21.3.18

Jornal "João Semana" na Assembleia da República [Lisboa, 21 de fevereiro de 2018]

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2018)
TEXTO: Fernando Pinto

A Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Despor­to da Assembleia da República, em conjunto com a Associação Portuguesa de Imprensa (API), organizou, na manhã de 21 de fevereiro, no Auditório António de Almeida Santos, a conferência parlamentar “A Imprensa Centenária na Assembleia da Repú­blica”. Da parte da tarde, foi inaugurada no piso zero do Palácio de São Bento a exposição “Publicações Centenárias Portugue­sas”, que está patente até ao próximo dia 16 de março, mostra onde figura o jornal "João Semana".

O Diretor do "João Semana" (à esquerda), com António Poças e Aníbal dos Santos Gomes,
na exposição inaugurada no Palácio de São Bento
O "João Semana" – periódico ovarense fundado em 1 de janeiro de 1914, pertencente à Associação de Imprensa e Inspiração Cristã – foi um dos 33 títulos homenagea­dos pela Assembleia da República. 
A representar a equipa do "João Semana" esteve o padre Ma­nuel Pires Bastos (diretor), o jor­nalista vareiro Fernando Manuel Oliveira Pinto (diretor-adjunto), e os colaboradores diácono António Carvalho Teixeira Poças e enfer­meiro Aníbal dos Santos Gomes.

Fernando Pinto (diretor-adjunto do "João Semana"), ladeado por António Poças e Aníbal Gomes, na escadaria da Assembleia da República (foto de Manuel Pires Bastos)

“A Imprensa Centenária na Assembleia da República”
A conferência parlamentar que decorreu no Auditório Antó­nio de Almeida Santos, iniciativa da responsabilidade da deputada Edite Estrela e de João Palmei­ro, presidente da Direção da API, teve como objetivo sublinhar a importância da imprensa portuguesa, neste caso particular o excelente trabalho desenvolvido pelos jornais centenários.


A candidatura destes pe­riódicos a Património Cultu­ral Imaterial, "que já conta com o apoio do Presidente da República", como lem­brou Edite Estrela na sessão de abertura, "não deixará de contar também com o apoio do Parlamento português", como foi confirmado pe­los representantes dos vá­rios Grupos Parlamentares que estiveram presentes na sessão de encerramento da conferência (Diana Ferreira, do PCP, Jorge Campos, do BE, Susa­na Lamas, do PSD, Carla Sousa, do PS, e Vânia Dias da Silva, do CDS-PP, na foto).


"A exposição e esta confe­rência inserem-se nas atividades do Ano Português de Imprensa [2017/2018], e o Ano Português da Imprensa insere-se no Ano Eu­ropeu do Património [2018]", lem­brou João Palmeiro (na foto, em baixo, à direita). Para o presidente da API, "o que se deverá traduzir no Património Cultural Imaterial é a confiança que os leitores ain­da sentem por estas publicações, numa época em que proliferam as fake news (notícias falsas)".


Carlos Correia e Irene Tomé (docentes da Universidade Nova de Lisboa), António Valdemar (jornalista e investigador) e Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências, foram convidados a debater o tema "Publicações Cen­tenárias Portuguesas/Património Imaterial Cultural".
Carlos Correia falou "sobre a emergência dos chamados siste­mas digitais, da transição entre o analógico e o digital, o local e o global, a que apelidou de “glo­cal”). A sua colega Irene Tomé abordou "a emergência do as­sociativismo, os seus percursos, entrecruzando com os aspetos políticos e socioeconómicos, par­ticularizando o associativismo de Imprensa, que se espelhou na publicação de jornais, quer o país vivesse ou não em períodos so­ciopolíticos conturbados".
António Valdemar [na foto] deu a co­nhecer um pouco da história da imprensa centenária portuguesa e alguns dos seus rostos, e terminou a sua intervenção referindo que este evento "permitiu uma reflexão necessária em torno das questões essenciais relativas ao futuro da Comunicação Social e, ao mesmo tempo, uma tomada de consciên­cia e um alerta em relação às difi­culdades e incertezas com que se debate este setor, que requer solu­ções adequadas e urgentes".
Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências, partilhou alguns episódios sobre a colabo­ração de Camilo Castelo Branco como primeiro redator do jornal centenário mais antigo do conti­nente, "A Aurora do Lima” (1855).
Concluído o debate, Carlos Eugénio, diretor executivo da Vi­sapress, entidade que patrocinou a exposição dos jornais centená­rios, falou sobre a importância dos Direitos de Autor.

Exposição “Publicações Centenárias Portuguesas”
Após o almoço oferecido aos jornalistas, foi inaugurada nos corredores do Palácio de S. Bento a exposição “Publicações Cente­nárias Portuguesas”, evento que presta homenagem aos 33 títulos portugueses que se publicam há mais de um século sem interrup­ção, mostra que pode ser vista até ao dia 16 de março.


Para além do "João Semana", os jornais “Açoriano Oriental” (1835), "Diário de Notícias" (1864), "Jornal de Notícias" (1888) e "Correio da Feira" (1897) são alguns dos títulos que testemunham a história da sua região, de Portugal e do Mundo.
Edite Estrela (na foto) lembrou que os jornais centenários só se mantêm vivos porque se renovam, reinventam, para corresponderem às expetativas dos públicos.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2018/03/jornal-joao-semana-na-assembleia-da.html

2.2.18

João Semana, um médico consciente da sua missão social

Jornal JOÃO SEMANA (01 e 15/01/2018)
TEXTO: Fernanda Grieben

João Semana conversando com Margarida,
aguarela de Alfredo Roque Gameiro
No primeiro capítulo de um conto inacabado, projetado para in­tegrar um segundo volume (que não chegou a ser composto) da an­tologia Serões da Província, Júlio Dinis deixou-nos uma reflexão ética sobre a missão social do médico. Em consonância com essa reflexão, João Semana – personagem do romance As Pupilas do Senhor Reitor – afigura-se ao leitor dessa primeira Crónica da Aldeia dinisiana como o protótipo do médico que está consciente da sua missão, no contexto social em que decorre a ação do romance: o do mundo rural português, na segunda metade do século XIX.

