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16.8.19

JOÃO SEMANA, jornal de Ovar, é uma das Publicações Centenárias Portuguesas


Publicações Centenárias Portuguesas
Diploma
"A Associação Portuguesa de Imprensa reconhece que o jornal "João Semana"
está em publicação ininterrupta há 100 anos, fazendo parte do projeto das 
Publicações Centenárias Portuguesas, o qual será candidato a 
Património Cultural Imaterial"
(Lisboa, 25 de abril de 2017)

Clique no DIPLOMA para aumentar

16.11.18

Jornal “João Semana” em festa [no ano do centenário 1914-2014]

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2014)
TEXTO: José Castro

Quando em 1994 terminei a minha carrei­ra de 40 anos no Banco Nacional Ultramarino fui imediatamen­te “repescado” pelo meu amigo Dr. Pires Bastos para voltar a colaborar em atividades paroquiais, as quais tinham sido interrompidas alguns anos antes por motivos profissionais.
Contudo, a minha colaboração na Paróquia remonta aos anos 60, quando fui convidado pelo meu amigo João Costa para fazer parte de um C.P.M. (Centro de Preparação para o Matri­mónio), numa equipa “capitaneada” pelo particular amigo Dr. António José da Silva e os casais: Dr. Tigre, Joaquim Monteiro, Norberto Andrade, Teixeira e o organizador.
José Castro
Quando a organização das bi­lheteiras e entradas do Carnaval – bilheteiras e entradas, ficou à nossa responsabilidade, recaiu em mim centralizar as receitas e, já noite alta, na companhia do José Palhas e com a proteção de dois agentes da P.S.P., transportá-las para a casa-forte do banco, cuja gerência me confiava as chaves para o efeito, a fim de serem depositadas no dia seguinte.
Criado o Estatuto Paroquial, fui chamado por João Costa para colabo­rar com o Grupo de Apoio Paroquial na criação das comissões de rua que efetuavam as respetivas cobranças, casa a casa, no recolhimento e confe­rência dos valores entregues.
Nesta fase da minha colaboração acabei por ficar responsável pela con­tabilidade da Fábrica da Igreja, da qual dava conhecimento aos paroquianos através de um mapa mensal que fazia questão de afixar no átrio da Igreja.
Estamos em 1974, ano em que acabei o meu mandato de Presidente da Junta de Ovar (com S. João de Ovar) e que a minha carreira profissio­nal me obrigava a residir em Lisboa, dada a minha nomeação para o Quadro da Inspeção do Banco e, mais tarde, como gerente e como coordenador, acabando como responsável pela área operacional da Beira Alta, que incluía todas as agências da periferia da Serra da Estrela.
No “João Semana”
Foi por junho de 1994 que, ao saborear um café, se deu o convite do Padre Manuel Pires Bastos.
Senti-me moralmente obriga­do, dado que ia receber em mãos a “herança” que deixei ao meu amigo Armindo Godinho de Almeida quan­do, em 1979, lhe transmiti as mesmas funções.
Ainda vim a tempo da gestão do Jardim Infantil Alvorada, sobre o qual, numa próxima oportunidade voltarei a estas colunas.
Face às funções que passei a desempenhar nos últimos 20 anos, o meu relacionamento com o Sr. P.e Bastos era assíduo, dadas as várias frentes de atuação da Paróquia, prin­cipalmente nas obras da Igreja e no Infantário, que implicavam reuniões frequentes.
Foi nesta fase que observei a sua grande dedicação ao jornal, ao qual dispensava uma parte do dia, ora colhendo elementos, ora participando em reuniões ou eventos das várias agremiações/instituições para que era convidado.
A chegada do meu amigo Dr. Fer­nando Manuel Oliveira Pinto, atual Diretor-adjunto do “João Semana”, foi uma importante ajuda ao Diretor, permitindo, ao mesmo tempo, dar uma lufada de modernismo ao nosso quinzenário.
A minha colaboração no “João Semana” limitava-se a pouca “escrita” e a “emprestar” a minha assinatura na movimentação das contas bancárias, cujo cancelamento solicitei em 2013, quando completei os meus 80 anos de idade, prometendo à minha mulher dar por finda qualquer atividade social, até porque já tinha solicitado ao meu amigo Dr. Oliveira Dias a minha subs­tituição nos corpos sociais da Santa Casa da Misericórdia de Ovar, que servi durante 10 anos.
Termino desejando ao nosso jornal centenário e aos seus colaboradores muitos anos de vida.

Parabéns, “João Semana”.
Obrigado, Padre Bastos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 2014)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/11/jornal-joao-semana-em-festa-no-ano-do.html

21.3.18

Jornal "João Semana" na Assembleia da República [Lisboa, 21 de fevereiro de 2018]

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2018)
TEXTO: Fernando Pinto

A Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Despor­to da Assembleia da República, em conjunto com a Associação Portuguesa de Imprensa (API), organizou, na manhã de 21 de fevereiro, no Auditório António de Almeida Santos, a conferência parlamentar “A Imprensa Centenária na Assembleia da Repú­blica”. Da parte da tarde, foi inaugurada no piso zero do Palácio de São Bento a exposição “Publicações Centenárias Portugue­sas”, que está patente até ao próximo dia 16 de março, mostra onde figura o jornal "João Semana".

O Diretor do "João Semana" (à esquerda), com António Poças e Aníbal dos Santos Gomes,
na exposição inaugurada no Palácio de São Bento
O "João Semana" – periódico ovarense fundado em 1 de janeiro de 1914, pertencente à Associação de Imprensa e Inspiração Cristã – foi um dos 33 títulos homenagea­dos pela Assembleia da República. 
A representar a equipa do "João Semana" esteve o padre Ma­nuel Pires Bastos (diretor), o jor­nalista vareiro Fernando Manuel Oliveira Pinto (diretor-adjunto), e os colaboradores diácono António Carvalho Teixeira Poças e enfer­meiro Aníbal dos Santos Gomes.

Fernando Pinto (diretor-adjunto do "João Semana"), ladeado por António Poças e Aníbal Gomes, na escadaria da Assembleia da República (foto de Manuel Pires Bastos)

“A Imprensa Centenária na Assembleia da República”
A conferência parlamentar que decorreu no Auditório Antó­nio de Almeida Santos, iniciativa da responsabilidade da deputada Edite Estrela e de João Palmei­ro, presidente da Direção da API, teve como objetivo sublinhar a importância da imprensa portuguesa, neste caso particular o excelente trabalho desenvolvido pelos jornais centenários.


A candidatura destes pe­riódicos a Património Cultu­ral Imaterial, "que já conta com o apoio do Presidente da República", como lem­brou Edite Estrela na sessão de abertura, "não deixará de contar também com o apoio do Parlamento português", como foi confirmado pe­los representantes dos vá­rios Grupos Parlamentares que estiveram presentes na sessão de encerramento da conferência (Diana Ferreira, do PCP, Jorge Campos, do BE, Susa­na Lamas, do PSD, Carla Sousa, do PS, e Vânia Dias da Silva, do CDS-PP, na foto).


