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1.3.19

Aron Hakodesh de São Vicente de Pereira

Mais do que história, o respeito

Jornal JOÃO SEMANA (01/03 e 01/04 de 2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Mais do que a história de um monumento que, pela sua singularidade arquitetónica e cultu­ral, se apresta a entrar no acervo do património nacional, pretendemos com este trabalho pôr em relevo as providenciais circunstâncias que permitiram conservar intacto, ao longo de cinco séculos, o Aron Hakodesh de São Vicente de Pereira e sublinhar o procedimento exemplar da família Martins, que desde o início do século XIX manteve devoluta aquela velha casa, merecendo especial menção os seus últimos proprietários, Padre Juiz Domingos Martins de Oliveira e Padre António de Oliveira Martins, os quais, conhecendo e respeitando a história comum do povo hebreu e do povo cristão, garantiram a preservação desse património até aos nossos dias [1].

Foi na década de 80 que passei a conhecer o P.e António Martins (27/01/1921-26/04/1989), regressado de Moçambique, que celebrava missa aos domingos, na Capela de Santo António, em Ovar. Residindo em S. Vicente de Pereira, perto da capela de São Geraldo, na casa assobradada do Rexio de Cássemes, que fora de seu tio, P.e Juiz Domingos Martins de Oliveira (17/05/1890-13704/1951), e que pertencera a seus ascendentes maternos desde o casamento, em 1816, de Manuel Martins de Oliveira (†1862), da Rua Nova de Válega, com Ana Maria Gomes da Conceição (1798-1879), esta possivelmente até aí domiciliada na velha casa térrea de origem judaica que se situa do outro lado da rua[2].

Registo de uma atafona
No quintal dessa antiquíssi­ma casa de lavoura, desabitada há pelo menos dois séculos, e onde, até há pouco se criavam galinhas e ovelhas, e onde o P.e António mantinha algumas col­meias, das quais me abastecia de mel, tive a fortuna de observar, nos anos oitenta, uma atafona desativada, com a nora e o res­petivo moinho em estado de de­gradação, o que me despertou curiosidade e me levou a falar dela ao pelouro da Cultura mu­nicipal, na pessoa da Dr.ª Ângela Castro, que levámos, posterior­mente, a visitar o local, tal como fizemos com outras pessoas ami­gas, entre as quais o P.e António de Pinho Nunes, colaborador do nosso jornal[3].

Registo fotográfico de um armário
Entretanto, ainda antes da morte do P.e António (1989), ao vasculhar um recanto da velha casa, algo de imprevisto se nos deparou: um estranho armário de pedra embutido na parede de uma pequena sala, estrutura que registei fotograficamente e que levou muito tempo a interpretar. Um lugar de oração? Um espe­cioso altar cristão? (Havia sacer­dotes na família, e até ouvi dizer que estiveram ali recolhidos sa­cerdotes fugidos da guerra civil de Espanha…)
Cheguei a interrogar-me se não seria um “altar judeu”. Mas como seria isso possível em terra profundamente católica? E nem a fotografia, que eu olhava oca­sionalmente na janela do álbum em que lhe dei destaque, respon­dia às minhas interpelações… E nas ocasionais pesquisas que fazia em S. Vicente sempre ou­via respostas negativas acerca da existência, ali, de famílias de origem judaica.
Só Lauro Santos, da família Martins, me deu o lamiré de que duas das suas tias lhe falaram de terem habitado ali “famílias judias”[4], acrescentando recen­temente (em 23 de janeiro de 2019), que também seu pai, Ho­rácio Santos, lhe falou nisso[5]. E, mais recentemente ainda, o Dr. Álvaro Ribeiro, de Maceda, deu-me a saber que o P.e Antó­nio, quando ambos frequenta­ram o Seminário do Porto, se referiu à presença de símbolos hebraicos na velha casa da famí­lia, e que conviveu, no Furadou­ro, com raparigas de S. Vicente de quem se dizia poderem ter ligação com gente judaica.
Penso que o silêncio que se mantinha sobre essa possível ligação genética explicar-se-ia por receio de reação antissemita.
Até por isso merece reco­nhecimento a atitude reservada e positiva dos dois sacerdotes Martins em relação àquele “ar­mário sagrado” que fotografá­mos, e que eles viam como sinal religioso a manter como relicá­rio da fé judaico-cristã dos re­motos moradores da casa, sendo ou não ascendentes da sua pró­pria família[6].

O Aron Hakodesh (armário da Lei)

Vários anos correram. Em 1989, quando da morte do Padre António, não deixámos de estimu­lar as autarquias locais a adquiri­rem o prédio, que pertencia, agora, a D. Matilde Trigo, para servir de Museu da freguesia. Nessa altura, como se lê na revista “Reis” de 1997, a nossa atenção centrava-se ainda na atafona, alertando para, “através de um protocolo, a restau­rarem ou a reconstruirem em local onde possa ser visitada pelo públi­co”[7] (O re­tardamento da nossa interven­ção escrita em relação com o “nicho de pe­dra de configu­ração estranha daquela secular moradia” de­veu-se ao facto de então não termos perce­bido ainda a sua origem e a sua verdadeira função.)
Por 2003, um jovem estudante de Arqui­tetura de S. Vicente de Pereira, Paulo de Carvalho, apresentou como estudo de curso o projeto de um Centro Interpretativo da lavoura a implantar ali, apre­sentando-o ao presidente da Junta de Freguesia, Filipe Mes­quita, como proposta de uma “Quinta Pedagógica”, tendo em conta a casa secular e os respe­tivos anexos, incluindo, a nas­cente, uma casa de arrumos, de muito recente construção (séc. XIX–XX), não fazendo alusão ao pentassecular “armário” da pequena sala[8].
Filipe Mesquita, a quem, por diversas vezes, falara da velha casa como ideal para se tornar es­paço museológico da freguesia, acabou por apresentar à Câmara a proposta do jovem arquiteto, mas sem resultado imediato.

