Mais do que
história, o respeito
Jornal JOÃO SEMANA (01/03 e 01/04 de 2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos
Mais do que a história de um monumento que, pela sua
singularidade arquitetónica e cultural, se apresta a entrar no acervo do
património nacional, pretendemos com este trabalho pôr em relevo as
providenciais circunstâncias que permitiram conservar intacto, ao longo de
cinco séculos, o Aron Hakodesh de São Vicente de Pereira e sublinhar o
procedimento exemplar da família Martins, que desde o início do século XIX
manteve devoluta aquela velha casa, merecendo especial menção os seus últimos
proprietários, Padre Juiz Domingos Martins de Oliveira e Padre António de
Oliveira Martins, os quais, conhecendo e respeitando a história comum do povo
hebreu e do povo cristão, garantiram a preservação desse património até aos
nossos dias [1].
Foi na
década de 80 que passei a conhecer o P.e António Martins
(27/01/1921-26/04/1989), regressado de Moçambique, que celebrava missa aos
domingos, na Capela de Santo António, em Ovar. Residindo em S. Vicente de
Pereira, perto da capela de São Geraldo, na casa assobradada do Rexio de
Cássemes, que fora de seu tio, P.e Juiz Domingos Martins de Oliveira
(17/05/1890-13704/1951), e que pertencera a seus ascendentes maternos desde o casamento,
em 1816, de Manuel Martins de Oliveira (†1862), da Rua Nova de Válega, com Ana
Maria Gomes da Conceição (1798-1879), esta possivelmente até aí domiciliada na
velha casa térrea de origem judaica que se situa do outro lado da rua[2].
Registo de
uma atafona
No quintal
dessa antiquíssima casa de lavoura, desabitada há pelo menos dois séculos, e
onde, até há pouco se criavam galinhas e ovelhas, e onde o P.e António mantinha
algumas colmeias, das quais me abastecia de mel, tive a fortuna de observar,
nos anos oitenta, uma atafona desativada, com a nora e o respetivo moinho em
estado de degradação, o que me despertou curiosidade e me levou a falar dela
ao pelouro da Cultura municipal, na pessoa da Dr.ª Ângela Castro, que levámos,
posteriormente, a visitar o local, tal como fizemos com outras pessoas amigas,
entre as quais o P.e António de Pinho Nunes, colaborador do nosso jornal[3].
Registo
fotográfico de um
armário
Entretanto,
ainda antes da morte do P.e António (1989), ao vasculhar um recanto da velha
casa, algo de imprevisto se nos deparou: um estranho armário de pedra embutido
na parede de uma pequena sala, estrutura que registei fotograficamente e que
levou muito tempo a interpretar. Um lugar de oração? Um especioso altar
cristão? (Havia sacerdotes na família, e até ouvi dizer que estiveram ali
recolhidos sacerdotes fugidos da guerra civil de Espanha…)
Cheguei a
interrogar-me se não seria um “altar judeu”. Mas como seria isso possível em
terra profundamente católica? E nem a fotografia, que eu olhava ocasionalmente
na janela do álbum em que lhe dei destaque, respondia às minhas interpelações…
E nas ocasionais pesquisas que fazia em S. Vicente sempre ouvia respostas
negativas acerca da existência, ali, de famílias de origem judaica.
Só Lauro
Santos, da família Martins, me deu o lamiré de que duas das suas tias lhe
falaram de terem habitado ali “famílias judias”[4], acrescentando recentemente (em 23 de janeiro de 2019), que também
seu pai, Horácio Santos, lhe falou nisso[5]. E, mais recentemente ainda, o Dr. Álvaro Ribeiro, de Maceda, deu-me a
saber que o P.e António, quando ambos frequentaram o Seminário do Porto, se
referiu à presença de símbolos hebraicos na velha casa da família, e que
conviveu, no Furadouro, com raparigas de S. Vicente de quem se dizia poderem
ter ligação com gente judaica.
Penso que
o silêncio que se mantinha sobre essa possível ligação genética explicar-se-ia
por receio de reação antissemita.
Até por
isso merece reconhecimento a atitude reservada e positiva dos dois sacerdotes
Martins em relação àquele “armário sagrado” que fotografámos, e que eles viam
como sinal religioso a manter como relicário da fé judaico-cristã dos remotos
moradores da casa, sendo ou não ascendentes da sua própria família[6].
