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16.6.12

Culto judaico em S. Vicente de Pereira? [Aron Hakodesh / Ekhal]

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2012)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Há cerca de 30 anos, de visita à casa do Padre António da Silva Martins, em S. Vicente de Pereira (junto à Capela de S. Geraldo), Ovar, tive o ensejo de visitar uma secular moradia que lhe coubera em herança[1] e onde se encontrava uma atafona desativada .

Casa rústica em S. Vicente de Pereira, onde se terá praticado o culto judaico
Para além do engenho e do moinho instalados no pátio da casa, a minha curiosidade foi aguçada pela singularidade da habitação que, contando alguns séculos, se apresentava em avançado estado de ruína, desde os currais (atual entrada principal) à cozinha (com o forno semidestruído) e à sala contígua, onde, frente à porta de entrada, existe um nicho de pedra de configuração estranha, embutido na parede – e portanto coeva da construção –, peça que então fotografei para memória futura (na foto).

O Aron Hakodesh (armário da Lei), com duas secções: a de cima para guardar o Livro
Sagrado, a Torah, ou Livro da Lei; a de baixo para guardar outros objetos de culto; ao alto, a cruz cristã, como nítido acrescento, identificadora da religião que, como cristãos novos (antigos judeus sefarditas) adotaram

Em uma ou outra visita posterior, e ao rever aquele imóvel, foi-me convencendo de que, mais do que um utensílio caseiro – um armário, por exemplo –, se trataria de uma estrutura religiosa, pondo mesmo a hipótese, pela sua configuração, de estar ligada ao culto judaico. Mas como poder imaginá-lo, se estávamos em S. Vicente de Pereira, uma terra profundamente católica? E desta dúvida se foi alimentando a minha curiosidade.

Interior da sala com janela para a rua

A sala (à esquerda) onde se encontra o armário da Lei (Aron Hakodesh)
e os restos da cozinha (à direita)

Há poucos dias, ao confrontar-me, uma vez mais, com a fotografia daquele achado, resolvi avançar no seu estudo, consultando a Internet.
Com a ajuda do jornalista Dr. Fernando Pinto, ao serviço do jornal “João Semana”, logo surgiu, em primeira busca – imagine-se a capacidade das novas técnicas –, no sítio dedicado a pesquisar imagens relacionadas com o judaísmo, uma estrutura arqueológica semelhante à de São Vicente de Pereira.
Fiquei com a sensação de que, finalmente, estava decifrado o enigma:
Tratar-se-á de um Aron Hakodesh, armário onde os judeus guardam, na divisão inferior, os rolos da Torah (Pentateuco ou Livros da Lei, para serem lidos durante o culto religioso), e na divisão acima o Menorah (candelabro de sete braços ou lâmpada perpétua). [CLIQUE nos links a azul]
Em posterior visita à casa, e depois de uma limpeza superficial, pude observar na divisão inferior, levemente escavados, os dois pequenos círculos paralelos habitualmente usados nestes armários como encaixe dos dois eixos em que giram os rolos da Lei, e pude constatar que a divisão seguinte, onde é colocada a Minorá, é completamente lisa.


Seria esta a configuração normal do Aron Hakodesh (ou Ekhal, na designação ibérica), que deveria ser tapado por portadas de madeira ou por uma cortina.
Nesta peça de S. Vicente de Pereira, porém, existe, ao alto, uma cruz esculturada, de cuja presença só nos apercebemos após a última visita (foto de baixo).


Trata-se de um sinal cristão revelador de que se tratava de uma família de judeus convertidos (cristãos novos, ou "marranos") que, tendo-se refugiado aqui com receio de perseguição, aqui viveram como católicos, mas mantendo, quem sabe, clandestinamente, as suas práticas judaicas.

Os dois pequenos círculos para sustentar os rolos


Esperamos que os peritos na matéria estudem e confirmem a autenticidade deste achado, capaz de chamar a São Vicente de Pereira os curiosos da arqueologia e das tradições judaicas em Portugal, e, quem sabe, para descobrir o nome da família que, para evitar a exposição pública dos grandes centro populacionais, se terá refugiado nesta terra pacata, aqui mantendo alguns cerimoniais da sua religião de origem e uma sã convivência com a população local, e, possivelmente, misturando o seu sangue e os seus genes com o sangue e os genes dos vicentinos, tal como aconteceu por todo o país, particularmente nas Beiras, onde algumas terras com tradições marcadamente cripto-judaicas se vincularam, em 10/03/2011, numa rede de Judiarias de Portugal.

CLIQUE NA IMAGEM PARA AUMENTAR

1- Cozinha; 2- Sala do armário da Lei; X (Aron Hakodesh); 3- Alpendre; 4- Estábulo; 5- Arrumos; 6- Atafona; 7- Moinho

Esta planta faz parte de um Levantamento feito em 2006 pelo Arquiteto Paulo Paiva Fonseca,
de S. Vicente de Pereira, como proposta de Quinta Pedagógica a implantar no quintal da casa,
respeitando a traça dos antigos edifícios. A fotografia mostra a janela rústica da cozinha
O pátio da casa, vendo-se o poço, o alpendre (3), o estábulo (4), arrumos (5), atafona (6)
e moinho
(7). Um pouco mais à esquerda ficam a cozinha (1) e a sala (2)
Atafona de S. Vicente de Pereira (Ovar). 
Engenho de moer grão, movimentado por tração animal, em ruínas 
A mó da atafona de S. Vicente de Pereira 

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Notas:
[1] Pertencera a seu tio, Padre Dr. Domingos Oliveira Martins, que foi Juiz em Miranda do Douro, Alijó, Lamego, Torres Vedras e Arouca. Tendo sido promovido a 2.ª classe, faleceu no Porto em 13 de abril de 1951, com 61 anos, na véspera de entrar no exercício do mesmo cargo em Penafiel. Cursou Teologia no Porto e Direito Civil em Coimbra. Era filho de António Martins de Oliveira e de Maria Rodrigues de Jesus, neto paterno de Manuel Martins de Oliveira (de Válega) e de Ana Maria Gomes da Conceição (de Cássemes, de S. Vicente de Pereira), e materno de Manuel da Silva Terra (S. Martinho da Gândara) e de Maria Rodrigues Marques (de S. Vicente).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JUNHO DE 2012)