Altar judaico (Sabugal)
FOTO de Rui Mendez ("Olhares/2008")
A confirmação do achado
Em abril/maio de 2012, na re­dação deste quinzenário vareiro, ao preparar o texto "Pereira" da autoria do nosso colaborador e ilustre medievalista Dr. Armando de Almeida Fernandes (rubrica “Algumas Notas Toponímicas Ovarenses”, no "João Semana" de 01/11/1993), para o reprodu­zir na internet, no sítio “Artigos do Jornal João Semana”, algo de surpreendente aconteceu. Pedin­do o diretor-adjunto do jornal, Dr. Fernando Pinto, algumas fo­tografias para ilustrar o tex­to, uma delas, precisamente aquela que tínhamos ex­posto na capa do álbum, fez ressaltar aos meus olhos, do rebordo alto da janela que a emol­durava, a ima­gem da cruz que se manti­nha no alto do armário, em­butida na parede, levando-me, de imediato, a exclamar: – “Isto não pode ser um armário. Só pode ser um altar judaico, do tempo dos “cristãos novos”[9].
Consultando a Net e buscando o sítio “Olhares”, onde Fernando Pinto partilha o seu trabalho de fotografia, logo nos apercebemos da presença de um Ekhal judaico há pouco descoberto (na foto). Estava confirmada a dedução que desde há muito vínhamos fazen­do sobre o “estranho armário” de São Vicente de Pereira.

Na Rota do Judaísmo
Fechada uma etapa nesta aventura, outra se abria. Para além de um texto elucidativo a publicar na edição do “João Se­mana” de 15/06/2012, achámos prudente ouvir pessoas ligadas às práticas judaicas, para conhe­cimento do nosso achado e para garantir o maior rigor na sua transmissão escrita.
E foi mesmo no serão dessa noite (às 0h16 do dia 5 de junho de 2012) que seguiu o primei­ro e-mail informativo, enviado para a Sinagoga de Lisboa pelo jornalista Fernando Pinto.
Dias depois, por dever ético e cívico, demos conhecimen­to destes factos ao setor cultu­ral do Município, na pessoa do Técnico Superior da Câmara Municipal de Ovar Dr. António França, que se congratulou com a notícia, assumindo a tarefa de seguir os trâmites sobre achados patrimoniais, ações a que nos re­feriremos no próximo número.

Notas:
[1] Em 1498 o Rei D. Manuel I promulgou a lei que impunha a ex­pulsão dos judeus.
[2] Maria Gomes da Conceição era filha de Manuel Gomes Rodri­gues, de Cássemes, e de Maria Joana da Conceição (1746–1833), natural de S. Tiago de Riba Ul.
[3] Jornal "João Semana" de 15/09/1994: Património invulgar ‒ Uma atafona em São Vicente de Pereira".
[4] Revista "Reis" 2014, Ovar.
[5] "João Semana”, 01/02/2019.
[6] Terá a família Martins, de Válega, pelo casamento com Ana Maria Gomes da Conceição en­troncado com sangue hebreu? Ou será que a casa entra na família por compra?
[7] Revista “Reis” Ovar, 1997, pág. 48, “SOS por uma atafona exemplar único na região”.
[8] Nunca ali habitaram os dois sacerdotes Martins, que sempre re­sidiram na casa assobradada, da fa­mília, e que usavam a aquele espaço apenas como casa de arrumos.
[9] Lei de D. Manuel I, de 598.

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(Continuação do texto de 1 de março de 2019)


Às voltas com o Ekhal
À comunicação expedida de Ovar na madrugada de 5 de junho de 2012, via internet, pelo jornalista Fernando Pinto, sobre o Ekhal de São Vicente de Pereira, respondeu o rabino de Lisboa Eliezer Shai com uma sentença pronta e radical, mas não tão negativa como parece, atendendo ao espanto que lhe terá causado a referida informação:
"No judaísmo ou seja nas sina­gogas, não há altares, a única coi­sa que poderia ser, vendo que está pegado a uma parede, seria um Ekhal, o armário onde se guardam os rolos da Torá, mas dado o tama­nho não pode ser tal coisa. Portan­to, em resumo, não é um vestígio judaico"[1].
A posterior inserção do tex­to "Culto judaico em S. Vicente de Pereira?" na internet, no sítio "Artigos do jornal João Semana", foi suficiente para, pouco depois, recebermos do mesmo rabino a opinião de que provavelmente se tratava de um Ekhal.
À Câmara, na pessoa de Antó­nio França, caberia iniciar o proces­so de reconhecimento oficial e de classificação científica deste penta­centenário Aron Akodesh (Ekhal).

