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16.11.18

Ovar pretende oito “freguesias autónomas”

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/2018)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 3 de outubro foi aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal de Ovar uma moção apresentada pelo PSD pedindo a desa­gregação da atual União de Freguesias de Ovar (Ovar, S. João, Arada e S. Vicente de Pereira), e voltando a ser autónomas as 8 anteriores.
Achamos que o processo que deu origem a essa agregação não foi devidamente ponderado, tanto mais que evidenciou, no tocante à freguesia de São Vicente de Pereira a lamentável atribuição do termo espúrio Jusã, que desde há anos lhe vinha sendo imposto, e que pertence, efetivamente, ao lugar com o mesmo nome, Pereira, da freguesia de Válega, que, por ficar a poente (= a jusante), recebeu o determinativo Jusã (= de Baixo), e que foi, ao longo de muitos séculos, sede de concelho e município, de que restam ainda os edifícios onde se instalavam, até 1852, a Câma­ra, a Cadeia e o Tribunal. A esse concelho pertenceu, durante longo tempo, a parte poente da freguesia de S. Vicente, que aparece também denominada, em documentos da primeira dinastia de Portugal (tem­po de Afonso III e de D. Dinis), como S. Vicente de Pereira Susã (= de Cima).
A admitir um novo (mas agora inoportuno) apêndice, S. Vicente de Pereira teria de optar por Susã, e nunca por Jusã.
Uma nova reorganização admi­nistrativa das freguesias virá facili­tar a reposição da verdade histórica, geográfica e toponímica, que desde há muito se vem reclamando, resti­tuindo e fixando o genuíno nome da freguesia – S. Vicente de Pereira –, o único que os livros paroquiais utilizaram ao longo dos séculos –, e erradicando dele um termo que só por descuido ou negligência alguns funcionários públicos lhe atribuíram quando da extinção do vizinho concelho situado na vizi­nha freguesia de Válega. Erro que, apesar de já ter sido denunciado no século XIX na obra "Portugal Antigo e Moderno", do historiador Pinho Leal, foi desacertadamen­te oficializado pelo Decreto-Lei 46.139 de 31/12/1964, e assumido pelo Ministério da Justiça, cujo Centro de identificação Civil e Militar chegou ao cúmulo de pedir ao Conservador do Registo Civil de Ovar, em 03/01/1978, para lhe indi­car “a disposição legal que atribuiu à freguesia de S. Vicente de Pereira Jusã a designação de São Vicente de Pereira”, uma vez que “pelo Boletim Oficial do Ministério da Justiça a designação da freguesia é efetivamente São Vicente de Perei­ra Jusã”. (Só por essas trocas verdadeiramente inconsistentes, a Justiça de Lisboa deu trunfos à justiça de Fafe...).
É de esperar que, finalmente, faça justiça a sério numa questão de tão clara e fácil solução.

Sítio do lugar de Pereira Susã, do tempo medieval, onde foi construída a primeira igreja
de S. Vicente de Pereira (a atual igreja foi reconstruída a cerca de 100 metros)

Da História:
Um documento de 978 refere “o porto de Sancto Vicenti de peraira”, correspondente ao topónimo local “porto de Igreja” (Port. M. H.).
Das Inquirições de D. Dinis (Li­vro 4.º f.ªs 4 e verso, e 5 de 1288: “De Parochia Sancti Vicenti de Pereyra de Sosaa: nom logar que chamam Pereyra ha hũa quinta que foi de Fernam Pereira e de seus irmaos”.

Dos dicionários:
“Susã – forma feminina de Susão. Susão – adj. ant. Que está acima. Dizia-se especialmente de algumas localidades divididas em duas partes que se distinguem pela sua posição: bairro susão e bairro jusão. Fem. susã".

Sobre o assunto, ler AQUI

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de novembro de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/11/ovar-pretende-oito-freguesias-autonomas.html

1.8.17

OVAR – Origem etimológica

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2017)
TEXTO: M. Antonino Fernandes

Sobre a origem do topónimo Ovar, o P.e Miguel de Oliveira, em “Ovar na Idade Média”, houve por bem fazer uma pertinente recensão de cinco explicações, vulgarizadas em corografias, enciclopédias, etc., que ele tachou de falsas. Permito­-me recordá-las, em síntese:
1.ª - do verbo “Ovar – pôr ovos”, por Ovar “ficar na orla ma­rítima e servir de refúgio às aves”.
2.ª- = de Vale, por se estender num vale e os moradores trocarem o l por r e dizerem Bar por Vale;
3.ª - de Var, por haver em França um rio assim chamado, e os autores pensarem que se estabele­ceram aqui marinheiros franceses e lhe teriam dado também o nome de “Vila do Var”.
4.ª- do radical céltico balt, comparado com o grego bar e o árabe bahr, que daria o substantivo grego ò bar;
5.ª de Oduarii, antropónimo germânico, por haver na Galiza uma herdade chamada Ovar, que fora de um presor Oduário.
Ora a raiz Bal e Var, proposta nos n.º 2, 3 e 4, prova-se documen­talmente. Tanto assim que vemo-la bem clara na onomástica mevieval, já em 922, e, depois, em 1046, 1081, 1083 e 1151, primeiro como “porto de Obal” e seguidamente como “villa Obar” e “rio (ou ria) Ovar”. E, até mesmo arqueológica e cartograficamente, ela figura em “Lavara”, topónimo mencionado em Monarchia Lusitana, t. I, p. 130 verso, bem como em “Lava­re”, outro topónimo, sito na nossa costa marítima, entre as cidades Lancóbriga e Talábriga, como revelou Manuel Malícia em 1-8- 2013, no n.º 150 deste jornal.