ENDEREÇO PARA COLOCAR NUMA BIBLIOGRAFIA


ADENDA -------------------------------------------------------------------------------------------

Confirmação de culto judeu em S. Vicente de Pereira

Como esperávamos, a convicção de que em S. Vicente de Pereira se praticou o culto judaico numa casa rústica, como foi referido no “João Semana” de 15/06/2012, tornou-se-nos mais fortalecida pela palavra autorizada da historiadora Elvira Mea, quando, na manhã do dia 26 de outubro, visitou a sala onde se situa o achado arqueológico por nós sinalizado.
A ilustre visitante mostrou-se surpreendida pelo facto de toda a estrutura daquela casa de lavrador rico de há três ou quatro séculos, apesar de se encontrar em ruínas, ter conservado o seu traçado original, e  de o “altar” se manter praticamente intacto, aconselhando como trabalho urgente, e antes de uma próxima visita, uma investigação pormenorizada dos elementos em causa e uma prospeção cuidada do solo, trabalho este a ser efetuado pelo arqueólogo Gabriel Rocha.  

TEXTO: Manuel Pires Bastos
(Jornal "João Semana", 1 de novembro de 2012)

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Altar judaico vem enriquecer património vareiro

Elvira Meaprofessora da Faculdade
de Letras da Universidade do Porto 
“O altar capta a luz direta do sol e, aparentemente, tem todas as caraterísticas dos altares judaicos”, disse Elvira Cunha de Azevedo Silva Mea, doutorada em História Moderna e Contemporânea pela Universidade do Porto (na foto), apontando para o achado que tinha diante de seus olhos. “Está muito bem preservado... O facto de isto ter ficado assim também foi bom para nós... Agora precisava de saber mais coisas sob o ponto de vista arqueo­lógico e sob o ponto de vista da casa”, acrescentou a Professora, admirada com o estado de con­servação daquela espécie de altar.
Na manhã chuvosa de 26 de outubro, o Pároco de Ovar, Padre Manuel Pires Bastos, o técnico da Câmara Municipal de Ovar, António França, o presidente da Junta de Freguesia de S. Vicente de Pereira, José Filipe Mesquita, e o Padre Augusto Silva, Pároco de S. João de Ovar, estiveram em S. Vicente de Pereira, no lugar de S. Geraldo, para ouvirem da boca da­quela ilustre convidada que, real­mente, se tratava de um importan­te achado arqueológico, que vinha enriquecer o património vareiro.
“A única forma de datar isto é fazer uma escavação arqueológica para ver o que há aqui debaixo. Esta si­tuação tem de ser validada por alguém que seja da área. Há uma série de registos que têm de ser feitos. Temos de ir ao século XVI e XVII para sabermos a resposta”, adiantou António França.


“Não sei até que ponto haverá aqui materiais datáveis... Este altar tem uma coisa muito interessante: é que os outros que eu conheço são em pedra, e a pedra não é datável. Pode não ser preciso fazer escavações”, adiantou a docente, que tem como uma das principais áreas de investigação o Judaísmo, sendo membro do World Union of Jewish Studies, e autora de “O Sefardismo na Cultura Portuguesa” (1974), entre outras obras.
A secular moradia, para além do altar onde se terá praticado o culto judaico, possui uma atafona e uma mó que merecem ser recuperados. Todo estes elementos reunidos conferem àquele prédio rústico um grande valor, que poderá vir a ampliar as atuais ofertas da Rede Museológica de Ovar.

TEXTO: Jornalista Fernando Manuel Oliveira Pinto
(Jornal "João Semana", 1 de novembro de 2012)
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Rabino visita Ekhal de S. Vicente de Pereira

Um rabino erudito vindo de Israel esteve, no passado dia 16 de novem­bro, em S. Vicente de Pereira (na foto), a fim de observar o achado que apresentámos a público no jornal “João Semana” de 15 de junho de 2012 como local de culto judaico, asserção que a Professora Elvira Mea e outros peritos portugueses viriam a confirmar.

Rabino Daniel Litvak, da comunidade judaica do Porto,
 visitando o ekhal de S. Vicente de Pereira, Ovar

O ilustre visitante mos­trou-se profundamente sensibilizado perante a forma original e genuína deste oratório, a que os judeus dão o nome de Aron Hakodesh (arca sagra­da) e a que os marranos (judeus convertidos da Península Ibérica, a partir de D. Manuel I) chamavam Ekhal (arca ou tabernáculo).
Este lugar de culto, que se assemelha a cerca de uma dezena de outros existentes em Portugal, apresenta dois planos, sendo o inferior destinado a guardar o Livro Sagrado (a Torah), e o de cima a expor o candelabro de sete braços. M. P. B.

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O Rabino Daniel Litvak indicando o lugar onde se
encontrava afixada uma mezuzá (caixa que guardava
um pergaminho com passagens da Torá)
Altar judaico em S. Vicente de Pereira – Por que se espera?

Muitas perguntas nos têm sido formuladas acerca do velho edifício de São Vicente de Pereira onde existe um armário sagrado – Ekhal – onde se praticou, há alguns séculos, o culto judaico, antes ou depois da expulsão dos judeus por D. Manuel I (1496-1497).
Refira-se que este Ekhal, por nós sinalizado há vários anos e por nós identi­ficado publicamente no “João Semana” de 15 de junho de 2012, com o título “Culto judaico em S. Vicente de Pereira?”, apre­senta, sobreposto aos dois espaços regu­lares – cada um deles em forma de arco (o de cima para expor o rolo da Lei e o de baixo para guardar elementos litúrgicos) –, apresenta, dizíamos, um terceiro espa­ço, ao alto, destinado à cruz [na foto], ali implan­tada como sinal de adesão (consciente ou dissimulada) à religião católica. (Esta particularidade, muito utilizada durante o tempo da perseguição aos judeus, é hoje muito raro encontrar-se, pelo menos com a dimensão e a visibilidade deste exem­plar ovarense.)