Início do processo
Associações judaicas em Por­tugal entenderam por bem incluir a notícia do achado no programa do 2.º Ciclo de Cultura Judaica reali­zado em Tomar e em Belmonte, em 19 e 20 de setembro de 2012, tendo o técnico da câmara apresentado algumas fotos do Ekhal e do edifí­cio e estruturas envolventes.
Entretanto, para a certificação e classificação deste património, a Câmara fez convites a peritos em arqueologia e história para visita­rem e se debruçarem sobre a es­trutura da habitação, com o quintal e a atafona, entre os quais Gabriel Rocha Pereira, Mestre em arqueo­logia, e Elvira Mea, docente uni­versitária.
O referido texto[2], publicado no sítio "Artigos do jornal João Semana" abriu uma inesperada cla­reira no horizonte do património judaico português.
Jorge Martins, autor da obra "Portugal e os Judeus", afirmou em 2 de outubro de 2012:
"Parabéns. Fizeram um ótimo trabalho. Essa casa (esse conjun­to) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-lo, dignificá-lo e dá-lo a conhecer. Inclusivamente contactar com a Rede de Judia­rias (se a Câmara assim o enten­der)"[3].
De José Levy Domingos, da Comunidade Judaica de Belmonte, a quem também pedíramos opinião sobre o assunto, recebemos a 20 de novembro de 2012, após o seu re­gresso do Brasil, esta agradável e pedagógica missiva:
‘Caro padre Manuel Pires Shalom Uvracha!!
(…) Depois de analisar pelas fotos, esperando em breve visitar no local este EKHAL (em sefar­dita, os Askenazim dizem ARON­-AH-KODESH) que significa "pa­lácio", numa alusão ao templo de Salomão, e depois de meus conhe­cimentos nesta área por tradição familiar judaica minha e pelos si­nais que encontro, NÃO TENHO DÚVIDAS DE QUE SE TRATA DE UM HEKHAL.
É importante dizer que este tipo de armários onde era depositado o rolo da Torah existia também em casas de famílias e aqui muitas ve­zes era o local das "Torinhas" que tantas vezes saiam em procissão, sobretudo em ocasiões festivas.
É importante referir que estes armários teriam uma função de culto familiar, aliás o judaísmo é sobretudo uma religião familiar na sua essência. Foi isso que preser­vou as nossas famílias resistentes e descendentes dos judeus da In­quisição e de outras “inquisições” quantas vezes políticas, sociais e económicas.
O Ekhal habitualmente divide­-se em duas partes, a superior, onde era colocado o Rolo ou o Livro da Lei, ladeado ou não pela vela. Ao lado poderia existir uma mísula como acontece nos casos de Freixo de Espada à Cinta ou Castelo de Vide. Na parte inferior seriam colocados os elementos li­túrgicos judaicos.
A cruz que encima o armário nada mais é do que a expressiva demonstração de uma cristianiza­ção forçada naturalmente’.
Também Jorge Patrão, Secretá­rio Geral das Judiarias de Portugal, nos felicitou, em 4 de novembro de 2012, por "esta fantástica desco­berta".

A ação da Câmara
A primeira das personalidades convidadas pela Câmara Municipal a deslocar-se ao local foi a inves­tigadora da Universidade do Porto Elvira Mea, que esteve em São Vi­cente de Pereira em 26 de outubro, tendo o "João Semana" registado esta visita em 1 de novembro se­guinte, com o texto "Confirmação do culto judaico em S. Vicente de Pereira[4] com registos fotográfi­cos, e em vídeo, do jornalista Fer­nando Pinto.



A investigadora voltaria ao lo­cal em 16/11 acompanhada pelo rabino Daniel Litvak, do Porto, que afirmou, numa atitude discreta, a importância do Ekhal.
Elvira Mea aconselhou um aprofundado estudo arqueológico e a pesquisa das fontes documentais das propriedades e seus donos, e em 20/11 enviou-nos cópia do seu "Parecer sobre o Ekhal do lugar de S. Geraldo, na freguesia de São Vi­cente de Pereira, Ovar".
Em 9 de novembro, o arqueólo­go Gabriel Rocha Pereira entregou também à Câmara o seu "Informe Técnico-científico".
Falecida no verão de 2013 a proprietária, D. Matilde Trigo, perguntava o jornal "João Sema­na" em 1/10 desse ano: "Altar judaico em S. Vicente de Pereira – Por que se espera?", pedindo a classificação oficial deste Ekhal, único na nossa região, citando Jorge Martins, atrás referido, e lembrando que os atuais proprie­tários estão sensíveis ao desejo de preservar este original espólio, de acordo com as normas que vigo­ram nesta matéria, esperando que "sejam iniciadas as diligências in­dispensáveis para o levantamento arqueológico recomendado em 26/10/2012, por Elvira Mea".


Casa afidalgada, no Porto da Igreja, S. Vicente de Pereira, adquirida a uma rica família de origem judaica pelo vicentino Elias Correia de Azevedo (dos Calrotes), casado com uma judia alemã, cuja família foi vítima dos nazis

