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15.6.18

A Sociedade Metalúrgica Ovarense Limitada

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2017)
TEXTO: Orlando Caió

Os tornos da SMOL – orgulho da metalurgia nacional

A extinta empresa SMOL, Sociedade Metalúrgica Ovarense Limitada, fundada em 1943 pelo vareiro Manuel de Oliveira Muge, (1901-1960), abriu inicialmente como fundição de metais, e pouco tempo depois passou a executar serviços de serralharia-mecânica. Uns anos mais tarde, a empresa enveredou pela construção de máquinas industriais, que aqui em Ovar eram desenhadas e produzidas.
A empresa funcionou durante dezenas de anos na rua Dr. Manuel Arala 151, no exato local onde está o Quartel dos Bombeiros Voluntários de Ovar.

Uma das últimas imagens da empresa
de máquinas industriais SMOL. Foto de José Lopes

Na SMOL, popularmente conhecida em Ovar por “Metalúrgica”, trabalhavam bons quadros, como o encarregado geral, Sr. Alberto, que era um verdadeiro fora de série em matemática, e com o qual colaborei durante alguns meses quando da sua passagem pela empresa Fopil. A SMOL tinha operários qualificados, que trabalhavam e desempenhavam funções de chefia, como o serralheiro-ajustador Sr. Lamas, o torneiro-mecânico Sr. Manuel Fonseca e o chefe da fundição Sr. Lourenço, que foi um dos primeiros colaboradores da empresa, e que conheci nos primeiros anos da década de 1950.
Recordo os torneiros Eduardo Paiva, António Pacheco, Manuel Catarino, José Franco e Artur Santos, os serralheiros Sr. Américo, Sr. Alves e António Maria, o Sr. Azevedo e o Sabino da fundição, o Fernandes fresador, António Valente, Manuel Godinho, José Lopes e António Graça, entre outros. Infelizmente, algumas das pessoas citadas já deixaram o nosso convívio.
O autor torneando uma peça em aço,
num torno modelo TA-25 da SMOL
Foto de 1998
A empresa SMOL era como uma escola, onde se forjava a nata dos operários qualificados do ramo da metalurgia e metalo-mecânica. De lá saíam bons torneiros-mecânicos, fresadores, serralheiros-mecânicos, fundidores, mandriladores e serralheiros-ajustadores.
A maioria dos profissionais saídos da SMOL eram competentes, e não havia o receio de ingressar em qualquer empresa do ramo da metalo-mecânica, ou outro diferente ramo de atividade.
Bem mais difícil era um torneiro, serralheiro ou fresador, saído de outra empresa que não do ramo, poder singrar na SMOL. Porque na SMOL, o trabalho era diversificado e não executado em série, facto que ainda hoje se verifica em muitas empresas de outros ramos de atividade. Porque nas empresas onde o trabalho não é diversificado, é mais difícil evoluir tecnicamente na profissão.
O simples facto de se ter trabalhado na SMOL era quase como possuir um certificado de garantia para arranjar emprego. Do mesmo modo que o era para os alunos com o curso industrial tirado na Escola Infante Sagres no Porto.
Pelos anos de 1960, 1970 e parte dos anos 80, a SMOL era conhecida no País pela elevada qualidade das máquinas industriais que então produzia, especialmente tornos mecânicos e limadores-mecânicos.
Ao longo dos meus 45 anos como torneiro-mecânico de profissão, em fases diferentes, cheguei a trabalhar em tornos-mecânicos de diferentes marcas. Num da marca Cegonheira, do Jacinto Ramos, da marca Selva, num torno de origem polaca, cuja marca não me ocorre, do Eduardo Ferreirinha & Irmão, e, durante 37 anos, num torno modelo TA-25 da SMOL, de 2 metros entre pontos.
Dos tornos-mecânicos citados, nunca tive a menor dúvida em classificar como o melhor torno, na época, o TA-25 da SMOL, e por várias razões: pela estética, facilidade de adaptação aos manípulos, robustez e precisão.
O Torno modelo Apolo-25,
última criação da SMOL
Mais tarde, a SMOL lançou no mercado o torno Major-25, e por último o modelo Apolo-25. Este torno, ao tempo apetrechado com os últimos aperfeiçoamentos como por exemplo a vantagem do barramento temperado, era de facto uma excelente máquina. Pela robustez, alto rendimento e elevada precisão.
A Sociedade Metalúrgica Ovarense Lda., graças à elevada qualidade das máquinas que então produzia, foi durante dezenas de anos, em Portugal, um dos grandes orgulhos da indústria metalúrgica e metalo-mecânica.
   Depois do 25 de Abril de 1974, a empresa passou por uma ou outra fase conturbada, marcada por greves e incompreensões, tendo o seu fim chegado a 5 de Dezembro de 1984, com a venda de diversas máquinas em hasta pública.
Em boa verdade, as empresas são, de certo modo, como as pessoas: nascem, vivem e morrem. Tudo tem o seu tempo, e tudo acaba.
Resta a saudade e a memória de, quando ainda menino, ver os operários da SMOL passarem apressados, pela rua Dr. Manuel Arala. A maioria caminhando a pé, outros de bicicleta, e alguns, muito poucos, fazendo o trajeto em veículos motorizados de duas rodas, para irem pegar ao trabalho.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de junho de 2017)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/06/a-sociedade-metalurgica-ovarense_15.html

4.7.17

Memória do Dr. Álvaro Esperança

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2016)
TEXTO: Eduardo Tomás Alves

1) Um ovarense adotivo, mas apaixonado
Dr. Álvaro Esperança
Passará no próximo dia 17 de abril o 117.º aniversário de nasci­mento do médico Álvaro dos Santos Esperança (1899-1988). O Dr. Es­perança viveu cerca de 70 anos em Ovar, onde foi médico, sub-delegado de saúde e político conservador nos tempos do anterior regime. Era filho de gente do centro-sul do nosso país. Seu pai (falecido em 1936) era origi­nário de Coimbra e foi contramestre das oficinas da CP em Ovar; além de adepto do líder político António José de Almeida, embora fosse católico e muito devoto da rainha Santa Isabel. Já sua mãe nascera em Santarém e tinha ligações de família ao Dr. José Frederico Pereira Marecos (1802-44), diretor da Imprensa Nacional e redator do Diário do Governo.
O Dr. Esperança nasceu em Al­cobaça (S. Martinho do Porto) e veio a falecer na cidade do Porto, em casa da sua única filha, Isabel, onde passou os últimos 8 anos de vida. A sua outra ausência de Ovar fora por causa do curso de Medicina, que fez na sua também querida Coimbra. Toda a vida, aliás, seria fanático por Ovar, pela Ria, por Coimbra e por Portugal.

2) Médico e eterno sub-delegado de saúde
Médico zeloso e competente, ocupou por quase 40 largos anos o referido cargo de sub-delegado de Saúde em Ovar, recusando promo­ções só para não se afastar da terra que tanto amou. Foi um fiscal incor­ruptível, implacável para com as frau­des e os mixordeiros. Teve também um louvor do Governo, aquando da crise do tifo-exantemático. Herdara de sua mãe o carácter e o visual algo “pombalinos”, mas tal não o impedia de ser um bom conviva, à mesa ou na pesca, o seu passatempo favori­to. Em velho, uma sua imagem de marca era também a de fumar cachimbo.

