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16.8.19

Alfredo Rodrigues de Pinho – O vareiro do vinho “Rainha Santa”

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Alfredo Rodrigues de Pinho. Um nome nitidamente vareiro, que o nosso biografado só terá assumi­do, assim completo, anos depois do seu nascimento.
De facto, no registo de casa­mento com Margarida Ferreira de Pinho, celebrado na Igreja de Ovar em 9 de outubro de 1892, declara-se que fora exposto e batizado no Ora­tório do Hospital dos expostos do Porto[1], que foi criado "de leite e secco" em Espargo (Feira) pela ama Eufrásia Maria da Conceição, mu­lher de Manuel Dias de Sá, pedreiro, e a partir dos 7 anos, em Ovar, na companhia de Francisco Rodrigues de Pinho, e de Teresa de Oliveira, pescadores, da Rua do Lamarão, de quem adotou os sobrenomes e que lhe deram rumo como fragateiro.

Rodrigues Pinho & Cia.
Alfredo Rodrigues de Pinho e Margarida Ferreira de Pinho cria­ram, em 1891, a firma Rodrigues Pi­nho & Cia., destinada à exploração, comércio e exportação de Vinho do Porto[2], firma que viria a alcançar extraordinário êxito, particularmen­te com o afamado Porto Rainha Santa (na foto, em baixo). Com a redução dos apelidos Rodrigues Pinho, terá ha­vido a intenção de se demarcar de outros Rodrigues de Pinho de Ovar.

"Incalculáveis sacrifícios"
Porque um terceiro sócio, João Pereira de Carvalho, entretanto integrado na sociedade, dela se re­tirou em 1908, Rodrigues Pinho associou-se a António Fortunato de Almeida Brandão e a José Pacheco Polónia, iniciando, como Comissão Instaladora, a “Nova Companhia de Vinhos Finos do Douro”, que conti­nuou o negócio da Casa Rodrigues Pinho & Cia., tendo como diretor técnico o próprio Alfredo, e sendo a maior parte do capital constituído pela aquisição de todo o ativo da so­ciedade anterior.
Alguns desencontros (1909-1919) levaram Alfredo Rodrigues de Pinho a abandonar a nova Com­panhia, mas continuando a pedir registo de marcas Rodrigues Pinho, Lda., para que, após a sua morte, e não tendo descendentes, “não desa­parecesse uma casa que lhe havia custado incalculáveis sacrifícios”[3].
Em 1931, depois de ter compra­do o ativo e o passivo da antiga casa Rodrigues Pinho, com armazém na Rua Senhor d’Além 3 – 7, e tendo apenas como sócia a sua esposa, deixou de ter intervenção direta na sociedade, constituindo seus procu­radores, com excecionais poderes, Manuel Simões Júnior e Alfredo Gomes da Costa.

Tendo Alfredo Rodrigues de Pi­nho falecido em 6 de julho de 1947, com 77 anos de idade, em Ovar, na Rua Associação Desportiva Ovaren­se, onde vivia com a esposa, ficou esta como única herdeira e sócia maioritária de “uma sociedade co­mercial em nome coletivo de res­ponsabilidade solidária e ilimitada”, que passou a contar quatro sócios: a viúva, a sua sobrinha Teresa Rodri­gues Pinho e Costa, o marido desta, Alfredo Gomes da Costa, e António Rodrigues Sampaio[4].
Em 1949 António Rodrigues Sampaio cede parte da sua quota a Hermenerico Pinho da Costa, filho de Teresa Rodrigues Pi­nho e Costa e de Alfredo Go­mes da Costa.

A caminho da desagregação
Em 1950, por morte de Margarida Rodrigues Ferreira de Pinho[5], e com reintegra­ção de capital, Alfredo Gomes da Costa passou a sócio maio­ritário, seguido de António Rodrigues Sampaio, Herme­nerico e Teresa Rodrigues Pi­nho e Costa.
Em 1956 Hermenerico divide a sua quota com os ir­mãos Alfredo Pinho da Costa e António Pinho da Costa; em 1958 António Rodrigues Sampaio vende a sua aos restantes sócios, abandonando a firma; em 1966 Hermenerico cede parte da sua quota à irmã Maria Teresa Pinho da Costa Oliveira Duarte; e em 1974 Alfredo Gomes da Costa e Teresa Rodrigues Pinho e Costa cedem as quotas aos quatro filhos (Hermene­rico, Maria Teresa, Alfredo e Antó­nio Pinho da Costa), agora únicos sócios da empresa com o património de 5.000.000$00 (em 1917 era de 200.00$00, em 1947 560.000$00).
A estrutura do Rainha Santa foi­-se desgastando até à “solução fi­nal”, com a reorganização do grupo Martini, de que em 1988 faziam par­te a Forrester e a Rodrigues Pinho, e com a fusão deste naquele grupo (1991), sendo anulado o registo Ro­drigues Pinho & Cia. como exporta­dor, e passando os seus stocks para a Forrester & Cia. Lda.

Na vida social vareira
O “Rodrigues Pinho do Vi­nho Rainha Santa”, cognome pelo qual era referenciado em Ovar, foi um grande amigo desta terra, que reconhecia como sua, possuindo um pequeno chalé no Furadouro, praia que frequentava no Verão.
O vareirismo de Rodrigues Pi­nho ficou bem patente no legado de 300.00$00 à Santa Casa da Mi­sericórdia de Ovar (cativo de sua esposa, enquanto viva), provando que este homem, que poderia ter passado pela terra incógnito e hu­milhado, soube elevar-se, firme e bem ereto, no inseguro pedestal que lhe ofereceram à nascença.
Parece-nos, no entanto, que Ovar ainda não reconheceu de­vidamente a trajetória empreen­dedora deste vareiro, particular­mente naquela faceta que sempre andou colada ao seu perfil e ao Porto, e, por simpatia, a Ovar e ao Furadouro: o vinho Porto Rainha Santa.
A notória indiferença desde há muito tributada pela sociedade ovarense à sua memória poderá explicar a razão estranha de o seu nome benquisto não constar se­quer na bibliografia ovarense, em­bora presente em algumas notícias e em reclames dos periódicos da época.