Pesquisar mais fundo
Em 01/01/2014, o "João Sema­na" publica um texto do Dr. Gui­lherme Godgel de Oliveira Santos sobre este tema, em que o nosso distinto colaborador, com ligações familiares a S. Vicente de Pereira, afirma ser "um pouco enigmático, porque não há tradição nem no­tícia de famílias de judeus ou de cristãos-novos que houvessem vivi­do em S. Vicente. Além disso, esta região não é das que mais atraíram os seguidores da Tora"[5].
Em 28 de agosto de 2014, a Câmara Municipal de Ovar pedia à D.C. Centro parecer favorável so­bre a eventual classificação, e em reunião camarária de 18/12/2014 foi deliberado abrir processo de classificação não só do conjunto que integra o Aron Hakodesh ou Ekhal[6] e o espaço restante (con­tendo a atafona).
Em 23/02/2015, na visita de Isabel Policarpo Gertrudes Branco, técnica na área do Património, foi feita uma primeira inventariação dos elementos do edificado a clas­sificar como de interesse munici­pal ou público. Participaram nesta visita os elementos da comissão técnica apresentada pela Câmara, a saber: Ana Paula Reis, chefe da Divisão da Cultura, Raquel Elvas técnica da Divisão da Cultura, e António França, Técnico Superior, acompanhados pelo P.e Manuel Pires Bastos, pároco de Ovar e li­cenciado em História, e por Gabriel Pereira, Mestre em Arqueologia.
Desta visita foi publicada a se­guinte notícia no "João Semana":
"O edifício de propriedade particular, é modesto, mas rico em história. Desabitado há mais de um século[7], degrada-se a olhos vistos, com telhados abatidos. A mesma sala de culto, considerada um exemplar excecional do crip­tojudaísmo, merece – exige – uma rápida intervenção"[8].
A proposta de classificação do Haron como de Interesse Público é aceite em 5 de maio de 2015[9], enquanto a do restante espaço foi arquivada[10].


Notas:
[1] Internet, 05/06/12 (12h52).
[2] "João Semana", 15/06/2012.
[3] http://portugal e os judeus. blogspot.pt
[4] Ver http://artigosjornaljo­aosemana.blogspot.com/2012/06/culto-judaico-em-s-vicente-de-pe­reira.html.
[5] Pesquisas por nós avança­das nos livros de assentos paro­quiais de S. Vicente, mostram-nos haver essas ligações desde finais do século XVI, com topónimos de caráter bíblico.
[6] Ofício de 09/01/2015.
[7] É possível que a partir do século XVII o culto judaico fosse ali diminuindo, por as novas gera­ções judaicas se terem integrado na vida católica da freguesia.
[8] "João Semana", 01/04/2015.
[9] Edital 383/2015.
[10] Despacho do Diretor Geral da DCDC, de 12/10/2016.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março e 1 de abril de 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/03/aron-hakodesh-de-sao-vicente-de-pereira.html

22.8.12

Restauro da imagem de São Cristóvão - Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2007)
TEXTO: Raquel Elvas(*)

Imagem de S. Cristóvão (séculos XV/XVI),
muito deteriorada, de que será feita uma
réplica que passará a ocupar o nicho
da fachada, guardando-se a antiga
Há cerca de um ano, foi apeada da fachada da Igreja Matriz de Ovar a imagem de S. Cristóvão. 
Está, como então foi anunciado, em fase de restauro. Em terras de Ovar. E nas mãos de uma técnica vareira, Raquel Elvas, especialista na matéria, que nos forneceu uma informação actualizada sobre o seu trabalho. Ela aqui fica, para conhecimento de todos.

“Está a ser alvo de intervenção pelo Atelier de Conservação e Restauro do Núcleo Museológico de Arada, a escultura de S. Cristóvão da Igreja Matriz de Ovar.
Tratando-se de uma escultura em pedra de Ançã, calcário muito poroso, com baixa resistência mecânica e elevado coeficientes de absorção de água, desde logo possui elevada susceptilidade aos agentes de alteração.
Depois de um diagnóstico ao seu estado de conservação, concluiu-se que os principais agentes de alteração da escultura têm a sua origem na cristalização de sais minerais patentes no seu interior, provocando danos mecânicos que se manifestam através de lascagem, escamação, esfoliação, pulverização, etc., e que se traduzem por fortes transformações na aparência da superfície. Foram detectadas uma série de lacunas e várias lacunas de material pétreo, assim como inúmeros repintes e preenchimentos resultantes de intervenções anteriores.
A intervenção de conservação rege-se pelo princípio da intervenção mínima, limitando-se esta ao estritamente necessário, respeitando a obra no seu aspecto estético e histórico, bem como na sua matéria original. Os tratamentos realizados e a realizar pretendem eliminar ou estabilizar os fenómenos de deterioração que a vêm prejudicando.
A intervenção iniciou-se com uma limpeza mecânica da peça, para remoção de sujidades superficiais (poeiras, teias de aranha, dejectos de pombos, etc.); remoção mecânica (a bisturi) dos inúmeros repintes existentes, tentando tornar visível a maior área de policromia original; e uma limpeza química de algumas manchas de origem biológica existentes.
O tratamento em curso é a extracção de sais solúveis, através da aplicação de pachos de pasta de papel embebidos em água desionizada, em toda a superfície da escultura.
Quando este tratamento for concluído, irão ser preenchidas todas as fissuras, procedendo-se à consolidação da escultura, melhorando a sua resistência mecânica ao introduzir modificações na sua estrutura interna, dificultando também o acesso e migração interna da água e soluções salinas prejudiciais.
Segue-se a fixação da policromia que se encontrar em destacamento, e a aplicação de uma camada de protecção, caso se verifique que o produto usado na consolidação apresenta um grau de hidro-repelência satisfatório”. (*) Técnica de Conservação e Restauro
Imagem de S. Cristóvão na frontaria da Igreja Matriz de Ovar
FOTO TIRADA NOS ANOS 90, DA AUTORIA DE FERNANDO PINTO

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE JANEIRO DE 2007)

16.6.12

Culto judaico em S. Vicente de Pereira? [Aron Hakodesh / Ekhal]

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2012)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Há cerca de 30 anos, de visita à casa do Padre António da Silva Martins, em S. Vicente de Pereira (junto à Capela de S. Geraldo), Ovar, tive o ensejo de visitar uma secular moradia que lhe coubera em herança[1] e onde se encontrava uma atafona desativada .