DO ATLAS DE JOÃO TEIXEIRA (ALBERNAZ) - 1648
O mais prolífico cartógrafo português da 1.ª metade do século XVII
Sociedade de Geografia de Lisboa - Reservados 14 A-1

CLIQUE NO MAPA PARA AUMENTAR

Assim sendo, como se explica e justifica esta incontroversa raiz do topónimo Ovar?
Atendendo à sua situação ge­otopográfica, num amplo vale banhado pela ria e pelo mar, onde aportaram vários invasores, no­meadamente os Mouros, que do­minaram na área mais de 5 séculos, é natural que este vale fosse visto e nomeado por eles “ALBAHR”, pois este vocábulo significa “Lagoa e mar”, na lín­gua deles. A presença deles aqui é, aliás, também confirmada pelo topónimo ALMIARES, mencio­nado pelo sobredito P.e Miguel, o qual significa “celeiro, depósito de provisões”.
O dito vocábulo Albahr serviu também para nomear ALBUFEI­RA, no algarve, que se encontra em situação idêntica à de Ovar, e disso nos dão conta o Elucidário de Santa Rosa Viterbo e o Dicionário Onomástico de J. Pedro Machado.
De resto, o próprio P.e Miguel de Oliveira aponta-o no n.º 4, mas não se deu ao trabalho de o aproveitar e explorar, o que acho estranho, pois não tenho a menor dúvida sobre a origem árabe deste radical de Ovar.
Mas, o problema fundamental, em que esbarraram as sobreditas explicações, foi a origem do prefi­xo Ò (aberto), para o qual chamou a atenção o mesmo autor de “Ovar na Idade Média”.
O certo é que o prefixo ò é uma contração oral de ao e este ao resulta da junção da preposição latina ad com o artigo árabe Al, que “he huma partícula inseparável dum nome e serve para todos os géneros, números e casos”, como esclarece Frei Joan de Souza, em “Vestígios da língua Arábica”, pág. VIII. Este artigo Al deu la e le, em francês, donde se escrever Lavara e Lavare, já referidos; e os artigos definidos a e o, em vernáculo, os quais, juntos com ad, que perdeu o d por apócope, se aglutinaram em à (= aa) e ò (= ao). Isto, desde longa data, na língua oral, donde ser vulgar dizer-se: vou à ria; vou ò mar, vou ò Porto, etc.
Fica, assim, esclarecido e jus­tificado aquilo que os intérpretes, na sua visão onomástica, não atinaram.
É que o típico OVAR fala-nos duma origem histórica remota, que tem raízes profundas no mar. Disso não tenho a menor dúvida, nem receio contraditas.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de julho de 2017)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/08/ovar-origem-etimologica.html

ADENDA -----------------------------------------



Leia AQUI mais informação sobre este Atlas do século XVII 

[clique nos links]


Na edição de 1960 dos Portugaliae Monumenta Cartographica é dado a conhecer um pequeno atlas de Luís Teixeira, que descreve a costa de Portugal, datado de 1648. Na época foram identificados quatro exemplares e mais uma cópia do mesmo. Na Nationalbibliothek de Viena existem dois exemplares deste atlas. No British Museum, em Londres existe um outro exemplar. Finalmente, em Portugal tinha sido também encontrado um exemplar, que se encontra na Sociedade de Geografia de Lisboa.


17.3.17

Homenagem de Ovar ao Dr. Ramiro Salgado

Dr. Ramiro Salgado
(1932-2014))
Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2016)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Entre as pessoas e as instituições contempladas pela Câmara Munici­pal de Ovar com medalhas de ouro, prata e cobre, conta-se, a título póstumo, o Dr. Ramiro Benjamim Cordeiro Fernandes Salgado, já detentor, desde há anos, da medalha de cobre, que há alguns anos, lhe foi atribuída pelos bons serviços prestados à comunidade vareira quando aqui exerceu as funções de médico cardiologista, e a quem agora foi entregue a Medalha de Mérito Municipal Ouro, pelo facto de ter composto uma canção – “Ovar” – excecionalmente feliz quer na parte melódica, quer no texto poético, que expressa os valores morais, patrimoniais e paisagísticos da nossa cidade, constituindo um verdadeiro ex-líbris de Ovar, que a Tuna “Os Voluntários de S. João da Madeira” mantém, desde há 30 anos, no seu repor­tório, como a pedra mais preciosa do tesouro que lhe legou o seu fundador.