Notas
[1] Livro de Casamentos da Paró­quia de Ovar (São Cristóvão), ano de 1892, n.º 85. Testemunhas: o P.e Fran­cisco Valente Lopes e o sacristão Fran­cisco dos Santos Adrião, casado, da rua da Fonte. O assento de óbito em Ovar (1947) refere que o nome Alfredo cor­responde ao pedido deixado junto da criança na "roda do Porto".
[2] A memória da casa regista 1895 como início da atividade
[3] Ver, na Internet, Arquivos do Arquivo Histórico A.A.F: O Caso de Rodrigues Pinho & Cia.”, por Marlene Cruz e Paula Montes Real.
[4] Este António Rodrigues Sam­paio poderá ser familiar de Francisco de Oliveira Granja (1891-1981) de alcunha Chico Sampaio ou Chico da Margarida, casado com Maria Olivei­ra Alegre (1892-1980), do Lamarão, Ovar, mestre de pesca em Matosinhos. Ver Manuel D. Alegre Almeida e Silva, "Foi assim que foram" vol. II, pág. 372.
[5] Falecida na Rua Cândido dos Reis, Vila Nova de Gaia, com fama de benemerente, em 26 de janeiro de 1950, com 79 anos, filha legítima de Manuel José Oliveira Granja e de Rosa Rodrigues Ferreira, pescadores, da Rua da Oliveirinha, Ovar, e aqui sepultada (Assento n.º 85)

Para este estudo, que há mui­tos anos me foi sugerido por Fátima Granja, e que merece ser continuado, deram o seu contributo os seguintes colaboradores do "João Semana": jornalista Fernando Pinto, Joaquim Fidalgo, António Valente e engenhei­ro Manuel Alegre.
M.P.B.
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História de vida vivida
Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2019)
TEXTO: Fátima Granja

Alfredo Rodrigues Pinho era varei­ro, casado com Margarida Ferreira de Pinho, não tendo filhos. Tinham ape­nas seis sobrinhos, um dos quais era o meu avô, que tinha o mesmo nome do pai, Francisco de Oliveira Granja.
O tio Alfredo pensou ser vinhateiro, e foi para Gaia, onde abriu umas caves em 1895. Com o seu Vinho do Porto, a que deu o nome de “Rainha Santa”, e que era muito vendido em Portugal e no estrangeiro, construiu uma grande fortuna. Os atuais sobrinhos são de 3.ª geração, sendo eu, com 75 anos, sua sobrinha neta, a re­sidir na Rua Dr. José Falcão, depois de ter vivido no Lamarão, com loja aberta, onde não faltava o vinho “Rainha Santa”.
Tive outra familiar no Porto, Teresa, irmã mais nova de meu avô Francisco de Oliveira Granja, que teve três filhos, na zona da Boavista.
Tal como o meu tio Alfredo, uma sobrinha e um sobrinho não tinham filhos. Meu tio morreu em 1947, era eu muito pequenina, pois tinha três anos. Conheci-o só por uma fotografia existente no seu mausoléu privativo do Cemitério de Ovar. (Foto, em cima. A da esposa está gasta).
Porque o tio Alfredo foi benemérito da Santa Casa da Miseri­córdia, a quem deixou 300 contos, sempre pensei, desde que tive idade para pensar na vida, que o tio fez bem, pois a Santa Casa precisava de ajuda. Era uma altura má, e ali se criavam muitos meninos e meninas, porque os pais tinham muitas dificuldades.
Toda esta história de vida me foi contada pelo meu pai, que con­viveu muito com o tio avô, o tio Alfredo, que não esqueceu os seus sobrinhos, deixando uma quantia em dinheiro – não sei quanto – a cada um.
O que também sei é que as caves passaram para o nome da sua sobrinha mais nova, uma Teresa, irmã do meu avô, Francisco de Oliveira Granja. Alfredo Rodrigues Pinho construiu uma grande fortuna, e a sua firma, teve, mais tarde, outros sócios. Os meus pri­mos, que eram três, ficaram sozinhos.
Consegui estas informações através de algumas pesquisas junto de uma pessoa amiga de Ovar, a quem agradeço.
Eu gosto de lembrar os meus antepassados, porque são um pou­co de mim, por pertencerem às minhas raízes. Todos os que crescem na vida e que vivem por bem não devem ser esquecidos. Eu penso nos meus amigos, e gostava de saber mais sobre os meus avós e bisavós do lado do meu pai, de quem nem sei os nomes. Do lado da minha mãe ainda conheci alguns. Agora o que desejo é que eles estejam no caminho do Senhor, e que os homens de sucesso nunca sejam esquecidos.

(Fátima Granja é bisneta de Manuel José de Oliveira Granja, sogro de Alfredo Rodrigues de Pinho)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de agosto de 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/08/alfredo-rodrigues-de-pinho-o-vareiro-do.html


16.11.18

Jornal “João Semana” em festa [no ano do centenário 1914-2014]

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2014)
TEXTO: José Castro

Quando em 1994 terminei a minha carrei­ra de 40 anos no Banco Nacional Ultramarino fui imediatamen­te “repescado” pelo meu amigo Dr. Pires Bastos para voltar a colaborar em atividades paroquiais, as quais tinham sido interrompidas alguns anos antes por motivos profissionais.
Contudo, a minha colaboração na Paróquia remonta aos anos 60, quando fui convidado pelo meu amigo João Costa para fazer parte de um C.P.M. (Centro de Preparação para o Matri­mónio), numa equipa “capitaneada” pelo particular amigo Dr. António José da Silva e os casais: Dr. Tigre, Joaquim Monteiro, Norberto Andrade, Teixeira e o organizador.
José Castro
Quando a organização das bi­lheteiras e entradas do Carnaval – bilheteiras e entradas, ficou à nossa responsabilidade, recaiu em mim centralizar as receitas e, já noite alta, na companhia do José Palhas e com a proteção de dois agentes da P.S.P., transportá-las para a casa-forte do banco, cuja gerência me confiava as chaves para o efeito, a fim de serem depositadas no dia seguinte.
Criado o Estatuto Paroquial, fui chamado por João Costa para colabo­rar com o Grupo de Apoio Paroquial na criação das comissões de rua que efetuavam as respetivas cobranças, casa a casa, no recolhimento e confe­rência dos valores entregues.
Nesta fase da minha colaboração acabei por ficar responsável pela con­tabilidade da Fábrica da Igreja, da qual dava conhecimento aos paroquianos através de um mapa mensal que fazia questão de afixar no átrio da Igreja.
Estamos em 1974, ano em que acabei o meu mandato de Presidente da Junta de Ovar (com S. João de Ovar) e que a minha carreira profissio­nal me obrigava a residir em Lisboa, dada a minha nomeação para o Quadro da Inspeção do Banco e, mais tarde, como gerente e como coordenador, acabando como responsável pela área operacional da Beira Alta, que incluía todas as agências da periferia da Serra da Estrela.
No “João Semana”
Foi por junho de 1994 que, ao saborear um café, se deu o convite do Padre Manuel Pires Bastos.
Senti-me moralmente obriga­do, dado que ia receber em mãos a “herança” que deixei ao meu amigo Armindo Godinho de Almeida quan­do, em 1979, lhe transmiti as mesmas funções.
Ainda vim a tempo da gestão do Jardim Infantil Alvorada, sobre o qual, numa próxima oportunidade voltarei a estas colunas.
Face às funções que passei a desempenhar nos últimos 20 anos, o meu relacionamento com o Sr. P.e Bastos era assíduo, dadas as várias frentes de atuação da Paróquia, prin­cipalmente nas obras da Igreja e no Infantário, que implicavam reuniões frequentes.
Foi nesta fase que observei a sua grande dedicação ao jornal, ao qual dispensava uma parte do dia, ora colhendo elementos, ora participando em reuniões ou eventos das várias agremiações/instituições para que era convidado.
A chegada do meu amigo Dr. Fer­nando Manuel Oliveira Pinto, atual Diretor-adjunto do “João Semana”, foi uma importante ajuda ao Diretor, permitindo, ao mesmo tempo, dar uma lufada de modernismo ao nosso quinzenário.
A minha colaboração no “João Semana” limitava-se a pouca “escrita” e a “emprestar” a minha assinatura na movimentação das contas bancárias, cujo cancelamento solicitei em 2013, quando completei os meus 80 anos de idade, prometendo à minha mulher dar por finda qualquer atividade social, até porque já tinha solicitado ao meu amigo Dr. Oliveira Dias a minha subs­tituição nos corpos sociais da Santa Casa da Misericórdia de Ovar, que servi durante 10 anos.
Termino desejando ao nosso jornal centenário e aos seus colaboradores muitos anos de vida.

