ALGUMAS NOTAS TOPONÍMICAS OVARENSES

Do insigne historiador e medievalista Dr. Armando de Almeida Fernandes, que ao “João Semana” dedicou atenções que não podemos esquecer, reproduzimos o precioso trabalho aqui publicado em 1 de Agosto de 1993, relativo à toponímia ovarense.

A. de Almeida Fernandes
FOTO: Manuel Pires Bastos

1 - Cáster

Por amável sugestão e porque uma elucidação toponímica tem sempre interesse (não são do próprio povo tantas e tantas “explicações” – naturalmente quase sempre erradas?) –, tentarei obter das minhas hoje fracas disposições intelectuais, e, mais fracas ainda, da minha saúde física, algumas que me permitam ir-me ocupando de certos casos.
Seja, para principiar, o nome do pequeno rio que nasce pouco distante e passa na ex-Vila da Feira, para vir acabar em Ovar – nome este que se lhe deve, certamente: tenciono tomar o caso noutra ocasião. É Cáster esse nome, e como Ovar foi aquele que teve (e muito bem se lhe documenta), resulta, imediatamente, que houve uma substituição: portanto, Cáster é nome relativamente moderno – o que não quer dizer recente.
E compreende-se a substituição, desde que o nome primitivo começou a designar, cerca da foz do pequeno rio, um centro populacional em constante crescimento (origem da actual cidade) na área de Cabanões-Muradões: uma elementar necessidade de distinção – se bem que não impositiva, claro está. Mas sucedeu, sem dúvida, em meu entender –, passe a presunção que o não é.
Ponte medieval sobre o rio Cáster, Ovar
Ponte Reada (=derreada)
FOTO: Jornalista Fernando Pinto
Um caso para ventilar noutra oportunidade.
Seria ocioso insistir muito em que desvendar a origem e significação de um topónimo repousa, essencialmente, num exame cuidadoso da palavra, mas sendo já e em absoluto necessário jamais se esquecer que regularmo-nos pelo ouvido e pela vista (escrita actual e pronúncia) é a “recomendação” mais eficaz para o erro rotundo. Sobretudo, ou como corolário disso mesmo, não é possível, e nunca deve tentar-se, qualquer explicação sem conhecer-se a forma antiga do topónimo – ou, melhor direi, a mais antiga, pois que a evolução fonológica pode oferecer várias. Exceptuam-se – mas nem sempre – estruturas muito simples. O caso do rio Cáster está no médio termo.
Quero eu com isto significar, apenas, que a forma anterior do nome pouco deve ter diferido, porque, realmente, a estrutura fonológica é singela, e foi-o por certo de origem, parecidamente. Não é preciso lucubrar muito, nem ser muito versado na ciência da nossa fonética, para, desde logo, se concluir que o problema não se põe na primeira sílaba, desde que convicto como estou de ser ele a tónica. Acho que Cáster é mesmo – e com razão – a pronúncia mais corrente, e não Castér, que tem todo o carácter de intromissão pretensamente erudita, nunca antiga; de facto, não é popular -er átono (final). Foi o povo quem “fez” a língua, e, com esta, a toponímia. Eu insisto em Cáster, e não Castér, nesse sentido, dado que um jornal manuscrito da segunda metade do ano de 1910, e da Vila da Feira, se designava “Caster”, sendo de crer que, se quem o designou (um erudito, já se vê) pronunciasse Cáster, lhe poria o acento – embora na época não se fosse muito apurado ou melindroso no diacritismo. Castér, portanto, uma fantasia prolativa erudita: mas nem por isso Cáster deixou de sofrer e, por isso, a mostrar. Com efeito, -er átono (final já se vê) não se manteria popularmente, que é a circunstância que impera: a evolução far-se-ia Castre (se mesmo esta se não alterasse). Em suma, “Caster” manifesta intromissão erudita ou culta, pretensamente – e, se não estou em erro, é de crer que a palavra não tenha, desde há muito, um uso generalizadamente popular.
E, no entanto, ela foi popular na origem, sem dúvida. As circunstâncias acabadas de apontar, uma a substituição do nome “Ovar” na designação do rio pelo povo, e outra as intromissões eruditas sobre a forma de nova designação, levam a concluir, à luz da ciência fonológica – que é intransgredível nestes estudos e que, infelizmente, tão pouco ou nada se tem em conta (deixando-se tudo à fantasia sónica e visual, o que é tremendamente aleatório e quase sempre fatalmente erróneo), levam a concluir – ia eu dizendo – que a forma inicial foi a tão simples palavra “Castro”. Enfim, “rio do Castro” (sem se excluir mesmo “Crasto”, mas nada obrigando a admitir esta forma), isto é, o rio que vinha do sítio de um castro ou se passava num local mais ou menos afastado da actual cidade (que recebera o nome desse curso de água, Ovar – nunca, o esqueçamos) e chamado Castro.
Como tudo deve ter partido da povoação de Ovar (surgida na área de Cabanões-Muradões histórica), o local de castro ou daquele nome Castro seria realmente afastado; mas não o poderia ser muito, sob pena de o nome desse local se não impor, dado que outros locais na extensão se habilitariam, pelos seus nomes, à designação, que foi tomada a partir da actual Ovar.
Um trecho do rio Cáster em Ovar na actualidade (zona do Palhas)
Assim tudo indica – pela perfeita integração em todos os circunstancialismos a que me venho reportando – que o local do Castro, ou onde existia o “castro” que levou à designação, era cerca do de São João actual, um pouco ao norte, onde o rio passa. É aí que deve considerar-se o factor – e a arqueologia poderá comprovar-lhe a existência, por muito pouco que hoje, materialmente, ela se manifeste. É aí que há elevação apropriada.
E, agora, a questão fonológica, que impossível é, sempre, pôr-se de parte: se a fonética se opuser, fica tudo destruído, por muito apropriado e bem congeminado que seja – e isso é o que, vulgarmente, e para fatalidade do erro, se não tem em vista.Tal se não dá aqui: uma alteração de -o final para -e perfeitamente provável (e regiões há em que ela é positiva): Castro - Castre (pela própria influência da tónica, com abrandamento vocálico escalar), passando a incidir sobre Castre o pretenso eruditismo: Cáster ou Castér (passe o emprego do acento nesta segunda forma), com um certo ar de estrangeirismo, ou mesmo exotismo, de parecer bem, tão próprio da erudição mal orientada.
Mudado o nome de “Ovar” para Castro (“rio Ovar” para “rio Caster”, e, se mudança suficientemente antiga, com a preposição “de”, do uso medieval em tais casos), o novo nome foi adoptado em toda a extensão do curso – até na própria Feira. Se ele tivesse partido desta, teria certamente o seu nome – visto que em Ovar se criou e adoptou esse (Castro), para reservar o lugar a si o primitivo do rio (Ovar).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Agosto de 1993)
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2 - Ovar

Atento o que deixei dito no caso anteriormente versado (o de Cáster) é tão natural como conveniente – pelas estreitas relações entre ambos – que eu aborde de seguida o do topónimo “Ovar”.
Claro está que não me ocupo de origens de povoações em casos toponímicos, se bem que, muitas vezes, essas origens nos são reveladas por eles.
A toponímia é uma valiosíssima ciência auxiliar da História; mas, como é filológica, por sua mesma essência, e os “historiadores” (as aspas são para os de hoje, impagáveis ao meterem-se em tal domínio) demoram afastadamente a leste da Filologia, resulta que anda, praticamente, desaproveitada como tal. Ora eu é que, na consciência disso, não posso afastar-me dela. A íntima relação explica – e exige, sempre que necessário (não nos compliquemos com desnecessidades) – a consideração de dados documentais como se estivéssemos a estabelecer uma tese ou teoria histórica. Não admirem, pois, os que seguem, antes de expor a minha ideia – que deles, obviamente, procederá.

Capela de S. João, Ovar, cujo título aparece num documento de 922
Trata-se, desde logo, de apresentar a documentação do topónimo Ovar a partir do seu documento mais remoto: o de 922 (que se encontra num documento de uns dois séculos depois, baseado noutros da época a que pretende referir-se, isto é, documento confeccionado, mas de dados autênticos, ou mesmo por documentos de que se serviu o confeccionador). Nele, achamos referido o “porto de Obal”para situar as igrejas de S. Donato e S. João – respectivamente nos actuais lugares de Sandonato e São João. Basta o significado de “porto” para nos provar que nada há aí que ver com a depois vila e hoje cidade de Ovar, propriamente dita: em suma, refere-se ao pequeno rio que, depois – e assim hoje –, se disse Cáster.
Além do “porto de Obal”, ou Oval, temos, de facto, várias vezes, o dito rio do mesmo nome: assim, em 1026 “riu Ovar”, para referir Cabanões e Muradões; ou em 1046 “rivulo Obar” (citadas vizinhas Avanca e Pereira, o que tira as dúvidas a tratar-se de Ovar do nosso caso). Até depois dos meados do século XII, documenta-se-nos esse nome no dito rio – ao longo de todo ele, bastando-nos, para prova, os seguintes casos:
- Milheirós e Campo, na actual cidade da Feira ou junto, em 1083, corrente o “rivulo Ovar”;
- Travanca (Travanquinha), em 1151, “discurrente (rivulo) Ovar”, pouco a jusante;
- Cabanões, em 1143, “discurrente rivulo Ovar”.
Como se vê e desde a nascente à foz, sempre “rio Ovar”, tal como, nos nossos tempos – e como vimos, rio Cáster (Castro). Chegou ele mesmo a designar o território ou terra de Santa Maria, dita “de Ovar” por o respectivo castelo (o da Feira) se situar sobre dito rio: 1117 “província de Santa Maria de Ovar”, ou 1119 “território de Sancta Maria de Ovar” respectivamente para os lugares de Belece (perto de Fermedo, no actual c. Arouca) e São João da Madeira, e somente por casualidade é que não temos outros exemplos. Pensar na actual cidade de Ovar é um equívoco sem remissão apesar de reflectido no velho brasão da cidade e de ninguém (que eu note) ter interpretado tal referência (acaso com o receio de lhe tocar, dado o perigo “terrível” – e eu que o diga – de bulir nos mitos locais).


