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1.3.19

Aron Hakodesh de São Vicente de Pereira

Mais do que história, o respeito

Jornal JOÃO SEMANA (01/03 e 01/04 de 2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Mais do que a história de um monumento que, pela sua singularidade arquitetónica e cultu­ral, se apresta a entrar no acervo do património nacional, pretendemos com este trabalho pôr em relevo as providenciais circunstâncias que permitiram conservar intacto, ao longo de cinco séculos, o Aron Hakodesh de São Vicente de Pereira e sublinhar o procedimento exemplar da família Martins, que desde o início do século XIX manteve devoluta aquela velha casa, merecendo especial menção os seus últimos proprietários, Padre Juiz Domingos Martins de Oliveira e Padre António de Oliveira Martins, os quais, conhecendo e respeitando a história comum do povo hebreu e do povo cristão, garantiram a preservação desse património até aos nossos dias [1].

Foi na década de 80 que passei a conhecer o P.e António Martins (27/01/1921-26/04/1989), regressado de Moçambique, que celebrava missa aos domingos, na Capela de Santo António, em Ovar. Residindo em S. Vicente de Pereira, perto da capela de São Geraldo, na casa assobradada do Rexio de Cássemes, que fora de seu tio, P.e Juiz Domingos Martins de Oliveira (17/05/1890-13704/1951), e que pertencera a seus ascendentes maternos desde o casamento, em 1816, de Manuel Martins de Oliveira (†1862), da Rua Nova de Válega, com Ana Maria Gomes da Conceição (1798-1879), esta possivelmente até aí domiciliada na velha casa térrea de origem judaica que se situa do outro lado da rua[2].

Registo de uma atafona
No quintal dessa antiquíssi­ma casa de lavoura, desabitada há pelo menos dois séculos, e onde, até há pouco se criavam galinhas e ovelhas, e onde o P.e António mantinha algumas col­meias, das quais me abastecia de mel, tive a fortuna de observar, nos anos oitenta, uma atafona desativada, com a nora e o res­petivo moinho em estado de de­gradação, o que me despertou curiosidade e me levou a falar dela ao pelouro da Cultura mu­nicipal, na pessoa da Dr.ª Ângela Castro, que levámos, posterior­mente, a visitar o local, tal como fizemos com outras pessoas ami­gas, entre as quais o P.e António de Pinho Nunes, colaborador do nosso jornal[3].

Registo fotográfico de um armário
Entretanto, ainda antes da morte do P.e António (1989), ao vasculhar um recanto da velha casa, algo de imprevisto se nos deparou: um estranho armário de pedra embutido na parede de uma pequena sala, estrutura que registei fotograficamente e que levou muito tempo a interpretar. Um lugar de oração? Um espe­cioso altar cristão? (Havia sacer­dotes na família, e até ouvi dizer que estiveram ali recolhidos sa­cerdotes fugidos da guerra civil de Espanha…)
Cheguei a interrogar-me se não seria um “altar judeu”. Mas como seria isso possível em terra profundamente católica? E nem a fotografia, que eu olhava oca­sionalmente na janela do álbum em que lhe dei destaque, respon­dia às minhas interpelações… E nas ocasionais pesquisas que fazia em S. Vicente sempre ou­via respostas negativas acerca da existência, ali, de famílias de origem judaica.
Só Lauro Santos, da família Martins, me deu o lamiré de que duas das suas tias lhe falaram de terem habitado ali “famílias judias”[4], acrescentando recen­temente (em 23 de janeiro de 2019), que também seu pai, Ho­rácio Santos, lhe falou nisso[5]. E, mais recentemente ainda, o Dr. Álvaro Ribeiro, de Maceda, deu-me a saber que o P.e Antó­nio, quando ambos frequenta­ram o Seminário do Porto, se referiu à presença de símbolos hebraicos na velha casa da famí­lia, e que conviveu, no Furadou­ro, com raparigas de S. Vicente de quem se dizia poderem ter ligação com gente judaica.
Penso que o silêncio que se mantinha sobre essa possível ligação genética explicar-se-ia por receio de reação antissemita.
Até por isso merece reco­nhecimento a atitude reservada e positiva dos dois sacerdotes Martins em relação àquele “ar­mário sagrado” que fotografá­mos, e que eles viam como sinal religioso a manter como relicá­rio da fé judaico-cristã dos re­motos moradores da casa, sendo ou não ascendentes da sua pró­pria família[6].

O Aron Hakodesh (armário da Lei)

Vários anos correram. Em 1989, quando da morte do Padre António, não deixámos de estimu­lar as autarquias locais a adquiri­rem o prédio, que pertencia, agora, a D. Matilde Trigo, para servir de Museu da freguesia. Nessa altura, como se lê na revista “Reis” de 1997, a nossa atenção centrava-se ainda na atafona, alertando para, “através de um protocolo, a restau­rarem ou a reconstruirem em local onde possa ser visitada pelo públi­co”[7] (O re­tardamento da nossa interven­ção escrita em relação com o “nicho de pe­dra de configu­ração estranha daquela secular moradia” de­veu-se ao facto de então não termos perce­bido ainda a sua origem e a sua verdadeira função.)
Por 2003, um jovem estudante de Arqui­tetura de S. Vicente de Pereira, Paulo de Carvalho, apresentou como estudo de curso o projeto de um Centro Interpretativo da lavoura a implantar ali, apre­sentando-o ao presidente da Junta de Freguesia, Filipe Mes­quita, como proposta de uma “Quinta Pedagógica”, tendo em conta a casa secular e os respe­tivos anexos, incluindo, a nas­cente, uma casa de arrumos, de muito recente construção (séc. XIX–XX), não fazendo alusão ao pentassecular “armário” da pequena sala[8].
Filipe Mesquita, a quem, por diversas vezes, falara da velha casa como ideal para se tornar es­paço museológico da freguesia, acabou por apresentar à Câmara a proposta do jovem arquiteto, mas sem resultado imediato.

Altar judaico (Sabugal)
FOTO de Rui Mendez ("Olhares/2008")
A confirmação do achado
Em abril/maio de 2012, na re­dação deste quinzenário vareiro, ao preparar o texto "Pereira" da autoria do nosso colaborador e ilustre medievalista Dr. Armando de Almeida Fernandes (rubrica “Algumas Notas Toponímicas Ovarenses”, no "João Semana" de 01/11/1993), para o reprodu­zir na internet, no sítio “Artigos do Jornal João Semana”, algo de surpreendente aconteceu. Pedin­do o diretor-adjunto do jornal, Dr. Fernando Pinto, algumas fo­tografias para ilustrar o tex­to, uma delas, precisamente aquela que tínhamos ex­posto na capa do álbum, fez ressaltar aos meus olhos, do rebordo alto da janela que a emol­durava, a ima­gem da cruz que se manti­nha no alto do armário, em­butida na parede, levando-me, de imediato, a exclamar: – “Isto não pode ser um armário. Só pode ser um altar judaico, do tempo dos “cristãos novos”[9].
Consultando a Net e buscando o sítio “Olhares”, onde Fernando Pinto partilha o seu trabalho de fotografia, logo nos apercebemos da presença de um Ekhal judaico há pouco descoberto (na foto). Estava confirmada a dedução que desde há muito vínhamos fazen­do sobre o “estranho armário” de São Vicente de Pereira.

