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20.10.17

Algumas notas toponímicas ovarenses – Válega

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/1994)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

A. de Almeida Fernandes,
historiador medievalista
O topónimo Válega, se não é aquele que dessa desgraça mais sofreu, ocupa, incontestavelmente, um dos primeiros lugares no “historial” ignaro das pretensas explicações: por vezes, nem sequer uma letra comum, como quando se lhe liga a Betaonia do séc. VI! Além desta, até (lá de Espanha) Baneza – e juntem-se, de cá Bitarães com Vectica, com Barbola, com Besea do séc. VI, etc.!
Um delírio que não atendia sequer a que, geograficamente, nem proximidade, muito menos coincidência, havia: enfim, sequer ao menos aquilo que eu tenho chamado “olho-e-orelha”.
À vista e ouvidas, de facto, pertencem as opiniões de três autores: um com “valego” e “velegado” palavra achada em Viterbo, e dois com "valle" em razão do elemento vall –, de “Vallega”. Mas o segundo, -ega, era-lhes o cume dos trabalhos, pois que até de Valdágua, Onega, Garei existentes na freguesia de Válega actual!
Horrores – e há uns setenta anos o então Padre Miguel de Oliveira (natural daí), embora declarando (muito bem) que tais explicações são aceitáveis “na razão inversa da erudição”, aconselhava a que “escolha o leitor a que mais lhe apraz”. Ora o que não se pode é admitir que alguém aconselhe a adopção livre de desconchavos, tanto mais que esse autor – que foi historiador académico mais tarde – sabia que existiam leis fonéticas a nunca transgredir, embora as ignorasse: mais culpado, de certo modo, que os outros, porque já vigorava então o método glotológico, tão científico, pelas suas leis e domínio, como outro que mais científico seja.
Igreja Matriz de Válega
Foto: DR
As leis fonológicas, em cada idioma, são tão científicas como as leis físicas ou as leis químicas: falar sem elas é o que há, pois, de mais anticientífico – e, no entanto, até isso nos vem hoje das universidades, especialmente uma chamada Universidade Nova de Lisboa. Se acima chamei delírio as opiniões anteriores ao estabelecimento do dito método, com não menos razão posso chamar uma desgraça (ou então pagodeira) as posteriores.
Exposto o indecente quadro por uns instantes necessários – até porque pode funcionar como espelho para quem, mirando-se nele, for capaz de sentir-se envergonhado –, passemos a considerações dentro do método próprio e único e que, ainda assim, não estabelecem uma certeza: e a razão é que não há apenas uma possibilidade de explicação científica e lógica.
É claro que não se pode negar que a “fisionomia” e a consonância numa palavra cujo étimo se busca não deixam de actuar e serem justas no espírito do investigador – mas é precisa uma imensa cautela.
Como o leitor tem notado, quando há alguma possibilidade de decomposição, não rejeitável in limine como o são os disparates, poderemos efectuar, ao menos, a tentativa de adoptá-la para criticarmos os resultados – dentro da ciência (leis fonológicas) e da lógica (a congruência toponímica, tão indispensável como aquela). Essa decomposição seria Vall - ega, com -ega átono, e permitimo-nos fazê-la porque (é preciso notá-lo) Vallega é já a forma no documento mais antigo que da localidade temos, o de 1102.