OVAR
Letra e música de Ramiro Salgado

Capa do 1.º de diversos discos gravados pela Tuna
dos Voluntários de S. João da Madeira
Ovar! Perto de ti o nosso mar.
Ovar! Tens a riqueza desse mar.
Ovar! A ria é, quando a brilhar
Nas noites mornas de luar,
De uma beleza sem igual!

Ovar hoje é cidade, sem favor.
Ovar, de tanta história e fervor.
Ovar tem Carnaval,
Tanta alegria e cor!

Ovar! Vou à praia ficar
Junto à duna a sonhar.

Ovar! Tens a varina e o pescador.
Ovar! Do Pão de Ló tens o sabor.
Ovar! Tantos comboios a chegar,
Trazendo vidas a lutar
Numa aposta de amor.

Ovar! Vou à praia ficar
Junto à duna a sonhar.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de agosto de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/03/homenagem-de-ovar-ao-dr-ramiro-salgado.html



Manuel Colares Pinto
Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2017)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Recordando o “Hino de Ovar”

Em 1952, nas Festas Centená­rias, foi cantada pelo Orfeão de Ovar uma composição musical da autoria do Padre Agostinho de Oliveira Félix, então Pároco de Ovar, construída sobre uma letra de Manuel Colares Pinto, composição essa (na gravura ao lado) que, não tendo a divulga­ção necessária, não alcançou o sucesso que se esperaria, estando praticamente esquecida.


Padre Félix
No fim da década de 80, o Dr. Ramiro Salgado, natural de Torre de Moncorvo e residente em S. João da Madeira, médico cardiologista que durante muitos anos exerceu clínica em Ovar, terra a que ficou indelevelmente ligado por laços afetivos, criou uma canção de nome “Ovar” que a tuna “Os Voluntários de S. João da Madeira” gravou no primeiro dos seus discos, e que passou a ser considerada como que o ex-líbris daquele agrupamento.
Esta canção que muitos consideram como o “Hino de Ovar” tem sido muito utilizada na abertura e no fecho da emissão da Rádio Antena Vareira e antes e no fim dos jogos de futebol da Ovarense.
O autor destas linhas, que colaborou com o inspirado médico na transcrição musical de várias das suas criações, honra-se de ter contribuído para fixar o ritmo desta composição, e, após a sua morte, com o consentimento de sua esposa e de seus filhos, ousou ajustar pequenos detalhes do texto: duna em vez de barra; chegar em vez de passar, e “Ovar tens a varina e o pescador /Ovar do Pão de Ló tens o sabor” (em vez da repetição das duas primeiras linhas do poema), e ainda repe­tindo, no final da canção, as linhas 9 e 10: “Ovar! Vou à praia ficar junto à duna a sonhar”, com o acrescento do nome “Ovar”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/03/homenagem-de-ovar-ao-dr-ramiro-salgado.html



Texto que acompanhou, em 25/07/2016 a canção "Ovar", interpretada por Américo Oliveira e Ana Andrade, com acompanhamento das duas Bandas Filarmónicas de Ovar – Ovarense e Boa União – em homenagem ao Dr. Ramiro Salgado, seu autor, em cerimónia que continuou nos Paços do Concelho com a entrega da Medalha de Mérito Municipal Ouro, a título póstumo.


Clique em PLAY
para ouvir o tema "OVAR"

19.1.16

Ovar num mapa do século XVI

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2015)
TEXTO: Manuel Bernardo

“Em 1999 foi publicada a repro­dução de um fragmento manuscrito de Portugal, desenhado a cores sobre pergaminho, conservado na Real Academia de la Historia de Madrid, que mede 31,5 x 21 cm e foi utilizado para consolidar a capa de um livro, ainda não identificado…”[1].
Suzanne Daveau teve a oportu­nidade de analisar esse documento, publicando sobre ele o estudo “O fragmento de mapa corográfico de Portugal da Real Academia de la Historia de Madrid. Fases de realização e utilização” no n.º 26/27 – 2007-2008 dos Cadernos de Geografia (Coimbra, FLUC).
Uma cópia digital (de 2010) do fragmento do mapa em questão encontra-se disponível on-line, no site da Real Academia de la Historia de Madrid.
Trata-se de um mapa extraor­dinariamente interessante, onde a (então) vila de Ovar vem assinalada, assim como a povoação de Dagarei.

Ovar num mapa do século XVI

Na ficha catalográfica da Real Academia de la Historia de Madrid há textos que atribuem a este docu­mento uma data anterior à de um outro mapa que tem sido, até hoje, considerado como o mais antigo do território continental português – o chamado “Portugal Deitado”, de Fernando Lavro Seco (c. 1560)[2].
Não é essa, no entanto, a opinião muito bem fundamentada de Suzan­ne Daveau, que afirma que se trata de uma cópia do mapa padrão de Portugal, sendo, portanto, posterior (1570?).
Seja como fora, trata-se de uma bela obra cartográfica do século XVI e é, seguramente, uma das primeiras representações de Ovar no mapa de Portugal. Se não a mais antiga, seguramente, a mais bonita.

