais corrente, e não Castér, que tem todo o carácter de intromissão pretensamente erudita, nunca antiga; de facto, não é popular -er átono (final). Foi o povo quem “fez” a língua, e, com esta, a toponímia. Eu insisto em Cáster, e não Castér, nesse sentido, dado que um jornal manuscrito da segunda metade do ano de 1910, e da Vila da Feira, se designava “Caster”, sendo de crer que, se quem o designou (um erudito, já se vê) pronunciasse Cáster, lhe poria o acento – embora na época não se fosse muito apurado ou melindroso no diacritismo. Castér, portanto, uma fantasia prolativa erudita: mas nem por isso Cáster deixou de sofrer e, por isso, a mostrar. Com efeito, -er átono (final já se vê) não se manteria popularmente, que é a circunstância que impera: a evolução far-se-ia Castre (se mesmo esta se não alterasse). Em suma, “Caster” manifesta intromissão erudita ou culta, pretensamente – e, se não estou em erro, é de crer que a palavra não tenha, desde há muito, um uso generalizadamente popular.
E, no entanto, ela foi popular na origem, sem dúvida. As circunstâncias acabadas de apontar, uma a substituição do nome “Ovar” na designação do rio pelo povo, e outra as intromissões eruditas sobre a forma de nova designação, levam a concluir, à luz da ciência fonológica – que é intransgredível nestes estudos e que, infelizmente, tão pouco ou nada se tem em conta (deixando-se tudo à fantasia sónica e visual, o que é tremendamente aleatório e quase sempre fatalmente erróneo), levam a concluir – ia eu dizendo – que a forma inicial foi a tão simples palavra “Castro”. Enfim, “rio do Castro” (sem se excluir mesmo “Crasto”, mas nada obrigando a admitir esta forma), isto é, o rio que vinha do sítio de um castro ou se passava num local mais ou menos afastado da actual cidade (que recebera o nome desse curso de água, Ovar – nunca, o esqueçamos) e chamado Castro.
Como tudo deve ter partido a povoação de Ovar (surgida na área de Cabanões-Muradões histórica), o local de castro ou daquele nome Castro seria realmente afastado; mas não o poderia ser muito, sob pena de o nome desse local se não impor, dado que outros locais na extensão se habilitariam, pelos seus nomes, à designação, que foi tomada a partir da actual Ovar.
Um trecho do rio Cáster em Ovar na actualidade (zona do Palhas)
FOTO: M. Pires Bastos
Assim tudo indica – pela perfeita integração em todos os circunstancialismos a que me venho reportando – que o local do Castro, ou onde existia o “castro” que levou à designação, era cerca do de São João actual, um pouco ao norte, onde o rio passa. É aí que deve considerar-se o factor – e a arqueologia poderá comprovar-lhe a existência, por muito pouco que hoje, materialmente, ela se manifeste. É aí que há elevação apropriada.
E, agora, a questão fonológica, que impossível é, sempre, pôr-se de parte: se a fonética se opuser, fica tudo destruído, por muito apropriado e bem congeminado que seja – e isso é o que, vulgarmente, e para fatalidade do erro, se não tem em vista.Tal se não dá aqui: uma alteração de -o final para -e perfeitamente provável (e regiões há em que ela é positiva): Castro - Castre (pela própria influência da tónica, com abrandamento vocálico escalar), passando a incidir sobre Castre o pretenso eruditismo: Cáster ou Castér (passe o emprego do acento nesta segunda forma), com um certo ar de estrangeirismo, ou mesmo exotismo, de parecer bem, tão próprio da erudição mal orientada.
Mudado o nome de “Ovar” para Castro (“rio Ovar” para “rio Caster”, e, se mudança suficientemente antiga, com a preposição “de”, do uso medieval em tais casos), o novo nome foi adoptado em toda a extensão do curso – até na própria Feira. Se ele tivesse partido desta, teria certamente o seu nome – visto que em Ovar se criou e adoptou esse (Castro), para reservar o lugar a si o primitivo do rio (Ovar).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Agosto de 1993)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/04/algumas-notas-toponimicas-ovarenses.html

Clique AQUI para continuar a ler as "Notas Toponímicas Ovarenses", escritas pelo punho do nosso saudoso colaborador Dr. Armando Almeida Fernandes.