3) Foi casado com a Prof. Leonilde Coelho, da Feira
Uma beldade feirense e esti­madíssima professora primária em Ovar por cerca de 20 anos, sua esposa nascera na terra de sua mãe, Travanca, a 5 km de Ovar. Mas seu pai era o Prof. Vicente Coelho, natural de Fiães da Feira, primo do deputado republicano Dr. Elísio de Castro (1869 – 1956), o qual foi sogro da filha do famoso primeiro­-ministro Afonso Costa. D. Leonilde (que morreu com 97 anos) foi amiga íntima da mãe do cantor Manuel Frei­re e da avó do Dr. Carlos Encarnação (PSD). Outra pessoa muito chegada foi D. Romana Fragateiro, nora do Dr. Ginestal Machado, um fugaz primeiro-ministro da Primeira República (em 1923). Irmão da Prof. Leonilde foi também o notável mé­dico e político oposicionista feirense Dr. Arnaldo Santos Coelho (1913 – 2001), que foi o primeiro presidente do município da Feira depois de 1974 (não eleito), e que era primo do duas vezes autarca salazarista Dr. Domingos Coelho, da mesma Feira.

4) Dois cunhados que nunca se zangaram
A relação do Dr. Esperança, situacionista, com o Dr. Arnaldo, oposicionista, irmão de sua mulher, foi sempre exemplar. E discutiam muito sobre política. Um verdadeiro exemplo, uma harmonia que conti­nuou depois de 1974.

5) Uma marca na toponímia?
O apaixonado ovarense Dr. Espe­rança, cuja vida, como se viu, marcou por tantas décadas esta nossa terra, não logrou, até ao momento, qual­quer menção na toponímia do glo­rioso município vareiro, uma cidade em contínua expansão. Por que não agora? É uma ideia que aqui deixo, em abono da Saudade e da Justiça…

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 2016)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/07/memoria-do-dr-alvaro-esperanca.html

16.12.15

Tanoaria JOSAFER (“Farramenta”) Esmoriz

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2015)
TEXTO: Fernando Pinto

O jornal “João Semana” dá-lhe a conhecer, nesta e na próxima edição [01/01 e 15/01/2015], duas fábricas de Es­moriz que fazem parte da Rede Museológica de Ovar: a Tanoaria JOSAFER (“Farramenta”) e a Tanoaria Ramalho.
Filipe Octávio Fernandes (na foto), um dos filhos de José António Fernandes (atual sócio gerente), mostrou-nos as várias fases do fabri­co de um barril, e revelou ao nosso jornal que a empresa onde é diretor de vendas está a modernizar-se de forma a poder cumprir com as exigências do mercado internacional.

Fomos de Ovar a Esmoriz pela velhinha Estrada Nacional 109. Em vez de virarmos para a Avenida da Praia, perto do edifício da Junta, seguimos mais alguns metros pela Av. 29 de Março, até encontrarmos, do lado esquerdo, o n.º 779.
Filipe Octávio Fernandes, di­retor de vendas da tanoaria JOSA­FER, um dos filhos de José António Fernandes (atual sócio gerente), foi o nosso anfitrião. Começou por explicar o porquê do nome “Farra­menta”, alcunha pela qual também é conhecida esta tanoaria centenária:
“O meu avô Joaquim Dias Ferreira era conhecido em Esmoriz por Farramenta. Antigamente os tanoeiros tinham nas suas praças, no local onde se faziam os barris, uma caixa para guardar a ferramenta depois de um dia de trabalho. O meu avô achava que não valia a pena estar a arrumar a ferramenta toda e deixava-a pousada na praça dele. Então, os colegas, por brinca­deira, escondiam-lhe os utensílios de ta­noeiro. De manhã, o meu avô perguntava aos colegas quem é que lhe tinha rou­bado a farramenta. Ficou a alcunha. Em 1962, por questões comerciais, alterá­mos o nome para JO­SAFER, que é João António Fernandes, o nome do meu pai”.
Tanoaria Farramenta - Esmoriz
Foto: Fernando Pinto
A primeira ta­noaria foi fundada em 1912 numa ga­ragem, por Manuel Dias Ferreira, bisavô de Filipe Fernandes. São várias gerações a trabalhar neste tipo de indústria familiar, que tem passado por altos e baixos. Existiam mais de 40 tanoarias em Esmoriz. Agora são duas: esta e a tanoaria Ramalho, que fica ali bem perto, na Rua Abade Pinheiro. Alguns tanoeiros reformados traba­lham em casa, em garagens, mas são processos muito artesanais.

No estaleiro de madeiras
“Isto que está aqui a ver é ma­deira de castanho português e car­valho francês e americano, acácia ou austrália portuguesa. O castanho compramos nas zonas altas de Por­tugal, na Serra da Estrela, na Guar­da, Gouveia e Manteigas. Vêm para cá em toro e nós serramos a madeira e fazemos estas aduelas. Depois é engradada de forma que esteja a secar e a apanhar vento”, diz Filipe Fernandes, apontando para as torres de madeira.
Segundo alguns entendidos na matéria, esta zona é especial para o tratamento da madeira, porque o mar está muito próximo das ta­noarias e a aragem ajuda a tratá-la, mas tem de estar a secar no estaleiro durante 24 meses.
“Aquela ali, a escura, já está seca, em condições de ser levada ali para dentro da fábrica. Cinquenta por cento do nosso mercado são barris novos, e os outros cinquenta são barris usados”, refere o jovem empresário, enquanto nos dirigimos para o interior da tanoaria. “Faze­mos todos os tipos de barris, mas hoje estamos a fazer charutos. São pipos, mas com um formato diferen­te, de 150 litros.
Tanoaria Farramenta - Esmoriz
Foto: João Elvas
Antigamente, estes charutos eram muito usados nas tascas de Lisboa, porque, como não havia muito espaço, eram colocados ao alto”, esclarece.
Após termos apreciado as vá­rias fases do fabrico daquele pipo, fomos levados para um canto da tanoaria que se encontra em obras.

Produção de pipos em linha
No início do ano, para finais de fevereiro de 2015, esta forma de trabalhar vai acabar nesta tanoaria. Em vez de trabalharem duas pessoas na montagem dos pipos, vão estar cinco, e um mestre tanoeiro vai acompanhar o processo de fabrico.
“Produzimos para a Europa, Ásia e América, e não temos capaci­dade produtiva para as encomendas que temos. A pista já está montada, como pode ver ali, mas ainda não está completa. Os fogachos estão en­terrados no chão, e vamos ter ali uma turbina a criar ar, para que o fogacho não abafe. No processo tradicional, quando se colocava a madeira dentro dos fogachos, demorava 15 minutos a atingir a temperatura ideal, e per­díamos tempo. Vamos trabalhar em linha, porque neste caso estamos a fazer 24 charutos por dia, o que é muito pouco. Temos de fazer, no mí­nimo, 60, esse é o nosso objetivo”, adianta Filipe Fernandes.
Esmoriz é a capital da Tanoaria, mas este setor, para poder vingar, tem de se modernizar e de apostar na formação de jovens tanoeiros.
“Acabámos de alcançar o mer­cado indiano. Vender para a Índia era uma meta que tínhamos”, conta Filipe Fernandes, com os olhos a brilhar, como se, por instantes, um fogacho lhe acendesse a alma.
O Núcleo Museológico da Ta­noaria “Farramenta” está aberto de segunda a sábado, das 8h às 12h e das 13h às 17h. Encerra aos domin­gos e feriados.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/12/tanoaria-josafer-farramenta.html

