5.1.18

Brigue Ovarense – "Tráfico negreiro" no século XIX

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2018)
TEXTO: Manuel Pires Bastos



Há cerca de 20 anos foi publicado por José Fernando Neves Bello o livro “A Família Oliveira Bello, de Ovar”[1], onde se encontram mais de cinco dezenas de ramos da sua árvore genealógica, particularmente da que se implantara em Lisboa, em princípios do século XX, projetando a família Bello para além das fronteiras pátrias.
Na contracapa dessa publicação vem publicada a foto de uma pintura de 1876 referente ao navio “Ovarense”, que viríamos a saber tratar-se de um brigue pertencente a dois ovarenses sócios de uma padaria em Lisboa, barco que, quando transportava 300 negros na Serra Leoa, foi aprisionado por uma corveta inglesa, sob a acusação de “tráfico negreiro”, assunto que a escritora Agustina Bessa-Luís incluiu no seu romance “Eugénia e Silvina” (1989), e cujo lastro terá sido aproveitado por Miguel Sousa Tavares como base da trama do seu romance “Equador” (2003)[2].

O brigue "Ovarense"

Tínhamos em quarentena toda esta história quando, em Ovar, há cerca de três anos, num encontro aprazado com o engenheiro Manuel Domingues Alegre de Oliveira Silva para troca de ideias sobre as investigações genealógicas que pretendia publicar, foi lembrado pelo jornalista Fernando Pinto o caso do brigue “Ovarense” e a sua inclusão no romance “Eugénia e Silvina”, o que constituiu surpresa e motivo de júbilo para o nosso visitante, por ali encontrar um valor acrescentado para o seu trabalho, que viria a documentar não só a história vivida naquele brigue, mas também todo o drama do tráfico negreiro para S. Tomé, que Miguel Sousa Tavares descreveu sem desvendar [qualquer nome vareiro a que correspondesse] a identidade dos protagonistas do seu romance, sabendo-se que nessa época o proprietário do barco "Ovarense", era Fernando de Oliveira Bello, seu trisavô paterno, nascido em Ovar em 1818, o qual, por coincidência, era casado com uma Alegre, também de Ovar, do ramo Oliveira Gomes, donde descende o Eng. Manuel Alegre .

Esclavagismo em S. Tomé
O brigue Ovarense, de 32 toneladas, foi comprado em Lisboa em 1864 pela firma Bellos & Formigaes[3], para transporte de cereal da Argentina e do Canadá para a padaria daquela sociedade, em Lisboa. Em breve passaria a rumar para outras paragens, como o Canal da Mancha (1867) e a ilha de S. Tomé (1876), desenvolvendo atividades diversificadas. É nesta última viagem, com destino a S. Tomé, com paragem por portos da Libéria e Serra Leoa, que o brigue é abordado e apresado por uma corveta inglesa, “com a acusação de tráfico negreiro”, mas, um ano depois, “proprietários, capitão do navio e agente foram ilibados da acusação, o navio restituído aos donos e paga uma indemnização pela coroa britânica”[4].

Maqueta do brigue "Ovarense" feita na atualidade sob orientação
do seu proprietário, eng. Manuel Alegre

Este episódio é evocado na “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” que informa o seguinte: “Os ingleses dificultaram muito esta fase inicial do desenvolvimento da cultura do café, que prejudicava a exportação dos seus territórios, e com pretextos de combater o esclavagismo impediam por todas as formas a transferência de negros de Angola para São Tomé, onde a mão-de-obra escasseava. O governador-geral de Angola, Sebastião Lopes de Calheiro Meneses, sustentou luta demorada com o comissário britânico Edmond Gabriel, que pretendia impedir aquelas transferências. Em 1876, por falta de braços, não se chegou a fazer a colheita do café. Foi na Libéria que se contrataram livremente dois mil e quinhentos pretos que deveriam seguir para São Tomé em navios ingleses. Estes, porém, negaram-se a fazer o transporte, pelo que foi fretado um barco nacional, o brigue Ovarense, que teve licença e alvará para ir à Serra Leoa buscar até 400 indígenas. Embarcavam o cônsul da Libéria e o agente contratador Francisco Ferreira de Morais, mas o navio foi aprisionado por suspeita de tráfico de negros. Foram julgados, não obstante as provas apresentadas da perfeita legalidade do contrato, em 9-IX-1877. Vieram a ser absolvidos por sentença do tribunal de Londres de 9-VIII-1880, que impôs indemnização aos apresadores”[5].

O brigue "Ovarense" 
Nos “Anais da Academia Portuguesa da História, Alberto Iria, no texto “Ex-Votos Marítimos Inéditos dos Séculos XVII ao XIX – Novos subsídios para a sua história” dá informação pormenorizada, de que extraímos apenas a identificação: “Brigue Portuguez Ovarense no Canal Britanico próximo de Goodwin em 1 de Dezembro de 1867”[6].

O brigue "Ovarense" reproduzido em pintura num ex-voto da
Igreja do Senhor dos Passos da Graça, em Lisboa (finais do séc. XIX)

Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela (0,75 x 0,49,5), com moldura doirada, em muito bom estado de conservação. O "Esboceto Historico/da/Veneranda Imagem/do Senhor Jesus dos Passos da Graça/ e o templo da mesma invocação" (Lisboa Typ. Lisbonense – Largo de S. Roque, 1874) registou assim, em 1874, o supracitado ex-voto: "Quadro (de pintura), representando um navio em perigo; a inscripção diz: Brigue portuguez Ovarense; no canal britanico, próximo de Gordwin, (sic) em 1 de dezembro de 1867." O P.e Ernesto Sales, na sua obra “Nosso Senhor dos Passos da Graça”, também se referiu, em 1925, a este ex-voto, especificando  que mede "0,m8 x 0,m6"[7].