![]() |
| O Aron Hakodesh (armário da Lei) |
Vários
anos correram. Em 1989, quando da morte do Padre António, não deixámos de
estimular as autarquias locais a adquirirem o prédio, que pertencia, agora, a
D. Matilde Trigo, para servir de Museu da freguesia. Nessa altura, como se lê
na revista “Reis” de 1997, a nossa atenção centrava-se ainda na atafona,
alertando para, “através de um protocolo, a restaurarem ou a reconstruirem em
local onde possa ser visitada pelo público”[7] (O retardamento da nossa intervenção escrita em relação com o
“nicho de pedra de configuração estranha daquela secular moradia” deveu-se
ao facto de então não termos percebido ainda a sua origem e a sua verdadeira
função.)
Por 2003,
um jovem estudante de Arquitetura de S. Vicente de Pereira, Paulo de Carvalho,
apresentou como estudo de curso o projeto de um Centro Interpretativo da
lavoura a implantar ali, apresentando-o ao presidente da Junta de Freguesia,
Filipe Mesquita, como proposta de uma “Quinta Pedagógica”, tendo em conta a
casa secular e os respetivos anexos, incluindo, a nascente, uma casa de
arrumos, de muito recente construção (séc. XIX–XX), não fazendo alusão ao
pentassecular “armário” da pequena sala[8].
Filipe
Mesquita, a quem, por diversas vezes, falara da velha casa como ideal para se
tornar espaço museológico da freguesia, acabou por apresentar à Câmara a
proposta do jovem arquiteto, mas sem resultado imediato.
![]() |
| Altar judaico (Sabugal) FOTO de Rui Mendez ("Olhares/2008") |
A
confirmação do achado
Em
abril/maio de 2012, na redação deste quinzenário vareiro, ao preparar o texto
"Pereira" da autoria do nosso colaborador e ilustre medievalista Dr.
Armando de Almeida Fernandes (rubrica “Algumas Notas Toponímicas Ovarenses”, no
"João Semana" de 01/11/1993), para o reproduzir na internet, no
sítio “Artigos do Jornal João Semana”, algo de surpreendente aconteceu. Pedindo
o diretor-adjunto do jornal, Dr. Fernando Pinto, algumas fotografias para
ilustrar o texto, uma delas, precisamente aquela que tínhamos exposto na capa
do álbum, fez ressaltar aos meus olhos, do rebordo alto da janela que a emoldurava,
a imagem da cruz que se mantinha no alto do armário, embutida na parede,
levando-me, de imediato, a exclamar: – “Isto não pode ser um armário. Só pode
ser um altar judaico, do tempo dos “cristãos novos”[9].
Consultando
a Net e buscando o sítio “Olhares”, onde Fernando Pinto partilha o seu trabalho
de fotografia, logo nos apercebemos da presença de um Ekhal judaico há pouco
descoberto (na foto). Estava confirmada a dedução que desde há muito vínhamos
fazendo sobre o “estranho armário” de São Vicente de Pereira.
Na Rota do
Judaísmo
Fechada
uma etapa nesta aventura, outra se abria. Para além de um texto elucidativo a
publicar na edição do “João Semana” de 15/06/2012, achámos prudente ouvir
pessoas ligadas às práticas judaicas, para conhecimento do nosso achado e para
garantir o maior rigor na sua transmissão escrita.
E foi
mesmo no serão dessa noite (às 0h16 do dia 5 de junho de 2012) que seguiu o
primeiro e-mail informativo, enviado para a Sinagoga de Lisboa pelo jornalista
Fernando Pinto.
Dias
depois, por dever ético e cívico, demos conhecimento destes factos ao setor
cultural do Município, na pessoa do Técnico Superior da Câmara Municipal de
Ovar Dr. António França, que se congratulou com a notícia, assumindo a tarefa
de seguir os trâmites sobre achados patrimoniais, ações a que nos referiremos
no próximo número.
Notas:
[1] Em 1498 o Rei D. Manuel I promulgou a
lei que impunha a expulsão dos judeus.
[2] Maria Gomes da Conceição era filha de
Manuel Gomes Rodrigues, de Cássemes, e de Maria Joana da Conceição (1746–1833),
natural de S. Tiago de Riba Ul.
[3] Jornal "João Semana" de 15/09/1994: Património invulgar ‒ Uma atafona em São Vicente de Pereira".
[3] Jornal "João Semana" de 15/09/1994: Património invulgar ‒ Uma atafona em São Vicente de Pereira".
[4] Revista "Reis" 2014, Ovar.
[5] "João Semana”, 01/02/2019.
[6] Terá a família Martins, de Válega, pelo
casamento com Ana Maria Gomes da Conceição entroncado com sangue hebreu? Ou
será que a casa entra na família por compra?
[7] Revista “Reis” Ovar, 1997, pág. 48, “SOS
por uma atafona exemplar único na região”.