Pormenor do fragmento do mapa de Portugal do séc. XVI com a referência a Ovar
e a Dagarei (zona sul de Válega), bem como à costa de Matosinhos a Vagos

[1] DAVEAU, Suzanne, O Frag­mento de mapa corográfico de Portu­gal da Real Academia de la Historia de Madrid, Fases de realização e de utilização, in Cadernos de Geografia, n.ºs 26/27 – 2007 – 2008, FLUC, p. 3. A publicação foi feita por Carmen Manso Porto na obra Cartografia Histórica Portuguesa. Catálogo de Manuscritos (siglos XVII-XVIII), Real Academia de la Historia, Madrid, 1999.

[2] Ver “Dagarei e Ovar no primeiro mapa impresso de Portugal” (João Semana, de 15/03/2006), ou ir a http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/10/dagarei-no-primeiro-mapa-impresso-de.html

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de dezembro de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/01/ovar-num-mapa-do-seculo-xvi.html

9.2.12

O transporte da sardinha em Ovar nos anos 30 e 40

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Até surgirem as indústrias em Ovar, na primeira metade do séc. XX, foi a agricultura e a pesca que mais contribuíram para a subsistência da sua população.
Muito se tem falado sobre a actividade piscatória na nossa costa do Furadouro, sabendo-se ter sido importante no princípio do referido século. Em 1906 já laboravam quatro companhas, e a fábrica Varina, sedeada na vila, inaugurara, no ano anterior, uma sucursal naquela praia, devido à grande quantidade de sardinha que ali se pescava.

Eram assim as lotas de sardinha no Furadouro no início do século XX
Nos anos 30 e 40 passei muito tempo no armazém de sardinha do meu avô (mais tarde dos meus tios), convivendo bastante com a azáfama da acamação do peixe em caixas ou em barricas, e via como se efectuava o transporte desse produto para a estação do caminho-de-ferro de Ovar, onde era despachada para várias terras do Douro, Beira Alta, Beira Baixa, Algarve, etc.
Nessa época, teve tanta importância o comércio da sardinha na nossa terra, e dava tanto trabalho à CP, que havia, junto à estação, um despachante exclusivamente destacado para esse serviço, que ele desempenhava numa barraca de madeira.
Cada mercantel possuía umas guias próprias, denominadas “Declaração de Expedição”, timbradas com o nome da firma, as quais, depois de preenchidas, eram entregues aos transportadores juntamente com a mercadoria, para, através delas, se fazerem os respectivos despachos.
Estrada do Furadouro nos anos 30 e 40
Recordo o nome dos homens que, em carros de bois ou carroças puxadas a cavalos, levavam o peixe desde o Furadouro até à Estação, através da velhinha estrada de piso muito degradado e irregular, poeirento no Verão e lamacento no Inverno, ladeada por enormes e frondosos eucaliptos.
Eram eles o Gris, o Pita, o Ti Zé Bolacha, o Ti Azóia (também conhecido por Regedor), o Noruega, o Belmiro, e outros mais que, sendo simultaneamente lavradores, faziam estes carretos como complemento da sua actividade normal.
O ti Bolacha, em cima da sua carroça, segurando as rédeas do cavalo, era uma figura muito engraçada. Sempre que passava por um grupo de jovens, batia com a mão na perna e exclamava: Viva mocidade!... (Muitas vezes recebia da boca dos rapazes, que gostavam de gracejar com ele, algumas respostas brejeiras!...)
Os homens que transportavam a sardinha do Furadouro para a estação do caminho-de-ferro de Ovar ficaram bastante ligados a este comércio, que foi importante para a economia da nossa terra até meados do séc. XX.
Ao recordá-los, estamos a fazer a história dos nossos antepassados e a lembrar aos mais novos uma actividade já extinta, mas que engrandeceu Ovar, levando o seu nome, marcado a fogo na madeira das caixas, através de muitas terras de Portugal.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Dezembro de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 150)


LEIA TAMBÉM: O Carregal no início do século XX – Os mercantéis de Sardinha
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9.6.08

OVAR – do Azulejo, do Pão-de-Ló e do Carnaval

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/1994)
TEXTO: J. Gonçalves Monteiro

Com a devida vénia transcrevemos um interessante artigo publicado no jornal “O Primeiro de Janeiro”, de 10/4/1994.
OVAR, cidade desde 16 de Maio de 1984 e concelho bem mais antigo (Cabanões, desde meados do século XIII devido a algum foral velho?) motivou-nos, desta vez, referências a algumas marcas (e marcos) da sua história e desenvolvimento.
Da legenda “Ovar – cidade do azulejo” virou à caracterização anódina e indistinta de “Ovar, Cidade do Carnaval”. Só que as cidades, as suas marcas e os seus espaços permanecem enquanto consentirmos; carnavais (e outras folias) perduram os anos que quisermos.

Que Zona Histórica?