O brigue em obras literárias 
Capa de "Eugénia e Silvina", obra
da escritora Agustina Bessa-Luís
O episódio do tráfico negreiro para São Tomé, de que o brigue “Ovarense” foi acusado, vem também referido numa conhecida obra literária do século XX – "Eugénia e Silvina", de Agustina Bessa-Luís –, e serviu de inspiração para outra, já do século XXI (2003) – "Equador", de Miguel Sousa Tavares, descendente de Fernando de Oliveira Bello, seu trisavô, natural de Ovar e um dos proprietários do “Ovarense” apresado em Cape Coast, atual Gana, cujo processo judicial, decorrido desde dezembro de 1876 a novembro de 1877 na Serra Leoa, então colónia da coroa britânica, vem transcrito na obra, em 3 volumes, "Foi assim que foi – a história possível dos Alegres de 570 a 2015”, do eng. Manuel Alegre [clique no link], que constitui um precioso contributo genealógico para muitos ovarenses, que ali podem encontrar as suas raízes, as mesmas que deram corpo e rosto a gente humilde e a gente ilustre hoje espalhada por todos os continentes. Eis um recorte do pequeno trecho em que Agustina nos introduz no episódio: “A acusação de esclavagismo selvagem (e outro não era mais possível) pairava pelo menos há dez anos sobre Portugal. Em 1876 o brigue Ovarense fora processado pelo Vice-Almirantado de Serra Leoa por transporte de escravos. As provas eram esmagadoras, porque havia a bordo demasiadas pipas para aguada, demasiadas esteiras e sacas de arroz, o que pressupunha mais gente a conduzir e sustentar do que a tripulação normal. O libelo mencionava grilhões trazidos de S. Tomé e escondidos no porto de Freetown. O processo girou em volta de três rapazes levados com ardil para o Ovarense, vendidos ao capitão e fechados no porão até que o brigue se fez ao largo. Gira em volta de testemunhas umas falsas, outras crédulas, outras ainda industriadas; mas o que prevalece é a suspeita arreigada de que tanto nos paquetes ingleses como portugueses se transportavam escravos para S. Tomé e aí eram desembarcados de noite e algemados. Tudo isto, não tem força histórica para interpretar a virtude dos homens quanto ao cumprimento das leis (a escravatura fora abolida em S. Tomé em 1875, mas os escravos libertos ficavam sujeitos a uma aprendizagem durante dois anos, o que os mantinha de certa forma constrangidos à condição anterior), serve apenas para traçar o quadro moral das ilhas quando João Trindade viveu lá”.

"(...) essa imigração entre colónias mais não era
do que uma forma de esconder o que não passava
de um sórdido tráfico de escravos". 

(Miguel Sousa Tavares, no romance "Equador")

Notas: 
[1] Bello José Fernando Neves, “A Família Oliveira Bello, de Ovar”, 1994, edição do autor, 144 páginas.
[2] Tavares, Miguel Sousa, “Equador”, Oficina do Livro.
[3] Fernando de Oliveira Bello, António e Manuel Rodrigues Formigal. Em 1975, a sociedade passou a chamar-se Bello & Formigaes, Lda.
[5] “Grande Enciclopédia P. e Brasileira”, vol. 27, S. Tomé e Príncipe, pág. 651.
[6] “Anais da Academia Portuguesa da História”, II Série, volume 29, Lisboa, MCMLXXXIV.
[7] Sales, “Nosso Senhor dos Passos da Graça (Lisboa). Estudo Histórico da sua irmandade com o título de “Santa Cruz e Passos”, Lisboa, 1925, pág. XVII.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2018/01/brigue-ovarense-trafico-negreiro-no.html

30.11.17

João Semana, “médico dos pobres”?

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2011)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

João José da Silveira
("João Semana")
À figura de João Semana de “As Pupilas do Senhor Reitor” andam ligadas as ideias de bonomia e de desprendimento, materializadas no humor daquele médico e na sua solicitude para com os pobres.
Sabendo-se que, desde há século e meio a essa figura carismática se associa a personalidade do médico Dr. João José da Silveira  (1813-1896), será lógico questionarmos se a imagem que os ovarenses de há 136 anos construíram a respeito deste ilustre conterrâneo corresponderá ao médico retratado em “As Pupilas”.
Uma abordagem superficial a um requerimento que chegou às nossas mãos por amabilidade do amigo Joaquim Manuel Fidalgo, que o encontrou no Arquivo Municipal de Ovar quando de buscas destinadas a um trabalho de investigação em ordem à sua formatura em História, poderia levar-nos a pôr em causa aquela auréola de bondade com que o povo o envolveu.
Uma pergunta se põe: Não estaria o Dr. João José da Silveira (suposto João Semana) a requerer à Câmara uma remuneração indevida?
Não cremos nessa hipótese. Antes 
lhe adivinhamos  motivações   pertinentes.
Porque médico camarário, cabia- lhe, por contrato, olhar pela saúde dos doentes do seu partido, incluindo os mais pobres.
A princípio os de Ovar, depois os de Arada e, posteriormente, pelo que se lê no documento em estudo, numa área mais vasta do concelho. E fá-lo-ia com disponibilidade e entrega total.
Cabendo-lhe, agora, uma área mais dilatada de serviço, teria, naturalmente, a seu cargo muitos mais doentes, o que lhe acarretaria um maior dispêndio de tempo, que teria de subtrair ao trabalho de consultório particular.
A gratificação que ele reclamava como justa parece-nos, por isso, estar dentro da lógica que ele usava na prestação de auxílio a toda e qualquer pessoa em risco.
Sem esse acréscimo sugerido e que lhe foi negado, só com esforço redobrado poderia cumprir plenamente o seu compromisso profissional.
Terá sido aqui, na correlação de forças entre a generosidade que lhe é atribuída e as necessidades reais dos seus doentes que terá decidido requerer aquela gratificação, sem em nada ser beliscado o honroso título de médico dos pobres.
Pelo teor da acta da sessão de 15 de Abril de 1876 da Câmara Municipal de Ovar, poderá o leitor julgar por si. Ei-la:

"João Semana", aguarela
de Roque Gameiro
«Nesta foi prezente o seguinte requerimento de João José da Silveira:
Exma. Camara Municipal. João José da Silveira cirurgião-medico pela eschola Medica Cirurgica do Porto, do Bairro de S. Pedro desta Villa, vem requerer que no orçamento actual se inscreva uma verba, que pareça rasoavel, como gratificação dos serviços extraordinários que tem prestado e continua a prestar como facultativo. Os fundamentos da sua petição são os seguintes: O supplicante principiou a ser facultativo de partido no ano de 1851 e desde então até à morte de João Frederico Teixeira de Pinho, que se realizou à seis para sete annos, exerceu por turno com os outros três facultativos a clínica cirúrgica no Hospital, mas sendo suprimido o partido deste, ficou desde essa epocha prestando os seus serviços com os outros dois facultativos até que pelo falecimento d’António Izaac Teixeira de Pinho ficaram apenas 2 facultativos o do suplicante e o de José Damião de Carvalho; Já se vê pois que mudaram inteiramente as circunstancias, pois que na primeira epocha prestava serviços num trimestre, na 2.ª por 4 mezes e desde Setembro ultimo por seis. Isto seria bastante para justificar o pedido, mas accresce que V.ªs Exas. o reconhecem, pois no orçamento votam uma verba para o facultativo que vier substituir o falecido e sendo assim certo é que o suplicante merece gratificação pelos serviços prestados e que houver de os prestar, e esta é a doutrina do Dec. d’Estado de 9 de Maio de 1857 publicado no Diário do Governo n.º 174 – Pede deferimento – E.R.M. cê – Ovar 7 d’Abril de 1876 – João José da Silveira. A Camara deu o seguinte despacho: indeferido. E justificou a sua decisão deste modo: A Camara entende que nem o requerente tem direito à gratificação que pede nem a Camara a deve, como opportunamente mostrará, não importando o seu reconhecimento o ter a Camara votado o seu orçamento para o anno económico próximo futuro a datação do partido do falecido facultativo António Isaac Teixeira de Pinho, o que é antes uma consequência de uma deliberação tomada na Sessão de 24 de Setembro de 1875.»


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2011)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/11/joao-semana-medico-dos-pobres.html

20.10.17

Algumas notas toponímicas ovarenses – Válega

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/1994)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

