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7.6.18

Capelas do Furadouro (1759-1968)

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2016)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Antecedentes – O Furadouro
O termo “Furadouro” relacionado com a costa de Ovar aparece citado documentalmente pela primeira vez em 1354, num texto relativo a Cabanões, cujo domínio se estendia “da foz do Vouga até ao Furadoiro”, numa época em que, formada a ria, as suas águas, aprisionadas, sem barra definida, abriam brechas no cordão litoral que as separava do mar[1].
A primeira Capela (oratório em madeira, 1759-1766?)
A primeira ermida, erigida em pleno areal do Furadouro, era em madeira, e teve como objetivo acolher, em 14 de Outubro de 1759, um domingo, as imagens do Senhor da Piedade e de N.ª Sr.ª do Livramento dos homens do mar, que ali chegaram em procissão vindas da Capela de Santo António, da vila de Ovar, ali celebrando a primeira Missa o respetivo Pároco, vigário João Bernardino Leite de Sousa[2]. (Por essa época não havia moradores fixos no Furadouro, e em Ovar acabavam de ser implantadas as Capelas dos Passos). Segundo uns, o pequeno templo situava-se numa zona hoje submersa pelo mar, para lá do rebentamento das águas[3]. Segundo outros, estaria implantado na mesma duna onde se veio a construir a capela seguinte, de pedra.

A 2.ª capela, de porta voltada para o mar, e a 3.ª capela, frente à marginal,
ambas flageladas e engolidas pelas vagas

A segunda Capela (“Capela velha”, 1766-1936)
Logo em 1766 foi erigida ao cimo da rua de acesso à praia (atual Avenida Central) e na duna mais ocidental da costa, uma capela de pedra e cal, qual sentinela do mar, em forma de forno, a que acoplaram, a sul, uma sacristia com a porta voltada para a praia, então povoada de algum casario constituído por palheiros e barracos de madeira que se foram estendendo, a partir dali, ao longo do areal, então muito mais extenso do que hoje. Ao longo dos anos, esta capela, dedicada ao Senhor da Piedade, tornou-se o ex-libris do Furadouro, imortalizada em postais turísticos.
Entretanto, as moradias de tábua foram sendo engolidas pelas vagas, e a própria capela, molestada pelas ondas, foi ameaçando ruína. Em 1917 ainda se celebrou ali missa pelas intenções da companha do arrais Valente[4]. Cingida, em 1935, por um anel-miradouro, imprudentemente construído em cimento armado, viria a ser derrubada pelas águas em 22/02/1939[5], com a perda da cruz de pedra com a imagem do Senhor da Piedade, acabando os seus alicerces por serem totalmente submersos em 1940[6].

A terceira Capela (“Capela nova”, 1890-1958)
Em 1887, dada a exiguidade do segundo templo e por a sua configuração não ser consensual, é iniciada uma campanha de angariação de fundos para a construção de uma nova capela dedicada a Nossa Senhora o Livramento, a qual, com ajuda camarária, viria a ser erigida ao cimo da rua O Jornal Comércio do Porto[7] (paralela à Avenida Central, do lado do norte)[8], com a entrada voltada para terra, a nascente, tendo-se realizado a sua bênção em 24 de setembro de 1890, e tendo-lhe sido instalado, em 1925, o guarda-vento antigo da capela de Santo António.
Em 1929 falava-se em construir uma esplanada entre as duas Capelas para “substituir a palheirada que corre para o sul”[9].
Esta terceira capela (da Sr.ª da Piedade), que que o autor destas linhas frequentou na década de 40, e que passou a ser flagelada pela fúria do mar a partir de 1946 (com a destruição da sacristia e a deterioração da parede sul), viria a ser demolida em 1958.

Salão de culto dominical
Em finais de 1957, devido ao avanço do mar e à degradação da capela nova, os atos de culto religioso passaram a ter lugar nas instalações da antiga fábrica de conservas “A Varina”[10], a sul da praia, edifício em madeira de 1905 (na foto), que o industrial Júlio Mateiro adquirira para apoio da colónia balnear do Centro Vidreiro do Norte de Portugal, de Oliveira de Azeméis e que foi berço do Centro de Promoção Social do Furadouro.

Quarta Capela (a Igreja atual do Furadouro, 1968)
Idealizada em 1948, com anteprojeto de 1950 do Arquiteto Januário Godinho e um primeiro projeto (edifício com cripta) de dezembro de 1958, a atual Igreja só viria a concretizar-se após um segundo projeto (sem cripta) e um terceiro aprovado em 18 de agosto de 1964, seguindo as normas litúrgicas saídas do Concílio Vaticano II, prevendo uma Igreja mais larga, sacristia e torre, um salão e uma residência para o pároco. (A primeira missa foi celebrada em 23 de junho de 1968, e não se chegaram a construir o salão e a residência).

NOTAS:
[1] Sobre a etimologia e origem do Furadouro, cf. Alberto Sousa Lamy “Monografia de Ovar”, vol. I, Lamy Laranjeira, “O Furadouro – O Povoado, O Homem e o Mar”, C.M. Ovar, 1984; “A antiga Capela do Senhor da Piedade”, Mário Miranda, “João Semana” de 1/8/1994, “Furadouro – uma terra com passado e com futuro”, Comissão de Melhoramentos do Furadouro, Ovar, 2000.
[2] Ver mais pormenores em Pinho, João Frederico Teixeira de, “Memórias e Datas para a História de Ovar”, Ovar, 1959, pág. 206.
[3] J. S, 15/03/1948.
[4] “João Semana”, 11/11/1917.
[5] O “João Semana” de 02/03/1939 relata o acontecimento. Em dezembro de 1863, foram destruídos “32 palheiros firmados na costa”, e em 1887, mais 18. Em 1912 foram 200. Lamy Laranjeira, “O Furadouro”.
[6] P.e Miguel de Oliveira “Em memória do Senhor da Piedade”, Noticias de Ovar, 9/11/1967. Ali se afirma que no novo Palácio da Justiça de Ovar há uma sugestão da antiga Capela do Furadouro.
[7] Assim denominada desde 1881, por decisão da Câmara, grata pelo apoio dado por aquele jornal às vítimas de um grande incêndio na localidade. Pelo mesmo motivo, foi dado o nome de “Bombeiros Voluntários de Ovar” à rua central. Ainda em 1891 (ano em que foi feita uma procissão de Ovar ao Furadouro por motivo de grande seca), a ligação desta com Ovar ainda era feita através de areias soltas.
[8] Em 1869 foi construída, em macadame, a estrada entre a vila e a praia, com termo frente à capela, permitindo a utilização de carruagens para passageiros.
[9] “O Povo de Ovar”, setembro de 1929.
[10] Inaugurada em maio de 1905, como sucursal de “A Varina”, de Ovar.
  