Na Rota do Judaísmo
Fechada uma etapa nesta aventura, outra se abria. Para além de um texto elucidativo a publicar na edição do “João Se­mana” de 15/06/2012, achámos prudente ouvir pessoas ligadas às práticas judaicas, para conhe­cimento do nosso achado e para garantir o maior rigor na sua transmissão escrita.
E foi mesmo no serão dessa noite (às 0h16 do dia 5 de junho de 2012) que seguiu o primei­ro e-mail informativo, enviado para a Sinagoga de Lisboa pelo jornalista Fernando Pinto.
Dias depois, por dever ético e cívico, demos conhecimen­to destes factos ao setor cultu­ral do Município, na pessoa do Técnico Superior da Câmara Municipal de Ovar Dr. António França, que se congratulou com a notícia, assumindo a tarefa de seguir os trâmites sobre achados patrimoniais, ações a que nos re­feriremos no próximo número.

Notas:
[1] Em 1498 o Rei D. Manuel I promulgou a lei que impunha a ex­pulsão dos judeus.
[2] Maria Gomes da Conceição era filha de Manuel Gomes Rodri­gues, de Cássemes, e de Maria Joana da Conceição (1746–1833), natural de S. Tiago de Riba Ul.
[3] Jornal "João Semana" de 15/09/1994: Património invulgar ‒ Uma atafona em São Vicente de Pereira".
[4] Revista "Reis" 2014, Ovar.
[5] "João Semana”, 01/02/2019.
[6] Terá a família Martins, de Válega, pelo casamento com Ana Maria Gomes da Conceição en­troncado com sangue hebreu? Ou será que a casa entra na família por compra?
[7] Revista “Reis” Ovar, 1997, pág. 48, “SOS por uma atafona exemplar único na região”.
[8] Nunca ali habitaram os dois sacerdotes Martins, que sempre re­sidiram na casa assobradada, da fa­mília, e que usavam a aquele espaço apenas como casa de arrumos.
[9] Lei de D. Manuel I, de 598.

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(Continuação do texto de 1 de março de 2019)


Às voltas com o Ekhal
À comunicação expedida de Ovar na madrugada de 5 de junho de 2012, via internet, pelo jornalista Fernando Pinto, sobre o Ekhal de São Vicente de Pereira, respondeu o rabino de Lisboa Eliezer Shai com uma sentença pronta e radical, mas não tão negativa como parece, atendendo ao espanto que lhe terá causado a referida informação:
"No judaísmo ou seja nas sina­gogas, não há altares, a única coi­sa que poderia ser, vendo que está pegado a uma parede, seria um Ekhal, o armário onde se guardam os rolos da Torá, mas dado o tama­nho não pode ser tal coisa. Portan­to, em resumo, não é um vestígio judaico"[1].
A posterior inserção do tex­to "Culto judaico em S. Vicente de Pereira?" na internet, no sítio "Artigos do jornal João Semana", foi suficiente para, pouco depois, recebermos do mesmo rabino a opinião de que provavelmente se tratava de um Ekhal.
À Câmara, na pessoa de Antó­nio França, caberia iniciar o proces­so de reconhecimento oficial e de classificação científica deste penta­centenário Aron Akodesh (Ekhal).

Início do processo
Associações judaicas em Por­tugal entenderam por bem incluir a notícia do achado no programa do 2.º Ciclo de Cultura Judaica reali­zado em Tomar e em Belmonte, em 19 e 20 de setembro de 2012, tendo o técnico da câmara apresentado algumas fotos do Ekhal e do edifí­cio e estruturas envolventes.
Entretanto, para a certificação e classificação deste património, a Câmara fez convites a peritos em arqueologia e história para visita­rem e se debruçarem sobre a es­trutura da habitação, com o quintal e a atafona, entre os quais Gabriel Rocha Pereira, Mestre em arqueo­logia, e Elvira Mea, docente uni­versitária.
O referido texto[2], publicado no sítio "Artigos do jornal João Semana" abriu uma inesperada cla­reira no horizonte do património judaico português.
Jorge Martins, autor da obra "Portugal e os Judeus", afirmou em 2 de outubro de 2012:
"Parabéns. Fizeram um ótimo trabalho. Essa casa (esse conjun­to) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-lo, dignificá-lo e dá-lo a conhecer. Inclusivamente contactar com a Rede de Judia­rias (se a Câmara assim o enten­der)"[3].
De José Levy Domingos, da Comunidade Judaica de Belmonte, a quem também pedíramos opinião sobre o assunto, recebemos a 20 de novembro de 2012, após o seu re­gresso do Brasil, esta agradável e pedagógica missiva:
‘Caro padre Manuel Pires Shalom Uvracha!!
(…) Depois de analisar pelas fotos, esperando em breve visitar no local este EKHAL (em sefar­dita, os Askenazim dizem ARON­-AH-KODESH) que significa "pa­lácio", numa alusão ao templo de Salomão, e depois de meus conhe­cimentos nesta área por tradição familiar judaica minha e pelos si­nais que encontro, NÃO TENHO DÚVIDAS DE QUE SE TRATA DE UM HEKHAL.
É importante dizer que este tipo de armários onde era depositado o rolo da Torah existia também em casas de famílias e aqui muitas ve­zes era o local das "Torinhas" que tantas vezes saiam em procissão, sobretudo em ocasiões festivas.
É importante referir que estes armários teriam uma função de culto familiar, aliás o judaísmo é sobretudo uma religião familiar na sua essência. Foi isso que preser­vou as nossas famílias resistentes e descendentes dos judeus da In­quisição e de outras “inquisições” quantas vezes políticas, sociais e económicas.
O Ekhal habitualmente divide­-se em duas partes, a superior, onde era colocado o Rolo ou o Livro da Lei, ladeado ou não pela vela. Ao lado poderia existir uma mísula como acontece nos casos de Freixo de Espada à Cinta ou Castelo de Vide. Na parte inferior seriam colocados os elementos li­túrgicos judaicos.
A cruz que encima o armário nada mais é do que a expressiva demonstração de uma cristianiza­ção forçada naturalmente’.
Também Jorge Patrão, Secretá­rio Geral das Judiarias de Portugal, nos felicitou, em 4 de novembro de 2012, por "esta fantástica desco­berta".

A ação da Câmara
A primeira das personalidades convidadas pela Câmara Municipal a deslocar-se ao local foi a inves­tigadora da Universidade do Porto Elvira Mea, que esteve em São Vi­cente de Pereira em 26 de outubro, tendo o "João Semana" registado esta visita em 1 de novembro se­guinte, com o texto "Confirmação do culto judaico em S. Vicente de Pereira[4] com registos fotográfi­cos, e em vídeo, do jornalista Fer­nando Pinto.



A investigadora voltaria ao lo­cal em 16/11 acompanhada pelo rabino Daniel Litvak, do Porto, que afirmou, numa atitude discreta, a importância do Ekhal.
Elvira Mea aconselhou um aprofundado estudo arqueológico e a pesquisa das fontes documentais das propriedades e seus donos, e em 20/11 enviou-nos cópia do seu "Parecer sobre o Ekhal do lugar de S. Geraldo, na freguesia de São Vi­cente de Pereira, Ovar".
Em 9 de novembro, o arqueólo­go Gabriel Rocha Pereira entregou também à Câmara o seu "Informe Técnico-científico".
Falecida no verão de 2013 a proprietária, D. Matilde Trigo, perguntava o jornal "João Sema­na" em 1/10 desse ano: "Altar judaico em S. Vicente de Pereira – Por que se espera?", pedindo a classificação oficial deste Ekhal, único na nossa região, citando Jorge Martins, atrás referido, e lembrando que os atuais proprie­tários estão sensíveis ao desejo de preservar este original espólio, de acordo com as normas que vigo­ram nesta matéria, esperando que "sejam iniciadas as diligências in­dispensáveis para o levantamento arqueológico recomendado em 26/10/2012, por Elvira Mea".


