TEXTO: Manuel Pires Bastos
Há cerca de 30 anos, de visita à casa do Padre António da
Silva Martins, em S. Vicente de Pereira (junto à Capela de S. Geraldo), Ovar, tive o
ensejo de visitar uma secular moradia que lhe coubera em herança[1] e
onde se encontrava uma atafona desativada .
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| Casa rústica em S. Vicente de Pereira, onde se terá praticado o culto judaico |
Para além do engenho e do moinho instalados no pátio da casa, a minha curiosidade foi aguçada pela singularidade da habitação que, contando alguns séculos, se apresentava em avançado estado de ruína, desde os currais (atual entrada principal) à cozinha (com o forno semidestruído) e à sala contígua, onde, frente à porta de entrada, existe um nicho de pedra de configuração estranha, embutido na parede – e portanto coeva da construção –, peça que então fotografei para memória futura (na foto).
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| Interior da sala com janela para a rua |
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A sala (à esquerda) onde se
encontra o armário da Lei (Aron Hakodesh)
e os restos da cozinha (à direita)
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Há poucos dias, ao confrontar-me, uma vez mais, com a fotografia daquele achado, resolvi avançar no seu estudo, consultando a Internet.
Com a ajuda do jornalista Dr. Fernando Pinto, ao serviço do jornal “João Semana”, logo surgiu, em primeira busca – imagine-se a capacidade das novas técnicas –, no sítio dedicado a pesquisar imagens relacionadas com o judaísmo, uma estrutura arqueológica semelhante à de São Vicente de Pereira.
Fiquei com a sensação de que, finalmente, estava decifrado o enigma:
Tratar-se-á de um Aron Hakodesh, armário onde os judeus guardam, na divisão inferior, os rolos da Torah (Pentateuco ou Livros da Lei, para serem lidos durante o culto religioso), e na divisão acima o Menorah (candelabro de sete braços ou lâmpada perpétua). [CLIQUE nos links a azul]
Em posterior visita à casa, e depois de uma limpeza superficial, pude observar na divisão inferior, levemente escavados, os dois pequenos círculos paralelos habitualmente usados nestes armários como encaixe dos dois eixos em que giram os rolos da Lei, e pude constatar que a divisão seguinte, onde é colocada a Minorá, é completamente lisa.
Em posterior visita à casa, e depois de uma limpeza superficial, pude observar na divisão inferior, levemente escavados, os dois pequenos círculos paralelos habitualmente usados nestes armários como encaixe dos dois eixos em que giram os rolos da Lei, e pude constatar que a divisão seguinte, onde é colocada a Minorá, é completamente lisa.
Seria esta a configuração normal do Aron Hakodesh (ou Ekhal, na designação ibérica), que deveria ser tapado por portadas de madeira ou por uma cortina.
Nesta peça de S. Vicente de Pereira, porém, existe, ao alto, uma cruz esculturada, de cuja presença só nos apercebemos após a última visita (foto de baixo).
Trata-se de um sinal cristão revelador de que se tratava de uma família de judeus convertidos (cristãos novos, ou "marranos") que, tendo-se refugiado aqui com receio de perseguição, aqui viveram como católicos, mas mantendo, quem sabe, clandestinamente, as suas práticas judaicas.
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| CLIQUE NA IMAGEM PARA AUMENTAR |
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| O pátio da casa, vendo-se o poço, o alpendre (3), o estábulo (4), arrumos (5), atafona (6) e moinho (7). Um pouco mais à esquerda ficam a cozinha (1) e a sala (2) |
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Atafona de S. Vicente de Pereira (Ovar).
Engenho de moer grão, movimentado por tração animal, em ruínas
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| A mó da atafona de S. Vicente de Pereira |
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Notas:
Notas:
[1] Pertencera a seu tio, Padre Dr. Domingos Oliveira Martins, que foi Juiz em Miranda do Douro, Alijó, Lamego, Torres Vedras e Arouca. Tendo sido promovido a 2.ª classe, faleceu no Porto em 13 de abril de 1951, com 61 anos, na véspera de entrar no exercício do mesmo cargo em Penafiel. Cursou Teologia no Porto e Direito Civil em Coimbra. Era filho de António Martins de Oliveira e de Maria Rodrigues de Jesus, neto paterno de Manuel Martins de Oliveira (de Válega) e de Ana Maria Gomes da Conceição (de Cássemes, de S. Vicente de Pereira), e materno de Manuel da Silva Terra (S. Martinho da Gândara) e de Maria Rodrigues Marques (de S. Vicente).