(Não de 1002: no apógrafo, faltou um C. Basta atender a que se trata de bispo de Coimbra, Maurício, que o foi aí entre 1098 e 1108. Que o não visse Miguel de Oliveira em 1925, compreende-se, mas ainda trinta anos depois admiraria… Fica o necessário aviso, pois que cerca de 1957 já ele dizia certa a data).
Nesse documento, de facto, a “villa Dagaredi” (na actual freguesia) refere-se situada “discurrente rivulo Vallega”, isto é águas correntes ao “rio Válega” – e põe-se logo o problema: deu o rio o nome à localidade que actualmente o tem, ou a localidade deu-o ao rio? Qualquer dos casos ocorre – e logo aqui temos a actual igreja de S. Vicente de Pereira em 1002 (neste caso, sim, data certa) como situada “discurrente rivulo Azevedo”, topónimo que só poderia tê-lo sido de lugar de início – o que veremos, Deo volente, na sua oportunidade. Estes dois riozinhos são quase paralelos, e muito vizinhas as suas partes superiores sobretudo. Não se julgue ociosa a questão no encaro do topónimo Válega – étimo e significação.
Monsenhor Miguel de Oliveira
O referido Monsenhor Miguel de Oliveira, cerca de 1957 – um pouco mais precavido já nesta melindrosa matéria –, opinou que o “étimo está no latim vulgar *vallica, equivalente a vallicula, pequeno vale”. Não diz onde colheu isto, pois que não era filólogo e de Filologia nada entendia. J. P. Machado, por exemplo, diz o mesmo exactamente: “Do latim *vallica, equivalente a vallicula, pequeno vale”.
Não creio tivesse copiado de M. de O., e eu posso dar a minha palavra de que algures, antes deste, havia eu tido, ou até emitido, a mesma opinião: somente não consigo hoje é descobrir onde – o que, de resto, não interessa, porque basta tal opinião, seja ela original de quem for.
Foneticamente, a evolução de vallica a “vállega” é impecável. A estabilidade dessa forma, Vállega, é também, um dado a favor, visto que temos com ela a primeira notícia. No entanto, faço estes reparos:
1.º O nome aparece num curso de água em 1102. Logo de início, pois, ao que parece: ou seja, designa um acidente hidrográfico, e não orográfico (“valle”).
2.º O sinónimo apontado, vallicula, originou Valhelhas (logo, por “valhelha”), e um parece que deveria dispensar o outro se no mesmo sentido.
Estas duas razões – que não são decisivas, diga-se já – trazem consigo a concordância de ser *vallica (como vallicula), ao contrário de “vale” actual, um nome feminino, pois que “vale” (topográfico) de início também o era, de harmonia com o étimo (o latim vallis): mas isso não impede outras objecções:
3.º Não há razão alguma para se considerar, aqui, essa topografia como determinante da designação: apesar da lei da contingência toponímica (que não posso agora desenvolver), sucede que são vários os cursos de água quase paralelos e muitos vizinhos, nesta zona à beira da “ria” (onde vão desaguar), e, portanto, pequenos como eles são, vários são os pequenos vales correspondentes, não se compreendendo que apenas neste ou num só caso se aplicasse a designação *vallica, hoje Válega.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 1994)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/10/algumas-notas-toponimicas-ovarenses.html