[8] Nunca ali habitaram os dois sacerdotes
Martins, que sempre residiram na casa assobradada, da família, e que usavam a
aquele espaço apenas como casa de arrumos.
[9] Lei de D. Manuel I, de 598.
----------------------------------------------------------------
(Continuação do texto de 1 de março de 2019)
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março e 1 de abril de 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/03/aron-hakodesh-de-sao-vicente-de-pereira.html----------------------------------------------------------------
(Continuação do texto de 1 de março de 2019)
Às voltas
com o Ekhal
À
comunicação expedida de Ovar na madrugada de 5 de junho de 2012, via internet,
pelo jornalista Fernando Pinto, sobre o Ekhal de São Vicente de Pereira,
respondeu o rabino de Lisboa Eliezer Shai com uma sentença pronta e radical,
mas não tão negativa como parece, atendendo ao espanto que lhe terá causado a
referida informação:
"No
judaísmo ou seja nas sinagogas, não há altares, a única coisa que poderia
ser, vendo que está pegado a uma parede, seria um Ekhal, o armário onde se
guardam os rolos da Torá, mas dado o tamanho não pode ser tal coisa. Portanto,
em resumo, não é um vestígio judaico"[1].
A posterior
inserção do texto "Culto judaico em S. Vicente de Pereira?" na
internet, no sítio "Artigos do jornal João Semana", foi suficiente
para, pouco depois, recebermos do mesmo rabino a opinião de que provavelmente
se tratava de um Ekhal.
À Câmara,
na pessoa de António França, caberia iniciar o processo de reconhecimento
oficial e de classificação científica deste pentacentenário Aron Akodesh
(Ekhal).
Início do
processo
Associações
judaicas em Portugal entenderam por bem incluir a notícia do achado no
programa do 2.º Ciclo de Cultura Judaica realizado em Tomar e em Belmonte, em
19 e 20 de setembro de 2012, tendo o técnico da câmara apresentado algumas
fotos do Ekhal e do edifício e estruturas envolventes.
Entretanto,
para a certificação e classificação deste património, a Câmara fez convites a
peritos em arqueologia e história para visitarem e se debruçarem sobre a estrutura
da habitação, com o quintal e a atafona, entre os quais Gabriel Rocha Pereira,
Mestre em arqueologia, e Elvira Mea, docente universitária.
O referido
texto[2], publicado no sítio "Artigos do
jornal João Semana" abriu uma inesperada clareira no horizonte do
património judaico português.
Jorge
Martins, autor da obra "Portugal e os Judeus", afirmou em 2 de
outubro de 2012:
"Parabéns.
Fizeram um ótimo trabalho. Essa casa (esse conjunto) tem um valor inestimável
para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-lo, dignificá-lo e
dá-lo a conhecer. Inclusivamente contactar com a Rede de Judiarias (se a
Câmara assim o entender)"[3].
De José
Levy Domingos, da Comunidade Judaica de Belmonte, a quem também pedíramos
opinião sobre o assunto, recebemos a 20 de novembro de 2012, após o seu regresso
do Brasil, esta agradável e pedagógica missiva:
‘Caro padre
Manuel Pires Shalom Uvracha!!
(…) Depois
de analisar pelas fotos, esperando em breve visitar no local este EKHAL (em
sefardita, os Askenazim dizem ARON-AH-KODESH) que significa "palácio",
numa alusão ao templo de Salomão, e depois de meus conhecimentos nesta área
por tradição familiar judaica minha e pelos sinais que encontro, NÃO TENHO
DÚVIDAS DE QUE SE TRATA DE UM HEKHAL.
É
importante dizer que este tipo de armários onde era depositado o rolo da Torah
existia também em casas de famílias e aqui muitas vezes era o local das
"Torinhas" que tantas vezes saiam em procissão, sobretudo em ocasiões
festivas.
É
importante referir que estes armários teriam uma função de culto familiar,
aliás o judaísmo é sobretudo uma religião familiar na sua essência. Foi isso
que preservou as nossas famílias resistentes e descendentes dos judeus da Inquisição
e de outras “inquisições” quantas vezes políticas, sociais e económicas.
O Ekhal
habitualmente divide-se em duas partes, a superior, onde era colocado o Rolo
ou o Livro da Lei, ladeado ou não pela vela. Ao lado poderia existir uma mísula
como acontece nos casos de Freixo de Espada à Cinta ou Castelo de Vide. Na
parte inferior seriam colocados os elementos litúrgicos judaicos.
A cruz que
encima o armário nada mais é do que a expressiva demonstração de uma
cristianização forçada naturalmente’.
Também
Jorge Patrão, Secretário Geral das Judiarias de Portugal, nos felicitou, em 4
de novembro de 2012, por "esta fantástica descoberta".