15.12.15

Tanoaria Ramalho - Esmoriz

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2015)
TEXTO: Fernando Pinto


Augusto Manuel Castro de Sá (Tanoaria Ramalho)
Foto: Fernando Pinto
Na edição de 1 de janeiro de 2015 visitámos a Tanoaria JOSAFER, também conhecida por “Farramenta”. Hoje vamos até à Tanoaria Ramalho, outra oficina que também faz parte da Rede Museológica de Ovar, e onde ainda se trabalha à moda antiga.
Augusto Manuel Castro de Sá recebeu o jornal “João Semana” na sua tanoaria, fundada em 1952 pelo seu pai, Manuel Augusto de Sá (Manuel “Ramalho”).
Esta empresa familiar, espe­cializada no fabrico e reparação de barris e cascos para o arma­zenamento e envelhecimento de vinhos e whiskys, faz parte da Rede Museológica de Ovar.

Estamos na cidade de Esmoriz, perto da Junta daquela freguesia do Concelho de Ovar. Seguimos pela Avenida da Praia e entramos na Rua Abade Pinheiro. No n.º 304 esperava-nos Augusto Manuel Castro de Sá [na foto], gestor desta empresa familiar especializada no fabrico e reparação de barris e cascos para o armazenamento e en­velhecimento de vinhos e whiskys.
A Tanoaria Ramalho foi funda­da em 1952 por Manuel Augusto de Sá, pai do nosso anfitrião, que era conhecido na localidade por Manuel Ramalho. “Como o meu pai e os meus tios ficaram sem pai muito cedo, eles eram conhe­cidos pelo apelido da minha avó, que se chamava Rosa Rodrigues Ramalho. O meu pai, quando o meu avô Augusto Manuel Chêdas faleceu, foi substitui-lo no seu lo­cal de trabalho. Como ele só tinha oito anos, a minha avó, por ter ficado sem meios de subsistência, foi pedir ao patrão para que o meu pai fosse trabalhar para lá. Um dia, no fim do trabalho, o patrão pediu-lhe que levasse um gigo de retalhos de Gaia à Foz. O rapaz encheu-se de brio e atirou os retalhos ao chão. Meteu-se no comboio e veio para cá. E por aqui ficou”, conta o em­presário.
Manuel Au­gusto de Sá, como aconteceu com a maioria dos seus colegas tanoeiros, começou por trabalhar primeiro num telheiro. “Depois o irmão casou e deixou o meu pai ocupar junto aos Bom­beiros um espaço para ele ir tra­balhando. Entretanto, começou a comprar isto, onde estamos. Eram terrenos onde se cultivava arroz, arrozais... O meu pai começou aos poucos e poucos. Trabalhou depois com os meus irmãos mais velhos. Um deles já faleceu e o outro ainda trabalha na tanoaria. Vieram para aqui desde meninos. Queriam acabar com isto, por não ser rentá­vel, e eu, apesar de tra­balhar noutro ramo, em contabilidade de custos numa empresa, aceitei o desafio. Pedi uma licença sem vencimento e comecei a entrar em contacto com os ingleses. E nunca mais larguei isto... Como pode ver, precisamos de fazer algumas obras. Temos de dar um jeito ao chão da tanoaria, pintar as paredes, colocar umas janelas, reparar o telhado, para que isto fique mais airoso”, diz Augusto Manuel de Sá, apontando para a cobertura do velho edifício.

Museu da Tanoaria
“Com a chegada do novo Presidente da Câmara Muni­cipal de Ovar [Salvador Ma­lheiro], parece que surgiu a ideia de fazerem um museu da tanoaria. Se quiserem avançar com a criação de um museu, os autarcas devem entrar em contacto com as duas tanoarias que fazem parte da Rede Mu­seológica de Ovar, de forma a ouvirem a nossa opinião sobre o assunto”, refere Augusto de Sá, acrescentando: “Eu acho que deviam criar antes um circuito turístico em que todas as insti­tuições que fazem parte da Rede pudessem entrar. Museus vivos já são as tanoarias... Podíamos era construir uma loja para vendermos os nossos produtos, o artesanato”.

Tanoaria Ramalho, de Esmoriz - Foto: Fernando Pinto

No interior da Tanoaria res­pira-se uma atmosfera de outros tempos. Ouvem-se marteladas na praça, na pedra redonda onde o barris e os pipos vão ganhando forma [na foto].
“Neste caso, estamos a fazer barris de madeira recuperada de carvalho, que se destina a levar vi­nho de novo. Vão para a Coreia do Sul”, diz o Sr. Augusto, explicando que esta encomenda surgiu através de uma parceria com uma empresa sueca para a qual estão a fazer va­sos de cortiça. Também fabricam celhas e outras peças de decoração.

Tanoaria Ramalho - Foto: Fernando Pinto
A arte do mestre tanoeiro
Esta arte, na opinião do res­ponsável pela Tanoaria Ramalho, requer sacrifício e persistência: “Aprender, todos aprendem, o mais difícil é continuar nesta profissão, porque as coisas nem sempre cor­rem bem”. Segundo aquele gestor, os produtores de vinho nacionais têm um papel fundamental na divulgação do excelente trabalho realizado pelos nossos mestres tanoeiros. “Se pedir­mos a um francês para ele fazer um determinado barril, ele não o faz, porque os franceses tra­balham em série, como numa fábrica moderna. Os nossos tanoeiros começam e acabam um barril. Mas hoje ninguém enriquece com este negócio, porque há muitas alternativas ao barril, como as cubas de inox”, esclarece.
O Núcleo Museológico da Tanoaria Ramalho pode ser visitado de segunda a quinta­-feira, das 8h às 12h e das 13h às 18h. À sexta-feira apenas abre da parte da manhã, encerrando aos sábados, domingos e feriados.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/12/tanoaria-ramalho-esmoriz.html

18.3.14

Arquiteto Domingos Tavares – Insigne personagem ovarense

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2014)
TEXTO: Manuel Catalão
         
Arquiteto Domingos Tavares
No declinar da soalheira tarde do Outono que se repete, enxotando as obstinadas e pálidas folhas que atapetam a calçada, subsidiariamente tocada pelo salino perfume da brisa marítima e pelo agreste aroma proveniente do misto de sargaço e algas dormentes, que navegam, perdidas, na crescente aridez da nossa ria, ainda vestida de um apreensivo azul, quase no exato ponto em que a ruralidade do Torrão do Lameiro abraça a pacata murtoseira Quintas do Norte, fomos ao encontro do Sr. Professor Arquiteto Domingos Manuel Campelo Tavares, insigne personagem ovarense. 