A delapidação progressiva (pouco a pouco) do azulejo ou de fachadas azulejadas tem sido um facto, assim como a descaracterização de outras referências espaciais (de ambiente e arquitectónicas) que davam significado (e personalidade) à cidade, aos seus recantos mais castiços, aos seus espaços e símbolos do seu relacionamento. Apesar de tudo, ainda permanecem “leituras” (nalguns sítios, até quando?) à história antiga do espaço inconfundível da cidade vareira: monumentos religiosos (muitos), civis (poucos) e vestígios urbanos com algum peso histórico-cultural.
Será pena que os vareiros (agentes económicos, autarquias e associações) não conjuguem esforços na preservação desses sinais (símbolos) do passado comum e reduzem a cidade à imagem vulgar (unifacial) de tantas outras, sem nada que as personalize, pessoalize, identifique e distinga.
Onde está a zona histórica da cidade? Para que espaços tende a ser limitada? São perguntas legítimas (e bem intencionadas) de quem sente (ou pressente) que Ovar, dia a dia, vai perdendo muito daquilo que (há bem poucos anos) a distinguia doutras cidades.
Pão-de-Ló ou Carnaval, no fundo, não constituem essência do património material e espiritual de uma terra. Ovos e qualquer “rainha” mais ou menos despida são “ingredientes” do nosso quotidiano sem história; as marcas inconfundíveis (e restituíveis) do Património ou das Tradições culturais, essas não.

Origens e marcas do desenvolvimento

Uma localidade exige sempre explicação das origens e do nome.
Segundo alguns autores (Miguel de Oliveira, por exemplo) o lugar de Cabanões (Vila Cabanonis), freguesia de S. Cristóvão, foi a primitiva sede de Ovar, embora (terra e nome) com referências comprovadas nos primeiros documentos medievais, relativamente às “terras de Santa Maria” a que pertencia. Cabanões, lugar primitivo de cabanões (pequenos lavradores ou agricultores sem bois nem carros) que viviam em cabanas e, anualmente, pagavam ao “senhor” donatário o foro cabaneiro em produtos da terra. Depois da Reconquista ou pacificação duradoira é natural que os indígenas (autóctones) se tivessem fixado na região erma de que estiveram ausentes durante as sangrentas invasões.
Quanto a Ovar (terra topónimo) as certezas não são tão absolutas relativamente ao primeiro povoado (póvoa de agricultores ou pescadores?) nas proximidades da actual estação de caminho de ferro. Diz a tradição que o nome da sede do concelho (aparece como tal em 1251) derivará de Var ou O Var, formas iniciais (com ou sem artigo definido).
– Onde vais?
– Vou a o Var (ou seja, vou ao lugar de Var).
Do topónimo (Var terá assimilado o artigo) vieram depois os derivados (e gentílicos) varino, ovarino, vareiro e vareira relativamente às pessoas (naturais) e às coisas (provenientes) de Ovar.
Mas a explicação etimológica, rigorosa (e científica) não será assim tão linear e, por isso, deixamo-la aos especialistas que também não chegaram a conclusões unânimes e pacíficas.
(Ver artigos do Dr. A. Almeida Fernandes em recentes artigos no “João Semana”).
A data da instituição (erecção) paroquial também não se sabe com rigor. A primitiva matriz terá sido templo dedicado a S. Donato ou a S. João (séc. X)? Há quem vá mais longe: a um templo do século VIII da nossa era (primitiva matriz de Ovar) no local da actual capela de S. João, recentemente restaurada.
Não foram só terrenos férteis, ria e mar, que proporcionaram o crescimento e a prosperidade de Ovar. As indústrias salineiras e da pesca foram as primeiras que se estabeleceram na região. A posição geográfica (junto à costa e linhas de maré) permitiu a exploração das marinhas e intensas actividades marítimas. Curiosamente as marinhas mais antigas do país localizavam-se (quem diria?) em terra firme da actual freguesia de Válega (atravessada pela EN 109), cujo centro (a sudeste) está a cerca de 5 quilómetros da cabeça do município e a 8 da costa. Hoje as indústrias são outras: múltiplas e diversificadas.
Possuindo cerca de 160 quilómetros quadrados de área territorial (66 são área urbana), distribuídos por oito freguesias (Arada, Cortegaça, Esmoriz, Maceda, Ovar, S. Vicente de Pereira, S. João e Válega), o concelho é limitado pelos municípios de Espinho (a norte), Feira e Oliveira de Azeméis (a nascente), Estarreja (a sul), e Oceano Atlântico (a poente).Na região de turismo da Rota da Luz (Costa de Prata), região predominantemente verde com efectiva ligação ao mar, os braços da ria que sobe do sul (Aveiro) se dão fertilidade aos campos, conferem rara beleza às várzeas a perder de vista, onde a água (omnipresente) é elemento inseparável da topografia e da paisagem.

Actividade económica

A agricultura intensiva (agropecuária), na generalidade mecanizada, foi durante muitos anos a principal fonte de riqueza de grande parte da população vareira, mantendo pleno emprego, sobretudo mão-de-obra feminina. Aliás, a mulher é subsidiária e contribuinte importante da receita (ou economia) doméstica, enquanto o chefe de família se ocupa no comércio ou indústria (por conta própria ou de outrem) ou em subsectores económicos ou produtivos dependentes do primário. A produção leiteira é das mais importantes do país e graças à abundância (e diversidade) de forraginosas (que abastecem significativos efectivos pecuários) a produção de carne de bovino é notável e de excelente qualidade. 

