14.9.17

Os mercados em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/04/2017)
TEXTO: José de Oliveira Neves



Até à inauguração, em 1955, do atual mercado, situado no local do antigo celeiro do Cabido do Porto, acima da capela da Senhora da Graça, os mercados em Ovar distribuíam-se por várias ruas e largos, conforme os produtos a comercializar, e funcionavam em dias diferentes.

No “João Semana” de 15 de junho de 2013 escrevi sobre os mercados de peixe em Ovar. Hoje, de uma forma mais generalizada, vou recordar aquilo a que os nossos antepassados chamavam “a praça”.
Mercado de Ovar e Escola Conde Ferreira, anos 40-50 do séc. XX

“O mercado da Praça, é de poucos anos anterior a 1779, aos domingos, e, mais tarde, diário, na Praça do Comércio. Em 1871, na presidência da Câmara do Dr. Manuel Arada, junto à Escola do Conde Ferreira, foi construído um mercado cuja planta para as suas barracas estava concluído a 16 de Agosto de 1871, tendo sido arrematada a sua construção nesse mesmo mês”[1].

Paços do Concelho, atual Praça da República, anos 20

Nos anos 40/50 do séc. XX, comercializavam-se ali os produ­tos hortícolas, e numas barracas encostadas ao muro de separação da referida escola vendiam-se carnes, lãs, algodões, carvão, calçado, etc. Outra barraca fora do recinto era ocupada por um relojoeiro, e, ao longo do grade­amento, no passeio da atual Rua Elias Garcia, que cercava o espaço limitado, comercializavam-se os objetos de cerâmica, tais como alguidares, assadeiras, canecos, caçoilas, etc. Junto das escadas da Farmácia Lamy, na direção do chafariz Neptuno, vendiam-se flores, e, na Praça da República, (largo em frente à Câmara), mon­tavam as suas tendas os negocian­tes de fazendas, roupas e outros produtos, sendo as vendedeiras de tecidos conhecidas pelas de Pardilhó, por serem quase todas daquela localidade.

Mercado na Praça da República, 1934

No mesmo local, na berma da estrada que se­gue na direção da capela de Santo António, as ven­deiras de fruta da época expunham em canastras os seus produtos. O largo de S. Tomé, atual Pra­ça Mouzinho de Albuquerque, era, então, conhecido por “Praça das Galinhas”, nome que ainda hoje perdura, por ter sido nesse local o mercado das aves de capoeira – galinhas, patos, perus, pombas, etc. –, sendo ali igualmente ven­didos os coelhos.
Em frente da capela de Santo António vendiam-se as cordas e outros artigos de cordoaria, assim como, no tempo próprio, melões e melancia. E após as festas em honra deste santo popular, no final da missa, havia um leilão das carnes e chouriços e de outras prendas que os devotos ofereciam ao santo. Estes mercados, como o das galinhas, em S. Tomé, eram realizados ao domingo de manhã.

Vendedor de banha de cobra  no largo de Sto. António, década 60

O grande mercado da Praça efetuava-se ao sábado, desde o romper do dia até ao meio da tarde. Nos anos 40/50 do século passado era uma verdadeira feira, muito concorrida, onde se encon­trava quase tudo, e onde havia muita animação. Apareciam ali os homens e as mulheres que, trans­portando umas pequenas caixas de papelão, se apresentavam como vendedores da banha de cobra, uma gordura que, diziam eles e elas, fazia bem a quase todas as doenças.
Para atraírem a atenção dos possíveis compradores, realizavam primeiramente umas demonstra­ções circenses de magia, fazendo desaparecer baralhos de cartas, ovos, pombas, etc. Noutro local da Praça, utilizando melodias em voga na época, cantavam-se poemas que descreviam recentes tragédias vindas nos jornais. A es­ses artistas populares chamavam­-lhes “desgraçadinhos”, por eles cantarem somente as desgraças acontecidas.
Em 1960 a Escola Conde Fer­reira demolida e o espaço por ela ocupado, conjuntamente com a área contígua, pertencente ao mercado, deu lugar ao Tribunal.
Hoje, ao passar por queles sí­tios, a geração posterior aos anos 50 encontra uma paisagem muito diferente da anterior.
Vale a pena ler a história da nossa terra, para se conhecer e admirar as transformações nela operadas através dos tempos.

Notas:
[1] Alberto Sousa Lamy, “Dicio­nário da História de Ovar”, volume 2.
José de Oliveira Neves


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de abril de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/09/os-mercados-em-ovar.html

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