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15.6.18

A Sociedade Metalúrgica Ovarense Limitada

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2017)
TEXTO: Orlando Caió

Os tornos da SMOL – orgulho da metalurgia nacional

A extinta empresa SMOL, Sociedade Metalúrgica Ovarense Limitada, fundada em 1943 pelo vareiro Manuel de Oliveira Muge, (1901-1960), abriu inicialmente como fundição de metais, e pouco tempo depois passou a executar serviços de serralharia-mecânica. Uns anos mais tarde, a empresa enveredou pela construção de máquinas industriais, que aqui em Ovar eram desenhadas e produzidas.
A empresa funcionou durante dezenas de anos na rua Dr. Manuel Arala 151, no exato local onde está o Quartel dos Bombeiros Voluntários de Ovar.

Uma das últimas imagens da empresa
de máquinas industriais SMOL. Foto de José Lopes

Na SMOL, popularmente conhecida em Ovar por “Metalúrgica”, trabalhavam bons quadros, como o encarregado geral, Sr. Alberto, que era um verdadeiro fora de série em matemática, e com o qual colaborei durante alguns meses quando da sua passagem pela empresa Fopil. A SMOL tinha operários qualificados, que trabalhavam e desempenhavam funções de chefia, como o serralheiro-ajustador Sr. Lamas, o torneiro-mecânico Sr. Manuel Fonseca e o chefe da fundição Sr. Lourenço, que foi um dos primeiros colaboradores da empresa, e que conheci nos primeiros anos da década de 1950.
Recordo os torneiros Eduardo Paiva, António Pacheco, Manuel Catarino, José Franco e Artur Santos, os serralheiros Sr. Américo, Sr. Alves e António Maria, o Sr. Azevedo e o Sabino da fundição, o Fernandes fresador, António Valente, Manuel Godinho, José Lopes e António Graça, entre outros. Infelizmente, algumas das pessoas citadas já deixaram o nosso convívio.
O autor torneando uma peça em aço,
num torno modelo TA-25 da SMOL
Foto de 1998
A empresa SMOL era como uma escola, onde se forjava a nata dos operários qualificados do ramo da metalurgia e metalo-mecânica. De lá saíam bons torneiros-mecânicos, fresadores, serralheiros-mecânicos, fundidores, mandriladores e serralheiros-ajustadores.
A maioria dos profissionais saídos da SMOL eram competentes, e não havia o receio de ingressar em qualquer empresa do ramo da metalo-mecânica, ou outro diferente ramo de atividade.
Bem mais difícil era um torneiro, serralheiro ou fresador, saído de outra empresa que não do ramo, poder singrar na SMOL. Porque na SMOL, o trabalho era diversificado e não executado em série, facto que ainda hoje se verifica em muitas empresas de outros ramos de atividade. Porque nas empresas onde o trabalho não é diversificado, é mais difícil evoluir tecnicamente na profissão.
O simples facto de se ter trabalhado na SMOL era quase como possuir um certificado de garantia para arranjar emprego. Do mesmo modo que o era para os alunos com o curso industrial tirado na Escola Infante Sagres no Porto.
Pelos anos de 1960, 1970 e parte dos anos 80, a SMOL era conhecida no País pela elevada qualidade das máquinas industriais que então produzia, especialmente tornos mecânicos e limadores-mecânicos.
Ao longo dos meus 45 anos como torneiro-mecânico de profissão, em fases diferentes, cheguei a trabalhar em tornos-mecânicos de diferentes marcas. Num da marca Cegonheira, do Jacinto Ramos, da marca Selva, num torno de origem polaca, cuja marca não me ocorre, do Eduardo Ferreirinha & Irmão, e, durante 37 anos, num torno modelo TA-25 da SMOL, de 2 metros entre pontos.
Dos tornos-mecânicos citados, nunca tive a menor dúvida em classificar como o melhor torno, na época, o TA-25 da SMOL, e por várias razões: pela estética, facilidade de adaptação aos manípulos, robustez e precisão.
O Torno modelo Apolo-25,
última criação da SMOL
Mais tarde, a SMOL lançou no mercado o torno Major-25, e por último o modelo Apolo-25. Este torno, ao tempo apetrechado com os últimos aperfeiçoamentos como por exemplo a vantagem do barramento temperado, era de facto uma excelente máquina. Pela robustez, alto rendimento e elevada precisão.
A Sociedade Metalúrgica Ovarense Lda., graças à elevada qualidade das máquinas que então produzia, foi durante dezenas de anos, em Portugal, um dos grandes orgulhos da indústria metalúrgica e metalo-mecânica.
   Depois do 25 de Abril de 1974, a empresa passou por uma ou outra fase conturbada, marcada por greves e incompreensões, tendo o seu fim chegado a 5 de Dezembro de 1984, com a venda de diversas máquinas em hasta pública.
Em boa verdade, as empresas são, de certo modo, como as pessoas: nascem, vivem e morrem. Tudo tem o seu tempo, e tudo acaba.
Resta a saudade e a memória de, quando ainda menino, ver os operários da SMOL passarem apressados, pela rua Dr. Manuel Arala. A maioria caminhando a pé, outros de bicicleta, e alguns, muito poucos, fazendo o trajeto em veículos motorizados de duas rodas, para irem pegar ao trabalho.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de junho de 2017)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/06/a-sociedade-metalurgica-ovarense_15.html