A. de Almeida Fernandes,
historiador medievalista
O topónimo Válega, se não é aquele que dessa desgraça mais sofreu, ocupa, incontestavelmente, um dos primeiros lugares no “historial” ignaro das pretensas explicações: por vezes, nem sequer uma letra comum, como quando se lhe liga a Betaonia do séc. VI! Além desta, até (lá de Espanha) Baneza – e juntem-se, de cá Bitarães com Vectica, com Barbola, com Besea do séc. VI, etc.!
Um delírio que não atendia sequer a que, geograficamente, nem proximidade, muito menos coincidência, havia: enfim, sequer ao menos aquilo que eu tenho chamado “olho-e-orelha”.
À vista e ouvidas, de facto, pertencem as opiniões de três autores: um com “valego” e “velegado” palavra achada em Viterbo, e dois com "valle" em razão do elemento vall –, de “Vallega”. Mas o segundo, -ega, era-lhes o cume dos trabalhos, pois que até de Valdágua, Onega, Garei existentes na freguesia de Válega actual!
Horrores – e há uns setenta anos o então Padre Miguel de Oliveira (natural daí), embora declarando (muito bem) que tais explicações são aceitáveis “na razão inversa da erudição”, aconselhava a que “escolha o leitor a que mais lhe apraz”. Ora o que não se pode é admitir que alguém aconselhe a adopção livre de desconchavos, tanto mais que esse autor – que foi historiador académico mais tarde – sabia que existiam leis fonéticas a nunca transgredir, embora as ignorasse: mais culpado, de certo modo, que os outros, porque já vigorava então o método glotológico, tão científico, pelas suas leis e domínio, como outro que mais científico seja.
Igreja Matriz de Válega
Foto: DR
As leis fonológicas, em cada idioma, são tão científicas como as leis físicas ou as leis químicas: falar sem elas é o que há, pois, de mais anticientífico – e, no entanto, até isso nos vem hoje das universidades, especialmente uma chamada Universidade Nova de Lisboa. Se acima chamei delírio as opiniões anteriores ao estabelecimento do dito método, com não menos razão posso chamar uma desgraça (ou então pagodeira) as posteriores.
Exposto o indecente quadro por uns instantes necessários – até porque pode funcionar como espelho para quem, mirando-se nele, for capaz de sentir-se envergonhado –, passemos a considerações dentro do método próprio e único e que, ainda assim, não estabelecem uma certeza: e a razão é que não há apenas uma possibilidade de explicação científica e lógica.
É claro que não se pode negar que a “fisionomia” e a consonância numa palavra cujo étimo se busca não deixam de actuar e serem justas no espírito do investigador – mas é precisa uma imensa cautela.
Como o leitor tem notado, quando há alguma possibilidade de decomposição, não rejeitável in limine como o são os disparates, poderemos efectuar, ao menos, a tentativa de adoptá-la para criticarmos os resultados – dentro da ciência (leis fonológicas) e da lógica (a congruência toponímica, tão indispensável como aquela). Essa decomposição seria Vall - ega, com -ega átono, e permitimo-nos fazê-la porque (é preciso notá-lo) Vallega é já a forma no documento mais antigo que da localidade temos, o de 1102.
(Não de 1002: no apógrafo, faltou um C. Basta atender a que se trata de bispo de Coimbra, Maurício, que o foi aí entre 1098 e 1108. Que o não visse Miguel de Oliveira em 1925, compreende-se, mas ainda trinta anos depois admiraria… Fica o necessário aviso, pois que cerca de 1957 já ele dizia certa a data).
Nesse documento, de facto, a “villa Dagaredi” (na actual freguesia) refere-se situada “discurrente rivulo Vallega”, isto é águas correntes ao “rio Válega” – e põe-se logo o problema: deu o rio o nome à localidade que actualmente o tem, ou a localidade deu-o ao rio? Qualquer dos casos ocorre – e logo aqui temos a actual igreja de S. Vicente de Pereira em 1002 (neste caso, sim, data certa) como situada “discurrente rivulo Azevedo”, topónimo que só poderia tê-lo sido de lugar de início – o que veremos, Deo volente, na sua oportunidade. Estes dois riozinhos são quase paralelos, e muito vizinhas as suas partes superiores sobretudo. Não se julgue ociosa a questão no encaro do topónimo Válega – étimo e significação.
Monsenhor Miguel de Oliveira
O referido Monsenhor Miguel de Oliveira, cerca de 1957 – um pouco mais precavido já nesta melindrosa matéria –, opinou que o “étimo está no latim vulgar *vallica, equivalente a vallicula, pequeno vale”. Não diz onde colheu isto, pois que não era filólogo e de Filologia nada entendia. J. P. Machado, por exemplo, diz o mesmo exactamente: “Do latim *vallica, equivalente a vallicula, pequeno vale”.
Não creio tivesse copiado de M. de O., e eu posso dar a minha palavra de que algures, antes deste, havia eu tido, ou até emitido, a mesma opinião: somente não consigo hoje é descobrir onde – o que, de resto, não interessa, porque basta tal opinião, seja ela original de quem for.
Foneticamente, a evolução de vallica a “vállega” é impecável. A estabilidade dessa forma, Vállega, é também, um dado a favor, visto que temos com ela a primeira notícia. No entanto, faço estes reparos:
1.º O nome aparece num curso de água em 1102. Logo de início, pois, ao que parece: ou seja, designa um acidente hidrográfico, e não orográfico (“valle”).
2.º O sinónimo apontado, vallicula, originou Valhelhas (logo, por “valhelha”), e um parece que deveria dispensar o outro se no mesmo sentido.
Estas duas razões – que não são decisivas, diga-se já – trazem consigo a concordância de ser *vallica (como vallicula), ao contrário de “vale” actual, um nome feminino, pois que “vale” (topográfico) de início também o era, de harmonia com o étimo (o latim vallis): mas isso não impede outras objecções:
3.º Não há razão alguma para se considerar, aqui, essa topografia como determinante da designação: apesar da lei da contingência toponímica (que não posso agora desenvolver), sucede que são vários os cursos de água quase paralelos e muitos vizinhos, nesta zona à beira da “ria” (onde vão desaguar), e, portanto, pequenos como eles são, vários são os pequenos vales correspondentes, não se compreendendo que apenas neste ou num só caso se aplicasse a designação *vallica, hoje Válega.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 1994)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/10/algumas-notas-toponimicas-ovarenses.html

1.10.17

"Foi assim que foram. A história possível dos Alegre de 570 a 2015", obra de Manuel Alegre

Engenheiro Manuel Alegre
Deixando, em idade de reforma, a sua vida ativa, até então gasta em tarefas rudes do mundo profissional – engenheiro especializado em segurança no trabalho e no campo da hidráulica (Ponte de São João e Metro do Porto, portos e caminhos de ferro no Algarve, e instrução nacional de Patrões do Alto Mar), Manuel Domingos Alegre de Almeida Silva – Manuel Alegre para os amigos – não cruzou os braços nem pôs freio ao seu talento empreendedor. 
Habituado ao prazer de velejar e de escalar montanhas, aventurou-se decididamente a estruturar o mundo enredado mas sedutor da investigação genealógica, na tentativa de descobrir as suas origens e os horizontes que envolveram e moldaram a vida dos seus antepassados.
O autor sustenta que há três ramos na família Oliveira Alegre de Ovar, constituídos a partir de três irmãos, Teresa, Ventura e José Oliveira Alegre, nascidos de Francisco Oliveira Alegre e de sua esposa Andresa Maria Santos, sendo esta filha do capitão Afonso da Costa Soares de Albergaria e de Teodora Santos, entroncando, portanto, em família da nobreza antiga, com repercussão para além das fronteiras pátrias. M. P. B. (texto da 1.ª pág.)