19.2.11

Armando de Almeida Fernandes – Consagração nacional do medievalista português

A. de Almeida Fernandes
Nasceu em Britiande (Lamego),
em 26 de novembro de 1917
e faleceu em Tarouca
em 20 de fevereiro de 2002
Jornal JOÃO SEMANA (01/11/2009)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

D. Afonso Henriques, pesem embora os seus oitocentos e tantos anos de túmulo, veio a terreiro em desafronta de um português mal-amado que dedicou toda uma vida de cabouqueiro da nossa história à época medieval, período em que Portugal se foi impondo como país autónomo e independente. Referimo-nos ao Dr. Armando de Almeida Fernandes, o medievalista português que, contrariando opiniões feitas e difundidas, e questionando, até às últimas consequências, a documentação disponível em áreas por explorar, abriu clareiras insuspeitadas, encontrando respostas para as interrogações que ele próprio, como outros investigadores, desde há muito vinha formulando.

A. Almeida Fernandes
Foto: M. Pires Bastos
O jornal “João Semana” foi intérprete privilegiado desta sua permanente sofreguidão pelo rigor historiográfico, o que aos leitores vulgares poderá parecer subtileza ou mero formalismo, mas que para os peritos em História constitui a suprema razão das suas pesquisas. Quem não se lembra da polémica aqui travada por Almeida Fernandes com o conhecido historiador José Mattoso a propósito de certas posições arbitrárias por este defendidas em relação ao Castelo da Feira, em detrimento do Castelo de Faria (Barcelos)?
Nessa polémica aguerrida, alimentada ao longo de mais de um ano, Almeida Fernandes teve de usar alguma virulência verbal, já que a sua firmeza de convicções não teria sido bastante para quebrar a rigidez de algumas ideias defendidas pelo seu antagonista e que Fernandes provava não serem exactas.
Com Guimarães a luta foi diferente. Menos cara-a-cara, mas mais demolidora.
Convidado a tecer loas ao “berço” e ao "fundador” da Pátria, Almeida Fernandes aceitou o repto, consciente de que, no convívio com as fontes arquivísticas de que alimentava o seu saber, sinalizara algumas pistas de tesouros por desvendar.
Nesse regresso às fontes, deu como certo que o nosso primeiro Rei nasceu em Agosto de 1109, não em Guimarães, cidade que os vimaranenses e a generalidade dos portugueses tinham como seu berço natal, mas em Viseu, quando sua mãe, D. Teresa, ali se encontrava em trabalho de parto.


Esta proposição, publicada em 1990/91 na revista visiense "Beira Alta" e, posteriormente, em 1993, no livro “Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques”, obra de 246 páginas, foi recebida com reticências pela crítica, inclusivamente pelo Dr. Freitas do Amaral e pelo Dr. Hermano Saraiva.

Almeida Fernandes, na sua casa em Tarouca, acompanhado de Hermano Saraiva
A aceitação como fiável desta tese pelo Dr. José Mattoso deu origem à reedição dessa obra em 2007, sendo o seu trabalho reconhecido pela generalidade dos participantes no Congresso “Afonso Henriques – 900 anos depois" (2009), e motivou a marcação de um colóquio subordinado ao tema “Dr. Armando de Almeida Fernandes”. Este acontecimento, da iniciativa do Presidente da Academia Portuguesa de História, Dr. Manuel Mendonça, será realizado em Ranhados, Viseu, no próximo dia 20 de Novembro, em parceria com a Fundação Mariana Seixas, a mesma instituição que anualmente promove o Prémio A. de Almeida Fernandes, destinado ao melhor trabalho sobre a Idade Média em Portugal e cuja entrega está marcada para 21 de Novembro.
Considerado, por muitos dos congressistas, como “um dos maiores investigadores de todos os tempos em Portugal”, Almeida Fernandes, que sofreu a incompreensão e o esquecimento, vê agora, postumamente, consagrados os seus méritos a nível nacional.