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de novembro de 2016)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/06/capelas-do-furadouro-1759-1968.html

19.10.16

O Baldim do Furadouro

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2003)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Quem, nascido depois dos anos 40, frequenta, hoje, a zona sul da praia do Furadouro, não faz ideia nenhuma de como era a paisagem e o ambiente que se vivia naquela época por essas paragens. Antes de surgir a toponímia em vigor – parte dela atribuída em finais do séc. XIX e outra posteriormente, até aos nossos dias, com a abertura de novos arruamentos –, a zona sul da praia era denominada “o Baldim”, nome mantido numa rua actual.
Era ali que estavam instalados os armazéns dos mercantéis, nalguns dos quais se preparava e comercializava o peixe, e noutros se tratava e se expunha, para venda, o escasso, adubo natural composto por restos do pescado.
Era também naquele local que se concentrava a maior quantidade de palheiros habitados pelos pescadores, os quais chegavam a ficar quase soterrados, com areia até ao telhado, quando os ventos mais fortes a sacudiam e a arrastavam contra eles. As abegoarias, onde as companhas guardavam o gado e os apetrechos da pesca, completavam a paisagem daquela zona piscatória, praticamente vedada a veraneantes.
A Rua das Companhas (antiga zona do Baldim), ao sul da Praia, nos anos 40. Repare-se
no piso de areia e no barco da Companha ali estacionado, para se proteger das marés vivas
A praia de lazer, essa era no norte, onde se situavam as barracas dos banheiros e se pescava com menos frequência, deixando os banhistas mais libertos do incómodo dos bois enquanto puxavam as redes, e do peixe estendido no areal. Essa azáfama acontecia no sul, onde as ruas que hoje conhecemos como Mercantéis, dos Lavradores, das Companhas, etc., a partir da Avenida Tomaz Ribeiro para o lado do mar, tinham como piso a areia da praia, e ali descansavam, muitas vezes, os barcos, refugiados das marés vivas que galgavam a praia e a fustigavam com as suas águas turbulentas.
No lugar onde se encontra a casa pré-fabricada da Capitania, perto do actual Café Concha, mas um pouco mais para junto do mar, que ao tempo estava bastante afastado da costa, havia uma grande elevação de areia formada por uma duna que tinha início em frente da actual Rua dos Mercantéis e se prolongava até ao elegante chalé do Sr. Matos. Esse sítio elevado era conhecido por Alto das Praças, por ali se encontrar um armazém do peixe dum conceituado negociante de pescado conhecido por esse nome.

Como numa gare de estação, onde as pessoas descansavam e conversavam enquanto não chega o comboio, também no Alto das Praças os mercantéis e mercantelas, as peixeiras e as mulheres que trabalhavam nas lotas da sardinha sentavam-se a conversar, enquanto não avistavam no mar as calas ou arinques que indiciavam a breve chegada da rede. Havia então conversas as mais variadas!... Falava-se de tudo ali. Dos negócios do peixe, de acontecimentos trágicos, de infidelidades conjugais. E contavam-se anedotas, algumas com muito sentido de humor, que causavam gargalhadas a muita gente. Lembro-me do Sr. Mendonça, um negociante de escasso que, quando se ria, fazia-o com tal intensidade que as suas gargalhadas contagiavam todos os presentes. Era mesmo frequente ouvir-se dizer: - “Ó mulher, parece que tens as gargalhadas do Sr. Mendonça!”.
Quando se aproximava a saída do lanço, e porque as conversas não chegavam ao fim, fazia-se a despedida com um “logo na rede eu te conto o resto!...”
Os armazéns da sardinha dos mercantéis – todos no sul e perto da praia, para que o peixe acartado pelas mulheres à cabeça levasse o menor tempo possível a transportar desde a lota – estavam distribuídos pelas Ruas do Comércio, dos Mercantéis, dos Lavradores e das Companhas. Nos anos 40, dois deles postavam-se em pleno areal da praia, onde actualmente só existe mar. Eram os armazéns de Eduardo Vilas e do Soares.
Ainda mais para sul, seguindo a mesma rota, e perto da costa, ficava o lindo palheirão do Palavra, construído em cima duma duna, rodeado de chorões.
Consumados os lanços com a venda dos lotes aos mercantéis, e depois de acartado o peixe para os respectivos armazéns, ecoava naquelas redondezas da praia uma enorme vozearia, cujos sons mais pareciam uma sinfonia musical. Era o falatório dos pescadores, o pregão das peixeiras, o murmúrio do mar, o toque das campainhas ao pescoço dos bois no seu contínuo labor, o tinir dos martelos repregando as caixas com a sardinha que saía dos armazéns em laboração, os pescadores cantando o “Bendito” no arribar dos barcos, o piar das gaivotas sobrevoando as redes. Esses momentos de magia, feitos de som e beleza, ainda hoje perduram na minha memória. Como perdura o sabor das sardinhadas que se realizavam em plena Rua dos Mercantéis, ao tempo Bartolomeu Dias, toda composta de areia.
Livro à venda na Secretaria da Paróquia de Ovar
Uma grande fogueira, que mais parecia a do São João, acesa e alimentada com canastras burriqueiras e caixas velhas usadas no peixe, servia para assar as sardinhas há poucas horas saídas do mar e que agora serviam de refeição para as pessoas que trabalhavam no armazém, saboreadas de mistura com a boroa do Jerónimo do Carregal e regadas com o vinho da loja do Couto e de outras tabernas do Furadouro.
Ao recordar a praia do Sul do Furadouro dos anos 4º, apetece-me dizer como o poeta António Nobre, numa época ainda mais distante, quando, em Paris, recordava as romarias e procissões da sua pátria: “Qu’é dos pintores do meu país estranho,/ Onde estão eles que não vêm pintar?”
Hoje, quem visitar ou frequentar esta zona do Furadouro, já não distingue a praia do Sul da do Norte, porque ambas se converteram em estância balneares que, no Verão, se enchem de gente, gozando o seu belo areal. Um areal com menos poesia do que outrora, já sem bois, sem barcos, sem redes, e sem o barulho mágico que ecoava e se esvaía no ar!...