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JUNHO DE 2012)
ENDEREÇO PARA COLOCAR NUMA BIBLIOGRAFIA
ADENDA -------------------------------------------------------------------------------------------
Confirmação de culto judeu em S. Vicente de Pereira
Como esperávamos, a convicção de que em S. Vicente de Pereira se praticou o culto judaico numa casa rústica, como foi referido no “João Semana” de 15/06/2012, tornou-se-nos mais fortalecida pela palavra autorizada da historiadora Elvira Mea, quando, na manhã do dia 26 de outubro, visitou a sala onde se situa o achado arqueológico por nós sinalizado.
A ilustre visitante mostrou-se surpreendida pelo facto de toda a estrutura daquela casa de lavrador rico de há três ou quatro séculos, apesar de se encontrar em ruínas, ter conservado o seu traçado original, e de o “altar” se manter praticamente intacto, aconselhando como trabalho urgente, e antes de uma próxima visita, uma investigação pormenorizada dos elementos em causa e uma prospeção cuidada do solo, trabalho este a ser efetuado pelo arqueólogo Gabriel Rocha.
TEXTO: Manuel Pires Bastos
(Jornal "João Semana", 1 de novembro de 2012)
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Altar judaico vem enriquecer património vareiro
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| Elvira Mea, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto |
Na manhã chuvosa de 26 de outubro, o Pároco de Ovar, Padre Manuel Pires Bastos, o técnico da Câmara Municipal de Ovar, António França, o presidente da Junta de Freguesia de S. Vicente de Pereira, José Filipe Mesquita, e o Padre Augusto Silva, Pároco de S. João de Ovar, estiveram em S. Vicente de Pereira, no lugar de S. Geraldo, para ouvirem da boca daquela ilustre convidada que, realmente, se tratava de um importante achado arqueológico, que vinha enriquecer o património vareiro.
“A única forma de datar isto é fazer uma escavação arqueológica para ver o que há aqui debaixo. Esta situação tem de ser validada por alguém que seja da área. Há uma série de registos que têm de ser feitos. Temos de ir ao século XVI e XVII para sabermos a resposta”, adiantou António França.
“Não sei até que ponto haverá aqui materiais datáveis...
Este altar tem uma coisa muito interessante: é que os outros que eu conheço são
em pedra, e a pedra não é datável. Pode não ser preciso fazer escavações”,
adiantou a docente, que tem como uma das principais áreas de investigação o
Judaísmo, sendo membro do World Union of Jewish Studies, e autora de “O
Sefardismo na Cultura Portuguesa” (1974), entre outras obras.
A secular moradia, para além do altar onde se terá
praticado o culto judaico, possui uma atafona e uma mó que merecem ser
recuperados. Todo estes elementos reunidos conferem àquele prédio rústico um
grande valor, que poderá vir a ampliar as atuais ofertas da Rede Museológica de
Ovar.
TEXTO: Jornalista Fernando Manuel Oliveira Pinto
(Jornal "João Semana", 1 de novembro de 2012)
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Rabino visita
Ekhal de S. Vicente
de Pereira
Um rabino erudito vindo de Israel esteve, no passado dia 16 de novembro, em S. Vicente de Pereira (na foto), a fim de observar o achado que apresentámos a público no jornal “João Semana” de 15 de junho de 2012 como local de culto judaico, asserção que a Professora Elvira Mea e outros peritos portugueses viriam a confirmar.
Um rabino erudito vindo de Israel esteve, no passado dia 16 de novembro, em S. Vicente de Pereira (na foto), a fim de observar o achado que apresentámos a público no jornal “João Semana” de 15 de junho de 2012 como local de culto judaico, asserção que a Professora Elvira Mea e outros peritos portugueses viriam a confirmar.
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| Rabino Daniel Litvak, da comunidade judaica do Porto, visitando o ekhal de S. Vicente de Pereira, Ovar |
O ilustre
visitante mostrou-se
profundamente sensibilizado perante a forma original e genuína deste oratório,
a que os judeus dão o nome de Aron Hakodesh (arca sagrada) e a que os marranos
(judeus convertidos da Península Ibérica, a partir de D. Manuel I) chamavam Ekhal
(arca ou tabernáculo).
Este lugar de culto, que se assemelha a cerca de uma dezena de outros existentes em Portugal, apresenta dois planos, sendo o inferior destinado a guardar o Livro Sagrado (a Torah), e o de cima a expor o candelabro de sete braços. M. P. B.