Uma cena rural em Ovar
Os níveis de emprego são animadores dada a heterogeneidade de actividade (e unidades) produtivas, desde os lacticínios à moagem, descasque de arroz, e madeiras (exploração florestal de Esmoriz ao Furadouro). O sector industrial (pesado) instalou-se há cerca de 30 anos (fábrica de aços, motores eléctricos, cordoaria e alcatifas (Esmoriz) e montagem de veículos automóveis (Arada). As zonas industriais (Ovar e Esmoriz) concentram mais unidades do seu tecido produtivo de que destacamos as alimentares, rações, papel, confecções e pré-fabricados. O secundário comandava (1980) os activos com cerca de 60 por cento e, em segundo lugar, o comércio e serviços com 30 por cento.

Rodo e ferrovias – motores do progresso

A estrada nacional 109 (Porto-Aveiro) e a linha de caminho de ferro com estações (sede, Cortegaça e Esmoriz) e apeadeiros (Maceda e Válega) foram grandes motores do crescimento e desenvolvimento da região. A via circular ou variante da referida EN (com passagem superior sobre a linha férrea) veio solucionar substancialmente estrangulamentos de tráfego, sobretudo no acesso àquela rodovia e vice-versa. A auto-estrada (A1) Porto-Lisboa tem nó de ligação à 109, colocando Ovar a cerca de 40 quilómetros do Porto e a 35 da capital do distrito (Aveiro).
O moderno IC1, já construído desde Arada a Espinho, é outro elemento de progresso.
A restante rede viária (municipal) pode considerar-se razoável.

Património (vareiro) concelhio

Para além das paisagens, sobretudo das praias do Areinho, Furadouro, Esmoriz (e sua Barrinha) e Cortegaça (património ambiental), o cais da Ribeira (outrora exportador de sal), e o Buçaquinho (Cortegaça), o acervo monumental (construído) da cidade tem significativa expressão, sobretudo religiosa.
A Igreja Matriz (séc. XVII, remodelada no seguinte) é de três naves e possui boas talhas de diferentes estilos. Admire-se o presépio de Teixeira Lopes (pai).
As capelas dos Passos (distribuídas pela cidade) são dos meados do século XVIII e constituem belo e rico conjunto de cinco graciosos “nichos” que encerram retábulos da Paixão, e uma capela (do Pretório) com ricas talhas barrocas.


Capela da Sr.ª da Graça (fins do século passado), construída sobre alicerces doutra, aproveitou o arco triunfal (e arcos colaterais): o retábulo maior é do último terço de seiscentos. As capelas das Almas e de Santo António merecem também referência.
Quanto a arquitectura civil relevem-se: fachada do edifício dos Paços do Concelho (estrutura neoclássica); Chafariz de Neptuno (Largo Família Soares Pinto) e a Rua Cândido dos Reis com belas e expressivas fachadas. Os painéis de azulejos etnográficos da estação do caminho-de-ferro (metade dos quais no Museu de Ovar), completam esta mostra do roteiro da cidade que conservou a casa onde viveu Júlio Dinis.
O Museu Etnográfico (não municipal, e de iniciativa particular) merece instalações condignas e adequadas.
Das artes tradicionais subsistem tanoaria (Esmoriz) e pirotecnia (Arada); na gastronomia (arte por excelência de bom gosto) o tradicional Pão-de-Ló, regueifa doce, bolo com canela e padas (pão de trigo).

Colectividades culturais, desportivas e recreativas

É o primeiro concelho do distrito em Associações, o que equivale dizer da significativa actividade cultural, (desportiva e recreativa), da juventude vareira. Vários ranchos folclóricos (com nomes como As Tricanas e Os Moliceiros de Ovar), Orfeão de Ovar (1921), Banda Filarmónica Ovarense (1811) e Sociedade Musical Boa União (1889): Associação Desportiva Ovarense e seu honroso historial desde 1921, sobretudo a nível da secção de basquetebol, e finalmente o Esmoriz Ginásio Clube, um dos mais prestigiados do país na modalidade de voleibol!

