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1.3.19

Aron Hakodesh de São Vicente de Pereira

Mais do que história, o respeito

Jornal JOÃO SEMANA (01/03 e 01/04 de 2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Mais do que a história de um monumento que, pela sua singularidade arquitetónica e cultu­ral, se apresta a entrar no acervo do património nacional, pretendemos com este trabalho pôr em relevo as providenciais circunstâncias que permitiram conservar intacto, ao longo de cinco séculos, o Aron Hakodesh de São Vicente de Pereira e sublinhar o procedimento exemplar da família Martins, que desde o início do século XIX manteve devoluta aquela velha casa, merecendo especial menção os seus últimos proprietários, Padre Juiz Domingos Martins de Oliveira e Padre António de Oliveira Martins, os quais, conhecendo e respeitando a história comum do povo hebreu e do povo cristão, garantiram a preservação desse património até aos nossos dias [1].

Foi na década de 80 que passei a conhecer o P.e António Martins (27/01/1921-26/04/1989), regressado de Moçambique, que celebrava missa aos domingos, na Capela de Santo António, em Ovar. Residindo em S. Vicente de Pereira, perto da capela de São Geraldo, na casa assobradada do Rexio de Cássemes, que fora de seu tio, P.e Juiz Domingos Martins de Oliveira (17/05/1890-13704/1951), e que pertencera a seus ascendentes maternos desde o casamento, em 1816, de Manuel Martins de Oliveira (†1862), da Rua Nova de Válega, com Ana Maria Gomes da Conceição (1798-1879), esta possivelmente até aí domiciliada na velha casa térrea de origem judaica que se situa do outro lado da rua[2].

Registo de uma atafona
No quintal dessa antiquíssi­ma casa de lavoura, desabitada há pelo menos dois séculos, e onde, até há pouco se criavam galinhas e ovelhas, e onde o P.e António mantinha algumas col­meias, das quais me abastecia de mel, tive a fortuna de observar, nos anos oitenta, uma atafona desativada, com a nora e o res­petivo moinho em estado de de­gradação, o que me despertou curiosidade e me levou a falar dela ao pelouro da Cultura mu­nicipal, na pessoa da Dr.ª Ângela Castro, que levámos, posterior­mente, a visitar o local, tal como fizemos com outras pessoas ami­gas, entre as quais o P.e António de Pinho Nunes, colaborador do nosso jornal[3].

Registo fotográfico de um armário
Entretanto, ainda antes da morte do P.e António (1989), ao vasculhar um recanto da velha casa, algo de imprevisto se nos deparou: um estranho armário de pedra embutido na parede de uma pequena sala, estrutura que registei fotograficamente e que levou muito tempo a interpretar. Um lugar de oração? Um espe­cioso altar cristão? (Havia sacer­dotes na família, e até ouvi dizer que estiveram ali recolhidos sa­cerdotes fugidos da guerra civil de Espanha…)
Cheguei a interrogar-me se não seria um “altar judeu”. Mas como seria isso possível em terra profundamente católica? E nem a fotografia, que eu olhava oca­sionalmente na janela do álbum em que lhe dei destaque, respon­dia às minhas interpelações… E nas ocasionais pesquisas que fazia em S. Vicente sempre ou­via respostas negativas acerca da existência, ali, de famílias de origem judaica.
Só Lauro Santos, da família Martins, me deu o lamiré de que duas das suas tias lhe falaram de terem habitado ali “famílias judias”[4], acrescentando recen­temente (em 23 de janeiro de 2019), que também seu pai, Ho­rácio Santos, lhe falou nisso[5]. E, mais recentemente ainda, o Dr. Álvaro Ribeiro, de Maceda, deu-me a saber que o P.e Antó­nio, quando ambos frequenta­ram o Seminário do Porto, se referiu à presença de símbolos hebraicos na velha casa da famí­lia, e que conviveu, no Furadou­ro, com raparigas de S. Vicente de quem se dizia poderem ter ligação com gente judaica.
Penso que o silêncio que se mantinha sobre essa possível ligação genética explicar-se-ia por receio de reação antissemita.
Até por isso merece reco­nhecimento a atitude reservada e positiva dos dois sacerdotes Martins em relação àquele “ar­mário sagrado” que fotografá­mos, e que eles viam como sinal religioso a manter como relicá­rio da fé judaico-cristã dos re­motos moradores da casa, sendo ou não ascendentes da sua pró­pria família[6].

O Aron Hakodesh (armário da Lei)

Vários anos correram. Em 1989, quando da morte do Padre António, não deixámos de estimu­lar as autarquias locais a adquiri­rem o prédio, que pertencia, agora, a D. Matilde Trigo, para servir de Museu da freguesia. Nessa altura, como se lê na revista “Reis” de 1997, a nossa atenção centrava-se ainda na atafona, alertando para, “através de um protocolo, a restau­rarem ou a reconstruirem em local onde possa ser visitada pelo públi­co”[7] (O re­tardamento da nossa interven­ção escrita em relação com o “nicho de pe­dra de configu­ração estranha daquela secular moradia” de­veu-se ao facto de então não termos perce­bido ainda a sua origem e a sua verdadeira função.)
Por 2003, um jovem estudante de Arqui­tetura de S. Vicente de Pereira, Paulo de Carvalho, apresentou como estudo de curso o projeto de um Centro Interpretativo da lavoura a implantar ali, apre­sentando-o ao presidente da Junta de Freguesia, Filipe Mes­quita, como proposta de uma “Quinta Pedagógica”, tendo em conta a casa secular e os respe­tivos anexos, incluindo, a nas­cente, uma casa de arrumos, de muito recente construção (séc. XIX–XX), não fazendo alusão ao pentassecular “armário” da pequena sala[8].
Filipe Mesquita, a quem, por diversas vezes, falara da velha casa como ideal para se tornar es­paço museológico da freguesia, acabou por apresentar à Câmara a proposta do jovem arquiteto, mas sem resultado imediato.