Parabéns, “João Semana”.
Obrigado, Padre Bastos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 2014)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/11/jornal-joao-semana-em-festa-no-ano-do.html

4.7.17

Memória do Dr. Álvaro Esperança

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2016)
TEXTO: Eduardo Tomás Alves

1) Um ovarense adotivo, mas apaixonado
Dr. Álvaro Esperança
Passará no próximo dia 17 de abril o 117.º aniversário de nasci­mento do médico Álvaro dos Santos Esperança (1899-1988). O Dr. Es­perança viveu cerca de 70 anos em Ovar, onde foi médico, sub-delegado de saúde e político conservador nos tempos do anterior regime. Era filho de gente do centro-sul do nosso país. Seu pai (falecido em 1936) era origi­nário de Coimbra e foi contramestre das oficinas da CP em Ovar; além de adepto do líder político António José de Almeida, embora fosse católico e muito devoto da rainha Santa Isabel. Já sua mãe nascera em Santarém e tinha ligações de família ao Dr. José Frederico Pereira Marecos (1802-44), diretor da Imprensa Nacional e redator do Diário do Governo.
O Dr. Esperança nasceu em Al­cobaça (S. Martinho do Porto) e veio a falecer na cidade do Porto, em casa da sua única filha, Isabel, onde passou os últimos 8 anos de vida. A sua outra ausência de Ovar fora por causa do curso de Medicina, que fez na sua também querida Coimbra. Toda a vida, aliás, seria fanático por Ovar, pela Ria, por Coimbra e por Portugal.

2) Médico e eterno sub-delegado de saúde
Médico zeloso e competente, ocupou por quase 40 largos anos o referido cargo de sub-delegado de Saúde em Ovar, recusando promo­ções só para não se afastar da terra que tanto amou. Foi um fiscal incor­ruptível, implacável para com as frau­des e os mixordeiros. Teve também um louvor do Governo, aquando da crise do tifo-exantemático. Herdara de sua mãe o carácter e o visual algo “pombalinos”, mas tal não o impedia de ser um bom conviva, à mesa ou na pesca, o seu passatempo favori­to. Em velho, uma sua imagem de marca era também a de fumar cachimbo.

3) Foi casado com a Prof. Leonilde Coelho, da Feira
Uma beldade feirense e esti­madíssima professora primária em Ovar por cerca de 20 anos, sua esposa nascera na terra de sua mãe, Travanca, a 5 km de Ovar. Mas seu pai era o Prof. Vicente Coelho, natural de Fiães da Feira, primo do deputado republicano Dr. Elísio de Castro (1869 – 1956), o qual foi sogro da filha do famoso primeiro­-ministro Afonso Costa. D. Leonilde (que morreu com 97 anos) foi amiga íntima da mãe do cantor Manuel Frei­re e da avó do Dr. Carlos Encarnação (PSD). Outra pessoa muito chegada foi D. Romana Fragateiro, nora do Dr. Ginestal Machado, um fugaz primeiro-ministro da Primeira República (em 1923). Irmão da Prof. Leonilde foi também o notável mé­dico e político oposicionista feirense Dr. Arnaldo Santos Coelho (1913 – 2001), que foi o primeiro presidente do município da Feira depois de 1974 (não eleito), e que era primo do duas vezes autarca salazarista Dr. Domingos Coelho, da mesma Feira.

4) Dois cunhados que nunca se zangaram
A relação do Dr. Esperança, situacionista, com o Dr. Arnaldo, oposicionista, irmão de sua mulher, foi sempre exemplar. E discutiam muito sobre política. Um verdadeiro exemplo, uma harmonia que conti­nuou depois de 1974.

5) Uma marca na toponímia?
O apaixonado ovarense Dr. Espe­rança, cuja vida, como se viu, marcou por tantas décadas esta nossa terra, não logrou, até ao momento, qual­quer menção na toponímia do glo­rioso município vareiro, uma cidade em contínua expansão. Por que não agora? É uma ideia que aqui deixo, em abono da Saudade e da Justiça…

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 2016)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/07/memoria-do-dr-alvaro-esperanca.html

31.5.17

Alberto Ramires – Do “Poço da Morte” à Fapral

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2016)
TEXTO: Orlando Caió

Alberto Ramires
Alberto Ramires é um nome incontornável na área dos parques de entretenimento e diversão em Portugal. Filho de mãe espanhola – de seu nome Agostinha Ramirez – e de pai português, viera ao mundo no dia 2 de Maio de 1921 na freguesia de Santa Maria, concelho da Covilhã, distrito de Castelo Branco.

Construtor do próprio “poço da morte”
Em meados da década de 1940 construíra o seu próprio “Poço da Morte” com 6 metros de diâmetro por 7 metros de altura, onde, na qualidade de principal atração, ar­riscava a vida montado numa moto da marca inglesa Williers. A afina­ção da moto era feita pelo conhe­cido mecânico Alexandre Seixas. Na véspera das atuações, Alberto Ramires levava a moto à garagem do referido mecânico, ao tempo si­tuada na Travessa Júlio Dinis.
Alberto Ramires foi o primeiro artista português a atuar no Poço da Morte que, nas décadas de 1940 e 1950, era uma das principais atrações que percorriam as mais importantes feiras do País, assim como festas e romarias.
Pouco tempo depois de sozi­nho ter alcançado notável sucesso, convencera a sua irmã mais nova, Zulmira Ramires, a formar com ele uma dupla. E passaram a atuar em simultâneo, montados cada um na sua própria moto, rodopiando pe­las paredes de madeira do “Poço da Morte” sem qualquer rede de proteção, a uma velocidade próxi­ma dos 90 quilómetros/hora.
A ideia da dupla era algo de novo que agradava ao público, e os “Irmãos Ramires” passaram a ganhar a vida desafiando a morte.
Alberto Ramires chegou a atuar no Poço da Morte em diversos locais de Ovar, por exemplo no Furadouro, por altura das Festas do Mar, e em Arada durante os dias de Festa de Nossa Senhora do Dester­ro, depois de atuações na Feira de Março em Aveiro, festas de Lame­go, Covilhã, Espinho, Palácio de Cristal no Porto e ilhas da Madeira e dos Açores.
Alberto Ramires, que crescera em Viseu e viveu algum tempo em Aveiro, fixou-se em Ovar na década de 1950, depois de ter residido no lugar de Souto, Santa Maria da Feira.
Em finais da referida década deixara de ser artista do Poço da Morte, para se dedicar exclusiva­mente a outros géneros de diversão como por exemplo os carrosséis de girafas e aviões e as pistas de automóveis elétricos.
Moto antiga Williers
Na decisão de deixar o “Poço da Morte” talvez tenha pesado o facto de numa das atuações ter esmagado as pontas de alguns dedos da mão direita.
Conheci-o em finais da década de 1950 ou inícios da década de 1960, quando na cabine de coman­do da pista de automóveis insta­lada no local onde atualmente se encontra o Palácio da Justiça e no Largo dos Combatentes – bem per­to da sua residência –, de microfo­ne na mão e com estilo, anunciava: – “Vamos para nova corrida e nova viagem, que esta terminou!”.
Depois da incursão pelos car­rosséis e pistas de automóveis, Al­berto Ramires viria ainda a fundar em 1965 uma empresa de plásticos industriais, à qual foi dada o nome “Fapral”, que funcionou até Março de 2013 em São João de Ovar, jun­to à estrada nacional 109.
Alberto Ramires foi de certo modo um aventureiro, mas tam­bém um homem de coragem, inteligência e visão, que a 16 de Julho de 2011 chegaria ao fim da corrida da vida, já com a bonita idade de 90 anos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/06/alberto-ramires-do-poco-da-morte-fapral.html