Casa rústica em S. Vicente de Pereira, onde se terá praticado o culto judaico
Para além do engenho e do moinho instalados no pátio da casa, a minha curiosidade foi aguçada pela singularidade da habitação que, contando alguns séculos, se apresentava em avançado estado de ruína, desde os currais (atual entrada principal) à cozinha (com o forno semidestruído) e à sala contígua, onde, frente à porta de entrada, existe um nicho de pedra de configuração estranha, embutido na parede – e portanto coeva da construção –, peça que então fotografei para memória futura (na foto).

O Aron Hakodesh (armário da Lei), com duas secções: a de cima para guardar o Livro
Sagrado, a Torah, ou Livro da Lei; a de baixo para guardar outros objetos de culto; ao alto, a cruz cristã, como nítido acrescento, identificadora da religião que, como cristãos novos (antigos judeus sefarditas) adotaram

Em uma ou outra visita posterior, e ao rever aquele imóvel, foi-me convencendo de que, mais do que um utensílio caseiro – um armário, por exemplo –, se trataria de uma estrutura religiosa, pondo mesmo a hipótese, pela sua configuração, de estar ligada ao culto judaico. Mas como poder imaginá-lo, se estávamos em S. Vicente de Pereira, uma terra profundamente católica? E desta dúvida se foi alimentando a minha curiosidade.

Interior da sala com janela para a rua

A sala (à esquerda) onde se encontra o armário da Lei (Aron Hakodesh)
e os restos da cozinha (à direita)

Há poucos dias, ao confrontar-me, uma vez mais, com a fotografia daquele achado, resolvi avançar no seu estudo, consultando a Internet.
Com a ajuda do jornalista Dr. Fernando Pinto, ao serviço do jornal “João Semana”, logo surgiu, em primeira busca – imagine-se a capacidade das novas técnicas –, no sítio dedicado a pesquisar imagens relacionadas com o judaísmo, uma estrutura arqueológica semelhante à de São Vicente de Pereira.
Fiquei com a sensação de que, finalmente, estava decifrado o enigma:
Tratar-se-á de um Aron Hakodesh, armário onde os judeus guardam, na divisão inferior, os rolos da Torah (Pentateuco ou Livros da Lei, para serem lidos durante o culto religioso), e na divisão acima o Menorah (candelabro de sete braços ou lâmpada perpétua). [CLIQUE nos links a azul]
Em posterior visita à casa, e depois de uma limpeza superficial, pude observar na divisão inferior, levemente escavados, os dois pequenos círculos paralelos habitualmente usados nestes armários como encaixe dos dois eixos em que giram os rolos da Lei, e pude constatar que a divisão seguinte, onde é colocada a Minorá, é completamente lisa.


Seria esta a configuração normal do Aron Hakodesh (ou Ekhal, na designação ibérica), que deveria ser tapado por portadas de madeira ou por uma cortina.
Nesta peça de S. Vicente de Pereira, porém, existe, ao alto, uma cruz esculturada, de cuja presença só nos apercebemos após a última visita (foto de baixo).


Trata-se de um sinal cristão revelador de que se tratava de uma família de judeus convertidos (cristãos novos, ou "marranos") que, tendo-se refugiado aqui com receio de perseguição, aqui viveram como católicos, mas mantendo, quem sabe, clandestinamente, as suas práticas judaicas.

Os dois pequenos círculos para sustentar os rolos


Esperamos que os peritos na matéria estudem e confirmem a autenticidade deste achado, capaz de chamar a São Vicente de Pereira os curiosos da arqueologia e das tradições judaicas em Portugal, e, quem sabe, para descobrir o nome da família que, para evitar a exposição pública dos grandes centro populacionais, se terá refugiado nesta terra pacata, aqui mantendo alguns cerimoniais da sua religião de origem e uma sã convivência com a população local, e, possivelmente, misturando o seu sangue e os seus genes com o sangue e os genes dos vicentinos, tal como aconteceu por todo o país, particularmente nas Beiras, onde algumas terras com tradições marcadamente cripto-judaicas se vincularam, em 10/03/2011, numa rede de Judiarias de Portugal.

CLIQUE NA IMAGEM PARA AUMENTAR

1- Cozinha; 2- Sala do armário da Lei; X (Aron Hakodesh); 3- Alpendre; 4- Estábulo; 5- Arrumos; 6- Atafona; 7- Moinho

Esta planta faz parte de um Levantamento feito em 2006 pelo Arquiteto Paulo Paiva Fonseca,
de S. Vicente de Pereira, como proposta de Quinta Pedagógica a implantar no quintal da casa,
respeitando a traça dos antigos edifícios. A fotografia mostra a janela rústica da cozinha
O pátio da casa, vendo-se o poço, o alpendre (3), o estábulo (4), arrumos (5), atafona (6)
e moinho
(7). Um pouco mais à esquerda ficam a cozinha (1) e a sala (2)
Atafona de S. Vicente de Pereira (Ovar). 
Engenho de moer grão, movimentado por tração animal, em ruínas 
A mó da atafona de S. Vicente de Pereira 