O berço e a urbe

Por meados de uma primavera que permitia antever fortes e dramáticas convulsões – corria o dia 15 de Maio do ano de 1939 –, vinha ao mundo Domingos Tavares, terceiro e único varão na cronologia de uma prole de quatro filhos com que seus progenitores foram mimoseados. A já então vetusta rua Padre Ferrer foi palco engalanado na receção ao recém-nascido, espaço dos primeiros sorrisos e dores, e local também para as preliminares projeções de um futuro próximo que não caberia na urbe que o viu nascer.
Por força da condição profissional de seu pai, funcionário judicial de carreira, Domingos Tavares aprendeu a dar as primeiras passadas na linda cidade beirã de Castelo Branco e na laboriosa cidade de Fafe. Cumprido o ciclo do primeiro quinquénio de vida, e porque se aproximava o início do percurso de formação escolar, regressou a Ovar, para um tempo de descobertas várias, a nível da construção do grupo de brincadeiras de rua, nas sinuosas vielas periféricas… Na saudosa escola primária de Conde Ferreira – onde, na atualidade, se situa o Tribunal Judicial de Ovar –, cumpriu o primeiro e segundo ano de escolaridade, vindo a completar o curso básico na vila de Amarante, para onde seu pai, novamente por incidência da opção profissional, houve de se deslocar. De regresso ao seu torrão natal, tem oportunidade de refazer o círculo de amizades locais e de articular consensos pessoais e familiares quanto à prossecução do ciclo estudantil, acabando por rumar à cidade de Aveiro e ao seu prestigiado Liceu. Na verdura dos dez anos de idade, manhã cedo, tinha encontro marcado com a velha e lenta locomotiva a vapor, prenúncio rotineiro da quotidiana viagem para a cosmopolita capital do distrito, indiferente à frescura matinal que se confundia com a espessa fumarada que se espraiava e lhe envolvia o corpo esguio.
Aluno diligente, com alicerces assentes na liberdade e na responsabilidade transmitidas pela praxe familiar, foi fomentando sólidas e cúmplices amizades, promovendo díspares atividades de natureza lúdica, cultural e desportiva.

Associativismo vareiro 
No Carnaval de Ovar,
ao lado da Miss Furadouro

Curioso será referir que, de um furtivo e coletivo banho nas então ainda não poluídas águas da ribeira do Cáster, sob a protetora vigilância das lavadeiras que a coloriam de sabão azul, nasceria o gene da formação do Grupo Atlético Vareiro, que viria a tomar forma legal a 2 de Abril de 1956. Domingos Tavares, dotado, desde cedo, de mão firme para a representação pelo desenho, com a multifacetada disponibilidade para brincar de forma séria e responsável, foi, reconhecidamente, desde a adolescência, um elemento fundamental na dinamização e na consecução dos superiores objetivos que nortearam a criação de uma coletividade que marcaria, muito positivamente, as gerações dos anos sessenta e setenta. Havia ainda espaço para ousadias sensatas que passavam pela frequência de todas as romarias confinantes, pela animação cultural traduzida em múltiplas personificações de figuras trazidas da literatura popular, pelas tardes e noites de cinema, pela prática de desportos náuticos na buliçosa Ria de Aveiro, enfim, pelas experiências de um jovem que amava a vida da sua terra. Em terra de carnaval, Domingos Tavares, não abdicando do seu perfil sóbrio, foi figura crítica do regime político autoritário então vigente, participando em vários corsos carnavalescos, aos quais chegou a concorrer na condição de aspirante a “Miss Carnaval”!!

Arquitetura como vocação

Concluída a formação liceal, indecisões vocacionais vencidas, optou pelo ingresso no curso de arquitetura da Escola de Belas Artes do Porto, mergulhando afincadamente no estudo metodológico em artes, em consonância com a inata aptidão para transformar em música o seu distinto traço de desenho livre e geométrico. Cumpridos os anos curriculares exigidos, foi convidado para integrar o quadro docente da EBAP na condição de Assistente, dando assim voz aos conhecimentos científicos adquiridos. Corria o ano de 1967 quando contraiu matrimónio com Maria Augusta, contemporânea do tempo liceal e licenciada em filologia, de quem provieram dois filhos, ele também arquiteto, ela, gestora. Simultaneamente, no espaço compreendido entre os anos de 1969 e 1973, colaborou com os conceituados Arquitetos Fernando Távora, Jorge Gigante, Francisco Melo, Alcino Soutinho e Rolando Torgo, vindo, ainda em 1973, a integrar a experiente equipa de Percy Johnson – Marshall na elaboração do Plano da Região do Porto, elemento fundamental para a clarificação estratégica, sob o ponto de vista urbanístico, da cidade invicta. Concluída a licenciatura no ano de 1973, passou a integrar o quadro docente da EBAP na qualidade de Professor Catedrático, vindo, com a naturalidade e a capacidade pedagógica que o caracterizam, a ser figura proeminente e fundamental na transformação da ESBAP em Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, participando também, e de forma bastante ativa, na criação do Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, da qual viria também a ser Professor Convidado. Docente das áreas de Teoria e História da Arquitetura, transmitiu aos seus muitos discentes os factos históricos e científicos mais relevantes dos períodos da arquitetura universal, desde o neolítico até ao contemporâneo. Resultante da enorme paixão pela arquitetura, o ovarense e Professor Arquiteto Domingos Tavares tornou-se uma figura incontornável não só na produção de obras arquitetónicas, que constituem fontes de informação, mas ainda de diversas obras escritas que são referenciais de aprendizagem nas escolas de outros continentes, tais como “Da rua Formosa à Firmeza”, “Miguel Ângelo, a aprendizagem da arquitetura”, “ Francisco Farinhas, realismo moderno”, a coleção de “Sebentas de História da Arquitetura Moderna”, entre outras obras e ensaios técnicos e científicos.

Um saber partilhado
Arquiteto Domingos Tavares

Tem sido também orador convidado em múltiplos seminários, colóquios e eventos da sua especialidade em variados países europeus, americanos e asiáticos, prestigiando, dessa forma, o nome da cidade de Ovar. Atualmente, na condição de Professor Jubilado, quase cinco anos depois de ter ministrado a sua derradeira aula como Professor Catedrático da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, Domingos Tavares prossegue de corpo e alma na sua entrega à causa das artes, colaborando com a Academia, em estreita ligação com o Departamento Autónomo de Arquitetura da Universidade do Minho, onde é membro do Conselho Consultivo, bem como com o Departamento de Arquitetura da Universidade de Coimbra, onde é Professor Convidado, e com a sua Faculdade de Arquitetura do Porto, aqui coordenando o projeto de investigação no Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo. Vida tamanha em tamanho corpo de homem, dá-se ao mundo através da arte, do estudo, da palavra, da visão de um futuro mais verde, mais colorido e adequado à condição humana. É este o homem que, na plenitude dos seus setenta e quatro anos de idade, ruma semanalmente à sua Ovar, preferencialmente em manhãs soalheiras, buscando nas tendas do mercado municipal a frescura verdejante da hortícultura artesanal e o contacto com o seu povo de sempre. Sendo um homem de relacionamento fácil, desde que aprofundado e verdadeiro, adaptou-se bem à rotina citadina, tendo aprendido a gostar do Porto como cidade e como polo de toda a sua intensa atividade profissional. Convictamente democrata e ativista de esquerda nas campanhas da oposição democrática nos anos sessenta e princípios da década de setenta, permanece fiel aos seus ideais, tendo sido recentemente candidato à Assembleia da República pelo distrito do Porto, integrando a lista da CDU.