4.2.17

A Rainha da Cadeia

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2016)
TEXTO: Orlando Caió

Para uns era “Rainha da Cadeia”, para outros Aurorinha “Pinta-Ratos”. Este seria o apelido atribuído ao companheiro da mãe, mas o seu verdadeiro nome era apenas e só, Aurora de Jesus, natural da freguesia de Aldoar, concelho do Porto, onde nasceu às 4 horas da tarde do dia 17 de Novembro de 1894.
Foi batizada no dia 29 de Junho de 1895 com 7 meses de idade, na igreja Matriz de Ovar. Era filha ilegítima de António de Oliveira Costa, estucador, solteiro, natural da freguesia de Pedroso-Gaia e de Leopoldina de Jesus, doméstica, viúva, natural da freguesia de Granjinha de São Pedro das Águias, concelho de Tabuaço, distrito de Viseu.

Sobre a “Rainha da Cadeia” sabe-se que quando foi batizada em 1895, a mãe, Leopoldina de Jesus, vivia em Ovar na então rua do Outeiro, atual rua Dr. José Falcão, numa casa que ainda existe de rés­-do-chão e primeiro andar, situada a poucos metros da antiga churrascaria “Zé dos Canecos”. Sabe-se também que em meados da década de 1920, ainda moravam na mesma casa.
Posteriormente, mãe e filha foram morar para o lugar das Tomadias de Baixo na freguesia de Válega-Ovar, numa casa que ainda existe e tem o número 102.
Há bem poucos anos, a casa era habitada por uma senhora de idade bastante conhecida em Válega, de seu nome Maria “Caldeirada”, antiga guarda de linha da CP nas passagens de nível de Válega e de São Miguel.
Na referida casa, que ao tempo  década de 1930  era um palheiro de tábuas, viveu a Aurora com a mãe, Leopoldina, que viria a falecer no dia 22 de Janeiro de 1938, aos 84 anos de idade. Quando a mãe faleceu, a Aurora ficara só, porque o com­panheiro da mãe, que era ferroviário, já tinha falecido há alguns anos.
A Leopoldina, mãe da Aurora, por morte do companheiro recebia um pequeno subsídio mensal.
Após a morte da mãe o subsídio fora suspenso, e a Aurora entrou em depressão. Em atitude de revolta chegou a per­noitar nas escadarias dos Paços do Concelho, onde por diversas vezes na década de 1930, nas mesmas esca­darias e varanda do edifício, em anos diferentes dera vivas à República.

De Válega para a cadeia de Ovar
Para sobreviver, a Aurora dedica­-se a executar por encomenda peças de renda ou croché, como por exem­plo colchas de cama, toucas, nape­rons, cachecóis e toalhas de mesa. Anos mais tarde, na cadeia, chegou mesmo a receber raparigas de cá de Ovar como por exemplo a Rosinha Seixas, que lá iam de propósito, para a Aurora lhes ensinar a fazer renda e a bordar à mão.
A Aurora vivia com dificuldades e a depressão não ajudava. Em Vá­lega era vista a caminhar sem rumo, não só pelos pinhais, mas também a caminhar perigosamente pelo meio da via-férrea, que ficava a escassos metros do palheiro onde vivia.
Mais do que uma vez, foi a po­lícia chamada a intervir, porque ela perturbava o tráfego ferroviário. E, certo dia, a Aurora recebe ordem de prisão e dá entrada na cadeia de Ovar. Estes episódios ocorrem em 1938, ano da morte da mãe, ou durante o ano seguinte.
Cumprido o tempo de prisão, como a Aurora não tinha família e precisava de apoio, o carcereiro Fran­cisco Rocha, responsável pela cadeia entre 1934 e 1952 interfere no caso. A Aurora passa então a viver na cadeia, e nela permanece até ao fim da vida.

A antiga cadeia de Ovar
Na cadeia dispunha de um quarto e um divã só para ela, assim como liberdade total para sair à rua quando bem entendesse. Em boa verdade, a Aurora, que também ajudava nas limpezas da cadeia, era uma espécie de moça de recados dos presos, que lhe pediam para ir buscar tabaco, uma sandes ou bebida, compras que habitualmente fazia nas lojas de mercearia do Serafim da Barateira ou do Zé Rico nos Campos, levando no bolso um papel mata-borrão, com o apontamento das coisas a comprar.

“Com gente fina é outra coisa”
Nas décadas de 1950 e 1960, na segunda-feira de Páscoa, era frequen­te realizar-se em Ovar uma procissão com a presença das autoridades civis e religiosas. A procissão terminava com uma visita aos enfermos aca­mados no hospital, e aos detidos na cadeia de Ovar que, ao tempo, funcionava no Alto Saboga.
Acresce que, a cadeia que fun­cionou ao longo de sensivelmente 60 anos, foi desativada em Outubro de 1973 e seria demolida em Julho de 1975.
Nesse dia especial, em que a procissão integrava figuras de certa importância, o almoço então servido na cadeia, era substancialmente me­lhorado. E, a Aurora, com alguma graça e ironia, comentava: – “Assim, sim, com gente fina é outra coisa!”.
A Aurora, que bem conheci, era uma das fi­guras típicas mais emble­máticas de Ovar. Quando ela imponente, com o seu ar majestoso passava na rua, ninguém lhe ficava indiferente. Era uma mu­lher bonita, de fala meiga e olhar doce um tanto misterioso. Alta, cabelo louro natural, rosto branco e faces le­vemente rosadas, olhos azuis-claros, brincos compridos e porte altivo, mais parecia uma rainha!
Na década de 1950, andava eu na escola primária da Praça, e muitas vezes me cruzei com ela no Jardim dos Campos.
A “Rainha” gostava de vestir roupas de cores garridas como o ver­melho. Serena e imperturbável, lá ia ela fazer compras.
Às vezes saía à rua de chapéu ou touca de lã encarnada, outras vezes com uma flor presa no cabelo e uma fita vermelha ou amarela apanhada entre a nuca e a testa e, em determina­das ocasiões, saía para a rua com uma coroa de flores silvestres na cabeça. E daí, a origem de lhe chamarem “Rainha da Cadeia”.
Aurora de Jesus, solteira e sem profissão definida, estivera alguns meses recolhida no Asilo da Miseri­córdia de Ovar, onde viria a falecer a 1 de Setembro de 1973 aos 78 anos, vítima de acidente vascular cerebral.
Depois de aturada pesquisa em di­versos arquivos e contactos com cerca de uma dúzia de pessoas, aqui fica em traços gerais a história da circunspecta “Rainha da Cadeia”, uma das figuras populares mais interessantes de Ovar no século XX.