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Notas:
[1] Pertencera a seu tio, Padre Dr. Domingos Oliveira Martins, que foi Juiz em Miranda do Douro, Alijó, Lamego, Torres Vedras e Arouca. Tendo sido promovido a 2.ª classe, faleceu no Porto em 13 de abril de 1951, com 61 anos, na véspera de entrar no exercício do mesmo cargo em Penafiel. Cursou Teologia no Porto e Direito Civil em Coimbra. Era filho de António Martins de Oliveira e de Maria Rodrigues de Jesus, neto paterno de Manuel Martins de Oliveira (de Válega) e de Ana Maria Gomes da Conceição (de Cássemes, de S. Vicente de Pereira), e materno de Manuel da Silva Terra (S. Martinho da Gândara) e de Maria Rodrigues Marques (de S. Vicente).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JUNHO DE 2012)

ENDEREÇO PARA COLOCAR NUMA BIBLIOGRAFIA


ADENDA -------------------------------------------------------------------------------------------

Confirmação de culto judeu em S. Vicente de Pereira

Como esperávamos, a convicção de que em S. Vicente de Pereira se praticou o culto judaico numa casa rústica, como foi referido no “João Semana” de 15/06/2012, tornou-se-nos mais fortalecida pela palavra autorizada da historiadora Elvira Mea, quando, na manhã do dia 26 de outubro, visitou a sala onde se situa o achado arqueológico por nós sinalizado.
A ilustre visitante mostrou-se surpreendida pelo facto de toda a estrutura daquela casa de lavrador rico de há três ou quatro séculos, apesar de se encontrar em ruínas, ter conservado o seu traçado original, e  de o “altar” se manter praticamente intacto, aconselhando como trabalho urgente, e antes de uma próxima visita, uma investigação pormenorizada dos elementos em causa e uma prospeção cuidada do solo, trabalho este a ser efetuado pelo arqueólogo Gabriel Rocha.  

TEXTO: Manuel Pires Bastos
(Jornal "João Semana", 1 de novembro de 2012)

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Altar judaico vem enriquecer património vareiro

Elvira Meaprofessora da Faculdade
de Letras da Universidade do Porto 
“O altar capta a luz direta do sol e, aparentemente, tem todas as caraterísticas dos altares judaicos”, disse Elvira Cunha de Azevedo Silva Mea, doutorada em História Moderna e Contemporânea pela Universidade do Porto (na foto), apontando para o achado que tinha diante de seus olhos. “Está muito bem preservado... O facto de isto ter ficado assim também foi bom para nós... Agora precisava de saber mais coisas sob o ponto de vista arqueo­lógico e sob o ponto de vista da casa”, acrescentou a Professora, admirada com o estado de con­servação daquela espécie de altar.
Na manhã chuvosa de 26 de outubro, o Pároco de Ovar, Padre Manuel Pires Bastos, o técnico da Câmara Municipal de Ovar, António França, o presidente da Junta de Freguesia de S. Vicente de Pereira, José Filipe Mesquita, e o Padre Augusto Silva, Pároco de S. João de Ovar, estiveram em S. Vicente de Pereira, no lugar de S. Geraldo, para ouvirem da boca da­quela ilustre convidada que, real­mente, se tratava de um importan­te achado arqueológico, que vinha enriquecer o património vareiro.
“A única forma de datar isto é fazer uma escavação arqueológica para ver o que há aqui debaixo. Esta si­tuação tem de ser validada por alguém que seja da área. Há uma série de registos que têm de ser feitos. Temos de ir ao século XVI e XVII para sabermos a resposta”, adiantou António França.


“Não sei até que ponto haverá aqui materiais datáveis... Este altar tem uma coisa muito interessante: é que os outros que eu conheço são em pedra, e a pedra não é datável. Pode não ser preciso fazer escavações”, adiantou a docente, que tem como uma das principais áreas de investigação o Judaísmo, sendo membro do World Union of Jewish Studies, e autora de “O Sefardismo na Cultura Portuguesa” (1974), entre outras obras.
A secular moradia, para além do altar onde se terá praticado o culto judaico, possui uma atafona e uma mó que merecem ser recuperados. Todo estes elementos reunidos conferem àquele prédio rústico um grande valor, que poderá vir a ampliar as atuais ofertas da Rede Museológica de Ovar.

TEXTO: Jornalista Fernando Manuel Oliveira Pinto
(Jornal "João Semana", 1 de novembro de 2012)
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Rabino visita Ekhal de S. Vicente de Pereira

Um rabino erudito vindo de Israel esteve, no passado dia 16 de novem­bro, em S. Vicente de Pereira (na foto), a fim de observar o achado que apresentámos a público no jornal “João Semana” de 15 de junho de 2012 como local de culto judaico, asserção que a Professora Elvira Mea e outros peritos portugueses viriam a confirmar.

Rabino Daniel Litvak, da comunidade judaica do Porto,
 visitando o ekhal de S. Vicente de Pereira, Ovar

O ilustre visitante mos­trou-se profundamente sensibilizado perante a forma original e genuína deste oratório, a que os judeus dão o nome de Aron Hakodesh (arca sagra­da) e a que os marranos (judeus convertidos da Península Ibérica, a partir de D. Manuel I) chamavam Ekhal (arca ou tabernáculo).
Este lugar de culto, que se assemelha a cerca de uma dezena de outros existentes em Portugal, apresenta dois planos, sendo o inferior destinado a guardar o Livro Sagrado (a Torah), e o de cima a expor o candelabro de sete braços. M. P. B.

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O Rabino Daniel Litvak indicando o lugar onde se
encontrava afixada uma mezuzá (caixa que guardava
um pergaminho com passagens da Torá)
Altar judaico em S. Vicente de Pereira – Por que se espera?