Casa afidalgada, no Porto da Igreja, S. Vicente de Pereira, adquirida a uma rica família de origem judaica pelo vicentino Elias Correia de Azevedo (dos Calrotes), casado com uma judia alemã, cuja família foi vítima dos nazis

Pesquisar mais fundo
Em 01/01/2014, o "João Sema­na" publica um texto do Dr. Gui­lherme Godgel de Oliveira Santos sobre este tema, em que o nosso distinto colaborador, com ligações familiares a S. Vicente de Pereira, afirma ser "um pouco enigmático, porque não há tradição nem no­tícia de famílias de judeus ou de cristãos-novos que houvessem vivi­do em S. Vicente. Além disso, esta região não é das que mais atraíram os seguidores da Tora"[5].
Em 28 de agosto de 2014, a Câmara Municipal de Ovar pedia à D.C. Centro parecer favorável so­bre a eventual classificação, e em reunião camarária de 18/12/2014 foi deliberado abrir processo de classificação não só do conjunto que integra o Aron Hakodesh ou Ekhal[6] e o espaço restante (con­tendo a atafona).
Em 23/02/2015, na visita de Isabel Policarpo Gertrudes Branco, técnica na área do Património, foi feita uma primeira inventariação dos elementos do edificado a clas­sificar como de interesse munici­pal ou público. Participaram nesta visita os elementos da comissão técnica apresentada pela Câmara, a saber: Ana Paula Reis, chefe da Divisão da Cultura, Raquel Elvas técnica da Divisão da Cultura, e António França, Técnico Superior, acompanhados pelo P.e Manuel Pires Bastos, pároco de Ovar e li­cenciado em História, e por Gabriel Pereira, Mestre em Arqueologia.
Desta visita foi publicada a se­guinte notícia no "João Semana":
"O edifício de propriedade particular, é modesto, mas rico em história. Desabitado há mais de um século[7], degrada-se a olhos vistos, com telhados abatidos. A mesma sala de culto, considerada um exemplar excecional do crip­tojudaísmo, merece – exige – uma rápida intervenção"[8].
A proposta de classificação do Haron como de Interesse Público é aceite em 5 de maio de 2015[9], enquanto a do restante espaço foi arquivada[10].


Notas:
[1] Internet, 05/06/12 (12h52).
[2] "João Semana", 15/06/2012.
[3] http://portugal e os judeus. blogspot.pt
[4] Ver http://artigosjornaljo­aosemana.blogspot.com/2012/06/culto-judaico-em-s-vicente-de-pe­reira.html.
[5] Pesquisas por nós avança­das nos livros de assentos paro­quiais de S. Vicente, mostram-nos haver essas ligações desde finais do século XVI, com topónimos de caráter bíblico.
[6] Ofício de 09/01/2015.
[7] É possível que a partir do século XVII o culto judaico fosse ali diminuindo, por as novas gera­ções judaicas se terem integrado na vida católica da freguesia.
[8] "João Semana", 01/04/2015.
[9] Edital 383/2015.
[10] Despacho do Diretor Geral da DCDC, de 12/10/2016.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março e 1 de abril de 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/03/aron-hakodesh-de-sao-vicente-de-pereira.html

2.2.19

S. Vicente de Pereira – Famílias do Rexio de Cássemes

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Ao consultarmos os livros paroquiais de S. Vicente de Pereira, iniciados em 1589, fomo-nos apercebendo da importância histórica e linguística de alguns topónimos da freguesia, bem como da singularidade das suas famílias. Saber-se que na fidalguia portuguesa se apontam os Azevedos como originários do lugar de Azevedo, desta freguesia, que na Idade Média se chegou a chamar Pereira de Susã (isto é, Pereira de Cima, por oposição geográfica a Pereira Jusã, ou Pereira de Baixo, em Válega)?

A entrada para o Rexio, a partir da Rua Padre Juiz Domingos Martins de Oliveira

Outro lugar de destaque é Cássemes, que nos séculos XVII e XVIII nos aparece com várias designações aditivas: Rexio de Cássemes, Barreiras de Cássemes (1731), Lagoa de Cássemes (“lugar da Lagoa”), Relva do lugar de Cássemes (1731), Termo de Cássemes (1747) e Lavoura de Cássemes (1842).
No Rexio situa-se a casa que foi dos Alves (até cerca de 1820?) e, depois dos Martins, e que, antes, foi residência de uma família judaica.

Rexio (ou Rossio?) de Cássemes
Rossio significa logradouro público. (Em Aveiro foi recinto de feiras, e em Lisboa transformou-se num centro cosmopolita).
O Rexio

Rexio significa terreno lamacento. Dado serem essas as caraterísticas do local a norte e a nascente da rua com esse nome (embora ali erradamente escrito "Rochio"), deveria ser esse o espaço partilhado por algumas famílias locais – Vaz, Fernandes, Alves, Gomes, Martins, Herdeiro –, e onde, a nascente, fica a Capela de São Geraldo, implantada por Rafael Valente, em 1656, e logo na estrada, para norte, Cássemes, Relvas e Torre.
Saída do Rexio

Vaz/Alves (Álvares)
O mais antigo Vaz por nós encontrado no “Rexio” é Domingos Vaz, casado com Catarina Jorge, pais de Lourenço Vaz, que viria a casar com Paula Álvares[1].
Deste casal viria a nascer Manuel Alves, que casou com Maria Francisca da Cruz[2], de Cássemes, sendo seus filhos António da Cruz (casado, em 01/01/1784, com Maria Rodrigues de Jesus[3], residente no Rocio de Cássemes e Maria Alves da Cruz, casada em primeiras núpcias com António Rodrigues dos Santos, e, depois de viúva, com José Joaquim Gomes Leite, residentes em “S. Geraldo”)[4].

Herdeiros/Fernandes
Esperança Maria, filha de António Vaz e de Maria Fernandes, do Rocio, casou em 18/01/1738 com Diogo de Oliveira, tendo sua neta Ana Maria de Oliveira[5] casada com João Francisco Herdeiro, do Rocio[6].
No Rexio moraram João António e Domingas Fernandes, bem como seu filho António Fernandes, casado com Sebastiana Fernandes, de Cássemes, bem como o filho deste casal, António Rodrigues dos Santos († 1790), e sua esposa, Maria Alves da Cruz[7], pais do Sargento Manuel Rodrigues da Cruz, que viria a casar com Ana Maria da Luz de Jesus, filha de José Fernando Morgado e de Maria Rosa, da Devesa.

Gomes
Manuel Gomes e Maria Luís, do Rocio de Cássemes, foram pais de Mariana Gomes, casada no lugar do Outeiro com Manuel Fernandes[8], e avós maternos de Rosa Maria, que viria a casar, em 30/11/1781, com Manuel Álvares, filho de Manuel Alves e de Maria Francisca da Cruz, de “Cássemes”, atrás referidos.
Maria Luís, filha de Manuel Gomes e de Maria Luís, do Rocio, casou, em 30/04/1741, com Mateus Gomes, filho de António Gomes e de Maria Gomes, de Cássemes.