20.4.13

Salinas da Villa Dagarei (Válega)

Planta militar - Ovar em 1809
Jornal JOÃO SEMANA (01/12/1995)
TEXTO: Armando de Almeida Fernandes 

Na história local ficaram referências precisas sobre a existência e localização, em Ovar, de várias marinhas de sal, situadas ao longo das margens e até no interior da nossa Ria. (Lembramos que toda a faixa litoral entre a laguna e o mar, pelo menos, até São Jacinto, era considerada território vareiro).
A revista "REIS", da JOC-LOC de Ovar, publicou, em 1985, um trabalho alusivo ao assunto ("Sal: Também são lágrimas de Ovar", da autoria do Chefe de Redacção deste Jornal). (CLIQUE no link, a azul)
Hoje, o "João Semana", pela pena brilhante do nosso colaborador Dr. Armando de Almeida Fernandes, faz uma incursão mais aprofundada pelas salinas do Cabedelo, "na villa de Dagarei", em Válega, que foram, há mais de mil anos, objecto de uma compra e venda.

Relatório sobre o Documento n.º 35
de «Diplomata et Chartae» (ano de 929)

1 - O Documento (traduzido do latim o mais literalmente possível).

"Cristo. Em nome de Deus, eu Toresário presbítero, juntamente com meus "irmãos e irmãs", a vós Viliulfo abade, e também aos vossos "irmãos": "Apraz-nos que, por boa paz e vontade, vos vendamos, a vós, sobreditos, tal como vendemos, as nossas salinas próprias, que possuímos na «villa» Dagarei; e essas salinas estão situadas no lugar sobredito onde dizem Cabedelo, junto à corte de salinas de Aires, da parte do esteiro de Fontela. Vendemos a vós metade dessa corte por inteiro, com seus "muros" e mar ou seus "vasos": tudo vos vendemos; e da parte do "monte", vendemos a vós, aí, seus muros "pedrinhas" e o seu "casar", com seu acesso e suas fontes, e, da parte do mar, seus "cepais" e terreno para fazer salinas. Vendemos a vós tudo o que assim consta acima, por inteiro, de tudo vós a meia e nós a meia; e recebemos de vós, por preço, seis soldos "galicanos", como a nós apraz, e desse preço nada fica (por pagar), para que, desde hoje em dia, essas salinas, ou tudo o que assim acima consta, seja retirado da nossa posse e domínio para os vossos, e o hajais em pacífico direito, e o reivindiqueis para sempre, vós e toda a vossa descendência. Se alguém, em seu são juízo  o que não cremos minimamente se faça   vier contra esta carta, para a desrespeitar, e nós a não reclamarmos para a vossa parte, paguemos a vós em dobro essas salinas e quanto por vós tiverem sido melhoradas, e a vós (garantamos) perene direito. Foi escrito no dia dois das calendas de Setembro (31 Agosto) da era 967 (ano 929).
Toresário presbítero, juntamente com meus "irmãos" e "irmãs", roboramos por nossas mãos. Sargentina confirmo. David (que), sou, por testemunha.
Toresário presbítero, Ermegildo abade, confirmantes. Ermegildo diácono, testemunha. Pepe, Aires, Vilifredo, Soniarico, Teudo, Sisnando presbítero (testemunhas?).
Aires Dagaredes, confirmante por minha mão, Beloi, Froilo e Donadilde, testemunhas. Ermemiro, testemunha. Astrualdo, confirmante. Damiano, presbítero, testemunha. Ranemiro, Daniel presbítero, testemunhas. Virlemundo, confirmante. Adaulfo converso, confirmante. Benedito presbítero, testemunhas. Ortrefredo presbítero (notário?)".



2- Objecto da venda

Trata-se de salinas na "villa Dagarei", grande parte (esta "villa") da actual freguesia de Válega. Essas salinas situavam-se no sítio do Cabedelo, para a parte do esteiro da Fontela. O documento, depois de dizer "salinas", define-as como "corte", o que significava, sempre, quer uma parte quer, ainda melhor  e é o caso   um conjunto delas: certamente bem determinado (pela situação acima expressa), pelo que se diz que se trata de metade da "corte" (cuja outra metade ficava na posse do vendedor, ou não era por ele vendida). A venda, todavia, distingue, no objeto da venda, ainda um prédio (pelo menos) que nada tem com as salinas, situado, como era, mais para o interior (sentido da expressão "de parte monte", expressamente contraposta "de parte maris", no litoral).
Na "parte do mar" ou para as "salinas", são referidos notáveis acidentes: "muros", "vasos", "cepais", e "terrenos" destinados a fazer salinas. Os "muros" devem ser os das salinas, limitantes dos "vasos", que só podem ser o interior deles, a preencher de água salgada para a extracção do verdadeiro ouro branco que, então, era o sal, o boom económico  da época. Os "cepais" é óbvio que nada podem, aí, ter com as cepas da videira: suponho que se trata de terrenos especiais (entre os "terrenos" expressos), nos quais havia vegetação de porte (própria dos terrenos aquosos, ou húmidos), e daí o nome "cepal". Compare-se com o topónimo minhoto Cepa Poçã, que combina a "cepa" com a água (de poça, ou simplesmente estagnada), e isto leva-me a crer que o termo "sapal", de hoje, proveio de "cepal", quando os sons ç e s (surdo) se confundiram. Daí a ideia de "sapo" (o batráquio) errónea; e, até, "assapar" (com "sapa" regressivo, ou deverbal) no sentido de desmoronar (muros e terrenos, sobretudo por efeito das águas). A confusão referida deve ter começado no séc. XVI. Para melhor ou mais prova de que a venda não é só de salinas, isto é, prova de contraposição  que até a escusava  do "mar" ao "monte" (o litoral ou orla, e o interior) é que, neste, além de muros de pedra ("pedrinhas"), havia também um "casar", palavra arcaica sinónimo de "casal" (predial): a este estavam, ou estariam, pois, adstritas as salinas vendidas; e daí figurar tudo como um todo.