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Jornal JOÃO SEMANA (01/10/2017)
TEXTO: Fernando Pinto

«Mais do que um simples encadeamento de nomes, que a ninguém ou a muito pouco interessados diria alguma coisa, foi julgado mais interessante e, sempre que possível, juntar a esses nomes datas, factos e histórias que os transformem em pessoas com significado.» (Manuel Alegre)

Lançada no Museu de Ovar, na tarde de 16 de setembro, a obra Foi assim que foram. A história possível dos Alegre de 570 a 2015, da autoria do engenheiro Manuel Domingos Alegre de Almeida  Silva, só veio a lume graças ao apoio de Acácio Coelho, empresário de Cortegaça, um dos poucos mecenas de concelho de Ovar. 
"Trabalhei sozinho durante sete anos. Depois, esta minha obra esteve dois anos em banho-maria, até que, se não fosse este senhor que está aqui presente, o Sr. Acácio Coelho, eu não conseguia publicar este trabalho, porque a impressão dos livros custa milhares de euros", adiantou Manuel Alegre, virando-se para o empresário de Cortegaça, que abriu a sessão partilhando com as pessoas que enchiam a Sala dos Fundadores do Museu de Ovar alguns pormenores da sua família, avós paternos e maternos, bem como um episódio da sua passagem por terras de África.
"Esta tua solidariedade, Manel, trouxe-me até ti, por isso estou aqui, dando-te os meus parabéns pela obra fantástica que realizaste", disse Acácio Coelho.

Acácio Coelho, empresário de Cortegaça que apoiou a obra de Manuel Alegre


Professor Rui Lourenço

António Soares Albergaria
A obra de Manuel Alegre, como explicou Rui Lourenço Gil, Professor da Universidade Católica Portuguesa, é apresentada em três livros e um CD: o 1.º volume trata dos Alegres migrados para Tentúgal e para o Porto, nomeadamente para a Foz do Douro e para Lordelo do Ouro, e alguns destes migrados para o Brasil; o 2.º volume (II parte) aborda os Alegres que foram para Lavra, vila do concelho de Matosinhos; o 3.º volume (III, IV partes e anexos) fala dos Alegre que permaneceram em Ovar, embora alguns tenham depois migrado para os Estados Unidos e Brasil (III parte), abordando o tronco comum de todos estes ramos do Alegre, que entronca  na família Soares Albergaria, tema que foi abordado por António Soares Albergaria, apaixonado pela Genealogia; os anexos oferecem a genealogia do novo ramo Soares de Albergaria e a participação dos Oliveira Alegre na Primeira Guerra Mundial; e o CD traz documentos, como folhas de assentos (nascimentos e óbitos).
Para o Professor Rui Lourenço, este relato genealógico da família Alegre "é uma história com histórias pessoais e de circunstâncias de vida", porque não é apenas dos Alegres, mas de todas as famílias colaterais com quem os Alegres estabeleceram relações conjugais. "Em rigor, é de uma das famílias Alegre de Portugal, porque não foi possível ao autor, por muito esforço que tenha feito, estabelecer nexo com pelo menos mais duas linhas de famílias Alegre, daí o subtítulo da obra", disse o Professor Rui Lourenço.

Rui Lourenço, Inês Amorim, Manuel Alegre, Domingos Silva, Pedro Braga da Cruz,
padre Manuel Pires Bastos e Acácio Coelho, na Sala dos Fundadores do Museu de Ovar,
durante a apresentação da obra


Padre Manuel Pires Bastos
Este trabalho exaustivo do engenheiro Alegre narra "histórias de pessoas pobres e de pessoas ricas", tinha afirmado, minutos antes, na sua fecunda intervenção, Inês Amorim, Professora do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. "Quando está a falar de determinado personagem, o autor, a certa altura, apercebe-se de que ele foi piloto de um barco, e lá anda atrás das fotografias dos naufrágios, dos passageiros, das mulheres, que, normalmente, não são faladas, nem têm nada, aparentemente, a dizer. No entanto, compila-as, entrevista-as, mostra as fotografias e apresenta estas histórias." 
Segundo o P.e Bastos, estamos aqui perante uma obra de peso: "Não a pesei, mas, segundo informações, são cerca de 6 kg de sabedoria e de história, muito ligada à comunidade vareira. Toda a gente já ouviu falar das varinas, dos mercantéis, da gente ligada à pesca." O pároco local, também ele historiador, lembrou que "muitas das coisas que são ditas nesta obra estão nos livros paroquiais de Ovar, que são dos mais antigos, de 1588. 
Manuel Alegre começou por agradecer ao diretor do Museu, Manuel Cleto, e a todos os amigos que vieram de longe para assistirem a esta apresentação.


"Cheguei a trabalhar 10 horas por dia nisto, até aos sábados e domingos. Comecei pelos livros paroquiais, depois fui comprar tudo o que era monografias dos sítios; na Casa dos Pescadores de Matosinhos tive acesso a uma coisa que o Estado Novo fazia, ou seja, não havia pescador nenhum que habitasse num bairro social que não  fosse fichado, e essas fichas são uma base de dados espetacular; os jornais, os livros, os diários náuticos, os sítios na Internet.. Até andei nos cemitérios! Este meu trabalho foi uma caderneta de cromos", disse Manuel Alegre.


Durante uma hora, o engenheiro deu uma aula de genealogia (e de náutica, como se pode comprovar na foto, em que explica o código internacional de sinais utilizado pela navegação marítima e que serve de comunicação entre dois ou mais navios).
Manuel Alegre referiu ainda que os seus antepassados começaram a "saltar daqui para fora" devido à fome (escassez de sardinha) e ao paludismo (febre dos pântanos da Ria).

Américo Oliveira canta a canção "Ovar", evocativa dos valores vareiros,
 acompanhado ao piano pelo P.e Manuel Pires Bastos

Também marcaram presença na sessão Pedro Braga da Cruz, presidente do Conselho de Administração do Porto de Aveiro, e da Assembleia da Câmara Municipal de Ovar, amigo e colega de curso de Manuel Alegre (a quem coube o papel de mediador do encontro), Domingos Silva, vice-presidente da CMO, entre muitos ovarenses e amantes desta ciência chamada Genealogia.