Martins
P.e Juiz Domingos Martins de Oliveira, que 
foi proprietário da casa do Aron Hakodesh 
(† 13/05/1951, com 61 anos)
Manuel Martins de Oliveira, filho de Domingos Martins e de Teresa Maria de Oliveira, da Rua Nova, Válega, veio casar em S. Vicente com Ana Maria Gomes da Conceição, do Rocio de Cássemes[9].
Tiveram a seguinte geração: Maria Gomes da Conceição (n. 10/11/1818), Luísa Maria de Oliveira Martins (casada em S. Vicente com Manuel da Costa, do Lourinhal, residindo em Cássemes), Ana Maria Oliveira Martins (casada em 24/11/1853 com Manuel Gomes de Pinho, filho de Manuel Gomes de Pinho e de Maria Gomes de Pinho, e neto materno de José Alves da Cruz e de Maria Gomes de Pinho), Rosa (nascida a 29/05/1829), Manuel (n. 23/11/1819, casado em 1864 com Ana Maria Gomes), António Martins de Oliveira (n. 18/10/1821, casado com Maria Rodrigues de Jesus, pais, entre outros filhos, do futuro Padre e Juiz Dr. Domingos Martins de Oliveira, José Martins de Oliveira, e de Maria Joana da Conceição (casada com Manuel Gomes dos Santos).
Segundo informação de Lauro Martins, residente na rua do Cruzeiro de Cássemes, sua tia Ana Maria Oliveira Martins, atrás citada, terá dito que "naquela casa viveram duas famílias judias". (Possivelmente ali nascidas ou refugiadas antes do século XVIII)[10].

Notas
[1] Filha de Manuel Álvares e de Catarina Manuel, de S. Martinho [da Gândara], do “Rocio de Cássemes”.
[2] Filha de Manuel Francisco e de Isabel Fernandes, do Rexio, neta materna de Domingos e de Catarina Fernandes.
[3] Filha de António Fernandes e de Sebastiana Fernandes, de “Cássemes”, e neta paterna de João António e de Domingas Fernandes, do Rocio, e materna de Manuel Fernandes e de Maria Rodrigues, de “Cássemes”.
[4] José Joaquim era filho de João Gomes Leite, de S. Vicente, e de Rosa Maria Dias, de Ovar.
Ainda em 24/01/2018 ouvi designar como a "casa do Álves" a casa do Aron Hakodesh, que, pela sua configuração e textura material, os peritos consideram do séc. XV ou XVI. Terá passado desta família – e talvez já desabitada – para a família Martins, vinda de Válega por 1818 (há 201 anos), o que ajudará a explicar ter o "armário da lei" permanecido intacto ao longo dos séculos.
[5] Filha de Baltasar de Oliveira (1751-1828) e de Teresa Rodrigues († 1910, em Cássemes).
[6] Filho de José Francisco Herdeiro e de Maria Francisca, de Cássemes.
[7] Filha de Manuel Alves da Cruz e de Maria Francisca da Cruz, do Rocio. Casou, em segundas núpcias, com José Joaquim Gomes Leite (pai de um padre com o mesmo nome).
[8] Filho de Manuel Fernandes e de Páscoa Fernandes, de Pigeiros.
[9] Filha de Manuel Gomes Rodrigues e de Maria Joana da Conceição, do Rocio, neta paterna de João Rodrigues da Silva e de Antónia Gomes, de Cássemes, e neta materna de Manuel Gomes e de Caetana Maria da Conceição, de Vila Cova, São Tiago de Riba Ul.
[10] Em 23/01/2019 Lauro Martins reforçou esta informação que nos deu para a revista "Reis" de 2014, acrescentando, agora, que seu pai também era conhecedor de que judeus habitaram essa casa (no Rexio de S. Vicente de Pereira).

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Do “armário estranho” ao Aron Hakodesh
Em próxima edição do “João Semana” diremos aos leitores, como testemunho pessoal e para memória futura, as circunstâncias em que, na década de 80, no Rexio de Cássemes, São Vicente de Pereira (perto da capela de S. Geraldo), numa casa desabitada há mais de dois séculos, encontrei uma atafona desativada, da qual dei notícia na revista vareira “Reis” de 1997, e, algum tempo depois, descobri um armário de pedra de configuração estranha, cuja função só mais tarde entendi, por ter encontrado a resposta precisa para as interrogações que vinha fazendo e partilhando com pessoas amigas. (Ler artigo na internet, jornal “João Semana” de 15 de junho de 2012).

 Casa onde se encontra o Aron Hakodesh

"Essa casa (esse conjunto) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer. Inclusivamente, contactar com a Rede de Judiarias (se a Câmara assim o entender)." (Jorge Martins, na Internet, no sítio Artigos do Jornal João Semana ("Culto judaico em S. Vicente de Pereira?"), em 2 de outubro 2012.

Rabino Daniel Litvak, da comunidade judaica do Porto, visitando o ekhal
de S. Vicente de Pereira

“Este achado reveste-se dum inegável interesse cultural para a história de Ovar e também para o conhecimento da herança judaica em Portugal”. (Elvira Mea, em visita a S. Vicente de Pereira, em 26 de outubro de 2012).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/02/s-vicente-de-pereira-familias-do-rexio.html

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Se o leitor conhecer algum pormenor de interesse para complementar este tema (Culto judaico em S. Vicente de Pereira), agradecemos que o comuniquem para o nosso e-mail:

6.2.14

S. Vicente de Pereira – Uma terra com dois nomes?

Igreja de S. Vicente de Pereira
Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2004)
TEXTO: António Pinho Nunes