Este lugar de culto, que se assemelha a cerca de uma dezena de outros existentes em Portugal, apresenta dois planos, sendo o inferior destinado a guardar o Livro Sagrado (a Torah), e o de cima a expor o candelabro de sete braços. M. P. B.
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Altar judaico em S. Vicente de Pereira – Por que se espera?
Altar judaico exige intervenção
Vinda de Coimbra, esteve em Ovar em 23 de fevereiro uma Técnica em Património (na foto) para reconhecimento do altar judaico por nós identificado há três anos (“João Semana” de 15/06/2012) e, posteriormente, observado por peritos na matéria, entre os quais Elvira Mea, da Universidade do Porto, e Daniel Litvak, Rabino da Comunidade Judaica da mesma cidade.
O edifício,
de propriedade particular, é modesto, mas rico em história. Desabitado há mais
de um século, degrada-se a olhos vistos, com telhados abatidos. Ao menos a sala
de culto (janela, na foto), considerada um exemplar excecional do criptojudaismo, merece – exige
– uma rápida intervenção para que não se perca este património de interesse nacional.
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| O Rabino Daniel Litvak indicando o lugar onde se encontrava afixada uma mezuzá (caixa que guardava um pergaminho com passagens da Torá) |
Muitas perguntas nos têm sido formuladas acerca do velho
edifício de São Vicente de Pereira onde existe um armário sagrado – Ekhal –
onde se praticou, há alguns séculos, o culto judaico, antes ou depois da
expulsão dos judeus por D. Manuel I (1496-1497).
Refira-se que este Ekhal, por nós sinalizado há vários
anos e por nós identificado publicamente no “João Semana” de 15 de junho de
2012, com o título “Culto judaico em S. Vicente de Pereira?”, apresenta,
sobreposto aos dois espaços regulares – cada um deles em forma de arco (o de
cima para expor o rolo da Lei e o de baixo para guardar elementos litúrgicos)
–, apresenta, dizíamos, um terceiro espaço, ao alto, destinado à cruz [na foto], ali
implantada como sinal de adesão (consciente ou dissimulada) à religião
católica. (Esta particularidade, muito utilizada durante o tempo da perseguição
aos judeus, é hoje muito raro encontrar-se, pelo menos com a dimensão e a
visibilidade deste exemplar ovarense.)
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| O Ekhal e ao lado esquerdo vestígios da mezuzá |
Entendemos ser tempo de fornecer aos nossos leitores algumas
considerações complementares sobre este espaço arqueológico que, como na
devida altura noticiámos, mereceu, por parte de peritos na matéria, referências
tão calorosas como responsabilizadoras. Calorosas quanto à descoberta em si, e
responsabilizadoras quanto à urgência da classificação oficial deste Ekhal,
único na nossa região. (Os mais próximos situam-se no Porto e no Buçaco.)
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| Interior da porta de entrada, com umbral onde se veem dois rasgos na pedra que serviriam de ritual para os judeus que vinham do exterior |
Segundo Jorge Martins, autor de “Portugal e os Judeus”,
esta peça “tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo”, sendo
“imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer”.
Sabemos que os atuais proprietários estão sensíveis ao
desejo das autarquias locais de preservarem este original espólio de acordo com
as normas vigentes que regem esta matéria.
Espera-se, por isso, que através dos legítimos
possuidores ou através de protocolos entre os mesmos e as entidades
competentes, sejam iniciadas as diligências indispensáveis para o levantamento
arqueológico recomendado, em 26 de outubro de 2012, pela Professora e
Historiadora Elvira Mea, da Universidade do Porto, e para o início do estudo e
das obras de consolidação do edifício.
Da parte da Rede das Judiarias Portuguesas, e sabendo-se
do interesse que os seus responsáveis manifestam em preservar as memórias judaicas
em Portugal – tanto mais que contam com a ajuda de instituições internacionais
–, espera-se o seu empenho em colaborar neste projeto cultural.
À Câmara Municipal, bem como à Junta de Freguesia de S.
Vicente de Pereira (ou à futura União de Freguesias) competirá assegurar a
defesa e o aproveitamento deste notável achado, que, pelas suas características
históricas e arqueológicas, muito virá valorizar a Rede Museológica de Ovar. (Texto: Manuel Pires Bastos, publicado na edição de 1 de outubro do jornal "João Semana").