Antiga Cadeia, no Alto Saboga, com a procissão da visita aos enfermos e aos presos 

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de maio de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/a-rainha-da-cadeia.html

2.2.16

Manuel Freire no Museu de Ovar

Manuel Freire
Foto: Fernando Pinto
Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2015)
TEXTO: Fernando Pinto

Manuel Augusto Coentro de Pinho Freire, filho dos professores João José da Silva Freire e Júlia Coentro de Pinho, nasceu em Vagos em 25 de abril de 1942, mas veio viver para Ovar com os seus pais aos três anos de idade.
No passado dia 19 de junho, o cantautor que imortalizou o poema “A Pedra Filosofal” de António Gedeão encantou a plateia do “À Palavra no Museu de Ovar”, evento dinamizado pelo vareiro Carlos Nuno Granja, atual membro da Direção desta instituição ovarense.

“Poucas pessoas podem reivin­dicar o facto de terem escolhido uma terra para si, e eu tive esse pri­vilégio... Escolhi Ovar como minha terra”, disse Manuel Freire no iní­cio de mais um À Palavra no Mu­seu de Ovar, evento literário que em setembro regressará, segundo adiantou Carlos Nuno Granja, com mais novidades.
Nas duas horas e meia em que esteve à conversa com os seus con­terrâneos, muitos dos quais amigos de longa data, o Trovador de Abril quis desenovelar algumas memó­rias da sua infância e adolescência que o marcaram pela positiva: “Há bocado, os mais atentos devem ter percebido que houve ali um peque­no momento de emoção ao abra­çar o Zé Maia [foto], porque estou num espaço que, como toda a gente sabe, muito deve ao pai dele... Eu acompanhei esta construção desde muito novo. Tive uma tia que mo­rou em frente e que trabalhou aqui uma série de anos”, lembrou Ma­nuel Freire.
Antes de a plateia entoar, no final da sessão do À palavra..., a Pedra Filosofal, uma das mais be­las cantigas da história da música portuguesa, Manuel Freire falou dos seus pais que vieram lecionar para Ovar (a mãe era de cá), da pri­meira casa onde moraram, na Rua Alexandre Herculano, onde mais tarde funcionou o infantário Alvo­rada e a Escola de Música Novos Sons, da sua escola primária, que ficava na Rua da Fonte, onde o seu pai lhe ensinou as primeiras letras, da outra sua moradia que ficava na Rua Dr. José Falcão, perto da Casa S. Luiz, onde o cheiro a Pão de Ló inundava as divisões da casa, e talvez por isso con­tinue a ser um apre­ciador dessa iguaria vareira.
Manuel Frei­re recordou ainda do “bilhar russo” do Café Parque, o tempo em que tra­balhou no ateliê de Luís Ferreira de Matos e as viagens a Itália que fez na companhia desse seu amigo escultor, e o GAV (Gru­po Atlético Vareiro), coletividade que ajudou fundar. “Era para se chamar Grupo Académi­co Vareiro, mas o Acadé­mico era uma palavra que só podia ser usada por as­sociações de estudantes...Eu penso que aquilo que sou, o devo muito a esses convívios no GAV”.

Ensaios no mar, ao luar
“Havia aqui um Sr. em Ovar, que tinha vindo de África. Esse Sr. chamava-se Mário Cascais e levava-nos para o Furadouro para nos inflamar a chama da Poesia e do Teatro. E dizia-nos versos à noite, em frente ao mar”, contou o convidado do À Palavra..., com a saudade estampada no rosto: “Até que surgiu a ideia de fazermos um espetáculo de teatro... Mário Cas­cais, enquanto encenador, escolheu duas peças, A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas, e O Meu Caso, de José Régio”.

Manuel Freire à conversa com o Diretor do “João Semana”
Foto: Fernando Pinto

Os ensaios decorreram no chalé Matos, da família Lamy, ao sul do Furadouro, que do lado do mar já não tinha parede. “Acho que o Au­gusto, o António, a Estela, o Do­mingos, o João Natária, o Borges, acho que nenhum de nós se pode esquecer daquelas noites. Estar ali, debaixo da lua, a en­saiar teatro”, lembrou Manuel Freire.
Apesar das proi­bições da altura, a peça de José Régio foi representada por este grupo de amigos no Cine-Teatro de Ovar em 9 de janeiro de 1960.

“Pedra Filosofal”
“Eles não sabem que o sonho/ É uma constante da vida/ Tão con­creta e definida/ Como outra coisa qualquer (...)”.
Interpelado pelo jornal “João Semana”, Manuel Freire revelou que decidiu cantar estes versos de António Gedeão porque eram fan­tásticos, apesar de, curiosamente, António Gedeão não atribuir um grande valor literário a este seu poema. “Ele diz, no livro de me­mórias, que escreveu aquele poema a assobiar... E o meu comentário é que ele devia assobiar muito bem”.
Felizmente, Manuel Freire pen­sava o contrário, e achou que esta letra dizia coisas muito importan­tes, de uma forma poética e subtil, apresentando-a, em 1969, no pro­grama televisivo Zip-Zip: “E tão subtil era, que a Censura não pôs obstáculos nenhuns àquilo... Uma cantiga que fala de “passarola voa­dora, para-raios, locomotiva!!!”
E a cantiga passou, ficou no ou­vido das pessoas, que continuam a achar que a mensagem de António Gedeão é intemporal.
Manuel Freire é um cantor de intervenção, Uma voz que soltou a liberdade, como escreveu Manuel Catalão na revista REIS de 2005, editada pela Trupe JOC-LOC [leia AQUI o artigo]. Frequentou a Universidade de Coimbra, na altura em que se cantava o fado coimbrão debaixo das varandas. “Respeito muito as canções que falam das flores, dos passarinhos, do sol, das estrelas e do luar, e da amada à janela, mas eu na altura em que comecei a cantar achava que havia coisas mais importantes e mais urgentes para cantar, e, portanto, escolhi poemas que tinham algum conteúdo... Não sou autor de praticamente nenhuns textos que canto. Fiz meia dúzia de textos, mais para Teatro e para Cinema do que propriamente para canção, tirando Eles, que foi a minha estreia no meu primeiro disco. Infelizmente, assistimos hoje a um movimento semelhante ao dos anos 60, em que as pessoas são obrigadas a sair do país para tentarem ter uma vida digna”, disse, a terminar, Manuel Freire.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de julho de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/02/manuel-freire-no-palavra-no-museu-de.html