No foro civil, chama-se “S. Vicente de Pereira Jusã”, no eclesiástico “S. Vicente de Pereira”.
Deve ser caso único no país. E, não sendo conhecido, poderá causar problemas desnecessários. Se, por exemplo, um cidadão de S. Vicente de Pereira, ao indicar, num documento oficial, a freguesia de sua residência, não escrever “S. Vicente de Pereira Jusã”, esse documento não é aceite. Assim, também a um padre que, não conhecendo ocaso, envie para a Conservatória do Registo Civil um duplicado de acta de casamento em que conste, como sempre tem constado desde há quase mil anos, que um dos nubentes é natural da “freguesia” de S. Vicente de Pereira e foi baptizado na “paróquia” de S.Vicente de Pereira, é-lhe devolvido o documento para correcção. Faltou “Jusã” na freguesia…
Como se sabe (e muito se tem escrito a esse respeito), S. Vicente de Pereira é só isso, e nada mais. Não pode ir buscar a Válega o “Jusã” (= de baixo) que pertencia à designação do antigo concelho de Pereira Jusã, cuja sede era nessa freguesia, a juzante do outro lugar de Pereira (existente mais acima).
É daqui que nasce o erro, o qual, se não é anterior, vem, pelo menos, de 1853, data do decreto de extinção do concelho de Pereira Jusã, que se diz, no artigo segundo, que “as duas freguesias de Pereira Juzam e Santa Maria de Vallega, que constituíam o concelho suprimido, são incorporadas no concelho de Ovar.”
S. Vicente de Pereira (sem mais) foi assim chamado desde tempos muito remotos. O documento mais antigo, conhecido, que se refere a esta terra data de 978 (séc. X). Trata-se de uma doação feita  ao mosteiro de Lorvão por Gogilli Bellida, de “meas varzenas que habeo in uilla de Azevedo… et sunt ilico hereditates in terra de sancta maria ad ille porto de sancto vicenti de peraria”. (Mesmo quem não estudou latim entende estas três últimas palavras.)
No domínio muçulmano, no ano de 1002 (princípio do séc. XI), há uma outra doação, feita a Lorvão por um certo Ariano, de uma metade que tinha na igreja de S. Vicente de Pereira (“ecclesia sancti uicenti de peraria”)…
(Estas doações são referidas por A. Nogueira Gonçalves no “Inventário Artístico de Portugal, Distrito de Aveiro, Zona Norte, X, Lisboa, 1981”)
Quando, quem, porquê o acrescento de “Jusã” ao topónimo de S. Vicente de Pereira, topónimo que, quando muito,  poderia ser “Susã” (= de cima), tal como vem designado nas Inquirições de D. Dinis de 1288 e nas suas Sentenças de 1290, porque já havia outra “Pereira” mais a Poente, a juzante.
Foi neste lugar de Pereira, de Válega, que teve sede o Concelho de Pereira Jusã. À falta de qualquer referência histórica, creio poder dizer que o termo “Jusã”, aplicada ao nome do concelho, datará da sua criação.
S. Lourenço - Retábulo da capela
Segundo fotocópia que possuo, em 1953, o Padre Miguel de Oliveira escreveu ao Instituto Nacional de Estatística a esclarecer essa entidade sobre alguns erros referentes a freguesias, que constavam no Tomo I do Censo de 1950. É claro que também apontou S. Vicente de Pereira. A resposta daquele instituto rezava assim: “Por último, e no que diz respeito à freguesia de S. Vicente de Pereira Jusã informa a Câmara Municipal de Ovar no seu ofício de 4 do corrente (Abril) que essa denominação é a exacta. Acresce ainda que é a que figura no Código Administrativo”.
Deve sublinhar-se que, pelo que atrás se diz, já figurava mal nesse Código.
Admito como muito provável que o Padre Miguel tenha feito compreender à Edilidade de Ovar que, apesar de a referida freguesia estar assim denominada no Código Administrativo, tal facto não significava que a denominação estivesse exacta, até porque todos os departamentos do Estado a referiam apenas como S. Vicente de Pereira.
Não sei que mais se passou. Uma coisa, porém, é certa: a Câmara Municipal de Ovar de então informou mal o Instituto de Estatística e devia ter corrigido o erro.
Apesar de tudo, ainda hoje é possível fazê-lo. O processo terá naturalmente, de começar pelo Presidente da Junta de S. Vicente de Pereira Jusã. Transitará, seguidamente, para a Câmara Municipal, que lhe dará a formulação adequada e o encaminhamento para a entidade governativa competente.
De resto, atente-se na facilidade com que hoje algumas terras alteram o nome. Casos exemplares de há poucos anos e bem próximos de nós são os da Vila da Feira, que passou a chamar-se Santa Maria da Feira, e o de uma pequena freguesia quase perdida nas serranias de Arouca que, não se dando bem com o nome que tinha, tratou do problema pelas vias competentes e passou a chamar-se “Albergaria da Serra” em vez de “Albergaria das Cabras”.
Creio que os habitantes da simpática freguesia de S. Vicente de Pereira (“sancti uicenti de peraria”) ficarão contentes e agradecidos no dia em que vier de Lisboa um decreto que diga mais ou menos o seguinte: “A freguesia de S. Vicente de Pereira, do Concelho de Ovar, terá este nome, e só este, enquanto o mundo for mundo…”

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/02/s-vicente-de-pereira-uma-terra-com-dois.html

Pereira Jusã, Cabanões e Ovar

A sede administrativa de Ovar, antes da actual, esteve repartida pelas vilas de Cabanões e de Pereira Jusã (estando associado a esta, durante algum tempo, o centro de Cortegaça).
Tendo mudado, no século XVI, a administração de Cabanões para Ovar, ainda a de Pereira Jusã se manteve por mais 3 séculos, nela estando englobados o lugar de Guilhovai e a parte poente de S. Vicente de Pereira (Zona da Torre).
Note-se que Pereira Jusã (Villa Peraria na Idade Média) constituía a parte norte do Rio Negro, ribeiro que divide a meio a freguesia de Válega, ficando para sul a villa de Dagarei, que teria a sua sede no lugar de Vilar (ver mapa anexo), estendendo-se até à Ria, onde já no século X se exploravam, no sítio de Cabedelo, marinhas de sal.
Baseando-se em alguns destes dados históricos, colhidos nas obras do historiador Monsenhor Miguel de Oliveira, o artista Marcos Muge pintou um sugestivo painel cerâmico que esteve recentemente exposto no stand da Autovar, na Rua Ferreira de Castro, e que actualmente se encontra patente em Válega, no prédio destinado à Biblioteca – Pólo daquela vila.

Painel da autoria do artista vareiro Marcos Muge
Nesse registo em azulejo reproduzem-se os edifícios do Tribunal e da Câmara de Pereira Jusã (esta com a cadeia, o pelourinho e, em frente, a capela de assistência aos presos), as marinhas do Cabedelo (Válega),o brasão municipal de Pereira Jusã, que passou a integrar a bandeira de Ovar, o Chafariz Neptuno, bem como os antigos Paços do Concelho de Ovar e a Capela de Santo António, o Cais da Ribeira (com o estaleiro de  construção de barcos que aí prosperou).
Há ainda uma referência ao Foral de Pereira Jusã (1514).
(Jornal "João Semana", 15/07/2004)

4.2.14

JUSÃ: Um enxerto espúrio em S. Vicente de Pereira

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2004)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Acaba de ser aprovado oficialmente o brasão de armas e a bandeira da freguesia de S. Vicente de Pereira, ali designada S. Vicente de Pereira Jusã.
O que deveria ser motivo de orgulho para a freguesia, torna-se ocasião para avivar uma ferida que desde há, pelo menos, um século e meio, rói o seu corpo, sem que apareça cirurgião capaz de a cicatrizar.
Mas vamos aos factos.
No concelho de Ovar há dois locais com o nome de Pereira. Ficam a poucos quilómetros um do outro, na direcção nascente-poente. Chamemos-lhe Pereira de cima (a nascente, onde se situa a Igreja de S. Vicente de Pereira), e Pereira de baixo (a poente, em Válega, onde teve sede um antigo concelho).
Era mesmo assim, com este realismo, que os antigos os nomeavam e distinguiam. Só que usando as designações então em voga: Pereira Susã (= de cima) e Pereira Jusã (= de baixo).
Comprovam-no documentos de há muitos séculos, com mais persistência em relação a Pereira Jusã, pelo estatuto administrativo que este lugar manteve, como vila e sede de concelho, até quase ao fim do século XIX.