O que logo resulta é o que já a geografia e, sobretudo, a geologia podem demonstrar: a "ria" (aliás falsa: é um haff-delta) não existia ainda. O mar ou água "marinha" livre (daí "marinha" a designar também uma salina, entre outras acepções) chegava à localidade (Cabedelo, Fontela, etc.), em Válega: mas a "ria" estava já a formar-se, como resulta da formação de um "cabedelo" (qual na foz de outros rios notáveis), antecedente ao cordão litoral que hoje limita, do lado do mar, aquele notável acidente geográfico. Era o resultado da acumulação de detritos líticos, arrastados pelo mar e pelas águas fluviais (do Vouga e outros cursos de água, embora menores, como em Válega); e não podemos dar às salinas, em Válega, uma importância de maior, visto que o haff-delta estava já em formação, obstruindo a liberdade das águas marinhas ou salgadas; e o nosso documento é ele mesmo a referir terrenos onde poderiam estabelecer-se salinas, que, pois, ainda neles havia: "terreno pro salinas facere". Se mais chegou a haver, não deveriam ser, pois, muitas  ou pelo menos muito duradouras, e daí não por demais intensa e duradoura a exploração local do sal. Enfim, é bem verdade que, se há uma História "geográfica", também há (e aqui se revela) uma Geografia "histórica".

3-  Os vocábulos

Já referi o suficiente a respeito de "muros", "vasos" e "casar", e também de "cabedelo": mas interessa a etimologia deste nome, que é um diminutivo medieval, em -ello, se houve  como parece  "cabedo" (do lat. caput). De outro modo, "cabedello" teria provindo de um lat. capitellu - (mais de "capitia" "cabeça" que de caput, no mesmo sentido). De notar, em Geografia histórica, além do "cabedello), a existência de um "esteiro", onde ia desaguar o riacho que originou o topónimo Fontela: "stario (de) fontanella". Além do "cabedello" (terreno), havia-se formado, pela mesma causa sedimentar, o de certo modo seu oposto (águas), um "esteiro" < lat. aestuariu (> estuário"), a água de certo modo mesmo aprisionada pela sedimentação. Assim se realça mais a inexistência da "ria" há mil anos e o princípio (já talvez adiantado) da sua formação.
Também já ficou dito o suficiente a respeito de "cepales" (cepais, hoje sapais, como creio e julgo justificar): de "ceppo" < lat.  cippu –, tronco, como penso expliquei. Quanto a "muros petrineos", temos o adjectivo "pedrinho" (que a toponímia ainda conserva, às vezes já isolado), significativo de feito de pedra. Para os "solidos galliganos" < * gallecanos, não poderemos asseverar a Galiza, porque também poderia tratar-se da Gália (a França): como se trata de moeda, e se está, ainda, nos inícios do séc. X, será mais de crer em dinheiro da Galiza?
Dentro da morfologia e da fonética, são aqueles os principais casos anotar: o onomástico pessoal merece um parágrafo próprio. A terminologia do documento nada oferece de especial nem, bem assim, a sua redacção, ou sintaxe: é o que há de mais usual ou vulgar, então.

