Jornal JOÃO SEMANA (01/08 e 15/08/1986)
TEXTO: Alberto Sousa Lamy
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Padre Manuel Lírio (1881-1953) |
A 23 de Agosto de 1881, no
lugar de S. Miguel, nasceu o padre Manuel Rodrigues Lírio, fragateiro, e D. Ana
de Oliveira Lopes. Seus avós paternos, Manuel Rodrigues Lírio e Teresa de
Jesus, eram do lugar de Ações; seus avós maternos, Manuel Pereira da Fonseca
Lopes e Maria de Oliveira, daquele lugar de S. Miguel.
Tendo feito o exame de
instrução primária em Aveiro, após aprendizagem com o padre Francisco Marques
da Silva, foi, depois, aluno do mestre Camarinha, à Ponte da Senhora da Graça.
Posteriormente, frequentou
os seminários diocesanos do bispado do Porto: o dos Carvalhos e, por último, o
da cidade Invicta.
O sacerdote (1905)
Feitos os seus estudos com
altas classificações, Manuel Rodrigues Lírio, com 23 anos, recebeu ordens de presbítero,
tendo rezado no Porto, na Igreja dos Clérigos, a 15 de Agosto de 1905, a sua
primeira Missa.
Cantada a Missa Nova,
quatro dias depois, a 19 daquele mês de Agosto, era nomeado Abade encomendado
da freguesia de Gestaçô, do concelho de Baião. Mas pouco tempo demorou nesta
freguesia, situada na margem direita da ribeira de Teixeira, afluente do Douro.
Uma afecção pulmonar
retirou-o de Gestaçô um mês e meio após a sua investidura, e impediu-o de
continuar a sua vida de Pároco. Enquanto em Ovar, e até ao fim da sua vida,
tomou conta da capelania de S. Miguel.
Impossibilitado de
paroquiar, dada a doença grave que cedo o afectou, dedicou-se ao ensino
particular.
O poeta
Na sua mocidade, Manuel
Rodrigues Lírio publicou, com vários pseudónimos, versos nos semanários e
quinzenários locais.
Mais tarde, veio a reunir
poesias suas num livro intitulado "Ao Ritmo do Coração", com o
pseudónimo de Álvaro Sêco.
São versos simples,
singelos, despretensiosos, modestos. Como aqueles da "Canção da
varina", de que transcrevemos os primeiros versos:
"Assente sobre as
areias
das ribas da beira-mar
a nossa terra é um berço
que as ondas vêm
embalar".
Mais tarde, quando da sua
prisão em Aveiro, fará versos no Convento de Jesus e no salão do Despacho da
Misericórdia, à Praça José Estevão, que dedicará a outros presos naquela
cidade, quer de Ovar quer de outras terras do distrito. Poesias essas, algumas
de muita graça, que irá inserir nas "Memórias anedóticas de In Illo
Tempore", escritas por ele em 1912.
É da sua autoria a letra
do Hino do Orfeão de Ovar (obra de Rogério de Brito e Padre Lírio), que se
ouviu a 27 de Março de 1921 num espetáculo de gala em benefício dos Bombeiros
Voluntários locais.
O jornalista

Enquanto se restabelecia da sua doença, o padre Lírio
começou a colaborar no jornal
O Ovarense,
usando diversos pseudónimos:
Alcinda,
Mário Relvas,
Martírio,
Álvaro Sêco.
Colaborou também no Jornal
de Ovar, no Regenerador Liberal, n'A Defesa, no Notícias de Ovar, e n'A
Pérola.
Foi ainda correspondente de diários de Lisboa,
designadamente do Diário Ilustrado,
d'A Época, do Jornal da Noite, neles tendo também colaborado com vários artigos.
Após a Implantação da República, foi redactor da Revista Ovar, "transformação
radical e completa" do Regenerador
Liberal. Esta Revista, que se publicou de 17 de Novembro de 1910 a 19 de
Abril de 1911, foi suprimida arbitrariamente pelas autoridades republicanas a
20 deste último mês.
A
Revista de Ovar
sucedeu o semanário
Semana de Ovar,
de que foi redator o padre Lírio, jornal que foi também suprimido,
arbitrariamente, logo no seu primeiro número, de 27 de Abril de 1911, pelas
autoridades administrativas.
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| Rua Padre Manuel Rodrigues Lírio, em S. Miguel, Ovar |
Com António Augusto de Resende, o padre Lírio fundou,
então, A Liberdade, que apenas teve
três números, os de 18 e 25 de Maio, e de 1 de Junho de 1911, que foi
apreendido na tipografia antes de circular.