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2003)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/10/o-baldim-do-furadouro.html

18.6.16

O Furadouro e o Mestre Pintor Adriano Sousa Lopes

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2016)
TEXTO: Manuel Cascais de Pinho e F. P.

O pintor Adriano Sousa Lopes junto ao seu quadro “Os Pes­cadores”

Na capa do “João Semana” de 15 de setembro de 2015 publicámos uma foto com o pintor
Adriano Sousa Lopes junto da sua obra “Os Pes­cadores”, que retrata a pesca artesanal em Ovar, e deixámos a seguinte pergunta no ar: alguém poderá fazer luz sobre a sua localização?
Como a resposta tarda a chegar à nossa redação, vamos partilhar com o leitor alguns excertos de um texto da autoria do saudoso Manuel Cascais de Pinho, intitulado “O Furadouro e o Mestre Pintor Sousa Lo­pes”, e que veio a lume no “Notícias de Ovar” de 30 de abril de 1970:

“(...) esse chalé, do ilustre vareiro António Valente de Almeida quan­do, no verão desse já muito distante 1927, ali passou uma temporada (cer­tamente curta) o pintor já de muito renome, Sousa Lopes (Adriano) que, muito pouco tempo depois e por o Grande Mestre Columbano atingir o limite de idade, viria a ser nomeado Director do Museu Nacional de Arte Contemporânea.
(...) Ora aquele cha­lé e o palheiro do Pinto Palavra, situados num alto plaino, dominavam por isso uma vasta orla da praia que então fica­va lá em baixo a umas boas dezenas de metros e para onde se descia por uma inclinação tornada mais suave, certamente pelo caminhar constan­te, safra após safra, das mulheres transportando à cabeça, em canastras, a sardinha "vivinha do nosso mar" para aquele armazém (como acontecia aliás para com os ou­tros) onde era então em fresco acamada em caixas ou se, salgada em dornas, muitos dias depois prensada em barricas mas que, num e noutro caso iriam, levadas pelo caminho de ferro (que movimento então, dado pela indústria de pesca, não tinha nesses dias a nossa estação!...) espalhar­-se pelo Alto Douro, Trás-os-Montes, Beira Alta e Beira Baixa, já que não havia, como hoje, camionetas a transportá-la em curto espaço de tempo para qualquer ponto.

Estudo para Pescadores (vareiros do Furadouro)

(...) Ora foi nesse verão de 1927, e nesse alto com ampla vista sobre a praia onde se desenrolava a faina piscatória, que Sousa Lopes montava o seu cavalete e onde, absorto no seu trabalho e indiferente aos olhares que um ou outro mirone para lá lançasse, ia transmitindo à tela o colorido do nosso mar em fundo e, em primeiro plano, uma faceta da vida dos nossos pescadores tal como os seus olhos viam e a sua alma de artista, que o era e grande, o soube interpretar.
Ali nasceu, e assim, o seu quadro Os Pescadores ou Os Pescadores do Furadouro que esteve, ou ainda estará no Museu de Arte Contemporânea”.

Já se sabe que esta obra de Sousa Lopes não se encontra no referi­do Museu. Onde estará a célebre tela sobre a Arte Xávega? Se algum leitor tiver essa preciosa informação, envie-nos, por favor, um e-mail para jornaljoaosemana@sapo.pt. Ovar agradece! F. P.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/06/o-furadouro-e-o-mestre-pintor-adriano.html

ADENDA -----------------------------------------


Capa do jornal "Notícias de Ovar (30 de abril de 1970)


Leia AQUI o texto da primeira página

Leia AQUI a continuação do texto (pág. 8)

3.11.15

Os veraneantes do Furadouro nos anos 50

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2014)
TEXTO: Dulcídio Pereira Vaz Pinto

Marc Boyer afirma que em França, após 1950, se assistiu a uma grande procura de praias até então ignoradas. De facto, a partir dessa época, a vulgarização do gozo de férias permitiu a um número crescente de habitantes gastar algum do seu tempo de lazer anual numa estadia na praia. Alain Corbin é da mesma opinião, lembrando que na França, Alemanha e Inglaterra, o número de famílias que partia de férias aumentou consideravelmente naquela mesma década, sobretudo devido à melhoria das condições de vida então registada.

Turismo interior
Os princípios de Boyer e Cor­bin parece-nos que os poderemos aplicar aqui.
Nos anos 50 do século XX nos meses de verão, a praia do Furadouro, à semelhança de tantas praias do Litoral Norte de Portu­gal, atraía muitos veraneantes às suas areias finas e quentes.

Veraneantes na praia do Furados. Anos 50

Longe das praias de eleição da Granja e de Espinho, “(…) o mo­vimento de turistas em visita à Ria e ao Furadouro cresce de dia para dia.” (Atas da Junta Turismo, 2 de julho 1953, livro 622, folha 82).
Ovar, terra de camponeses e pescadores, acolhia no Furadouro muita gente vinda de Oliveira de Azeméis e de São João da Madeira. De facto, as populações destes concelhos limítrofes começaram, nos anos 30, a passar uns dias de descanso nesta praia, cujos fre­quentadores mais assíduos eram, até então, os ovarenses.
Depois de concluídas as co­lheitas agrícolas, os lavradores da vizinhança frequentavam a praia desde o início de Outubro até finais de Novembro, na grande maioria dos casos vindos a pé, trazendo consigo alforges de farnéis para a estadia, passando o dia em barra­cas alugadas ou palheiros. Os de São João da Madeira e Oliveira de Azeméis vinham por Válega, chegando a Ovar por volta das 6,30 da manhã, a pé ou em grupo, cantando e dançando durante o caminho até ao Furadouro. Muitos destes veraneantes permaneciam no Furadouro quinze, vinte ou 30 dias.
Nos anos 40/50, a vila de Ovar assistia, maravilhada, à passagem de um grupo especial de intrépidos veraneantes que, regularmente, na época estival, vinha de Cucujães apeado e eivado de alegria, não deixando ninguém indiferente por onde passava.
Vestidos de preto e de bati­na solta, desinibidos, em passo acelerado, seguiam em “elevado número” (Jornal João Semana, nº 1, p.6, 2010), em direção ao Fura­douro. A população da vila parava para admirar a passagem daqueles alegres jovens que, aos olhos de quantos os viam passar, irradiavam frescura e boa disposição.