O Ekhal e ao lado esquerdo vestígios da mezuzá
Entendemos ser tempo de fornecer aos nossos leitores algumas considera­ções complementares sobre este espaço arqueológico que, como na devida altura noticiámos, mereceu, por parte de peritos na matéria, referências tão calorosas como responsabilizadoras. Calorosas quanto à descoberta em si, e respon­sabilizadoras quanto à urgência da classificação oficial deste Ekhal, único na nossa região. (Os mais próximos situam-se no Porto e no Buçaco.)
Interior da porta de entrada, com umbral onde
se veem dois rasgos na pedra que serviriam de ritual
para os judeus que vinham do exterior
Segundo Jorge Martins, autor de “Portugal e os Judeus”, esta peça “tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo”, sendo “imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer”.
Sabemos que os atuais proprietários estão sensíveis ao desejo das autarquias locais de preservarem este original espólio de acordo com as normas vigentes que regem esta matéria.
Espera-se, por isso, que através dos legítimos possuidores ou através de protocolos entre os mesmos e as entidades competentes, sejam iniciadas as diligências indispensáveis para o levantamento arqueológico reco­mendado, em 26 de outubro de 2012, pela Professora e Historiadora Elvira Mea, da Universidade do Porto, e para o início do estudo e das obras de consolidação do edifício.

Da parte da Rede das Judiarias Portuguesas, e sabendo-se do interesse que os seus responsáveis manifestam em preservar as memórias judaicas em Portugal – tanto mais que contam com a ajuda de instituições interna­cionais –, espera-se o seu empenho em colaborar neste projeto cultural.

À Câmara Municipal, bem como à Junta de Freguesia de S. Vicente de Pereira (ou à futura União de Freguesias) competirá assegurar a defesa e o aproveitamento deste notável achado, que, pelas suas características históricas e arqueológicas, muito virá valorizar a Rede Museológica de Ovar. (Texto: Manuel Pires Bastos, publicado na edição de 1 de outubro do jornal "João Semana").
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Altar judaico exige intervenção



Vinda de Coimbra, este­ve em Ovar em 23 de fevereiro uma Técnica em Património (na foto) para reconhecimen­to do altar ju­daico por nós identificado há três anos (“João Semana” de 15/06/2012) e, posteriormente, observado por peritos na matéria, entre os quais Elvira Mea, da Uni­versidade do Porto, e Daniel Litvak, Rabino da Comunidade Judaica da mesma cidade.



O edifício, de propriedade particular, é modesto, mas rico em his­tória. Desabitado há mais de um século, degrada-se a olhos vistos, com telhados abatidos. Ao menos a sala de culto (janela, na foto), considerada um exemplar excecional do criptojudaismo, merece – exige – uma rápida intervenção para que não se perca este património de interesse nacional.

Texto e foto: M. P. B.
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Património judaico à espera em São Vicente de Pereira



Nesta casa desabitada, de aspeto rui­noso, marcada por séculos de labor, berço de muitas gerações de moradores, encon­trámos, há mais de 30 anos, por indagação ocasional e sem prevenção alguma, uma pequena sala – a principal da casa – em chão de terra batida, com janela para a rua (na foto), uma porta a norte, para a cozi­nha, e outra, a nascente, para o pátio, dei­xando que a claridade dê vida, em frente, a um estranho conjunto utilitário – o único da sala – em tijolo e argamassa, embutido na parede, sugerindo um armário ou um altar. Em 2012 conseguiríamos relacionar aquela peça com o culto cripto-judaico, o que viria a confirmar-se com a presença e o aval de personalidades versadas na matéria, entre as quais o Rabino-Chefe do Porto, Daniel Litvak, que recentemente se encontrou com D. Manuel Linda, Bispo da nossa Diocese, acompanhado por outro dignitário da sua religião.

Católicos e judeus num aperto de mãos

Acaba de acontecer no Porto um encontro de grande alcance religioso, envolvendo os responsáveis locais das comunidades católica e judaica.
No Paço Episcopal desta diocese, o Bispo do Porto, D. Manuel Linda, recebeu frater­nalmente Dias Zion, presidente da Direção da Comunidade Judaica do Porto, e Daniel Litvak, reconhecido pelo Grão Rabinato de Israel como Rabino-Chefe do Porto, cuja sinagoga é a maior da Península Ibérica, numa manifestação de respeito mútuo e de colaboração em atividades de ordem social. Não esqueçamos que o relacionamento entre católicos e o povo de raiz hebraica é anterior à nossa nacionalidade, encontrando no Porto, na zona da Cordoaria, onde se acan­tonava, um clima de grande tolerância, conservando-se ainda, na Rua de S. Miguel, o edifício da antiga Sinagoga, onde, há poucos anos, se descobriu o respetivo Ekhal, ou armário da Lei, semelhante ao que se encontra em S. Vicente de Pereira, como temos referido no “João Semana”.


Nas imagens: O rabino Daniel Litvak, no recente encontro com o Bispo do Porto e quando da visita, em 2016, ao Ekhal judaico de S. Vicente de Pereira (em baixo), a que foi acrescentada, ao alto, a cruz cristã, marca do cripto­-judaismo (práticas judeo-cristãs).


Texto: Manuel Pires Bastos (jornal "João Semana", edição de 15 de outubro de 2018)



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Jorge Martins


De Jorge Jorge Martins, do sítio "Portugal e os Judeus", recebemos o seguinte comentário, que desde já se agradece:
"Parabéns, fizeram um ótimo trabalho. Essa casa (esse conjunto) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer. Inclusivamente, contactar com a Rede de Judiarias (se a câmara assim o entender).
Bom trabalho! 
Jorge Martins"

[CLIQUE nos links a azul]

23.5.12

São Vicente de Pereira, sim! – São Vicente de Pereira Jusã, não!