A Revista de Ovar,
a Semana de Ovar e ainda o Semanário de Ovar (único número a 4 de
Maio de 1911), "foram um capricho da família Peixoto, sempre inquieta,
principalmente na política. Os republicanos procuraram impedir as suas
publicações, o que lhes era fácil. Por detrás dos nomes que se diziam directores
e redactores, as pessoas daquele tempo viam facilmente o homem tão talentoso
como irrequieto, que veio a pagar numa cela do convento de Santa Joana, em
Aveiro, sob a invocação de outros pretextos, as afirmações que fez correr por
aquelas folhas. Esse teimoso e arreliador era o Rev.º Manuel Rodrigues
Lírio" (Zagalo dos Santos, Ovar na literatura e na arte, 195-196).
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Capa do 1.º número do jornal ovarense JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 1914) |
"À roda do Dr. Soares Pinto, formou o
escol dos monárquicos intransigentes, não desertando de entre eles a pena
brilhante e cáustica do poeta, jornalista e memoralista, que é o senhor Padre
Manuel Rodrigues Lírio. Assim, salvo o devido respeito pela comparação, como
aqueles moscos que zumbem e ferem impertinentemente as criaturas, à Revista
fizeram suceder a Semana de Ovar, publicada em 27 de Abril e a este o Semanário
de Ovar, aparecido em 4 de Maio. De nada valia aos democráticos o manejo da
lei, ou da arbitrariedade como de nada vale ao triste mortal, mesmo no saco do
seu mosquiteiro, julgar-se isento do inquietante zumbido. Ele voltava, maçador,
aborrecido, arreliante, como voltou a voz dos adversários, mais de chacota do
que agravo, mais riso do que ataque" (Zagalo dos Santos, Notícias
de Ovar, de 15 de Setembro de 1949).
A 1 de Janeiro de 1914 surgiu em Ovar o primeiro jornal
católico, o João Semana, fundado
pelos padres Manuel Rodrigues Lírio e José Ribeiro de Araújo, "uma
pequena folha noticiosa e doutrinária, que nada tem nem quer ter com a política
e os senhores políticos".
Foi seu primeiro director o padre José Maria Maia de Resende (1914-1917); seu segundo director
foi o padre Lírio, de 14 de Outubro
de 1917 a 1952, durante cerca de 35 anos!
O Almanaque de Ovar (1911 e 1913-1918)
O padre Manuel Rodrigues Lírio publicou, em 1911 e de
1913 a 1918, inclusive, o Almanaque de
Ovar, em colaboração com Augusto Pereira de Resende e, posteriormente, com
o padre José Ribeiro de Araújo.
Os sete números publicados do Almanaque de Ovar são um
repositório admirável, interessantíssimo, de coisas, de pessoas e de
acontecimentos relacionados com o concelho, principalmente com a freguesia de
Ovar.
Os artigos insertos no
Almanaque Ilustrado de Ovar ainda
hoje se lêem com muito agrado e curiosidade, e pena foi que o almanaque não tivesse
tido continuidade.
O polemista
O polemista agressivo, temido pelos seus adversários
políticos, os democráticos, o Padre Manuel Rodrigues Lírio ajudou, com o Dr.
Francisco Fragateiro, os republicanos liberais a zurzir, n'A Defesa, os afonsistas
d'A Pátria.
Como tinha, aliás, ajudado os franquistas do Regenerador
Liberal no seu ataque insensato aos outros semanários ovarenses e às
políticas que representavam (republicana, monárquica regeneradora e
progressista).
Algumas das polémicas em que interveio ficaram célebres
na, então, vila de Ovar, especialmente as do João Semana com A Pátria.
Em 1925, por causa da extinção da Irmandade das Almas do Purgatório, na Capela
das Almas, no Largo Cinco de Outubro, travou polémica apaixonada com a democrática Pátria; esta, no mesmo ano,
depreciou a Associação das Damas de
Caridade, o que originou outra polémica com o católico João Semana.
Em 1928 nova polémica entre os dois semanários, quando da
reabertura ao culto da Capela da Misericórdia; entre 1928-1930, polémica com
A Montanha, do Porto, quando da herança
do Dr. Joaquim Soares Pinto. Como não podia deixar de ser, o padre Manuel
Rodrigues Lírio, no
João Semana,
defende os frades e protesta contra a campanha que se ergueu em Ovar contra
eles.
O político
Talassa retinto, antes de quebrar que torcer, o padre
Manuel Rodrigues Lírio foi perseguido pelos republicanos democráticos, estando
preso por três vezes.
Em Julho de 1911 andou fugido por Sande, pela Quinta do
Côvo e Anadia, tendo estado instalado na casa da Quinta da Costeira, em
Carregosa, propriedade então do Bispo-Conde de Coimbra, D. Manuel Correia
Bastos Pina.