Altar judaico (Sabugal)
FOTO de Rui Mendez ("Olhares/2008")
A confirmação do achado
Em abril/maio de 2012, na re­dação deste quinzenário vareiro, ao preparar o texto "Pereira" da autoria do nosso colaborador e ilustre medievalista Dr. Armando de Almeida Fernandes (rubrica “Algumas Notas Toponímicas Ovarenses”, no "João Semana" de 01/11/1993), para o reprodu­zir na internet, no sítio “Artigos do Jornal João Semana”, algo de surpreendente aconteceu. Pedin­do o diretor-adjunto do jornal, Dr. Fernando Pinto, algumas fo­tografias para ilustrar o tex­to, uma delas, precisamente aquela que tínhamos ex­posto na capa do álbum, fez ressaltar aos meus olhos, do rebordo alto da janela que a emol­durava, a ima­gem da cruz que se manti­nha no alto do armário, em­butida na parede, levando-me, de imediato, a exclamar: – “Isto não pode ser um armário. Só pode ser um altar judaico, do tempo dos “cristãos novos”[9].
Consultando a Net e buscando o sítio “Olhares”, onde Fernando Pinto partilha o seu trabalho de fotografia, logo nos apercebemos da presença de um Ekhal judaico há pouco descoberto (na foto). Estava confirmada a dedução que desde há muito vínhamos fazen­do sobre o “estranho armário” de São Vicente de Pereira.

Na Rota do Judaísmo
Fechada uma etapa nesta aventura, outra se abria. Para além de um texto elucidativo a publicar na edição do “João Se­mana” de 15/06/2012, achámos prudente ouvir pessoas ligadas às práticas judaicas, para conhe­cimento do nosso achado e para garantir o maior rigor na sua transmissão escrita.
E foi mesmo no serão dessa noite (às 0h16 do dia 5 de junho de 2012) que seguiu o primei­ro e-mail informativo, enviado para a Sinagoga de Lisboa pelo jornalista Fernando Pinto.
Dias depois, por dever ético e cívico, demos conhecimen­to destes factos ao setor cultu­ral do Município, na pessoa do Técnico Superior da Câmara Municipal de Ovar Dr. António França, que se congratulou com a notícia, assumindo a tarefa de seguir os trâmites sobre achados patrimoniais, ações a que nos re­feriremos no próximo número.

Notas:
[1] Em 1498 o Rei D. Manuel I promulgou a lei que impunha a ex­pulsão dos judeus.
[2] Maria Gomes da Conceição era filha de Manuel Gomes Rodri­gues, de Cássemes, e de Maria Joana da Conceição (1746–1833), natural de S. Tiago de Riba Ul.
[3] Jornal "João Semana" de 15/09/1994: Património invulgar ‒ Uma atafona em São Vicente de Pereira".
[4] Revista "Reis" 2014, Ovar.
[5] "João Semana”, 01/02/2019.
[6] Terá a família Martins, de Válega, pelo casamento com Ana Maria Gomes da Conceição en­troncado com sangue hebreu? Ou será que a casa entra na família por compra?
[7] Revista “Reis” Ovar, 1997, pág. 48, “SOS por uma atafona exemplar único na região”.
[8] Nunca ali habitaram os dois sacerdotes Martins, que sempre re­sidiram na casa assobradada, da fa­mília, e que usavam a aquele espaço apenas como casa de arrumos.
[9] Lei de D. Manuel I, de 598.

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(Continuação do texto de 1 de março de 2019)


Às voltas com o Ekhal
À comunicação expedida de Ovar na madrugada de 5 de junho de 2012, via internet, pelo jornalista Fernando Pinto, sobre o Ekhal de São Vicente de Pereira, respondeu o rabino de Lisboa Eliezer Shai com uma sentença pronta e radical, mas não tão negativa como parece, atendendo ao espanto que lhe terá causado a referida informação:
"No judaísmo ou seja nas sina­gogas, não há altares, a única coi­sa que poderia ser, vendo que está pegado a uma parede, seria um Ekhal, o armário onde se guardam os rolos da Torá, mas dado o tama­nho não pode ser tal coisa. Portan­to, em resumo, não é um vestígio judaico"[1].
A posterior inserção do tex­to "Culto judaico em S. Vicente de Pereira?" na internet, no sítio "Artigos do jornal João Semana", foi suficiente para, pouco depois, recebermos do mesmo rabino a opinião de que provavelmente se tratava de um Ekhal.
À Câmara, na pessoa de Antó­nio França, caberia iniciar o proces­so de reconhecimento oficial e de classificação científica deste penta­centenário Aron Akodesh (Ekhal).

Início do processo
Associações judaicas em Por­tugal entenderam por bem incluir a notícia do achado no programa do 2.º Ciclo de Cultura Judaica reali­zado em Tomar e em Belmonte, em 19 e 20 de setembro de 2012, tendo o técnico da câmara apresentado algumas fotos do Ekhal e do edifí­cio e estruturas envolventes.
Entretanto, para a certificação e classificação deste património, a Câmara fez convites a peritos em arqueologia e história para visita­rem e se debruçarem sobre a es­trutura da habitação, com o quintal e a atafona, entre os quais Gabriel Rocha Pereira, Mestre em arqueo­logia, e Elvira Mea, docente uni­versitária.
O referido texto[2], publicado no sítio "Artigos do jornal João Semana" abriu uma inesperada cla­reira no horizonte do património judaico português.
Jorge Martins, autor da obra "Portugal e os Judeus", afirmou em 2 de outubro de 2012:
"Parabéns. Fizeram um ótimo trabalho. Essa casa (esse conjun­to) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-lo, dignificá-lo e dá-lo a conhecer. Inclusivamente contactar com a Rede de Judia­rias (se a Câmara assim o enten­der)"[3].
De José Levy Domingos, da Comunidade Judaica de Belmonte, a quem também pedíramos opinião sobre o assunto, recebemos a 20 de novembro de 2012, após o seu re­gresso do Brasil, esta agradável e pedagógica missiva:
‘Caro padre Manuel Pires Shalom Uvracha!!
(…) Depois de analisar pelas fotos, esperando em breve visitar no local este EKHAL (em sefar­dita, os Askenazim dizem ARON­-AH-KODESH) que significa "pa­lácio", numa alusão ao templo de Salomão, e depois de meus conhe­cimentos nesta área por tradição familiar judaica minha e pelos si­nais que encontro, NÃO TENHO DÚVIDAS DE QUE SE TRATA DE UM HEKHAL.
É importante dizer que este tipo de armários onde era depositado o rolo da Torah existia também em casas de famílias e aqui muitas ve­zes era o local das "Torinhas" que tantas vezes saiam em procissão, sobretudo em ocasiões festivas.
É importante referir que estes armários teriam uma função de culto familiar, aliás o judaísmo é sobretudo uma religião familiar na sua essência. Foi isso que preser­vou as nossas famílias resistentes e descendentes dos judeus da In­quisição e de outras “inquisições” quantas vezes políticas, sociais e económicas.
O Ekhal habitualmente divide­-se em duas partes, a superior, onde era colocado o Rolo ou o Livro da Lei, ladeado ou não pela vela. Ao lado poderia existir uma mísula como acontece nos casos de Freixo de Espada à Cinta ou Castelo de Vide. Na parte inferior seriam colocados os elementos li­túrgicos judaicos.
A cruz que encima o armário nada mais é do que a expressiva demonstração de uma cristianiza­ção forçada naturalmente’.
Também Jorge Patrão, Secretá­rio Geral das Judiarias de Portugal, nos felicitou, em 4 de novembro de 2012, por "esta fantástica desco­berta".