Túmulo medieval do antigo cemitério de Ovar, hoje no adro da Capela de S. João
Portanto, aqui temos “Ovar” como nome originariamente e só do pequeno rio. De facto, apenas dele e de uma passagem, o “porto de Ovar”, na zona de Cabanões -São João, isto é, do “castro” que veio a substituir nele aquele nome, para este ficar ou lugar de origem da actual cidade: a “villa Ovar” ou "Obar" (Obal) que, pela primeira vez, se cita em 1046 – o que não quer dizer já não sensivelmente de antes. Devemos desde então considerar a tendência para o nome do rio passar deste para o lugar (núcleo da actual cidade), o que, como é óbvio, se não realizou intencionalmente, ou seja, de um momento para outro. O nome Ovar, de facto, não se perderia no rio pelo de Castro (Cáster) antes de um século pelo menos de concomitância do uso (isto é, dos meados do século XII).
Estela do antigo cemitério
Estamos, assim, em condições de enfrentar e etimologia ou origem do topónimo Ovar. As opiniões têm sido várias, quase todas – como eu lhes chamo – de olho-e-orelha, isto é, sugeridas pelo som e pela visão: a escrita e a pronúncia. Quem tem feito e continua (chegou a aparecer ultimamente mais uma opinião: a origem árabe, porque, algures, na Argélia – se a memória me não atraiçoa há um nome mais ou menos consoante) não faz talvez ideia de que esta ciência, visto que o é, se regula por leis próprias, as de cada idioma, independentemente da vontade do homem e tanto como as leis físicas e as leis químicas. De maneira que, ao assim proceder-se, não se produz mais que necessidades que nem sequer merecem referência.
Há apenas uma opinião perfeitamente conforme às referidas leis científicas: a origem antroponímica germânica, isto é, o genitivo «Oduarili» do nome pessoal «Oduarius». É a opinião de Leite de Vasconcelos, grande filólogo, e de outros, como J. Piel, etc. Nem eles poderiam admitir coisa diferente e de Oduari(i) para “Ovar” temos os fenómenos de latim laudare e audire, etc..., para “louvar” e “ouvir”, etc. Não vou alongar-me com coisa tão clara e indiscutível – nem eu aqui o faria.
Apesar da sua solidez científica (que me levou a seguir essa opinião até mais ou menos há dez anos), um senão ou distracção, que atira por terra explicação tal, em meu ver: é que o nome pessoal Oduário, que se entende ser origem de Ovar, tinha ainda aquela forma quando os documentos de “Ovar” (o rio, o “porto”, a “villa”) nos surgem: quer dizer, quando ainda o nome pessoal conserva o -d- (gótico, sujeito por isso à síncope) por largos e longos tempos – um som que o nome no rio nunca teve! Logo, a origem é outra – e não creio haja filólogo que possa alegar o contrário.
À Ria de Aveiro (ou de Ovar) davam os antigos vareiros o nome de "rio"(Aguarela de António Joaquim, pintor natural de Travanca/Feira, cujos primeiros passos na Arte foram marcados pela sua vida de trabalho em Ovar)
Tratei já deste étimo na revista “Caminiana”, e este jornal (“João Semana”) chegou mesmo a transcrever esse meu estudo: mas, em Ovar, ou não se reparou nele ou não foi compreendido – e daí não se não aceitou. Fica apenas a solução pré-romana latinizante: a raiz ov significativa de água (concorda tratar-se de rio) e o sufixo -ar (paralelo a -al, que também aqui temos). Podemos, pois, juntar “Ovar” ou "Oval" (com b variante de v) a casos com os de Ovetum (Oviedo), Ovínia, Ovola (Óvoa), etc. O que diz J. Pedro Machado é um acervo ecléctico de tolices.
Em suma, e guardando para este final as considerações cujos conhecimentos básicos ninguém é obrigado a ter, mas que são, absolutamente, necessários a quem se permitir uma opinião própria (a que tem inteiro direito – mas condicionado a esse dever, ou obrigação): o leitor, não interessado, pode, assim, deixar de ler o que segue.

Igreja Matriz de Ovar
De facto, quem primeiro emitiu a única opinião aceitável Oduarii -“Ovar” fê-lo por mera distracção (desatento às circunstâncias que expus, em razão da perfeita conformidade fonológica), e o seu próprio prestígio impô-la. Mas, na verdade, o que temos é o seguinte:
a) Quando se verifica já “Ovar” (séc. IX-X, sem notícia mais antiga), deveria o nome pessoal ser “Oveiro”, ou pelo menos, O(u)eiro, em alternativa, porém demasiado condescendente. Ora, o que temos para o antropónimo é, sempre Oduario, latinismo da já existente forma “O(u)ario”. Tanto assim, que as suas formas posteriores são “Oeiro” e, em próclise, “Oer” tal como Sueiro com Suer (com formas em So).
b) Prova-se, assim que o sufixo alternativo -ar, al (nada tem com o gótico harjis e, menos ainda, wars), e explica-se aparecer-nos tanto Ovar como Oval (Obar e Obal). É uma perfeita confirmação (aliás desnecessária): tal como “lamar” e “lamal”, “fogal” e “fogar”, “casar” e “casal”, etc. (substantivos). Portanto, um indiscutível nome comum na origem: “oval” e “ovar” (origem pré-romana).
Creio não poder haver filólogo verdadeiro e honesto que me desminta isto – até porque a ciência não a arquitectei eu. O que fiz foi a sua aplicação atenta e coerente.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Setembro de 1993)
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3 - Arada

Encaremos o interessante caso do nome desta freguesia de concelho de Ovar: mas façamo-lo pela sua forma actual – essa mesma –, para vermos a que acerto ou engano poderemos ser conduzidos. No caso de engano, ficará o leitor com mais uma prova daquilo a que se arrisca quem nem sequer se lembra de que há forma(s) anterior(es), e esta(s), e não outra(s), é que pode(m) decidir.
Como a estrutura morfológica de “Arada” é muito simples – para melhor nos fazer acertar ou… enganar –, arrisquemo-nos com ela: um derivado, ao que aparenta, Ar -ada, com o sufixo -ada. O problema, portanto, residirá todo no elemento agente, Ar-, que, visto se tratar (no suposto) de um derivado, representa um nome comum ou apelativo. Descobrir, pois, em ar-, qual esse nome eis a questão linguístico-etimológica e, daí, semântica.

Arada - Igreja Paroquial (No nicho central, a imagem do Padroeiro, S. Martinho)
Principiemos por notar que Arada é perfeitamente similar de outros topónimos, como Ovadas (há também Aradas na toponímia), que escolho por se tratar de Ov – adas com um elemento ov –, pré-romano, significativo de “água” e que já achámos no nosso topónimo Ovar, ou o Oval (Ov – ar, Ov –ale). Isto morfologicamente. Mas não chega – embora já muito, e indispensável.
Num ponto de vista semântico, comparemos Arada(s) com Cavada(s): tal como este de “cavar”, logo nos inclinaríamos àquele como de “arar” – e tínhamos o caso resolvido (visto que não nos propomos ir mais fundo na questão linguística, nem para estes meus apontamentos se necessita). De facto, os elementos cav – e ar – são as raízes do latim cavare “cavar” (abrir cavas ou covas) e do latim arare “arar” (lavrar). A documentação antiga fornece-nos a conceptualidade essencial a estes casos (que, aliás, são muito simples, o que é frequente não se dar, e daí as imperiosas cautelas a ter), como em 1258 “da herdade que chamam Cavadas dão um moio de pão”: que melhor, identicamente para uma “herdade que chamem Aradas”, ou Arada – do nome comum “arada”, que, precisamente por isso, temos hoje?
Mas há de imediato uma circunstância que nos faz suspender: desde quando se documenta esse nome comum de hoje, “arada”: – isto é, será ele anterior ao topónimo Arada (neste caso de um lat. Arata)? Se o não é, fica arredado da etimologia do nosso topónimo ovarense, Arada. Destas poderosas inibições geralmente se não cuida, o que é perigosissimamente aleatório – tanto mais que em relativo, isto é, para o nome comum “arada” só temos notícias desde os finais do século XV – e, para piorar, literárias (em Gil Vicente), sendo que o fautor da toponímia é popular. Esta limitação não impede, porém, admitir a anterioridade (tanto mais que aquele abandono literário se encontra na linguagem popular de Gil Vicente, o que nos recomenda como popular a palavra), e não há a mínima razão contra a naturalidade de “arada” em face da de “cavada” (até pela perfeita similitude no trabalho designado). A própria toponímia vem dar a ajuda decisiva, porque “arada(s)”, nela, é muito mais abundante que “cavada(s)”, e afectada de artigo – o cunho dos nomes apelativos.