No referido conto inacabado – intitulado “A vida nas terras pe­quenas” –, Júlio Dinis (principal pseudónimo literário do médico Joaquim Guilherme Gomes Coe­lho, nascido na cidade do Porto, em 1839), realçando a importância da missão social que ao médico cumpre desempenhar, defende que, em conformidade com a natureza dessa mesma missão, “não é dig­no de ser médico” o estudante de medicina que, terminado o curso, não encare com apreensão o início da sua vida profissional. Na opi­nião do médico-poeta, todo aque­le que, “nesse momento solene”, compreende o alcance da missão que vai desempenhar, tem forçosa­mente de “estremecer”, sentindo-se “hesitante, impressionado por uma íntima desconfiança em si próprio, nas suas forças e faculdades”. Pois, é “natural que o confrangimento do coração que à semelhança do actor novel, experimenta todo o homem, ao entrar em cena neste grande tea­tro da sociedade, seja tanto mais intenso e doloroso quanto maior é a importância do papel que vai re­presentar”.
Assim sendo, é fundamental que o desempenho da profissão médica seja assumido consciente­mente. E esta é uma postura que tem de ser mantida, porque, ao longo da sua vida profissional, o médico terá de confrontar-se com todo o tipo de “afecto humano”, terá de saber lidar com todo o tipo de “desgraça” que lhe projectará no caminho “o seu triste reflexo”, terá de saber salvaguardar todo o “interesse” que dependa “dos seus actos”, como também terá de saber manter o “segredo” que foi confia­do “à sua lealdade”. E, para além de tudo isto, o médico terá de sa­ber conviver com “a morte”, que, “como um espectro implacável, lhe surgirá a cada momento”, “sob formas sempre diversas e sempre pavorosas, cingida com a capela virginal umas vezes, coroada ou­tras pelas cãs de velhice, animada por o sorriso da infância ou sinistra com os vestígios do crime”. E Júlio Dinis remata a exposição das suas ideias, declarando: “O que, saben­do isto, aceita com desassombro a missão, ou não tem inteligência para a compreender, ou possui um carácter de deplorável natureza”.
Tendo em atenção a reflexão ética sobre a missão social do mé­dico acima sinteticamente apresen­tada, pode-se, então, perguntar, se essas convicções que Júlio Dinis expressa, pela voz do narrador, se repercutem, ou não, no desenho do carácter das suas personagens de ficção que encarnam o papel do médico, especificamente, o do mé­dico da aldeia. Vejamos.
Nos contos que integram a an­tologia intitulada Serões da Pro­víncia e nos três romances com o subtítulo Crónica da Aldeia (todos, primeiramente, publicados em fo­lhetins, no Jornal do Porto), a figura do médico surge por quatro vezes: é “o médico”, do conto “As apreen­sões de uma mãe” (publicado de 11 de março a 1 de abril de 1862); é “doutor Jacob Granada”, do conto “Uma flor de entre o gelo” (publi­cado de 29 de novembro a 7 de de­zembro de 1864, ou seja, já depois da estadia de Júlio Dinis em Ovar); é “Daniel”, da primeira Crónica da Aldeia dinisiana, intitulada As Pupilas do Senhor Reitor (publi­cada em 1866, mas principiada a ser escrita em Ovar, em 1863); e é, ainda desse mesmo romance, “João Semana”.
Dessas quatro personagens de ficção que encarnam o papel do médico, só esta última – João Se­mana – pode ter sido criada por Júlio Dinis com a finalidade de representar o médico da aldeia que desempenha a sua profissão em harmonia com as convicções éti­cas do seu criador, anteriormente expostas. Isto, porque, tanto Jacob Granada (um velho facultativo po­sitivista, que se apaixona por uma jovem, sua paciente, depois desta ter demonstrando relutância em sujeitar-se ao paternalismo médico) como Daniel (um jovem médico no início de carreira, que regressa à sua aldeia, depois de uma longa estadia na cidade, que conseguiu agudizar a sua predisposição para o namoro) são personagens redondas ou multidimensionais. Ou seja, são dinâmicas, surpreendem o leitor, obrigando-o a uma modificação da sua conceção, a uma diferenciação progressiva da imagem que delas forma. Quanto à personagem que só é apresentada como “o médico", sem ser identificada, essa pode ser apreendida como sendo, unica­mente, a encarnação de uma ideia (que, provavelmente, no tempo de Júlio Dinis, é generalizada: a ideia do conservadorismo e estagnação científica do velho facultativo da aldeia). Ou seja, este tipo de perso­nagem é uma personificação, que pode surgir em romances realistas (nos textos literários dinisanos, não é a única), mas é imprópria para representar o médico ideal, no desempenho das suas funções. O octogenário João Semana, por sua vez, pode ser considerado um tipo social, embora as característi­cas que definem esta personagem sejam um pouco mais complexas do que aquelas que, geralmente, definem os tipos (ou stock figures). Este é o tipo de personagem que está mais indicado para analisar os estereótipos, podendo ser uma forma de crítica social. Assim, João Semana, tendo sido especialmente criado para representar o tipo social do médico da aldeia, em harmonia com as convicções éticas do seu criador, funciona, no conjunto da produção literária de Júlio Dinis, como protótipo do grupo a que per­tence.
Em relação ao que ficou ante­riormente exposto, convém desta­car que, antes da sua estadia em Ovar, Júlio Dinis não criou ne­nhuma personagem de relevo que, nos seus textos literários, encarne o papel do médico. A primeira, dou­tor Jacob Granada, protagonista do conto “Uma flor de entre o gelo”, já foi criada posteriormente, facto que reforça a ideia, tradicional­mente estabelecida, de que o mé­dico vareiro João José da Silveira (1812-1896) teria impressionado sobremaneira o escritor portuense, também ele médico de profissão, a ponto de este lhe copiar os traços caracterológicos, reproduzindo-os no desenho do carácter do célebre João Semana, personagem do ro­mance As Pupilas do Senhor Reitor (publicado em livro, pela primeira vez, em 1867).
Assim, à semelhança de João José da Silveira (e diferentemente de Jacob Granada), João Semana não se limita a exercer a profissão médica obedecendo a princípios éticos inspirados numa visão po­sitiva do mundo. Antes pelo con­trário, o médico octogenário é um homem imaginativo, que nutre “a paixão do ideal”. Logo, a sua vista penetra “através do mundo das realidades” e, além dele, descobre “um mundo novo, o mundo das ilusões e da poesia”, que lhe in­funde coragem para enfrentar “as provações da vida”, como escreve Júlio Dinis no já referido conto ina­cabado “A vida nas terras peque­nas”, onde acrescenta o seguinte: “Estas frontes humanas parecem ambicionar uma coroa, seja embora de espinhos, que misturem o seu pungir às embriagadoras comoções da glória”.
Com efeito, no romance As Pupilas do Senhor Reitor, é com verdadeira devoção que João Semana exerce a profissão médica. Revelando-se sensível aos problemas concretos dos seus pacientes, e sendo, “por aquele tempo, o único facultativo da freguesia”, é “lisonjeiramente conceituado na opinião pública da terra”. Homem laborioso e bem-humorado, o velho cirurgião colhe a sua “glória” junto de todos aqueles a quem incansavelmente visita, dia após dia, praticando na aldeia a arte de curar, num tempo (a ação do romance decorre em meados do século XIX) em que, no mundo rural português, ainda se faz sentir o atraso nas ciências médicas em Portugal, em particular no estudo da anatomia. Uma realidade que Júlio Dinis também retrata nessa sua primeira Crónica da Aldeia. No entanto, o ver­dadeiro obstáculo com que João Semana se confronta, dia a dia, no desempenho da profissão médica, não é a carência de conhecimentos científicos, mas a extrema in­digência em que vive grande parte dos aldeãos, muitas ve­zes, totalmente desprovidos de recursos económicos que lhes permitam adquirir os medicamentos que o médico lhes receita. E é neste ponto que João Semana mais fiel­mente representa o médico ideal no exercício das suas funções – em conformidade com os princípios éticos que Júlio Dinis defende (expos­tos na edição anterior) –, ao prati­car a Caridade de forma discreta, e permitindo, assim, que quem dela beneficia possa preservar a sua dignidade de pessoa humana. Teria sido esta a particularidade de João José da Silveira que mais impressionou Júlio Dinis? Tudo in­dica que sim. Foi certamente nessa figura vareira que o médico-poeta encontrou, talvez pela primeira vez, um médico consciente da sua missão social. Um médico profun­damente humano, que sabia que “se para cá do túmulo há alguma coisa que se possa chamar Céu e Inferno, é na própria consciência que se encontra” – como se pode ler no conto “A vida nas terras pequenas”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 e 15 de janeiro de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2018/02/joao-semana-um-medico-consciente-da-sua.html