A ação da Câmara
A primeira das personalidades convidadas pela Câmara Municipal a deslocar-se ao local foi a inves­tigadora da Universidade do Porto Elvira Mea, que esteve em São Vi­cente de Pereira em 26 de outubro, tendo o "João Semana" registado esta visita em 1 de novembro se­guinte, com o texto "Confirmação do culto judaico em S. Vicente de Pereira[4] com registos fotográfi­cos, e em vídeo, do jornalista Fer­nando Pinto.



A investigadora voltaria ao lo­cal em 16/11 acompanhada pelo rabino Daniel Litvak, do Porto, que afirmou, numa atitude discreta, a importância do Ekhal.
Elvira Mea aconselhou um aprofundado estudo arqueológico e a pesquisa das fontes documentais das propriedades e seus donos, e em 20/11 enviou-nos cópia do seu "Parecer sobre o Ekhal do lugar de S. Geraldo, na freguesia de São Vi­cente de Pereira, Ovar".
Em 9 de novembro, o arqueólo­go Gabriel Rocha Pereira entregou também à Câmara o seu "Informe Técnico-científico".
Falecida no verão de 2013 a proprietária, D. Matilde Trigo, perguntava o jornal "João Sema­na" em 1/10 desse ano: "Altar judaico em S. Vicente de Pereira – Por que se espera?", pedindo a classificação oficial deste Ekhal, único na nossa região, citando Jorge Martins, atrás referido, e lembrando que os atuais proprie­tários estão sensíveis ao desejo de preservar este original espólio, de acordo com as normas que vigo­ram nesta matéria, esperando que "sejam iniciadas as diligências in­dispensáveis para o levantamento arqueológico recomendado em 26/10/2012, por Elvira Mea".


Casa afidalgada, no Porto da Igreja, S. Vicente de Pereira, adquirida a uma rica família de origem judaica pelo vicentino Elias Correia de Azevedo (dos Calrotes), casado com uma judia alemã, cuja família foi vítima dos nazis

Pesquisar mais fundo
Em 01/01/2014, o "João Sema­na" publica um texto do Dr. Gui­lherme Godgel de Oliveira Santos sobre este tema, em que o nosso distinto colaborador, com ligações familiares a S. Vicente de Pereira, afirma ser "um pouco enigmático, porque não há tradição nem no­tícia de famílias de judeus ou de cristãos-novos que houvessem vivi­do em S. Vicente. Além disso, esta região não é das que mais atraíram os seguidores da Tora"[5].
Em 28 de agosto de 2014, a Câmara Municipal de Ovar pedia à D.C. Centro parecer favorável so­bre a eventual classificação, e em reunião camarária de 18/12/2014 foi deliberado abrir processo de classificação não só do conjunto que integra o Aron Hakodesh ou Ekhal[6] e o espaço restante (con­tendo a atafona).
Em 23/02/2015, na visita de Isabel Policarpo Gertrudes Branco, técnica na área do Património, foi feita uma primeira inventariação dos elementos do edificado a clas­sificar como de interesse munici­pal ou público. Participaram nesta visita os elementos da comissão técnica apresentada pela Câmara, a saber: Ana Paula Reis, chefe da Divisão da Cultura, Raquel Elvas técnica da Divisão da Cultura, e António França, Técnico Superior, acompanhados pelo P.e Manuel Pires Bastos, pároco de Ovar e li­cenciado em História, e por Gabriel Pereira, Mestre em Arqueologia.
Desta visita foi publicada a se­guinte notícia no "João Semana":
"O edifício de propriedade particular, é modesto, mas rico em história. Desabitado há mais de um século[7], degrada-se a olhos vistos, com telhados abatidos. A mesma sala de culto, considerada um exemplar excecional do crip­tojudaísmo, merece – exige – uma rápida intervenção"[8].
A proposta de classificação do Haron como de Interesse Público é aceite em 5 de maio de 2015[9], enquanto a do restante espaço foi arquivada[10].


Notas:
[1] Internet, 05/06/12 (12h52).
[2] "João Semana", 15/06/2012.
[3] http://portugal e os judeus. blogspot.pt
[4] Ver http://artigosjornaljo­aosemana.blogspot.com/2012/06/culto-judaico-em-s-vicente-de-pe­reira.html.
[5] Pesquisas por nós avança­das nos livros de assentos paro­quiais de S. Vicente, mostram-nos haver essas ligações desde finais do século XVI, com topónimos de caráter bíblico.
[6] Ofício de 09/01/2015.
[7] É possível que a partir do século XVII o culto judaico fosse ali diminuindo, por as novas gera­ções judaicas se terem integrado na vida católica da freguesia.
[8] "João Semana", 01/04/2015.
[9] Edital 383/2015.
[10] Despacho do Diretor Geral da DCDC, de 12/10/2016.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março e 1 de abril de 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/03/aron-hakodesh-de-sao-vicente-de-pereira.html

2.2.19

S. Vicente de Pereira – Famílias do Rexio de Cássemes

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Ao consultarmos os livros paroquiais de S. Vicente de Pereira, iniciados em 1589, fomo-nos apercebendo da importância histórica e linguística de alguns topónimos da freguesia, bem como da singularidade das suas famílias. Saber-se que na fidalguia portuguesa se apontam os Azevedos como originários do lugar de Azevedo, desta freguesia, que na Idade Média se chegou a chamar Pereira de Susã (isto é, Pereira de Cima, por oposição geográfica a Pereira Jusã, ou Pereira de Baixo, em Válega)?