Almeida Fernandes, num dos seus aniversários, participando numa Eucaristia
celebrada em sua casa pelo Padre Manuel Pires Bastos. A seu lado a sua esposa D. Elda
(à direita), sua filha Dr.ª Flávia e sua irmã D. Helena Amador, então residente em Ovar

O jornal “João Semana”, onde o ilustre historiador publicou importantes textos, um dos quais deu origem a um livro de 448 páginas – "Faria e não Feira (1127-1128)", publicado em 1991 pela Sociedade Martins Sarmento, de Guimarães –, sente-se também honrado pela consagração que lhe está a ser prestada a nível nacional.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Novembro de 2009)

ADENDA --------------------------------------
 
Fotos das Sessões Literárias
Apresentação, em Tarouca, da obra
Taraucae Monumenta Historica (1994)


O historiador Hermano Saraiva na apresentação da obra
"Taraucae Monumenta Historica", em Tarouca





Os participantes, após a sessão solene, em casa do Dr. Almeida Fernandes.
historiador Hermano Saraiva (è esquerda), em conversa com Almeida Fernandes

Apresentação, em Lamego, da obra História de Britiande

Em Lamego foi apresentada a obra "História de Britiande" 




Prémio
A. de Almeida Fernandes


Em 26 de Novembro, data do aniversário de nascimento do Dr. Almeida Fernandes (antigo colaborador do jornal "João Semana") foi entregue no Auditório da Câmara Municipal de Ponte de Lima o Prémio com o seu nome, que premeia um trabalho de investigação histórica sobre um tema da Idade Média. Este ano, o referido prémio, criado pelos Municípios de Lamego e Ponte de Lima, foi atribuído à obra "A Construção de Uma Identidade Urbana no Algarve Medieval", de Maria de Fátima Botão, publicada, em 2009, pela editora Caleidoscópio.



Almeida Fernandes na sua Casa de Santa Apolónia, Tarouca
Foto: Manuel Pires Bastos
O Júri presidido pelo Doutor Armando Luís de Carvalho Homem, da Universidade do Porto, apreciou 19 títulos a concurso, considerando este trabalho (tese apresentada com vista ao grau de Doutora), "uma obra ímpar acerca de Loulé na construção do Algarve e do nosso país no séc. XVI".



"Castro ou Crasto Rey de Tarouca"
Obra póstuma de A. de Almeida Fernandes

"(...) Castro Rey ou Crasto Rey existiu? Claro que sim. Tal, prova-se na documentação exibida e estudada. Outros estudos se poderão ainda fazer para melhor entendermos, a importância de toda esta região, quer no panorama regional e na reconquista, quer mesmo no panorama nacional que vai entre os anos de 888 até à invasão de Almansor e depois todo o movimento de consolidação do território que veio a tornar-se Portugal.
Bem haja A. de Almeida Fernandes, pelo trabalho, pela dedicação e pelo legado que nos deixaste. Sejamos nós merecedores do teu legado e aprendizes do teu empenho. Obrigado ainda por tudo o que nunca te disseram mas que os corações não esquecem e as almas comungam".
(A. Seixeira, na Nota Prévia a esta obra)

Capa da obra póstuma de A. de Almeida Fernandes,
 editada pela Santa Casa da Misericórdia de Tarouca,
depositária do espólio do consagrado historiador medievalista



O Prémio A. de Almeida de Fernandes, "História Medieval Portuguesa",
tem sido atribuído anualmente através dos municípios de Viseu, Lamego e Ponte de Lima.
A fotografia do historiador medievalista que tem servido para os cartazes
é da autoria do Diretor do jornal "João Semana" 

Clique AQUI para ver
Sítio da Biblioteca Nacional de Portugal


22.10.09

Pereira de Susã e Pereira Jusã

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/1998)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

Mais que desagradável, foi-me sempre ingrato pronunciar-me acerca de problemas respeitantes a localidades que eu não conheça directamente. Tal o caso enunciado, que me foi posto para isso, e já há muito, por dois bons amigos, a quem peço desculpa para a tardança, que fica explicada.