S. VICENTE
(Patrono de S. Vicente de Pereira)
UM DELITO TOPONÍMICO

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/1981)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Desde há alguns anos a esta parte, os funcionários do Registo Civil de Ovar passaram a adicionar ao nome da freguesia de São Vicente de Pereira, do nosso concelho, o topónimo Jusã, pelo que a mesma começou a ser designada, nos documentos daquela repartição, como “São Vicente de Pereira Jusã”.
Ao tomarmos conhecimento do facto, e por nos apercebermos do erro toponímico que tal uso está a veicular, quisemos saber donde partira tão infeliz determinação.
Foi-nos explicado que o uso de tal designação nos documentos do Registo Civil se tornou sistemático a partir de princípios de 1978, após uma consulta feita ao Centro de Identificação Civil e Criminal pelo Conservador do Registo Civil de Ovar Dr. Joaquim do Amaral Pereira da Silva, que estranhava a frequência com que as instâncias superiores se referiam à freguesia de São Vicente de Pereira utilizando uma forma diferente de identificação.
Pelo Ofício n.º 1137/OGA, de 3/2/78, o Chefe da Divisão de Identificação Civil informava, em resposta ao Ofício n.º 120 de 31/1/78 do Conservador do Registo Civil de Ovar, e após consulta feita à Direcção-Geral da Acção Regional e Local, que, “pelo Decreto-Lei 46139 de 31 de Dezembro de 1964, e pelo Boletim Oficial do Ministério da Justiça, a designação da freguesia é efectivamente São Vicente de Pereira Jusã”.
Bandeira do antigo Concelho de Pereira Jusã 
Pelos vistos, já vinha de 1964 o especioso enxerto. Só que ninguém lhe tinha ligado qualquer importância, pelo que o Decreto-Lei 46139 não passava – e ainda bem! – de letra morta.
Lamentamos que, passados 14 anos, e já depois da Revolução dos Cravos, se tivesse homologado uma decisão que nós consideramos infeliz e lesiva dos interesses da freguesia. É que o topónimo “Jusã”, relativamente a São Vicente de Pereira, é espúrio e contrário à verdade histórica e geográfica.
Senão, vejamos:
É espúrio, dado que aquela freguesia, que é paróquia pelo menos desde os tempos da Reconquista Cristã, nunca usou tal denominação.
É contrário à verdade histórica, porque a verdadeira Pereira Jusã, outrora vila e concelho rural, com tribunal próprio, situava-se, e ainda se situa hoje, na vizinha freguesia de Válega, também do concelho de Ovar, que muito preza a sua posse. [CLIQUE NO LINK A AZUL]
É contrário à geografia, já que o nome Jusã atribuído ao lugar de Pereira Jusã (Pereira, como hoje é mais prosaicamente conhecida), da freguesia de Válega, está de acordo com a sua situação geográfica, a jusante, isto é, a poente de outro lugar do mesmo nome pertencente à freguesia de São Vicente – daí São Vicente de Pereira – lugar este que, pela sua posição em relação ao primeiro, era também conhecido outrora como Pereira Susã (Susã significa a montante, isto é, acima, a nascente).
É possível que o acrescento Jusã, a que nos reportamos, tenha sido originado de boa fé, por suposição de que o designativo “de Pereira” atribuído a São Vicente se referiria ao lugar de Válega, que foi sede do concelho ao qual parte da Paróquia de São Vicente de Pereira pertenceu.
De facto, e como demonstrado ficou, não é assim. Pereira Jusã é uma coisa, e Pereira Susã é outra. Esta última é que deu o nome à freguesia de S. Vicente de Pereira.
Tribunal do antigo Concelho de Pereira Jusã, lugar que sempre pertenceu
à freguesia de Válega (actual Concelho de Ovar)

Estranhamos que, quando foi tornado público este atropelo toponímico, ninguém se tenha manifestado com veemência, evitando que uma calinada de fácil emenda viesse a ganhar foros de credibilidade, veiculada, como foi neste caso, por uma repartição oficial – e logo do Ministério da Justiça! –, e se transformasse em perigo público pelas dúvidas e confusões que veio e poderá vir a suscitar. Haja em vista que o Código Postal actualmente em vigor chega a registar dois nomes diferentes para a mesma freguesia: – o legítimo, São Vicente de Pereira, e o desnaturado, São Vicente de Pereira Jusã. Situação ímpar, ao que supomos, em todo o País. Situação que não se pode tolerar, pelos equívocos que daí poderão advir no futuro.
Por tudo isto, não devemos, por mais tempo, ficar impassíveis perante uma decisão tomada arbitrariamente, mesmo que tenha partido de órgãos oficiais, certamente servidos por funcionários desatentos ou apressados. (Não quereríamos julgá-los com mais rigor). Quanto antes, há que reparar um erro que, como provámos acima, atenta contra a história e geografia locais. Anulem-se os documentos fautores do engano, sejam eles oriundos de departamentos administrativos ou de departamentos militares. (O mapa cadastral do Exército incorre também no mesmo equívoco, como também erra supinamente ao confundir o Rio Ul com o Rio Antuã…)
Pereira Jusã é, hoje, um povoado humilde. Da importância de antanho guarda ainda alguns minguados mas preciosos vestígios: o seu tribunal, que serviu simultaneamente de centro judicial e administrativo até 1852, data da extinção do concelho, e a antiga cadeia, que voltou a funcionar como tal em 1893, quando da demolição dos velhos Paços do Concelho de Ovar, continuando agregada às justiças vareiras ainda em tempos da República.
Contudo, apesar da actual humildade, é um lugar cioso das suas tradições e pergaminhos, e sobretudo do seu nome, que não gostaria de ver postergado e, muito menos, indevidamente atribuído a terra alheia, mesmo que seja, como neste caso, uma terra vizinha e amiga.
Nem São Vicente de Pereira necessita de tal dádiva, já que, se acaso quisesse acrescentar o seu nome próprio, poderia usar um topónimo muito seu – Susã –, coevo do anterior e, por isso, com absoluto rigor histórico e geográfico.
Sítio do lugar de Pereira Susã, do tempo medieval, onde foi construída a primeira
igreja de S. Vicente de Pereira (a actual igreja foi reconstruída a cerca de 100 metros)
Senhores da Justiça! Senhores do Registo Civil! Senhores da Divisão de Identificação Civil! Senhores do Exército! Vamos reparar uma anomalia que, ao que supomos, apenas se mantém activa através dos Serviços do Registo Civil, mas que nada garante não venha a tornar-se epidémica.
Gentes vareiras! Vamos evitar que Ovar, a terra-mãe das duas localidades, continue a permitir que se adultere ou confunda o nome dos próprios filhos!

