Mostrar mensagens com a etiqueta CAPELAS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta CAPELAS. Mostrar todas as mensagens

7.6.18

Capelas do Furadouro (1759-1968)

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2016)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Antecedentes – O Furadouro
O termo “Furadouro” relacionado com a costa de Ovar aparece citado documentalmente pela primeira vez em 1354, num texto relativo a Cabanões, cujo domínio se estendia “da foz do Vouga até ao Furadoiro”, numa época em que, formada a ria, as suas águas, aprisionadas, sem barra definida, abriam brechas no cordão litoral que as separava do mar[1].
A primeira Capela (oratório em madeira, 1759-1766?)
A primeira ermida, erigida em pleno areal do Furadouro, era em madeira, e teve como objetivo acolher, em 14 de Outubro de 1759, um domingo, as imagens do Senhor da Piedade e de N.ª Sr.ª do Livramento dos homens do mar, que ali chegaram em procissão vindas da Capela de Santo António, da vila de Ovar, ali celebrando a primeira Missa o respetivo Pároco, vigário João Bernardino Leite de Sousa[2]. (Por essa época não havia moradores fixos no Furadouro, e em Ovar acabavam de ser implantadas as Capelas dos Passos). Segundo uns, o pequeno templo situava-se numa zona hoje submersa pelo mar, para lá do rebentamento das águas[3]. Segundo outros, estaria implantado na mesma duna onde se veio a construir a capela seguinte, de pedra.

A 2.ª capela, de porta voltada para o mar, e a 3.ª capela, frente à marginal,
ambas flageladas e engolidas pelas vagas

A segunda Capela (“Capela velha”, 1766-1936)
Logo em 1766 foi erigida ao cimo da rua de acesso à praia (atual Avenida Central) e na duna mais ocidental da costa, uma capela de pedra e cal, qual sentinela do mar, em forma de forno, a que acoplaram, a sul, uma sacristia com a porta voltada para a praia, então povoada de algum casario constituído por palheiros e barracos de madeira que se foram estendendo, a partir dali, ao longo do areal, então muito mais extenso do que hoje. Ao longo dos anos, esta capela, dedicada ao Senhor da Piedade, tornou-se o ex-libris do Furadouro, imortalizada em postais turísticos.
Entretanto, as moradias de tábua foram sendo engolidas pelas vagas, e a própria capela, molestada pelas ondas, foi ameaçando ruína. Em 1917 ainda se celebrou ali missa pelas intenções da companha do arrais Valente[4]. Cingida, em 1935, por um anel-miradouro, imprudentemente construído em cimento armado, viria a ser derrubada pelas águas em 22/02/1939[5], com a perda da cruz de pedra com a imagem do Senhor da Piedade, acabando os seus alicerces por serem totalmente submersos em 1940[6].

A terceira Capela (“Capela nova”, 1890-1958)
Em 1887, dada a exiguidade do segundo templo e por a sua configuração não ser consensual, é iniciada uma campanha de angariação de fundos para a construção de uma nova capela dedicada a Nossa Senhora o Livramento, a qual, com ajuda camarária, viria a ser erigida ao cimo da rua O Jornal Comércio do Porto[7] (paralela à Avenida Central, do lado do norte)[8], com a entrada voltada para terra, a nascente, tendo-se realizado a sua bênção em 24 de setembro de 1890, e tendo-lhe sido instalado, em 1925, o guarda-vento antigo da capela de Santo António.
Em 1929 falava-se em construir uma esplanada entre as duas Capelas para “substituir a palheirada que corre para o sul”[9].
Esta terceira capela (da Sr.ª da Piedade), que que o autor destas linhas frequentou na década de 40, e que passou a ser flagelada pela fúria do mar a partir de 1946 (com a destruição da sacristia e a deterioração da parede sul), viria a ser demolida em 1958.