"Ali, para reforço da sua segurança, durante o dia
refugiava-se nas grutas do santuário de Nossa Senhora de Lourdes, e deixou
crescer as barbas para mais facilmente iludir os espiões dos seus contumazes
perseguidores" (Dr. Arnaldo Soares de Pinho, no João Semana de 1 de Abril
de 1986).
Preso, finalmente, após rocambolescas perseguições,
esteve em Agosto de 1911 encarcerado durante 20 dias, dos quais oito com
incomunicabilidade.
Entretanto, Paiva Couceiro fez a sua primeira incursão a
5 de Outubro deste ano de 1911, no 1.º aniversário da República, contando com o
bom êxito de alguns complots monárquicos que haviam sido organizados em
diversos pontos do país.
Em Ovar, onde o sentimento monárquico ficara vivo, teria
também havido um complot? Ter-se-iam verificado actos preparatórios de
levantamento da população civil?
Os republicanos locais nunca tiveram dúvidas, os
monárquicos negaram sempre qualquer participação, e as provas circunstanciais
nunca foram concludentes.
Como consequência desse discutido complot estiveram
presas 23 pessoas naturais ou residentes em Ovar, entre as quais três
licenciadas em direito e seis mulheres.
E, como também não podia deixar de ser, o Padre Manuel
Rodrigues Lírio!
Este, detido a 29 de Outubro de 1911, seguiu de comboio para
Aveiro, onde esteve preso 75 dias, até 11 de Janeiro de 1912.
Nas Memórias anedóticas de In Illo Tempore, escritas em
1912 com o pseudónimo de Mário Relvas, o Padre Lírio deu-nos uma descrição,
algo facciosa, como é compreensível, desses graves acontecimentos que tanto
adulteraram o clima político em Ovar, já então bastante corrompido.
Cronista monárquico, o Padre Lírio descreve a sua prisão
no Convento de Jesus, servindo de cadeia, quando esteve guardado "à vista por sentinelas
policiais de baioneta calada, duros, intratáveis que vieram substituir as
militares, atenciosas e delicadas", em estado de incomunicabilidade.
Depois de levantada esta incomunicabilidade, reporta-se à transferência para o
salão do Despacho da Misericórdia, na Praça José Estevão, onde esteve preso até
à libertação sem culpa formada.
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| José Maria Figueiredo |
Por último, a quando da Traulitânia, e na sequência da
libertação de Ovar, a 12 de Fevereiro de 1919, esteve novamente preso, no
quartel da então vila, tendo sido libertado pela acção dos republicanos locais.
As Memórias anedóticas de In Illo Tempore inserem várias
poesias do Padre Lírio dedicadas a outros presos políticos.
A título de curiosidade publicamos a que dedicou ao cidadão José
Maria Rodrigues Figueiredo, que foi um dos fundadores do partido republicano
local, presidente da comissão administrativa da Misericórdia e "admirador
e amigo ardente" do dr. Soares
Pinto:
Zé Maria Figueiredo
conspirador presidiário
fica varado de medo
quando chega o comissário
Antes mesmo de ele transpor
do portão o limiar
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| Rua do Brejo, Ovar (foto de Ricardo Ribeiro) |
se se vê no corredor
foge p'rá cela que é um ar!...
E, ainda ofegante da estafa
p'ra fingir que não saira
desarrolha uma garrafa,
põe-se à mesa e... toca e vira!...
Bebe umas boas goladas
livre de importunos, sós,
sobre buxas de arrufada
e vareiro pão de ló.
Nada há que mais o aflija
que ser cá fora encontrado:
prefere ser apanhado
com a boca na botija.
E assim – caso singular! –
este ilustre presidiário
não faz senão engordar
com os sustos do comissário.
O professor
Não podendo exercer, como desejava, dada a sua doença,
cargos pastorais, o Padre Lírio encetou uma nova vida, a do professorado.
A 11 de Novembro de 1918 abriu no edifício em que funcionara a secção feminina do Colégio Júlio Dinis (um prédio da esquina da Rua
Coronel Galhardo e Largo do Hospital, actualmente propriedade do autor destas
linhas), o Colégio Ovarense, fundado pelos padres Manuel da Silva Brandão e
António Augusto da Fonseca Soares e pelo professor António Augusto Correia
Baptista.
Foram neste colégio professores os padres Manuel Lírio,
que também foi diretor, e Miguel de Oliveira, este de 11 de Novembro de 1918 a
25 de Fevereiro de 1919.
Um desentendimento com o proprietário do edifício, o meu
avô Francisco de Matos, originou o fim do colégio em 1929.
Do Colégio Ovarense, o padre Lírio passou para o Colégio
dos Carvalhos, nos arredores do Porto, daí foi para o Colégio S. Luís, de
Espinho, onde o foi buscar o dr. Arnaldo Soares de Pinho para o Externato
Cambrense, da vila de Cambra (instalado em 1945). Neste colégio, o padre Lírio
leccionou desde a sua instalação até a sua doença o impedir de ensinar.