Saudades de Ovar

No recanto da sua moradia, na extremidade sul do lugar do Torrão do Lameiro, onde procura descanso retemperador, colhe a inspiração para mais uma ou outra obra a publicar, acolhe os amigos com a mesma alegria e espontaneidade de há sessenta anos, luta com a nostalgia de uma ria que desfalece, enfim, vive a felicidade de estar em Ovar, a sua terra. Convidado a pronunciar-se sobre a Ovar de hoje, entende que se trata de uma comunidade que se encerra em si mesma, orgulhosa, passiva e tendencialmente resistente à mudança, defendendo, em contraponto, a mobilização em torno da participação ativa nas grandes decisões locais e na estratégia do futuro. Defensor das tradições em tudo o que elas contêm de belo, de cristão ou profano, não deixa de referir que, na sua grande maioria, perderam a autenticidade que as caraterizava, não sendo, nos dias de hoje, um militante seguidor das mesmas. Instado a pronunciar-se sobre as obras do mais recente investimento público na nossa cidade, refere o Parque Urbano da cidade como algo que pode ajudar a transformar a vivência citadina, não deixando de ser particularmente crítico face ao excesso de circulação automóvel nas vias centrais da cidade, geradora de graves perturbações a nível ambiental e na livre circulação das pessoas. A penumbra caiu. O curso lagunar reflete ainda, e só, os pequenos pontos de luz da margem nascente, adivinhando-se o esventrar do cordão dunar pela agitação das vagas marítimas próximas. Despedimo-nos do nosso interlocutor com a elevada satisfação de termos estado com uma verdadeira figura vareira, com um distinto embaixador cultural da nossa terra, com um emérito professor e profissional, com um testemunho vivo da intelectualidade ovarense, com um homem que, por detrás de uma aparente austeridade, se nos revela como um referencial do passado, do presente e do futuro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/03/arquiteto-domingos-tavares-insigne.html

8.8.13

Os sinaleiros e o cabo Dias

Cabo Cardoso
Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2012)
TEXTO: Dulcídio Vaz Pinto

Os sinaleiros constituíram, seguramente, uma referência no panorama local desde os anos 40 do século passado até finais da década de 60.
Vem isto a propósito de uma conversa tida, há algum tempo atrás, com o senhor Mário Gonçalves Leite Dias, que soma a bonita idade de 74 anos, mais conhecido por cabo Dias, antigo militar da Guarda Nacional Republicana, que prestou serviço no Posto de Ovar desde 1966 até 1993.
Homem de fortes convicções, depreendemos das suas palavras, e à medida que conversávamos, que, ao longo de 27 anos, sempre pautou a sua ação pela isenção e imparcialidade, procurando em todas as suas intervenções, que foram muitas, atuar de forma firme, sem violência, com delicadeza, mas sempre sem baixeza. Vislumbrava-se no seu rosto uma expressão conspícua quando dizia, e cito: “a minha querida Guarda”.
O cabo Dias sustenta que a passagem de testemunho dos sinaleiros civis para elementos das forças de segurança se dá em 1968, ano em que, de acordo com o antigo militar, a GNR (que já prestava serviço em Ovar desde 07/02/1945) passou a desempenhar essa missão, que se estendeu até 1970, altura em que a PSP substituiu a Guarda Nacional Republicana no policiamento da então vila de Ovar.

Cabo Dias e o militar Hernâni

Tudo leva a crer que o cabo Dias tem razão, como o comprova a fotografia aqui publicada, tendo como figura central o também cabo Cardoso, em 1968, a coordenar o trânsito no centro da vila. Numa outra foto temos uma imagem familiar a qualquer ovarense que há dezenas de anos tenha passado pelo centro de Ovar e visto na entrada do posto da Guarda um quadro frequente: neste caso, o cabo Dias e outro militar chamado Hernâni. Uma última fotografia mostra-nos o cabo Dias no dia 4 de julho de 1984, em serviço de escolta ao então Presidente da República General António Ramalho Eanes, aquando da inauguração do Infantário em Válega.

O cabo Dias fazendo escolta ao Presidente da República General Eanes

Importa ainda salientar a permanente disponibilidade que o cabo Dias e o cabo Cardoso sempre me demonstraram, quer nas informações prestadas, quer na cedência de algum material fotográfico, a fim de ser publicado, possibilitando, desta forma, que a úrgica informação não estiolasse por esquecimento, ou simplesmente ficasse enredada nas procelas do tempo. Um bem-haja pela generosidade, sempre bem-vinda, destes grandes senhores.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/08/os-sinaleiros-e-o-cabo-dias.html




LEIA também o texto "Os sinaleiros", do nosso colaborador Orlando Caió. Clique no título (link, a azul).

12.2.12

Recordando o Dr. Mário Cunha – Um grande médico e um grande humanista

Dr. Mário Cunha (1915-1989)
Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

O Dr. Mário – assim era conhecido entre nós – faz parte de uma geração de prestantes médicos da nossa cidade, numa época em que raramente um doente era tratado no hospital. (Só o era quando tivesse de submeter-se a uma cirurgia ou fosse portador de doença grave).
Médico distinto, o Dr. Cunha exerceu com humanidade a sua profissão, nunca se esquivando a ir a casa de alguém sempre que para isso a sua presença fosse solicitada, só não o fazendo por falta de saúde ou por outro motivo de força maior. (Algumas vezes veio a minha casa – próximo da sua – e às dos meus familiares a altas horas da noite, apenas vestido com um pijama e um roupão sobreposto).
Verdadeiro “médico de família”, não só tratava o doente como dialogava com ele, preocupando-se com a sua saúde.

Homem abnegado e crente
Um dia, minha mulher sentiu-se mal, e eu chamei-o a minha casa. O Dr. Mário examinou-a, receitou e despediu-se de nós. Por volta da meia-noite, quando todos dormíamos, fomos acordados por alguém a bater nos vidros da janela da rua. Levantei-me, e qual não foi o meu espanto ao ver o senhor Doutor a perguntar como estava a reagir a doente. Mandei-o entrar, e ele, depois de a ver de novo e de verificar as suas melhoras, retirou-se com um até amanhã, como alguém que se vai deitar com a consciência do dever cumprido.
Este gesto, a par de muitos outros similares demonstra bem a grandeza moral do homem e do médico que foi o Dr. Cunha, a quem, devido a este espírito humanista, alguém comparou ao Dr. João Semana.
Era um católico praticante. Encontrava-o algumas vezes na missa e via-o passar, incorporado na procissão dos Terceiros, com o seu hábito de franciscano, Ordem a que pertencia. No entanto, só fiquei a conhecer melhor a sua convicção religiosa quando, em Setembro de 1987, a convite do nosso saudoso amigo Sr. Delmar, eu e a minha mulher passámos férias na aldeia das Açoteias, no Algarve, onde o Sr. Dr. Mário possuía uma casa de férias e onde com ele convivemos durante quinze dias.

