TEXTO: Vítor Bonifácio*
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| Fig. 1- Cone de sombra da Lua durante um eclipse solar total |
Um eclipse solar ocorre quando a Lua se interpõe entre a
Terra e o Sol. Num dado ano podem ocorrer entre dois e cinco eclipses solares,
sendo a primeira situação muito mais comum. Os eclipses solares são de
diferentes tipos – parciais, totais, anulares e híbridos –, dependendo das suas
características. Entre 1999 A.C a 3000 D.C ocorrerão 11898 eclipses solares,
dos quais 35,3% serão parciais, 33,2% anulares, 26,7% totais e apenas 4,8%
híbridos.
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| Fig. 2 - Fotografia da corona solar obtida no eclipse solar total de 28 de maio de 1900 |
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| Fig. 3 - Cone de sombra da Lua durante um eclipse solar anular |
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| Fig. 5 - Previsão da trajetória do vértice do cone de sombra da Lua no dia 17 de abril de 1912 |
Os motivos que impeliam astrónomos das mais diversas
nacionalidades a deslocarem-se, por vezes, a localizações exóticas, distantes e
inóspitas para observarem os poucos minutos da totalidade de um eclipse solar,
sofreram uma alteração ao longo do século XIX. Se até 1860 os astrónomos
procuravam verificar o desfasamento entre a realidade e as previsões, por forma
a melhorar estas últimas, após esta data pretendiam, essencialmente, estudar as
características físicas de várias estruturas solares apenas observadas durante
um eclipse total do Sol, como, por exemplo, a corona (fig. 2). As
caraterísticas do eclipse de 17 de abril de 1912, em particular a sua curta
duração, levaram a que as observações astrofísicas fossem preteridas em
detrimento de outras destinadas a determinar com maior precisão os parâmetros
utilizados no cálculo dos eclipses.
Assim, a expedição portuguesa, liderada pelo professor de
Astronomia da Universidade de Coimbra Francisco Miranda da Costa Lobo, procurou
determinar os limites da faixa de totalidade. Em Ovar foram estabelecidas 9
estações de observação, uma principal e oito secundárias, dispostas ao longo de
uma linha de 6 quilómetros de extensão que ia do Carregal ao Cadaval,
atravessando a cidade. Nesta linha existiam doze estações de observação,
incluindo as russas e a francesa, afastadas entre si aproximadamente 500
metros. J. H. Worthington e Slatter, da expedição do observatório solar de
South Kensington, de Londres, estavam localizados aproximadamente quatro
quilómetros a norte de Ovar, e pretendiam realizar observações astrofísicas. Em
Ovar estavam ainda Pierre Salet, do Observatório de Paris (acompanhado pela sua
esposa), Nicolai Donici (ou Donitch) e o Barão E. von Pahlen, da Rússia. O
maior contingente era o da Universidade de Coimbra, constituído essencialmente
pelos alunos da disciplina de Astronomia, lecionada por Costa Lobo (fig. 6).
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| Fig. 6 - Vários dos observadores do eclipse. A contar da esquerda para a direita, os três primeiros são Nicolai Donici, Barão von Pahlen e Pierre Salet e o último é Costa Lobo |
O dia não gorou as expectativas dos astrónomos, e as
observações decorreram conforme estava previsto. Worthington considerou o
eclipse total, obteve uma fotografia do espectro solar e observou visualmente a
corona. Por seu lado, Salet considerou o eclipse quase anular, notando que
nunca tinha deixado de ver as contas de Baily durante a fase máxima do eclipse.
(As contas de Baily são zonas luminosas descontínuas, observadas habitualmente
no início ou fim da totalidade, e resultam da irregularidade do perfil lunar).
As zonas mais elevadas da Lua cobrem a superfície solar, enquanto que os vales
não. Este fenómeno dura apenas alguns instantes, e a sua observação, neste
caso, apenas indica que os diâmetros aparentes da Lua e do Sol eram
aproximadamente iguais.
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A observação mais original
A observação mais original ocorrida em Ovar foi, no
entanto, realizada na estação principal portuguesa, localizada na quinta do Sr.
João Bernardino, em S. Miguel. Nesta estação, ao lado dos principais
instrumentos da expedição da Universidade, todos eles de dimensões modestas
devido a longos anos de falta de investimento na astronomia nacional,
encontrava-se um aparelho não habitual - uma câmara de filmar. Segundo o
Comércio do Porto no dia 17 de Abril de 1912:
“ [...] .o tenente
snr. Nogueira Ferrão, habilissimo photographo-amador e que ultimamente se tem
dedicado, com muito exito, á cinematographia, socio da União Cinematographica
Limitada de que faz parte o Jardim Passos Manoel, esteve hontem em Ovar,
adaptando o apparelho cinematographico ao telescopio da Universidade, com a
auctorização e de combinação com o illustre dr. Costa Lobo. Assim,
cinematographou todas as phases do eclipse.”
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| Fig. 7 - A câmera de filmar pode ser vista do lado esquerdo da fotografia. Costa Lobo encontra-se por detrás do teodolito com um chapéu de coco |
A câmara estava acoplada a uma lente de 1,14 metros de
distância focal e 7 centímetros de abertura. O sistema estava colocado horizontalmente,
sendo alimentado por um helióstato, como se pode observar na figura 7. O sistema obtinha imagens do Sol com 10,6 milímetros de
diâmetro e registou as fases parcial e “total” do eclipse. Sabe-se que durante
a fase de “totalidade” a câmara obteve 560 imagens por minuto, mas
desconhece-se a duração total do filme. Analisando as imagens cinematográficas,
Costa Lobo verificou que as contas de Baily não se distribuíam simetricamente
em torno da Lua. De facto, e de acordo com ele, em 40 imagens (4,4 segundos) as
contas de Baily apareciam apenas na direção perpendicular ao movimento da Lua,
isto é, na direção dos polos lunares (fig. 8).
(*) Professor Auxiliar do Departamento de Física da Universidade de Aveiro
(vitor.bonifacio@ua.pt)
(vitor.bonifacio@ua.pt)
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE ABRIL e 1 DE MAIO DE 2012)
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Ovar e o estranho eclipse de 1912
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| Observando o eclipse de 1912, em Ovar |
Como o autor escreveu no “João Semana” de 15 de abril e 1 de maio últimos, o eclipse de 1912, cuja faixa de totalidade intersetou parte do
concelho de Ovar, foi um raro eclipse híbrido, com uma duração máxima de
totalidade de 0,02 s, sendo observado por quatro expedições científicas (três
estrangeiras e uma nacional) localizadas em Ovar e seus arredores, em boas
condições atmosféricas, permitindo que as observações fossem bem-sucedidas. O
primeiro filme científico português foi realizado em Ovar, na estação principal
da expedição, liderada por Francisco Miranda da Costa Lobo que, a partir da
análise das imagens cinematográficas obtidas, propôs a existência de um
achatamento lunar, o que constituiu um resultado inesperado na época. Dar a
conhecer esta importante observação realizada em Ovar foi o objetivo da
palestra do investigador.
Visite a exposição sobre o eclipse de 1912 numa das
galerias do Museu de Ovar.
(Jornal "João Semana", de 1 de julho de 2012)
No final da palestra, a propósito de algumas intervenções que foram feitas, foi sugerido pelos presentes que seria de interesse para a comunidade vareira e científica que fosse editada o mais brevemente possível uma obra sobre esta temática que tanto diz respeito a Ovar.











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