Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2019)TEXTO: Manuel Pires Bastos
Alfredo Rodrigues de Pinho. Um nome nitidamente vareiro, que
o nosso biografado só terá assumido, assim completo, anos depois do seu
nascimento.
De facto, no registo de casamento com Margarida Ferreira de
Pinho, celebrado na Igreja de Ovar em 9 de outubro de 1892, declara-se que fora
exposto e batizado no Oratório do Hospital dos expostos do Porto[1], que foi
criado "de leite e secco" em Espargo (Feira) pela ama Eufrásia Maria
da Conceição, mulher de Manuel Dias de Sá, pedreiro, e a partir dos 7 anos, em
Ovar, na companhia de Francisco Rodrigues de Pinho, e de Teresa de Oliveira,
pescadores, da Rua do Lamarão, de quem adotou os sobrenomes e que lhe deram
rumo como fragateiro.
Rodrigues Pinho & Cia.
Alfredo Rodrigues de Pinho e Margarida Ferreira de Pinho criaram,
em 1891, a firma Rodrigues Pinho & Cia., destinada à exploração, comércio
e exportação de Vinho do Porto[2], firma que viria a alcançar extraordinário
êxito, particularmente com o afamado Porto Rainha Santa (na foto, em baixo). Com a redução
dos apelidos Rodrigues Pinho, terá havido a intenção de se demarcar de outros Rodrigues
de Pinho de Ovar.
"Incalculáveis sacrifícios"
Porque um terceiro sócio, João Pereira de Carvalho,
entretanto integrado na sociedade, dela se retirou em 1908, Rodrigues Pinho
associou-se a António Fortunato de Almeida Brandão e a José Pacheco Polónia,
iniciando, como Comissão Instaladora, a “Nova Companhia de Vinhos Finos do
Douro”, que continuou o negócio da Casa Rodrigues Pinho & Cia., tendo como
diretor técnico o próprio Alfredo, e sendo a maior parte do capital constituído
pela aquisição de todo o ativo da sociedade anterior.
Alguns desencontros (1909-1919) levaram Alfredo Rodrigues de
Pinho a abandonar a nova Companhia, mas continuando a pedir registo de marcas
Rodrigues Pinho, Lda., para que, após a sua morte, e não tendo descendentes,
“não desaparecesse uma casa que lhe havia custado incalculáveis sacrifícios”[3].
Em 1931, depois de ter comprado o ativo e o passivo da
antiga casa Rodrigues Pinho, com armazém na Rua Senhor d’Além 3 – 7, e tendo
apenas como sócia a sua esposa, deixou de ter intervenção direta na sociedade,
constituindo seus procuradores, com excecionais poderes, Manuel Simões Júnior
e Alfredo Gomes da Costa.
Tendo Alfredo Rodrigues de Pinho falecido em 6 de julho de
1947, com 77 anos de idade, em Ovar, na Rua Associação Desportiva Ovarense,
onde vivia com a esposa, ficou esta como única herdeira e sócia maioritária de
“uma sociedade comercial em nome coletivo de responsabilidade solidária e
ilimitada”, que passou a contar quatro sócios: a viúva, a sua sobrinha Teresa
Rodrigues Pinho e Costa, o marido desta, Alfredo Gomes da Costa, e António
Rodrigues Sampaio[4].
Em 1949 António Rodrigues Sampaio cede parte da sua quota a
Hermenerico Pinho da Costa, filho de Teresa Rodrigues Pinho e Costa e de
Alfredo Gomes da Costa.
A caminho da desagregação
Em 1950, por morte de Margarida Rodrigues Ferreira de Pinho[5],
e com reintegração de capital, Alfredo Gomes da Costa passou a sócio maioritário,
seguido de António Rodrigues Sampaio, Hermenerico e Teresa Rodrigues Pinho e
Costa.
Em 1956 Hermenerico divide a sua quota com os irmãos Alfredo
Pinho da Costa e António Pinho da Costa; em 1958 António Rodrigues Sampaio
vende a sua aos restantes sócios, abandonando a firma; em 1966 Hermenerico cede
parte da sua quota à irmã Maria Teresa Pinho da Costa Oliveira Duarte; e em
1974 Alfredo Gomes da Costa e Teresa Rodrigues Pinho e Costa cedem as quotas
aos quatro filhos (Hermenerico, Maria Teresa, Alfredo e António Pinho da
Costa), agora únicos sócios da empresa com o património de 5.000.000$00 (em
1917 era de 200.00$00, em 1947 560.000$00).
A estrutura do Rainha Santa foi-se desgastando até à
“solução final”, com a reorganização do grupo Martini, de que em 1988 faziam
parte a Forrester e a Rodrigues Pinho, e com a fusão deste naquele grupo
(1991), sendo anulado o registo Rodrigues Pinho & Cia. como exportador, e
passando os seus stocks para a Forrester & Cia. Lda.
Na vida social vareira
O “Rodrigues Pinho do Vinho Rainha Santa”, cognome pelo qual
era referenciado em Ovar, foi um grande amigo desta terra, que reconhecia como
sua, possuindo um pequeno chalé no Furadouro, praia que frequentava no Verão.
O vareirismo de Rodrigues Pinho ficou bem patente no legado
de 300.00$00 à Santa Casa da Misericórdia de Ovar (cativo de sua esposa,
enquanto viva), provando que este homem, que poderia ter passado pela terra
incógnito e humilhado, soube elevar-se, firme e bem ereto, no inseguro
pedestal que lhe ofereceram à nascença.
