Jornal JOÃO SEMANA (01/07/1995)
TEXTO: José Maria Marques*
Quando nos é dado identificar certas e determinadas épocas e ter acesso à
vivência das gentes que mais caracterizam, através dos seus usos e costumes,
estamos colocados na posição de melhor as podermos retratar, evocando todo um
passado, cada vez mais valorizado no presente, porque traduz um naco de cultura
e constitui alicerce básico e seguro para a construção do futuro.Talvez possamos encontrar aqui algo que identifica o “Povo Vareiro”, diga muito da sua imagem e semelhança e o situe na terra onde nasceu e cresceu, dignificou e ilustrou com a dureza do seu trabalho a valia de uma singela, mas significativa humildade.
Sem grande atavio, porque era igual a si próprio, abdicando do fato domingueiro, que também soube vestir quando as circunstâncias o exigiam, pé descalço, boné de chavelhos, camisa de flanela quadriculada com a fralda de fora, ceroula abaixo, ceroula acima, passo aligeirado, cangalhas às costas com os cabazes carregadinhos da petinga, ainda a saltar, e com o sentido exacto de quem na vida tinha de vencer para garantir a sua sobrevivência e a do seu agregado familiar, assim apareceu na minha aldeia, tempos idos, essa figura ímpar do homem “Vareiro”.
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| Pescador com as cangalhas (desenho de Zé Penicheiro) |
À, homem de uma figa!...
A tua chamada era perfeitamente entendida pelas simples e humildes mulheres, que na arregaçada traziam a malguinha, de permeio com os ovos ou alguns cereais, moeda com fidúcia garantida para pagamento daquele pescador, troca directa convencional e, por isso, sem reserva aceite, quando necessário.
Entretanto, o toque do sino, lá do alto do campanário, assinalava o meio-dia, hora própria para o retemperar de forças e o aconchegar ao estômago o naco da broa e um pouco de conduto, regado com um copito do tinto na taberna da Tia Laurinda.
Na aldeia, onde todos eram primos e primas, Povo isento do racismo, com relativa facilidade se familiarizava com esta gente, a quem proporcionava o cavaquear das horas de sesta e a sobremesa de uma “soecada”, animada com o cigarro de tabaco saído da onça amachucada e embrulhado na mortalha unida pela saliva, que lhe emprestava melhor sabor e permitia rolar de canto a canto…
Barqueiro do Vouga
Chegada a hora de retomar o trabalho, e porque o pescado já tinha sido vendido, o “Vareiro” ou “Murtoseiro”, assim era designado, corria para o monte onde seleccionava os pinheiros mais carregados de pinhas secas e, por mais altos que fossem, com a corda nos pés, mais parecia o “gato veloz” trepando até à ponta, de onde, com o auxílio de pequena vara, atirava essas mesmas pinhas que de seguida apanhava para a velha rede de pesca, vulgar ornamento do pau das cangalhas.
Era esta a mais eficiente acendalha, senão o melhor combustível da época, que transportava às costas durante a viagem de retorno até à sua modesta, mas nobre casinha.
Mas esta figura, situada em terras do Vouga, não se limitou somente a trabalhos desta espécie, foi fonte de inspiração para valorizar as telas de célebres pintores, foi como que o adorno a servir de moldura para o encaixilhar do mais vivo e inesquecível quadro, quando tomado como o Timoneiro arrojado e seguro do seu “barco à vela”.
A vara bem segura pelas mãos calejadas e fixada no firme para permitir a corrida da proa à ré, era como que o motor a “gás pobre” arrastando, Vouga acima, a avantajada carga de sal e pescado oriundo da Cidade de Aveiro e com rumo, ora à região do interior, outras vezes à serrana, onde era trocado pelos molhinhos de carqueja e gravetos ou as saquinhas de carvão por que a Cidade esperava.
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| Peixeira (Postal de Zé Penicheiro) |
Lá vem a sardinha fresca,
Lá vem o meu amorzinho,
Assentadinho na cesta.
Não quero um amor fereiro,
Que é custoso de lavar,
Antes quero um barqueirinho
Que vem lavado do mar.
Foste dizer para a Murtosa,
Que me deste um anel,
Eu também te dei um lenço,
Com teu nome, Manuel.
De quando em vez, a mulher, sua companheira de uma vida, também calcorreava as Terras do Vouga para, de porta em porta, vender a sardinha.
Visitante menos frequente, mas sempre bem recebida e a saber fazer amizades, por cá deixou algumas das suas tradições em troca das que levou como recompensa de um intercâmbio que construiu e soube alicerçar.