"A exposição e esta confe­rência inserem-se nas atividades do Ano Português de Imprensa [2017/2018], e o Ano Português da Imprensa insere-se no Ano Eu­ropeu do Património [2018]", lem­brou João Palmeiro (na foto, em baixo, à direita). Para o presidente da API, "o que se deverá traduzir no Património Cultural Imaterial é a confiança que os leitores ain­da sentem por estas publicações, numa época em que proliferam as fake news (notícias falsas)".


Carlos Correia e Irene Tomé (docentes da Universidade Nova de Lisboa), António Valdemar (jornalista e investigador) e Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências, foram convidados a debater o tema "Publicações Cen­tenárias Portuguesas/Património Imaterial Cultural".
Carlos Correia falou "sobre a emergência dos chamados siste­mas digitais, da transição entre o analógico e o digital, o local e o global, a que apelidou de “glo­cal”). A sua colega Irene Tomé abordou "a emergência do as­sociativismo, os seus percursos, entrecruzando com os aspetos políticos e socioeconómicos, par­ticularizando o associativismo de Imprensa, que se espelhou na publicação de jornais, quer o país vivesse ou não em períodos so­ciopolíticos conturbados".
António Valdemar [na foto] deu a co­nhecer um pouco da história da imprensa centenária portuguesa e alguns dos seus rostos, e terminou a sua intervenção referindo que este evento "permitiu uma reflexão necessária em torno das questões essenciais relativas ao futuro da Comunicação Social e, ao mesmo tempo, uma tomada de consciên­cia e um alerta em relação às difi­culdades e incertezas com que se debate este setor, que requer solu­ções adequadas e urgentes".
Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências, partilhou alguns episódios sobre a colabo­ração de Camilo Castelo Branco como primeiro redator do jornal centenário mais antigo do conti­nente, "A Aurora do Lima” (1855).
Concluído o debate, Carlos Eugénio, diretor executivo da Vi­sapress, entidade que patrocinou a exposição dos jornais centená­rios, falou sobre a importância dos Direitos de Autor.

Exposição “Publicações Centenárias Portuguesas”
Após o almoço oferecido aos jornalistas, foi inaugurada nos corredores do Palácio de S. Bento a exposição “Publicações Cente­nárias Portuguesas”, evento que presta homenagem aos 33 títulos portugueses que se publicam há mais de um século sem interrup­ção, mostra que pode ser vista até ao dia 16 de março.


Para além do "João Semana", os jornais “Açoriano Oriental” (1835), "Diário de Notícias" (1864), "Jornal de Notícias" (1888) e "Correio da Feira" (1897) são alguns dos títulos que testemunham a história da sua região, de Portugal e do Mundo.
Edite Estrela (na foto) lembrou que os jornais centenários só se mantêm vivos porque se renovam, reinventam, para corresponderem às expetativas dos públicos.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2018/03/jornal-joao-semana-na-assembleia-da.html

2.2.18

João Semana, um médico consciente da sua missão social

Jornal JOÃO SEMANA (01 e 15/01/2018)
TEXTO: Fernanda Grieben

João Semana conversando com Margarida,
aguarela de Alfredo Roque Gameiro
No primeiro capítulo de um conto inacabado, projetado para in­tegrar um segundo volume (que não chegou a ser composto) da an­tologia Serões da Província, Júlio Dinis deixou-nos uma reflexão ética sobre a missão social do médico. Em consonância com essa reflexão, João Semana – personagem do romance As Pupilas do Senhor Reitor – afigura-se ao leitor dessa primeira Crónica da Aldeia dinisiana como o protótipo do médico que está consciente da sua missão, no contexto social em que decorre a ação do romance: o do mundo rural português, na segunda metade do século XIX.