Os estrangeiros
Quanto a estrangeiros, ilustres industriais ingleses e suecos por lá passaram. Foi o caso, em 1951, dos “Sr. Otto Carlson, um dos prin­cipais diretores da Fagerata Bank Aklleboleg – talvez o maior con­sórcio de fábricas de aço da Suécia – e engenheiros Thomas Tyrar e Henry Carr, técnicos das importan­tes fábricas de aço de Jassop Savil­le, de Sheffield, Inglaterra, de cujas firmas era representante, no nosso país, a fábrica de Ovar F.Ramada. Talvez em consequência disso, os representantes do Hotel Mar e Sol receberam, nesse ano, uma carta dum importante industrial de Birmingham, Inglaterra, pedindo informações sobre alojamentos, para visitar o Furadouro no próxi­mo ano em Agosto, acompanhado de sua família (Jornal Notícias de Ovar, nº 123, p.3, 1951).

O Furadouro, a norte, com o Hotel Mar e Sol ao fundo. Mais a nascente, nasceria o
Parque de Campismo do núcleo campista de S. João da Madeira

Hotel Mar e Sol
Em 1955 a praia do Furadouro estava “a ser percorrida de norte a sul por uma extraordinária onda de turistas franceses e de outras nacionalidades.” (Atas da Junta de Turismo, 3 Outubro 1955, livro 623, folha 76). Em face disso, houve, por parte das autoridades locais, a preocupação de proibir a criação de porcos nos currais junto à praia, como vinha sendo hábito até então, dado que o cheiro nauseabundo que provocavam, era deveras incomodativo aos banhis­tas em geral.

A mendicidade
A praia, como local público, atraía gente de toda a condição, desde lavradores a pessoas de melhor condição económica, e até mendigos à procura de esmola (uns para matar a fome, outros para se embriagarem nas tavernas junto à praia).
Houve sempre a preocupação de banir estes pedintes, de forma a não causar má imagem à praia e não importunarem os banhistas. “Acabe-se com o triste espetá­culo que todos os dias se oferece aos olhos dos banhistas.” (Jornal Notícias de Ovar, nº 361, p. 2, 1955). Os pedintes eram, na sua grande maioria, pescadores, gente que passava fome quando a safra era fraca: “nada ali podiam fazer que lhe aguentasse a vida difícil.” (Maria Adelaide Godinho Arala Chaves, 2008). A situação era grave, em virtude de ser elevado o número de mendigos a “inva­direm” a zona do areal à procura de esmola, chegando ao ponto de a Junta de Turismo do Furadouro oficiar ao Capitão do Porto de Aveiro a solicitar “que seja feito o policiamento da zona destinada aos banhistas, geralmente invadida por pedintes e maltrapilhos.” (Atas da Junta de Turismo 11 de Julho 1947, Livro 621, folha 16).
Talvez para alterar esta ima­gem, que deixava tudo na mesma em relação aos pescadores, foi dada ênfase à célebre lei do pé descalço (Jornal João Semana, nº2356, p.4, 1959), que pugnava pela proibição de andar descalço na via pública a partir de Janeiro de 1958. O Dr. Francisco de Vale Guimarães, Governador do distrito Civil de Aveiro, assim o determi­nava, “à exceção dalgumas zonas entre as quais a ocupada pelos pescadores.” (Jornal João Semana, nº 2284, p. 3, 1957).
De qualquer modo, era grande a preocupação das autoridades locais ovarenses em promover as boas maneiras na população de Ovar, inclusive chamando a aten­ção para alguns indivíduos que, aos fins-de-semana, se embriaga­vam, e que, com linguagem obs­cena, importunavam quem junto deles passava. Numa clara alusão ao movimento turístico nessa al­tura, especialmente a praia, numa terra como Ovar, tão visitada, “por pessoas distintas, numa vila tão reclamada como região turística, não fica bem que alguns homens ofereçam o triste espetáculo de se exibirem embriagados nas ruas da vila.” (Jornal João Semana, nº 2293, p.4, 1958).
Estas achegas, de teor sociali­zante, evidenciam que já nos anos 50, na altura do Verão, Ovar era muito visitada por veraneantes dos concelhos limítrofes, e não só.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2014)

1.1.14

Os vareiros são como os pardais...

De inverno, são humildes e submissos;
de verão, não conhecem vivalma…

Jornal JOÃO SEMANA (15/02/2013)
TEXTO: Serafim de Oliveira Azevedo

Era assim que o meu Pai de­sabafava, depois de ter autorizado aquele homem, descalço e vestido de maneira diferente, a apanhar pinhas, durante mais um ano, no pinhal da casa.
Era eu pequeno, criancinha ainda. Mas aquele dito de meu Pai caiu mal no meu goto e, a partir daí, sempre que surgia uma oca­sião, logo eu procurava descobrir a razão de tal máxima, observando atentamente as pessoas de Ovar, e a melhor maré foi quando o Adalber­to Murteira, com permissão de seus pais, me convidou para passar uns dias com ele e com a mãe na sua casa do Furadouro. Foram uns dias em cheio: um fartote de praia. De norte para sul, tudo foi bem obser­vado, minuciosamente espiolhado. Mas faltava-nos uma coisa: ir no barco com os pescadores, observá­-los na sua espinhosa lide.

Uma aventura no mar
Combinámos comprar um Português Suave cada um, e, antes de começarem a sua faina, oferecê­-los àquele que nos parecesse ser o manda-chuva da companha, e pedindo-lhe se nos deixava ir com eles no barco. E a coisa foi mais fá­cil do que se esperava. Apetrechos em ordem…, e lá chegou o nosso embarque. Foram três momentos marcantes: a saída do barco, o momento do retorno, e a chegada. Que impressionante o remar do barco no retorno: tudo tão certinho, aqueles músculos retesados, aquele cântico de louvor a Deus… Aquilo não era um cântico, era uma oração cantada em voz tão alta, que, de certeza, era ouvida no Céu.
Quando contei isto à minha Mãe, ela aproveitou para me di­zer: – “Quem quiser amar a Deus, não diga que não tem tempo. Pode andar no seu serviço e trazer Deus no pensamento”. Como era uma mulher incansável, aproveitava todos os motivos para me pôr do lado de Deus. Tenho de lhe agra­decer essa dádiva.