5.1.18

Brigue Ovarense – "Tráfico negreiro" no século XIX

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2018)
TEXTO: Manuel Pires Bastos



Há cerca de 20 anos foi publicado por José Fernando Neves Bello o livro “A Família Oliveira Bello, de Ovar”[1], onde se encontram mais de cinco dezenas de ramos da sua árvore genealógica, particularmente da que se implantara em Lisboa, em princípios do século XX, projetando a família Bello para além das fronteiras pátrias.
Na contracapa dessa publicação vem publicada a foto de uma pintura de 1876 referente ao navio “Ovarense”, que viríamos a saber tratar-se de um brigue pertencente a dois ovarenses sócios de uma padaria em Lisboa, barco que, quando transportava 300 negros na Serra Leoa, foi aprisionado por uma corveta inglesa, sob a acusação de “tráfico negreiro”, assunto que a escritora Agustina Bessa-Luís incluiu no seu romance “Eugénia e Silvina” (1989), e cujo lastro terá sido aproveitado por Miguel Sousa Tavares como base da trama do seu romance “Equador” (2003)[2].

O brigue "Ovarense"

Tínhamos em quarentena toda esta história quando, em Ovar, há cerca de três anos, num encontro aprazado com o engenheiro Manuel Domingues Alegre de Oliveira Silva para troca de ideias sobre as investigações genealógicas que pretendia publicar, foi lembrado pelo jornalista Fernando Pinto o caso do brigue “Ovarense” e a sua inclusão no romance “Eugénia e Silvina”, o que constituiu surpresa e motivo de júbilo para o nosso visitante, por ali encontrar um valor acrescentado para o seu trabalho, que viria a documentar não só a história vivida naquele brigue, mas também todo o drama do tráfico negreiro para S. Tomé, que Miguel Sousa Tavares descreveu sem desvendar [qualquer nome vareiro a que correspondesse] a identidade dos protagonistas do seu romance, sabendo-se que nessa época o proprietário do barco "Ovarense", era Fernando de Oliveira Bello, seu trisavô paterno, nascido em Ovar em 1818, o qual, por coincidência, era casado com uma Alegre, também de Ovar, do ramo Oliveira Gomes, donde descende o Eng. Manuel Alegre .

Esclavagismo em S. Tomé
O brigue Ovarense, de 32 toneladas, foi comprado em Lisboa em 1864 pela firma Bellos & Formigaes[3], para transporte de cereal da Argentina e do Canadá para a padaria daquela sociedade, em Lisboa. Em breve passaria a rumar para outras paragens, como o Canal da Mancha (1867) e a ilha de S. Tomé (1876), desenvolvendo atividades diversificadas. É nesta última viagem, com destino a S. Tomé, com paragem por portos da Libéria e Serra Leoa, que o brigue é abordado e apresado por uma corveta inglesa, “com a acusação de tráfico negreiro”, mas, um ano depois, “proprietários, capitão do navio e agente foram ilibados da acusação, o navio restituído aos donos e paga uma indemnização pela coroa britânica”[4].