13.1.11

Francisco de Oliveira Gomes Ramada – Um coração, um homem, um líder

Francisco Ramada (1888-1978)
Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2010)
TEXTO: Serafim Oliveira Azevedo

Não é do grande empresário que venho falar, mas do Pai Chico, como era ternamente tratado pelos trabalhadores da F. Ramada.
Eu também continuo a recordá-lo com ternura, muita gratidão e grande amizade, pois foi graças a ele e ao valor que ele dava à instrução, cultura e qualidades humanas de quantos trabalhavam na sua empresa, que eu consegui realizar os fins que me impus quando comecei a leccionar na Escola do Conde de Ferreira.

De pescadores para operários

Quando cheguei ao Conde de Ferreira, recebi uma turma de 48 alunos, a maior parte dos quais morava nos bairros do Lamarão e na rua Castilho. Vi que tinham capacidades, e que mereciam mais do que serem pescadores na praia do Furadouro.
Dei umas voltas por aquele bairro e pela referida rua, e cheguei à conclusão de que precisavam de conviver a sério com os filhos dos operários de fábricas e da construção civil.
Na escola nunca descurei incutir junto dos meus alunos a vontade de procurarem outros meios de ganhar a vida. Fi-lo da primeira à quarta classe, e, no fim, tive a grande alegria em saber que só um deles seguira a vida de pescador. Mas mesmo esse, o Pereira, decidiu-se a ir para Matosinhos.
A maioria dos meus alunos foi trabalhar para a F. Ramada, empresa que crescia a olhos vistos. Eram os aços, as catanas, os botões, a carpintaria, os serrotes, a agricultura, as ostras. Até parecia que o senhor Ramada procurava criar postos de trabalho para satisfazer quantos lhe batessem à porta a pedir emprego.

