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6.7.10

Vareiros e vareiras no Porto

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2001)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Diz-nos o escritor portuense Hélder Pacheco no livro da sua autoria “Porto”, que no início do século XIX muitos ovarenses migraram para a capital do norte, indo fixar-se na zona da Falperra, conhecida como bairro de gente vareira. Outros debandaram para Afurada, Ouro e Carvalhido.
Nesta última zona fundaram uma grande colónia. Eram os “vareiros do Carvalhido”. Pescavam o sável no rio Douro e apanhavam marisco na costa marítima.
Muito devotos do Senhor da Pedra, àquela romaria gaiense deslocavam-se em grupos, calcorreando a pé vários quilómetros e formando animadas danças tal como acontecia, aliás, nas suas idas a Nadais, Carregosa, Senhora da Saúde da Serra, etc.
É curioso que, vivendo eles da faina do mar e do rio, tenham procurado o Carvalhido, na parte oriental da cidade, longe do local onde labutavam no dia-a-dia.
Foi também nesta época do princípio do século XIX que para o Porto se deslocaram muitas mulheres ovarenses, para ali exercerem a profissão de peixeiras. A cidade conhecia-as muito bem. Eram as vareiras!... Umas vendiam o peixe grosso: corvina, badejo, etc. e outras, o miúdo: carapau, sardinha, faneca e outras espécies semelhantes. Fixaram-se em grande parte junto ao rio: na Ribeira, no Barredo, nos Guindais, etc.
Vareira palmilhando uma rua do Porto
Quando fui para essa cidade trabalhar, em 1947, comecei a conviver com algumas daquelas vareiras que para aí afluíram já nos finais do século XIX e princípios do séc. XX. Porque já não me recordo dos nomes de todas, a não ser os da Conceição Faísca e das minhas tias Elvira e Maria, a quem as colegas conheciam pelas “do padre”, vou apenas citar os apelidos pelos quais algumas delas eram conhecidas. Lembro-me de ouvir falar na Dicha, Charneira, Criosa, Ceboleira, Passarinha, Araújo, etc.
Nos finais da Primeira Guerra Mundial, por volta de 1918, e daí em diante, muitos vareiros emigraram para os Estados Unidos, como anteriormente o faziam para o Brasil. Muitas vareiras no Porto eram casadas com esses emigrantes e, conforme a vida lá fora ia sorrindo aos seus maridos, iam abandonando a venda do peixe, regressando a Ovar para se tornarem domésticas.
A vida das nossas vareiras no Porto era difícil: manhã cedo, por volta das 7 horas, saíam a caminho do Mercado Abastecedor de Peixe que, na época, era o Anjo, que eu ainda conheci, no Jardim da Cordoaria, no local onde hoje se encontra o Palácio da Justiça. (Só mais tarde foi construído o do Bom Sucesso, na Boavista). Abastecidas com o pescado, e com as canastras à cabeça, bem pesadinhas, partiam para as zonas da cidade onde moravam as suas freguesas. A Elvira do Padre foi, durante muitos anos, a fornecedora do peixe para o Seminário Maior da Sé do Porto, onde era muito considerada.
Palmilhando a pé, com sol ou com chuva, aquelas ruas íngremes, alcantiladas, como o são grande parte das ruas do Porto, subindo e descendo escadas, muitas vezes até ao 3.º e demais andares dos prédios, num tempo em que estes não possuíam elevador, não esmoreciam no trabalho. Saíam de casa com o pequeno-almoço – às vezes iam tomá-lo ao botequim do mercado – e assim andavam quase todo o dia, a não ser quando alguma freguesa lhes dava um prato de sopa. Não tinham horas para comer, nem para o regresso a casa.
No fim da venda, viam-se essas vareiras a lavar as suas canastras na rampa e nas escadas típicas dos Padeiros, junto ao tabuleiro inferior da ponte D. Luís [na foto].