No referido conto inacabado – intitulado “A vida nas terras pe­quenas” –, Júlio Dinis (principal pseudónimo literário do médico Joaquim Guilherme Gomes Coe­lho, nascido na cidade do Porto, em 1839), realçando a importância da missão social que ao médico cumpre desempenhar, defende que, em conformidade com a natureza dessa mesma missão, “não é dig­no de ser médico” o estudante de medicina que, terminado o curso, não encare com apreensão o início da sua vida profissional. Na opi­nião do médico-poeta, todo aque­le que, “nesse momento solene”, compreende o alcance da missão que vai desempenhar, tem forçosa­mente de “estremecer”, sentindo-se “hesitante, impressionado por uma íntima desconfiança em si próprio, nas suas forças e faculdades”. Pois, é “natural que o confrangimento do coração que à semelhança do actor novel, experimenta todo o homem, ao entrar em cena neste grande tea­tro da sociedade, seja tanto mais intenso e doloroso quanto maior é a importância do papel que vai re­presentar”.
Assim sendo, é fundamental que o desempenho da profissão médica seja assumido consciente­mente. E esta é uma postura que tem de ser mantida, porque, ao longo da sua vida profissional, o médico terá de confrontar-se com todo o tipo de “afecto humano”, terá de saber lidar com todo o tipo de “desgraça” que lhe projectará no caminho “o seu triste reflexo”, terá de saber salvaguardar todo o “interesse” que dependa “dos seus actos”, como também terá de saber manter o “segredo” que foi confia­do “à sua lealdade”. E, para além de tudo isto, o médico terá de sa­ber conviver com “a morte”, que, “como um espectro implacável, lhe surgirá a cada momento”, “sob formas sempre diversas e sempre pavorosas, cingida com a capela virginal umas vezes, coroada ou­tras pelas cãs de velhice, animada por o sorriso da infância ou sinistra com os vestígios do crime”. E Júlio Dinis remata a exposição das suas ideias, declarando: “O que, saben­do isto, aceita com desassombro a missão, ou não tem inteligência para a compreender, ou possui um carácter de deplorável natureza”.
Tendo em atenção a reflexão ética sobre a missão social do mé­dico acima sinteticamente apresen­tada, pode-se, então, perguntar, se essas convicções que Júlio Dinis expressa, pela voz do narrador, se repercutem, ou não, no desenho do carácter das suas personagens de ficção que encarnam o papel do médico, especificamente, o do mé­dico da aldeia. Vejamos.
Nos contos que integram a an­tologia intitulada Serões da Pro­víncia e nos três romances com o subtítulo Crónica da Aldeia (todos, primeiramente, publicados em fo­lhetins, no Jornal do Porto), a figura do médico surge por quatro vezes: é “o médico”, do conto “As apreen­sões de uma mãe” (publicado de 11 de março a 1 de abril de 1862); é “doutor Jacob Granada”, do conto “Uma flor de entre o gelo” (publi­cado de 29 de novembro a 7 de de­zembro de 1864, ou seja, já depois da estadia de Júlio Dinis em Ovar); é “Daniel”, da primeira Crónica da Aldeia dinisiana, intitulada As Pupilas do Senhor Reitor (publi­cada em 1866, mas principiada a ser escrita em Ovar, em 1863); e é, ainda desse mesmo romance, “João Semana”.
Dessas quatro personagens de ficção que encarnam o papel do médico, só esta última – João Se­mana – pode ter sido criada por Júlio Dinis com a finalidade de representar o médico da aldeia que desempenha a sua profissão em harmonia com as convicções éti­cas do seu criador, anteriormente expostas. Isto, porque, tanto Jacob Granada (um velho facultativo po­sitivista, que se apaixona por uma jovem, sua paciente, depois desta ter demonstrando relutância em sujeitar-se ao paternalismo médico) como Daniel (um jovem médico no início de carreira, que regressa à sua aldeia, depois de uma longa estadia na cidade, que conseguiu agudizar a sua predisposição para o namoro) são personagens redondas ou multidimensionais. Ou seja, são dinâmicas, surpreendem o leitor, obrigando-o a uma modificação da sua conceção, a uma diferenciação progressiva da imagem que delas forma. Quanto à personagem que só é apresentada como “o médico", sem ser identificada, essa pode ser apreendida como sendo, unica­mente, a encarnação de uma ideia (que, provavelmente, no tempo de Júlio Dinis, é generalizada: a ideia do conservadorismo e estagnação científica do velho facultativo da aldeia). Ou seja, este tipo de perso­nagem é uma personificação, que pode surgir em romances realistas (nos textos literários dinisanos, não é a única), mas é imprópria para representar o médico ideal, no desempenho das suas funções. O octogenário João Semana, por sua vez, pode ser considerado um tipo social, embora as característi­cas que definem esta personagem sejam um pouco mais complexas do que aquelas que, geralmente, definem os tipos (ou stock figures). Este é o tipo de personagem que está mais indicado para analisar os estereótipos, podendo ser uma forma de crítica social. Assim, João Semana, tendo sido especialmente criado para representar o tipo social do médico da aldeia, em harmonia com as convicções éticas do seu criador, funciona, no conjunto da produção literária de Júlio Dinis, como protótipo do grupo a que per­tence.
Em relação ao que ficou ante­riormente exposto, convém desta­car que, antes da sua estadia em Ovar, Júlio Dinis não criou ne­nhuma personagem de relevo que, nos seus textos literários, encarne o papel do médico. A primeira, dou­tor Jacob Granada, protagonista do conto “Uma flor de entre o gelo”, já foi criada posteriormente, facto que reforça a ideia, tradicional­mente estabelecida, de que o mé­dico vareiro João José da Silveira (1812-1896) teria impressionado sobremaneira o escritor portuense, também ele médico de profissão, a ponto de este lhe copiar os traços caracterológicos, reproduzindo-os no desenho do carácter do célebre João Semana, personagem do ro­mance As Pupilas do Senhor Reitor (publicado em livro, pela primeira vez, em 1867).
Assim, à semelhança de João José da Silveira (e diferentemente de Jacob Granada), João Semana não se limita a exercer a profissão médica obedecendo a princípios éticos inspirados numa visão po­sitiva do mundo. Antes pelo con­trário, o médico octogenário é um homem imaginativo, que nutre “a paixão do ideal”. Logo, a sua vista penetra “através do mundo das realidades” e, além dele, descobre “um mundo novo, o mundo das ilusões e da poesia”, que lhe in­funde coragem para enfrentar “as provações da vida”, como escreve Júlio Dinis no já referido conto ina­cabado “A vida nas terras peque­nas”, onde acrescenta o seguinte: “Estas frontes humanas parecem ambicionar uma coroa, seja embora de espinhos, que misturem o seu pungir às embriagadoras comoções da glória”.
Com efeito, no romance As Pupilas do Senhor Reitor, é com verdadeira devoção que João Semana exerce a profissão médica. Revelando-se sensível aos problemas concretos dos seus pacientes, e sendo, “por aquele tempo, o único facultativo da freguesia”, é “lisonjeiramente conceituado na opinião pública da terra”. Homem laborioso e bem-humorado, o velho cirurgião colhe a sua “glória” junto de todos aqueles a quem incansavelmente visita, dia após dia, praticando na aldeia a arte de curar, num tempo (a ação do romance decorre em meados do século XIX) em que, no mundo rural português, ainda se faz sentir o atraso nas ciências médicas em Portugal, em particular no estudo da anatomia. Uma realidade que Júlio Dinis também retrata nessa sua primeira Crónica da Aldeia. No entanto, o ver­dadeiro obstáculo com que João Semana se confronta, dia a dia, no desempenho da profissão médica, não é a carência de conhecimentos científicos, mas a extrema in­digência em que vive grande parte dos aldeãos, muitas ve­zes, totalmente desprovidos de recursos económicos que lhes permitam adquirir os medicamentos que o médico lhes receita. E é neste ponto que João Semana mais fiel­mente representa o médico ideal no exercício das suas funções – em conformidade com os princípios éticos que Júlio Dinis defende (expos­tos na edição anterior) –, ao prati­car a Caridade de forma discreta, e permitindo, assim, que quem dela beneficia possa preservar a sua dignidade de pessoa humana. Teria sido esta a particularidade de João José da Silveira que mais impressionou Júlio Dinis? Tudo in­dica que sim. Foi certamente nessa figura vareira que o médico-poeta encontrou, talvez pela primeira vez, um médico consciente da sua missão social. Um médico profun­damente humano, que sabia que “se para cá do túmulo há alguma coisa que se possa chamar Céu e Inferno, é na própria consciência que se encontra” – como se pode ler no conto “A vida nas terras pequenas”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 e 15 de janeiro de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2018/02/joao-semana-um-medico-consciente-da-sua.html

4.2.17

Jornal “João Semana” e o Cine-Teatro de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2016)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 9 de setembro de 1943 é publicada no “João Semana” a escritura de uma sociedade deno­minada Empresa de Melhoramentos de Ovar, Lda, constituída em 15 de julho anterior, cujo objetivo era a exploração de “cinema, teatro e quaisquer espetáculos, festas e di­versões públicas e outros negócios que a mesma Sociedade resolva explorar”.
Meses depois, em 11 de maio de 1944, crescendo o cinema em altura, sem que o “João Semana” se pronunciasse sobre o assunto, e parecendo a muitos vareiros ser isso estranho, os responsáveis pelo jor­nal vieram a público para justificar o seu silêncio e a não intervenção da Paróquia, com o texto “Varrendo a testada”, de que salientamos a se­guinte passagem: “(...) Não há que estranhar o nosso silêncio, quando outro mais alto se levanta: o das entidades oficiais que nisso tinham que intervir. Pôr embargos... Mas que embargos?, se, enquanto não fôr dada licença para tal obra ela está por natureza embargada? ou não é isto? (...)”.
Entretanto, em 1 de junho, re­gressados de um retiro em Fátima, visitaram a paróquia os Bispos do Porto, D. Agostinho de Jesus e Sousa, e de Vila Real, D. António Valente da Fonseca, este natural de Válega. Sem fazer qualquer referência ao Cine-Teatro, a notícia acrescenta que D. Agostinho, que “pela primeira vez, esteve nesta vila, admirou a grandeza e majesta­de da nossa paróquia, regressando ao Porto após uma breve paragem”.
D. Agostinho, que voltaria a Ovar em 22 de julho seguinte para ministrar o Crisma – os últimos crismas haviam sido em 1905, 1918 e 1923 –, terá manifestado tolerân­cia em relação a um ato consumado, até porque “a Igreja não pode im­pedir o progresso”. (Clique no link para ler “O Cine-Teatro que (não) temos”, texto do jornalista Fernando Pinto, publicado em 01/12/2002).