Apoio à instrução

Todavia, não era só da actividade manual que ele cuidava. Também a instrução dos seus trabalhadores e dos seus filhos lhe merecia o maior apreço. Não estou nem quero falar daqueles a quem F. Ramada deu oportunidades e condições para tirarem cursos superiores. Falo dos filhos dos trabalhadores a quem a firma pagava as despesas dos seus estudos – o Álvaro Pinto, os Nunes, netos da senhora Hermengarda, etc. – é que podem dizer o quanto esta ajuda se reflectiu no seu futuro.
Mas também aos operários que, a partir de 1958, passaram a frequentar o 1.º Curso de Educação de Adultos de Ovar, a F. Ramada – e a Fanafel – pagavam as horas que a frequência das aulas lhes ocupava.
Até os professores agregados que em 69-70 leccionaram neste concelho devem a F. Ramada, sem o saberem, o terem recebido metade do mês de Julho e os meses de Agosto e Setembro. Marcelo Caetano decretara que quem trabalhasse depois do dia 15 de Julho teria direito a receber os vencimentos daqueles dois meses e meio. Para proporcionar um trabalho lucrativo para os referidos professores e útil para o concelho de Ovar, pensei em fazer um ficheiro com todos aqueles/as que tivessem feito o seu exame do 2.º grau no concelho de Ovar. Mas, para isso, precisava de mobiliário adequado para arquivar essas fichas. Foi quando o Sr. Ramada, logo que lhe falei no assunto, me bateu nas costas, comentando: “– É uma óptima ideia; trate das fichas, que eu mando pôr o mobiliário nos Combatentes”.
Foi sempre assim. E nem me deixava agradecer-lhe, por se tratar de um benefício para o concelho e para os alunos que eu leccionava. É que, até 1971, o Delegado Escolar leccionava e, simultaneamente, fazia o serviço da Delegação. (Era por isso que ninguém queria o cargo, só desempenhando essas funções por amor à causa e por espírito de sacrifício.)
Na organização do ficheiro foi importante a dedicação do Professor Manuel da Silva Ferreira, natural de Sande, deste concelho. Era um prazer vê-lo alfabetar as fichas – foram milhares – e dispô-las nas respectivas gavetas. Era um óptimo colega e uma excelente pessoa. Pena foi ter falecido tão novo. Foi peça importante num trabalho pioneiro (e único, creio eu) nas Delegações Escolares.

Uma cantina escolar

Mas voltemos ao Sr. Francisco Ramada, lembrando que ele não só ajudou a alimentar o espírito, como também o corpo dos mais necessitados.
Quando um dos meus alunos me caiu de fome no corredor da escola, resolvi procurar os meios materiais necessários ao funcionamento de uma cantina escolar. Para isso, bati à porta de cada uma das fábricas vareiras, e todas as bolsas se abriram para contribuições mensais ou anuais. Um industrial impôs-me uma condição: dava uma boa contribuição anual, mas a cantina deveria beneficiar as quatro escolas da sede do concelho: Combatentes, Oliveirinha, S. Miguel e Ribeira. Esse industrial foi o Sr. Francisco Ramada.
Aceitei o desafio, e fui pedir auxílio aos Sr. Presidente da Câmara, Carlos Nunes da Silva, pois precisava de meio de transporte para repartir a sopa e o pão pelas quatro escolas. O Sr. Presidente da Câmara conseguiu uma carrinha que, cinco dias por semana, repartia pelas outras três escolas a comida que era preparada nos Combatentes pela Magnífica, a empregada paga pela Cantina Escolar S. Cristóvão – era esta a sua designação oficial. Foi assim até ao final do ano lectivo de 1973/1974. Depois veio nova Direcção, e a Cantina deixou de funcionar. Desconheço os motivos, mas enquanto funcionou, teve sempre uma vida desafogada, e isso tenho de agradecer a quantos responderam de coração aberto ao apelo feito por mim, pelo Reverendo Manuel Fernandes (mais tarde advogado e até Presidente da Câmara de Ovar), e pela Professora D. Fileta Bonifácio.

Outros beneméritos

Na pessoa do Sr. Francisco Ramada homenageio os restantes accionistas da firma: filhos, genros, noras, o Sr. António Coentro de Pinho, que sempre apadrinhou as minhas iniciativas, o Sr. Francisco Correia de Almeida, e ainda o meu “embaixador”, Sr. David Almeida, para os pedidos de ajuda aos filhos dos trabalhadores da firma que desejassem estudar.
Nesta altura de crise, devemos “trazer à pedra” os nomes daqueles que tornaram possível o “salto” que Ovar deu na década de sessenta. Aos nomes citados posso acrescentar os Borges, da Rabor, o Álvaro Rola, da Sicor, e o Armando Alves, de Esmoriz, que muito fez para que os tanoeiros da sua terra não sentissem a crise que afectou a sua profissão.
Estes nomes, e outros menos sonoros, mas também de grande valor, sirvam de exemplo à geração actual, para que esta não desfaleça, antes lute, como eles o fizeram, por uma vida melhor. Vamos a isso!...

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de julho de 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/01/francisco-de-oliveira-gomes-ramada.html