Conclusão: Arada, o lugar, teria sido, de origem, um prédio em que se arava a terra – e, o que é mais, a partir das imediações povoadas, povoando-se o local a pouco e pouco.
Mas e ainda sem sairmos da forma actual, Arada, a questão mantém-se indecisa é que vigorou o elemento pré-romano ar – “água” (logo, corrente desta) e ar (r) “montanha”, ou mesmo rocha. Nota-se como tão bem existe Arada nome de uma serra broeira, na qual poderiam ter-se feito as “aradas” do cultivo, e daí o nome, mas nada o afiança. Nota-se, também, que temos Arada na freguesia de Avanca, nome este em av – “água” – planura e corrente predominantes, mas com elevação impressiva na planície (creio que explicativa no sufixo -anca). E até pode ter sido que o latim arare tenha provindo do pré-romano ar (r) referido: tanto mais que a terra – em que se lavra – é rocha também (embora desagregada).
Como se vê, temos pela frente o perigo dos homónimos (e já não falo dos parónimos, que fornecem o nunca acabar de riso – mesmo em “filólogos” encartados…): neste caso, uma “arada” mais remota (arata, pois que só o t garantiria o d actual) teria sido coisa muito diferente do Terreno arado ou terra arada. Em que podemos, pois, ficar?
Tudo isto foi para colocar o leitor perante o que não se costuma acautelar. Quer um exemplo, sem escolha, tantos eles são, até dos tais filólogos encartados? Aqui tem o de J. P. Machado para Arregaça, junto a Coimbra: para ele, de “arregaçar”! Decidido, seguro – sem querer saber para nada de averiguar a forma antiga (ciência fonológica em aplicação) nem da congruência (campo da lógica, inseparável do da ciência): “arregaçar” o quê, e para quê? A toponímia é uma ciência objectiva, e, como ciência, exige a demonstração. Aquele filólogo tem muito “daquilo”: um vasto campo de divertimento, e também, de fastio, com o devido respeito por quem lá vai ou entra confiado.
Enfim, vamos àquilo que deveria ter sido o nosso primeiro cuidado: explicar Arada – a Arada ovarense – pela forma antiga do topónimo e a procurar desde logo (porque eu só quis com o exposto mostrar ao leitor que me atenta que isto de “explicar” topónimos não é o que se julgue – de vista e ouvido, ou como eu costumo dizer, de “olhos-e-orelhas”, estas muito grandes e aqueles muitos pequenos), uma tarefa que nos apresenta em 1288 “a Erada” e em 1290 “Herada” (Erada), em que até o artigo se nos demonstra. A solução é imediata: uma palavra antiga” (h) eerada, do latim hederata, ou este mesmo latim no caso mais remoto: um derivado de “(h)éera” + ada (se não do latim hedera + ata, para uma aplicação suficientemente remota – que é outro problema, e este insolúvel sem documentação balizadora das épocas de fixação e vigoração). E, mesmo assim, nem tudo se decide: qual o objecto isto é, terra, pedra, fonte, parede, etc., coberto de hera.
A evolução da palavra desde a forma mais remota (não sabemos em que estádio da evolução esta palavra foi aplicada à designação do lugar): hederata - heerata - heerada - erada - arada (estas últimas formas talvez já só na toponímia, isto é, já desaparecido o nome comum).
Aquela série precisava de um sinal especial, de forma para forma, mas não é de crer que a topografia o aplique. Quanto às diversas formas, não dou delas a explicação fonológica, porque isso não se faz assim de pé para a mão, e levaria longe: mas estou pronto para ela no caso de interessar a alguma pessoa que tenha os conhecimentos básicos conscientemente.
(Convém anotar que os artigos “Arada” e “Aradas” da “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”, vol. 38 págs. 468-470, são de minha autoria – o que não significa que eu os subscreva inteiramente hoje, passados trinta e cinco anos).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Setembro de 1993)
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4 - Cortegaça

Igreja de Cortegaça
Este topónimo encontra-se no Portugal nortenho (e na Galiza – já de esperar linguisticamente) com certa frequência, e é muito notável na morfologia e na semântica próprias. Digo-o pelo que por mim observo, porque os filólogos encaram-no com uma facilidade e um expeditismo tais que lhe tiram o essencial de tal notabilidade. Acareado com outro que aqueles lhe costumam quase sinonimizar, Cortegaça, vamos vê-lo da maneira mais simples que me seja possível dentro dos conhecimentos etimológico-filológicos que exige.
Primeiramente, as respectivas decomposições, sem as quais nada se consegue com um mínimo de segurança (se bem que a decomposição só é possível quando conhecida a estrutura – caso contrário exige outro procedimento), sendo a bem dizer, meio caminho andado: Cort-eg-aça, como Cort-eg-ada, o que podemos reforçar com outros casos da “família”, como Cortegosa= Cort-eg-osa, e até Cortegana= Cort-eg-ana.
Temos, pois, duplas derivações, ou dupla sufixação: sobrederivados de –ega (ou -ego).
(Não vou aqui ocupar-me propriamente desse sufixo, que demandaria demoras escusadas: mas convém lembrar o actual -eco, -eca, que creio ter substituído aquele para um sentido pejorativo que –ego, -ega não tinha de origem, mas que também veio a tomá-lo por se tratar de diminutivo: comparem-se, de facto “patego” e “labrego” com “livreco” e “padreco”, por exemplo, e não se achará hoje diferença. Nos textos antigos, não encontro, -eco, mas –ego, que penso nada ter com o latim -aecu-, -oecu- pois este evoluiria a -ego de maneira que, segundo me parece, o actual -eco não terá passado de um avatar ou alotropia intencional de -ego pela substituição de oclusiva para efeito pejorativo, para ênfase. Não sei se foi esta minha doutrina – que, em tal caso, não seria apenas minha, embora independente – que levou J. P. Machado, o mais recente tratadista, e como tal o refiro, a omitir totalmente uma rubrica -eco, tendo introduzido -ego. De contrário, não haveria justificação).
Não me parece possível considerarem “Cortegaça” – e no seu parónimo “Cortegada”, com que é encarado – o radical latino cortex, apontado sem excepção e de tal modo que todos os etimologistas, a contar Leite de Vasconcelos, não duvidaram em interpretar esses topónimos – e os outros da “família” – por locais onde abundavam “cascas”: estas, naturalmente, de árvores (nunca esfoliação lítica – que, de resto, nem lembram).
Surge, imediatamente, um problema de congruência toponímica (lógica, pois não basta a ciência): se se tratasse de”cascas” de árvores, aquela toponímia deveria abundar no Sul, habitat da árvore do córtex ou da casca por excelência, o sobreiro. Ora, aí, falta totalmente uma tal toponímia (sendo já do Centro o caso de Cortegana – com o n dos dialectos moçarábicos conservado, pois no Norte deveria ter-se Cortegã), pelo que me capacito de que nada aí há com o cortex, as “cascas”.
A própria morfologia vocabular está de acordo comigo: temos inegáveis derivados do já de si derivado “Cortega”, de “corte” – lat. cohorte “corte”. Aqui, o elemento da sobrederivação foi –aça ou -ada (Cortegaça e Cortegada), mas posso apresentar casos inversos, isto é, em vez de -egada (e -egaça), casos de -adega (-ad-ega): os topónimos Matadegas e Carvalhadegas (sobrederivados de “*matada” e “*carvalhada”), que nada – absolutamente nada – têm com o nome pessoal Egas, ao contrário do que se julga e até se escreve. Assim, Carvalho de Egas, sic!, aparece em 1195-1209 “as Carvalhadegas”, com o próprio precioso artigo. O assunto é muito interessante (até porque desdiz rotundamente, J. P Machado), mas levaria longe, e dispersaria o caso a versar aqui.
Além das razões de ciência e lógica, é óbvio que, se de cortex, como o -e- passa a -i- nos casos oblíquos, de um dos quais vêm as formas a ponderar (lembre-se mesmo “cortiça”, nome comum, e Cortiçada, topónimo, etc.) as formas deveriam ser, ao menos, de início, as antigas, Cortígaça e Cortigada, e, ao contrário, nós temos Cortiçada e não Corteçada – a prova de que nada temos que chamar aqui o cortex, ou a “cortiça”, ou, em suma, as cascas dos filólogos… Há mesmo uma questão de simples mas impositiva lógica: não seriam as “cascas” a designar o local, mas a árvore que as produzisse a esse ponto. E, na verdade, como é que temos a família toponímica do “sobreiro” ou espécie afim (Sobral, Sobrosa, Sobreda, Sobrido, etc. – que repito não exigem se trate mesmo, ou sempre, daquela árvore, mas ela a mais natural)? Isso só prova que era a árvore, em si mesma, a impor-se toponicamente.
Portanto, origem no derivado “*cortega”= corte + *ega.
Étimo, o latim cohorte-, “corte”. Da semântica deste vocábulo, apenas relevam as acepções militar, palatina e pastoril, obviamente, sem imaginações descabidas, só esta pode e deve ser encarada. (Não deixarei, porém, de observar que os avatares semiológicos alteraram a natureza natural da vogal tónica como temos em “côrte” ou “córte”, respectivamente para o sentido palatino-residencial e pastoril-estabular: o étimo, porém, é o mesmo).
Nada, pois, do que alegam os filólogos encartados: *corticacea para Cortegaça e corticata para Cortegada, etc. Além do muito mais expressei já, repito: por que não, hoje, se fossem isso, Cortigaça e Cortigada, etc.? Nunca o foram – nem sequer nas formas antigas, que deveriam revelar ainda o -i-. Logo, este nunca existiu nelas – como o temos, por exemplo, no topónimo Cortiçada = “cortiço” + ada, com “cortiço”= “corte” + iço (para não recuar a formas antigas). Os filólogos encaram do “cortiço” das abelhas a família toponímica Cortiça e Cortiçô, Cortiçada, etc.: mas como é que um cortiço (até um corticinho – um, e pequeno!) poderia impor o nome a um local? O que no “cortiço” da apicultura se acha, em meu ver, nada tem com a cortiça, seu material, até porque não era este o único para o “corte”, a morada das abelhas, mas o colmo (daí “colmeia”), a madeira, etc. Foi da própria permitividade a observação da organização social, ou digamos, palatina da vida destes insectos: daí a aplicação de um derivado de ”corte” (no sentido de morada), suf. -iço. Assim, o contraste com Cortegaça e Cortegada, etc., é mera aparência: também estes nomes com base “corte” pastoril – mediante “*cortega”, a estância de gados e seus pastores.
E agora permita-se-me um exemplo que – creia-se ou não – não me sugeriu a doutrina exposta: pelo contrário, só depois de arquitectada esta reparei no caso, que só veio confirmá-la. Aqui perto de mim (concelho de Tarouca), tenho o local da Cortegada= “*cortegada” + ada, com “cortega”= “corte” + ega, e, na sua área o topónimo Cortes de Cedofeita, de corte e cedofeita, com Cedofeita (construção rudimentar, ou sem demora), que devia significar, já de si, um estábulo, antes de surgir aí a designação Cortes (outras construções pastoris), em Cedofeita. Nada menos de três elementos no mesmo universo sematológico-topónimo. Por que, pois Cortegaça diferente? Não o era: o sufixo pode introduzir um certo matiz semântico, mas não diversidade inerente, ou essencial.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Outubro de 1993)
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5 - Maceda