Sítio da antiga Igreja de S. Vicente de Pereira, próximo da Igreja actual
(séc. XVIII), no antigo lugar de Pereira de Susã
Pereira é nome de um lugar da freguesia de Válega, e Pereira Jusã o nome da freguesia cuja igreja fica uns bons quilómetros a nordeste daquele: como explicá-los, sendo que Pereira, que foi vila, na freguesia de Válega, aparece – e não há muito sucedia – como “Pereira Jusã” também, tal a freguesia de S. Vicente, vizinha?
Trata-se de caso frequente: toda aquela área constituía, outrora – há milénio, e mais –, uma “villa” só, no sentido territorial-agrário (e não vila na acepção municipal, categoria que teve Pereira, de Válega, e não S. Vicente de Pereira Jusã). Quando se erigiram as duas freguesias referidas, parte da “villa” ficou numa, e parte na outra – coisa, repito, frequente [1]. Monsenhor Miguel de Oliveira viu isso já, e, portanto, bem, embora o não esclareça, por “villa” repartida paroquialmente, na origem [2]. Este aspecto da questão fica solucionado, clara e facilmente…
O outro aspecto é a designação Pereira Jusã para a freguesia de S. Vicente, sendo Pereira Jusã a vila extinta, na freguesia de Válega. Julgo que não oferece problema de maior: uma apropriação do nome da dita vila, muito auxiliada pela ignorância em que aí se caiu do sentido de “Jusã”, que significava “de baixo”. Ora, a actual Pereira Jusã fica “de cima”, o que denuncia o facto; e até o esclarece segundo acabo de dizer, o que é também frequente [3]. Realmente, a incongruência é muito expressiva – e mais: nenhum autor, nem sequer Mons. Miguel de Oliveira, se refere ao facto de a freguesia de Pereira Jusã actual aparecer, nas inquirições de D. Dinis de 1288 e nas suas sentenças de 1290, como Pereira Susã (melhor, Pereira de Susã), isto é, de cima, pois Jusã é relativo a Pereira da freguesia de Válega, que está abaixo e foi, pois, a legítima Pereira Jusã (Pereira de Jusã) [4].

Câmara e Cadeia (à esq.), Pelourinho e Capela de S. Sebastião,
do extinto concelho de Pereira Jusã (Válega)
Registo, portanto, que hoje Pereira Jusã, na freguesia de S. Vicente actual, só pode explicar-se por apropriação, como em vários casos no País, embora já antiga, mas posteriormente ao século XIII – XIV. Fica até melhor opinião.
Outro aspecto muito interessante é o concernente ao termo da vila de Pereira, em Válega, o qual abrangia os núcleos actuais de Guilhovai (antigo Guillivar), na freguesia de Ovar, Bustelo, na freguesia de Válega, Cácemes, na freguesia de S. Vicente de Pereira Jusã, e o couto e freguesia de Cortegaça (do concelho de Ovar); mas este assunto, com outros igualmente interessantes, não me foi submetido à apreciação possível, motivo por que não lhe toco.

Capela e Quinta de N.ª Sr.ª da Conceição, em Pereira Jusã (Válega)

Notas:
[1] Na minha freguesia natal, por exemplo (a qual é pequena), nada menos de três lugares estavam nessas condições, isto é, repartidas por duas paróquias e, o que é mais, até por duas circunscrições administrativas medievais (“terras”), diferentes. Ver o meu livro “A História de Britiande” (1997), págs. 76-77, 80-81,85-87, 120-123. E, ainda hoje, sucede lá isso: lugares repartidos por duas freguesias.
[2] Cf. O seu livro “Válega” (1981), págs. 110 – 151.
[3] Assim, Vila Nova de Gaia, na freguesia da Feitosa, e Ponte de Lima, era, de início, só Gaia (de Acaia, no foral de 1125 daquela vila); assim a Vila Cova à Coelheira, no concelho de Seia, com influência de igual designação da freguesia do concelho de Vila Nova do Paiva (esta com a única e documentada Coelheira). À freguesia de Pampilhosa do Botão, concelho de Mealhada, ouvi eu chamar Pampilhosa da Serra há muitos anos, por confusão com esta (no distrito de Coimbra, e vila).
[4] C.f. T. do Tombo, “Inquirições de D. Dinis”, L. 4, fls. 4v.º-5, e “Inquirições da Beira”, fls. 13,v.º-14.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Novembro de 1998)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/10/pereira-de-susa-e-pereira-jusa.html