Francisco Rafael Pinto, filho da pianista vareira Cristina Santos

O evento foi abrilhantado por trechos musicais interpretados pela pianista vareira Cristina Santos e seus talentosos filhos Francisco Rafael e Maria Pinto.


Recorde-se que Manuel Alegre tinha dado, em 28 de agosto de 2014, no Museu de Ovar, uma palestra sobre a "Família Marage", texto que pode ser consultado na Internet, em http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/01/marage-uma-familia-do-mar.html




FOTOS: Jornalista Fernando Pinto
VÍDEO: António Valente - MONTAGEM: Fernando Pinto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de outubro de 2017)

14.9.17

Os mercados em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/04/2017)
TEXTO: José de Oliveira Neves



Até à inauguração, em 1955, do atual mercado, situado no local do antigo celeiro do Cabido do Porto, acima da capela da Senhora da Graça, os mercados em Ovar distribuíam-se por várias ruas e largos, conforme os produtos a comercializar, e funcionavam em dias diferentes.

No “João Semana” de 15 de junho de 2013 escrevi sobre os mercados de peixe em Ovar. Hoje, de uma forma mais generalizada, vou recordar aquilo a que os nossos antepassados chamavam “a praça”.
Mercado de Ovar e Escola Conde Ferreira, anos 40-50 do séc. XX

“O mercado da Praça, é de poucos anos anterior a 1779, aos domingos, e, mais tarde, diário, na Praça do Comércio. Em 1871, na presidência da Câmara do Dr. Manuel Arada, junto à Escola do Conde Ferreira, foi construído um mercado cuja planta para as suas barracas estava concluído a 16 de Agosto de 1871, tendo sido arrematada a sua construção nesse mesmo mês”[1].

Paços do Concelho, atual Praça da República, anos 20

Nos anos 40/50 do séc. XX, comercializavam-se ali os produ­tos hortícolas, e numas barracas encostadas ao muro de separação da referida escola vendiam-se carnes, lãs, algodões, carvão, calçado, etc. Outra barraca fora do recinto era ocupada por um relojoeiro, e, ao longo do grade­amento, no passeio da atual Rua Elias Garcia, que cercava o espaço limitado, comercializavam-se os objetos de cerâmica, tais como alguidares, assadeiras, canecos, caçoilas, etc. Junto das escadas da Farmácia Lamy, na direção do chafariz Neptuno, vendiam-se flores, e, na Praça da República, (largo em frente à Câmara), mon­tavam as suas tendas os negocian­tes de fazendas, roupas e outros produtos, sendo as vendedeiras de tecidos conhecidas pelas de Pardilhó, por serem quase todas daquela localidade.

Mercado na Praça da República, 1934

No mesmo local, na berma da estrada que se­gue na direção da capela de Santo António, as ven­deiras de fruta da época expunham em canastras os seus produtos. O largo de S. Tomé, atual Pra­ça Mouzinho de Albuquerque, era, então, conhecido por “Praça das Galinhas”, nome que ainda hoje perdura, por ter sido nesse local o mercado das aves de capoeira – galinhas, patos, perus, pombas, etc. –, sendo ali igualmente ven­didos os coelhos.
Em frente da capela de Santo António vendiam-se as cordas e outros artigos de cordoaria, assim como, no tempo próprio, melões e melancia. E após as festas em honra deste santo popular, no final da missa, havia um leilão das carnes e chouriços e de outras prendas que os devotos ofereciam ao santo. Estes mercados, como o das galinhas, em S. Tomé, eram realizados ao domingo de manhã.

Vendedor de banha de cobra  no largo de Sto. António, década 60

O grande mercado da Praça efetuava-se ao sábado, desde o romper do dia até ao meio da tarde. Nos anos 40/50 do século passado era uma verdadeira feira, muito concorrida, onde se encon­trava quase tudo, e onde havia muita animação. Apareciam ali os homens e as mulheres que, trans­portando umas pequenas caixas de papelão, se apresentavam como vendedores da banha de cobra, uma gordura que, diziam eles e elas, fazia bem a quase todas as doenças.
Para atraírem a atenção dos possíveis compradores, realizavam primeiramente umas demonstra­ções circenses de magia, fazendo desaparecer baralhos de cartas, ovos, pombas, etc. Noutro local da Praça, utilizando melodias em voga na época, cantavam-se poemas que descreviam recentes tragédias vindas nos jornais. A es­ses artistas populares chamavam­-lhes “desgraçadinhos”, por eles cantarem somente as desgraças acontecidas.
Em 1960 a Escola Conde Fer­reira demolida e o espaço por ela ocupado, conjuntamente com a área contígua, pertencente ao mercado, deu lugar ao Tribunal.
Hoje, ao passar por queles sí­tios, a geração posterior aos anos 50 encontra uma paisagem muito diferente da anterior.
Vale a pena ler a história da nossa terra, para se conhecer e admirar as transformações nela operadas através dos tempos.