Maqueta do brigue "Ovarense" feita na atualidade sob orientação
do seu proprietário, eng. Manuel Alegre

Este episódio é evocado na “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” que informa o seguinte: “Os ingleses dificultaram muito esta fase inicial do desenvolvimento da cultura do café, que prejudicava a exportação dos seus territórios, e com pretextos de combater o esclavagismo impediam por todas as formas a transferência de negros de Angola para São Tomé, onde a mão-de-obra escasseava. O governador-geral de Angola, Sebastião Lopes de Calheiro Meneses, sustentou luta demorada com o comissário britânico Edmond Gabriel, que pretendia impedir aquelas transferências. Em 1876, por falta de braços, não se chegou a fazer a colheita do café. Foi na Libéria que se contrataram livremente dois mil e quinhentos pretos que deveriam seguir para São Tomé em navios ingleses. Estes, porém, negaram-se a fazer o transporte, pelo que foi fretado um barco nacional, o brigue Ovarense, que teve licença e alvará para ir à Serra Leoa buscar até 400 indígenas. Embarcavam o cônsul da Libéria e o agente contratador Francisco Ferreira de Morais, mas o navio foi aprisionado por suspeita de tráfico de negros. Foram julgados, não obstante as provas apresentadas da perfeita legalidade do contrato, em 9-IX-1877. Vieram a ser absolvidos por sentença do tribunal de Londres de 9-VIII-1880, que impôs indemnização aos apresadores”[5].

O brigue "Ovarense" 
Nos “Anais da Academia Portuguesa da História, Alberto Iria, no texto “Ex-Votos Marítimos Inéditos dos Séculos XVII ao XIX – Novos subsídios para a sua história” dá informação pormenorizada, de que extraímos apenas a identificação: “Brigue Portuguez Ovarense no Canal Britanico próximo de Goodwin em 1 de Dezembro de 1867”[6].

O brigue "Ovarense" reproduzido em pintura num ex-voto da
Igreja do Senhor dos Passos da Graça, em Lisboa (finais do séc. XIX)

Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela (0,75 x 0,49,5), com moldura doirada, em muito bom estado de conservação. O "Esboceto Historico/da/Veneranda Imagem/do Senhor Jesus dos Passos da Graça/ e o templo da mesma invocação" (Lisboa Typ. Lisbonense – Largo de S. Roque, 1874) registou assim, em 1874, o supracitado ex-voto: "Quadro (de pintura), representando um navio em perigo; a inscripção diz: Brigue portuguez Ovarense; no canal britanico, próximo de Gordwin, (sic) em 1 de dezembro de 1867." O P.e Ernesto Sales, na sua obra “Nosso Senhor dos Passos da Graça”, também se referiu, em 1925, a este ex-voto, especificando  que mede "0,m8 x 0,m6"[7].

O brigue em obras literárias 
Capa de "Eugénia e Silvina", obra
da escritora Agustina Bessa-Luís
O episódio do tráfico negreiro para São Tomé, de que o brigue “Ovarense” foi acusado, vem também referido numa conhecida obra literária do século XX – "Eugénia e Silvina", de Agustina Bessa-Luís –, e serviu de inspiração para outra, já do século XXI (2003) – "Equador", de Miguel Sousa Tavares, descendente de Fernando de Oliveira Bello, seu trisavô, natural de Ovar e um dos proprietários do “Ovarense” apresado em Cape Coast, atual Gana, cujo processo judicial, decorrido desde dezembro de 1876 a novembro de 1877 na Serra Leoa, então colónia da coroa britânica, vem transcrito na obra, em 3 volumes, "Foi assim que foi – a história possível dos Alegres de 570 a 2015”, do eng. Manuel Alegre [clique no link], que constitui um precioso contributo genealógico para muitos ovarenses, que ali podem encontrar as suas raízes, as mesmas que deram corpo e rosto a gente humilde e a gente ilustre hoje espalhada por todos os continentes. Eis um recorte do pequeno trecho em que Agustina nos introduz no episódio: “A acusação de esclavagismo selvagem (e outro não era mais possível) pairava pelo menos há dez anos sobre Portugal. Em 1876 o brigue Ovarense fora processado pelo Vice-Almirantado de Serra Leoa por transporte de escravos. As provas eram esmagadoras, porque havia a bordo demasiadas pipas para aguada, demasiadas esteiras e sacas de arroz, o que pressupunha mais gente a conduzir e sustentar do que a tripulação normal. O libelo mencionava grilhões trazidos de S. Tomé e escondidos no porto de Freetown. O processo girou em volta de três rapazes levados com ardil para o Ovarense, vendidos ao capitão e fechados no porão até que o brigue se fez ao largo. Gira em volta de testemunhas umas falsas, outras crédulas, outras ainda industriadas; mas o que prevalece é a suspeita arreigada de que tanto nos paquetes ingleses como portugueses se transportavam escravos para S. Tomé e aí eram desembarcados de noite e algemados. Tudo isto, não tem força histórica para interpretar a virtude dos homens quanto ao cumprimento das leis (a escravatura fora abolida em S. Tomé em 1875, mas os escravos libertos ficavam sujeitos a uma aprendizagem durante dois anos, o que os mantinha de certa forma constrangidos à condição anterior), serve apenas para traçar o quadro moral das ilhas quando João Trindade viveu lá”.

"(...) essa imigração entre colónias mais não era
do que uma forma de esconder o que não passava
de um sórdido tráfico de escravos". 

(Miguel Sousa Tavares, no romance "Equador")

Notas: 
[1] Bello José Fernando Neves, “A Família Oliveira Bello, de Ovar”, 1994, edição do autor, 144 páginas.
[2] Tavares, Miguel Sousa, “Equador”, Oficina do Livro.
[3] Fernando de Oliveira Bello, António e Manuel Rodrigues Formigal. Em 1975, a sociedade passou a chamar-se Bello & Formigaes, Lda.
[5] “Grande Enciclopédia P. e Brasileira”, vol. 27, S. Tomé e Príncipe, pág. 651.
[6] “Anais da Academia Portuguesa da História”, II Série, volume 29, Lisboa, MCMLXXXIV.
[7] Sales, “Nosso Senhor dos Passos da Graça (Lisboa). Estudo Histórico da sua irmandade com o título de “Santa Cruz e Passos”, Lisboa, 1925, pág. XVII.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2018/01/brigue-ovarense-trafico-negreiro-no.html

30.11.17

João Semana, “médico dos pobres”?