A ação da
Câmara
A primeira
das personalidades convidadas pela Câmara Municipal a deslocar-se ao local foi
a investigadora da Universidade do Porto Elvira Mea, que esteve em São Vicente
de Pereira em 26 de outubro, tendo o "João Semana" registado esta
visita em 1 de novembro seguinte, com o texto "Confirmação do culto
judaico em S. Vicente de Pereira[4] com registos fotográficos, e em vídeo, do jornalista
Fernando Pinto.
A
investigadora voltaria ao local em 16/11 acompanhada pelo rabino Daniel Litvak,
do Porto, que afirmou, numa atitude discreta, a importância do Ekhal.
Elvira Mea
aconselhou um aprofundado estudo arqueológico e a pesquisa das fontes
documentais das propriedades e seus donos, e em 20/11 enviou-nos cópia do seu
"Parecer sobre o Ekhal do lugar de S. Geraldo, na freguesia de São Vicente
de Pereira, Ovar".
Em 9 de
novembro, o arqueólogo Gabriel Rocha Pereira entregou também à Câmara o seu
"Informe Técnico-científico".
Falecida no
verão de 2013 a proprietária, D. Matilde Trigo, perguntava o jornal "João
Semana" em 1/10 desse ano: "Altar judaico em S. Vicente de Pereira –
Por que se espera?", pedindo a classificação oficial deste Ekhal, único na
nossa região, citando Jorge Martins, atrás referido, e lembrando que os atuais
proprietários estão sensíveis ao desejo de preservar este original espólio, de
acordo com as normas que vigoram nesta matéria, esperando que "sejam
iniciadas as diligências indispensáveis para o levantamento arqueológico
recomendado em 26/10/2012, por Elvira Mea".
Pesquisar
mais fundo
Em
01/01/2014, o "João Semana" publica um texto do Dr. Guilherme
Godgel de Oliveira Santos sobre este tema, em que o nosso distinto colaborador,
com ligações familiares a S. Vicente de Pereira, afirma ser "um pouco
enigmático, porque não há tradição nem notícia de famílias de judeus ou de
cristãos-novos que houvessem vivido em S. Vicente. Além disso, esta região não
é das que mais atraíram os seguidores da Tora"[5].
Em 28 de
agosto de 2014, a Câmara Municipal de Ovar pedia à D.C. Centro parecer
favorável sobre a eventual classificação, e em reunião camarária de 18/12/2014
foi deliberado abrir processo de classificação não só do conjunto que integra o
Aron Hakodesh ou Ekhal[6] e o espaço restante
(contendo a atafona).
Em 23/02/2015,
na visita de Isabel Policarpo Gertrudes Branco, técnica na área do Património,
foi feita uma primeira inventariação dos elementos do edificado a classificar
como de interesse municipal ou público. Participaram nesta visita os elementos
da comissão técnica apresentada pela Câmara, a saber: Ana Paula Reis, chefe da
Divisão da Cultura, Raquel Elvas técnica da Divisão da Cultura, e António
França, Técnico Superior, acompanhados pelo P.e Manuel Pires Bastos, pároco de
Ovar e licenciado em História, e por Gabriel Pereira, Mestre em Arqueologia.
Desta
visita foi publicada a seguinte notícia no "João Semana":
"O
edifício de propriedade particular, é modesto, mas rico em história. Desabitado
há mais de um século[7], degrada-se a olhos vistos, com
telhados abatidos. A mesma sala de culto, considerada um exemplar excecional do
criptojudaísmo, merece – exige – uma rápida intervenção"[8].
A proposta de
classificação do Haron como de Interesse Público é aceite em 5 de maio de 2015[9], enquanto a do restante
espaço foi arquivada[10].
Notas:
[1] Internet, 05/06/12 (12h52).
[2] "João Semana", 15/06/2012.
[3] http://portugal e os judeus. blogspot.pt
[4] Ver http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2012/06/culto-judaico-em-s-vicente-de-pereira.html.
[5] Pesquisas por nós avançadas nos livros de assentos
paroquiais de S. Vicente, mostram-nos haver essas ligações desde finais do
século XVI, com topónimos de caráter bíblico.
[6] Ofício de 09/01/2015.
[7] É possível que a partir do século XVII o culto judaico
fosse ali diminuindo, por as novas gerações judaicas se terem integrado na
vida católica da freguesia.
[8] "João Semana", 01/04/2015.
[9] Edital 383/2015.
[10] Despacho do Diretor Geral da DCDC, de 12/10/2016.Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março e 1 de abril de 2019)





