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE MAIO DE 1981)

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“São Vicente de Pereira, sim
São Vicente de Pereira Jusã, não!”

Antigo marco do Couto de Cucujães, lugar de
Aveneda, no extremo de S. Vicente de Pereira
Recebemos algumas achegas ao artigo aqui publicado em 1/5 sobre São Vicente de Pereira com o título “Um Delito Toponímico” e o subtítulo em epígrafe.
Vamos transcrever hoje o que sobre o assunto nos escreveu o Dr. Joaquim Amaral Pereira da Silva, Conservador do Registo Civil de Ovar aquando da introdução do topónimo Jusã no nome daquela freguesia:
“Em 1977, se não me engano, começaram a vir devolvidos à Conservatória do Registo Civil de Ovar os processos de Bilhete de Identidade que referiam uma freguesia desse concelho por São Vicente de Pereira esclarecendo que a sua denominação era São Vicente de Pereira Jusã. Consultei os velhos livros paroquiais daquela freguesia e nunca encontrei São Vicente de Pereira Jusã como denominação da mesma escrita pelos seus antigos abades, mas, sim, apenas São Vicente de Pereira. Continuou-se por isso a pôr esta forma reduzida, mais de acordo com os textos dos registos paroquiais aludidos.
Acontece que nos bilhetes de identidade passou a vir sempre o apêndice “Jusã”. Claro, por ordem do computador do Arquivo de Identificação.
Embora as Conservatórias do Registo Civil não estejam na dependência do citado Arquivo, em matéria de bilhetes de identidade, e só nisso, têm de seguir as suas directrizes. As Conservatórias são, nesse aspecto, um serviço intermediário de recepção, enquanto que o Arquivo é um serviço de emissão.
Não concordando com a posição tomada pelos Serviços de Identificação, fiz a exposição a que alude no seu artigo, e porque me chegou a notícia pelo Ofício n.º 1137/06-A de 3/2/78 do Chefe da Divisão de Identificação Civil da obrigatoriedade legal para a aceitação do composto denominativo “São Vicente  de Pereira Jusã” (Decreto-Lei 46139 de 31 de Dezembro de 1964) curvei-me com custo perante uma situação que, à partida, tinha bastante de estranho e insólito.
Cais do Puxadouro, Válega (final do século XX). Ao fundo o armazém dos caulinos
procedentes de S. Vicente de Pereira, Ovar, e destinados à fábrica da Vista Alegre
Não poderia ter resistido, porque cometeria uma ilegalidade e porque provocaria prejuízo às pessoas utentes dos Serviços, por acabarem de ficar sem seguimento os seus processos de bilhetes de identidade.
Talvez tivesse iniciado a minha campanha no sentido em que o meu amigo lançou uma agora, se nesse mesmo ano de 1978 não tivesse solicitado ao Sr. Ministro da Justiça a minha transferência para Lisboa.
Estou eu todo aqui, inteiro, para o apoiar e fazer algo que esteja ao meu alcance para que seja restituído ao ex-concelho de Pereira Jusã o Jusã que lhe pertence (a cada um o que lhe pertence) e procurarei com o meu Ex.mo Amigo novos elementos que nos acompanhem. Não me passou procuração, mas, como disse, pelo elo que me liga ao assunto, procurarei nos meus contactos aflorar este problema de história local, para que se desfaça o equívoco.
Note-se uma coisa: Quando, um dia, em 1969, cheguei a Ovar, um inspector do Registo do Notariado tinha chamado a atenção que na Conservatória de Ovar se devia escrever o nome daquela freguesia com o vocábulo “Jusã”, e invocava já razões legais. Não foi respeitado esse ponto, e continuou-se a não colocar o Jusã. Só passados quase dez anos, com o bloqueio do Arquivo, tivemos de ceder.
Agradecemos ao Dr. Pereira da Silva o seu útil depoimento e as diligências que possa fazer em Lisboa para a reparação deste “Delito Toponímico”. No próximo número falaremos de outras achegas recebidas.

Lápide da primitiva capela de Nossa Senhora de Entráguas, do século XV (1411?),
da Paróquia de Santa Maria de Válega, do concelho de Pereira Jusã

Leitura possível da lápide:

Esta obra mãdou fa
zer Alvaro Domingues Dign.
Vigario Forânio e abade de Santa Maria
de Valega em honra da Senhora de Entre
 rios ... ... ...
concelho de pereira ...
no ano de ....

M. P. B.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE JUNHO DE 1981)

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“São Vicente de Pereira, sim!
São Vicente de Pereira Jusã, não!...”