Muitas perguntas nos têm sido formuladas acerca do velho edifício de São Vicente de Pereira onde existe um armário sagrado – Ekhal – onde se praticou, há alguns séculos, o culto judaico, antes ou depois da expulsão dos judeus por D. Manuel I (1496-1497).
Refira-se que este Ekhal, por nós sinalizado há vários anos e por nós identi­ficado publicamente no “João Semana” de 15 de junho de 2012, com o título “Culto judaico em S. Vicente de Pereira?”, apre­senta, sobreposto aos dois espaços regu­lares – cada um deles em forma de arco (o de cima para expor o rolo da Lei e o de baixo para guardar elementos litúrgicos) –, apresenta, dizíamos, um terceiro espa­ço, ao alto, destinado à cruz [na foto], ali implan­tada como sinal de adesão (consciente ou dissimulada) à religião católica. (Esta particularidade, muito utilizada durante o tempo da perseguição aos judeus, é hoje muito raro encontrar-se, pelo menos com a dimensão e a visibilidade deste exem­plar ovarense.)

O Ekhal e ao lado esquerdo vestígios da mezuzá
Entendemos ser tempo de fornecer aos nossos leitores algumas considera­ções complementares sobre este espaço arqueológico que, como na devida altura noticiámos, mereceu, por parte de peritos na matéria, referências tão calorosas como responsabilizadoras. Calorosas quanto à descoberta em si, e respon­sabilizadoras quanto à urgência da classificação oficial deste Ekhal, único na nossa região. (Os mais próximos situam-se no Porto e no Buçaco.)
Interior da porta de entrada, com umbral onde
se veem dois rasgos na pedra que serviriam de ritual
para os judeus que vinham do exterior
Segundo Jorge Martins, autor de “Portugal e os Judeus”, esta peça “tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo”, sendo “imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer”.
Sabemos que os atuais proprietários estão sensíveis ao desejo das autarquias locais de preservarem este original espólio de acordo com as normas vigentes que regem esta matéria.
Espera-se, por isso, que através dos legítimos possuidores ou através de protocolos entre os mesmos e as entidades competentes, sejam iniciadas as diligências indispensáveis para o levantamento arqueológico reco­mendado, em 26 de outubro de 2012, pela Professora e Historiadora Elvira Mea, da Universidade do Porto, e para o início do estudo e das obras de consolidação do edifício.

Da parte da Rede das Judiarias Portuguesas, e sabendo-se do interesse que os seus responsáveis manifestam em preservar as memórias judaicas em Portugal – tanto mais que contam com a ajuda de instituições interna­cionais –, espera-se o seu empenho em colaborar neste projeto cultural.

À Câmara Municipal, bem como à Junta de Freguesia de S. Vicente de Pereira (ou à futura União de Freguesias) competirá assegurar a defesa e o aproveitamento deste notável achado, que, pelas suas características históricas e arqueológicas, muito virá valorizar a Rede Museológica de Ovar. (Texto: Manuel Pires Bastos, publicado na edição de 1 de outubro do jornal "João Semana").
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Altar judaico exige intervenção



Vinda de Coimbra, este­ve em Ovar em 23 de fevereiro uma Técnica em Património (na foto) para reconhecimen­to do altar ju­daico por nós identificado há três anos (“João Semana” de 15/06/2012) e, posteriormente, observado por peritos na matéria, entre os quais Elvira Mea, da Uni­versidade do Porto, e Daniel Litvak, Rabino da Comunidade Judaica da mesma cidade.



O edifício, de propriedade particular, é modesto, mas rico em his­tória. Desabitado há mais de um século, degrada-se a olhos vistos, com telhados abatidos. Ao menos a sala de culto (janela, na foto), considerada um exemplar excecional do criptojudaismo, merece – exige – uma rápida intervenção para que não se perca este património de interesse nacional.

Texto e foto: M. P. B.
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Património judaico à espera em São Vicente de Pereira



Nesta casa desabitada, de aspeto rui­noso, marcada por séculos de labor, berço de muitas gerações de moradores, encon­trámos, há mais de 30 anos, por indagação ocasional e sem prevenção alguma, uma pequena sala – a principal da casa – em chão de terra batida, com janela para a rua (na foto), uma porta a norte, para a cozi­nha, e outra, a nascente, para o pátio, dei­xando que a claridade dê vida, em frente, a um estranho conjunto utilitário – o único da sala – em tijolo e argamassa, embutido na parede, sugerindo um armário ou um altar. Em 2012 conseguiríamos relacionar aquela peça com o culto cripto-judaico, o que viria a confirmar-se com a presença e o aval de personalidades versadas na matéria, entre as quais o Rabino-Chefe do Porto, Daniel Litvak, que recentemente se encontrou com D. Manuel Linda, Bispo da nossa Diocese, acompanhado por outro dignitário da sua religião.

Católicos e judeus num aperto de mãos

Acaba de acontecer no Porto um encontro de grande alcance religioso, envolvendo os responsáveis locais das comunidades católica e judaica.
No Paço Episcopal desta diocese, o Bispo do Porto, D. Manuel Linda, recebeu frater­nalmente Dias Zion, presidente da Direção da Comunidade Judaica do Porto, e Daniel Litvak, reconhecido pelo Grão Rabinato de Israel como Rabino-Chefe do Porto, cuja sinagoga é a maior da Península Ibérica, numa manifestação de respeito mútuo e de colaboração em atividades de ordem social. Não esqueçamos que o relacionamento entre católicos e o povo de raiz hebraica é anterior à nossa nacionalidade, encontrando no Porto, na zona da Cordoaria, onde se acan­tonava, um clima de grande tolerância, conservando-se ainda, na Rua de S. Miguel, o edifício da antiga Sinagoga, onde, há poucos anos, se descobriu o respetivo Ekhal, ou armário da Lei, semelhante ao que se encontra em S. Vicente de Pereira, como temos referido no “João Semana”.