Nome de outra freguesia do concelho de Ovar e que não ofereceu nunca dúvidas a tratadistas, desde o ilustre Leite Vasconcelos a J. P. Machado: mas, tal, como eles entenderam as coisas, por acaso acertariam. Antes, porém, uma palavra.
Deixei passar três artigos para que o leitor pudesse compenetrar-se do meu estilo de ”mestre”, e da opinião de que pretendo sê-lo. Se assim, vê-me ao contrário: dou explicações (e previno agora de que as darei sempre) precisamente porque não sou mestre nem o pretendo ser. Se o fosse, eu, embora minhas, não as daria: bastar-me-ia dizer, sem nada explicar (magister dixit).
Exprimo, agora, e mais uma vez, aquilo, que, neste sentido, aleguei a propósito de Arada: ser totalmente aleatório para investigação de uma etimologia trabalhar sem uma forma antiga. Por isso, e tal como com Arada, vamos fazê-lo com Maceda, isto é, explorar esta mesma forma – para ver-se o resultado. Procedamos à indispensável decomposição, visto que se trata, nitidamente, de um derivado tal como Arada: Mac-eda. O nome paciente está na raiz-radical (neste caso), Maç, isto é, aí o nome apelativo. Ora com este topónimo, os tratadistas procederam pelo indispensável: L. de V. entendeu-o da família de maçã – latim mattiana, a qual conta Maceira, Macido, Maçada, Maçal, com suas flexões e derivados; e J. P. M. fez mais, porque deu a Maceda por étimo um latim *mattianeta (villa) – assim mesmo escrevendo (embora com “villa” bastante abusivo: mas não é isso que aqui nos importa – até porque não estou propriamente a escrever a História).

Igreja de Maceda
Praticamente, e tal como acima deixei dito, procederam eles bem, portanto, visto que não se limitaram a discorrer pela forma actual – se bem que esta, nada significando à simples vista (certo ou erróneo, ao contrário de “Arada”, que ainda vigora, o que com “Maceda” não sucede) – não lhes deixava outro campo de opinião. Pois terão acertado mesmo assim? – Refiro-me ao caso da nossa Maceda ovarense, visto que foi por um apresentada a sua forma antiga: Mazaneta - Mazaneda - Mazâeda (séculos X e XI). Mas não o reportou precisamente à nossa Maceda, senão ao geral, dizendo ser “topónimo frequente na Galiza”. Não o referiu, pois, entre nós, o que foi lapso.
Esta minha reserva pode parecer descabida, mas não é: mesmo que a toponímia o não revelasse (ela é praticamente desconhecida, porque os róis que temos são urbanos, sendo riquíssima a toponímia rústica, como revelam os casos que eu mesmo coligi na matriz predial de alguns concelhos), basta-nos nas formas antigas, já romances, encontrar, por exemplo, casos em –eda (do latim -eta) e casos em aeda (do latim aneta), coevos e, portanto, diferentes: enfim, Mazada & Mazãda. E com a restante toponímia da “família” semelhantemente: Mazeda (que ainda vigora, embora na maior parte dos casos evoluídos a Maceda), & Mazaeda, Mazeira e Mazaeira (daí, hoje, Maceira & Macieira). Mazal & Mazãal, Mazido & Mazaido. Isto documentado nuns casos e teórico (se o é, pois pode vigorar algures) noutros. De qualquer modo, só um espírito muito irreflectido poderá não reparar – e daí julgar o mesmo – que, em cada, par, o número de sílabas dos dois elementos difere de um para o outro, e, pior, poderá dispor-se a afirmar daí que se trata do mesmo nome ou (aparente par, sendo que é bem real).
Há, pois uma sílaba discriminante em cada par, ou seja, que distingue, por exemplo, das formas hoje -eda como Maceda, as formas possíveis em -ãeda, que evoluiu àquela sem ser pois, a mesma. Em suma, poderemos admitir, na origem, a forma *mattianeta se esta documentalmente se provar, pois que pode tratar-se de outro nome, e, daí, de outro factor toponímico. O caso de Maçada, por exemplo, prova que Mazada antigo reflecte um apelativo diferente do que originou Mazãada, que possui mais uma sílaba: esta tem o seu étimo *mattianata, mas aquela não – ou seja, uma com o radical mattiana “a maçã” e a outra com ele mattia “a maçã” (palavras latinas ambas, mas de origem pré-romana a segunda): aquela, referente à planta, e esta à geologia, ou, respectivamente, ao fruto e à pedra ou rochedo.
Neste segundo caso – o geológico –, topónimos inegáveis, como Maças ou até Maçãs (o nome do fruto não toponimiza: fá-lo a árvore, sendo ilusórios os casos em que o pareça). Maçorra, Machinhata (e Mesquinhata), etc. cada um dos quais daria para um artigo destes. A raiz maç- com esse sentido temo-la em “maciço” (não é preciso – nem se deve – ir ao espanhol) e “mação” (sem ser preciso ir ao francês – sendo de lembrar que os “maçãos” também se chamavam ultimamente pedreiros livres), e, já se vê, “maço”, o instrumento do pedreiro – o do “mação”, nome este que lhe encontro como alcunha num documento de 1226 que publiquei já (um Paio Mação, “Pelagius Mazanu”), alcunha profissional.
Tudo isto levaria longe, ponto por ponto: mas o leitor já pode por aqui ver que as coisas não vão assim ao rompante de qualquer que lhe dê na cabeça para emitir uma opinião, sempre sugerida pelo ouvido (e até pelos olhos – “olho por olho e orelha”, como eu costumo ironizar, pedindo desculpa). Já Leite de Vasconcelos avisava, que, para se descobrir neste campo alguma coisa de seguro, é preciso conhecer uma ciência inteira, a Filologia, e que mesmo “quem a conhece nem sempre acerta”. Mas, como as palavras andam na boca de toda a gente, que se julga proprietária delas como o é da boca – daí pensar delas o que melhor lhe quadrar. E, então, se se trata de um erudito – é o fim do mundo, em tolices convictas; e não se admite – nada de contrário, considerando lunático ou parvo quem não vê as coisas tão simples como as assim vistas.
Olhe-se, pois, como até os filólogos podem errar – e aqui, no caso de Maceda, como bem poderia suceder-lhes isso, desde que não atentos a -eda e -eeda (-ãeda) nas formas antigas.
Acertaram ou não acertaram. Como à localidade ovarense pertence o documento de 1013 “vila Mazaneda”, ou “Mazaneta” (1055), e aí temos, em 1320, Meceeda (quatro sílabas ainda), pareceria que sim: logo, um topónimo devido à vegetação, à macieira (naturalmente uma espécie espontânea ou bravia, porque tal cultivo não toponimiza, em geral).