Anos 40. Apetrechos em ordem... e lá chegou o nosso embarque

Mas voltemos ao trabalho, àquilo que nesse dia nos levou à praia, à concretização do nosso sonho. Metidos no barco, breve­mente começámos a assistir à sua invasão: foram 46 homens – que, para a nossa idade, para o nosso tamanho, eram autênticos gigantes –, que logo se dirigiram aos seus lugares e se prepararam para a ultrapassagem do mar de banco, pois o barco já estava bem à beira mar, para aí levado com o engenho e a força dos homens do mar e dos homens de terra.
Tivemos sorte, pois o barco venceu, de uma vez, o mar de ban­co. Depois, foi ver correr a corda e a rede até que esta chegasse ao saco. Lançado este ao mar, era chegado o momento do regresso a terra.
Tem graça que nunca nos pas­sou pela cabeça o receio de um desastre. Aqueles homens inspira­vam-nos tanta confiança, que nada nos assustava. A apreciação que eu tinha ouvido do meu pai, essa é que se afundou na parte mais profunda do trajeto daquele lanço.

A festa do regresso
Já de volta, foi um regalo ver as boias a flutuar, as gaivotas a perseguir-nos, atraídas pela fartura de peixe a saltar dentro da rede bem cheia.
Chegados a terra, o bulício foi outro. Homens, mulheres, crianças, tudo apareceu, tudo concentrou a sua atenção no recheio da rede puxada para fora das águas por ho­mens e bois alheios a todo este bur­burinho. Enquanto uns pescadores iam juntando a corda que ia saindo da água, outros iam recolhendo o peixe mais grado.
Saco fora da água, foi a hora da lota, do leilão. Concentrei toda a minha atenção no leiloeiro, mas não apanhei nada. O homem des­fiava uma cantilena e entregava o peixe. Mas só ele e o comprador se entendiam, sem os protestos de ninguém.
Que lindo dia, que bênção do céu foi mais este dia passado com o meu colega de carteira, meu amigo para sempre, o Adalberto Murteira!
Este episódio foi o prelúdio da minha entrega ao povo de Ovar. Isto e o convívio com o Boaventura e o Pacheco, na Repartição das Fi­nanças da Feira, o António Sanfins e a Maria Judite, o Zeferino e o José Cerejeira, estes na tropa, e os pais dos meus primeiros alunos, os da escola de Cabanões. Estes foram os alicerces. O resto do edifício foi acabado com os pais dos alunos das Escola n.º 1 da sede do concelho e com os industriais que puseram de pé a cantina que aqueceu e saciou os estômagos das crianças necessitadas da sede do concelho. Bem hajam!

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de fevereiro de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/01/os-vareiros-sao-como-os-pardais.html

16.11.13

Ti Chafarrica – O homem da festa

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2009)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Venho hoje falar da história do Ti Chafarrica, nome pelo qual era conhecido um famoso habitante do Furadouro. Antes, porém, quero expor algumas particularidades da zona norte da nossa Praia, onde ele viveu nas primeiras décadas do séc. XX. (Sobre a zona do sul, publiquei, no “João Semana” de 15 de Junho de 2003, um texto com o título “O Baldim do Furadouro”). [CLIQUE no link, a azul]

A zona norte do Furadouro
Procissão - Furadouro (1941)
Quando Mijoule veio habitar para Ovar no último quartel do séc. XVIII, trazendo consigo o novo método da conservação da sardinha pela salga e extracção do sil (óleo do peixe) por meio da prensagem, logo se começaram a erguer vários palheiros a norte e ao sul da Praia, duas zonas separadas pela Avenida Central, uma rua larga que, depois do enorme incêndio deflagrado em 31 de Junho de 1881, se passou a denominar Avenida dos Bombeiros Voluntários do Porto, como preito de gratidão de Ovar pelos valiosos serviços prestados por esta Corporação quando dessa catástrofe.
No séc. XIX já eram numerosas essas habitações que, por serem de madeira, tinham como principal inimigo os fogos, que periodicamente as destruíam, como voltou a acontecer, meio século depois, com aquele que em 5 de Março de 1925, no tempo do Chafarrica, “devorou cerca de 200 habitações, incluindo 4 grandes prédios de pedra e cal, ficando trezentas pessoas sem-abrigo e seis ruas destruídas” (Alberto de Sousa Lamy, “Monografia de Ovar”).
Lutando estoicamente contra essas vicissitudes, os nossos pescadores reconstruíram os seus palheiros para morarem, os mercantéis levantaram armazéns para prepararem o peixe, e alguns veraneantes ergueram casas de pedra e cal para passarem na praia, com mais comodidade e segurança, os meses estivais…

O palheiro do Ti Chafarrica, ao norte do Furadouro, é o primeiro da direita, com varanda

Até aos anos 20 do século passado, a costa do Furadouro, de norte a sul, era área piscatória, devido ao grande número de Companhas existentes.
No jornal “A Pátria” de 3 de Outubro de 1912 pode ler-se que de 1 de Janeiro a 30 de Setembro do referido ano, trabalharam seis companhas: Sr.ª do Socorro, Boa Esperança, Maria do Nascimento, S. José, República e S. Pedro.
Mais tarde, já na decadência da pesca no Furadouro, depois dos anos 30, e quando havia apenas duas companhas a laborar – S. Pedro e Sr.ª do Socorro –, essa actividade passou a ser exercida com maior intensidade no sul, onde se encontrava a maior parte dos palheiros dos pescadores e dos armazéns dos mercantéis.
Na zona norte começavam a concentrar-se, de Junho a Setembro, os banhistas e veraneantes frequentadores da praia, sendo ali que os banheiros montavam barracas para alugarem aos seus clientes.
Lembro-me muito bem da Capela do Senhor da Piedade (capela nova), situada ao cimo da actual Rua do Jornal Comércio do Porto, com a frontaria voltada para Nascente e a traseira encostada a uma ou duas casas que seguiam na direcção do Poente, existindo ainda, entre esses prédios e as ondas do Oceano, um extenso areal com baloiços para crianças e as barracas pertencentes aos banheiros.

