Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2017)
TEXTO: Orlando Caió
Os tornos da SMOL – orgulho da metalurgia nacional
A extinta empresa SMOL, Sociedade Metalúrgica Ovarense
Limitada, fundada em 1943 pelo vareiro Manuel de Oliveira Muge, (1901-1960),
abriu inicialmente como fundição de metais, e pouco tempo depois passou a
executar serviços de serralharia-mecânica. Uns anos mais tarde, a empresa
enveredou pela construção de máquinas
industriais, que aqui em Ovar eram desenhadas e produzidas.
A empresa funcionou durante dezenas de anos na rua Dr.
Manuel Arala 151, no exato local onde está o Quartel dos Bombeiros Voluntários
de Ovar.
Na SMOL, popularmente conhecida em Ovar por
“Metalúrgica”, trabalhavam bons quadros, como o encarregado geral, Sr. Alberto,
que era um verdadeiro fora de série em matemática, e com o qual colaborei
durante alguns meses quando da sua passagem pela empresa Fopil. A SMOL tinha
operários qualificados, que trabalhavam e desempenhavam funções de chefia, como
o serralheiro-ajustador Sr. Lamas, o torneiro-mecânico Sr. Manuel Fonseca e o
chefe da fundição Sr. Lourenço, que foi um dos primeiros colaboradores da
empresa, e que conheci nos primeiros anos da década de 1950.
Recordo os torneiros Eduardo Paiva, António Pacheco,
Manuel Catarino, José Franco e Artur Santos, os serralheiros Sr. Américo, Sr.
Alves e António Maria, o Sr. Azevedo e o Sabino da fundição, o Fernandes
fresador, António Valente, Manuel Godinho, José Lopes e António Graça, entre
outros. Infelizmente, algumas das pessoas citadas já deixaram o nosso convívio.
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autor torneando uma peça em aço, num torno modelo TA-25 da SMOL Foto de 1998 |
A empresa SMOL era como uma escola, onde se forjava a
nata dos operários qualificados do ramo da metalurgia e metalo-mecânica. De lá
saíam bons torneiros-mecânicos, fresadores, serralheiros-mecânicos, fundidores,
mandriladores e serralheiros-ajustadores.
A maioria dos profissionais saídos da SMOL eram
competentes, e não havia o receio de ingressar em qualquer empresa do ramo da
metalo-mecânica, ou outro diferente ramo de atividade.
Bem mais difícil era um torneiro, serralheiro ou
fresador, saído de outra empresa que não do ramo, poder singrar na SMOL. Porque
na SMOL, o trabalho era diversificado e não executado em série, facto que ainda
hoje se verifica em muitas empresas de outros ramos de atividade. Porque nas
empresas onde o trabalho não é
diversificado, é mais difícil evoluir tecnicamente na profissão.
O simples facto de se ter trabalhado na SMOL era quase
como possuir um certificado de garantia para arranjar emprego. Do mesmo modo
que o era para os alunos com o curso industrial tirado na Escola Infante Sagres
no Porto.
Pelos anos de 1960, 1970 e parte dos anos 80, a SMOL era
conhecida no País pela elevada qualidade das máquinas industriais que então
produzia, especialmente tornos mecânicos e limadores-mecânicos.
Ao longo dos meus 45 anos como torneiro-mecânico de profissão,
em fases diferentes, cheguei a trabalhar em tornos-mecânicos de diferentes
marcas. Num da marca Cegonheira, do Jacinto Ramos, da marca Selva, num torno de
origem polaca, cuja marca não me ocorre, do Eduardo Ferreirinha & Irmão, e,
durante 37 anos, num torno modelo TA-25 da SMOL, de 2 metros entre pontos.
Dos tornos-mecânicos citados, nunca tive a menor dúvida em
classificar como o melhor torno, na época, o TA-25 da SMOL, e por várias
razões: pela estética, facilidade de adaptação aos manípulos, robustez e
precisão.
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Torno modelo Apolo-25, última criação da SMOL |
Mais tarde, a SMOL lançou no mercado o torno Major-25, e
por último o modelo Apolo-25. Este torno, ao tempo apetrechado com os últimos
aperfeiçoamentos como por exemplo
a vantagem do barramento temperado, era de facto uma excelente máquina. Pela
robustez, alto rendimento e elevada precisão.
A Sociedade Metalúrgica Ovarense Lda., graças à elevada
qualidade das máquinas que então produzia, foi durante dezenas de anos, em
Portugal, um dos grandes orgulhos da indústria metalúrgica e metalo-mecânica.
Depois do 25 de
Abril de 1974, a empresa passou por uma ou outra fase conturbada, marcada por
greves e incompreensões, tendo o seu fim chegado a 5 de Dezembro de 1984, com a
venda de diversas máquinas em hasta pública.
Em boa verdade, as empresas são, de certo modo, como as
pessoas: nascem, vivem e morrem. Tudo tem o seu tempo, e tudo acaba.
Resta a saudade e a memória de, quando ainda menino, ver
os operários da SMOL passarem apressados, pela rua Dr. Manuel Arala. A maioria
caminhando a pé, outros de bicicleta, e alguns, muito poucos, fazendo o trajeto
em veículos motorizados de duas rodas, para irem pegar ao trabalho.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de junho de 2017)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/06/a-sociedade-metalurgica-ovarense_15.html


























