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3.11.14

Os Vareiros da Região do Vouga

Jornal JOÃO SEMANA (01/07/1995)
TEXTO: José Maria Marques*

Quando nos é dado identificar certas e determinadas épocas e ter acesso à vivência das gentes que mais caracterizam, através dos seus usos e costumes, estamos colocados na posição de melhor as podermos retratar, evocando todo um passado, cada vez mais valorizado no presente, porque traduz um naco de cultura e constitui alicerce básico e seguro para a construção do futuro.

O Povo Vareiro

Talvez possamos encontrar aqui algo que identifica o “Povo Vareiro”, diga muito da sua imagem e semelhança e o situe na terra onde nasceu e cresceu, dignificou e ilustrou com a dureza do seu trabalho a valia de uma singela, mas significativa humildade.
Sem grande atavio, porque era igual a si próprio, abdicando do fato domingueiro, que também soube vestir quando as circunstâncias o exigiam, pé descalço, boné de chavelhos, camisa de flanela quadriculada com a fralda de fora, ceroula abaixo, ceroula acima, passo aligeirado, cangalhas às costas  com os cabazes carregadinhos da petinga, ainda a saltar, e com o sentido exacto de quem na vida tinha de vencer para garantir a sua sobrevivência e a do seu agregado familiar, assim apareceu na minha aldeia, tempos idos, essa figura ímpar do homem “Vareiro”.

Pescador com as cangalhas (desenho de Zé Penicheiro)
Manhã cedo, porque tinha de chegar antes dos outros, com o toque do búzio e o inconfundível pregão “é a malga, é à malga, quem quer comprar fresquinha e viva da nossa costa”, era esta a voz que se fazia sentir, era esta a presença esperada pelas gentes da minha Terra e de outras parcelas da Região do Vouga, que nesses cabazes encontravam a razão de ser do considerado “talho dos pobres”.
À, homem de uma figa!...
A tua chamada era perfeitamente entendida pelas simples e humildes mulheres, que na arregaçada traziam a malguinha, de permeio com os ovos ou alguns cereais, moeda com fidúcia garantida para pagamento daquele pescador, troca directa convencional e, por isso, sem reserva aceite, quando necessário.
Entretanto, o toque do sino, lá do alto do campanário, assinalava o meio-dia, hora própria para o retemperar de forças e o aconchegar ao estômago o naco da broa e um pouco de conduto, regado com um copito do tinto na taberna da Tia Laurinda.
Na aldeia, onde todos eram primos e primas, Povo isento do racismo, com relativa facilidade se familiarizava com esta gente, a quem proporcionava o cavaquear das horas de sesta e a sobremesa de uma “soecada”, animada com o cigarro de tabaco saído da onça amachucada e embrulhado na mortalha unida pela saliva, que lhe emprestava melhor sabor e permitia rolar de canto a canto…

Barqueiro do Vouga

Chegada a hora de retomar o trabalho, e porque o pescado já tinha sido vendido, o “Vareiro” ou “Murtoseiro”, assim era designado, corria para o monte onde seleccionava os pinheiros mais carregados de pinhas secas e,  por mais altos que fossem, com a corda nos pés, mais parecia o “gato veloz” trepando até à ponta, de onde, com o auxílio de pequena vara, atirava essas mesmas pinhas que de seguida apanhava para a velha rede de pesca, vulgar ornamento do pau das cangalhas.
Era esta a mais eficiente acendalha, senão o melhor combustível da época, que transportava às costas durante a viagem de retorno até à sua modesta, mas nobre casinha.
Mas esta figura, situada em terras do Vouga, não se limitou somente a trabalhos desta espécie, foi fonte de inspiração para valorizar as telas de célebres pintores, foi como que o adorno a servir de moldura para o encaixilhar do mais vivo e inesquecível quadro, quando tomado como o Timoneiro arrojado e seguro do seu “barco à vela”.
A vara bem segura pelas mãos calejadas e fixada no firme para permitir a corrida da proa à ré, era como que o motor a “gás pobre” arrastando, Vouga acima, a avantajada carga de sal e pescado oriundo  da Cidade de Aveiro e com rumo, ora à região do interior, outras vezes à serrana, onde era trocado pelos molhinhos de carqueja e gravetos ou as saquinhas de carvão por que a Cidade esperava.
O “Barqueiro do Vouga” escreveu uma página de verdadeira glória, documentada em toda a extensão da “vela” da sua embarcação com o trabalho árduo, talvez premiado com o amor da “Serraninha” e imortalizado nas quadras que lhe foram dedicadas e que tanto contribuíram para a valorização do Folclore da Região do Vouga:

Peixeira 
(Postal de Zé Penicheiro)
Lá vem o barco à vela,
Lá vem a sardinha fresca,
Lá vem o meu amorzinho,
Assentadinho na cesta.