Praia do Furadouro

Antes de ser tragada pelas vagas em 1958, era dessa Capela Nova que saíam os andores nas Festas do Mar, saudosamente recordadas por mim por, em menino, me incorporar nas suas procissões, levando a corda com a fateixa do barquinho que actualmente se encontra no Museu.
Mais a norte deste templo e da rua a que me referi anteriormente, conheci, nos anos 40, muitos palheiros e algumas moradias de pedra e cal, que se espalhavam de forma dispersa até ao início do local onde se construiu o desaparecido Hotel Mar e Sol, sobre o qual escreverei posteriormente.
Seguindo na mesma direcção, começávamos a calcorrear as dunas, com a sua vegetação própria a espraiar-se na direcção do mar, a muitas dezenas de metros de distância da actual Avenida Infante D. Henrique…

Homem da festa
Numa dessas dunas, rodeada de chorões e junco, assentavam, bem alinhados, vários palheiros, entre os quais o do Ti Chafarrica, de que não tenho qualquer recordação. Conversando com algumas pessoas dessa época conhecedoras daquela personagem, muito estimada no Furadouro nas décadas de 20-30 e início de 40 do século passado, fiquei a saber que esse palheiro, utilizado como loja, se localizava para lá do local onde hoje termina a Avenida Infante D. Henrique, na direcção do mar (portanto hoje já dentro das suas águas, que a levaram, tal como aos outros palheiros ao lado, quando começaram a galgar a terra…)
Dizem que entre as águas do oceano e essas habitações de madeira construídas sobre as dunas havia, então, muito areal, onde descansavam os barcos das companhas que ali se ocupavam nas lides da pesca.
A popularidade do Ti Chafarrica não era somente por ter uma taverna ao norte da praia, mas sim pelo labor exercido anualmente nas Festas do Senhor da Piedade, visto que, além de tasqueiro, alugava arcos enfeitados e balões de papel para as armações das ruas, preparando, em pequenas latas, uma mistura de sebo com cera e um pavio, que depois acendia para as iluminar.

Furadouro, 1934 - Capela nova e Rua Jornal Comércio do Porto, que na data desta foto
era exclusivamente ornamentada nas Festas do Mar pelo Ti Chafarrica

A Rua da Capela Nova (actual Rua do Jornal do Comércio do Porto) era exclusivamente ornamentada e iluminada com os arcos e balões do Ti Chafarrica, que também os colocava em volta da duna onde se encontrava o seu palheiro.
Disse-me quem o conheceu que era um espectáculo ver o Ti Chafarrica, no início da noite, armado com uma escada, percorrer a rua inteira para acender as velas dentro dos balões, que várias vezes se incendiavam, especialmente quando havia vento muito forte…
Felizmente que ainda podemos hoje recordar o seu palheiro devido à colecção de antigos postais de Silva Cerveira, que constituem um verdadeiro tesouro para quem gosta de reviver a história dos seus antepassados!...
O Ti Chafarrica, pela simpatia que irradiou no Furadouro nas primeiras décadas do séc. XX e pela sua ligação às Festa do Mar, bem merece ser recordado numa rua do Furadouro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/11/ti-chafarrica-o-homem-da-festa.html

3.10.12

Almeida Garrett e a pesca do Furadouro

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2010)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Furadouro, Ovar
Quem já leu o livro “A Pesca no Furadouro – 1800-1955”, de que sou autor, e que foi editado por este jornal, tomou conhecimento da importância que teve na economia vareira a quantidade de sardinha colhida no mar da costa do Furadouro na segunda metade do século XIX e primórdios do século XX.
De um dos autores que mais escreveram sobre este tema, o Dr. Eduardo Lamy Laranjeira, transcrevemos aquilo que nos diz a este respeito em “O Furadouro – O Povoado – O Homem e o Mar”, justificando o realce que dou a essa actividade na referida época:

Pesca da Arte Xávega (Furadouro, Ovar)
“A classe piscatória vareira, nascida e residente na paróquia de S. Cristóvão, foi sempre bastante numerosa, conforme “Memórias e Datas”, que refere o número de 10 companhas em 1600 e de 6 em 1869, empregando cerca de 2000 almas, homens e rapazes. Ora, tendo em atenção o elemento feminino, mais numeroso que o masculino – umas 2400 mulheres e raparigas, não para menos –, temos que a globalidade da classe atingia, nesse ano, umas 4400 pessoas. 
O ano de 1864 acusa para o concelho 17.167 pessoas (Ovar, Válega, S. Vicente e Arada), pelo que a demografia da paróquia de S. Cristóvão devia, em 1864, apresentar entre 40 a 50% de elementos da classe piscatória”.

Isto vem a propósito da releitura que fiz recentemente do romance histórico “O Arco de Sant’Anna”, de Almeida Garrett, cujo primeiro volume foi publicado em 1845. Nele encontrei, no capítulo XIV, a seguinte passagem, alusiva a uma possível revolta devida ao descontentamento do povo do Porto:
“Sangue!... E o meu sangue é o que eles querem, os desmandados, o ruim populacho que aí se está a juntar mais basto do que um bando de sardinhas em Ovar”. 
Esta referência à faina marítima em  Ovar na primeira metade do século XIX confirma a importância que teve, naquele tempo, a costa de Ovar na pesca da sardinha, com o valor acrescentado de ter sido feita por um dos clássicos das nossas letras pátrias.
As duas primeiras fotografias que apresentamos, do início do século XX, mostram-nos como ainda há um século era basto o bando de sardinhas a saltar nas lotas ao longo do areal.

 José de Oliveira Neves junto ao que resta
do Arco de Sant’Ana, perto da Sé do Porto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE MARÇO DE 2010) 
Endereço que deve colocar numa bibliografia
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/10/almeida-garrett-e-pesca-do-furadouro.html

9.2.12

O transporte da sardinha em Ovar nos anos 30 e 40

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Até surgirem as indústrias em Ovar, na primeira metade do séc. XX, foi a agricultura e a pesca que mais contribuíram para a subsistência da sua população.
Muito se tem falado sobre a actividade piscatória na nossa costa do Furadouro, sabendo-se ter sido importante no princípio do referido século. Em 1906 já laboravam quatro companhas, e a fábrica Varina, sedeada na vila, inaugurara, no ano anterior, uma sucursal naquela praia, devido à grande quantidade de sardinha que ali se pescava.