Na sala principal da Casa do Dr. Cunha há uma evocação da Sagrada Família.
IM I - Iniciais de Jesus Maria José
Foi um tempo inesquecível. Num Domingo, fomos todos à missa à igreja de Quarteira, e na segunda-feira fizemos praia na Falésia. Nesse dia, e como era habitual, o médico fazia a sua caminhada pela beira-mar. Durante o percurso, virou-se para mim, e disse: “– Ó Zé, tu ontem, na missa, sabias responder ao padre quando era preciso. Por isso, também deves saber rezar o terço! Enquanto caminhamos, vamos rezando! E assim fizemos! Lá seguimos o nosso caminho, a rezar um com o outro, beneficiados pelo regalo de uma maravilhosa brisa marítima… Isto demonstra bem a sua grande fé, confirmada por muitos dos seus doentes.

Uma história, entre tantas...
Ouvi dele também muitas histórias reais, que aconteceram ao longo dos anos na sua actividade profissional, algumas das quais hilariantes…
Refiro apenas uma delas, que ilustra bem essa faceta.
Uma paciente, de nome Rosa, já de provecta idade, vivia só, numa mansarda sem luz eléctrica, alumiada por um candeeiro de petróleo suspenso, a pouca altura, por um cadeado, no meio da sala, e por uma lamparina de azeite que servia também para alumiar um oratório.
Um dia, adoecendo, mandou chamar o Dr. Mário. Deixando a porta da rua encostada, meteu-se na cama e esperou pelo médico. Quando este chegou, empurrou a porta e perguntou:
 Posso entrar, Tia Rosa?
 Pode sim, Sr., Doutor! – respondeu, do seu leito, a doente. Ao entrar, resoluto, na sala, o médico bateu com a cabeça no candeeiro, que se apagou, ficando ele com um respeitável hematoma.
Sem perder a calma, e dirigindo-se à doente, diz-lhe:   Ó Tia Rosa, acenda uma vela, que eu estou ferido e às escuras!...
 Nunca mais me esqueço disto! – dizia-me o Dr. Mário.

Um consultório histórico
Nascido em 04/03/1915, e formado na Faculdade de Medicina de Coimbra em 1941, Mário Pereira de Carvalho e Cunha, que descendia de uma família de médicos, começou a exercer Medicina com seu pai, o Dr. Salviano Pereira da Cunha, no consultório deste, que mais tarde foi o seu, na casa da Rua Alexandre Herculano, onde hoje se encontra instalado o Centro Comunitário Espaço Aberto. Disse-me, há tempos, um conhecido médico especialista do Porto, muito seu amigo, que o consultório do Dr. Mário Cunha, em Ovar, era o mais bonito de quantos – e foram muitos! – conheceu.
O avô, Dr. António Pereira da Cunha e Costa (o Dr. Cunha), que morava à entrada do Lamarão, num prédio lá existente, junto ao Largo onde havia um chafariz e tem início a rua com o seu nome, exerceu medicina e foi um bom tocador de órgão, violoncelo e piano. Eça de Queirós, numa passagem do seu romance “A Capital”, refere-se à “soirée dos Cunhas”. Possivelmente esses serões musicais eram realizados nesse vetusto edifício.
Seu pai, Dr. Salviano, falecido em 1955, foi também um excelente médico e director clínico do Hospital da Misericórdia de Ovar (de 1940 a 1946).
Com toda esta ascendência ligada ao ramo da saúde, o Dr. Mário estava predestinado a seguir a mesma profissão, que honrou de modo notável e exemplar. Distinguiu-se ainda o Dr. Cunha em várias áreas do desporto. Não sendo tão famoso como o seu irmão Rui, atingiu, alguma notoriedade no futebol, primeiro no Sporting Club de Ovar, mais tarde no Aliança Foot-Ball Club e, em 1932, no grupo de honra da Associação Académica de Coimbra.
Praticou ainda a pesca desportiva e gostava muito dos desportos náuticos, passando algum do seu tempo na Ria.
Fez parte duma direcção do Fado Académico de Coimbra e presidiu à Junta de Turismo do Furadouro (de 1943 a 1945).
Médico distinto, desportista categorizado e cidadão exemplar, o Dr. Mário Cunha deixou-nos em 6 de Janeiro de 1989, dia em que Ovar ficou mais pobre.
A cidade não o esqueceu. Em 1993 a Câmara deu o seu nome a uma rua de Ovar, e em 25 de Julho de 1997 atribuiu-lhe, a título póstumo, e com toda a justiça, a Medalha de Mérito Municipal de Ouro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Julho de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/02/recordando-o-dr-mario-cunha.html

18.9.11

Padre José Ribeiro de Araújo – Protector da minha vida

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2010)
TEXTO: Mário Ferreira Carapinha

Em 20 de Junho último [20/06/2010], na missa das 11 horas da Igreja Matriz, fui surpreendido por um grupo coral de Perosinho – Vila Nova de Gaia –, que aqui se deslocou em homenagem ao seu conterrâneo e antigo cura de Ovar Padre José Ribeiro de Araújo, um dos fundadores do jornal “João Semana” e do Grupo 66 dos Escuteiros de Ovar.