Nas imagens: O rabino Daniel Litvak, no recente encontro com o Bispo do Porto e quando da visita, em 2016, ao Ekhal judaico de S. Vicente de Pereira (em baixo), a que foi acrescentada, ao alto, a cruz cristã, marca do cripto­-judaismo (práticas judeo-cristãs).


Texto: Manuel Pires Bastos (jornal "João Semana", edição de 15 de outubro de 2018)



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Jorge Martins


De Jorge Jorge Martins, do sítio "Portugal e os Judeus", recebemos o seguinte comentário, que desde já se agradece:
"Parabéns, fizeram um ótimo trabalho. Essa casa (esse conjunto) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer. Inclusivamente, contactar com a Rede de Judiarias (se a câmara assim o entender).
Bom trabalho! 
Jorge Martins"

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21.9.11

Capelas dos Passos em Ovar – Monumentos de interesse nacional

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/1977)
TEXTO: A. A. C.

As actuais capelas dos Passos da vila de Ovar – Pretório, 1.ª Queda, Encontro, Cireneu, Verónica, Filhas de Jerusalém e Calvário –, sucessoras de outras, portáteis e com figuras de palha, foram começadas a construir, em pedra e cal, em 1748, estando prontas de trolharia e talha em 1755. Para a sua edificação teve de recorrer-se ao auxílio dos poderes públicos, pedindo-se em seu benefício o imposto de um real em cada quartilho de vinho que se vendesse em Ovar e seu termo. A provisão régia que tal graça concede é de 1747. Embora tenha desaparecido do arquivo da Irmandade, encontra-se memória desse documento nos livros pertencentes ao mesmo arquivo.

Capela do Calvário (Ovar)
O real custeou não só as despesas da obra mas também a compra de paramentos e alfaias de muito valor, em prata, seda e ouro, que, em parte, ainda hoje existem.
Com breves intervalos, o real correu até 1830, pelo menos, pois disso se encontra nota nos livros supra referidos, num dos quais Frei António de S. Jerónimo Ferreira escreveu à margem, em 1830: «ainda corre o rial dos Passos».
Até 1747, as mesas da Confraria eram compostas, em regra, por anónimos, presididos por um sacerdote; desde então, porém, começam a figurar nessas corporações administrativas os nomes mais graduados. Donde concluímos que, por essa data, se despertou nesta vila maior devoção e entusiasmo pelo culto dos Passos, entusiasmo e devoção que chegou às camadas superiores da sociedade ovarense, o que explica perfeitamente a ideia de levantar na rua da Amargura, mais tarde rua da Fonte e actualmente rua Alexandre Herculano, e outros locais, essa obra dispendiosa das capelas a pedra e cal.
Ignoramos quem fosse o empreiteiro delas. Só sabemos que deixaram, desde logo, muitíssimo a desejar em elegância e solidez. E assim, já em 1783 tiveram de sofrer uma reforma radical, por se acharem muito arruinadas, como o refere a acta da eleição desse ano.
É também desconhecido o autor da talha e escultura. A pintura e encarnação foram obra de António José Pintor, da vizinha freguesia de Válega, artista de fama que legou à sua família o nome de Pintor, por que é ainda hoje conhecida. A esse artista intimou o provedor de Esgueira, a pedido da Mesa, em 1760, que se esmerasse na decoração das capelas, a essa data – e ainda anos depois – inconclusas interiormente.
O trabalho de pedreiro e trolha estava pronto em 1755, como dito fica. Nesse ano a Mesa aceitou a obra, depois de a mandar vistoriar e avaliar por dois peritos que foi «procurar e buscar ao Porto», um para a talha, outro para o restante. Foi então que se começou a substituir as figuras de colmo por outras de escultura, pintadas e estofadas, aproveitando-se das antigas as mãos, pés e cabeças.
Esta reforma, iniciada em 1756, durou alguns anos, operando-se lentamente. Veio a gastar-se, em toda ela, desde 1748, conta redonda, 30 contos de reis, incluindo a compra de algumas alfaias.

Capela do Calvário
Pomos fim a este capítulo com os nomes da Mesa que geria a Irmandade quando se lançaram os alicerces das capelas e se lhes arranjaram os indispensáveis auxílios para sua construção, tornando-se benemerente e digna de menção: Padre Manuel de Resende (do Outeiro), Fernando Pereira de Carvalho, Manuel Dias (do Outeiro), Manuel de Oliveira Gomes, Bernardo Gomes Fontela (do Areal das Ribas), Manuel de Almeida Tanoeiro (da Praça), António de Oliveira Coelho (dos Campos), Dionísio de Oliveira Patola, Francisco Rodrigues Aleixo (da Ribeira), Manuel Rodrigues Treze (da Ruela), Francisco Rodrigues Lírio (da Ruela), Manuel Francisco Caramujeiro (da Ruela), Salvador Ferreira (de S. João) e José Marques (da Quinta, Guilhovai).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Abril de 1977)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 140)