Não quero um amor fereiro,
Que é custoso de lavar,
Antes quero um barqueirinho
Que vem lavado do mar.

Foste dizer para a Murtosa,
Que me deste um anel,
Eu também te dei um lenço,
Com teu nome, Manuel.


De quando em vez, a mulher, sua companheira de uma vida, também calcorreava as Terras do Vouga para, de porta em porta, vender a sardinha.
Visitante menos frequente, mas sempre bem recebida e a saber fazer amizades, por cá deixou algumas das suas tradições em troca das que levou como recompensa de um intercâmbio que construiu e soube alicerçar.

Andar à Roda

Foi figura típica e algumas vezes cobiçada pela forma como se apresentava e vestia, tudo simples em gente simples, mas, diga-se em abono da verdade, só ela sabia pôr sobre a cabeça o lenço chinês atado atrás, a contrastar com o chapelinho, que mais parecia a coroa de uma rainha sem trono, a ter como complemento a blusa de chita e a saia de lã vergasta, contornada pelo xaile enrolado à cintura com pontas caídas, a deixarem ainda visível e para admirar, o garrido e bem confeccionado avental.
Em dias de festa, convites não lhe faltavam, com os cordões ao pescoço e arrecadas, vestindo roupagem da melhor, por aqui aparecia na companhia do seu marido e fazia mesmo questão de trazer o resto da família. Ainda recordamos, como o guloso de olhos fitos no bolo mais adocicado, umas certas mocetonas, filhas dessa gente e que punham a cabecinha dos moços locais a “andar à roda”, tal era o palminho de cara e o corpo esbelto dessas princesinhas murtoseiras.
E as galinheiras da Murtosa!... ali, na Rua do Carvalho, estamos a ver a Tia Ascensão e a sua mana Isaura ocupadas com o encestar, nas artesanais jaulas de vime, das galinhas e coelhos, que haviam de ser despachadas no “Vouguinha” com rumo a Lisboa.
Quem não as conhecia?
Rua abaixo, rua acima, de porta e de poleiro em poleiro, ao som do tradicional e típico pregão “mercamos galinhas e coelhos, quem quer vender?...”, não lhes escapava o malhado e mais gordo roedor, nem o capão de penas douradas, pegados por aquelas mãos, a servirem de balança, que raras vezes se enganavam no peso.
Os maridos, tidos como emigrantes, mourejavam por terras da América do Norte, onde talvez a vida lhes sorrisse de forma diferente, para um futuro mais promissor.
O respeito e a dignidade por quem tinha ausente, estava bem patente na maneira de ser destas “Murtoseiras” do “antes quebrar que torcer”.
Era dia de festa, com honras de “larada” à porta do casebre que ocupavam, quando o carteiro Miranda lhes trazia a longa carta, lida e relida, portadora do cheque em dólares e das desejadas notícias de como a vida estava a correr. Se tudo fosse agradável, bebiam o “meio litro” e continuavam a caminhada do dia a dia. Porém, se o contrário acontecia, corriam-se as cortinas, fechavam-se as portas e, junto à lareira, ainda a fumegar, pedia-se a Deus para que melhor sorte os contemplasse.

As Mulheres dos Vareiros

A idade ia correndo, o negócio não era mau, importava por isso passá-lo de mão. As sucessoras, suas filhas, Arminda e Isaura, que até então se incumbiam da vida caseira lá por terras da Murtosa, chegavam a Mourisca do Vouga para treinarem o pôr à cabeça da canastra envolvida em rede de arame, não fosse fugir algum galináceo ou o mais lesto coelho, que sobre a multicolor rodilha e o lenço de lã, a cobrir as aloiradas e compridas tranças, mais parecia o berço de embalar ou o equilíbrio do manejar das ancas daquelas figurinhas dignas do mais requintado presépio Vareiro.
Estamos a ver como ao Domingo apareciam no “Largo da Capela”, dignas do mais fino toucador, abdicando do lenço a favor do “pupu”, blusa e saia de chita do mais colorido padrão, avental com os bordados e rendinhas, para ter como remate o cobiçado laçarote muito a seu gosto, tudo conjugado com o pé descalço a penetrar dentro da chinelinha de verniz que só elas sabiam calçar e movimentar.
E quando, ao Sábado, já horas mortas, tomavam a sua banhoca em larga e resistente bacia de zinco, que Deus nos perdoe… mas não resistíamos no dar da olhadela através dos vidros semi-partidos daquelas abençoadas janelinhas que tanta beleza deixavam ver…
Apetece-nos evocar Camilo para dizermos que, tal como a “Mariana, mais valeriam estas Murtoseiras do que quantas fidalgas tem Viseu”.
Se o povo Vareiro teve honras do tocar do sino quando se aproximava da romaria à Senhora da Saúde, no Alto do Gestoso, lá p’rás bandas de Vale de Cambra, não deixou de as continuar a merecer na região do Vouga, ao ser tomado como irmão e Amigo, a proporcionar o saciar da fome de muitos lares, deixando que o seu braço fosse a confirmativa de uma amizade duradoura.
Assim vimos os Vareiros a emoldurarem o maravilhoso rincão do vale do Vouga, muito embora algo fique por dizer da sua passagem e permanência entre nós, o que, aliás, será motivo para registarmos logo que o factor tempo o permita.
                                                                                                                                                                  (*) “Soberania do Povo” (21/04/1995)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de julho de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/11/os-vareiros-da-regiao-do-vouga.html