Padre José Ribeiro de Araújo,
um dos fundadores do jornal “João Semana”
Acontece que eu tenho uma dívida enorme para com o Padre Ribeiro de Araújo, pois a ele devo o arranque da minha vida espiritual e económica.
Tinha eu cinco anos quando meu pai, dono de uma oficina de marmorista em frente à sua casa, faleceu com a pneumónica, aos 38 anos, deixando a minha mãe viúva, com cinco filhos menores – o mais velho com dez anos –, sem possibilidade alguma de nos manter. O meu avô paterno morreu no alto mar, de regresso do Brasil. O seu espólio, que continha cheques de sete milhões de marcos (moeda alemã), que ainda tenho em meu poder, só foi entregue a minha mãe passados dois anos, o que veio a impedir o seu recebimento, pois a Alemanha, derrotada na Grande Guerra de 1914/18, tinha decretado a bancarrota.
Por sua vez, o primo de minha mãe, Dr. Joaquim Soares Pinto, por ser monárquico, teve de fugir para Espanha, onde foi acolhido em Vigo, no convento dos Franciscanos, aos quais, como retribuição deste gesto, deixou, à sua morte, o saldo da sua conta em Londres, no montante de alguns milhares de contos. (Os seus imóveis foram deixados à Santa Casa da Misericórdia de Ovar, com a recomendação de que o usufruto dos mesmos fosse para minha mãe e suas duas irmãs, usufruto que nunca receberam.)
Com estas contrariedades, não tivemos outro remédio senão ir apanhar lenha aos pinhais, ir às compras de nossos vizinhos, pedir-lhes um caldo, ou um naco de pão…
E assim fomos andando, até que o Padre Ribeiro de Araújo, comovido com a nossa situação financeira, me convidou a ajudá-lo à missa, tinha eu 8 anos. Como naquele tempo havia oito padres em Ovar, celebrando missa diariamente, lá ia angariando uns tostões.
Feita a 4.ª classe, a minha mãe, que era contemporânea do Manuel Ramada, foi-lhe pedir para me deixar trabalhar na sua fábrica, ao que ele acedeu. Mas quando a minha mãe me disse para a acompanhar àquela empresa, eu recusei, dizendo-lhe que antes queria ir estudar.
Naquele tempo apenas havia liceus no Porto e em Aveiro, o que exigia gastos com deslocações, que a nossa bolsa não aguentava.
Passados dois anos, o Padre Ribeiro de Araújo, não me vendo ir trabalhar, perguntou a minha mãe: – E se for estudar para Padre?. Quando a minha mãe me questionou sobre o assunto, eu respondi: – Eu quero é ir estudar, seja para o que for!.
Então, o Padre Ribeiro de Araújo, baseado no meu parentesco com o Dr. Soares Pinto, benemérito dos franciscanos, telefonou para o colégio destes, em Braga, tendo-lhe sido respondido que podia aparecer lá naquele dia. A minha mãe ainda lhe disse que eu não tinha roupa própria para levar, mas a resposta foi: – Venha hoje mesmo, com o que traz vestido. E lá fui eu, sozinho, até Braga, com treze anos. Na estação, perguntei onde era o colégio dos Franciscanos, tendo-me sido dito que era distante, em Montariol. E lá fui eu percorrer cinco quilómetros, pergunta aqui, pergunta ali, até que cheguei ao meu destino.
Em Montariol andei até ao sexto ano, passando sempre com médias de dezasseis valores. Até que, não tendo os meus superiores notado em mim sinais de vocação sacerdotal, tive de sair do Colégio em 1939.
Um dia, defrontei-me na rua, em Ovar, com o Padre Ribeiro, que me interrogou sobre a minha situação. Logo no dia seguinte ele foi encontrar-se com o Dr. Nunes da Silva, nosso médico, com quem se abriu sobre o meu caso. Este, também informado sobre a situação penosa de minha mãe, telefonou para um nosso primo, Dr. António Sobreira, director do Banco Nacional Ultramarino, em Lisboa, que logo disse estar aberto um concurso de admissão de novos empregados. E assim, depois de umas curtas explicações do Sr. Gama, da papelaria Carvalho, sobre a resolução de problemas, lá fui incluído no concurso dos candidatos ao Banco. No dia próprio fui para Aveiro, e não me sentindo capaz de resolver um problema constante da prova, mas tendo levado comigo uns apontamentos, consultei-os às escondidas, e, pouco depois, saí para a rua. Cá fora, à medida que chegavam os outros concorrentes, e perguntando-lhes o resultado do problema, todos apresentavam o mesmo resultado, diferente do meu. E lá regressámos a casa, eles cantando de alegria, e eu naturalmente entristecido. Chegados a Ovar, ao passar pela Papelaria Carvalho, foi perguntado ao grupo quem tinha resolvido melhor o teste do concurso. Resposta: Todos fizemos certo, excepto o Mário. E o Gama, decepcionado comigo, ripostou: – Então tu, Mário, que és o mais necessitado, tiveste o pássaro na mão e deixaste-o fugir? E perguntou: – Ora digam lá qual é o problema! Escreveu-o, resolveu-o, e disse: dá tanto. E eu disse-lhe: – Essa é a conclusão a que eu cheguei. – Então só tu é que passaste. Parabéns.
Quando me encontrou, o Padre Ribeiro de Araújo, que já tinha sido informado do meu êxito, também me deu os parabéns.
Passados uns dias, fui convocado para me apresentar na agência do Banco em Lamego. Acontece que, entrementes, tinha ido à inspecção militar e, pouco depois, fui convocado para me apresentar no Quartel de Metralhadoras Três, no Porto, ficando, assim, suspensa a minha entrada na actividade bancária. Até 1945, já que, depois de ter saído da tropa, fui colocado na agência do Banco em Ovar.
Perante esta minha odisseia, cumpre-me pedir a Deus que recompense o Padre Ribeiro de Araújo por todo o bem que me proporcionou. E, porque diz o ditado “quem faz um cesto, faz um cento”, ponho-me a imaginar quantos necessitados vareiros não terá o Padre contemplado com benemerências similares. Alguém o sabe? Está no segredo de Deus!

Artigos publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Agosto de 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/09/padre-jose-ribeiro-de-araujo-protector.html

15.5.11

Figuras Populares – Os sinaleiros

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2008)
TEXTO: Orlando Caió

Nesta foto, dos anos 50, na esquina da casa Folhas, vemos, ao fundo, junto à placa
de orientação, António Rodrigues Pepolim (nascido em 1926), a residir actualmente
em França, à esq., António Manguela (António dos jornais), 1919-1984;
e à direita, de capacete, João Francisco Martins (1908-2005)
Em Ovar, a actividade de sinaleiro remonta aos primeiros anos da década de 1940 do século passado. A referida função era, então, desenvolvida por homens de condição humilde, como engraxadores de calçado, pescadores, reparadores de guarda-chuvas, ajudantes de alfaiate e de picheleiro, e por pessoas sem profissão.
Como mera curiosidade, em 1962 um sinaleiro ganhava 20$00 por dia, em Janeiro de 1974 auferia 50$00, e, logo após o 25 de Abril de 1974, passou a auferir 110$00 diários.

José Pereira da Costa (Zé Peneireiro)
(1915-1989)
António Ramos da Costa
(António Lisboa)
(1914-1962)
Eu, que durante dezenas de anos fui um frequentador assíduo das principais ruas do centro de Ovar, recordo, ainda hoje, com saudade, algumas dessas figuras que, infelizmente, já partiram, e que no cruzamento da rua Dr. Manuel Arala com a rua Cândido dos Reis e Praça da República desempenhavam as funções de sinaleiro.
José Rodrigues Sereno
(Zé da Geralda)
(1932-1980)


Com a vinda da Polícia de Segurança Pública para Ovar, no início da década de 1970, o tradicional sinaleiro acabou. Tal como a foto ilustra, era então costume colocar-se uma árvore de Natal junto à Casa de tecidos e retrosaria do António Folhas, árvore essa que permanecia desde o início do mês de Dezembro até meados de Janeiro do ano seguinte. Em redor da árvore de Natal, os sinaleiros iam colocando as ofertas que recebiam, nesse período, de empresas, casas comerciais e pessoas individuais, e que, normalmente, se traduziam em garrafas de vinho do Porto Rainha Santa, garrafas de Anis, Brandy Constantino, vinho espumante, Aguardente, Ponche e Brandy Macieira.
Assim era há cerca de 60 anos, o Natal do sinaleiro, uma tradição que o tempo levou.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 2008)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/05/figuras-populares-os-sinaleiros.html

12.2.11

Memória de um aprendiz de fundidor

Jornal JOÃO SEMANA (15/2/2011)

TEXTO: José Oliveira Duarte

José Oliveira Duarte
Já lá vão tantos anos! Falar de acontecimentos profissionais passado meio século, não é uma tarefa fácil. Tinha eu 10 anos. Os tempos eram difíceis. A vida era dura para as pessoas que não tinham conhecido berço dourado. Então, era preciso trabalhar para merecer o que se comia.