--------------------------------------------------Altar judaico exige intervenção
Vinda de Coimbra, esteve em Ovar em 23 de fevereiro uma Técnica em Património (na foto) para reconhecimento do altar judaico por nós identificado há três anos (“João Semana” de 15/06/2012) e, posteriormente, observado por peritos na matéria, entre os quais Elvira Mea, da Universidade do Porto, e Daniel Litvak, Rabino da Comunidade Judaica da mesma cidade.
Texto e foto: M. P. B.
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Património judaico à espera em São Vicente de Pereira
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Património judaico à espera em São Vicente de Pereira
Nesta casa desabitada, de aspeto ruinoso,
marcada por séculos de labor, berço de muitas gerações de moradores, encontrámos,
há mais de 30 anos, por indagação ocasional e sem prevenção alguma, uma pequena
sala – a principal da casa – em chão de terra batida, com janela para a rua (na
foto), uma porta a norte, para a cozinha, e outra, a nascente, para o pátio,
deixando que a claridade dê vida, em frente, a um estranho conjunto utilitário
– o único da sala – em tijolo e argamassa, embutido na parede, sugerindo um
armário ou um altar. Em 2012 conseguiríamos relacionar aquela peça com o culto
cripto-judaico, o que viria a confirmar-se com a presença e o aval de
personalidades versadas na matéria, entre as quais o Rabino-Chefe do Porto,
Daniel Litvak, que recentemente se encontrou com D. Manuel Linda, Bispo da
nossa Diocese, acompanhado por outro dignitário da sua religião.
Católicos e judeus num aperto de mãos
Católicos e judeus num aperto de mãos
Acaba de acontecer no Porto um encontro de grande alcance
religioso, envolvendo os responsáveis locais das comunidades católica e
judaica.
No Paço Episcopal desta diocese, o Bispo do Porto, D. Manuel Linda, recebeu fraternalmente Dias Zion, presidente da Direção da Comunidade Judaica do Porto, e Daniel Litvak, reconhecido pelo Grão Rabinato de Israel como Rabino-Chefe do Porto, cuja sinagoga é a maior da Península Ibérica, numa manifestação de respeito mútuo e de colaboração em atividades de ordem social. Não esqueçamos que o relacionamento entre católicos e o povo de raiz hebraica é anterior à nossa nacionalidade, encontrando no Porto, na zona da Cordoaria, onde se acantonava, um clima de grande tolerância, conservando-se ainda, na Rua de S. Miguel, o edifício da antiga Sinagoga, onde, há poucos anos, se descobriu o respetivo Ekhal, ou armário da Lei, semelhante ao que se encontra em S. Vicente de Pereira, como temos referido no “João Semana”.
No Paço Episcopal desta diocese, o Bispo do Porto, D. Manuel Linda, recebeu fraternalmente Dias Zion, presidente da Direção da Comunidade Judaica do Porto, e Daniel Litvak, reconhecido pelo Grão Rabinato de Israel como Rabino-Chefe do Porto, cuja sinagoga é a maior da Península Ibérica, numa manifestação de respeito mútuo e de colaboração em atividades de ordem social. Não esqueçamos que o relacionamento entre católicos e o povo de raiz hebraica é anterior à nossa nacionalidade, encontrando no Porto, na zona da Cordoaria, onde se acantonava, um clima de grande tolerância, conservando-se ainda, na Rua de S. Miguel, o edifício da antiga Sinagoga, onde, há poucos anos, se descobriu o respetivo Ekhal, ou armário da Lei, semelhante ao que se encontra em S. Vicente de Pereira, como temos referido no “João Semana”.
Nas imagens: O rabino Daniel Litvak, no recente encontro com o Bispo
do Porto e quando da visita, em 2016, ao Ekhal judaico de S.
Vicente de Pereira (em baixo), a que foi acrescentada, ao alto, a cruz cristã,
marca do cripto-judaismo (práticas judeo-cristãs).
Texto: Manuel Pires Bastos (jornal "João Semana", edição de 15 de outubro de 2018)
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De Jorge Jorge Martins, do sítio "Portugal e os Judeus", recebemos o seguinte comentário, que desde já se agradece:
"Parabéns, fizeram um ótimo trabalho. Essa casa (esse conjunto) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer. Inclusivamente, contactar com a Rede de Judiarias (se a câmara assim o entender).
Bom trabalho!
Jorge Martins"
[CLIQUE nos links a azul]





