O Porto visto pelo fotógrafo Alvão
Assim como em Lisboa chamam varina a qualquer vendedeira de peixe, seja ela de que origem for, também na cidade do Porto, ainda hoje, qualquer peixeira, seja ou não de Ovar, é conhecida por vareira. E é pela vareira que os portugueses chamam quando precisam de se abastecer de pescado.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Outubro de 2001)

8.3.08

Mulher vareira – Beleza que vem de longe

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/1977)
TEXTO: António Pinho Nunes

Quando se fala em Vareiros, geralmente são esquecidas as Vareiras. Há, no entanto, quem fale nelas e em termos que, de certo, as envaidece. Mais que isso: todos concordam com as suas graças, cuja origem alguns discutem: fenícia, grega?Ora bem. Isto é difícil de definir, porque passou por aqui uma data de povos.
Em História (e histórias) vai-se, muitas vezes por aí fora, de marcha atrás, até ao pai Adão. (Neste caso seria até à mãe Eva). Não iremos tanto. Vamos, porém, recuar uns milhares de anos, ver quem andou por cá, e tentar localizar num desses povos a graça vareira. Será possível? Não é fácil!
Não sei se ainda hoje se ensina na Escola quais foram os primeiros povos que habitaram estes sítios. A gente tinha isso de cor: vândalos, suevos e alanos; fenícios, gregos e cartagineses; celtas, celtiberos, lusitanos, romanos, etc.


Varinas (Ovar)
Todos nós sabemos que não somos uma raça, mas sim uma data delas em mistura. Pelo sangue que nos anda cá dentro – se pudéssemos analisá-lo (não sei o processo) e chamar nomes aos seus milhões de glóbulos – poderíamos chamar a uns fenícios, a outros gregos, etc., etc.
Por Ovar também passou de tudo. Vamos, por exemplo, ver os fenícios. Há cerca de 3000 anos vieram por aí fora, dos lados do Oriente (Líbano), à procura do ferro, do cobre e da prata da Andaluzia. Eram marinheiros, pescadores e mercadores. De certo também traziam para cá tecidos de púrpura, que era a sua especialidade. E que mais? Trouxeram ainda o alfabeto e ensinaram-nos as 1.as letras. – Sim, porque foram eles que inventaram o alfabeto! E, finalmente, nas suas andanças por cá, terão influenciado o tipo de construção dos nossos barcos.
E os grupos? Dizem alguns que o tipo de beleza da mulher vareira será indício da colonização grega. Dizem outros que não há certeza, pois os grupos não deixaram cá grandes vestígios. Supõe-se, no entanto, que no séc. VI A. C. (há 26000 anos) já eles andavam por cá. Mas não andaram muito tempo.
Será, então, que as parecenças gregas das nossas vareiras serão só coincidência?Raul Brandão diz que a mulher vareira é bonita por causa da luz da ria, produto de beleza feito apenas de água azul trespassada de sol…
Varina - Ovar
Mais diz ele que as vareiras são altas, bem proporcionadas, delicadas, fortes e cheias de predicados domésticos e morais. Mais ainda (que o não saibam as murtoseiras!...): que as vareiras não se confundem com as mulheres da Murtosa, que são baixas e atarracadas (e usam óculos – digo eu) …O professor Patrício escreveu que dos povos que por cá passaram nada mais existe hoje que a beleza tradicional da mulher vareira, de tipo fenício – grego, e a elegância dos nossos moliceiros, de estilo fenício.
Dias Simões, por sua vez, a respeito das suas conterrâneas, faz rimar com «busto romano» «uns olhos de fazer perder um franciscano…»
Então, em que ficamos? Continue a discutir quem souber. É difícil. E o melhor será continuarmos na tal mistura de raças, e dizer das vareiras com Belmiro Adelino:

Rostos fenícios
Tez muçulmana
Olhos egípcios
Graça romana.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE OUTUBRO DE 1977) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/03/mulher-vareira-beleza-que-vem-de-longe.html