Cine-Teatro de Ovar

Inconformado com a construção do edifício, o padre Boaventura deixou Ovar em 24 de fevereiro de 1944, ao fim de oito anos de paro­quialidade exemplar, sendo logo substituído pelo padre Crispim Gomes Leite, vindo de Gondomar, onde fora Pároco e presidente da Câmara.
A fama de bom gestor nas coi­sas religiosas e civis terão sido os predicados que aconselharam a sua nomeação, no intuito de ultrapassar a crise que se instalara na sua nova paróquia, intenção a que o “João Semana” de 23 de março parece aludir ao referir, um mês depois da sua chegada: “Causou a melhor impressão e está conquistando a mais grande das simpatias a apre­sentação e ação do novo pároco de Ovar”.
Em 30/12/1944, quando da inauguração do Cine-Teatro em que o “João Semana” não pôde tomar parte (“por motivos estranhos à nossa vontade”, tal como versa a notícia) , os seus responsáveis fazem votos para que o Cinema se oriente na esteira das “tradições de trabalho, honestidade e fé do povo”.
Em 1 de março de 1945 e nos números seguintes, este periódico anunciou, com publicidade da própria empresa, que em breve seriam exibidos os filmes “O Bom Pastor” e “Fátima, terra de Fé”, com comentários muito positivos. (De imediato, a mesma empresa viria a constituir a Sociedade de Melhoramentos da Praia do Fura­douro, com o fim de dotarem Ovar com um hotel que funcionaria em 1946 o “Mar e Sol”, que substituiu uma anterior Pensão de Turismo.)
O padre Crispim partiria de Ovar em 7 de janeiro de 1952, dei­xando atrás de si uma obra notável, embora nem sempre reconhecida nos seus méritos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de agosto de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/jornal-joao-semana-e-o-cine-teatro-de.html

ADENDA -----------------------------------------

Na tarde de 9 de agosto último, o presidente da Câmara Municipal de Ovar, Salvador Malheiro, decidiu avançar para a posse adminis­trativa do prédio do Cine-Teatro de Ovar, propriedade privada, que desde há vários anos estava sem utilização por falta de condições de segurança no interior e no exterior, e que por isso está a ser demolido quando do fecho desta edição do jornal “João Semana”
Segundo o autarca, “este imóvel faz parte da história ovarense e a demolição parcial está a ser feita por um empresa qualificada, tentando­-se manter o máximo do seu património arquitetónico”. TEXTO: Jornal "João Semana" (15/08/2016)

Cine-Teatro de Ovar, dias antes de demolido
Foto:João Elvas
Momento em que as letras do Cine-Teatro de Ovar estavam a ser retiradas
por ordem da Câmara Municipal (09/08/2016)

Foto: Fernando Pinto

5.3.16

Jornal “João Semana” esteve na casa do escritor Ferreira de Castro

Ferreira de Castro
Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2015)
TEXTO: Fernando Pinto

«Eu devia este livro a essa majestade verde, soberba e enigmática, que é a selva amazónica, pelo muito que nela sofri durante os primeiros anos da minha adoles­cência e pela coragem que me deu para o resto da vida.
(...) A luta de cearenses e maranhenses nas florestas da Amazónia é uma epo­peia de que não ajuíza quem, no resto do Mundo, se deixa conduzir, veloz e como­damente, num automóvel com rodas de borracha - da borracha que esses homens, humildemente heróicos, tiram à selva misteriosa e implacável.» (Ferreira de Castro, no Pórtico do romance “A Selva”)

Há muito que o padre Manuel Pires Bastos queria juntar os cola­boradores do jornal “João Sema­na” para que pudessem conviver e trocar impressões sobre este pe­riódico centenário que muito tem feito pela cultura e historiografia vareiras. Em 10 de agosto o desejo do Sr. Abade concretizou-se, e as pessoas que apareceram nesse dia na redação foram conhecer alguns lugares dos concelhos de Ovar, Es­tarreja e Oliveira de Azeméis.

Ossela, terra natal do escritor Ferreira de Castro

A casa do escritor Ferreira de Castro, em Ossela (Oliveira de Azeméis)
FOTO: Fernando Pinto

O ponto alto do passeio foi a visita à casa onde nasceu, em 24 de maio de 1898, o escritor José Maria Ferreira de Castro (na foto).
A tarde escaldava quando o grupo de Ovar chegou ao lugar de Salgueiros, em Ossela. (Os pneus da velha carrinha da Paró­quia, conduzida pelo artista Mar­cos Muge, puderam arrefecer um pouco depois de terem andado uns bons quilómetros lá para os lados da serra).

Os colaboradores do jornal "João Semana" na casa de Ferreira de Castro

Já no interior da Casa­-Museu Ferreira de Castro, foram­-nos mostrados a adega e, no piso superior, a cozinha, a sala e os dois quartos – o de sua mãe Maria Rosa e o seu –, onde se encontram a mala e os sapatos que o escritor usou na viagem reali­zada em 1939 à volta do mundo (na foto).

 A mala e os sapatos do escritor Ferreira de Castro
FOTO: Fernando Pinto
Ferreira de Castro, que também abraçou a carreira de jornalista, é um dos autores portu­gueses mais traduzidos de sempre, sendo as suas obras “Emigran­tes” e “A Selva”, as mais lidas. Esta última foi escrita de 9 de abril a 29 de novembro de 1929, e foi impressa “em princípios de maio de 1930, andava eu, de novo como enviado de O Século, em viagem pelos Aço­res”, lembrou o escritor osselense nas páginas iniciais de “A Selva”. (Partiu aos 12 anos de idade para o Brasil, vivendo no Seringal Pa­raíso, no interior da Amazónia, e posteriormente, em Belém do Pará, na foz daquele rio brasileiro. Viria a falecer em 1974, com 76 anos de idade, sendo sepultado, a seu pedi­do, na Serra de Sintra).
Antes de descer a escadaria de pedra daquela casa de meados do século XIX, de traça rural, o grupo de Ovar deixou algumas palavras no último dos muitos livros de visi­tas – o escritor José Saramago tam­bém passou por lá em 21 de maio de 1999, no Centenário do Nascimen­to de Ferreira de Castro –, e depois atravessou a rua e entrou na Biblio­teca de Ossela, edifício doado pelo escritor, onde se podem apreciar, para além das suas obras, entre outro espólio, alguns quadros de artistas oferecidos ao romancista.