A entrada para o Rexio, a partir da Rua Padre Juiz Domingos Martins de Oliveira

Outro lugar de destaque é Cássemes, que nos séculos XVII e XVIII nos aparece com várias designações aditivas: Rexio de Cássemes, Barreiras de Cássemes (1731), Lagoa de Cássemes (“lugar da Lagoa”), Relva do lugar de Cássemes (1731), Termo de Cássemes (1747) e Lavoura de Cássemes (1842).
No Rexio situa-se a casa que foi dos Alves (até cerca de 1820?) e, depois dos Martins, e que, antes, foi residência de uma família judaica.

Rexio (ou Rossio?) de Cássemes
Rossio significa logradouro público. (Em Aveiro foi recinto de feiras, e em Lisboa transformou-se num centro cosmopolita).
O Rexio

Rexio significa terreno lamacento. Dado serem essas as caraterísticas do local a norte e a nascente da rua com esse nome (embora ali erradamente escrito "Rochio"), deveria ser esse o espaço partilhado por algumas famílias locais – Vaz, Fernandes, Alves, Gomes, Martins, Herdeiro –, e onde, a nascente, fica a Capela de São Geraldo, implantada por Rafael Valente, em 1656, e logo na estrada, para norte, Cássemes, Relvas e Torre.
Saída do Rexio

Vaz/Alves (Álvares)
O mais antigo Vaz por nós encontrado no “Rexio” é Domingos Vaz, casado com Catarina Jorge, pais de Lourenço Vaz, que viria a casar com Paula Álvares[1].
Deste casal viria a nascer Manuel Alves, que casou com Maria Francisca da Cruz[2], de Cássemes, sendo seus filhos António da Cruz (casado, em 01/01/1784, com Maria Rodrigues de Jesus[3], residente no Rocio de Cássemes e Maria Alves da Cruz, casada em primeiras núpcias com António Rodrigues dos Santos, e, depois de viúva, com José Joaquim Gomes Leite, residentes em “S. Geraldo”)[4].

Herdeiros/Fernandes
Esperança Maria, filha de António Vaz e de Maria Fernandes, do Rocio, casou em 18/01/1738 com Diogo de Oliveira, tendo sua neta Ana Maria de Oliveira[5] casada com João Francisco Herdeiro, do Rocio[6].
No Rexio moraram João António e Domingas Fernandes, bem como seu filho António Fernandes, casado com Sebastiana Fernandes, de Cássemes, bem como o filho deste casal, António Rodrigues dos Santos († 1790), e sua esposa, Maria Alves da Cruz[7], pais do Sargento Manuel Rodrigues da Cruz, que viria a casar com Ana Maria da Luz de Jesus, filha de José Fernando Morgado e de Maria Rosa, da Devesa.

Gomes
Manuel Gomes e Maria Luís, do Rocio de Cássemes, foram pais de Mariana Gomes, casada no lugar do Outeiro com Manuel Fernandes[8], e avós maternos de Rosa Maria, que viria a casar, em 30/11/1781, com Manuel Álvares, filho de Manuel Alves e de Maria Francisca da Cruz, de “Cássemes”, atrás referidos.
Maria Luís, filha de Manuel Gomes e de Maria Luís, do Rocio, casou, em 30/04/1741, com Mateus Gomes, filho de António Gomes e de Maria Gomes, de Cássemes.

Martins
P.e Juiz Domingos Martins de Oliveira, que 
foi proprietário da casa do Aron Hakodesh 
(† 13/05/1951, com 61 anos)
Manuel Martins de Oliveira, filho de Domingos Martins e de Teresa Maria de Oliveira, da Rua Nova, Válega, veio casar em S. Vicente com Ana Maria Gomes da Conceição, do Rocio de Cássemes[9].
Tiveram a seguinte geração: Maria Gomes da Conceição (n. 10/11/1818), Luísa Maria de Oliveira Martins (casada em S. Vicente com Manuel da Costa, do Lourinhal, residindo em Cássemes), Ana Maria Oliveira Martins (casada em 24/11/1853 com Manuel Gomes de Pinho, filho de Manuel Gomes de Pinho e de Maria Gomes de Pinho, e neto materno de José Alves da Cruz e de Maria Gomes de Pinho), Rosa (nascida a 29/05/1829), Manuel (n. 23/11/1819, casado em 1864 com Ana Maria Gomes), António Martins de Oliveira (n. 18/10/1821, casado com Maria Rodrigues de Jesus, pais, entre outros filhos, do futuro Padre e Juiz Dr. Domingos Martins de Oliveira, José Martins de Oliveira, e de Maria Joana da Conceição (casada com Manuel Gomes dos Santos).
Segundo informação de Lauro Martins, residente na rua do Cruzeiro de Cássemes, sua tia Ana Maria Oliveira Martins, atrás citada, terá dito que "naquela casa viveram duas famílias judias". (Possivelmente ali nascidas ou refugiadas antes do século XVIII)[10].