Antiga casa solarenga em Maceda
A questão toda é que o latim, de onde vem a nossa língua (que é ele evoluído), se tinha mattiana “a maçã” (o fruto), e daí podiam provir muito nomes com o seu próprio sentido “vegetal”, tinha também mattia “a maça” (de que temos “maço”, etc.), designação de rochedo ou qualquer rocha, mesmo a mais ou menos desagregada já. Desde que impressiva esta, igualmente era ou poderia ela ser factor toponímico: até porque os rochedos foram, talvez, tal como água, a causa mais abundante de manifestações toponímicas. Ora, nada pode desmentir que de mattia “rocha” tivesse derivado *mettiana sc. “terra” – e aqui estávamos nós com homónimo de mattiana “a maçã” (fruto). Aplicados na toponímia, não ficaria possibilidade de distinguir. Assim, se de mattia devemos fazer provir Maça(s), Maçorra, Maçada, Maceda, Macida, Maceira, etc., derivados simples, também poderiam provir sobrederivados, como Machinhata, e os casos que, como Maceda não ofereçam uma sílaba discriminante nas formas antigas.
Não conheço a freguesia de Maceda, mas leio – como nota a mais digna de registo numa quase nula notícia do lugar – que na área da igreja (da qual proveio o nome Maceda, para melhor) são impressivos os xistos argilosos. Quem poderá, pois, negar que nada se tem com a macieira para se poder ter, perfeitamente, *mattianeta sc. “terra”, pela particularidade desta? O sufixo refere-se à extensão da área, e o nome agente ao factor – como sempre.
Local designado pelas aludidas plantas? Local designado pelas referidas rochas? Escolham lá: por mim, acho muito mais atendível o sentido ou causa mineralógica – “Maceda” uma parente próxima de um “maciço” (sem este ser orográfico).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Outubro de 1993)
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6 - Pereira

Por “Pereira”entendo, aqui, a freguesia ovarense que hoje dá pelo nome oficial de “São Vicente de Pereira Jusã”, historicamente injustificado na agregação do elemento hagionímico – de que até nem precisava. A coisa obedeceu a alguma ideia de ocasião, mas influente podia ser pior – porque, ao menos, não é tão injustificado como o novo nome da “Feira” (Santa Maria da Feira), que poderia ser parvo, como de todo é, mas ao menos honrado, ou seja, não ladrisco, tão ignorantemente o besuntaram, uma vergonha…
Bairro operário da antiga fábrica de chapéus
de S. Vicente de Pereira (lugar da Torre)
Ora, aqui temos – em Pereira – uma coisa que não merece artigo toponímico, dirá o leitor: logo se vê, uma “pereira”, a árvore das pêras: pois que dúvida?
Não há uma dúvida só, mas várias, com licença: aquilo, tal como nos topónimos congéneres, só em casos muitos especiais; e sempre a comprovar. A vegetação agrícola e pomífera não constituiu um factor de toponimização: a agrícola, propriamente, porque efémera, e a outra (embora com mais possibilidades – mas  –  repetirei  –  a provar), porque em locais que, geralmente, já tinham nome, por ser quase exclusiva de já povoações, ou pelo menos de locais já habitados e, pois, já designados.
Tudo leva a concluir que casos tais (Pereira, Pessegueiro, Maceira, etc.) se deveram a aplicações de adjectivos, a qualificar “terra”, ideia geralmente subentendida. Assim, no nosso caso, e em formas vocabulares actuais (para melhor compreensão, porque há que respeitar a cronologia, e daí a fonologia), uma expressão tópica como “terra pereira” –  isto é, que produzia a respectiva fruta (pela respectiva árvore, já se vê - ou mesmo arbusto, como já vamos ver): tal como “terra figueira”, “terra nogueira”, etc.
Se o substantivo chegou a ser expresso, mais ou menos depressa ele se elidiu, ficando substantivados esses adjectivos na função de nomes de local, topónimos. Mas a vegetação a considerar é, mais compreensivelmente  – pelo que atrás exprimi – , a espontânea ou, melhor, bravia, o que, no caso de Pereira, dá votos de preferência ao carapeteiro, ao pirliteiro, ao catapereiro. Os nossos documentos anteriores à Nacionalidade, querendo exprimir-se por substantivos (o que dá uma certa confirmação aos adjectivos, como os apresento e que eles não usam), têm formas diferentes daquela (em eira), como “figares”,”ameixenares”, “perares”, etc. (preferindo mesmo formas tais, em -ar a elas em -ales, hoje -ais), nos casos pomícolas  – porque, para os outros, temos derivações diferentes dessa (“hordiales”, “centenales”, “triticales”, etc., sem embargo de outras derivações).
Jarra de porcelana branca da Vista Alegre,
possivelmente concebida com barro
de S. Vicente de Pereira (Igreja Matriz
de S. Vicente de Pereira)
Mas – dirá algum leitor mais ou menos surpreendido com isto os especialistas (agradeço não me incluírem assim no número) afirmam que Pereira (etc.) vem “de pereira”, como, expressamente, refere o nosso contemporâneo e ecléctico dr. J. P. Machado. A referência, desde logo (fá-las sempre assim, para desgraça), é enganosa, visto constituir-se numa forma vocabular actual: ora, quem lhe afiança que, mais crivelmente (pela antiguidade dos casos), não provém de “peraira” (forma anterior a “perára”) e até  –  antes desta  –  a “perára”, mesmo sem ser preciso recuar (e nada o impediria) ao latim peraria? A etimologia  –  que se desenvolve em fonologia (evolução das formas)  –  é cronológica. Mesmo que Pereira fosse o que ali se diz, a árvore das pêras, o topónimo poderia provir-nos de tempos em que ainda se não tinha a forma “pereira”. E este caso de Pereira é mesmo dos mais simples cronologicamente (isto é, na fonética), porque “piores”, digamos, são Figueira  – e “pior” que este  – Ameixieira, etc. Por isto mesmo, estas coisas são também História, e, por isso, ainda ter-se História hoje sem Filologia, e ter-se Filologia sem História… temos conversado. Os actuais historiadores (sem distinguir os falsos, os bluffs) vão tendo certa consciência disso, “entram neste domínio: mas, como julgam que não se precisa de ciência filológica, ou que lhes basta palrar, é um gosto ouvi-los, até rirmos, ou um desgosto, pela inconsciência que a vaidade lhes gera e com que enganam os mais pintados que neles fazem fé.
Um pouco dentro disto, olhe-se este caso de J. P. Machado: o topónimo Pereira ser “um derivado não registado de “pereira” (e diz ser “pomar de peras”  – a “pereirada”, claro). Tem muitos, mesmo muitos, destes “registos” de abortos, que é preciso estrangular. Claro que se trata de “pe(d)ra eerada” (em 924 “pena eederata” um sinónimo), o mesmo que em 1258 “pedra de era” (a hera). Veja o que deixei dito em Arada.
Ora bem: fica introduzida outra possibilidade para a toponímia de “pêra” - não o fruto, mas, agora, a pedra: uma família que, entre outros casos, conta Pereira, Pereirinha e Pereiró. Estes dois casos são diminutivos: quem vai compreender facilmente que uma pequena pereira (uma só, e exígua) tinha capacidade de criar e garantir um topónimo, que é um fenómeno de duração, extensão e circunstância na causa (além de contingência)? Na toponímia abundam os casos em -inho, mas não são diminutivos, se não adjectivos constitutivos: assim, “pereirinha” uma área onde proliferava a planta, independentemente da extensão (já que, tratando-se desta, o diminutivo passava para a área, que não na planta); quanto a “pereiró” (podemos pensar num latim *perariola), o diminutivo  –  pois que o é, neste caso –, concerne ao local, uma certa extensão, pequenina mas impressiva suficientemente para a designação pelas suas plantas.
Todavia, o nome comum “pêra”aparece como homónimo de “pêra” (o fruto): significa rochedo e daí na toponímia Pêra, Peredo, Perosa, etc. A origem é o lat. petra, de onde nos vem “pedra”, e não surpreenda, visto que, na nossa Idade Média, o nome pessoal Pedro era o mesmo que Pero, ou este o mesmo que aquele. E por igual temos noutras línguas românicas – embora J. P. Machado pareça esquecido disto: assim, no francês occitatano Peyre (hoje Pierre), no italiano Piero (com Pietro), etc., tal como o dito nosso medievo Pêro (hoje só Pedro) – todos do latim Petru(s). Que admira, pois, “pêra” do latim petra?
Num documento de 1203, que publiquei (e se ignorava totalmente), aparece o topónimo Canda Perosa: tenho-o por nitidamente tautológico, pois “canda” é palavra de origem pré-romana e significa pedra, sentido que também está, sem qualquer dúvida, em “perosa” adjectivo (o mesmo  –  que na evolução – “pedrosa”, pedregosa). Se temos o sufixo -osa na vegetação (Aveloso, Carvalhosa, Tojosa) e na mineralogia (pedras), se temos o sufixo -edo na vegetação (Aveleda, Teixeda, Figueiredo) e na mineralogia (Petroneto, séc. VI, Barredo, Lamedo), etc.  –  por que não -eira na mineralogia tal como na vegetação?
Curioso que, em A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós fantasiou um topónimo Canta Pedra: causou-me um certo espanto (pois que nem os “especialistas sabem disto), que a expressão é tautológica também: cant-, ou cand-, é raiz pré-romana que significa pedra (e tem uma numerosa toponímia nossa). Canta Pedra e Canda Perosa podem irmanar-se – sinónimos, pois.
Perguntar-se-me-á, agora: Pereira, portanto, vem da planta das pêras, o fruto, ou vem das pedras  –  “peras” em ambos os casos, mesmo a distinguir em dois campos tão opostos? Não sei: não conheço sequer a localidade e, se lá não puderem verificar se há ou não aglomerações rochosas (aliás, pode ter havido alterações), como haverei de responder? Dicant incolae… Eu apenas desejo, uma vez mais, salientar que as coisas não vão com a facilidade que os entusiasmos, os impulsos das aparências julgam. Calminha, nos olhos, nos ouvidos e… na “ciência” (melhor sendo “consciência” para se principiar).