A primeira Igreja de S. Vicente de Pereira situava-se neste local do lugar de Pereira Suzã,
 bem próximo da actual Matriz. Ao fundo o cruzeiro da antiga Igreja (1668)

O termo Susã cedo deixou de ser utilizado, em proveito do antropónimo S. Vicente, padroeiro da Paróquia, cuja Igreja sempre se situou no referido lugar de Pereira com a designação de S. Vicente de Pereira, topónimo que continua a ser o único que legitimamente deverá usar.
Pormenor do cruzeiro da antiga Igreja
de S. Vicente de Pereira (1668)
Por um equívoco qualquer, motivado por desconhecimento da história e da geografia locais, começaram a surgir publicações, inclusive um mapa cadastral do Exército, em que à Freguesia de S. Vicente de Pereira é ligado o sobrenome de Jusã, epíteto que, como escrevemos atrás, pertence, por direito próprio, consignado em séculos de história, ao lugar de Pereira, de Válega, a cujo concelho pertenceu a parte poente da freguesia de S. Vicente (mas nunca o seu lugar de Pereira que, a ter um designativo dessa natureza, teria de ser, pelos motivos históricos e geográficos atrás aduzidos, de Susã.)
Já em 26/8/1873, 21 anos após a extinção do concelho de Pereira Jusã, o vice-presidente da Câmara de Ovar, Francisco Joaquim Barbosa de Quadros, querendo acabar com o equívoco, explicava ao escrivão da fazenda: “Se nas repartições públicas se tem chamado a S. Vicente de Pereira Jusã é isso devido a trocarem um nome por outro. Na freguesia de S. Vicente existe também um lugar chamado Pereira, que fica superior ao lugar de Pereira da Freguesia de Válega e como os dois termos Susã e Jusã significavam de cima e de baixo, é provável que à Pereira Susã (S. Vicente) alterassem o nome, e lhe chamassem Pereira Jusã, que é de Válega.” (cf. A. Sousa Lamy, Monografia de Ovar, vol. I, pág. 416.)
O probo historiador Monsenhor Miguel de Oliveira, natural de Válega, saiu também à estocada em defesa da sua dama, Pereira Jusã, publicando um texto lúcido e persuasivo, na tentativa de repor a ordem no assunto. Fê-lo num número especial do “Notícias de Ovar”, quando do seu 25.º aniversário.
O seu protesto caiu em saco roto, e o erro continuou a figurar no tal mapa, cheio, aliás, de outros erros crassos, como o de trocar o leito dos rios Ul e Antuã!

Se durante muitos anos esta situação não trouxe graves consequências práticas, o tempo encarregou-se de mostrar o perigoso desajustamento entre a denominação comum e secular da freguesia – S. Vicente de Pereira – e o intrometido Jusã do mapa “oficial”.
Pedidas, na década de 60 do século passado, pelo Ministério da Justiça, informações a entidades de Ovar – Registo Civil e Câmara – foi dado como resposta que a designação da freguesia era S. Vicente de Pereira. Jusã. Certamente por influência do mesmo famigerado mapa.
E foi assim, com toda esta “ciência” e com toda a facilidade, que aquele Ministério praticou uma injustiça de todo o tamanho!
Outros textos vieram, entretanto, a lume, no “João Semana” (M. Pires Bastos e A. Almeida Fernandes),chamando à realidade os pouco escrupulosos seguidores de tal dislate, mas sem qualquer resultado.
E o mais caricato – será assim que se fabrica justiça em Portugal? – foi saber-se que os serventuários do Ministério aduziram, como razão para não voltarem atrás na decisão tomada, o facto de já estar assim registado no computador… (Como se quem carregou mal o computador não soubesse corrigir o lapso!..)
Mesmo sabendo-se que os outros Ministérios – o da Educação, por exemplo – continuavam a manter, ao longo dos anos, o nome correcto de S. Vicente de Pereira, o da Justiça foi obrigando os cidadãos vicentinos a aceitarem nos seus bilhetes de identidade um nome que não lhes pertence, pois está acrescentado de uma excrescência que lhe é alheia e que só atrapalha.

Para cúmulo, e dentro de solenes comemorações dos 1700 anos do mártir S. Vicente, acaba de permitir-se que o nome sagrado da freguesia apareça, com aquele enxerto espúrio, gravado no seu brasão e desfraldado no pano da sua bandeira.
Isto é desdizer a História.
Será esta a missão da Justiça em Portugal?
Que o Ministério da Cultura nos valha!

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/02/jusa-um-enxerto-espurio-em-s-vicente-de.html

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Pereira de Susã e Pereira Jusã (A. de Almeida Fernandes)

16.6.12

Culto judaico em S. Vicente de Pereira? [Aron Hakodesh / Ekhal]

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2012)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Há cerca de 30 anos, de visita à casa do Padre António da Silva Martins, em S. Vicente de Pereira (junto à Capela de S. Geraldo), Ovar, tive o ensejo de visitar uma secular moradia que lhe coubera em herança[1] e onde se encontrava uma atafona desativada .

Casa rústica em S. Vicente de Pereira, onde se terá praticado o culto judaico
Para além do engenho e do moinho instalados no pátio da casa, a minha curiosidade foi aguçada pela singularidade da habitação que, contando alguns séculos, se apresentava em avançado estado de ruína, desde os currais (atual entrada principal) à cozinha (com o forno semidestruído) e à sala contígua, onde, frente à porta de entrada, existe um nicho de pedra de configuração estranha, embutido na parede – e portanto coeva da construção –, peça que então fotografei para memória futura (na foto).

O Aron Hakodesh (armário da Lei), com duas secções: a de cima para guardar o Livro
Sagrado, a Torah, ou Livro da Lei; a de baixo para guardar outros objetos de culto; ao alto, a cruz cristã, como nítido acrescento, identificadora da religião que, como cristãos novos (antigos judeus sefarditas) adotaram

Em uma ou outra visita posterior, e ao rever aquele imóvel, foi-me convencendo de que, mais do que um utensílio caseiro – um armário, por exemplo –, se trataria de uma estrutura religiosa, pondo mesmo a hipótese, pela sua configuração, de estar ligada ao culto judaico. Mas como poder imaginá-lo, se estávamos em S. Vicente de Pereira, uma terra profundamente católica? E desta dúvida se foi alimentando a minha curiosidade.

Interior da sala com janela para a rua

A sala (à esquerda) onde se encontra o armário da Lei (Aron Hakodesh)
e os restos da cozinha (à direita)

Há poucos dias, ao confrontar-me, uma vez mais, com a fotografia daquele achado, resolvi avançar no seu estudo, consultando a Internet.
Com a ajuda do jornalista Dr. Fernando Pinto, ao serviço do jornal “João Semana”, logo surgiu, em primeira busca – imagine-se a capacidade das novas técnicas –, no sítio dedicado a pesquisar imagens relacionadas com o judaísmo, uma estrutura arqueológica semelhante à de São Vicente de Pereira.
Fiquei com a sensação de que, finalmente, estava decifrado o enigma:
Tratar-se-á de um Aron Hakodesh, armário onde os judeus guardam, na divisão inferior, os rolos da Torah (Pentateuco ou Livros da Lei, para serem lidos durante o culto religioso), e na divisão acima o Menorah (candelabro de sete braços ou lâmpada perpétua). [CLIQUE nos links a azul]
Em posterior visita à casa, e depois de uma limpeza superficial, pude observar na divisão inferior, levemente escavados, os dois pequenos círculos paralelos habitualmente usados nestes armários como encaixe dos dois eixos em que giram os rolos da Lei, e pude constatar que a divisão seguinte, onde é colocada a Minorá, é completamente lisa.