Outros lugares visitados
Da parte da manhã, o primei­ro ponto de paragem foi Pereira Jusã, antigo lugar e concelho, da freguesia de Válega, Ovar, com o seu pelourinho (na foto). O artista Marcos Muge tem ali um pequeno painel de azulejo doado aos vale­guenses em 2 de junho de 2014, por altura das comemorações dos 500 anos da outorga do Foral Ma­nuelino a Pereira Jusã.

Pereira Jusã, antigo lugar e concelho, da freguesia de Válega, Ovar
FOTO: Fernando Pinto

Em Estarreja, o grupo entrou na Igreja de São Tiago de Beduí­do e pôde dar uma espreitadela na Casa da Areosa, do séc. XVIII.
Na Bemposta, Oliveira de Aze­méis, visitámos o centro histórico do antigo concelho e a casa e ca­pela de São Gonçalo, propriedade do Juiz Desembargador Carlos Joa­quim Almeida e Sousa (na foto), assumido vareiro, que recebeu de braços abertos os seus conterrâneos.


A Quinta do Barão, em Lou­reiro, foi o local escolhido para os colaboradores do jornal retempera­rem forças (na foto).

Na Quinta do Barão, em Lou­reiro
FOTO: João Elvas

Depois de um anima­do almoço, partimos em direção ao Parque de La Salette, onde desfrutámos do ambiente festivo que se vivia naquele santuário.
O passeio terminou no aprazível Parque Temático Molinológico localizado ao longo dos rios Ul e An­tuã, nas freguesias de Ul e Travanca, região de molei­ros e moinhos, onde ainda se pode assistir às várias fases do fabrico do pão.

O grupo de Ovar no Parque Temático Molinológico, em Oliveira de Azeméis. 
Da esq. para a direita: Fernando Pinto, Teresa Queirós, padre Bastos, Joaquim Castro,
 David Tavares, Joaquim Fidalgo, Manuel Malícia, Aníbal Gomes, José Pinto,
João Elvas, Ilda Elvas e António Valente (foto de Marcos Muge)

A “família” do “João Sema­na” está bem viva, e espera que os ovarenses sigam os seus passos apoiando este jornal que resistiu a duas Grandes Guerras, e que dese­ja continuar a cumprir o papel que lhe foi conferido há 101 anos, por­que um povo sem memória é um povo sem futuro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de setembro de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/03/jornal-joao-semana-esteve-na-casa-do.html

14.11.13

“João Semana” - Centenário à vista – Os Fundadores

Padres Manuel Lírio e José Ribeiro de Araújo,
fundadores do jornal “João Semana"
Centenário do “João Semana” (1 de janeiro de 2014). É tempo de recordar os seus fundadores, dois sacerdotes que ilustraram a terra de Ovar através da sua cul­tura e do empenho que puseram na defesa do património histórico e religioso vareiro.
O Padre José Ribeiro de Araú­jo, nascido em 1883 – há 130 anos – terá sido o impulsionador da fundação do jornal, cuja ideia foi fruto da vocação literária e jornalística do Padre Manuel Lírio, nascido dois anos antes, e da necessidade de enfren­tarem o período crítico que a Igreja vivia, nessa altura, no nosso país. Um e outro escreveram e lutaram juntos, ao longo de 39 anos, até 1953, quando terminaram o seu percurso terreno: o segundo de­les em 6 de junho, com 72 anos de idade, e o primeiro em 19 de novembro, com 69 anos.
Tê-los-emos sempre presentes.

Manuel Pires Bastos

Padre José Ribeiro de Araújo (1883/1953)
Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2013)
Padre José Ribeiro de Araújo
(Padre Cura)
TEXTO: Joaquim Fidalgo

Pesquisava na minha biblioteca de família quando deparei com um livro litúrgico (Rituale Romanum editado em 1907), com a assinatura do Padre José Ribeiro de Araújo datada de 1908, ano da sua orde­nação sacerdotal, e contendo, no seu interior, uma memória do seu falecimento, ocorrido em 6/6/1953.
Quem foi este sacerdote? De onde era natural? Que semente dei­xou na comunidade vareira?
Nasceu em Perosinho, Vila Nova de Gaia, em 14/11/1883, filho de Joaquim Ribeiro de Araújo e de Ermelinda Domingues Coelho. Ordenado sacerdote em 25/10/1908 por D. António Barroso, Bispo do Porto, de quem corre o processo de canonização, requereu licença para celebrar missa em 30/10/1908.
Vindo para Ovar em 1909, como coadjutor do abade Dr. Alberto de Oliveira e Cunha, natural da Murtosa (1858-1936), tomou o encargo da capelania do Sobral e, a partir daí, desenvolveu um trabalho profícuo na comunidade vareira, restaurando a Congregação Mariana (1921), fundando a associação das Damas de Caridade (1923), convertida, em 1945, na Conferência Feminina de S. Vicente de Paulo, e, em 1924, o grupo de escuteiros, reorganizado e oficializado como Grupo N.º 66 (atual 549 do Corpo nacional de Escutas).
Porque os primeiros anos da Primeira República criaram cliva­gens com a Igreja Católica, nomea­damente pela confiscação dos bens eclesiásticos e pela lei de separação de poderes Igreja-Estado, fazia falta nas casas ovarenses uma publicação de inspiração cristã que defendesse os valores espirituais que estavam a ser beliscados pelo novo governo. Aqueles dois jovens padres, saídos há pouco do Seminário com uma mão cheia de projetos, fundam o jor­nal "João Semana" (celebra 100 anos em 1 de janeiro de 2014), cujo título foi adotado como homenagem ao Dr. João José da Silveira (1812-1896), figura típica de Ovar imortalizada em “As Pupilas do Senhor Reitor” e que revivemos nestes 150 anos das comemorações da chegada de Júlio Dinis a Ovar.
O Padre Cura, como era conhe­cido, colaborou no Almanaque de Ovar, e publicou no “João Semana”, a partir de 1945, artigos de história local que, em 1952, deram origem ao livro Poalhas da História da Fre­guesia e Igreja de Ovar. Já em 1920 publicara Monografia de Perosinho.
Sacerdote exemplar e prestante cidadão, serviu dignamente a Igreja e a vila de Ovar, ao longo de 44 anos, quer no exercício da sua missão pastoral, quer como professor no Colégio Ovarense e orientador da juventude no Escutismo.
Faleceu na sua casa, na rua Vis­conde de Ovar, em 6/6/1953, sendo sepultado em jazigo familiar no cemitério de Ovar, cujo município atribuiu o seu nome a uma rua.

Para realizar este trabalho pesquisei os jornais “João Semana” (1953), “Notí­cias de Ovar” (1953, e revista “Dunas” (n.º 7 de 2007), e solicitei informações ao Arquivo Diocese do Porto.