Salão de culto dominical
Em finais de 1957, devido ao avanço do mar e à degradação da capela nova, os atos de culto religioso passaram a ter lugar nas instalações da antiga fábrica de conservas “A Varina”[10], a sul da praia, edifício em madeira de 1905 (na foto), que o industrial Júlio Mateiro adquirira para apoio da colónia balnear do Centro Vidreiro do Norte de Portugal, de Oliveira de Azeméis e que foi berço do Centro de Promoção Social do Furadouro.

Quarta Capela (a Igreja atual do Furadouro, 1968)
Idealizada em 1948, com anteprojeto de 1950 do Arquiteto Januário Godinho e um primeiro projeto (edifício com cripta) de dezembro de 1958, a atual Igreja só viria a concretizar-se após um segundo projeto (sem cripta) e um terceiro aprovado em 18 de agosto de 1964, seguindo as normas litúrgicas saídas do Concílio Vaticano II, prevendo uma Igreja mais larga, sacristia e torre, um salão e uma residência para o pároco. (A primeira missa foi celebrada em 23 de junho de 1968, e não se chegaram a construir o salão e a residência).

NOTAS:
[1] Sobre a etimologia e origem do Furadouro, cf. Alberto Sousa Lamy “Monografia de Ovar”, vol. I, Lamy Laranjeira, “O Furadouro – O Povoado, O Homem e o Mar”, C.M. Ovar, 1984; “A antiga Capela do Senhor da Piedade”, Mário Miranda, “João Semana” de 1/8/1994, “Furadouro – uma terra com passado e com futuro”, Comissão de Melhoramentos do Furadouro, Ovar, 2000.
[2] Ver mais pormenores em Pinho, João Frederico Teixeira de, “Memórias e Datas para a História de Ovar”, Ovar, 1959, pág. 206.
[3] J. S, 15/03/1948.
[4] “João Semana”, 11/11/1917.
[5] O “João Semana” de 02/03/1939 relata o acontecimento. Em dezembro de 1863, foram destruídos “32 palheiros firmados na costa”, e em 1887, mais 18. Em 1912 foram 200. Lamy Laranjeira, “O Furadouro”.
[6] P.e Miguel de Oliveira “Em memória do Senhor da Piedade”, Noticias de Ovar, 9/11/1967. Ali se afirma que no novo Palácio da Justiça de Ovar há uma sugestão da antiga Capela do Furadouro.
[7] Assim denominada desde 1881, por decisão da Câmara, grata pelo apoio dado por aquele jornal às vítimas de um grande incêndio na localidade. Pelo mesmo motivo, foi dado o nome de “Bombeiros Voluntários de Ovar” à rua central. Ainda em 1891 (ano em que foi feita uma procissão de Ovar ao Furadouro por motivo de grande seca), a ligação desta com Ovar ainda era feita através de areias soltas.
[8] Em 1869 foi construída, em macadame, a estrada entre a vila e a praia, com termo frente à capela, permitindo a utilização de carruagens para passageiros.
[9] “O Povo de Ovar”, setembro de 1929.
[10] Inaugurada em maio de 1905, como sucursal de “A Varina”, de Ovar.
  
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de novembro de 2016)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2018/06/capelas-do-furadouro-1759-1968.html

16.4.13

A Capela de Santa Catarina [Ribeira de Ovar]

Jornal JOÃO SEMANA (01/12/2012)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

A propósito da data festiva da mártir Santa Catarina de Alexandria, ocorrida em 25 de no­vembro, e que o lugar da Ribeira comemorou, uma vez mais, nesse dia, com Missa Solenizada na Capela que lhe é dedicada, aqui deixamos algumas informações históricas acerca do culto que lhe é prestado em Ovar desde há cerca de 500 anos.

Rio Cáster atravessando os campos de cultivo da Ribeira de Ovar
FOTO: Fernando Pinto

A Ribeira de Ovar

A ribeira de Ovar é constituída por terras baixas que marginam o percurso final do rio Cáster (o rio Uvar da época medieval).
Na margem direita do ribeiro, a partir de uma folsa da ria, foi-se constituindo um cais de embarque e desembarque, com pequenos arma­zéns(1). A algumas centenas de metros nasceu um povoado servido por um caminho – a rua direita – que ligava este povo ao núcleo central de Ovar (Praça), servindo de ligação viária e comercial, através da Rua das Figuei­ras, atual Rua Dr. José Falcão, aos viageiros que demandavam o Porto e Aveiro, preferindo a ria como meio de comunicação.