"ELES"
(Letra e Música de Manuel Freire)

Ei-los que partem
Novos e velhos
Buscar a sorte
Noutras paragens
Noutras aragens
Entre outros povos
Ei-los que partem
Velhos e novos
Ei-los que partem
Olhos molhados
Coração triste
A saca às costas
Esperança em riste
Sonhos doirados
Ei-los que partem
Olhos molhados
Virão um dia
Ricos ou não
Contando histórias
De lá de longe
Onde o suor
Se fez em pão
Virão um dia
Ricos ou não
(...)
Virão um dia
... ou não

3.11.15

General Aníbal Pinho Freire

Aquele estalido... Um vareiro... ultrassónico!

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2014)
TEXTO: Serafim Oliveira Azevedo

Estávamos no ditado, hora de silêncio absoluto. (Na hora do ditado, até o zumbido das mos­cas perturbaria a nossa atenção). Àquela hora, o Nelson, meu colega na escola de Tarei, na primeira e segunda classes, não escutava a minha voz, ele que, muito mais tar­de, a escutaria enquanto aguardava clientes ao lado chafariz de Ovar, e que, depois, com a confiança da ve­lha amizade dos tempos de escola, me dizia: – fala mais baixo; a tua voz ouve-se do lado de lá da rua.
Bom rapaz, o Nelson. Há muito que nos deixou.
Mas, voltando ao que aqui me dispus a contar: Se não fora o que, pouco tempo antes, havia lido nas Seleções, a minha cara também assustaria os meus alunos. Como essa feliz leitura me tinha prepa­rado para uma situação daquelas, a minha cara não os assustou. Só estava ansioso que chegasse a hora do recreio para se confirmar o que na minha cabeça fervilhava: foi obra do filho do senhor Freire… E foi. Mal se aproximou, disse-me o meu colega: – Foi o meu Aníbal!
Fiquei tão radiante como ele. Naquele tempo, a alegria era de quantos tinham Ovar no coração. E isso sentiu-se nas fábricas que se abriram na zona industrial, na estrada da Ria; na que ligava a estrada da ponte do Cavaleiros à da Ria; na estrada da Mata; na Ave­nida do Infante; na iluminação das ruas de Ovar, cujo brilho chegava aos aviões. (Lá do alto, sentíamos que sobrevoávamos a encantadora Ovar).
General Aníbal Freire
Aquele estampido de avião supersónico era mais um feito vareiro. Sim, o avião não era obra nossa; a mecânica não era vareira. Mas quem o dominava, a cabeça e as mãos que impunham a sua vontade, a quem o avião humilde­mente se sujeitava, eram vareiras, e o sangue que corria nas suas veias era bem do distrito de Aveiro: era da freguesia de Veiros, pelo pai, e da freguesia de Ovar, pela mãe. E ele quis brindar Ovar com um estampido não comum, um estam­pido fora do vulgar, um estampido que ficasse na memória dos seus entes queridos. E eu, ao recordá­-lo, presto homenagem a um herói que, no pós-vinte e cinco de abril, me tratou sempre com a mesma amizade, o mesmo carinho de antes desse evento. Por sinal, esse evento e o facto de ter passado à vida civil até me proporcionaram um maior convívio, e a dita de, em vez de ouvir o seu pai falar de si, ter eu o privilégio e a riqueza de uma sã convivência e, por esse facto, de confirmar pessoalmente o quanto de verdade havia nas palavras de seus progenitores: Era um Coentro de Pinho a valer!
Aproveito a ocasião para envol­ver nesta minha singela mas since­ra homenagem ao General Aníbal Coentro de Pinho Freire (na foto), os nomes da sua Exma. viúva, D. Irene Freire, e seus queridos filhos, pedindo-lhes que em tudo façam por merecer a honra de serem seus filhos, por serem Coentro de Pinho e Fidalgos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/11/aquele-estalido-um-vareiro-ultrassonico.html

18.3.14

Arquiteto Domingos Tavares – Insigne personagem ovarense

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2014)
TEXTO: Manuel Catalão
         
Arquiteto Domingos Tavares
No declinar da soalheira tarde do Outono que se repete, enxotando as obstinadas e pálidas folhas que atapetam a calçada, subsidiariamente tocada pelo salino perfume da brisa marítima e pelo agreste aroma proveniente do misto de sargaço e algas dormentes, que navegam, perdidas, na crescente aridez da nossa ria, ainda vestida de um apreensivo azul, quase no exato ponto em que a ruralidade do Torrão do Lameiro abraça a pacata murtoseira Quintas do Norte, fomos ao encontro do Sr. Professor Arquiteto Domingos Manuel Campelo Tavares, insigne personagem ovarense. 

O berço e a urbe

Por meados de uma primavera que permitia antever fortes e dramáticas convulsões – corria o dia 15 de Maio do ano de 1939 –, vinha ao mundo Domingos Tavares, terceiro e único varão na cronologia de uma prole de quatro filhos com que seus progenitores foram mimoseados. A já então vetusta rua Padre Ferrer foi palco engalanado na receção ao recém-nascido, espaço dos primeiros sorrisos e dores, e local também para as preliminares projeções de um futuro próximo que não caberia na urbe que o viu nascer.
Por força da condição profissional de seu pai, funcionário judicial de carreira, Domingos Tavares aprendeu a dar as primeiras passadas na linda cidade beirã de Castelo Branco e na laboriosa cidade de Fafe. Cumprido o ciclo do primeiro quinquénio de vida, e porque se aproximava o início do percurso de formação escolar, regressou a Ovar, para um tempo de descobertas várias, a nível da construção do grupo de brincadeiras de rua, nas sinuosas vielas periféricas… Na saudosa escola primária de Conde Ferreira – onde, na atualidade, se situa o Tribunal Judicial de Ovar –, cumpriu o primeiro e segundo ano de escolaridade, vindo a completar o curso básico na vila de Amarante, para onde seu pai, novamente por incidência da opção profissional, houve de se deslocar. De regresso ao seu torrão natal, tem oportunidade de refazer o círculo de amizades locais e de articular consensos pessoais e familiares quanto à prossecução do ciclo estudantil, acabando por rumar à cidade de Aveiro e ao seu prestigiado Liceu. Na verdura dos dez anos de idade, manhã cedo, tinha encontro marcado com a velha e lenta locomotiva a vapor, prenúncio rotineiro da quotidiana viagem para a cosmopolita capital do distrito, indiferente à frescura matinal que se confundia com a espessa fumarada que se espraiava e lhe envolvia o corpo esguio.
Aluno diligente, com alicerces assentes na liberdade e na responsabilidade transmitidas pela praxe familiar, foi fomentando sólidas e cúmplices amizades, promovendo díspares atividades de natureza lúdica, cultural e desportiva.