Padre Manuel Rodrigues Lírio (1881/1953)
Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2013)
TEXTO: Fernando Pinto

Numa tarde, em casa do meu pri­meiro Diretor, José Manuel Ferreira Casaca, enquanto fazíamos as últimas emendas no seu futuro livro “A Re­gião de Entre-os-Rios”, falámos um pouco do jornal “João Semana” e dos seus fundadores, Padres Ribeiro de Araújo e Manuel Lírio. O Sr. Casaca, Diretor deste quinzenário desde 1976 a 2000, foi uma das pessoas que me fi­zeram entender quanto este periódico deveria ser mais acarinhado pela co­munidade vareira. (No dia 24 de junho faz 9 anos que este nosso amigo par­tiu. Se estivesse entre nós, completaria 80 primaveras no dia 6 de outubro).
Tal como o Sr. Casaca, o Padre Lírio dava muita importância à histo­riografia local, porque um povo sem memória é um povo triste e pobre.
Lápide da sua sepultura do Padre Manuel
Rodrigues Lírio (Cemitério de Ovar)
Para além de ter sido sacerdote, o Padre Lírio foi professor, jornalista, his­toriador e poeta. Nasceu na Lagoa de S. Miguel a 23 de agosto de 1881, e faleceu na sua residência, em Ovar, vai fazer 60 anos no próximo dia 19 de novembro (e não a 14, como vem mencionado na Monografia e Dicioná­rio da História de Ovar). 
Na lápide da sua sepultura esqueceram-se de colo­car o dia da sua morte. Como vem escrito na edição de 26/11/1953 do “Notícias de Ovar”, apesar das po­lémicas em que esteve envolvido – foi preso por defender a causa monárqui­ca –,“a terra sagrada que o cobre não ocultará o prestígio do seu nome”.
Em 1918, no texto que abriu, quatro anos mais tarde, a sua obra “Os Passos de Ovar”, contava em “duas palavras”:
“Fomos um dia (...) à capela do Calvário, em cata de um livro velho (...). Nas suas primeiras páginas divi­sáramos então, sem lhe ligarmos gran­de importância, uma lista de padres ovarenses muito extensa (...). A nossa curiosidade, porém, que já se não sa­tisfazia só com a vista do abandonado calhamaço, que lá continuava coberto de pó e bolor no seu conhecido poiso, levou-nos a rebuscar outros, a reme­xer, a procurar. (...)”.
Ao longo da sua vida, o Padre Lí­rio encontrou outros tantos livros e do­cumentos preciosos para a preservação da história daquela secular Irmandade dos Passos, alguns dos quais se encon­tram nas mãos de particulares. Seria importante que esse espólio estivesse ao alcance dos investigadores.
Para além destas obras, o Padre Lírio deixou-nos, entre outros, os seguintes títulos: Almanaque de Ovar e Monumentos e Insti­tuições Religiosas (subsídios para a história de Ovar), e Memórias Anedó­ticas de In Illo Tempore. 

Artigos publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/11/joao-semana-centenario-vista-os.html

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17.6.13

Padre Manuel Rodrigues Lírio

Jornal JOÃO SEMANA (01/08 e 15/08/1986)
TEXTO: Alberto Sousa Lamy
Padre Manuel Lírio
(1881-1953)

A 23 de Agosto de 1881, no lugar de S. Miguel, nasceu o padre Manuel Rodrigues Lírio, fragateiro, e D. Ana de Oliveira Lopes. Seus avós paternos, Manuel Rodrigues Lírio e Teresa de Jesus, eram do lugar de Ações; seus avós maternos, Manuel Pereira da Fonseca Lopes e Maria de Oliveira, daquele lugar de S. Miguel.
Tendo feito o exame de instrução primária em Aveiro, após aprendizagem com o padre Francisco Marques da Silva, foi, depois, aluno do mestre Camarinha, à Ponte da Senhora da Graça.
Posteriormente, frequentou os seminários diocesanos do bispado do Porto: o dos Carvalhos e, por último, o da cidade Invicta.

O sacerdote (1905)
Feitos os seus estudos com altas classificações, Manuel Rodrigues Lírio, com 23 anos, recebeu ordens de presbítero, tendo rezado no Porto, na Igreja dos Clérigos, a 15 de Agosto de 1905, a sua primeira Missa.
Cantada a Missa Nova, quatro dias depois, a 19 daquele mês de Agosto, era nomeado Abade encomendado da freguesia de Gestaçô, do concelho de Baião. Mas pouco tempo demorou nesta freguesia, situada na margem direita da ribeira de Teixeira, afluente do Douro.
Uma afecção pulmonar retirou-o de Gestaçô um mês e meio após a sua investidura, e impediu-o de continuar a sua vida de Pároco. Enquanto em Ovar, e até ao fim da sua vida, tomou conta da capelania de S. Miguel.
Impossibilitado de paroquiar, dada a doença grave que cedo o afectou, dedicou-se ao ensino particular.

O poeta
Na sua mocidade, Manuel Rodrigues Lírio publicou, com vários pseudónimos, versos nos semanários e quinzenários locais.
Mais tarde, veio a reunir poesias suas num livro intitulado "Ao Ritmo do Coração", com o pseudónimo de Álvaro Sêco.
São versos simples, singelos, despretensiosos, modestos. Como aqueles da "Canção da varina", de que transcrevemos os primeiros versos:

"Assente sobre as areias
das ribas da beira-mar
a nossa terra é um berço
que as ondas vêm embalar".

Mais tarde, quando da sua prisão em Aveiro, fará versos no Convento de Jesus e no salão do Despacho da Misericórdia, à Praça José Estevão, que dedicará a outros presos naquela cidade, quer de Ovar quer de outras terras do distrito. Poesias essas, algumas de muita graça, que irá inserir nas "Memórias anedóticas de In Illo Tempore", escritas por ele em 1912. 
É da sua autoria a letra do Hino do Orfeão de Ovar (obra de Rogério de Brito e Padre Lírio), que se ouviu a 27 de Março de 1921 num espetáculo de gala em benefício dos Bombeiros Voluntários locais.

O jornalista
Enquanto se restabelecia da sua doença, o padre Lírio começou a colaborar no jornal O Ovarense, usando diversos pseudónimos: Alcinda, Mário Relvas, Martírio, Álvaro Sêco.
Colaborou também no Jornal de Ovar, no Regenerador Liberal, n'A Defesa, no Notícias de Ovar, e n'A Pérola.
Foi ainda correspondente de diários de Lisboa, designadamente do Diário Ilustrado, d'A Época, do Jornal da Noite, neles tendo também colaborado com vários artigos.
Após a Implantação da República, foi redactor da Revista Ovar, "transformação radical e completa" do Regenerador Liberal. Esta Revista, que se publicou de 17 de Novembro de 1910 a 19 de Abril de 1911, foi suprimida arbitrariamente pelas autoridades republicanas a 20 deste último mês.
A Revista de Ovar sucedeu o semanário Semana de Ovar, de que foi redator o padre Lírio, jornal que foi também suprimido, arbitrariamente, logo no seu primeiro número, de 27 de Abril de 1911, pelas autoridades administrativas.