Parece-nos, no entanto, que Ovar ainda não reconheceu devidamente
a trajetória empreendedora deste vareiro, particularmente naquela faceta que
sempre andou colada ao seu perfil e ao Porto, e, por simpatia, a Ovar e ao
Furadouro: o vinho Porto Rainha Santa.
A notória indiferença desde há muito tributada pela sociedade
ovarense à sua memória poderá explicar a razão estranha de o seu nome benquisto
não constar sequer na bibliografia ovarense, embora presente em algumas
notícias e em reclames dos periódicos da época.
Notas
[1] Livro de
Casamentos da Paróquia de Ovar (São Cristóvão), ano de 1892, n.º 85.
Testemunhas: o P.e Francisco Valente Lopes e o sacristão Francisco dos Santos
Adrião, casado, da rua da Fonte. O assento de óbito em Ovar (1947) refere que o
nome Alfredo corresponde ao pedido deixado junto da criança na "roda do
Porto".
[2] A
memória da casa regista 1895 como início da atividade
[3] Ver, na
Internet, Arquivos do Arquivo Histórico A.A.F: O Caso de Rodrigues Pinho &
Cia.”, por Marlene Cruz e Paula Montes Real.
[4] Este
António Rodrigues Sampaio poderá ser familiar de Francisco de Oliveira Granja
(1891-1981) de alcunha Chico Sampaio ou Chico da Margarida, casado com Maria
Oliveira Alegre (1892-1980), do Lamarão, Ovar, mestre de pesca em Matosinhos.
Ver Manuel D. Alegre Almeida e Silva, "Foi assim que foram" vol. II,
pág. 372.
[5] Falecida
na Rua Cândido dos Reis, Vila Nova de Gaia, com fama de benemerente, em 26 de
janeiro de 1950, com 79 anos, filha legítima de Manuel José Oliveira Granja e
de Rosa Rodrigues Ferreira, pescadores, da Rua da Oliveirinha, Ovar, e aqui
sepultada (Assento n.º 85)
Para este
estudo, que há muitos anos me foi sugerido por Fátima Granja, e que merece ser
continuado, deram o seu contributo os seguintes colaboradores do "João
Semana": jornalista Fernando Pinto, Joaquim Fidalgo, António Valente e
engenheiro Manuel Alegre.
M.P.B.
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História de vida vivida
Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2019)
TEXTO: Fátima Granja
Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2019)
TEXTO: Fátima Granja
Alfredo Rodrigues Pinho era vareiro, casado com
Margarida Ferreira de Pinho, não tendo filhos. Tinham apenas seis sobrinhos,
um dos quais era o meu avô, que tinha o mesmo nome do pai, Francisco de
Oliveira Granja.
O tio Alfredo pensou ser vinhateiro, e foi para Gaia,
onde abriu umas caves em 1895. Com o seu Vinho do Porto, a que deu o nome de
“Rainha Santa”, e que era muito vendido em Portugal e no estrangeiro, construiu
uma grande fortuna. Os atuais sobrinhos são de 3.ª geração, sendo eu, com 75
anos, sua sobrinha neta, a residir na Rua Dr. José Falcão, depois de ter
vivido no Lamarão, com loja aberta, onde não faltava o vinho “Rainha Santa”.
Tive outra familiar no Porto, Teresa, irmã mais nova de
meu avô Francisco de Oliveira Granja, que teve três filhos, na zona da
Boavista.
Tal como o meu tio Alfredo, uma sobrinha e um sobrinho
não tinham filhos. Meu tio morreu em 1947, era eu muito pequenina, pois tinha
três anos. Conheci-o só por uma fotografia existente no seu mausoléu privativo
do Cemitério de Ovar. (Foto, em cima. A da esposa está gasta).
Porque o tio Alfredo foi benemérito da Santa Casa da
Misericórdia, a quem deixou 300 contos, sempre pensei, desde que tive idade
para pensar na vida, que o tio fez bem, pois a Santa Casa precisava de ajuda.
Era uma altura má, e ali se criavam muitos meninos e meninas, porque os pais
tinham muitas dificuldades.
Toda esta história de vida me foi contada pelo meu pai,
que conviveu muito com o tio avô, o tio Alfredo, que não esqueceu os seus
sobrinhos, deixando uma quantia em dinheiro – não sei quanto – a cada um.
O que também sei é que as caves passaram para o nome da
sua sobrinha mais nova, uma Teresa, irmã do meu avô, Francisco de Oliveira
Granja. Alfredo Rodrigues Pinho construiu uma grande fortuna, e a sua firma,
teve, mais tarde, outros sócios. Os meus primos, que eram três, ficaram
sozinhos.
Consegui estas informações através de algumas pesquisas
junto de uma pessoa amiga de Ovar, a quem agradeço.
Eu gosto de lembrar os meus antepassados, porque são um
pouco de mim, por pertencerem às minhas raízes. Todos os que crescem na vida e
que vivem por bem não devem ser esquecidos. Eu penso nos meus amigos, e gostava
de saber mais sobre os meus avós e bisavós do lado do meu pai, de quem nem sei
os nomes. Do lado da minha mãe ainda conheci alguns. Agora o que desejo é que
eles estejam no caminho do Senhor, e que os homens de sucesso nunca sejam
esquecidos.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de agosto de 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/08/alfredo-rodrigues-de-pinho-o-vareiro-do.html

