Eram assim as lotas de sardinha no Furadouro no início do século XX
Nos anos 30 e 40 passei muito tempo no armazém de sardinha do meu avô (mais tarde dos meus tios), convivendo bastante com a azáfama da acamação do peixe em caixas ou em barricas, e via como se efectuava o transporte desse produto para a estação do caminho-de-ferro de Ovar, onde era despachada para várias terras do Douro, Beira Alta, Beira Baixa, Algarve, etc.
Nessa época, teve tanta importância o comércio da sardinha na nossa terra, e dava tanto trabalho à CP, que havia, junto à estação, um despachante exclusivamente destacado para esse serviço, que ele desempenhava numa barraca de madeira.
Cada mercantel possuía umas guias próprias, denominadas “Declaração de Expedição”, timbradas com o nome da firma, as quais, depois de preenchidas, eram entregues aos transportadores juntamente com a mercadoria, para, através delas, se fazerem os respectivos despachos.
Estrada do Furadouro nos anos 30 e 40
Recordo o nome dos homens que, em carros de bois ou carroças puxadas a cavalos, levavam o peixe desde o Furadouro até à Estação, através da velhinha estrada de piso muito degradado e irregular, poeirento no Verão e lamacento no Inverno, ladeada por enormes e frondosos eucaliptos.
Eram eles o Gris, o Pita, o Ti Zé Bolacha, o Ti Azóia (também conhecido por Regedor), o Noruega, o Belmiro, e outros mais que, sendo simultaneamente lavradores, faziam estes carretos como complemento da sua actividade normal.
O ti Bolacha, em cima da sua carroça, segurando as rédeas do cavalo, era uma figura muito engraçada. Sempre que passava por um grupo de jovens, batia com a mão na perna e exclamava: Viva mocidade!... (Muitas vezes recebia da boca dos rapazes, que gostavam de gracejar com ele, algumas respostas brejeiras!...)
Os homens que transportavam a sardinha do Furadouro para a estação do caminho-de-ferro de Ovar ficaram bastante ligados a este comércio, que foi importante para a economia da nossa terra até meados do séc. XX.
Ao recordá-los, estamos a fazer a história dos nossos antepassados e a lembrar aos mais novos uma actividade já extinta, mas que engrandeceu Ovar, levando o seu nome, marcado a fogo na madeira das caixas, através de muitas terras de Portugal.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Dezembro de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 150)


LEIA TAMBÉM: O Carregal no início do século XX – Os mercantéis de Sardinha
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21.7.11

Os pescadores de Ovar… e as pinhas

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2009)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Veio-me às mãos uma cópia do Caderno Municipal referente ao Imposto do Trabalho de 1843, com interessantes informações acerca da estrutura sócio-económica da nossa terra. Em documentos como este saciamos, ainda que muito levemente, a nossa curiosidade pelo passado que nos é comum.
Apeteceu-nos recuar no tempo e “dar uma volta” por alguns dos bairros mais característicos desta terra. Escolhemos, para início da digressão, a Rua Velha, recheada de famílias de pescadores. Intencionalmente fizemo-lo uma madrugada. Seriam umas quatro horas quando ouvimos o toque de uma buzina. O que significava? O chamamento dos pescadores para a faina da pesca. Daí a pouco começaram a abrir-se muitas portas, de onde saíam inúmeros pescadores, não poucas vezes acompanhados de filhos com a idade de onze ou doze anos.

Pesca na Praia do Furadouro, Ovar
Ainda ensonados e abotoando a roupa de todos os dias, descalços, caminhavam para a praia, percorrendo, rotineiramente, a meia dúzia de quilómetros que a separava das suas casas. Para trabalho tão duro, apenas contavam com um frugalíssimo farnel, quase sempre broa, uma talisca de bacalhau – e nem sempre –, umas sardinhas da véspera, assadas ou fritas, e, para beber, já na praia, uns copos de maduro tinto. Era assim que decorria, quase sem alterações, o dia-a-dia dos nossos pescadores. Mais tarde, este mesmo trajecto seria percorrido pelas pescadeiras, na busca de peixe para vender pelas ruas da vila, num esforço físico impressionante, em nada inferior ao dos maridos, se considerarmos certas diferenças.
Era assim que esta sacrificada gente vivia. Como ninguém, arriscavam a vida, remando pelo mar fora até o barco se perder de vista, para lançar as redes, que muitas vezes chegavam a terra com pouco ou sem pescado algum. Trabalho tão árduo, seria muito difícil de encontrar em qualquer parte do mundo, mas era assim na costa do Furadouro.

Pinhas de um pinhal do Furadouro
(FOTO: FERNANDO PINTO)
Em certas épocas do ano, mas muito especialmente quando a safra acabava, o único recurso para alguns era ir às pinhas, primeiro aos pinhais da nossa zona e, depois, bem mais longe daqui, a uns dez a quinze quilómetros dos seus casebres.
Mal agasalhados e com o estômago vazio, saíam de madrugada, levando consigo os necessários apetrechos: vara de aproximadamente x metros, com uma pequena peça na ponta, a que davam o nome de tramelo, para derrubar a pinha, dois rapichéis, um bordão, e não sabemos se mais alguma coisa.

Pinhal do Furadouro (zona norte)
(FOTO: FERNANDO PINTO)
Chegados ao pinhal, toca a trabalhar no duro, sempre com receio de a qualquer momento surgir o dono e implicar com os intrusos, a quem, por vezes, ameaçavam com as autoridades, só abrandando a ralhação quando os pobres pescadores evocavam os filhos, que não tinham uma côdea de pão para matar a fome. Perante uma verdade latente e de todos conhecida, os donos dos pinhais aí moderavam os seus ímpetos, viravam as costas e lá os deixavam acabar o trabalho.
Quando acabavam as pinhas ao pé da porta, o rumo era a zona nascente: Souto, Cucujães, S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis, etc, etc. Então, o pior de tudo era o regresso, com o bordão aos ombros, balançando os dois rapichéis cheios de pinhas verdes, que pesavam como chumbo. Porque a caminhada era penosa, de vez em quando tinham que dar um jeito ao bordão para aliviar um pouco as dores nos ombros, continuando a descer, numa passada que chegava a parecer de corrida, dando, por vezes, a impressão de que os passos eram ritmados para tornar o fardo menos pesado.
Chegados à sua terra e antes de entrarem em casa, iam vender o produto do seu trabalho, as pinhas, a pessoas que depois as abriam ao sol para delas extraírem o pinhão que era vendido a negociantes, geralmente do Porto, para sementeira de pinhais.