Associativismo vareiro 
No Carnaval de Ovar,
ao lado da Miss Furadouro

Curioso será referir que, de um furtivo e coletivo banho nas então ainda não poluídas águas da ribeira do Cáster, sob a protetora vigilância das lavadeiras que a coloriam de sabão azul, nasceria o gene da formação do Grupo Atlético Vareiro, que viria a tomar forma legal a 2 de Abril de 1956. Domingos Tavares, dotado, desde cedo, de mão firme para a representação pelo desenho, com a multifacetada disponibilidade para brincar de forma séria e responsável, foi, reconhecidamente, desde a adolescência, um elemento fundamental na dinamização e na consecução dos superiores objetivos que nortearam a criação de uma coletividade que marcaria, muito positivamente, as gerações dos anos sessenta e setenta. Havia ainda espaço para ousadias sensatas que passavam pela frequência de todas as romarias confinantes, pela animação cultural traduzida em múltiplas personificações de figuras trazidas da literatura popular, pelas tardes e noites de cinema, pela prática de desportos náuticos na buliçosa Ria de Aveiro, enfim, pelas experiências de um jovem que amava a vida da sua terra. Em terra de carnaval, Domingos Tavares, não abdicando do seu perfil sóbrio, foi figura crítica do regime político autoritário então vigente, participando em vários corsos carnavalescos, aos quais chegou a concorrer na condição de aspirante a “Miss Carnaval”!!

Arquitetura como vocação

Concluída a formação liceal, indecisões vocacionais vencidas, optou pelo ingresso no curso de arquitetura da Escola de Belas Artes do Porto, mergulhando afincadamente no estudo metodológico em artes, em consonância com a inata aptidão para transformar em música o seu distinto traço de desenho livre e geométrico. Cumpridos os anos curriculares exigidos, foi convidado para integrar o quadro docente da EBAP na condição de Assistente, dando assim voz aos conhecimentos científicos adquiridos. Corria o ano de 1967 quando contraiu matrimónio com Maria Augusta, contemporânea do tempo liceal e licenciada em filologia, de quem provieram dois filhos, ele também arquiteto, ela, gestora. Simultaneamente, no espaço compreendido entre os anos de 1969 e 1973, colaborou com os conceituados Arquitetos Fernando Távora, Jorge Gigante, Francisco Melo, Alcino Soutinho e Rolando Torgo, vindo, ainda em 1973, a integrar a experiente equipa de Percy Johnson – Marshall na elaboração do Plano da Região do Porto, elemento fundamental para a clarificação estratégica, sob o ponto de vista urbanístico, da cidade invicta. Concluída a licenciatura no ano de 1973, passou a integrar o quadro docente da EBAP na qualidade de Professor Catedrático, vindo, com a naturalidade e a capacidade pedagógica que o caracterizam, a ser figura proeminente e fundamental na transformação da ESBAP em Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, participando também, e de forma bastante ativa, na criação do Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, da qual viria também a ser Professor Convidado. Docente das áreas de Teoria e História da Arquitetura, transmitiu aos seus muitos discentes os factos históricos e científicos mais relevantes dos períodos da arquitetura universal, desde o neolítico até ao contemporâneo. Resultante da enorme paixão pela arquitetura, o ovarense e Professor Arquiteto Domingos Tavares tornou-se uma figura incontornável não só na produção de obras arquitetónicas, que constituem fontes de informação, mas ainda de diversas obras escritas que são referenciais de aprendizagem nas escolas de outros continentes, tais como “Da rua Formosa à Firmeza”, “Miguel Ângelo, a aprendizagem da arquitetura”, “ Francisco Farinhas, realismo moderno”, a coleção de “Sebentas de História da Arquitetura Moderna”, entre outras obras e ensaios técnicos e científicos.

Um saber partilhado
Arquiteto Domingos Tavares

Tem sido também orador convidado em múltiplos seminários, colóquios e eventos da sua especialidade em variados países europeus, americanos e asiáticos, prestigiando, dessa forma, o nome da cidade de Ovar. Atualmente, na condição de Professor Jubilado, quase cinco anos depois de ter ministrado a sua derradeira aula como Professor Catedrático da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, Domingos Tavares prossegue de corpo e alma na sua entrega à causa das artes, colaborando com a Academia, em estreita ligação com o Departamento Autónomo de Arquitetura da Universidade do Minho, onde é membro do Conselho Consultivo, bem como com o Departamento de Arquitetura da Universidade de Coimbra, onde é Professor Convidado, e com a sua Faculdade de Arquitetura do Porto, aqui coordenando o projeto de investigação no Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo. Vida tamanha em tamanho corpo de homem, dá-se ao mundo através da arte, do estudo, da palavra, da visão de um futuro mais verde, mais colorido e adequado à condição humana. É este o homem que, na plenitude dos seus setenta e quatro anos de idade, ruma semanalmente à sua Ovar, preferencialmente em manhãs soalheiras, buscando nas tendas do mercado municipal a frescura verdejante da hortícultura artesanal e o contacto com o seu povo de sempre. Sendo um homem de relacionamento fácil, desde que aprofundado e verdadeiro, adaptou-se bem à rotina citadina, tendo aprendido a gostar do Porto como cidade e como polo de toda a sua intensa atividade profissional. Convictamente democrata e ativista de esquerda nas campanhas da oposição democrática nos anos sessenta e princípios da década de setenta, permanece fiel aos seus ideais, tendo sido recentemente candidato à Assembleia da República pelo distrito do Porto, integrando a lista da CDU.

Saudades de Ovar

No recanto da sua moradia, na extremidade sul do lugar do Torrão do Lameiro, onde procura descanso retemperador, colhe a inspiração para mais uma ou outra obra a publicar, acolhe os amigos com a mesma alegria e espontaneidade de há sessenta anos, luta com a nostalgia de uma ria que desfalece, enfim, vive a felicidade de estar em Ovar, a sua terra. Convidado a pronunciar-se sobre a Ovar de hoje, entende que se trata de uma comunidade que se encerra em si mesma, orgulhosa, passiva e tendencialmente resistente à mudança, defendendo, em contraponto, a mobilização em torno da participação ativa nas grandes decisões locais e na estratégia do futuro. Defensor das tradições em tudo o que elas contêm de belo, de cristão ou profano, não deixa de referir que, na sua grande maioria, perderam a autenticidade que as caraterizava, não sendo, nos dias de hoje, um militante seguidor das mesmas. Instado a pronunciar-se sobre as obras do mais recente investimento público na nossa cidade, refere o Parque Urbano da cidade como algo que pode ajudar a transformar a vivência citadina, não deixando de ser particularmente crítico face ao excesso de circulação automóvel nas vias centrais da cidade, geradora de graves perturbações a nível ambiental e na livre circulação das pessoas. A penumbra caiu. O curso lagunar reflete ainda, e só, os pequenos pontos de luz da margem nascente, adivinhando-se o esventrar do cordão dunar pela agitação das vagas marítimas próximas. Despedimo-nos do nosso interlocutor com a elevada satisfação de termos estado com uma verdadeira figura vareira, com um distinto embaixador cultural da nossa terra, com um emérito professor e profissional, com um testemunho vivo da intelectualidade ovarense, com um homem que, por detrás de uma aparente austeridade, se nos revela como um referencial do passado, do presente e do futuro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/03/arquiteto-domingos-tavares-insigne.html