ADENDA --------------------------------------

A tempo: Acabo de receber fotocópias de artigos de Mons. Miguel de Oliveira (“Qual é o nome exacto da freguesia de S. Vicente”, em “Notícias de Ovar”, n.º especial, 1952), e do P.e Dr. Manuel Pires Bastos (“Um delito toponímico”, em “João Semana” 1/5/1981, e “S. Vicente de Pereira sim, S. Vicente de Pereira Jusã, não!” em “João Semana” de 1/6/1981 e 15/7/1981), nos quais o problema do nome da freguesia de S. Vicente já está resolvido – e segundo aquilo que, no meu texto, expus.
De facto, S. Vicente Pereira Jusã é um absurdo, histórico e topográfico: é “de cima (Susã, como na designação antiga), e, pois, só S. Vicente de Pereira. Se se quiser epitetar, então ponha-se “Pereira Susã” naquela designação.
Nada fiz de original, porque, repito, o caso já estava resolvido.
Devo, porém, notar que o epíteto, errado, “Jusã” já ocorre à roda de 1950, na "Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira" (s.vv. Ovar e Pereira), e no mapa(s.v. Ovar).
Urge, pois, desfazer o engano. O que o meu artigo, agora, significa é, repito, a conformidade com os artigos agora recebidos. A. A. F.

1.10.09

D. Maria José Vinga – A Mulher, a Mãe, a Poetisa

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/1979)
TEXTO: Manuel António Costa (Manuel Ramos Costa)

Com quase oito décadas de existência, D. Maria José Vinga [na foto] é uma jovem! Jovem de espírito que o tempo remoçou e amadureceu. O corpo, esse, sofre transformações naturais com o avanço da idade, deixando-se moldar pelas mãos de diamante da vida: as rugas nascem, mais vincadas quando as privações, as lutas, os sacrifícios, as abnegações e as lágrimas são pródigas no “existir”; as mãos alcançam a serenidade merecida; o corpo é suspiro, ponjé, e o olhar projecta-se com maior intensidade na distância, em busca de imagens queridas… O passado surge nesse magnífico ecran – a memória – num deslizar de cisnes, numa noite ensopada de luar…
Conversadora, amante da poesia e da palavra, radicada numa fé que sempre soube colocar na testeira da sua batalha, devota de Nossa Senhora, espirituosa e dedicada, D. Maria José Vinga é exemplo humilde de Mulher que um dia foi Mãe e hoje é Avó…


Nasceu em 30 de Abril de 1889, em Ovar, na actual Travessa Camilo Castelo Branco, onde ainda reside. É filha de Albina Lopes Vinga e de Manuel dos Santos Maia.
Entre 1913 e 1918 frequentou o Colégio Feminino Júlio Dinis, que funcionava, nessa altura, no prédio que hoje é propriedade da Família Lamy (na Rua Coronel Galhardo), onde, entre muitas coisas, aprendeu a tocar bandolim, tendo sido seu mestre Artur Benjamim (Artur Nábia, como também era conhecido). António Dias Simões foi seu mestre de piano. Impaciente e irónico, dizia, por vezes, a esta sua aluna: “– Pois é, pois é, Maria José! Música com baba, latim com barba!”
Casou, aos 20 anos, com David José Martins. Desta união nasceu uma prole de nove lírios, maravilhosa plêiade que foi sendo enlutada pela morte de cinco filhos.
Espontânea no falar, abraça qualquer assunto com seriedade amena e sorrisos vivos de quem sabe o que diz, o que quer e o que pretende ensinar, sem a severidade, a crueza, o choque ou o pessimismo com que muitos encaram o mundo. É peremptória, por vezes, nas suas convicções, e contrária a certos “modernismos”.
Muito procurada por pessoas da terceira-idade e por outras mais jovens, que nela encontram um ombro amigo e dela colhem momentos agradáveis de diálogo em que a poesia penetra quase sempre, a estreitar uma amizade encantadora, D. Maria José Vinga vai deixando um rasto transparente de amor ao próximo, rasto que um dia não será somente saudade, mas “palavra de comando a imitar”…
Notei ainda uma particularidade muito importante no seu modo de dizer poesia: fá-lo com o mesmo cuidado, com o mesmo carinho que um músico põe quando defronta uma pauta…
Convidou-me a sentar ao seu lado, com a cordialidade, simpatia e confiança de quem já esperava uma visita amiga ou um familiar querido há muito ausente. E, de facto, foi um amigo que a procurou – "João Semana" –, quinzenário que muito deve à família desta nossa conterrânea desde os tempos da sua fundação.
É através de "João Semana" e do nosso homólogo "Notícias de Ovar" que os caros leitores afectos às musas poderão encontrar muito daquilo que saboreámos no diálogo travado com ela. Os seus poemas são autênticos laços de amizade, de amor, de beleza, ou apelos profundos à vida sã, imparcial e partilhada, ou ainda breves referências às coisas e aos animais, que D. Maria José Vinga observa e acarinha no seu quintal, em sua casa, na rua, na natureza, em todo o lado por onde passe.
E quando a dor e a doença mora portas adentro do seu próximo, D. Maria José Vinga, num gesto simples e meritório, leva o antibiótico saudável que alivia e faz renascer a esperança – um poema!
Admirável cultora da Fé e da Esperança, é também um coração leal, acolhedor…Sabem-no as crianças, a quem D. Maria José Vinga dedica muitas horas a ensinar a palavra de Deus, num rasgo de humildade e paciência. E até na catequese D. Maria José não deixa de ser a poetisa sonhadora e agradável!
Sentimental, crente, generosa, activa e afecta à música, vemo-la, incansável e calorosa, a participar em Grupos Corais…