Notas:
[1] Alberto Sousa Lamy, “Dicio­nário da História de Ovar”, volume 2.
José de Oliveira Neves


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de abril de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/09/os-mercados-em-ovar.html

1.8.17

OVAR – Origem etimológica

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2017)
TEXTO: M. Antonino Fernandes

Sobre a origem do topónimo Ovar, o P.e Miguel de Oliveira, em “Ovar na Idade Média”, houve por bem fazer uma pertinente recensão de cinco explicações, vulgarizadas em corografias, enciclopédias, etc., que ele tachou de falsas. Permito­-me recordá-las, em síntese:
1.ª - do verbo “Ovar – pôr ovos”, por Ovar “ficar na orla ma­rítima e servir de refúgio às aves”.
2.ª- = de Vale, por se estender num vale e os moradores trocarem o l por r e dizerem Bar por Vale;
3.ª - de Var, por haver em França um rio assim chamado, e os autores pensarem que se estabele­ceram aqui marinheiros franceses e lhe teriam dado também o nome de “Vila do Var”.
4.ª- do radical céltico balt, comparado com o grego bar e o árabe bahr, que daria o substantivo grego ò bar;
5.ª de Oduarii, antropónimo germânico, por haver na Galiza uma herdade chamada Ovar, que fora de um presor Oduário.
Ora a raiz Bal e Var, proposta nos n.º 2, 3 e 4, prova-se documen­talmente. Tanto assim que vemo-la bem clara na onomástica mevieval, já em 922, e, depois, em 1046, 1081, 1083 e 1151, primeiro como “porto de Obal” e seguidamente como “villa Obar” e “rio (ou ria) Ovar”. E, até mesmo arqueológica e cartograficamente, ela figura em “Lavara”, topónimo mencionado em Monarchia Lusitana, t. I, p. 130 verso, bem como em “Lava­re”, outro topónimo, sito na nossa costa marítima, entre as cidades Lancóbriga e Talábriga, como revelou Manuel Malícia em 1-8- 2013, no n.º 150 deste jornal.

DO ATLAS DE JOÃO TEIXEIRA (ALBERNAZ) - 1648
O mais prolífico cartógrafo português da 1.ª metade do século XVII
Sociedade de Geografia de Lisboa - Reservados 14 A-1

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Assim sendo, como se explica e justifica esta incontroversa raiz do topónimo Ovar?
Atendendo à sua situação ge­otopográfica, num amplo vale banhado pela ria e pelo mar, onde aportaram vários invasores, no­meadamente os Mouros, que do­minaram na área mais de 5 séculos, é natural que este vale fosse visto e nomeado por eles “ALBAHR”, pois este vocábulo significa “Lagoa e mar”, na lín­gua deles. A presença deles aqui é, aliás, também confirmada pelo topónimo ALMIARES, mencio­nado pelo sobredito P.e Miguel, o qual significa “celeiro, depósito de provisões”.
O dito vocábulo Albahr serviu também para nomear ALBUFEI­RA, no algarve, que se encontra em situação idêntica à de Ovar, e disso nos dão conta o Elucidário de Santa Rosa Viterbo e o Dicionário Onomástico de J. Pedro Machado.
De resto, o próprio P.e Miguel de Oliveira aponta-o no n.º 4, mas não se deu ao trabalho de o aproveitar e explorar, o que acho estranho, pois não tenho a menor dúvida sobre a origem árabe deste radical de Ovar.
Mas, o problema fundamental, em que esbarraram as sobreditas explicações, foi a origem do prefi­xo Ò (aberto), para o qual chamou a atenção o mesmo autor de “Ovar na Idade Média”.
O certo é que o prefixo ò é uma contração oral de ao e este ao resulta da junção da preposição latina ad com o artigo árabe Al, que “he huma partícula inseparável dum nome e serve para todos os géneros, números e casos”, como esclarece Frei Joan de Souza, em “Vestígios da língua Arábica”, pág. VIII. Este artigo Al deu la e le, em francês, donde se escrever Lavara e Lavare, já referidos; e os artigos definidos a e o, em vernáculo, os quais, juntos com ad, que perdeu o d por apócope, se aglutinaram em à (= aa) e ò (= ao). Isto, desde longa data, na língua oral, donde ser vulgar dizer-se: vou à ria; vou ò mar, vou ò Porto, etc.
Fica, assim, esclarecido e jus­tificado aquilo que os intérpretes, na sua visão onomástica, não atinaram.
É que o típico OVAR fala-nos duma origem histórica remota, que tem raízes profundas no mar. Disso não tenho a menor dúvida, nem receio contraditas.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de julho de 2017)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/08/ovar-origem-etimologica.html

ADENDA -----------------------------------------



Leia AQUI mais informação sobre este Atlas do século XVII 

[clique nos links]


Na edição de 1960 dos Portugaliae Monumenta Cartographica é dado a conhecer um pequeno atlas de Luís Teixeira, que descreve a costa de Portugal, datado de 1648. Na época foram identificados quatro exemplares e mais uma cópia do mesmo. Na Nationalbibliothek de Viena existem dois exemplares deste atlas. No British Museum, em Londres existe um outro exemplar. Finalmente, em Portugal tinha sido também encontrado um exemplar, que se encontra na Sociedade de Geografia de Lisboa.


5.7.17

As origens do Folclore em Ovar (I)

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/2016)
TEXTO: João M. Gomes Costa

Era através de canais, por meio de embarcações (bateiras, mercan­telas, moliceiros e os mercantéis de sal) que o lugar da Marinha fazia as suas ligações com as localidades da Nossa Senhora de Entráguas, Ribeira de Mourã (Avanca), Bunheiro, Murtosa, Aveiro, entre outras. Em Pardilhó realizava-se, mensalmente, a feira dos 9 e 23, local onde se vendiam, entre outros, produtos hortícolas e animais, sendo também as embarcações o meio privilegiado de transporte para ali. Era mais fá­cil ir às feiras de Pardilhó do que às de Ovar, pois os acessos para esta vila eram menos acessíveis. A atual descendência do povo da Marinha resulta de laços matrimoniais que ao longo dos tempos foram sendo es­tabelecidos entre as gentes daquelas regiões, com particular ênfase de Pardilhó e do Bunheiro.