16.11.13

Ti Chafarrica – O homem da festa

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2009)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Venho hoje falar da história do Ti Chafarrica, nome pelo qual era conhecido um famoso habitante do Furadouro. Antes, porém, quero expor algumas particularidades da zona norte da nossa Praia, onde ele viveu nas primeiras décadas do séc. XX. (Sobre a zona do sul, publiquei, no “João Semana” de 15 de Junho de 2003, um texto com o título “O Baldim do Furadouro”). [CLIQUE no link, a azul]

A zona norte do Furadouro
Procissão - Furadouro (1941)
Quando Mijoule veio habitar para Ovar no último quartel do séc. XVIII, trazendo consigo o novo método da conservação da sardinha pela salga e extracção do sil (óleo do peixe) por meio da prensagem, logo se começaram a erguer vários palheiros a norte e ao sul da Praia, duas zonas separadas pela Avenida Central, uma rua larga que, depois do enorme incêndio deflagrado em 31 de Junho de 1881, se passou a denominar Avenida dos Bombeiros Voluntários do Porto, como preito de gratidão de Ovar pelos valiosos serviços prestados por esta Corporação quando dessa catástrofe.
No séc. XIX já eram numerosas essas habitações que, por serem de madeira, tinham como principal inimigo os fogos, que periodicamente as destruíam, como voltou a acontecer, meio século depois, com aquele que em 5 de Março de 1925, no tempo do Chafarrica, “devorou cerca de 200 habitações, incluindo 4 grandes prédios de pedra e cal, ficando trezentas pessoas sem-abrigo e seis ruas destruídas” (Alberto de Sousa Lamy, “Monografia de Ovar”).
Lutando estoicamente contra essas vicissitudes, os nossos pescadores reconstruíram os seus palheiros para morarem, os mercantéis levantaram armazéns para prepararem o peixe, e alguns veraneantes ergueram casas de pedra e cal para passarem na praia, com mais comodidade e segurança, os meses estivais…

O palheiro do Ti Chafarrica, ao norte do Furadouro, é o primeiro da direita, com varanda

Até aos anos 20 do século passado, a costa do Furadouro, de norte a sul, era área piscatória, devido ao grande número de Companhas existentes.
No jornal “A Pátria” de 3 de Outubro de 1912 pode ler-se que de 1 de Janeiro a 30 de Setembro do referido ano, trabalharam seis companhas: Sr.ª do Socorro, Boa Esperança, Maria do Nascimento, S. José, República e S. Pedro.
Mais tarde, já na decadência da pesca no Furadouro, depois dos anos 30, e quando havia apenas duas companhas a laborar – S. Pedro e Sr.ª do Socorro –, essa actividade passou a ser exercida com maior intensidade no sul, onde se encontrava a maior parte dos palheiros dos pescadores e dos armazéns dos mercantéis.
Na zona norte começavam a concentrar-se, de Junho a Setembro, os banhistas e veraneantes frequentadores da praia, sendo ali que os banheiros montavam barracas para alugarem aos seus clientes.
Lembro-me muito bem da Capela do Senhor da Piedade (capela nova), situada ao cimo da actual Rua do Jornal Comércio do Porto, com a frontaria voltada para Nascente e a traseira encostada a uma ou duas casas que seguiam na direcção do Poente, existindo ainda, entre esses prédios e as ondas do Oceano, um extenso areal com baloiços para crianças e as barracas pertencentes aos banheiros.

Praia do Furadouro

Antes de ser tragada pelas vagas em 1958, era dessa Capela Nova que saíam os andores nas Festas do Mar, saudosamente recordadas por mim por, em menino, me incorporar nas suas procissões, levando a corda com a fateixa do barquinho que actualmente se encontra no Museu.
Mais a norte deste templo e da rua a que me referi anteriormente, conheci, nos anos 40, muitos palheiros e algumas moradias de pedra e cal, que se espalhavam de forma dispersa até ao início do local onde se construiu o desaparecido Hotel Mar e Sol, sobre o qual escreverei posteriormente.
Seguindo na mesma direcção, começávamos a calcorrear as dunas, com a sua vegetação própria a espraiar-se na direcção do mar, a muitas dezenas de metros de distância da actual Avenida Infante D. Henrique…

Homem da festa
Numa dessas dunas, rodeada de chorões e junco, assentavam, bem alinhados, vários palheiros, entre os quais o do Ti Chafarrica, de que não tenho qualquer recordação. Conversando com algumas pessoas dessa época conhecedoras daquela personagem, muito estimada no Furadouro nas décadas de 20-30 e início de 40 do século passado, fiquei a saber que esse palheiro, utilizado como loja, se localizava para lá do local onde hoje termina a Avenida Infante D. Henrique, na direcção do mar (portanto hoje já dentro das suas águas, que a levaram, tal como aos outros palheiros ao lado, quando começaram a galgar a terra…)
Dizem que entre as águas do oceano e essas habitações de madeira construídas sobre as dunas havia, então, muito areal, onde descansavam os barcos das companhas que ali se ocupavam nas lides da pesca.
A popularidade do Ti Chafarrica não era somente por ter uma taverna ao norte da praia, mas sim pelo labor exercido anualmente nas Festas do Senhor da Piedade, visto que, além de tasqueiro, alugava arcos enfeitados e balões de papel para as armações das ruas, preparando, em pequenas latas, uma mistura de sebo com cera e um pavio, que depois acendia para as iluminar.

Furadouro, 1934 - Capela nova e Rua Jornal Comércio do Porto, que na data desta foto
era exclusivamente ornamentada nas Festas do Mar pelo Ti Chafarrica

A Rua da Capela Nova (actual Rua do Jornal do Comércio do Porto) era exclusivamente ornamentada e iluminada com os arcos e balões do Ti Chafarrica, que também os colocava em volta da duna onde se encontrava o seu palheiro.
Disse-me quem o conheceu que era um espectáculo ver o Ti Chafarrica, no início da noite, armado com uma escada, percorrer a rua inteira para acender as velas dentro dos balões, que várias vezes se incendiavam, especialmente quando havia vento muito forte…
Felizmente que ainda podemos hoje recordar o seu palheiro devido à colecção de antigos postais de Silva Cerveira, que constituem um verdadeiro tesouro para quem gosta de reviver a história dos seus antepassados!...
O Ti Chafarrica, pela simpatia que irradiou no Furadouro nas primeiras décadas do séc. XX e pela sua ligação às Festa do Mar, bem merece ser recordado numa rua do Furadouro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/11/ti-chafarrica-o-homem-da-festa.html