Notas
[1] Filha de Manuel Álvares e de Catarina Manuel, de S. Martinho [da Gândara], do “Rocio de Cássemes”.
[2] Filha de Manuel Francisco e de Isabel Fernandes, do Rexio, neta materna de Domingos e de Catarina Fernandes.
[3] Filha de António Fernandes e de Sebastiana Fernandes, de “Cássemes”, e neta paterna de João António e de Domingas Fernandes, do Rocio, e materna de Manuel Fernandes e de Maria Rodrigues, de “Cássemes”.
[4] José Joaquim era filho de João Gomes Leite, de S. Vicente, e de Rosa Maria Dias, de Ovar.
Ainda em 24/01/2018 ouvi designar como a "casa do Álves" a casa do Aron Hakodesh, que, pela sua configuração e textura material, os peritos consideram do séc. XV ou XVI. Terá passado desta família – e talvez já desabitada – para a família Martins, vinda de Válega por 1818 (há 201 anos), o que ajudará a explicar ter o "armário da lei" permanecido intacto ao longo dos séculos.
[5] Filha de Baltasar de Oliveira (1751-1828) e de Teresa Rodrigues († 1910, em Cássemes).
[6] Filho de José Francisco Herdeiro e de Maria Francisca, de Cássemes.
[7] Filha de Manuel Alves da Cruz e de Maria Francisca da Cruz, do Rocio. Casou, em segundas núpcias, com José Joaquim Gomes Leite (pai de um padre com o mesmo nome).
[8] Filho de Manuel Fernandes e de Páscoa Fernandes, de Pigeiros.
[9] Filha de Manuel Gomes Rodrigues e de Maria Joana da Conceição, do Rocio, neta paterna de João Rodrigues da Silva e de Antónia Gomes, de Cássemes, e neta materna de Manuel Gomes e de Caetana Maria da Conceição, de Vila Cova, São Tiago de Riba Ul.
[10] Em 23/01/2019 Lauro Martins reforçou esta informação que nos deu para a revista "Reis" de 2014, acrescentando, agora, que seu pai também era conhecedor de que judeus habitaram essa casa (no Rexio de S. Vicente de Pereira).

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Do “armário estranho” ao Aron Hakodesh
Em próxima edição do “João Semana” diremos aos leitores, como testemunho pessoal e para memória futura, as circunstâncias em que, na década de 80, no Rexio de Cássemes, São Vicente de Pereira (perto da capela de S. Geraldo), numa casa desabitada há mais de dois séculos, encontrei uma atafona desativada, da qual dei notícia na revista vareira “Reis” de 1997, e, algum tempo depois, descobri um armário de pedra de configuração estranha, cuja função só mais tarde entendi, por ter encontrado a resposta precisa para as interrogações que vinha fazendo e partilhando com pessoas amigas. (Ler artigo na internet, jornal “João Semana” de 15 de junho de 2012).

 Casa onde se encontra o Aron Hakodesh

"Essa casa (esse conjunto) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer. Inclusivamente, contactar com a Rede de Judiarias (se a Câmara assim o entender)." (Jorge Martins, na Internet, no sítio Artigos do Jornal João Semana ("Culto judaico em S. Vicente de Pereira?"), em 2 de outubro 2012.

Rabino Daniel Litvak, da comunidade judaica do Porto, visitando o ekhal
de S. Vicente de Pereira

“Este achado reveste-se dum inegável interesse cultural para a história de Ovar e também para o conhecimento da herança judaica em Portugal”. (Elvira Mea, em visita a S. Vicente de Pereira, em 26 de outubro de 2012).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/02/s-vicente-de-pereira-familias-do-rexio.html

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Se o leitor conhecer algum pormenor de interesse para complementar este tema (Culto judaico em S. Vicente de Pereira), agradecemos que o comuniquem para o nosso e-mail:

16.11.18

Ovar pretende oito “freguesias autónomas”

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/2018)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 3 de outubro foi aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal de Ovar uma moção apresentada pelo PSD pedindo a desa­gregação da atual União de Freguesias de Ovar (Ovar, S. João, Arada e S. Vicente de Pereira), e voltando a ser autónomas as 8 anteriores.
Achamos que o processo que deu origem a essa agregação não foi devidamente ponderado, tanto mais que evidenciou, no tocante à freguesia de São Vicente de Pereira a lamentável atribuição do termo espúrio Jusã, que desde há anos lhe vinha sendo imposto, e que pertence, efetivamente, ao lugar com o mesmo nome, Pereira, da freguesia de Válega, que, por ficar a poente (= a jusante), recebeu o determinativo Jusã (= de Baixo), e que foi, ao longo de muitos séculos, sede de concelho e município, de que restam ainda os edifícios onde se instalavam, até 1852, a Câma­ra, a Cadeia e o Tribunal. A esse concelho pertenceu, durante longo tempo, a parte poente da freguesia de S. Vicente, que aparece também denominada, em documentos da primeira dinastia de Portugal (tem­po de Afonso III e de D. Dinis), como S. Vicente de Pereira Susã (= de Cima).
A admitir um novo (mas agora inoportuno) apêndice, S. Vicente de Pereira teria de optar por Susã, e nunca por Jusã.
Uma nova reorganização admi­nistrativa das freguesias virá facili­tar a reposição da verdade histórica, geográfica e toponímica, que desde há muito se vem reclamando, resti­tuindo e fixando o genuíno nome da freguesia – S. Vicente de Pereira –, o único que os livros paroquiais utilizaram ao longo dos séculos –, e erradicando dele um termo que só por descuido ou negligência alguns funcionários públicos lhe atribuíram quando da extinção do vizinho concelho situado na vizi­nha freguesia de Válega. Erro que, apesar de já ter sido denunciado no século XIX na obra "Portugal Antigo e Moderno", do historiador Pinho Leal, foi desacertadamen­te oficializado pelo Decreto-Lei 46.139 de 31/12/1964, e assumido pelo Ministério da Justiça, cujo Centro de identificação Civil e Militar chegou ao cúmulo de pedir ao Conservador do Registo Civil de Ovar, em 03/01/1978, para lhe indi­car “a disposição legal que atribuiu à freguesia de S. Vicente de Pereira Jusã a designação de São Vicente de Pereira”, uma vez que “pelo Boletim Oficial do Ministério da Justiça a designação da freguesia é efetivamente São Vicente de Perei­ra Jusã”. (Só por essas trocas verdadeiramente inconsistentes, a Justiça de Lisboa deu trunfos à justiça de Fafe...).
É de esperar que, finalmente, faça justiça a sério numa questão de tão clara e fácil solução.