Os serões, as festas...
Antes de 1950 já havia entre os jovens a tradição de aproveitarem as longas noites dos serões inver­nosos para cantarem e dançarem nas eiras, cobertos e pequenas salas das localidades da Marinha, Torrão do Lameiro e Quintas do Norte. Findo o verão, e iniciando-se o ou­tono, começavam as tradições das escolhedelas de feijão, momentos sempre propícios à animação das gentes, com danças e cantares que serviam, igualmente, para os rapa­zes e raparigas estabelecerem os primeiros namoricos. Em setembro começavam as estonadas (designa­das noutras regiões por desfolha­das), período da recolha do milho e das escolhedelas. Também era nes­ta altura que se faziam as cortadas de tiras feitas em tecidos de roupa velha, que se destinavam quer à criação de mantas de farrapos, quer às abridelas de lã, que se destina­vam ao fabrico de mantas.

Uma atuação do Rancho Folclórico de Ovar

Na Marinha e no Torrão do La­meiro cultivava-se aveia, centeio, cevada, milho e feijão. O grão do milho e do centeio, depois de se­parado respetivamente dos canulos e da palha, era moído, para depois se fazer broa, que servia tanto para consumo próprio como para venda, tal como os respetivos cereais. Os animais domésticos que criavam também eram alimentados tanto com os cereais como com a palha que deles resultava. O feijão era uma leguminosa que também fa­zia parte da subsistência do povo, nesta localidade. A cevada, sendo igualmente de subsistência, tam­bém era comercializada, tal como a palha, para o gado. As palhas des­tes cereais tinham ainda uma ou­tra funcionalidade: com elas eram enchidos os colchões das camas, servindo ainda de acomodamento, proporcionando um certo conforto nas proas dos barcos que povoa­vam os canais da ria, já que eram as pequenas embarcações o meio de transporte privilegiado nas des­locações. Em todas as atividades que implicassem o trato e a prepa­ração dos dife­rentes cereais, bem como após a realização das estonadas e cor­tadas de tiras e abridelas de lã, o povo, anima­do, procurava o lado lúdico da confrater­nização e do convívio. As­sim, os rapazes e as raparigas juntavam-se, rotativamente, nas várias casas – as raparigas, tendo sempre como fir­me e claro propósito a realização dos (referidos) trabalhos agrícolas –, e só no final das tarefas, aprovei­tavam o resto do serão para então dançarem e cantarem. O tocador em algumas modinhas poderia dan­çar, não necessitando de as acom­panhar musicalmente, pois eram exclusivamente cantadas.
O único moinho de vento que existia no lugar da Marinha estava montado em cima de 2 ou 4 rodas de carro de tração animal. A pro­prietária deste moinho era conheci­da pelo epíteto de “Ti Pataca”, pro­veniente de uma família abastada da localidade.
No quotidiano doméstico, para além dos trabalhos da lavoura, as mulheres iam buscar às margens da Ria molhos de tojo, giesta ou carqueja, que chegavam dos bar­cos provenientes do rio Vouga, e que traziam à cabeça. Por sua vez, os homens transportavam dois molhos no bordão (pau de dois metros e com um diâmetro de 8 a 10 cm), fazendo o percurso da Ria até às dunas. Tal tarefa constituía uma preparação/defesa para que as areias não arrasassem as plantações de pinheiros, além de que era ne­cessário protegerem-se construin­do abrigos, contra ventos e marés, do Torrão do Lameiro até Maceda. Ao regressarem das suas tarefas aproveitavam para se divertirem, dançando e cantando ao desafio. As raparigas, quando iam carregadas com os molhos, levavam a concer­tina ao ombro, pois era impossível ao tocador transportá-la, uma vez que também ele ia carregado com o referido bordão.

O rancho da Marinha
Segundo um artigo de Lamy Laranjeira na edição n.º 14 de 1980 da Revista Reis, José Coito, ensaia­dor do Grupo Folclórico de Ovar, era “exigente, severo para as faltas cometidas e condescendente para ocorrências felizes”. Na mesma re­vista, o poeta Homem de Mello as­severa que “o marido da cantadeira é um elemento precioso”, dadas as exigências das suas funções e os conhecimentos na arte de dançar.
O professor Manuel Lopes Conde formou e preparou um gru­po de jovens e adultos da classe lavradeira para atuar no Campo da Associação Desportiva Ovarense, nas festas sanjoaninas, junto com outros grupos de marchas de Ovar. De acordo com a revista Reis de 1987, num artigo publicado por Maria Luísa Resende, ao apresen­tar-se no referido local, o grupo das Marinhas “apareceu a destoar: em vez de arcos e balões, trouxe as lan­ternas de ir às minhocas e trajos de trabalho… Quando entrou no Cam­po, foi uma vaia geral, um gozo in­descritível. Começaram a dançar as suas modas e o público, estupefac­to, parou de rir e de assobiar.
No fim, aplaudiu de pé! Aí nas­ceu o primeiro rancho folclórico de Ovar!”.

Esta era uma forma de se ma­nifestarem, reivindicando por não existir luz elétrica na Marinha e no Torrão do Lameiro. A eletrificação destes lugares só surgiu em 1959, sendo inaugurada, simultaneamen­te, em ambas as localidades. Foi nesse grupo organizado, e com esse ensaiador, que nos anos de 1950 nasceu o Rancho da Marinha. A partir deste espetáculo a Junta do Turismo passou a incentivar a ma­nutenção deste grupo para a reali­zação de outros espetáculos a nível regional e nacional. 


(Continua)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de abril de 2016)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/07/as-origens-do-folclore-em-ovar-i-e-ii.html