Seria esta a configuração normal do Aron Hakodesh (ou Ekhal, na designação ibérica), que deveria ser tapado por portadas de madeira ou por uma cortina.
Nesta peça de S. Vicente de Pereira, porém, existe, ao alto, uma cruz esculturada, de cuja presença só nos apercebemos após a última visita (foto de baixo).


Trata-se de um sinal cristão revelador de que se tratava de uma família de judeus convertidos (cristãos novos, ou "marranos") que, tendo-se refugiado aqui com receio de perseguição, aqui viveram como católicos, mas mantendo, quem sabe, clandestinamente, as suas práticas judaicas.

Os dois pequenos círculos para sustentar os rolos


Esperamos que os peritos na matéria estudem e confirmem a autenticidade deste achado, capaz de chamar a São Vicente de Pereira os curiosos da arqueologia e das tradições judaicas em Portugal, e, quem sabe, para descobrir o nome da família que, para evitar a exposição pública dos grandes centro populacionais, se terá refugiado nesta terra pacata, aqui mantendo alguns cerimoniais da sua religião de origem e uma sã convivência com a população local, e, possivelmente, misturando o seu sangue e os seus genes com o sangue e os genes dos vicentinos, tal como aconteceu por todo o país, particularmente nas Beiras, onde algumas terras com tradições marcadamente cripto-judaicas se vincularam, em 10/03/2011, numa rede de Judiarias de Portugal.

CLIQUE NA IMAGEM PARA AUMENTAR

1- Cozinha; 2- Sala do armário da Lei; X (Aron Hakodesh); 3- Alpendre; 4- Estábulo; 5- Arrumos; 6- Atafona; 7- Moinho

Esta planta faz parte de um Levantamento feito em 2006 pelo Arquiteto Paulo Paiva Fonseca,
de S. Vicente de Pereira, como proposta de Quinta Pedagógica a implantar no quintal da casa,
respeitando a traça dos antigos edifícios. A fotografia mostra a janela rústica da cozinha
O pátio da casa, vendo-se o poço, o alpendre (3), o estábulo (4), arrumos (5), atafona (6)
e moinho
(7). Um pouco mais à esquerda ficam a cozinha (1) e a sala (2)
Atafona de S. Vicente de Pereira (Ovar). 
Engenho de moer grão, movimentado por tração animal, em ruínas 
A mó da atafona de S. Vicente de Pereira 

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Notas:
[1] Pertencera a seu tio, Padre Dr. Domingos Oliveira Martins, que foi Juiz em Miranda do Douro, Alijó, Lamego, Torres Vedras e Arouca. Tendo sido promovido a 2.ª classe, faleceu no Porto em 13 de abril de 1951, com 61 anos, na véspera de entrar no exercício do mesmo cargo em Penafiel. Cursou Teologia no Porto e Direito Civil em Coimbra. Era filho de António Martins de Oliveira e de Maria Rodrigues de Jesus, neto paterno de Manuel Martins de Oliveira (de Válega) e de Ana Maria Gomes da Conceição (de Cássemes, de S. Vicente de Pereira), e materno de Manuel da Silva Terra (S. Martinho da Gândara) e de Maria Rodrigues Marques (de S. Vicente).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JUNHO DE 2012)

ENDEREÇO PARA COLOCAR NUMA BIBLIOGRAFIA


ADENDA -------------------------------------------------------------------------------------------

Confirmação de culto judeu em S. Vicente de Pereira

Como esperávamos, a convicção de que em S. Vicente de Pereira se praticou o culto judaico numa casa rústica, como foi referido no “João Semana” de 15/06/2012, tornou-se-nos mais fortalecida pela palavra autorizada da historiadora Elvira Mea, quando, na manhã do dia 26 de outubro, visitou a sala onde se situa o achado arqueológico por nós sinalizado.
A ilustre visitante mostrou-se surpreendida pelo facto de toda a estrutura daquela casa de lavrador rico de há três ou quatro séculos, apesar de se encontrar em ruínas, ter conservado o seu traçado original, e  de o “altar” se manter praticamente intacto, aconselhando como trabalho urgente, e antes de uma próxima visita, uma investigação pormenorizada dos elementos em causa e uma prospeção cuidada do solo, trabalho este a ser efetuado pelo arqueólogo Gabriel Rocha.  

TEXTO: Manuel Pires Bastos
(Jornal "João Semana", 1 de novembro de 2012)

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Altar judaico vem enriquecer património vareiro

Elvira Meaprofessora da Faculdade
de Letras da Universidade do Porto 
“O altar capta a luz direta do sol e, aparentemente, tem todas as caraterísticas dos altares judaicos”, disse Elvira Cunha de Azevedo Silva Mea, doutorada em História Moderna e Contemporânea pela Universidade do Porto (na foto), apontando para o achado que tinha diante de seus olhos. “Está muito bem preservado... O facto de isto ter ficado assim também foi bom para nós... Agora precisava de saber mais coisas sob o ponto de vista arqueo­lógico e sob o ponto de vista da casa”, acrescentou a Professora, admirada com o estado de con­servação daquela espécie de altar.
Na manhã chuvosa de 26 de outubro, o Pároco de Ovar, Padre Manuel Pires Bastos, o técnico da Câmara Municipal de Ovar, António França, o presidente da Junta de Freguesia de S. Vicente de Pereira, José Filipe Mesquita, e o Padre Augusto Silva, Pároco de S. João de Ovar, estiveram em S. Vicente de Pereira, no lugar de S. Geraldo, para ouvirem da boca da­quela ilustre convidada que, real­mente, se tratava de um importan­te achado arqueológico, que vinha enriquecer o património vareiro.
“A única forma de datar isto é fazer uma escavação arqueológica para ver o que há aqui debaixo. Esta si­tuação tem de ser validada por alguém que seja da área. Há uma série de registos que têm de ser feitos. Temos de ir ao século XVI e XVII para sabermos a resposta”, adiantou António França.


“Não sei até que ponto haverá aqui materiais datáveis... Este altar tem uma coisa muito interessante: é que os outros que eu conheço são em pedra, e a pedra não é datável. Pode não ser preciso fazer escavações”, adiantou a docente, que tem como uma das principais áreas de investigação o Judaísmo, sendo membro do World Union of Jewish Studies, e autora de “O Sefardismo na Cultura Portuguesa” (1974), entre outras obras.
A secular moradia, para além do altar onde se terá praticado o culto judaico, possui uma atafona e uma mó que merecem ser recuperados. Todo estes elementos reunidos conferem àquele prédio rústico um grande valor, que poderá vir a ampliar as atuais ofertas da Rede Museológica de Ovar.

TEXTO: Jornalista Fernando Manuel Oliveira Pinto
(Jornal "João Semana", 1 de novembro de 2012)
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Rabino visita Ekhal de S. Vicente de Pereira

Um rabino erudito vindo de Israel esteve, no passado dia 16 de novem­bro, em S. Vicente de Pereira (na foto), a fim de observar o achado que apresentámos a público no jornal “João Semana” de 15 de junho de 2012 como local de culto judaico, asserção que a Professora Elvira Mea e outros peritos portugueses viriam a confirmar.