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2011)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

João José da Silveira
("João Semana")
À figura de João Semana de “As Pupilas do Senhor Reitor” andam ligadas as ideias de bonomia e de desprendimento, materializadas no humor daquele médico e na sua solicitude para com os pobres.
Sabendo-se que, desde há século e meio a essa figura carismática se associa a personalidade do médico Dr. João José da Silveira  (1813-1896), será lógico questionarmos se a imagem que os ovarenses de há 136 anos construíram a respeito deste ilustre conterrâneo corresponderá ao médico retratado em “As Pupilas”.
Uma abordagem superficial a um requerimento que chegou às nossas mãos por amabilidade do amigo Joaquim Manuel Fidalgo, que o encontrou no Arquivo Municipal de Ovar quando de buscas destinadas a um trabalho de investigação em ordem à sua formatura em História, poderia levar-nos a pôr em causa aquela auréola de bondade com que o povo o envolveu.
Uma pergunta se põe: Não estaria o Dr. João José da Silveira (suposto João Semana) a requerer à Câmara uma remuneração indevida?
Não cremos nessa hipótese. Antes 
lhe adivinhamos  motivações   pertinentes.
Porque médico camarário, cabia- lhe, por contrato, olhar pela saúde dos doentes do seu partido, incluindo os mais pobres.
A princípio os de Ovar, depois os de Arada e, posteriormente, pelo que se lê no documento em estudo, numa área mais vasta do concelho. E fá-lo-ia com disponibilidade e entrega total.
Cabendo-lhe, agora, uma área mais dilatada de serviço, teria, naturalmente, a seu cargo muitos mais doentes, o que lhe acarretaria um maior dispêndio de tempo, que teria de subtrair ao trabalho de consultório particular.
A gratificação que ele reclamava como justa parece-nos, por isso, estar dentro da lógica que ele usava na prestação de auxílio a toda e qualquer pessoa em risco.
Sem esse acréscimo sugerido e que lhe foi negado, só com esforço redobrado poderia cumprir plenamente o seu compromisso profissional.
Terá sido aqui, na correlação de forças entre a generosidade que lhe é atribuída e as necessidades reais dos seus doentes que terá decidido requerer aquela gratificação, sem em nada ser beliscado o honroso título de médico dos pobres.
Pelo teor da acta da sessão de 15 de Abril de 1876 da Câmara Municipal de Ovar, poderá o leitor julgar por si. Ei-la:

"João Semana", aguarela
de Roque Gameiro
«Nesta foi prezente o seguinte requerimento de João José da Silveira:
Exma. Camara Municipal. João José da Silveira cirurgião-medico pela eschola Medica Cirurgica do Porto, do Bairro de S. Pedro desta Villa, vem requerer que no orçamento actual se inscreva uma verba, que pareça rasoavel, como gratificação dos serviços extraordinários que tem prestado e continua a prestar como facultativo. Os fundamentos da sua petição são os seguintes: O supplicante principiou a ser facultativo de partido no ano de 1851 e desde então até à morte de João Frederico Teixeira de Pinho, que se realizou à seis para sete annos, exerceu por turno com os outros três facultativos a clínica cirúrgica no Hospital, mas sendo suprimido o partido deste, ficou desde essa epocha prestando os seus serviços com os outros dois facultativos até que pelo falecimento d’António Izaac Teixeira de Pinho ficaram apenas 2 facultativos o do suplicante e o de José Damião de Carvalho; Já se vê pois que mudaram inteiramente as circunstancias, pois que na primeira epocha prestava serviços num trimestre, na 2.ª por 4 mezes e desde Setembro ultimo por seis. Isto seria bastante para justificar o pedido, mas accresce que V.ªs Exas. o reconhecem, pois no orçamento votam uma verba para o facultativo que vier substituir o falecido e sendo assim certo é que o suplicante merece gratificação pelos serviços prestados e que houver de os prestar, e esta é a doutrina do Dec. d’Estado de 9 de Maio de 1857 publicado no Diário do Governo n.º 174 – Pede deferimento – E.R.M. cê – Ovar 7 d’Abril de 1876 – João José da Silveira. A Camara deu o seguinte despacho: indeferido. E justificou a sua decisão deste modo: A Camara entende que nem o requerente tem direito à gratificação que pede nem a Camara a deve, como opportunamente mostrará, não importando o seu reconhecimento o ter a Camara votado o seu orçamento para o anno económico próximo futuro a datação do partido do falecido facultativo António Isaac Teixeira de Pinho, o que é antes uma consequência de uma deliberação tomada na Sessão de 24 de Setembro de 1875.»


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2011)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/11/joao-semana-medico-dos-pobres.html

20.10.17

Algumas notas toponímicas ovarenses – Válega

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/1994)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