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Novembro de 1993)
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7- Esmoriz e congéneres (Concerto)

Ocupei-me dos casos anteriores unicamente porque respeitam a nomes de freguesias ovarenses: não quer dizer que mais valham esses que outros quaisquer. Faltou unicamente Esmoriz, dado não nos oferecer as indecisões ou ambiguidades daqueles, e porque reservei o seu caso a uma consideração especial com os congéneres únicos que no concelho de Ovar me constam. [CLIQUE NOS LINKS A AZUL]


Igreja Matriz de Esmoriz
Efectivamente, trata-se de genitivos antroponímicos, e todos eles de origem germânica: nomes pessoais que se usavam ainda de há uns mil anos para trás. São eles em número de oito. O mesmo número de instrumentos de uma banda musical, normalmente. Como nada irei dizer deles cientificamente meu, e para melhor ser compreendido o meu “método” de apresentação “científica” dos mesmos, segundo lição “universitária” que há uns três ou quatro anos recebi, e ainda para amaciar as rudezas da explicação e compreensão que no assunto toponímico como o leitor deve ter visto existem, vou oferecer-lhe um “concerto” musical: não de orquestra de arco e corda, porque os “músicos” que a constituem seriam capazes de os partir com a força inábil que hão nas manápulas “científicas”, mas de charanga, visto que, como têm o fôlego igualmente forte, a madeira e os metais dos respectivos instrumentos resistem-lhe eficazmente… Pelas mesmas razões, não irão tocar um minuete, que é coisa demasiado delicada para eles, mas uma rapsódia com frases da”ópera” moderna, ou nova, que, como acima digo, o chefe me cantou, autorizado pelo “método científico” de que ele me disse eu não fazer ideia, sendo para mim música celestial, porque “só na universidade se conhece, se usa e se transmite”. Trata-se da chamada Universidade Nova de Lisboa, refulgente na sua Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e personalizada no seu muito conhecido e admirado chefe. Mas não julgue o leitor que vou discutir: vou unicamente mostrar que “aprendi” a lição, o mesmo que não ser tão bruto e improgressivo e até “doente” como pintou.

O Concerto…

Por “afinidades” previamente ponderadas, distribuí ao flautim o papel do topónimo Guilhovai (Ovar); à requinta, o do topónimo Dagarei (Válega); aos clarinetes, um em dó, outro em si bemol, e outro em fá, o topónimo Gonde (Válega); aos saxofones (soprano e contralto), o topónimo Bertufe (Válega); às trompas, Sande (Ovar); aos bombardinos, Esmoriz mesmo; aos trombones, o topónimo Enxemil, que me dizem há também cerca de Ovar (tal como noutras partes).
Uma perfeita banda de sopro: falta o contrabaixo, mas eu destino-lhe o topónimo Ovar, apesar de já tratado.
Perfeita correspondência biunívoca ou, pois, matemática, de “a” a “b”, ou “b” a “a” pares ordenados como o leitor quiser (a, b) ou (b, a). Um pequeno “universo” de conjuntos de dois elementos: instrumento topónimo. Falta destinar a bateria (bombo, caixa, pratos e ferrinhos, etc.): mas dela encarrego-me eu, porque a coisa é fácil para um bruto assim, um improgressivo que ao menos ainda aprendeu a bater e rufar. Não ficarei atrás dos outros “executantes”, e ouçam-me, e ouçamo-los, pois:
O flautim silva-nos que em Guilhovai era tudo gente danada, sempre com “vontade de lutar”, e sempre, pois, em lutas.
A requinta chia-nos para Dagarei um pessoalzinho cuja vidinha era como um “dia de luminoso conselho” (embora não dê provas de merecer o Céu por isso).

Cais do Puxadouro, Válega
FOTO: M. Pires Bastos

Os clarinetes afinam a melodia de “lutadores”, por excelência, todos os habitantes de Gonde – abono de má gente, digna, pois, de inferno.
Os saxofones roufenham-nos que em Gondesende estava-se sempre em “caminho de luta”, qualquer pessoa uma “companheira de expedição” de outra.
Os cornetins trombeteiam que toda a gente de Bertufe era de “audácias de lobo”.

Sande, fonte do Esperão, antes do último restauro
FOTO: M. Pires Bastos
As trompas aveludam o panorama em Sande com pessoal “verdadeiro”, de uma só cara e sem sombra de dolo, digna de canonização mais que o Sr. Dr. Álvaro Cunhal, que a tem certa.
Assim a tivera eu, que, infelizmente, non sum diguns…

Interior da Capela de N.ª Sr.ª da Penha, Esmoriz
FOTO: M. Pires Bastos
Os bombardinos poderosos, que obrigam a fazer bochechas que me lembram as de não sei quem, proclamam como tubas que lá em Esmoriz era de uma “fortaleza régia” todo o gentio, digna de subir a um trono qualquer pessoa. (Seria de investigar se lá não teria vivido o nosso rei suevo Ermerico, ou Ermenerico. Com certeza que não: havia muitas “Marias” na terra).
Finalmente, aí temos os trombones a pompear que a gente de Enxemil eram “divindades famosas”. E está certo, porque não me consta já, aí, propriamente, uma povoação: os habitantes divinos devem-se ter passado todos para o Céu. Há nomes infelizes – esse, lá, como cá este meu, que significa “espírito forte”…

Enxemil, Ovar, visto da ponte da Moita
FOTO: M. Pires Bastos

E então Ovar no papel de contrabaixo? Gente manhosa na sua “cautelosa riqueza”, precavida de que lha não roubem sempre, ao desatar do lencinho ou sondar o pé da meia, a olhar para o lado, se tem de fazer um pagamento.
Postal de Ovar
Quanto à bateria, eis-me, pois, eu, “forte de espírito” Secundum nomen meum (germanicum simile) e creio que não desempenho pior o meu papel.

Aqui está a rapsódia operista, que eu regi pela partitura do dito chefe lisbonense, universitário novo, social e humanamente: um milagroso fenómeno, pois escreveu tal partitura sem saber música, julgando ele que cantá-la é sabê-la: de trás para o princípio, e do fundo para cima, para si é tudo o mesmo. E nele é como o invejoso Rossini dizia da música do genial Wagner…que em troca o chamava “florista”, em melodia e contraponto. Naturalmente, ele escolherá um tal Rossini: como meu apoio!
Vamos ao sério: ora, o dito chefe transfere – nada menos! – para toda a população de um lugar o significado do nome pessoal originário do topónimo. De tombar a rir, mas eu não desejo reeditar a discussão que com ele tive neste mesmo jornal, e menos ainda o livro que ele diz seguir. Transforma em população um indivíduo único, e atribui a ela tudo o que se significava nele somente. Ora, nós não temos em cada caso mais que uma propriedade, uma “villa”, território demo-agrário: respectivamente (pela ordem supra), “villa” Willibaldi, “villa” Dagaredi, “villa” Gundi, “villa” Gundesindi, “villa” Bertulfi, “villa” Sandi, “villa” Erme (ne), “villa” Ansemiri – caso a caso : de Willibaldus, Dagaredus, Gundus, Gundesindus, Bertulfus, Sandus, Erme (ne) ricus. Ansemirus. E deixo Ovar como “villa”Oduarii, de Oduarius, porque, como já vimos, nada tem com isso: origem pré-romana, nome comum desaparecido para além de mil anos, talvez. Por isso lhe confiei o papel de contrabaixo, a ver se conseguia fazer-se ouvir no que não é…

Esta toponímia possui saliente sentido histórico de que aqui não posso nem preciso tratar. Não é de História a finalidade destas notas: isso tem outro domínio. Ora, é sumamente reprovável que pessoas que a si mesmas se têm por luminares (porque toda a gente passou a considerá-las como tais), venham fazer aplicações totalmente desvairadas, e que só podem significar um estado cultural patológico: fruta do tempo.
Se assim não fosse, teríamos de concluir que as populações antigas do actual território de Ovar (séculos V-VI) eram uma bengalé de marotos de alto coturno, nem sempre exceptuada em Sande, Guilhovai e Enxemil… Nada disso, porém; gracias…

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Dezembro de 1993)
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8- Cabanões. Muradões

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/1994)
TEXTO: Armando de Almeida Fernandes 

Se a estes dois topónimos se reunisse Ações pela mesma terminação (-ões), teríamos três que nos dariam  mas só aparentemente  um certo à vontade ou nível de segurança (perigosa) na investigação, dentro das três probabilidades: -ones, um plural, -onis, um genitivo, e -onici mesmo, um patronímico. Vamos "experimentar"  porque a filologia toponímica também permite, de certo modo, a experimentação: todavia, não se "alargue" demasiado o que com isto quero significar...