D. Maria José Vinga (x) em confraternização com o Pároco de Ovar
e colegas do Grupo Coral do Santíssimo, em 1977
A um canto da salinha-de-visitas, asseada e decorada com muito bom gosto, descansa o seu piano…Imaginamos, então, os momentos que D. Maria José ali passa sentada, tocando belas melodias que o seu coração sonhador e sensível inventa e recorda.
Música e Poesia, irmãs inseparáveis que partilham com D. Maria José o silêncio, a quietude, as réstias de sol, o luar e o fulgor das estrelas, em longos instantes de inspiração…

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 1976)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/10/d-maria-jose-vinga-mulher-mae-poetisa.html

Nota: Maria José Lopes Vinga nasceu em 1899, filha de Manuel dos Santos Maia e de Albina de Jesus Lopes Vinga (1863-1943); neta materna de António Domingos Pedroso e de Rosa Lopes Vinga (1826-1905); bisneta de José Lopes Vinga, escrivão do monteiro-mor, e de Joana Rodrigues (casados em 1819), trineta de António Rodrigues Vinga (e de Maria de Oliveira Netto) casados em 1785); tetraneta de Luís Rodrigues Lopes (Vinga) falecido em 1770) e de Maria de Oliveira de Pinho; pentaneta de João Rodrigues Lopes (Vinga) e de Maria André de Oliveira (casados em 1720), e hexaneta de Diogo Lopes e de Maria Rodrigues.
Era 1.ª sobrinha do P.e Francisco Pedroso Lopes Vinga (1859-1909), e 2.ª sobrinha do P.e António Lopes Vinga (1789-1854), que foi vigário de Ovar (1853-54) e do P.e Francisco Correia Dias (ou P.e Francisco Lopes Vinga) tido como a figura modelo do reitor de “As Pupilas do Senhor Reitor” (1867), de Júlio Dinis. Maria José Lopes Vinga (1899-1985) casou, em 1919, com David José Martins (1898-1971), comerciante, de quem teve os seguintes filhos: eng. Amarildo Gracilino V. M. (1939), dr. Américo V. M. (1933), eng. David Martins L. V. (1924-1949), dr. Francisco Augusto M. L. V. (1922-1994), Manuel Hernâni M. L. V. (1929) e alferes aviador Salviano M. L. V. (1925-1951).Dados fornecidos pelo dr. Américo Vinga Martins ao dr. Alberto S. Lamy (“Monografia de Ovar”, 1.º Volume, 2001).

Maria José Lopes Vinga foi colaboradora literária do "Almanaque de Ovar" (1917 e 1918), do "João Semana" e de outras publicações. Faleceu em 3 de Agosto de 1985, em Ovar (Travessa da Rua Camilo Castelo Branco).