A. de Almeida Fernandes,
historiador medievalista
O topónimo Válega, se não é aquele que dessa desgraça mais sofreu, ocupa, incontestavelmente, um dos primeiros lugares no “historial” ignaro das pretensas explicações: por vezes, nem sequer uma letra comum, como quando se lhe liga a Betaonia do séc. VI! Além desta, até (lá de Espanha) Baneza – e juntem-se, de cá Bitarães com Vectica, com Barbola, com Besea do séc. VI, etc.!
Um delírio que não atendia sequer a que, geograficamente, nem proximidade, muito menos coincidência, havia: enfim, sequer ao menos aquilo que eu tenho chamado “olho-e-orelha”.
À vista e ouvidas, de facto, pertencem as opiniões de três autores: um com “valego” e “velegado” palavra achada em Viterbo, e dois com "valle" em razão do elemento vall –, de “Vallega”. Mas o segundo, -ega, era-lhes o cume dos trabalhos, pois que até de Valdágua, Onega, Garei existentes na freguesia de Válega actual!
Horrores – e há uns setenta anos o então Padre Miguel de Oliveira (natural daí), embora declarando (muito bem) que tais explicações são aceitáveis “na razão inversa da erudição”, aconselhava a que “escolha o leitor a que mais lhe apraz”. Ora o que não se pode é admitir que alguém aconselhe a adopção livre de desconchavos, tanto mais que esse autor – que foi historiador académico mais tarde – sabia que existiam leis fonéticas a nunca transgredir, embora as ignorasse: mais culpado, de certo modo, que os outros, porque já vigorava então o método glotológico, tão científico, pelas suas leis e domínio, como outro que mais científico seja.
Igreja Matriz de Válega
Foto: DR
As leis fonológicas, em cada idioma, são tão científicas como as leis físicas ou as leis químicas: falar sem elas é o que há, pois, de mais anticientífico – e, no entanto, até isso nos vem hoje das universidades, especialmente uma chamada Universidade Nova de Lisboa. Se acima chamei delírio as opiniões anteriores ao estabelecimento do dito método, com não menos razão posso chamar uma desgraça (ou então pagodeira) as posteriores.
Exposto o indecente quadro por uns instantes necessários – até porque pode funcionar como espelho para quem, mirando-se nele, for capaz de sentir-se envergonhado –, passemos a considerações dentro do método próprio e único e que, ainda assim, não estabelecem uma certeza: e a razão é que não há apenas uma possibilidade de explicação científica e lógica.
É claro que não se pode negar que a “fisionomia” e a consonância numa palavra cujo étimo se busca não deixam de actuar e serem justas no espírito do investigador – mas é precisa uma imensa cautela.
Como o leitor tem notado, quando há alguma possibilidade de decomposição, não rejeitável in limine como o são os disparates, poderemos efectuar, ao menos, a tentativa de adoptá-la para criticarmos os resultados – dentro da ciência (leis fonológicas) e da lógica (a congruência toponímica, tão indispensável como aquela). Essa decomposição seria Vall - ega, com -ega átono, e permitimo-nos fazê-la porque (é preciso notá-lo) Vallega é já a forma no documento mais antigo que da localidade temos, o de 1102.
(Não de 1002: no apógrafo, faltou um C. Basta atender a que se trata de bispo de Coimbra, Maurício, que o foi aí entre 1098 e 1108. Que o não visse Miguel de Oliveira em 1925, compreende-se, mas ainda trinta anos depois admiraria… Fica o necessário aviso, pois que cerca de 1957 já ele dizia certa a data).
Nesse documento, de facto, a “villa Dagaredi” (na actual freguesia) refere-se situada “discurrente rivulo Vallega”, isto é águas correntes ao “rio Válega” – e põe-se logo o problema: deu o rio o nome à localidade que actualmente o tem, ou a localidade deu-o ao rio? Qualquer dos casos ocorre – e logo aqui temos a actual igreja de S. Vicente de Pereira em 1002 (neste caso, sim, data certa) como situada “discurrente rivulo Azevedo”, topónimo que só poderia tê-lo sido de lugar de início – o que veremos, Deo volente, na sua oportunidade. Estes dois riozinhos são quase paralelos, e muito vizinhas as suas partes superiores sobretudo. Não se julgue ociosa a questão no encaro do topónimo Válega – étimo e significação.
Monsenhor Miguel de Oliveira
O referido Monsenhor Miguel de Oliveira, cerca de 1957 – um pouco mais precavido já nesta melindrosa matéria –, opinou que o “étimo está no latim vulgar *vallica, equivalente a vallicula, pequeno vale”. Não diz onde colheu isto, pois que não era filólogo e de Filologia nada entendia. J. P. Machado, por exemplo, diz o mesmo exactamente: “Do latim *vallica, equivalente a vallicula, pequeno vale”.
Não creio tivesse copiado de M. de O., e eu posso dar a minha palavra de que algures, antes deste, havia eu tido, ou até emitido, a mesma opinião: somente não consigo hoje é descobrir onde – o que, de resto, não interessa, porque basta tal opinião, seja ela original de quem for.
Foneticamente, a evolução de vallica a “vállega” é impecável. A estabilidade dessa forma, Vállega, é também, um dado a favor, visto que temos com ela a primeira notícia. No entanto, faço estes reparos:
1.º O nome aparece num curso de água em 1102. Logo de início, pois, ao que parece: ou seja, designa um acidente hidrográfico, e não orográfico (“valle”).
2.º O sinónimo apontado, vallicula, originou Valhelhas (logo, por “valhelha”), e um parece que deveria dispensar o outro se no mesmo sentido.
Estas duas razões – que não são decisivas, diga-se já – trazem consigo a concordância de ser *vallica (como vallicula), ao contrário de “vale” actual, um nome feminino, pois que “vale” (topográfico) de início também o era, de harmonia com o étimo (o latim vallis): mas isso não impede outras objecções:
3.º Não há razão alguma para se considerar, aqui, essa topografia como determinante da designação: apesar da lei da contingência toponímica (que não posso agora desenvolver), sucede que são vários os cursos de água quase paralelos e muitos vizinhos, nesta zona à beira da “ria” (onde vão desaguar), e, portanto, pequenos como eles são, vários são os pequenos vales correspondentes, não se compreendendo que apenas neste ou num só caso se aplicasse a designação *vallica, hoje Válega.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 1994)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/10/algumas-notas-toponimicas-ovarenses.html

1.10.17

"Foi assim que foram. A história possível dos Alegre de 570 a 2015", obra de Manuel Alegre

Engenheiro Manuel Alegre
Deixando, em idade de reforma, a sua vida ativa, até então gasta em tarefas rudes do mundo profissional – engenheiro especializado em segurança no trabalho e no campo da hidráulica (Ponte de São João e Metro do Porto, portos e caminhos de ferro no Algarve, e instrução nacional de Patrões do Alto Mar), Manuel Domingos Alegre de Almeida Silva – Manuel Alegre para os amigos – não cruzou os braços nem pôs freio ao seu talento empreendedor. 
Habituado ao prazer de velejar e de escalar montanhas, aventurou-se decididamente a estruturar o mundo enredado mas sedutor da investigação genealógica, na tentativa de descobrir as suas origens e os horizontes que envolveram e moldaram a vida dos seus antepassados.
O autor sustenta que há três ramos na família Oliveira Alegre de Ovar, constituídos a partir de três irmãos, Teresa, Ventura e José Oliveira Alegre, nascidos de Francisco Oliveira Alegre e de sua esposa Andresa Maria Santos, sendo esta filha do capitão Afonso da Costa Soares de Albergaria e de Teodora Santos, entroncando, portanto, em família da nobreza antiga, com repercussão para além das fronteiras pátrias. M. P. B. (texto da 1.ª pág.)