Rua Padre Manuel Rodrigues Lírio, em S. Miguel, Ovar

Com António Augusto de Resende, o padre Lírio fundou, então, A Liberdade, que apenas teve três números, os de 18 e 25 de Maio, e de 1 de Junho de 1911, que foi apreendido na tipografia antes de circular.
A Revista de Ovar, a Semana de Ovar e ainda o Semanário de Ovar (único número a 4 de Maio de 1911), "foram um capricho da família Peixoto, sempre inquieta, principalmente na política. Os republicanos procuraram impedir as suas publicações, o que lhes era fácil. Por detrás dos nomes que se diziam directores e redactores, as pessoas daquele tempo viam facilmente o homem tão talentoso como irrequieto, que veio a pagar numa cela do convento de Santa Joana, em Aveiro, sob a invocação de outros pretextos, as afirmações que fez correr por aquelas folhas. Esse teimoso e arreliador era o Rev.º Manuel Rodrigues Lírio" (Zagalo dos Santos, Ovar na literatura e na arte, 195-196).

Capa do 1.º número do jornal ovarense
JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 1914)
"À roda do Dr. Soares Pinto, formou o escol dos monárquicos intransigentes, não desertando de entre eles a pena brilhante e cáustica do poeta, jornalista e memoralista, que é o senhor Padre Manuel Rodrigues Lírio. Assim, salvo o devido respeito pela comparação, como aqueles moscos que zumbem e ferem impertinentemente as criaturas, à Revista fizeram suceder a Semana de Ovar, publicada em 27 de Abril e a este o Semanário de Ovar, aparecido em 4 de Maio. De nada valia aos democráticos o manejo da lei, ou da arbitrariedade como de nada vale ao triste mortal, mesmo no saco do seu mosquiteiro, julgar-se isento do inquietante zumbido. Ele voltava, maçador, aborrecido, arreliante, como voltou a voz dos adversários, mais de chacota do que agravo, mais riso do que ataque" (Zagalo dos Santos, Notícias de Ovar, de 15 de Setembro de 1949).
A 1 de Janeiro de 1914 surgiu em Ovar o primeiro jornal católico, o João Semana, fundado pelos padres Manuel Rodrigues Lírio e José Ribeiro de Araújo, "uma pequena folha noticiosa e doutrinária, que nada tem nem quer ter com a política e os senhores políticos".
Foi seu primeiro director o padre José Maria Maia de Resende (1914-1917); seu segundo director foi o padre Lírio, de 14 de Outubro de 1917 a 1952, durante cerca de 35 anos!

O Almanaque de Ovar (1911 e 1913-1918)
O padre Manuel Rodrigues Lírio publicou, em 1911 e de 1913 a 1918, inclusive, o Almanaque de Ovar, em colaboração com Augusto Pereira de Resende e, posteriormente, com o padre José Ribeiro de Araújo.
Os sete números publicados do Almanaque de Ovar são um repositório admirável, interessantíssimo, de coisas, de pessoas e de acontecimentos relacionados com o concelho, principalmente com a freguesia de Ovar.
Os artigos insertos no Almanaque Ilustrado de Ovar ainda hoje se lêem com muito agrado e curiosidade, e pena foi que o almanaque não tivesse tido continuidade.

O polemista
O polemista agressivo, temido pelos seus adversários políticos, os democráticos, o Padre Manuel Rodrigues Lírio ajudou, com o Dr. Francisco Fragateiro, os republicanos liberais a zurzir, n'A Defesa, os afonsistas d'A Pátria.
Como tinha, aliás, ajudado os franquistas do Regenerador Liberal no seu ataque insensato aos outros semanários ovarenses e às políticas que representavam (republicana, monárquica regeneradora e progressista).
Algumas das polémicas em que interveio ficaram célebres na, então, vila de Ovar, especialmente as do João Semana com A Pátria. Em 1925, por causa da extinção da Irmandade das Almas do Purgatório, na Capela das Almas, no Largo Cinco de Outubro, travou polémica apaixonada com a democrática Pátria; esta, no mesmo ano, depreciou a Associação das Damas de Caridade, o que originou outra polémica com o católico João Semana.
Em 1928 nova polémica entre os dois semanários, quando da reabertura ao culto da Capela da Misericórdia; entre 1928-1930, polémica com A Montanha, do Porto, quando da herança do Dr. Joaquim Soares Pinto. Como não podia deixar de ser, o padre Manuel Rodrigues Lírio, no João Semana, defende os frades e protesta contra a campanha que se ergueu em Ovar contra eles.

O político
Talassa retinto, antes de quebrar que torcer, o padre Manuel Rodrigues Lírio foi perseguido pelos republicanos democráticos, estando preso por três vezes.
Em Julho de 1911 andou fugido por Sande, pela Quinta do Côvo e Anadia, tendo estado instalado na casa da Quinta da Costeira, em Carregosa, propriedade então do Bispo-Conde de Coimbra, D. Manuel Correia Bastos Pina.
"Ali, para reforço da sua segurança, durante o dia refugiava-se nas grutas do santuário de Nossa Senhora de Lourdes, e deixou crescer as barbas para mais facilmente iludir os espiões dos seus contumazes perseguidores" (Dr. Arnaldo Soares de Pinho, no João Semana de 1 de Abril de 1986).
Preso, finalmente, após rocambolescas perseguições, esteve em Agosto de 1911 encarcerado durante 20 dias, dos quais oito com incomunicabilidade.
Entretanto, Paiva Couceiro fez a sua primeira incursão a 5 de Outubro deste ano de 1911, no 1.º aniversário da República, contando com o bom êxito de alguns complots monárquicos que haviam sido organizados em diversos pontos do país.
Em Ovar, onde o sentimento monárquico ficara vivo, teria também havido um complot? Ter-se-iam verificado actos preparatórios de levantamento da população civil?
Os republicanos locais nunca tiveram dúvidas, os monárquicos negaram sempre qualquer participação, e as provas circunstanciais nunca foram concludentes.
Como consequência desse discutido complot estiveram presas 23 pessoas naturais ou residentes em Ovar, entre as quais três licenciadas em direito e seis mulheres.
E, como também não podia deixar de ser, o Padre Manuel Rodrigues Lírio!
Este, detido a 29 de Outubro de 1911, seguiu de comboio para Aveiro, onde esteve preso 75 dias, até 11 de Janeiro de 1912.
Nas Memórias anedóticas de In Illo Tempore, escritas em 1912 com o pseudónimo de Mário Relvas, o Padre Lírio deu-nos uma descrição, algo facciosa, como é compreensível, desses graves acontecimentos que tanto adulteraram o clima político em Ovar, já então bastante corrompido.
Cronista monárquico, o Padre Lírio descreve a sua prisão no Convento de Jesus, servindo de cadeia, quando esteve guardado "à vista por sentinelas policiais de baioneta calada, duros, intratáveis que vieram substituir as militares, atenciosas e delicadas", em estado de incomunicabilidade. Depois de levantada esta incomunicabilidade, reporta-se à transferência para o salão do Despacho da Misericórdia, na Praça José Estevão, onde esteve preso até à libertação sem culpa formada.
José Maria Figueiredo
Por último, a quando da Traulitânia, e na sequência da libertação de Ovar, a 12 de Fevereiro de 1919, esteve novamente preso, no quartel da então vila, tendo sido libertado pela acção dos republicanos locais.
As Memórias anedóticas de In Illo Tempore inserem várias poesias do Padre Lírio dedicadas a outros presos políticos.
A título de curiosidade publicamos a que dedicou ao cidadão José Maria Rodrigues Figueiredo, que foi um dos fundadores do partido republicano local, presidente da comissão administrativa da Misericórdia e "admirador e amigo ardente" do dr.  Soares Pinto:

Zé Maria Figueiredo
conspirador presidiário
fica varado de medo
quando chega o comissário

Antes mesmo de ele transpor
do portão o limiar
Rua do Brejo, Ovar (foto de Ricardo Ribeiro)
se se vê no corredor
foge p'rá cela que é um ar!...