Pescadores com as cangalhas de pinhas, perto do Carregal
(FOTO: ALBANO SÁ PINTO)
Muitas vezes observámos a chegada desses pescadores da zona dos Campos. Estamos a vê-los suados e alquebrados pelo auto-esforço despendido num trabalho penoso e arriscadíssimo quando iam ao mar – com idas de três e até quatro lanços. Não acreditamos muito que pessoas doutras latitudes se esforçassem mais para sobreviver. Quanto à vertente das pinhas, interrogamo-nos se essa tarefa não seria mais própria de escravos…
Esta descrição, feita ao correr da pena, está ainda longe da realidade vivida por toda essa gente humilde que, infelizmente, foi acusada de madraça e pouco amiga de trabalhar. Nada de mais injusto e desumano, podemos afirmá-lo, tendo em conta que conhecemos de muito perto quase todos os habitantes do Poço de Baixo, e, da minha rua, a família Dara. Gente honesta, trabalhadora e sociável, respeitada por todos os vizinhos.
E para todos os que se comprazem em dizer mal dessa classe, que nunca soube o que era a ajuda do Estado – salvo em míseras proporções e já bastante tarde –, devemos lembrar que no tempo em que não havia um bocado de pão para tragar, as casas de Ovar tinham as fechaduras apenas no trinco, sendo facílimo praticar qualquer furto – a não ser no caso das pinhas, mas isso é outra história, que não foi ainda contada a sério… (A Estrumada não foi semeada só para proteger Ovar da invasão das areias, mas para fornecer lenha aos mais pobres. Cumpriu-se o que foi então deliberado pela Câmara Municipal a este respeito?)
Em anteriores apontamentos temos lembrado que seria muito oportuno que a Câmara Municipal envidasse os maiores esforços junto de qualquer Universidade para encontrar quem estude, com método científico, a vida dos pescadores de Ovar que, a partir de determinada época, debandaram para outras terras. A literatura já publicada e a documentação existente nos nossos arquivos poderão ser um bom ponto de partida para essas pesquisas sobre a diáspora vareira. A concretizar-se, esse trabalho constituiria o monumento mais ajustado a essa gente simples e trabalhadora que em muitos pontos onde aportou tão bem dignificou as suas origens. Não podemos deixar de recordar o grande contributo que já deram para a nossa história Monsenhor Miguel de Oliveira, Alberto Lamy, Eduardo Lamy Laranjeira, João Frederico e Padre Aires de Amorim. Mas poderão outros investigadores enriquecer esse contributo.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 133)

LEIA AQUI UM TEXTO PUBLICADO NA REVISTA REIS/1985 SOBRE O NOSSO COLABORADOR JOSÉ MARIA FERNANDES DA GRAÇA.

22.12.10

No tempo da Guarda Fiscal no Furadouro

Jornal JOÃO SEMANA (15/8/2009)

TEXTO: Joaquim Santos

Como diz o ditado, tristezas não pagam dívidas. Quando entro numa pequena sala de minha casa e vejo cerca de seiscentas fotografias, desde o médico ao mendigo e outros, finco meus olhos nelas, e logo me dá vontade de largar outros afazeres que tenho no meu dia-a-dia e de pegar na esferográfica e no papel para escrever um pouco sobre cada uma daquelas figuras, passando a esquecer os meus sofrimentos e achaques pessoais.
É meu dever esclarecer os leitores que não me conhecem, nem o meu trabalho, que não me julguem como fotógrafo, porque não o sou. Fui, e continuo a ser, um simples angariador de fotografias, sobretudo desde que comecei a escrever o livro “Memórias de um Vareiro dos Anos de 1930”, com o título a recordar o passado da minha vida e da de muitos outros meus conterrâneos.
Também quero lembrar que estas fotografias estão colocadas em caixas fixadas em painéis, e algumas em álbuns, dentro da sala atrás citada.
Refiro que de 3 a 15 de Agosto de 2002 fiz uma exposição com muitos destes trabalhos na sede do Clube Desportivo do Furadouro, na Avenida Central daquela praia. Ao longo desta exposição pude ver no rosto de várias pessoas quanto gostaram do meu trabalho ali presente, deixando escritas algumas bonitas dedicatórias.

Factos do passado

Porque, quanto ao futuro do nosso país e dos nossos jovens, sou um tanto pessimista, pensando que não há esperanças de melhorar, vou hoje relembrar factos do passado relacionados com um trio da Guarda Fiscal que passou por várias praias do país, incluindo a do Furadouro, constituído por elementos da mesma família.


1- António Maria da Silva Monteiro Castro, de Água Levada, freguesia de Avanca, concelho de Estarreja, onde nasceu em 1860. Dele, poucos conhecimentos retenho.


2- José da Silva Castro, nascido a 5 de Setembro de 1885, filho de António Monteiro. Em 1942, indo eu trabalhar para a empresa Colares Pinto, no Carregal, ali encontrei este José Castro, já reformado da Guarda Fiscal, exercendo o cargo de capataz daquela empresa de lacticínios, que abrangia uma área de terrenos de cultivo e pinhais calculada em seis quilómetros quadrados.
A minha convivência com ele foi longa. Apesar de tanto tempo passado – nessa altura eu era muito jovem –, ainda me lembro de alguns bons conselhos que ele me deu. Era um bom homem, excelente tocador de instrumentos de corda, que ele tocava, depois das suas horas de trabalho, nas desfolhadas do milho, nas escolhedelas de feijão, nas fogueiras e pavilhões de S. João, etc., fazendo vibrar o sangue dos velhos e dos jovens.


3- António da Silva Castro, nascido a 22 de Agosto de 1904, filho de José da Silva Castro. Convivi com este homem durante vários anos, dentro e fora do rancho “As Morenitas do Torrão do Lameiro”, onde ele tocava viola e violão. Vivia perto do Furadouro, onde moravam, lado a lado, uma das suas filhas e o filho Joaquim Castro.
Lembro que a missão da Guarda Fiscal na Praia do Furadouro era acompanhar a venda ou lota do pescado das companhas de pesca das bateiras, fazer a ronda das praias na zona que lhe competia, e outros serviços de fiscalidade à ordem do Estado português.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Agosto de 2009)