6.7.10

Vareiros e vareiras no Porto

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2001)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Diz-nos o escritor portuense Hélder Pacheco no livro da sua autoria “Porto”, que no início do século XIX muitos ovarenses migraram para a capital do norte, indo fixar-se na zona da Falperra, conhecida como bairro de gente vareira. Outros debandaram para Afurada, Ouro e Carvalhido.
Nesta última zona fundaram uma grande colónia. Eram os “vareiros do Carvalhido”. Pescavam o sável no rio Douro e apanhavam marisco na costa marítima.
Muito devotos do Senhor da Pedra, àquela romaria gaiense deslocavam-se em grupos, calcorreando a pé vários quilómetros e formando animadas danças tal como acontecia, aliás, nas suas idas a Nadais, Carregosa, Senhora da Saúde da Serra, etc.
É curioso que, vivendo eles da faina do mar e do rio, tenham procurado o Carvalhido, na parte oriental da cidade, longe do local onde labutavam no dia-a-dia.
Foi também nesta época do princípio do século XIX que para o Porto se deslocaram muitas mulheres ovarenses, para ali exercerem a profissão de peixeiras. A cidade conhecia-as muito bem. Eram as vareiras!... Umas vendiam o peixe grosso: corvina, badejo, etc. e outras, o miúdo: carapau, sardinha, faneca e outras espécies semelhantes. Fixaram-se em grande parte junto ao rio: na Ribeira, no Barredo, nos Guindais, etc.
Vareira palmilhando uma rua do Porto
Quando fui para essa cidade trabalhar, em 1947, comecei a conviver com algumas daquelas vareiras que para aí afluíram já nos finais do século XIX e princípios do séc. XX. Porque já não me recordo dos nomes de todas, a não ser os da Conceição Faísca e das minhas tias Elvira e Maria, a quem as colegas conheciam pelas “do padre”, vou apenas citar os apelidos pelos quais algumas delas eram conhecidas. Lembro-me de ouvir falar na Dicha, Charneira, Criosa, Ceboleira, Passarinha, Araújo, etc.
Nos finais da Primeira Guerra Mundial, por volta de 1918, e daí em diante, muitos vareiros emigraram para os Estados Unidos, como anteriormente o faziam para o Brasil. Muitas vareiras no Porto eram casadas com esses emigrantes e, conforme a vida lá fora ia sorrindo aos seus maridos, iam abandonando a venda do peixe, regressando a Ovar para se tornarem domésticas.
A vida das nossas vareiras no Porto era difícil: manhã cedo, por volta das 7 horas, saíam a caminho do Mercado Abastecedor de Peixe que, na época, era o Anjo, que eu ainda conheci, no Jardim da Cordoaria, no local onde hoje se encontra o Palácio da Justiça. (Só mais tarde foi construído o do Bom Sucesso, na Boavista). Abastecidas com o pescado, e com as canastras à cabeça, bem pesadinhas, partiam para as zonas da cidade onde moravam as suas freguesas. A Elvira do Padre foi, durante muitos anos, a fornecedora do peixe para o Seminário Maior da Sé do Porto, onde era muito considerada.
Palmilhando a pé, com sol ou com chuva, aquelas ruas íngremes, alcantiladas, como o são grande parte das ruas do Porto, subindo e descendo escadas, muitas vezes até ao 3.º e demais andares dos prédios, num tempo em que estes não possuíam elevador, não esmoreciam no trabalho. Saíam de casa com o pequeno-almoço – às vezes iam tomá-lo ao botequim do mercado – e assim andavam quase todo o dia, a não ser quando alguma freguesa lhes dava um prato de sopa. Não tinham horas para comer, nem para o regresso a casa.
No fim da venda, viam-se essas vareiras a lavar as suas canastras na rampa e nas escadas típicas dos Padeiros, junto ao tabuleiro inferior da ponte D. Luís [na foto].

O Porto visto pelo fotógrafo Alvão
Assim como em Lisboa chamam varina a qualquer vendedeira de peixe, seja ela de que origem for, também na cidade do Porto, ainda hoje, qualquer peixeira, seja ou não de Ovar, é conhecida por vareira. E é pela vareira que os portugueses chamam quando precisam de se abastecer de pescado.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Outubro de 2001)