Andar à Roda
Foi figura típica e algumas vezes cobiçada pela forma como se apresentava e vestia, tudo simples em gente simples, mas, diga-se em abono da verdade, só ela sabia pôr sobre a cabeça o lenço chinês atado atrás, a contrastar com o chapelinho, que mais parecia a coroa de uma rainha sem trono, a ter como complemento a blusa de chita e a saia de lã vergasta, contornada pelo xaile enrolado à cintura com pontas caídas, a deixarem ainda visível e para admirar, o garrido e bem confeccionado avental.
Em dias de festa, convites não lhe faltavam, com os cordões ao pescoço e arrecadas, vestindo roupagem da melhor, por aqui aparecia na companhia do seu marido e fazia mesmo questão de trazer o resto da família. Ainda recordamos, como o guloso de olhos fitos no bolo mais adocicado, umas certas mocetonas, filhas dessa gente e que punham a cabecinha dos moços locais a “andar à roda”, tal era o palminho de cara e o corpo esbelto dessas princesinhas murtoseiras.
E as galinheiras da Murtosa!... ali, na Rua do Carvalho, estamos a ver a Tia Ascensão e a sua mana Isaura ocupadas com o encestar, nas artesanais jaulas de vime, das galinhas e coelhos, que haviam de ser despachadas no “Vouguinha” com rumo a Lisboa.
Quem não as conhecia?
Rua abaixo, rua acima, de porta e de poleiro em poleiro, ao som do tradicional e típico pregão “mercamos galinhas e coelhos, quem quer vender?...”, não lhes escapava o malhado e mais gordo roedor, nem o capão de penas douradas, pegados por aquelas mãos, a servirem de balança, que raras vezes se enganavam no peso.
Os maridos, tidos como emigrantes, mourejavam por terras da América do Norte, onde talvez a vida lhes sorrisse de forma diferente, para um futuro mais promissor.
O respeito e a dignidade por quem tinha ausente, estava bem patente na maneira de ser destas “Murtoseiras” do “antes quebrar que torcer”.
Era dia de festa, com honras de “larada” à porta do casebre que ocupavam, quando o carteiro Miranda lhes trazia a longa carta, lida e relida, portadora do cheque em dólares e das desejadas notícias de como a vida estava a correr. Se tudo fosse agradável, bebiam o “meio litro” e continuavam a caminhada do dia a dia. Porém, se o contrário acontecia, corriam-se as cortinas, fechavam-se as portas e, junto à lareira, ainda a fumegar, pedia-se a Deus para que melhor sorte os contemplasse.
As Mulheres dos Vareiros
A idade ia correndo, o negócio não era mau, importava por isso passá-lo de mão. As sucessoras, suas filhas, Arminda e Isaura, que até então se incumbiam da vida caseira lá por terras da Murtosa, chegavam a Mourisca do Vouga para treinarem o pôr à cabeça da canastra envolvida em rede de arame, não fosse fugir algum galináceo ou o mais lesto coelho, que sobre a multicolor rodilha e o lenço de lã, a cobrir as aloiradas e compridas tranças, mais parecia o berço de embalar ou o equilíbrio do manejar das ancas daquelas figurinhas dignas do mais requintado presépio Vareiro.
Estamos a ver como ao Domingo apareciam no “Largo da Capela”, dignas do mais fino toucador, abdicando do lenço a favor do “pupu”, blusa e saia de chita do mais colorido padrão, avental com os bordados e rendinhas, para ter como remate o cobiçado laçarote muito a seu gosto, tudo conjugado com o pé descalço a penetrar dentro da chinelinha de verniz que só elas sabiam calçar e movimentar.
E quando, ao Sábado, já horas mortas, tomavam a sua banhoca em larga e resistente bacia de zinco, que Deus nos perdoe… mas não resistíamos no dar da olhadela através dos vidros semi-partidos daquelas abençoadas janelinhas que tanta beleza deixavam ver…
Apetece-nos evocar Camilo para dizermos que, tal como a “Mariana, mais valeriam estas Murtoseiras do que quantas fidalgas tem Viseu”.
Se o povo Vareiro teve honras do tocar do sino quando se aproximava da romaria à Senhora da Saúde, no Alto do Gestoso, lá p’rás bandas de Vale de Cambra, não deixou de as continuar a merecer na região do Vouga, ao ser tomado como irmão e Amigo, a proporcionar o saciar da fome de muitos lares, deixando que o seu braço fosse a confirmativa de uma amizade duradoura.
Assim vimos os Vareiros a emoldurarem o maravilhoso rincão do vale do Vouga, muito embora algo fique por dizer da sua passagem e permanência entre nós, o que, aliás, será motivo para registarmos logo que o factor tempo o permita.
(*) “Soberania do Povo” (21/04/1995)
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de julho de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/11/os-vareiros-da-regiao-do-vouga.html