Sítio do lugar de Pereira Susã, do tempo medieval, onde foi construída a primeira igreja
de S. Vicente de Pereira (a atual igreja foi reconstruída a cerca de 100 metros)

Da História:
Um documento de 978 refere “o porto de Sancto Vicenti de peraira”, correspondente ao topónimo local “porto de Igreja” (Port. M. H.).
Das Inquirições de D. Dinis (Li­vro 4.º f.ªs 4 e verso, e 5 de 1288: “De Parochia Sancti Vicenti de Pereyra de Sosaa: nom logar que chamam Pereyra ha hũa quinta que foi de Fernam Pereira e de seus irmaos”.

Dos dicionários:
“Susã – forma feminina de Susão. Susão – adj. ant. Que está acima. Dizia-se especialmente de algumas localidades divididas em duas partes que se distinguem pela sua posição: bairro susão e bairro jusão. Fem. susã".

Sobre o assunto, ler AQUI

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de novembro de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/11/ovar-pretende-oito-freguesias-autonomas.html

5.1.18

Brigue Ovarense – "Tráfico negreiro" no século XIX

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2018)
TEXTO: Manuel Pires Bastos



Há cerca de 20 anos foi publicado por José Fernando Neves Bello o livro “A Família Oliveira Bello, de Ovar”[1], onde se encontram mais de cinco dezenas de ramos da sua árvore genealógica, particularmente da que se implantara em Lisboa, em princípios do século XX, projetando a família Bello para além das fronteiras pátrias.
Na contracapa dessa publicação vem publicada a foto de uma pintura de 1876 referente ao navio “Ovarense”, que viríamos a saber tratar-se de um brigue pertencente a dois ovarenses sócios de uma padaria em Lisboa, barco que, quando transportava 300 negros na Serra Leoa, foi aprisionado por uma corveta inglesa, sob a acusação de “tráfico negreiro”, assunto que a escritora Agustina Bessa-Luís incluiu no seu romance “Eugénia e Silvina” (1989), e cujo lastro terá sido aproveitado por Miguel Sousa Tavares como base da trama do seu romance “Equador” (2003)[2].

O brigue "Ovarense"

Tínhamos em quarentena toda esta história quando, em Ovar, há cerca de três anos, num encontro aprazado com o engenheiro Manuel Domingues Alegre de Oliveira Silva para troca de ideias sobre as investigações genealógicas que pretendia publicar, foi lembrado pelo jornalista Fernando Pinto o caso do brigue “Ovarense” e a sua inclusão no romance “Eugénia e Silvina”, o que constituiu surpresa e motivo de júbilo para o nosso visitante, por ali encontrar um valor acrescentado para o seu trabalho, que viria a documentar não só a história vivida naquele brigue, mas também todo o drama do tráfico negreiro para S. Tomé, que Miguel Sousa Tavares descreveu sem desvendar [qualquer nome vareiro a que correspondesse] a identidade dos protagonistas do seu romance, sabendo-se que nessa época o proprietário do barco "Ovarense", era Fernando de Oliveira Bello, seu trisavô paterno, nascido em Ovar em 1818, o qual, por coincidência, era casado com uma Alegre, também de Ovar, do ramo Oliveira Gomes, donde descende o Eng. Manuel Alegre .

Esclavagismo em S. Tomé
O brigue Ovarense, de 32 toneladas, foi comprado em Lisboa em 1864 pela firma Bellos & Formigaes[3], para transporte de cereal da Argentina e do Canadá para a padaria daquela sociedade, em Lisboa. Em breve passaria a rumar para outras paragens, como o Canal da Mancha (1867) e a ilha de S. Tomé (1876), desenvolvendo atividades diversificadas. É nesta última viagem, com destino a S. Tomé, com paragem por portos da Libéria e Serra Leoa, que o brigue é abordado e apresado por uma corveta inglesa, “com a acusação de tráfico negreiro”, mas, um ano depois, “proprietários, capitão do navio e agente foram ilibados da acusação, o navio restituído aos donos e paga uma indemnização pela coroa britânica”[4].

Maqueta do brigue "Ovarense" feita na atualidade sob orientação
do seu proprietário, eng. Manuel Alegre

Este episódio é evocado na “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” que informa o seguinte: “Os ingleses dificultaram muito esta fase inicial do desenvolvimento da cultura do café, que prejudicava a exportação dos seus territórios, e com pretextos de combater o esclavagismo impediam por todas as formas a transferência de negros de Angola para São Tomé, onde a mão-de-obra escasseava. O governador-geral de Angola, Sebastião Lopes de Calheiro Meneses, sustentou luta demorada com o comissário britânico Edmond Gabriel, que pretendia impedir aquelas transferências. Em 1876, por falta de braços, não se chegou a fazer a colheita do café. Foi na Libéria que se contrataram livremente dois mil e quinhentos pretos que deveriam seguir para São Tomé em navios ingleses. Estes, porém, negaram-se a fazer o transporte, pelo que foi fretado um barco nacional, o brigue Ovarense, que teve licença e alvará para ir à Serra Leoa buscar até 400 indígenas. Embarcavam o cônsul da Libéria e o agente contratador Francisco Ferreira de Morais, mas o navio foi aprisionado por suspeita de tráfico de negros. Foram julgados, não obstante as provas apresentadas da perfeita legalidade do contrato, em 9-IX-1877. Vieram a ser absolvidos por sentença do tribunal de Londres de 9-VIII-1880, que impôs indemnização aos apresadores”[5].

O brigue "Ovarense" 
Nos “Anais da Academia Portuguesa da História, Alberto Iria, no texto “Ex-Votos Marítimos Inéditos dos Séculos XVII ao XIX – Novos subsídios para a sua história” dá informação pormenorizada, de que extraímos apenas a identificação: “Brigue Portuguez Ovarense no Canal Britanico próximo de Goodwin em 1 de Dezembro de 1867”[6].

O brigue "Ovarense" reproduzido em pintura num ex-voto da
Igreja do Senhor dos Passos da Graça, em Lisboa (finais do séc. XIX)

Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela (0,75 x 0,49,5), com moldura doirada, em muito bom estado de conservação. O "Esboceto Historico/da/Veneranda Imagem/do Senhor Jesus dos Passos da Graça/ e o templo da mesma invocação" (Lisboa Typ. Lisbonense – Largo de S. Roque, 1874) registou assim, em 1874, o supracitado ex-voto: "Quadro (de pintura), representando um navio em perigo; a inscripção diz: Brigue portuguez Ovarense; no canal britanico, próximo de Gordwin, (sic) em 1 de dezembro de 1867." O P.e Ernesto Sales, na sua obra “Nosso Senhor dos Passos da Graça”, também se referiu, em 1925, a este ex-voto, especificando  que mede "0,m8 x 0,m6"[7].