 S. Cristóvão de Cabanões (1220), mais tarde S. Cristóvão de Cabanões da Vila de Ovar (séc. XVI) Largo (1.º plano) e o cemitério, ao fundo, da antiga freguesia de S. Cristóvão de Cabanões. À esquerda, a Capela de S. João de Ovar, já citada num documento de 922

Antiga Capela de S. Donato,
citada documental em 922 e destruída em 1906
Para logo, ponho de parte a possibilidade de um patronímico nos dois casos em que poderá experimentar  se um nome pessoal (Muradões, portanto excluído ou à parte). É que o patronímico  apesar de constantemente invocado pelos etimologistas antropotoponímicos  não oferece congruência, porque nunca era definida a pessoa respectiva (proprietário, ou simples morador), tivesse ela ou não irmãos inteiros, isto é, que tinham o mesmo patronímico; nem ciência (e daí, novamente, sem lógica), visto que os topónimos que se explicam por aí como patronímicos oferecem as formas antigas em -is, quando ainda a do patronímico mais evoluída (até séc. XIV-XV) é -ez, e piormente antes (com -iz, -íci. Os chamados "especialistas" não se preocupam nada com estas impertinências: eu preocupo-me, mas não posso alongar-me aqui com ela. Basta a exclusão de -óniz como patronímico, enquanto me não for provado que me falta razão naquelas duas necessárias e suficientes contrariedades. Restam-nos, pois, o genitivo, -onis, e o plural, -ones.
Começamos com Muradões, visto que o considero à parte, ou seja, não antroponímico, e operemos a decomposição, pois que não oferece qualquer indecisão (ou mesmo que a oferecesse, para ser sujeita ao toque aferidor, digamos assim): nitidamente, Mur-ad-ões, que só pode admitir a antecedência fonológica Muratones,  evidente plural de muratone, derivado de muratus, que já o era de murus, o muro ou muralha de defesa, de fortificação (sentido que só mais tarde passou para o actual, o de parede). Se a derivação foi menos antiga, temos "murado" ("muro" -ado), em aumentativo. Na hipótese mais crível, um castro. O topónimo está há muitos séculos perdido, mas aparece em local conjunto com o de Cabanões, sem a mínima dúvida, como se revela no documento de 1026 "discurrente riu Ovar (Cáster actual) villa Kabanones et (villa) Muradones"  com "villa" no sentido de então (territorial demo-agrário). O "doublet" Cabanões  Muradões é expressivo em todos os pontos de vista  e reforça (aliás sem ser preciso) a formação de ambos os nomes a partir do nome comum "cabana", em dois tipos diferentes de edifício humano.

Estela funerária do antigo cemitério
de S. Cristóvão de Cabanões
O leitor deve estar recordado do que deixei dito acerca do topónimo Ovar com nome inicial e exclusivamente do pequeno rio (origem pré-romana), e sobre o seu nome actual, Cáster, alteração de Castro, sem dúvida. Até me ser demonstrado o contrário, estarei convicto de que a área dos Muradões ou do "murado" do castro era a do actual lugar de são João e arredor, de uma e outra banda do rio: aí, pois, a antiga Muradões, que a ermida de S. João eclipsou como designação do local (talvez, pois, algum dia, S. João de Muradões, abreviado, como tanto sucede, São João, até desaparecer Muradões mesmo). De acordo com o documento de 1026 referido, Cabanões estava aí vizinha, e ninguém ignora a proeminência religiosa e administrativa de Cabanões, até se impor a muito posterior povoação de Ovar, nome que lhe foi dado do rio e perdido, assim, por este (o "rio do castro" de Muradões, na consciência e depois subconsciência dos utentes). O que é preciso é pôr de parte por completo as fantasias ignaras acerca do topónimo Ovar (como o franchinote "o Var") e os equívocos patentes e que já demonstrei de uma origem no nome pessoal Oduarius. Não têm por onde se lhes pegar com critério científico e dentro da realidade documental.


Uma página do Foral de Ovar, do reinado de D. Manuel I (1514)
A villa de Cabanões e a villa de Ovar (propriedades rurais)
são citadas na inquirição de Afonso III (1251)
Para a primitividade de Muradões e Cabanões e a situação destes núcleos populacionais, não deve esquecer-se que, na respectiva antiguidade, a linha do litoral era muito diferente: o referido pequeno rio "Ovar" desaguava bastante a nordeste, área de São João (não pretendo rigores de traçado costeiro, nem são precisos aqui), e era aí mesmo a passagem viária conhecida por "Porto de Ovar" (ou Oval), documentada ainda do século XI para o XII - o arcaico "porto" significativo de passagem do rio ou qualquer abaixamento de nível entre elevações (como nos casos numerosos que vigoram aqui ao meu lado).


Claro que, se alguma vez admiti, sobretudo para estudo, uma origem antroponímica em Cabanões topónimo, esse sentido o ponho totalmente de parte: era um local cujo nome no elemento "cabana" (do lat. capanna) contrastava com o elemento "muro" em Muradões vizinha: os próprios nomes sustentam-se um ao outro nesse sentido de contrastação, isto é, de apoio respectivo, nos aludidos significados.
Dentro das ideias com que comecei, há pois, a pôr de parte o plural -onis antroponímico (até porque, devendo tratar-se de acusativo nessa hipótese, não se realizava a manifestação de posse ou propriedade inerente ao genitivo, isto é, -onis, a qual se buscava com este), o que se coaduna, ainda nisto, com a doutrina exposta acerca de Muradões e Cabanões.
Marco (1707) divisório das Paróquias de
S. Miguel do Souto e S. Cristóvão de Ovar
(antiga S. Cristóvão de Cabanões)
Permitam-se-me mais umas breves considerações, se bem que o assunto é perigoso  por demais o venho eu sofrendo, a desafiar-me o destemor com que encaro, sempre, os direitos da razão científica e, portanto, da muito lógica verdade. E não se trata apenas de ideias feitas, mas de autores preferidos, formalizadas em dogmas ou sacralizados em divindades.
O caso do topónimo Ovar está plenamente dentro disso: todavia, não deve ser fácil refutar-me a essencial razão (jamais devidamente afirmada e a bastante para eliminar qualquer outra opinião): seria antes muito mais fácil excluir mesmo o que penso, a sua raiz pré-romana, ov -"água" que dar crédito a qualquer outra, desde "o Var" franchinote, que só a Pinhos Leais e Abades de Miragaia lembraria, até ao genitivo Oduariii, embora foneticamente impecável este e dando a compreender a sua proveniência em parecer de sábios filólogos (como J. Piel e Leite de Vasconcelos). Mas com Cabanões não deixa de haver algo analogamente estabelecido e só porque o ovarense Miguel de Oliveira viu no filólogo francês Dauzat um "nome (pessoal germânico alatinado", Cavannus, e parece ter posto da parte o nome comum "cabana", a que primeiro aludira. De facto, declara que o -b- de Cabanões dever-se-ia "a uma analogia com cabana, e mais nada... "(reticências suas que significam preferir a ligação com Cabanac francês ou, logo, com o referido antropónimo Cavannus, mas sem reparar que a questão do b ou v se mantém mesmo aí...). Ora, além de Cabanões fazer "doublet" morfológico, e até semântico, com Muradões, também teriam vindo de Cavannus os numerosos casos que temos de Cabanas, Cabanelas, etc., e até outros mais de Cabanões? A crítica toponímica exige tanto de ciência quanto de lógica: onde falte uma cinca a outra, irremediavelmente. De resto, o mesmo M. de Oliveira desembara-se expeditamente do caso de Muradões: “Como este último nome se obliterou por completo, não percamos tempo com ele”. Uma declaração absurda, doutrinariamente, porque o valor de um topónimo é sempre o mesmo, quer vigore quer já não: e Muradões e Cabanões - repetirei - apoiam-se aqui morfológica e semiologicamente. Um topónimo é sempre um dado histórico, e nem por isso um "facto" extinto deixa de ser um facto histórico: pelo contrário.

Carta de de venda feita a 29 de abril de 1064 por Meitilli a Octício, da quarta parte de uma
herdade cita na villa de Cabanões e da quarta parte de um casal cito em Maradones abaixo do monte Castro Recaredo, território da cidade de Santa Maria, por onde corre o Rio Ovar 

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Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Janeiro de 1994)
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9- Ações

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/1994)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

Não escrevo Assões como se faz, porque, se bem que ainda não tratei da sua etimologia, vejo que as formas antigas – que para ela coligi – não autorizam tal erro; portanto ç e não, jamais, ss, descubra-se ou não a etimologia. Por outro lado, não é o mesmo que Azões ( conc. De Vila Verde), topónimo que tinha a forma Cegões ( ainda no séc. XIII) quando o ovarense Ações aparece Zoees 1124, Zoenes 1134, Zoes 1145 – indubitavelmente o nosso Ações atual –, já Ozões em todo o séc. XIII, com vogal prostética. O facto de se abrir hoje a vogal inicial nada importa: trata-se de mero efeito de se pensar no nome comum “acções” (apesar da escrita errada, -ss-, uma arbitrariedade que caracteriza sempre a toponímia mal interpretada). De facto, se se tratasse de A- (inicial) aberto de origem, ter-se-ia ele de crase, e esta exigiria duas sílabas originárias, com consoante sincópica, o que a forma antiga, com Z-, exclui terminante e irrevogavelmente. De resto, a prótese vocálica fez-se primeiramente com outra vogal, O-, por influência da tónica, -ões. (Portanto, a ideia de Miguel de Oliveira acerca do A- aberto da pronúncia atual tem razão de ser, mas nada representa para o caso). Tudo indica que, se –enes  foi, realmente, da etimologia do topónimo, este passou de Zoenes a Çoéns, que transitaria facilmente a Ções ( em vez de Çoães, ou mesmo que com esta forma intermédia). De qualquer modo e se bem que nenhum autor – que eu saiba – identificou a “villa” Zoenes, bem documentada, trata-se, sem dúvida, de Açôes ovarense: não só fonologicamente, porque até se sita num dos documentos com Sande e diz-se no litoral com este.
Uma rua do lugar de Ações, Ovar