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Jornal JOÃO SEMANA (01/10/2017)
TEXTO: Fernando Pinto

«Mais do que um simples encadeamento de nomes, que a ninguém ou a muito pouco interessados diria alguma coisa, foi julgado mais interessante e, sempre que possível, juntar a esses nomes datas, factos e histórias que os transformem em pessoas com significado.» (Manuel Alegre)

Lançada no Museu de Ovar, na tarde de 16 de setembro, a obra Foi assim que foram. A história possível dos Alegre de 570 a 2015, da autoria do engenheiro Manuel Domingos Alegre de Almeida  Silva, só veio a lume graças ao apoio de Acácio Coelho, empresário de Cortegaça, um dos poucos mecenas de concelho de Ovar. 
"Trabalhei sozinho durante sete anos. Depois, esta minha obra esteve dois anos em banho-maria, até que, se não fosse este senhor que está aqui presente, o Sr. Acácio Coelho, eu não conseguia publicar este trabalho, porque a impressão dos livros custa milhares de euros", adiantou Manuel Alegre, virando-se para o empresário de Cortegaça, que abriu a sessão partilhando com as pessoas que enchiam a Sala dos Fundadores do Museu de Ovar alguns pormenores da sua família, avós paternos e maternos, bem como um episódio da sua passagem por terras de África.
"Esta tua solidariedade, Manel, trouxe-me até ti, por isso estou aqui, dando-te os meus parabéns pela obra fantástica que realizaste", disse Acácio Coelho.

Acácio Coelho, empresário de Cortegaça que apoiou a obra de Manuel Alegre


Professor Rui Lourenço

António Soares Albergaria
A obra de Manuel Alegre, como explicou Rui Lourenço Gil, Professor da Universidade Católica Portuguesa, é apresentada em três livros e um CD: o 1.º volume trata dos Alegres migrados para Tentúgal e para o Porto, nomeadamente para a Foz do Douro e para Lordelo do Ouro, e alguns destes migrados para o Brasil; o 2.º volume (II parte) aborda os Alegres que foram para Lavra, vila do concelho de Matosinhos; o 3.º volume (III, IV partes e anexos) fala dos Alegre que permaneceram em Ovar, embora alguns tenham depois migrado para os Estados Unidos e Brasil (III parte), abordando o tronco comum de todos estes ramos do Alegre, que entronca  na família Soares Albergaria, tema que foi abordado por António Soares Albergaria, apaixonado pela Genealogia; os anexos oferecem a genealogia do novo ramo Soares de Albergaria e a participação dos Oliveira Alegre na Primeira Guerra Mundial; e o CD traz documentos, como folhas de assentos (nascimentos e óbitos).
Para o Professor Rui Lourenço, este relato genealógico da família Alegre "é uma história com histórias pessoais e de circunstâncias de vida", porque não é apenas dos Alegres, mas de todas as famílias colaterais com quem os Alegres estabeleceram relações conjugais. "Em rigor, é de uma das famílias Alegre de Portugal, porque não foi possível ao autor, por muito esforço que tenha feito, estabelecer nexo com pelo menos mais duas linhas de famílias Alegre, daí o subtítulo da obra", disse o Professor Rui Lourenço.

Rui Lourenço, Inês Amorim, Manuel Alegre, Domingos Silva, Pedro Braga da Cruz,
padre Manuel Pires Bastos e Acácio Coelho, na Sala dos Fundadores do Museu de Ovar,
durante a apresentação da obra


Padre Manuel Pires Bastos
Este trabalho exaustivo do engenheiro Alegre narra "histórias de pessoas pobres e de pessoas ricas", tinha afirmado, minutos antes, na sua fecunda intervenção, Inês Amorim, Professora do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. "Quando está a falar de determinado personagem, o autor, a certa altura, apercebe-se de que ele foi piloto de um barco, e lá anda atrás das fotografias dos naufrágios, dos passageiros, das mulheres, que, normalmente, não são faladas, nem têm nada, aparentemente, a dizer. No entanto, compila-as, entrevista-as, mostra as fotografias e apresenta estas histórias." 
Segundo o P.e Bastos, estamos aqui perante uma obra de peso: "Não a pesei, mas, segundo informações, são cerca de 6 kg de sabedoria e de história, muito ligada à comunidade vareira. Toda a gente já ouviu falar das varinas, dos mercantéis, da gente ligada à pesca." O pároco local, também ele historiador, lembrou que "muitas das coisas que são ditas nesta obra estão nos livros paroquiais de Ovar, que são dos mais antigos, de 1588. 
Manuel Alegre começou por agradecer ao diretor do Museu, Manuel Cleto, e a todos os amigos que vieram de longe para assistirem a esta apresentação.


"Cheguei a trabalhar 10 horas por dia nisto, até aos sábados e domingos. Comecei pelos livros paroquiais, depois fui comprar tudo o que era monografias dos sítios; na Casa dos Pescadores de Matosinhos tive acesso a uma coisa que o Estado Novo fazia, ou seja, não havia pescador nenhum que habitasse num bairro social que não  fosse fichado, e essas fichas são uma base de dados espetacular; os jornais, os livros, os diários náuticos, os sítios na Internet.. Até andei nos cemitérios! Este meu trabalho foi uma caderneta de cromos", disse Manuel Alegre.