Festas e Romarias


Os Reis (com suas Trupes), que pretendem ser continuidade da tradição da quadra natalícia, têm lugar de 2 a 6 de Janeiro, pelas ruas da cidade; o Carnaval de Ovar é cartaz sobejamente conhecido em todo o país, contando com ampla participação popular, as festividades religiosas da Semana Santa, particularmente concorridas e participadas pelos fiéis, destacam-se a Procissão dos Terceiros (2.º domingo da Quaresma, com tradições da segunda metade do séc. XVIII, incorporando 14 andores), a dos Passos (4.º domingo da Quaresma), e a Procissão dos Fogaréus na noite de quinta-feira santa (com matracas e fogaréus), que remontam à mesma época; romaria à Sr.ª de Entreáguas, a 2 de Fevereiro; festas de Santo António, a 13 de Junho; S. Lázaro (Arada), domingo anterior aos Ramos; Sr.ª do Desterro (mesma localidade, no domingo e segunda-feira de Pascoela); Sr.ª da Cardia (Cimo de Vila, último domingo de Maio); Srª da Nazaré (Festas do Mar), em Cortegaça (1.º domingo de Setembro); Sr.ª do Amparo (Válega), 15 de Agosto, com a participação dos emigrantes; Sr.ª da Boa Viagem (Torrão do Lameiro), muito concorrida, no domingo seguinte a 26 de Agosto; Sr.ª das Febres (Gondesende-Esmoriz), 1.º domingo de Julho, e Santa Catarina (Ribeira), finais de Novembro, a encerrar o ciclo das tomarias da região.


Fotos: jornalista Fernando Pinto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JULHO DE 1994)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/06/ovar-do-azulejo-do-po-de-l-e-do.html

2.6.08

“Enterraram o Senhor na Areia”…

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/1982)
TEXTO: Albano de Paiva Alferes

A maior afronta que se pode arremessar à fronte de um bom e legítimo vareiro é acusar os seus antepassados de terem enterrado o Senhor na areia, como se ouve, para aí, a cada passo, nos domínios da troça ou mesmo do insulto, como se os antigos vareiros, num movimento neo-judaico, fossem capazes de cometer tão hediondo crime, o que iria, além do mais, brigar com os pergaminhos e as gloriosas tradições cristãs do Povo Vareiro. Junot sabendo que Portugal não tinha possibilidades de realizar essa importância astronómica, e muito solícito em assuntos de pilhagens publicou, logo, ou seja em 1 de Fevereiro de 1808, um decreto determinando a recolha, no prazo de 15 dias, na Casa da Moeda, interpostas as recebedorias das décimas “de todo o ouro e prata das igrejas, capelas e confrarias do país, exceptuando apenas “as peças necessárias à decência do culto”.

A expressão "Enterraram o Senhor na areia" poderá referir-se ao enterramento, no  interior da
Capela do Calvário, da imagem de Cristo morto que seguia dentro do esquife
na Procissão do "Enterro do Senhor", em Sexta-feira Santa (MPB)
Deve ter, no entanto, uma origem este ultraje à memória vareira, e assim, eu, apegado ao Padre Oliveira Pinto, insigne investigador, não tenho o menor receio em afirmar que a origem em questão se topa nas invasões francesas e se prende com as mesmas.
Senão vejamos: Napoleão Bonaparte, encontrando-se no Palácio de Milão, em 3 de Dezembro de 1807, em plena invasão francesa, decreta, dali, um imposto de guerra de cem milhões de francos sobre a Nação Portuguesa “para resgate da sua propriedade particular”;
Nesta emergência, houve algumas pessoas e entidades que esconderam muitas alfaias de culto, enterrando-as. Consta que, na vizinha freguesia de Souto, estiveram enterrados, durante as invasões, um cálice “ricamente trabalhado” pertença da Capela de Tarei, uma píxide de estilo rococó, e uma custódia de certo valor, pertencentes à Igreja Paroquial, e ainda hoje existentes.
Ora é da tradição que os-de-Ovar enterraram bastantes dessas alfaias, entre as quais algumas cruzes paroquiais com o Cristo Crucificado e daqui teria nascido o vexame imputado aos Vareiros de terem “enterrado o Senhor na areia”. É curioso lembrar a extensão deste “desvio”; só da freguesia de Souto foram para não mais voltar: seis tocheiros, seis varas de pálio, um turíbulo com naveta, um lampadário, uma cruz paroquial, e uma vara de juiz, tudo em prata.
Com todas estas peças de prata e ouro recolhidas, Junot carregou dois barcos que lá foram pela barra fora…
É ainda curioso e triste lembrar que muitas pratas saídas das freguesias não chegaram às “recebedorias das décimas”, ficaram pelo caminho…

Alguns de cá estavam a trabalhar em sintonia com os de lá…
Modalidades da fraqueza humana.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE ABRIL DE 1977) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/06/enterraram-o-senhor-na-areia-texto.html

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Ovar: “Enterraram o Senhor na Areia"
A verdadeira interpretação

Lê-se no Livro de Contas de 1758 da Irmandade dos Passos: "De abrir e tapar cova na sacristia de S. Pedro para meter o caixão em Sexta-Feira Santa, 540 reis". (Alberto Sousa Lamy, Datas da História de Ovar, pág. 58)


Imagem que sai no esquife, em Sexta-Feira Santa, na Procissão do Enterro
 do Senhor, e que outrora era depositada numa cova ("na areia")
na sacristia da Capela do Calvário (S. Pedro)

24.5.08

Duriense em terras vareiras

Homenagem a Almeida Fernandes

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/1994)
TEXTO: J. Gonçalves Monteiro