Transcrevendo, em 21/5, todo o texto publicado sob o título em epígrafe no “João Semana” de 1 de Maio último, o prezado colega local “Notícias de Ovar” veio reforçar a nossa posição quanto à necessidade de ser expurgada do apelativo “Jusã” a freguesia de São Vicente de Pereira.
Ali afirma o articulista que desconhecia completamente o caso em foco, e que, se fosse vivo, o próprio historiador e jornalista Monsenhor Miguel de Oliveira, “ele que não consentia que na sua Válega tocassem mesmo que fosse com uma flor”, não deixaria de terçar armas em defesa da reposição da verdade histórica, já que o termo “Jusã” pertence, sim, de direito, ao lugar de Pereira desta última freguesia, sede do antigo concelho de Pereira Jusã.
Ora acontece que o próprio “Notícias de Ovar”, e precisamente pela pena brilhante de Mons. Miguel de Oliveira, no “Número Extraordinário Comemorativo dos Centenários de Ovar” (1952), de que nos mostraram um exemplar já depois de termos dado a lume o nosso depoimento, publicou (pág. 58) um texto intitulado “Qual é o nome exacto da freguesia de S. Vicente?”, em que encontramos alguns dados preciosos que em muito poderão enriquecer o intrincado processo deste “delito toponímico”.
Ao fundo, o lugar de Pereira, visto do Cruzeiro
Assim, o probo historiador, ao constatar que nas estatísticas do Recenseamento Geral da População Portuguesa realizado em 1950 a freguesia de São Vicente de Pereira vinha acrescida do famigerado “Jusã”, escreveu ao Instituto Nacional de Estatística fazendo notar esse e outros “lapsos”.
Foi-lhe respondido:”… no que diz respeito à freguesia de São Vicente de Pereira Jusã, informa a Câmara Municipal de Ovar no seu ofício de 4 do corrente que essa denominação é a exacta. Acresce ainda que é a que figura no Código Administrativo”.
E o historiador, depois de referir a existência das duas Pereiras – a Susã (= de cima) e a Jusã (= de baixo), pergunta e responde: “Qual é a denominação exacta? Parece que não pode ser outra senão a que está de acordo com a história e com o uso constante do povo. Qual é o sanvicentino culto ou inculto que conhece a sua terra por S. Vicente de Pereira Jusã?”
(Aqui o historiador excede-se, pois, em verdade, alguns sanvicentinos, e de várias idades, citam, por vezes, a sua terra como “São Vicente de Pereira Jusã”: Mas julgamos que se trata de um purismo artificioso, derivado da interpretação oficial. Os mesmos também dizem com frequência: “S. Vicente de Ferreira” em vez de S. Vicente de Pereira… E não terão nenhuma razão para isso!
Não sabemos se a Câmara M. de Ovar de então chegou a tirar-se de cuidados para explicar as fontes da sua informação. O que sabemos é que, por norma, nem essa nem outras entidades oficiais utilizavam a denominação espúria que tão peremptoriamente  afirmavam ser “a exacta”. Só mais tarde, como aqui foi escrito em 1/5, o seu uso se tornou obrigatório nos serviços de Identificação, de acordo com o Boletim Oficial do Ministério da Justiça e pelo Decreto-Lei 46139 de 31/12/63, “obrigatoriedade” que, no entanto, só em 1978 se tornou exigida pelo Centro de Identificação Civil e Criminal, quando ali entrou o inflexível querer da computadorização. Como se os computadores não fossem meros repetidores mecânicos e frios das verdades ou dos erros que os homens lhes programam!

Igreja Matriz de Válega na actualidade. Data do século XVIII e sucedeu a uma
primitiva igreja situada um pouco a sul
Capela levantada no século XX, no lugar onde
estava situada a Igreja Velha (Válega)
Com a sua atitude de 1951, a nossa Câmara em nada contribuiu, antes pelo contrário, para a clarificação de um problema que, levantado pela voz autorizada de Mons. Miguel de Oliveira, poderia ter sido, então, facilmente solucionado.
Vale a pena continuar a luta pois temos boas companhias.
E, já agora, uma sugestão à Câmara Municipal de Ovar de hoje: Se a Câmara de 1951, logo após o Censo de 1950, contribuiu, embora involuntariamente, para o atraso de uma solução que já então se impunha, urge que a Câmara de 1981 faça um trabalho de sentido inverso, agindo energicamente para que as dúvidas se desvaneçam e se reponha definitivamente a verdade.
Há que actuar de imediato, na esperança de que os relatórios do Censo/81 possam incluir já a denominação certa da freguesia de S. Vicente de Pereira.

M. P. B.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JULHO DE 1981)
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“São Vicente de Pereira, sim!
São Vicente de Pereira Jusã, não!...”

Ainda ligado a este tema, publicamos hoje mais um texto recebido. Não trazendo, propriamente, qualquer achega para a resolução do problema, mostra a vontade dos seus conterrâneos em o verem definitivamente esclarecido, e lança alguns dados para um melhor conhecimento da sua terra.
Aí vai a colaboração de Euclides Resende:

Falando de… S. Vicente de Pereira
Não é com ânimo leve que se pode falar de S. Vicente de Pereira. Mas há sempre algo que contar sobre as suas gentes, a sua vida quotidiana, a sua história.
Há uns bons anos foi-me grato ler no jornal da nossa vila vareira uma história verdadeira de amor vivida e com o seu enredo nesta nossa freguesia de S. Vicente de Pereira. Foi seu narrador o Ex.mo Sr. Conselheiro Dr. Guilherme de Oliveira Santos, o qual, de vez em quando, vem com um artigo muito interessante neste jornal.
Casa do Dr. Guilherme de Oliveira Santos, no lugar da Torre, São Vicente de Pereira
Recentemente veio a lume o nome de S. Vicente de Pereira a propósito do termo “Jusã”, que o Arquivo de Identificação de Lisboa teima em colocar nos bilhetes de identidade, sabendo-se agora que afinal S. Vicente de Pereira não tem esse sobrenome. Artigo bem tratado, logo implica que haja explicações capazes para que os seus naturais fiquem esclarecidos sobre o supérfluo “Jusã”.
Mas também se verifica que nos anuários existentes, bem como no tão falado Código Postal, o nome de S. Vicente de Pereira figura com o Jusã, não se sabendo porquê. Ora é necessário saber esse porquê, pois todos os de S. Vicente estavam já convencidos de que a sua freguesia era assim chamada e de que o seu cognome sobrevinha dos tempos passados. De facto, o signatário assim conheceu, desde pequeno, a sua freguesia, ficando admirado ao verificar agora que tal era errado.
Porém, mais admirado já me encontrava anteriormente a esta notícia, quando através da rádio amadora (Banda do Cidadão, tipo rádio-telefone, em conversa com um macanudo amigo de Cucujães, tive conhecimento de que S. Vicente de Pereira, antes de pertencer a Ovar, era um lugar da nossa vizinha freguesia de Cucujães.
Por julgar ser do desconhecimento de muita gente, daqui lanço esta achega à nossa Juventude, e talvez até àqueles que atingiram já ou que estão a atingir a terceira idade. Jamais ouvi, a quem quer que fosse, falar em tal, e, segundo me contava minha mãe, nascida em 1898, S. Vicente de Pereira era de Ovar e Cucujães de Oliveira de Azeméis.
Quem já teria ouvido falar em tal? Convicto estou de que ninguém se lembrará disto. Mas, por mais incrível que pareça, o certo é que S. Vicente de Pereira faz parte da história da Vila de Cucujães. Ainda não estou documentado para poder narrar algo, mas espero vir a dizer alguma coisa sobre o assunto.

Euclides Resende

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NOTA DE REDACÇÃO: Aqui vai uma ajuda ao nosso correspondente. Cucujães recebeu de D. Afonso Henriques o privilégio de Couto em 7/7/1139, privilégio esse confirmado por D. Afonso II (1257), D. João I (1432), D. João II (1687), e que consistia em receber impostos e ter jurisdição civil e criminal no seu território. A jurisdição criminal foi suprimida em 1481 (Cortes de Évora), passando para a Feira, e os impostos e a administração da justiça foram extintos em 1790.
“Cucujães, que ainda conservou os direitos de Padroado e a regalia de nomear Juiz, manteve-se como concelho até 31/12/1836, estando incorporada nele a freguesia de S. Vicente de Pereira. Passou nessa data para a administração de Oliveira de Azeméis, tornando efectiva uma resolução que já vinha de 1779, quando da criação deste concelho por D. Maria I, mas que não tinha entrado em vigor” (cf. M. Pires Bastos, “Vila de Cucujães – Bosquejo Histórico”, em “Correio de Azeméis” 8/11/1980).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE SETEMBRO DE 1981)

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“São Vicente de Pereira, sim!
São Vicente de Pereira Jusã, não!...”

Temos vindo a acompanhar com redobrado interesse a campanha lançada nas colunas do “João Semana” pelo Rev. Dr. Pires Bastos, no sentido de se acabar definitivamente com a errada designação de “São Vicente de Pereira Jusã”, ficando apenas o verdadeiro nome de São Vicente de Pereira a designar esta freguesia do concelho de Ovar.
Monsenhor Miguel de Oliveira
Quando em 1968 quisemos completar o nosso trabalho denominado “O ESTUDO DA FUTURA DIVISÃO ADMINISTRATIVA DA VILA DE OVAR”, dirigimo-nos ao Reverendo Monsenhor Miguel de Oliveira, considerado historiador português e um grande sabedor nestes assuntos, com o propósito de nos informar determinados elementos etimológicos respeitantes ao nosso Concelho.
O muito ilustre valeguense atendeu, de imediato, o nosso pedido, enviando-nos alguns dados cujos originais passo a publicar, e que ajudarão a esclarecer as dúvidas que alguém possa ainda ter sobre o uso do termo “Jusã”, que, como afirma pitorescamente Mons. Miguel, “faleceu” em 28 de Dezembro de 1852, com a extinção do concelho de Pereira Jusã.
Entretanto, melhor do que nós, leigo nestes problemas, aqui vai aquilo que pelo seu próprio punho nos escreveu o saudoso historiador em 24/1/1968, e que se contém em duas folhas de bloco e num cartão que as acompanhava.
Eis o teor do cartão:
“P.e Miguel de Oliveira, com muitos cumprimentos, envia em folhas juntas as informações pedidas. O enorme volume do Censo da População em 1960, editado pelo Instituto Nacional de Estatística, já traz indicação das principais datas de incorporação de freguesias. Para Ovar tinha-me pedido elementos o Presidente da Câmara, Carlos Nunes da Silva. Não houve maneira de obter a correcção do nome da freguesia de São Vicente de Pereira. Teimam que é “Jusã”. E que se lhes há-de fazer?
Com a maior estima
24/1/1968
Padre Miguel Oliveira”

Canhão de Válega, que serviu de arma de arremesso nas guerrilhas académicas
entre jovens de Válega e de Avanca, em meados do século XX 

E agora, o conteúdo das duas folhas manuscritas:

“CONCELHO DE OVAR

1- Cabanões  e Ovar nunca pertenceram ao concelho da Feira, embora figure em muitos livros a falsa informação. Constituíram concelho à parte, já existente em 1251.
2- Alguns lugares pertenceram ao concelho de Pereira Jusã, juntamente com metade da freguesia de Válega e parte da de São Vicente de Pereira. Este concelho, extinto em 1853, tinha a sede em Válega, no actual lugar de Pereira. NUNCA existiu nem existe uma freguesia com o nome de São Vicente de Pereira Jusã, embora este falso apelativo figure nas próprias publicações oficiais. O “Jusã” pertencia à vila e concelho, e com eles… faleceu.
3- As primeiras freguesias que passaram para o concelho de Ovar foram as de Válega e S. Vicente, com a totalidade dos seus lugares. (Os que não pertenciam a Pereira Jusã foram do termo da Feira, até passarem, em 1800, para o de Oliveira de Azeméis). O decreto que suprimiu o concelho de Pereira Jusã e incorporou essas duas freguesias no concelho de Ovar é datado de 28 de Dezembro de 1852 e foi publicado no “Diário do Governo”, n.º 196, de 22 de Agosto de 1853.
4- A freguesia de Arada passou para o concelho de Ovar por decreto de 31 de Dezembro de 1853.
5- Esmoriz, Cortegaça e Maceda, pela lei de 21 de Junho de 1879, publicada no “Diário do Governo”, n.º 145, de 2 de Julho.
6- As mudanças relativas às freguesias de Esmoriz, Souto e Pardilhó foram em 11 de Outubro de 1926 e 14 de Abril de 1928. Convém ver a colecção do “Diário do Governo” que não tenho à mão.