E, ainda ofegante da estafa
p'ra fingir que não saira
desarrolha uma garrafa,
põe-se à mesa e... toca e vira!...
Bebe umas boas goladas
livre de importunos, sós,
sobre buxas de arrufada
e vareiro pão de ló.

Nada há que mais o aflija
que ser cá fora encontrado:
prefere ser apanhado
com a boca na botija.

E assim  caso singular! 
este ilustre presidiário
não faz senão engordar
com os sustos do comissário.


O professor
Não podendo exercer, como desejava, dada a sua doença, cargos pastorais, o Padre Lírio encetou uma nova vida, a do professorado.
A 11 de Novembro de 1918 abriu no edifício em que funcionara a secção feminina do Colégio Júlio Dinis (um prédio da esquina da Rua Coronel Galhardo e Largo do Hospital, actualmente propriedade do autor destas linhas), o Colégio Ovarense, fundado pelos padres Manuel da Silva Brandão e António Augusto da Fonseca Soares e pelo professor António Augusto Correia Baptista.
Foram neste colégio professores os padres Manuel Lírio, que também foi diretor, e Miguel de Oliveira, este de 11 de Novembro de 1918 a 25 de Fevereiro de 1919.
Um desentendimento com o proprietário do edifício, o meu avô Francisco de Matos, originou o fim do colégio em 1929.
Do Colégio Ovarense, o padre Lírio passou para o Colégio dos Carvalhos, nos arredores do Porto, daí foi para o Colégio S. Luís, de Espinho, onde o foi buscar o dr. Arnaldo Soares de Pinho para o Externato Cambrense, da vila de Cambra (instalado em 1945). Neste colégio, o padre Lírio leccionou desde a sua instalação até a sua doença o impedir de ensinar.

O historiador (1922 e 1926)

Casa onde residiu o Padre Lírio, um dos fundadores do jornal "João Semana"

Muito interessado na história de Ovar e dos seus povos, o padre Manuel Rodrigues Lírio, além de artigos dispersos pelo Almanaque de Ovar e pelos jornais da vila, escreveu duas monografias - Os Passos de Ovar, em 1922, e os Monumentos e Instituições religiosas (1926).
Os Passos é a descrição, exuberante de pormenores, da Irmandade dos Passos, a mais antiga e a mais importante das irmandades de Ovar, das suas capelas privativas, das suas procissões e das suas tradições.
Nos Monumentos e instituições religiosas o padre Lírio faz uma exaustiva descrição da Igreja, dos seus altares e das suas capelas; refere as capelas públicas e particulares da freguesia, as associações religiosas, e assinala algumas tradições religiosas, sendo muito interessantes as referências à procissão dos farricocos ou dos fogaréus, às cabeceiras, à devoção do Rosário, bem como a explicação para o dito - "Os vareiros enterraram o Senhor na areia"!
Na minha Monografia de Ovar, coloquei-o entre os cinco maiores historiadores locais: dr. João Frederico Teixeira de Pinho (1818-1870), António Dias Simões (1870-1922), Padre Manuel Rodrigues Lírio (1881-1953), dr. António Baptista Zagalo dos Santos (1884-1957) e Padre Miguel Augusto de Oliveira (1897-1968).

O Padre Lírio e a Misericórdia
O Padre Lírio, que foi um dos 68 sócios fundadores da Misericórdia de Ovar, veio a ser vogal da mesa administrativa presidida pelo dr. João Baptista Nunes da Silva (republicano liberal).
Após a Revolução de 28 de Maio de 1926, os democráticos foram corridos da Misericórdia, num escandaloso procedimento político que muita tinta fez correr.
Por alvará de 17 de Março de 1928, do tenente de infantaria 7, delegado do Governo com atribuições de Governador Civil do distrito de Aveiro, foi exonerada a Mesa do Provedor Dr. Domingos Lopes Fidalgo, e nomeada em sua substituição outra presidida por aquele Dr. João Baptista Nunes da Silva. Entre os seus vogais contavam-se os padres Manuel Lírio e José Maria de Resende.
No caso da herança do Dr. Joaquim Soares Pinto (1928-1930), o padre Manuel Rodrigues Lírio colocou o João Semana na defesa intransigente dos padres Leonardo de Castro e Teófilo de Andrade, tendo sido testemunha de defesa deste último.
Tal posição acarretou-lhe o ataque de todos aqueles que consideravam que a defesa daqueles padres era contrária aos interesses da Santa Casa da Misericórdia de Ovar.
A Montanha, do Porto, não o poupou, como se observa pela transcrição da primeira parte dum soneto humorístico nela inserto:

"Não lamentes, ó Lírio o teu estado;
Lírio roxo tem sido gente boa,
Roxíssimos lirós há em Lisboa
Muitos lírios se têm ordenado".

O teatro (1935 e 1937)
O Padre Lírio colaborou em festas escolares, designadamente com um auto e uma farsa.
Em 1935 publicou Diogo Cão em Cabo Negro (Auto do Padrão), que com o título Por mares nunca dantes navegados mereceu uma menção honrosa.
A cena passa-se no século XV, evidentemente, tendo como personagens o navegador Diogo Cão, um contra-mestre e três marinheiros.
Em 1937 publica, por sua vez, Dia Feriado, farsa num acto, que se desenrola no dia de anos duma das personagens - cinco estudantes e a criada.
Segundo nos informa a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira - o artigo deve ser da autoria do Padre Miguel de Oliveira -, o Padre Lírio tinha pronto para publicar um romance intitulado Vidas trágicómicas. Isto em 1946.
O Padre Manuel Rodrigues Lírio veio a falecer na manhã de 19 de Novembro de 1953, com 72 anos, após prolongada doença, na sua casa de S. Miguel.

BIBLIOGRAFIA:
Alberto Sousa Lamy, Monografia de Ovar, I e II volumes (1977); História da Santa Casa da Misericórdia de Ovar (1984), e Centenário da Imprensa Ovarense (1983); Zagalo dos Santos, Ovar na Literatura e na arte (1926); Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 15.º; João Semana, de 26/11/1953; Notícias de Ovar, de 26/11/1953.
São também de muito interesse os artigos publicados no João Semana, desde 15 de Março de 1986, por cidadãos que conheceram e conviveram com o Padre Lírio.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 e 15 de Agosto de 1986)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/06/padre-manuel-rodrigues-lirio.html