O historiador (1922 e 1926)
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| Casa onde residiu o Padre Lírio, um dos fundadores do jornal "João Semana" |
Muito interessado na história de Ovar e dos seus povos, o
padre Manuel Rodrigues Lírio, além de artigos dispersos pelo
Almanaque de Ovar
e pelos jornais da vila, escreveu duas monografias -
Os Passos de Ovar, em
1922, e os
Monumentos e Instituições religiosas (1926).
Os Passos é a descrição, exuberante de pormenores, da
Irmandade dos Passos, a mais antiga e a mais importante das irmandades de Ovar,
das suas capelas privativas, das suas procissões e das suas tradições.
Nos Monumentos e instituições religiosas o padre Lírio
faz uma exaustiva descrição da Igreja, dos seus altares e das suas capelas;
refere as capelas públicas e particulares da freguesia, as associações
religiosas, e assinala algumas tradições religiosas, sendo muito interessantes
as referências à procissão dos farricocos ou dos fogaréus, às cabeceiras, à
devoção do Rosário, bem como a explicação para o dito - "Os vareiros
enterraram o Senhor na areia"!
Na minha Monografia de Ovar, coloquei-o entre os cinco
maiores historiadores locais: dr. João Frederico Teixeira de Pinho (1818-1870),
António Dias Simões (1870-1922), Padre Manuel Rodrigues Lírio (1881-1953), dr.
António Baptista Zagalo dos Santos (1884-1957) e Padre Miguel Augusto de
Oliveira (1897-1968).
O Padre Lírio e a Misericórdia
O Padre Lírio, que foi um dos 68 sócios fundadores da
Misericórdia de Ovar, veio a ser vogal da mesa administrativa presidida pelo
dr. João Baptista Nunes da Silva (republicano liberal).
Após a Revolução de 28 de Maio de 1926, os democráticos
foram corridos da Misericórdia, num escandaloso procedimento político que muita
tinta fez correr.
Por alvará de 17 de Março de 1928, do tenente de
infantaria 7, delegado do Governo com atribuições de Governador Civil do
distrito de Aveiro, foi exonerada a Mesa do Provedor Dr. Domingos Lopes
Fidalgo, e nomeada em sua substituição outra presidida por aquele Dr. João
Baptista Nunes da Silva. Entre os seus vogais contavam-se os padres Manuel
Lírio e José Maria de Resende.
No caso da herança do Dr. Joaquim Soares Pinto
(1928-1930), o padre Manuel Rodrigues Lírio colocou o João Semana na defesa
intransigente dos padres Leonardo de Castro e Teófilo de Andrade, tendo sido
testemunha de defesa deste último.
Tal posição acarretou-lhe o ataque de todos aqueles que
consideravam que a defesa daqueles padres era contrária aos interesses da Santa
Casa da Misericórdia de Ovar.
A Montanha, do Porto, não o poupou, como se observa pela
transcrição da primeira parte dum soneto humorístico nela inserto:
"Não lamentes, ó Lírio o teu estado;
Lírio roxo tem sido gente boa,
Roxíssimos lirós há em Lisboa
Muitos lírios se têm ordenado".
O teatro (1935 e 1937)
O Padre Lírio colaborou em festas escolares,
designadamente com um auto e uma farsa.
Em 1935 publicou Diogo Cão em Cabo Negro (Auto do
Padrão), que com o título Por mares nunca dantes navegados mereceu uma menção
honrosa.
A cena passa-se no século XV, evidentemente, tendo como
personagens o navegador Diogo Cão, um contra-mestre e três marinheiros.
Em 1937 publica, por sua vez, Dia Feriado, farsa num
acto, que se desenrola no dia de anos duma das personagens - cinco estudantes e
a criada.
Segundo nos informa a Grande Enciclopédia Portuguesa e
Brasileira - o artigo deve ser da autoria do Padre Miguel de Oliveira -, o
Padre Lírio tinha pronto para publicar um romance intitulado Vidas
trágicómicas. Isto em 1946.
O Padre Manuel Rodrigues Lírio veio a falecer na manhã de
19 de Novembro de 1953, com 72 anos, após prolongada doença, na sua casa de S.
Miguel.
BIBLIOGRAFIA:
Alberto Sousa Lamy, Monografia de Ovar, I e II volumes (1977);
História da Santa Casa da Misericórdia de Ovar (1984), e Centenário da Imprensa
Ovarense (1983); Zagalo dos Santos, Ovar na Literatura e na arte (1926); Grande
Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 15.º; João Semana, de 26/11/1953;
Notícias de Ovar, de 26/11/1953.