Lisboa, 24/1/1968
 M. O.”

Nas edições do Instituto Nacional de Estatística referentes aos Censos efectuados em Portugal, a partir do 2.º (1878), figura sempre o nome de São Vicente de Pereira Jusã, como, aliás, figura também no Dec.-Lei n.º 46139, de 31 de Dezembro de 1964, que deu nova redacção ao Artigo 458.º do Código Administrativo, respeitante à classificação de todos os concelhos e das freguesias do Continente e Ilhas e as suas respectivas designações.
Contudo, no 1.º Censo da população efectuada no Reino de Portugal em 1864, a freguesia de São Vicente de Pereira figurou apenas com o nome de Pereira Jusã.
Acabe-se de uma vez para sempre com o dislate de Jusã em São Vicente de Pereira. Para isso têm a palavra as autarquias locais, que devem diligenciar junto do Governo para a sua devida correcção em legislação adequada a publicar no “Diário da República”, para, assim, e a partir da sua publicação na folha oficial, se acabar com o erro, que alguns teimam em manter, de acrescentar à freguesia de São Vicente de Pereira um termo – JUSÃ – que, afinal, faleceu, como diz Mons. Miguel de Oliveira, com o extinto Concelho de Pereira Jusã.

Válega e Pereira Jusã
Algemas do Tribunal do Concelho de Pereira Jusã
“Nesta freg. de Válega e cazas da camera deste julgado da villa de Pereira Jusãa, ahonde estando prezente o cidadão Manoel José da Fonseca Juiz de Paz do Julgado desta dita villa, ahonde eu Escrivão de seu cargo vim, aqui perante elle dito Juiz appareceram João Vallente da Fonseca do Lugar de Villarinho, etc.”.
(De um documento de 1/2/1845, existente no Cartório Paroquial de Válega e procedente da Casa do antigo Bispo de Vila Real, D. António Valente da Fonseca). 

Ovar, 01/10/1981
Waldemar Gomes Lima

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE NOVEMBRO DE 1981)

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A denominação correcta
de S. Vicente de Pereira

Na reunião camarária de 18/10/1988, foi aprovada uma Proposta do Vereador Augusto Rodrigues, visando corrigir um grave erro toponímico em que caiu o Ministério da Justiça (!), e de que é vítima a freguesia de São Vicente de Pereira.
Porque o “João Semana” já teve intervenção na matéria, pugnando contra o mesmo erro, aqui estamos ao lado da Câmara Municipal, dando-lhe o nosso total apoio na defesa de uma causa que não pode sofrer a mínima contestação e que já deveria ter sido resolvida há muito por um Ministério a quem compete clarificar a verdade das situações.

Eis o texto da Moção:

DENOMINAÇÃO CORRECTA DA FREGUESIA DE SÃO VICENTE DE PEREIRA

Em 1978, a Direcção-Geral da Acção Regional e Local, emitiu um ofício em que dizia: «… informo V. Ex.ª de que a freguesia do concelho de Ovar de que se solicita a designação correcta se denomina São Vicente de Pereira Jusã».
A partir daquela data, quer o Centro de Identificação Civil e Criminal na emissão de Bilhetes de Identidade, quer as várias Repartições que tratam de assuntos relacionados com a identificação dos cidadãos passaram a fazer constar em todos os documentos, a denominação de São Vicente de Pereira Jusã, para esta freguesia do nosso concelho.
Ora tal deve-se certamente a erro daquela Direcção-Geral, porquanto São Vicente de Pereira sempre se denominou desta forma e não como informaram.
Pereira Jusã foi concelho antiquíssimo, na comarca de Esgueira. Pela reforma de 1836 ficaram a pertencer-lhe as freguesias de Válega e São Vicente de Pereira, na sua totalidade. A sua sede situava-se no lugar de Pereira Jusã, da hoje freguesia de Válega.
Em 1852 foi o concelho de Pereira Jusã extinto e as freguesias que o compunham incorporadas no de Ovar – Válega e São Vicente de Pereira. A vila de Pereira Jusã, hoje reduzida a simples lugar da freguesia de Válega, passou a chamar-se Pereira, como ainda hoje se chama. São Vicente de Pereira é que nunca foi de Jusã, e nem o poderia ser, porque se situa a nascente da freguesia de Válega. Também pelos livros paroquiais daquela freguesia, por mais antigos que sejam, se constata que aquela freguesia sempre se denominou de São Vicente de Pereira.

Capela de São Geraldo, em S. Vicente de Pereira
Porque dúvidas não nos restam de que houve lapso na informação prestada pela Direcção-Geral da Acção Regional e Local, em 1978, proponho que, auscultadas a Junta e a Assembleia daquela freguesia, se dê conhecimento àquela entidade ou à que actualmente tem tal incumbência, de que a freguesia do concelho de Ovar se denomina SÃO VICENTE DE PEREIRA e não São Vicente de Pereira Jusã, como erradamente aquela Direcção-Geral informou em 1978, pelo s/ofício n.º 919, de 16 de Fevereiro.

Ovar, 18 de Outubro de 1988
O Vereador,
Augusto Rodrigues

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE NOVEMBRO DE 1988)

FOTOS: M. Pires Bastos (MPB) e Fernando Pinto (FMOP)

http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/05/sao-vicente-de-pereira-sim-sao-vicente.html