A primeira capela

No centro do povoado ribeirinho, no sítio chamado Portal dos Barqueiros(2), foi construída uma capela em honra de Santa Catarina, mártir de Alexan­dria, considerada padroeira dos pes­cadores e mareantes, e também dos estudantes e dos advogados, capela essa citada no Catálogo dos Bispos do Porto, de 1623(3), vinda, provavel­mente, do séc. XVI, época em que a devoção àquela mártir estava muito espalhada.
O Padre Lírio afirma que foi reformada em 1679 e que lhe acres­centaram a sacristia em 1694(4).

A segunda e atual capela

Capela da Ribeira, Ovar
Segundo a documentação con­servada no Arquivo Diocesano da Diocese do Porto, no início do século XVIII, “por se achar arruinada” a pri­mitiva capela, os oficiais da respetiva Confraria providenciaram edificar um novo templo, munindo-se, para tal, das respetivas licenças, sendo a obra arrematada em 1732. Quatro anos depois, em 1736, estando “o corpo da capela perfeito” e ali já se celebrando Missa, o Oficial da Confraria alcançou licença para ultimar os trabalhos, com a construção da capela-mor.
Era então Juiz da Igreja o Licenciado Francisco Rodrigues de Carvalho e Cunha que, no Auto da Petição para a bênção do edifício, e atendendo a que da antiga capela “se tiraram algumas colunas e pedras de ançã e outros materiais que não servem para a nova (…)”, mas que “se podem vender para uso profano e apro­veitar do produto”, pede licença para vender pedras de esquadria e madeira das portas e ferro da capela antiga”(5).
Segundo reza um dos docu­mentos da refundação (1736), a Capela tinha Confraria própria.
Em 1909/1910 a capela foi re­formada e dourado o altar à custa de Manuel Rodrigues Aleixo e esposa. Em 1911, após a proclamação da República, tal como aconteceu com os restantes bens da Igreja, a Capela passou para a posse do Estado, sen­do restituída à Paróquia (Fábrica da Igreja) após a Concordata de 1940.
Zagalo dos Santos, que cita as festas de Ovar – Santo António, S. João, S. Pedro, Nossa Senhora do Parto, S. Domingos, Festa do Mar e Santa Catarina –, conta que esta última, no Cabo da Vila, “vinha no couce destas festas todas”, metendo “arraial com luminárias”. E acrescenta, com humor: “Numa noite de fogo, a chuva era tanta que estragou a festa. Como no outro dia fez sol, os ribeirinhos exigiram que mesmo no “espinhaço do dia” houvesse iluminação, e a procissão desfilou entre e por baixo de balões e copinhos alumiados pela chama do azeite que os alimentava”(6).
Entre as várias intervenções sofridas posteriormente contam-se a construção da torre em meados do séc. XX, e a adaptação da capela-mor no início do 2.º Milénio.

(1) O “Almanaque de Ovar” de 1914, pág. 64, afirma que o cais da Ribeira foi construído em 1754. Antes, o embarque e o desembar­que era no sítio do Corgo.
(2) Assim chamado segundo o Padre Lírio (Monumentos e Instituições..., pág. 122), por ser a partir dali que os barqueiros po­diam procurar fretes para os seus barcos.
(3) Cunha, D. Rodrigo da, “Catálogo e História dos Bispos do Porto, editado em 1623, e reeditado, em 2.ª edição, em 1742, reproduzindo as informações.
(4) “Monumentos e Instituições”, pág. 123.
(5) Arquivo Diocesano do Porto, Processos de Capelas – Ovar.
(6) “Saibam Quantos...”, junho de 1950, pág. 121.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de dezembro de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/04/a-capela-de-santa-catarina.html