Entrei numa pequena oficina de fundição existente junto da habitação dos meus pais, na Rua de Baixo, Ovar, rua que ligava – e continua a ligar – São João à Ponte Nova, contrariado por já não poder brincar e também por não sentir qualquer atracção por aquela profissão. Talvez a idade tenha contribuído para que a contrariedade se manifestasse através de algumas recusas ao trabalho...
Os anos foram passando, e a minha curiosidade foi sendo despertada pelas peças que saíam das mãos do grande Mestre e dono da fundição, Sr. Francisco Augusto da Silva.
Comecei a minha aprendizagem a preparar a areia própria para a moldagem numa masseira grande, que servia, ao mesmo tempo, de bancada de trabalho.
O Sr. Augusto fundia peças destinadas ao fabrico de variadíssimos artigos de menagem, incluindo muitas imagens de Jesus Cristo. E foi neste tipo de serviços que começou a despertar em mim o gosto pela arte e pelos trabalhos de escultura a ela ligados.

Utensílios utilizados pelos fundidores

Os anos foram passando. Entretanto, o Sr. Augusto edificou, no lugar do Temido, uma nova oficina, que passou a chamar-se Bronzearte Lda. O gosto pela profissão manifestou-se então em mim com o aparecimento de pequenas obras de arte, como estatuetas de mosqueteiros e outras, que eu ia fazendo debaixo da supervisão do Mestre Sr. Augusto. Tive o privilégio de ser o seu principal ajudante quando da feitura do busto do Sr. Marques da Silva, que tinha doado o campo de jogos à Ovarense. Esta obra foi muito importante para mim, pois permitiu perceber o que era a arte da fundição.
O dia-a-dia continuava, até que outra obra de grande relevo apareceu para se fazer. Tratava-se do busto do fundador da Rabor, Lda., Sr. Albano Borges, busto que tinha cerca de 70 centímetros de altura e que ficou exposto no hall de entrada da referida fábrica. Este trabalho, embora supervisionado pelo Sr. Augusto, foi praticamente feito só por mim.
Pouco tempo depois, o Museu de Ovar viria a encomendar a estatueta de um Navegador-Guerreiro, com cerca de 80 centímetros de altura, que executei na sua totalidade.
Convém deixar dito que grande parte das obras chegava, feita em barro, da mão de escultores. As peças eram, então, copiadas em gesso, para poderem ser moldadas na areia da fundição.
Muita coisa fiz relacionada com a arte sacra, permitindo-me destacar a figura de Santo António, uma imagem com cerca de 30 centímetros que tinha sido encomendada pela Ourivesaria Aliança do Porto, e que foi fundida em prata, na própria ourivesaria. Essa pequena obra demorou quase dois meses a executar, devido ao serviço de arte que exigia.

Busto de Júlio Dinis,  tendo em fundo a Casa-Museu
dedicada ao escritor, edifício que vai ser ampliado
Mas a obra que para mim marcou profundamente aquela Casa como escola de arte de fundição foi o busto de Júlio Dinis, escritor que residiu em Ovar, no Jardim dos Campos. É neste Jardim, mesmo em frente à casa onde morou, que se encontra esta obra do escultor Caldas Xavier.
Do barro passei o busto para gesso, e depois para o bronze, fazendo questão de deixar no seu interior, junto à base, o meu nome.
Gostei também de fazer um outro busto, este mais pequeno, mas muito belo: trata-se da reprodução de uma obra do célebre Mestre escultor que foi Teixeira Lopes, com o nome Flor Agreste, cuja encomenda foi feita pelo médico de Ovar Sr. Dr. Afrânio Lamy.
Esta é a memória de um aprendiz de fundidor que deu por terminado o seu percurso de 16 anos na Bronzearte Lda., em Ovar, após o falecimento do seu fundador e grande Mestre, o Sr. Francisco Augusto da Silva.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Fevereiro de 2011)

SUGESTÃO: LEIA TAMBÉM O ARTIGO A ARTE DO BRONZE EM OVAR, EDITADO NO BLOGUE DA REVISTA REIS.

22.12.10

No tempo da Guarda Fiscal no Furadouro

Jornal JOÃO SEMANA (15/8/2009)

TEXTO: Joaquim Santos

Como diz o ditado, tristezas não pagam dívidas. Quando entro numa pequena sala de minha casa e vejo cerca de seiscentas fotografias, desde o médico ao mendigo e outros, finco meus olhos nelas, e logo me dá vontade de largar outros afazeres que tenho no meu dia-a-dia e de pegar na esferográfica e no papel para escrever um pouco sobre cada uma daquelas figuras, passando a esquecer os meus sofrimentos e achaques pessoais.
É meu dever esclarecer os leitores que não me conhecem, nem o meu trabalho, que não me julguem como fotógrafo, porque não o sou. Fui, e continuo a ser, um simples angariador de fotografias, sobretudo desde que comecei a escrever o livro “Memórias de um Vareiro dos Anos de 1930”, com o título a recordar o passado da minha vida e da de muitos outros meus conterrâneos.
Também quero lembrar que estas fotografias estão colocadas em caixas fixadas em painéis, e algumas em álbuns, dentro da sala atrás citada.
Refiro que de 3 a 15 de Agosto de 2002 fiz uma exposição com muitos destes trabalhos na sede do Clube Desportivo do Furadouro, na Avenida Central daquela praia. Ao longo desta exposição pude ver no rosto de várias pessoas quanto gostaram do meu trabalho ali presente, deixando escritas algumas bonitas dedicatórias.

Factos do passado

Porque, quanto ao futuro do nosso país e dos nossos jovens, sou um tanto pessimista, pensando que não há esperanças de melhorar, vou hoje relembrar factos do passado relacionados com um trio da Guarda Fiscal que passou por várias praias do país, incluindo a do Furadouro, constituído por elementos da mesma família.


1- António Maria da Silva Monteiro Castro, de Água Levada, freguesia de Avanca, concelho de Estarreja, onde nasceu em 1860. Dele, poucos conhecimentos retenho.


2- José da Silva Castro, nascido a 5 de Setembro de 1885, filho de António Monteiro. Em 1942, indo eu trabalhar para a empresa Colares Pinto, no Carregal, ali encontrei este José Castro, já reformado da Guarda Fiscal, exercendo o cargo de capataz daquela empresa de lacticínios, que abrangia uma área de terrenos de cultivo e pinhais calculada em seis quilómetros quadrados.
A minha convivência com ele foi longa. Apesar de tanto tempo passado – nessa altura eu era muito jovem –, ainda me lembro de alguns bons conselhos que ele me deu. Era um bom homem, excelente tocador de instrumentos de corda, que ele tocava, depois das suas horas de trabalho, nas desfolhadas do milho, nas escolhedelas de feijão, nas fogueiras e pavilhões de S. João, etc., fazendo vibrar o sangue dos velhos e dos jovens.


3- António da Silva Castro, nascido a 22 de Agosto de 1904, filho de José da Silva Castro. Convivi com este homem durante vários anos, dentro e fora do rancho “As Morenitas do Torrão do Lameiro”, onde ele tocava viola e violão. Vivia perto do Furadouro, onde moravam, lado a lado, uma das suas filhas e o filho Joaquim Castro.
Lembro que a missão da Guarda Fiscal na Praia do Furadouro era acompanhar a venda ou lota do pescado das companhas de pesca das bateiras, fazer a ronda das praias na zona que lhe competia, e outros serviços de fiscalidade à ordem do Estado português.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Agosto de 2009)