Rabino Daniel Litvak, da comunidade judaica do Porto,
 visitando o ekhal de S. Vicente de Pereira, Ovar

O ilustre visitante mos­trou-se profundamente sensibilizado perante a forma original e genuína deste oratório, a que os judeus dão o nome de Aron Hakodesh (arca sagra­da) e a que os marranos (judeus convertidos da Península Ibérica, a partir de D. Manuel I) chamavam Ekhal (arca ou tabernáculo).
Este lugar de culto, que se assemelha a cerca de uma dezena de outros existentes em Portugal, apresenta dois planos, sendo o inferior destinado a guardar o Livro Sagrado (a Torah), e o de cima a expor o candelabro de sete braços. M. P. B.

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O Rabino Daniel Litvak indicando o lugar onde se
encontrava afixada uma mezuzá (caixa que guardava
um pergaminho com passagens da Torá)
Altar judaico em S. Vicente de Pereira – Por que se espera?

Muitas perguntas nos têm sido formuladas acerca do velho edifício de São Vicente de Pereira onde existe um armário sagrado – Ekhal – onde se praticou, há alguns séculos, o culto judaico, antes ou depois da expulsão dos judeus por D. Manuel I (1496-1497).
Refira-se que este Ekhal, por nós sinalizado há vários anos e por nós identi­ficado publicamente no “João Semana” de 15 de junho de 2012, com o título “Culto judaico em S. Vicente de Pereira?”, apre­senta, sobreposto aos dois espaços regu­lares – cada um deles em forma de arco (o de cima para expor o rolo da Lei e o de baixo para guardar elementos litúrgicos) –, apresenta, dizíamos, um terceiro espa­ço, ao alto, destinado à cruz [na foto], ali implan­tada como sinal de adesão (consciente ou dissimulada) à religião católica. (Esta particularidade, muito utilizada durante o tempo da perseguição aos judeus, é hoje muito raro encontrar-se, pelo menos com a dimensão e a visibilidade deste exem­plar ovarense.)

O Ekhal e ao lado esquerdo vestígios da mezuzá
Entendemos ser tempo de fornecer aos nossos leitores algumas considera­ções complementares sobre este espaço arqueológico que, como na devida altura noticiámos, mereceu, por parte de peritos na matéria, referências tão calorosas como responsabilizadoras. Calorosas quanto à descoberta em si, e respon­sabilizadoras quanto à urgência da classificação oficial deste Ekhal, único na nossa região. (Os mais próximos situam-se no Porto e no Buçaco.)
Interior da porta de entrada, com umbral onde
se veem dois rasgos na pedra que serviriam de ritual
para os judeus que vinham do exterior
Segundo Jorge Martins, autor de “Portugal e os Judeus”, esta peça “tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo”, sendo “imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer”.
Sabemos que os atuais proprietários estão sensíveis ao desejo das autarquias locais de preservarem este original espólio de acordo com as normas vigentes que regem esta matéria.
Espera-se, por isso, que através dos legítimos possuidores ou através de protocolos entre os mesmos e as entidades competentes, sejam iniciadas as diligências indispensáveis para o levantamento arqueológico reco­mendado, em 26 de outubro de 2012, pela Professora e Historiadora Elvira Mea, da Universidade do Porto, e para o início do estudo e das obras de consolidação do edifício.

Da parte da Rede das Judiarias Portuguesas, e sabendo-se do interesse que os seus responsáveis manifestam em preservar as memórias judaicas em Portugal – tanto mais que contam com a ajuda de instituições interna­cionais –, espera-se o seu empenho em colaborar neste projeto cultural.

À Câmara Municipal, bem como à Junta de Freguesia de S. Vicente de Pereira (ou à futura União de Freguesias) competirá assegurar a defesa e o aproveitamento deste notável achado, que, pelas suas características históricas e arqueológicas, muito virá valorizar a Rede Museológica de Ovar. (Texto: Manuel Pires Bastos, publicado na edição de 1 de outubro do jornal "João Semana").
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Altar judaico exige intervenção



Vinda de Coimbra, este­ve em Ovar em 23 de fevereiro uma Técnica em Património (na foto) para reconhecimen­to do altar ju­daico por nós identificado há três anos (“João Semana” de 15/06/2012) e, posteriormente, observado por peritos na matéria, entre os quais Elvira Mea, da Uni­versidade do Porto, e Daniel Litvak, Rabino da Comunidade Judaica da mesma cidade.



O edifício, de propriedade particular, é modesto, mas rico em his­tória. Desabitado há mais de um século, degrada-se a olhos vistos, com telhados abatidos. Ao menos a sala de culto (janela, na foto), considerada um exemplar excecional do criptojudaismo, merece – exige – uma rápida intervenção para que não se perca este património de interesse nacional.

Texto e foto: M. P. B.
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Património judaico à espera em São Vicente de Pereira



Nesta casa desabitada, de aspeto rui­noso, marcada por séculos de labor, berço de muitas gerações de moradores, encon­trámos, há mais de 30 anos, por indagação ocasional e sem prevenção alguma, uma pequena sala – a principal da casa – em chão de terra batida, com janela para a rua (na foto), uma porta a norte, para a cozi­nha, e outra, a nascente, para o pátio, dei­xando que a claridade dê vida, em frente, a um estranho conjunto utilitário – o único da sala – em tijolo e argamassa, embutido na parede, sugerindo um armário ou um altar. Em 2012 conseguiríamos relacionar aquela peça com o culto cripto-judaico, o que viria a confirmar-se com a presença e o aval de personalidades versadas na matéria, entre as quais o Rabino-Chefe do Porto, Daniel Litvak, que recentemente se encontrou com D. Manuel Linda, Bispo da nossa Diocese, acompanhado por outro dignitário da sua religião.

Católicos e judeus num aperto de mãos

Acaba de acontecer no Porto um encontro de grande alcance religioso, envolvendo os responsáveis locais das comunidades católica e judaica.
No Paço Episcopal desta diocese, o Bispo do Porto, D. Manuel Linda, recebeu frater­nalmente Dias Zion, presidente da Direção da Comunidade Judaica do Porto, e Daniel Litvak, reconhecido pelo Grão Rabinato de Israel como Rabino-Chefe do Porto, cuja sinagoga é a maior da Península Ibérica, numa manifestação de respeito mútuo e de colaboração em atividades de ordem social. Não esqueçamos que o relacionamento entre católicos e o povo de raiz hebraica é anterior à nossa nacionalidade, encontrando no Porto, na zona da Cordoaria, onde se acan­tonava, um clima de grande tolerância, conservando-se ainda, na Rua de S. Miguel, o edifício da antiga Sinagoga, onde, há poucos anos, se descobriu o respetivo Ekhal, ou armário da Lei, semelhante ao que se encontra em S. Vicente de Pereira, como temos referido no “João Semana”.


Nas imagens: O rabino Daniel Litvak, no recente encontro com o Bispo do Porto e quando da visita, em 2016, ao Ekhal judaico de S. Vicente de Pereira (em baixo), a que foi acrescentada, ao alto, a cruz cristã, marca do cripto­-judaismo (práticas judeo-cristãs).


Texto: Manuel Pires Bastos (jornal "João Semana", edição de 15 de outubro de 2018)



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Jorge Martins


De Jorge Jorge Martins, do sítio "Portugal e os Judeus", recebemos o seguinte comentário, que desde já se agradece:
"Parabéns, fizeram um ótimo trabalho. Essa casa (esse conjunto) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer. Inclusivamente, contactar com a Rede de Judiarias (se a câmara assim o entender).
Bom trabalho! 
Jorge Martins"

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