A. de Almeida Fernandes
“João Semana” tem o prazer de apresentar um artigo de J. Gonçalves Monteiro, da Régua, autor de uma série de obras monográficas e de dois livros de poemas (“Palavras do Avesso” – Braga, 1969 e “Verde é o Sangue”, Porto, 1991), e dedicado colaborador da imprensa regional.
Ao enviar-nos o saboroso “apontamento de viagem” que publicamos, confessa-se «apaixonado da região vareira e defensor da geminação (efectuada) entre OVAR e a RÉGUA, na linha de pensamento do saudoso Amigo João de Araújo Correia», linha essa que retomou na imprensa local da Régua em 1990 e de que o “João Semana” se fez eco (n.os de 1/2/90 e 1/3/90).
Com o pedido de desculpas a J. Gonçalves Monteiro e à pessoa a seguir visada, mas achando tratar-se de uma referência extremamente sincera e justa – o autor chama-lhe “desabafo” –, não podemos deixar de transcrever esta preciosa achega relativa a um dos nossos mais ilustres e fiéis colunistas, achega que inteiramente subscrevemos.


“Tenho acompanhado com o maior interesse a colaboração dum Amigo e grande intelectual que muito admiro e respeito: o Dr. Armando de Almeida Fernandes, um dos maiores medievalistas da Península, infelizmente pouco conhecido (e avaliado) no seu (nosso) País. Um dia ser-lhe-ão feitas todas as homenagens (e elogios) que merece. Até o município de Tarouca (tenho a certeza) não esquecerá um monumento (busto ou estátua).
Infelizmente, é assim neste país. Os grandes homens (e intelectuais) só são homenageados depois de morrerem”.
No último Verão escolhi Ovar para retemperar energias.
Apaixonado da terra portuguesa ainda não compreendi porque compatriotas preferem veranear no Algarve e, muito menos, no estrangeiro. O País é pequeno, mas singularmente belo. No século das velocidades (idade da luz) preferimos as vias rápidas, deixando antigos itinerários que, se oferecem várias incomodidades permitem desligar o motor, sair do carro, deixar os olhos e a alma embriagarem-se de paisagens saudáveis, sempre insólitas, e fotografar aquilo que faz parte da identidade e memória de um Povo.
Ovar (cidade e região) esteve ligada ao meu imaginário desde criança, apesar da relativa distância em relação ao espaço geográfico onde nasci. O rio Douro era via de comunicação privilegiada entre Ovar e o vale do mesmo nome do grande rio ibérico. Costa atlântica e barra do Douro eram (nesse tempo) elos de ligação entre Ovar (e suas realidades) e o nosso convívio.

Quem pode esquecer a saborosa sardinha escochada, de barrica, sardinha que sabia a mar quando o mar era mar. Mar daqui a pouco cemitério radioactivo da nossa incúria ou da civilização da nossa morte.
Pois bem. O ano passado fui conhecer melhor Ovar, pela estrada nacional 109, um hino à paisagem e, em certos sítios, ao mar. Não sei como era Ovar há décadas atrás, mas adivinha-se, em certas ruas e recantos com carácter e nalguns restos de outros tempos. Da arquitectura vareira pouco ou quase nada restará, a não ser molduras de granito em casas humildes, fachadas do princípio do século, varandas, ferros forjados e platibandas de cerâmica em residências de dois pisos, volumetrias humanizadas, distintas, eruditas. Ainda pude admirar (e fotografar) graciosos frisos de arte nova em azulejos policromos. Outra arte, outros gostos.

Homem e mulher d'Ovar
 
Os templos (igrejas e capelas), frontarias e interiores, evidenciam a religiosidade da nossa gente e a nostalgia (e tradição) da cerâmica. Nalguns enxertos ou remodelações, há-os sem nenhum carácter nem a-propósito, nem beleza. A introdução de materiais exóticos que nada tenham a ver com a tradição local (por exemplo, mármores) devem ser banidos dos interiores dos templos vareiros.Mas encontrei outro tipo de cultura com sabor (e saber) de outros tempos: a gastronomia local, património multissecular que se apoiou, essencialmente, nos recursos do mar. Estou a falar de caldeiradas de peixe. Enguias, quase só por encomenda.Da doçaria tradicional surpreendeu-me a requintada qualidade do pão-de-ló de Ovar, diferente na forma e sabor dos seus congéneres mais a norte (Margaride, no concelho de Felgueiras, por exemplo). Ovos e açúcar (gemas moles) e um certo segredo fazem a diferença. Até a embalagem graciosa parece torná-lo mais suave e macio.
O pão de milho é excelente, padas a sair do forno, bolo com cheiro e sabor a canela, e regueifas doces são especialidades típicas das padarias da região que desconhecia. Suculenta e pastoril, a reflectir recursos da agropecuária, a deliciosa carne de vitela não fica a dever nada à de Lafões.
Ovar é uma região encantadora, de gente extremamente afável.
Só não gostei dos foguetes (e morteiros) às 5 ou 6 horas da manhã do próprio dia das romarias. Pelos vistos, é hábito desta região.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE MARÇO DE 1994)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/05/duriense-em-terras-vareiras-texto-j.html