Durante uma hora, o engenheiro deu uma aula de genealogia (e de náutica, como se pode comprovar na foto, em que explica o código internacional de sinais utilizado pela navegação marítima e que serve de comunicação entre dois ou mais navios).
Manuel Alegre referiu ainda que os seus antepassados começaram a "saltar daqui para fora" devido à fome (escassez de sardinha) e ao paludismo (febre dos pântanos da Ria).

Américo Oliveira canta a canção "Ovar", evocativa dos valores vareiros,
 acompanhado ao piano pelo P.e Manuel Pires Bastos

Também marcaram presença na sessão Pedro Braga da Cruz, presidente do Conselho de Administração do Porto de Aveiro, e da Assembleia da Câmara Municipal de Ovar, amigo e colega de curso de Manuel Alegre (a quem coube o papel de mediador do encontro), Domingos Silva, vice-presidente da CMO, entre muitos ovarenses e amantes desta ciência chamada Genealogia.


Francisco Rafael Pinto, filho da pianista vareira Cristina Santos

O evento foi abrilhantado por trechos musicais interpretados pela pianista vareira Cristina Santos e seus talentosos filhos Francisco Rafael e Maria Pinto.


Recorde-se que Manuel Alegre tinha dado, em 28 de agosto de 2014, no Museu de Ovar, uma palestra sobre a "Família Marage", texto que pode ser consultado na Internet, em http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/01/marage-uma-familia-do-mar.html




FOTOS: Jornalista Fernando Pinto
VÍDEO: António Valente - MONTAGEM: Fernando Pinto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de outubro de 2017)

14.9.17

Os mercados em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/04/2017)
TEXTO: José de Oliveira Neves



Até à inauguração, em 1955, do atual mercado, situado no local do antigo celeiro do Cabido do Porto, acima da capela da Senhora da Graça, os mercados em Ovar distribuíam-se por várias ruas e largos, conforme os produtos a comercializar, e funcionavam em dias diferentes.

No “João Semana” de 15 de junho de 2013 escrevi sobre os mercados de peixe em Ovar. Hoje, de uma forma mais generalizada, vou recordar aquilo a que os nossos antepassados chamavam “a praça”.
Mercado de Ovar e Escola Conde Ferreira, anos 40-50 do séc. XX

“O mercado da Praça, é de poucos anos anterior a 1779, aos domingos, e, mais tarde, diário, na Praça do Comércio. Em 1871, na presidência da Câmara do Dr. Manuel Arada, junto à Escola do Conde Ferreira, foi construído um mercado cuja planta para as suas barracas estava concluído a 16 de Agosto de 1871, tendo sido arrematada a sua construção nesse mesmo mês”[1].

Paços do Concelho, atual Praça da República, anos 20

Nos anos 40/50 do séc. XX, comercializavam-se ali os produ­tos hortícolas, e numas barracas encostadas ao muro de separação da referida escola vendiam-se carnes, lãs, algodões, carvão, calçado, etc. Outra barraca fora do recinto era ocupada por um relojoeiro, e, ao longo do grade­amento, no passeio da atual Rua Elias Garcia, que cercava o espaço limitado, comercializavam-se os objetos de cerâmica, tais como alguidares, assadeiras, canecos, caçoilas, etc. Junto das escadas da Farmácia Lamy, na direção do chafariz Neptuno, vendiam-se flores, e, na Praça da República, (largo em frente à Câmara), mon­tavam as suas tendas os negocian­tes de fazendas, roupas e outros produtos, sendo as vendedeiras de tecidos conhecidas pelas de Pardilhó, por serem quase todas daquela localidade.

Mercado na Praça da República, 1934

No mesmo local, na berma da estrada que se­gue na direção da capela de Santo António, as ven­deiras de fruta da época expunham em canastras os seus produtos. O largo de S. Tomé, atual Pra­ça Mouzinho de Albuquerque, era, então, conhecido por “Praça das Galinhas”, nome que ainda hoje perdura, por ter sido nesse local o mercado das aves de capoeira – galinhas, patos, perus, pombas, etc. –, sendo ali igualmente ven­didos os coelhos.
Em frente da capela de Santo António vendiam-se as cordas e outros artigos de cordoaria, assim como, no tempo próprio, melões e melancia. E após as festas em honra deste santo popular, no final da missa, havia um leilão das carnes e chouriços e de outras prendas que os devotos ofereciam ao santo. Estes mercados, como o das galinhas, em S. Tomé, eram realizados ao domingo de manhã.

Vendedor de banha de cobra  no largo de Sto. António, década 60

O grande mercado da Praça efetuava-se ao sábado, desde o romper do dia até ao meio da tarde. Nos anos 40/50 do século passado era uma verdadeira feira, muito concorrida, onde se encon­trava quase tudo, e onde havia muita animação. Apareciam ali os homens e as mulheres que, trans­portando umas pequenas caixas de papelão, se apresentavam como vendedores da banha de cobra, uma gordura que, diziam eles e elas, fazia bem a quase todas as doenças.
Para atraírem a atenção dos possíveis compradores, realizavam primeiramente umas demonstra­ções circenses de magia, fazendo desaparecer baralhos de cartas, ovos, pombas, etc. Noutro local da Praça, utilizando melodias em voga na época, cantavam-se poemas que descreviam recentes tragédias vindas nos jornais. A es­ses artistas populares chamavam­-lhes “desgraçadinhos”, por eles cantarem somente as desgraças acontecidas.
Em 1960 a Escola Conde Fer­reira demolida e o espaço por ela ocupado, conjuntamente com a área contígua, pertencente ao mercado, deu lugar ao Tribunal.
Hoje, ao passar por queles sí­tios, a geração posterior aos anos 50 encontra uma paisagem muito diferente da anterior.
Vale a pena ler a história da nossa terra, para se conhecer e admirar as transformações nela operadas através dos tempos.

Notas:
[1] Alberto Sousa Lamy, “Dicio­nário da História de Ovar”, volume 2.
José de Oliveira Neves


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de abril de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/09/os-mercados-em-ovar.html