O brigue em obras literárias 
Capa de "Eugénia e Silvina", obra
da escritora Agustina Bessa-Luís
O episódio do tráfico negreiro para São Tomé, de que o brigue “Ovarense” foi acusado, vem também referido numa conhecida obra literária do século XX – "Eugénia e Silvina", de Agustina Bessa-Luís –, e serviu de inspiração para outra, já do século XXI (2003) – "Equador", de Miguel Sousa Tavares, descendente de Fernando de Oliveira Bello, seu trisavô, natural de Ovar e um dos proprietários do “Ovarense” apresado em Cape Coast, atual Gana, cujo processo judicial, decorrido desde dezembro de 1876 a novembro de 1877 na Serra Leoa, então colónia da coroa britânica, vem transcrito na obra, em 3 volumes, "Foi assim que foi – a história possível dos Alegres de 570 a 2015”, do eng. Manuel Alegre [clique no link], que constitui um precioso contributo genealógico para muitos ovarenses, que ali podem encontrar as suas raízes, as mesmas que deram corpo e rosto a gente humilde e a gente ilustre hoje espalhada por todos os continentes. Eis um recorte do pequeno trecho em que Agustina nos introduz no episódio: “A acusação de esclavagismo selvagem (e outro não era mais possível) pairava pelo menos há dez anos sobre Portugal. Em 1876 o brigue Ovarense fora processado pelo Vice-Almirantado de Serra Leoa por transporte de escravos. As provas eram esmagadoras, porque havia a bordo demasiadas pipas para aguada, demasiadas esteiras e sacas de arroz, o que pressupunha mais gente a conduzir e sustentar do que a tripulação normal. O libelo mencionava grilhões trazidos de S. Tomé e escondidos no porto de Freetown. O processo girou em volta de três rapazes levados com ardil para o Ovarense, vendidos ao capitão e fechados no porão até que o brigue se fez ao largo. Gira em volta de testemunhas umas falsas, outras crédulas, outras ainda industriadas; mas o que prevalece é a suspeita arreigada de que tanto nos paquetes ingleses como portugueses se transportavam escravos para S. Tomé e aí eram desembarcados de noite e algemados. Tudo isto, não tem força histórica para interpretar a virtude dos homens quanto ao cumprimento das leis (a escravatura fora abolida em S. Tomé em 1875, mas os escravos libertos ficavam sujeitos a uma aprendizagem durante dois anos, o que os mantinha de certa forma constrangidos à condição anterior), serve apenas para traçar o quadro moral das ilhas quando João Trindade viveu lá”.

"(...) essa imigração entre colónias mais não era
do que uma forma de esconder o que não passava
de um sórdido tráfico de escravos". 

(Miguel Sousa Tavares, no romance "Equador")

Notas: 
[1] Bello José Fernando Neves, “A Família Oliveira Bello, de Ovar”, 1994, edição do autor, 144 páginas.
[2] Tavares, Miguel Sousa, “Equador”, Oficina do Livro.
[3] Fernando de Oliveira Bello, António e Manuel Rodrigues Formigal. Em 1975, a sociedade passou a chamar-se Bello & Formigaes, Lda.
[5] “Grande Enciclopédia P. e Brasileira”, vol. 27, S. Tomé e Príncipe, pág. 651.
[6] “Anais da Academia Portuguesa da História”, II Série, volume 29, Lisboa, MCMLXXXIV.
[7] Sales, “Nosso Senhor dos Passos da Graça (Lisboa). Estudo Histórico da sua irmandade com o título de “Santa Cruz e Passos”, Lisboa, 1925, pág. XVII.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2018/01/brigue-ovarense-trafico-negreiro-no.html

1.10.17

"Foi assim que foram. A história possível dos Alegre de 570 a 2015", obra de Manuel Alegre

Engenheiro Manuel Alegre
Deixando, em idade de reforma, a sua vida ativa, até então gasta em tarefas rudes do mundo profissional – engenheiro especializado em segurança no trabalho e no campo da hidráulica (Ponte de São João e Metro do Porto, portos e caminhos de ferro no Algarve, e instrução nacional de Patrões do Alto Mar), Manuel Domingos Alegre de Almeida Silva – Manuel Alegre para os amigos – não cruzou os braços nem pôs freio ao seu talento empreendedor. 
Habituado ao prazer de velejar e de escalar montanhas, aventurou-se decididamente a estruturar o mundo enredado mas sedutor da investigação genealógica, na tentativa de descobrir as suas origens e os horizontes que envolveram e moldaram a vida dos seus antepassados.
O autor sustenta que há três ramos na família Oliveira Alegre de Ovar, constituídos a partir de três irmãos, Teresa, Ventura e José Oliveira Alegre, nascidos de Francisco Oliveira Alegre e de sua esposa Andresa Maria Santos, sendo esta filha do capitão Afonso da Costa Soares de Albergaria e de Teodora Santos, entroncando, portanto, em família da nobreza antiga, com repercussão para além das fronteiras pátrias. M. P. B. (texto da 1.ª pág.)