Creio que a etimologia antroponímica que se afigura exige uma certa diferença na evolução fonológica acima exposta, -oenes, -oens, (-oães), -oões, sucessivamente: de facto, que –oenes é um particularismo fonético local e efémero, mas suficiente, em duração e espaço, para algum tempo (séc. XII), se ter imposto aos escribas. Na verdade, teria sido –ones antes de –ões actual.
No entanto, como interpretar -enes que surge? Encontro-a mais uma vez na região, em Ermogenes (hoje Esmojães, conc. de Espinho): tudo me faz crer que -enes é aí uma forma fonética espúria, de -anes (Ermogianes), mas em Zoenes poderá ter-se uma alteração, também espúria, ou local, de -ones, ou seja, Zaones antes de Zoenes - o que nos conduz para o nome pessoal muito usado até ao séc. XI-XIII e presumivelmente de origem arábica Zahadon. Sendo assim, o seu plural Zahadones, que evoluiria Za(a)ones por fim ções, a que se juntou a vogal que o topónimo tem hoje, Oções, depois Ações, se é que não simultâneos.
É a minha opinião até aparecer melhor – isto é, que satisfaça às leis fonológicas e explique todas as variantes documentadas.
Não terminarei sem apontar o caso curioso de o filólogo etimologista Dr. J. Pedro Machado apenas registar Ações apontando a grafia Assões e apenas declarar, inocentemente, que não sabe por isso qual a forma ou escrita correta. Custa a crer isto, porque bastaria buscar os documentos que apresentei – o que não teria qualquer dificuldade. Escusado dizer que não deu – nem a ela se referiu – qualquer explicação etimológica, e, o que é pior, se tratou tacitamente por isso de uma opinião. Parece que nem sabe ou não se lembra de que as formas antigas nos indicam qual a grafia exata: procurasse-as. Mas com todas estas falhas de critério – e já nem digo ciência – é-se luminar e só perde aquele que, não sofrendo ou sofrendo pouco delas para cada caso ventilado, passa a ser confrontado com um na divergência. Sei-o por experiência própria que chega ao grau do ultraje recebido: mas não me preocupo com isso dentro deste campo, porque só recorre ao insulto quem não tem a ciência suficiente – ou seja, um dos opositores tem a mais desta do que o outro tem a menos e que o deficitário implicitamente assim reconhece...

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 1994)
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10- Válega

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/1994)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

A. de Almeida Fernandes,
historiador medievalista
O topónimo Válega, se não é aquele que dessa desgraça mais sofreu, ocupa, incontestavelmente, um dos primeiros lugares no “historial” ignaro das pretensas explicações: por vezes, nem sequer uma letra comum, como quando se lhe liga a Betaonia do séc. VI! Além desta, até (lá de Espanha) Baneza – e juntem-se, de cá Bitarães com Vectica, com Barbola, com Besea do séc. VI, etc.!
Um delírio que não atendia sequer a que, geograficamente, nem proximidade, muito menos coincidência, havia: enfim, sequer ao menos aquilo que eu tenho chamado “olho-e-orelha”.
À vista e ouvidas, de facto, pertencem as opiniões de três autores: um com “valego” e “velegado” palavra achada em Viterbo, e dois com "valle" em razão do elemento vall –, de “Vallega”. Mas o segundo, -ega, era-lhes o cume dos trabalhos, pois que até de Valdágua, Onega, Garei existentes na freguesia de Válega actual!
Horrores – e há uns setenta anos o então Padre Miguel de Oliveira (natural daí), embora declarando (muito bem) que tais explicações são aceitáveis “na razão inversa da erudição”, aconselhava a que “escolha o leitor a que mais lhe apraz”. Ora o que não se pode é admitir que alguém aconselhe a adopção livre de desconchavos, tanto mais que esse autor – que foi historiador académico mais tarde – sabia que existiam leis fonéticas a nunca transgredir, embora as ignorasse: mais culpado, de certo modo, que os outros, porque já vigorava então o método glotológico, tão científico, pelas suas leis e domínio, como outro que mais científico seja.
Igreja Matriz de Válega
Foto: DR
As leis fonológicas, em cada idioma, são tão científicas como as leis físicas ou as leis químicas: falar sem elas é o que há, pois, de mais anticientífico – e, no entanto, até isso nos vem hoje das universidades, especialmente uma chamada Universidade Nova de Lisboa. Se acima chamei delírio as opiniões anteriores ao estabelecimento do dito método, com não menos razão posso chamar uma desgraça (ou então pagodeira) as posteriores.
Exposto o indecente quadro por uns instantes necessários – até porque pode funcionar como espelho para quem, mirando-se nele, for capaz de sentir-se envergonhado –, passemos a considerações dentro do método próprio e único e que, ainda assim, não estabelecem uma certeza: e a razão é que não há apenas uma possibilidade de explicação científica e lógica.
É claro que não se pode negar que a “fisionomia” e a consonância numa palavra cujo étimo se busca não deixam de actuar e serem justas no espírito do investigador – mas é precisa uma imensa cautela.
Como o leitor tem notado, quando há alguma possibilidade de decomposição, não rejeitável in limine como o são os disparates, poderemos efectuar, ao menos, a tentativa de adoptá-la para criticarmos os resultados – dentro da ciência (leis fonológicas) e da lógica (a congruência toponímica, tão indispensável como aquela). Essa decomposição seria Vall - ega, com -ega átono, e permitimo-nos fazê-la porque (é preciso notá-lo) Vallega é já a forma no documento mais antigo que da localidade temos, o de 1102.
(Não de 1002: no apógrafo, faltou um C. Basta atender a que se trata de bispo de Coimbra, Maurício, que o foi aí entre 1098 e 1108. Que o não visse Miguel de Oliveira em 1925, compreende-se, mas ainda trinta anos depois admiraria… Fica o necessário aviso, pois que cerca de 1957 já ele dizia certa a data).
Nesse documento, de facto, a “villa Dagaredi” (na actual freguesia) refere-se situada “discurrente rivulo Vallega”, isto é águas correntes ao “rio Válega” – e põe-se logo o problema: deu o rio o nome à localidade que actualmente o tem, ou a localidade deu-o ao rio? Qualquer dos casos ocorre – e logo aqui temos a actual igreja de S. Vicente de Pereira em 1002 (neste caso, sim, data certa) como situada “discurrente rivulo Azevedo”, topónimo que só poderia tê-lo sido de lugar de início – o que veremos, Deo volente, na sua oportunidade. Estes dois riozinhos são quase paralelos, e muito vizinhas as suas partes superiores sobretudo. Não se julgue ociosa a questão no encaro do topónimo Válega – étimo e significação.
Monsenhor Miguel de Oliveira
O referido Monsenhor Miguel de Oliveira, cerca de 1957 – um pouco mais precavido já nesta melindrosa matéria –, opinou que o “étimo está no latim vulgar *vallica, equivalente a vallicula, pequeno vale”. Não diz onde colheu isto, pois que não era filólogo e de Filologia nada entendia. J. P. Machado, por exemplo, diz o mesmo exactamente: “Do latim *vallica, equivalente a vallicula, pequeno vale”.
Não creio tivesse copiado de M. de O., e eu posso dar a minha palavra de que algures, antes deste, havia eu tido, ou até emitido, a mesma opinião: somente não consigo hoje é descobrir onde – o que, de resto, não interessa, porque basta tal opinião, seja ela original de quem for.
Foneticamente, a evolução de vallica a “vállega” é impecável. A estabilidade dessa forma, Vállega, é também, um dado a favor, visto que temos com ela a primeira notícia. No entanto, faço estes reparos:
1.º O nome aparece num curso de água em 1102. Logo de início, pois, ao que parece: ou seja, designa um acidente hidrográfico, e não orográfico (“valle”).
2.º O sinónimo apontado, vallicula, originou Valhelhas (logo, por “valhelha”), e um parece que deveria dispensar o outro se no mesmo sentido.
Estas duas razões – que não são decisivas, diga-se já – trazem consigo a concordância de ser *vallica (como vallicula), ao contrário de “vale” actual, um nome feminino, pois que “vale” (topográfico) de início também o era, de harmonia com o étimo (o latim vallis): mas isso não impede outras objecções:
3.º Não há razão alguma para se considerar, aqui, essa topografia como determinante da designação: apesar da lei da contingência toponímica (que não posso agora desenvolver), sucede que são vários os cursos de água quase paralelos e muitos vizinhos, nesta zona à beira da “ria” (onde vão desaguar), e, portanto, pequenos como eles são, vários são os pequenos vales correspondentes, não se compreendendo que apenas neste ou num só caso se aplicasse a designação *vallica, hoje Válega.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 1994)
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