Clique na capa para aumentar
Jornal JOÃO SEMANA (01/10/2017)
TEXTO: Fernando Pinto

«Mais do que um simples encadeamento de nomes, que a ninguém ou a muito pouco interessados diria alguma coisa, foi julgado mais interessante e, sempre que possível, juntar a esses nomes datas, factos e histórias que os transformem em pessoas com significado.» (Manuel Alegre)

Lançada no Museu de Ovar, na tarde de 16 de setembro, a obra Foi assim que foram. A história possível dos Alegre de 570 a 2015, da autoria do engenheiro Manuel Domingos Alegre de Almeida  Silva, só veio a lume graças ao apoio de Acácio Coelho, empresário de Cortegaça, um dos poucos mecenas de concelho de Ovar. 
"Trabalhei sozinho durante sete anos. Depois, esta minha obra esteve dois anos em banho-maria, até que, se não fosse este senhor que está aqui presente, o Sr. Acácio Coelho, eu não conseguia publicar este trabalho, porque a impressão dos livros custa milhares de euros", adiantou Manuel Alegre, virando-se para o empresário de Cortegaça, que abriu a sessão partilhando com as pessoas que enchiam a Sala dos Fundadores do Museu de Ovar alguns pormenores da sua família, avós paternos e maternos, bem como um episódio da sua passagem por terras de África.
"Esta tua solidariedade, Manel, trouxe-me até ti, por isso estou aqui, dando-te os meus parabéns pela obra fantástica que realizaste", disse Acácio Coelho.

Acácio Coelho, empresário de Cortegaça que apoiou a obra de Manuel Alegre


Professor Rui Lourenço

António Soares Albergaria
A obra de Manuel Alegre, como explicou Rui Lourenço Gil, Professor da Universidade Católica Portuguesa, é apresentada em três livros e um CD: o 1.º volume trata dos Alegres migrados para Tentúgal e para o Porto, nomeadamente para a Foz do Douro e para Lordelo do Ouro, e alguns destes migrados para o Brasil; o 2.º volume (II parte) aborda os Alegres que foram para Lavra, vila do concelho de Matosinhos; o 3.º volume (III, IV partes e anexos) fala dos Alegre que permaneceram em Ovar, embora alguns tenham depois migrado para os Estados Unidos e Brasil (III parte), abordando o tronco comum de todos estes ramos do Alegre, que entronca  na família Soares Albergaria, tema que foi abordado por António Soares Albergaria, apaixonado pela Genealogia; os anexos oferecem a genealogia do novo ramo Soares de Albergaria e a participação dos Oliveira Alegre na Primeira Guerra Mundial; e o CD traz documentos, como folhas de assentos (nascimentos e óbitos).
Para o Professor Rui Lourenço, este relato genealógico da família Alegre "é uma história com histórias pessoais e de circunstâncias de vida", porque não é apenas dos Alegres, mas de todas as famílias colaterais com quem os Alegres estabeleceram relações conjugais. "Em rigor, é de uma das famílias Alegre de Portugal, porque não foi possível ao autor, por muito esforço que tenha feito, estabelecer nexo com pelo menos mais duas linhas de famílias Alegre, daí o subtítulo da obra", disse o Professor Rui Lourenço.

Rui Lourenço, Inês Amorim, Manuel Alegre, Domingos Silva, Pedro Braga da Cruz,
padre Manuel Pires Bastos e Acácio Coelho, na Sala dos Fundadores do Museu de Ovar,
durante a apresentação da obra


Padre Manuel Pires Bastos
Este trabalho exaustivo do engenheiro Alegre narra "histórias de pessoas pobres e de pessoas ricas", tinha afirmado, minutos antes, na sua fecunda intervenção, Inês Amorim, Professora do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. "Quando está a falar de determinado personagem, o autor, a certa altura, apercebe-se de que ele foi piloto de um barco, e lá anda atrás das fotografias dos naufrágios, dos passageiros, das mulheres, que, normalmente, não são faladas, nem têm nada, aparentemente, a dizer. No entanto, compila-as, entrevista-as, mostra as fotografias e apresenta estas histórias." 
Segundo o P.e Bastos, estamos aqui perante uma obra de peso: "Não a pesei, mas, segundo informações, são cerca de 6 kg de sabedoria e de história, muito ligada à comunidade vareira. Toda a gente já ouviu falar das varinas, dos mercantéis, da gente ligada à pesca." O pároco local, também ele historiador, lembrou que "muitas das coisas que são ditas nesta obra estão nos livros paroquiais de Ovar, que são dos mais antigos, de 1588. 
Manuel Alegre começou por agradecer ao diretor do Museu, Manuel Cleto, e a todos os amigos que vieram de longe para assistirem a esta apresentação.


"Cheguei a trabalhar 10 horas por dia nisto, até aos sábados e domingos. Comecei pelos livros paroquiais, depois fui comprar tudo o que era monografias dos sítios; na Casa dos Pescadores de Matosinhos tive acesso a uma coisa que o Estado Novo fazia, ou seja, não havia pescador nenhum que habitasse num bairro social que não  fosse fichado, e essas fichas são uma base de dados espetacular; os jornais, os livros, os diários náuticos, os sítios na Internet.. Até andei nos cemitérios! Este meu trabalho foi uma caderneta de cromos", disse Manuel Alegre.


Durante uma hora, o engenheiro deu uma aula de genealogia (e de náutica, como se pode comprovar na foto, em que explica o código internacional de sinais utilizado pela navegação marítima e que serve de comunicação entre dois ou mais navios).
Manuel Alegre referiu ainda que os seus antepassados começaram a "saltar daqui para fora" devido à fome (escassez de sardinha) e ao paludismo (febre dos pântanos da Ria).

Américo Oliveira canta a canção "Ovar", evocativa dos valores vareiros,
 acompanhado ao piano pelo P.e Manuel Pires Bastos

Também marcaram presença na sessão Pedro Braga da Cruz, presidente do Conselho de Administração do Porto de Aveiro, e da Assembleia da Câmara Municipal de Ovar, amigo e colega de curso de Manuel Alegre (a quem coube o papel de mediador do encontro), Domingos Silva, vice-presidente da CMO, entre muitos ovarenses e amantes desta ciência chamada Genealogia.


Francisco Rafael Pinto, filho da pianista vareira Cristina Santos

O evento foi abrilhantado por trechos musicais interpretados pela pianista vareira Cristina Santos e seus talentosos filhos Francisco Rafael e Maria Pinto.


Recorde-se que Manuel Alegre tinha dado, em 28 de agosto de 2014, no Museu de Ovar, uma palestra sobre a "Família Marage", texto que pode ser consultado na Internet, em http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/01/marage-uma-familia-do-mar.html




FOTOS: Jornalista Fernando Pinto
VÍDEO: António Valente - MONTAGEM: Fernando Pinto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de outubro de 2017)