Na Carta Militar de 1848 estão registados os nomes de algumas das numerosas salinas medievais de Ovar:
a do Cabedelo, em Dagarei (Válega), já documentada em 929, as da Tijosa (Teiossa) e Espinhosela,
 citadas em 1404 como do Mosteiro de Moreira e abandonadas, e as de Carvalhosa e Marinha Nova,
que em 1540 pagavam dízimos ao Cabido da Sé do Porto e ao pároco de Válega

4- As pessoas

Igualmente nada se oferece de especial ou notável: eclesiásticos e leigos - entre estes, duas senhoras (Froilo e Donadíldi), sendo que era muito raro servirem mulheres de testemunhas, como estas serviram. Nas elucidações "fratres vel sorores", é que não sei se se trata de irmãos e irmãs carnais (família), se deles religiosos, tanto mais que são referidos a um "presbítero" (o vendedor) e a um "abade" (o comprador). Nenhum personagem importante, ou que tivesse deixado nome, ou renome.
Na origem, os antropónimos  ao todo, vinte e cinco  são quase todos germânicos, e seria fastidioso, para além de sobretudo inútil (afora ocupar muito espaço) versar, aqui, a sua etimologia. De notar, somente, que "Sargentina" (confirmante) deve estar por "Sargentinu", não só porque era raro o testemunho de mulheres, mas também porque é frequente a confusão de u com a, ou de a com u, em escrita visigótica. (Merece um reparo tal n. pessoal: ele nada tem com o n. comum "sargento", que nos veio de França, com serg , o bastante para afastar tal procedência, ou ideia: deve ser um n. pessoal de origem zoonímica, como vários da época, isto é, do lat.  sargu , o "sargo", peixe então, e hoje, de excelência, isto é, sargu- com o suf. entus, *sargentus, a que, pessoalmente, se aplicou o suf. -inus, diminutivo, *Sargentinus. Pelo peixe  não só sal , convém a Válega, e é caso único).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de dezembro de 1995)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/04/salinas-da-villa-dagarei-valega.html

ADENDA -----------------------------------------


Capela de S. Miguel de Válega
Capela de S. Miguel de Válega

Documentos do século XII e XIII aduzidos pelo Padre Miguel de Oliveira no Arquivo do Distrito de Aveiro (vol. III, 1937, pág. 130) falam não só da Igreja de S. Cristóvão (de Cabanões, 1147), mas de duas Capelas: S. Donato (do tempo dos suevos?) e S. Miguel. Comenta aquele autor: “As marinhas parecem estender-se desde perto da capela de S. Miguel para sul e poente até à Ria” (pág. 132).
Julgamos que esta Capela de S. Miguel que o Padre Miguel de Oliveira identifica como da Paróquia de S. Cristóvão (hoje de Ovar), será antes, a que fica na freguesia de Válega, no lugar do mesmo nome, mais próxima da Ria e das suas antigas marinhas de sal.

22.10.09

Pereira de Susã e Pereira Jusã

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/1998)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

Mais que desagradável, foi-me sempre ingrato pronunciar-me acerca de problemas respeitantes a localidades que eu não conheça directamente. Tal o caso enunciado, que me foi posto para isso, e já há muito, por dois bons amigos, a quem peço desculpa para a tardança, que fica explicada.


Sítio da antiga Igreja de S. Vicente de Pereira, próximo da Igreja actual
(séc. XVIII), no antigo lugar de Pereira de Susã
Pereira é nome de um lugar da freguesia de Válega, e Pereira Jusã o nome da freguesia cuja igreja fica uns bons quilómetros a nordeste daquele: como explicá-los, sendo que Pereira, que foi vila, na freguesia de Válega, aparece – e não há muito sucedia – como “Pereira Jusã” também, tal a freguesia de S. Vicente, vizinha?
Trata-se de caso frequente: toda aquela área constituía, outrora – há milénio, e mais –, uma “villa” só, no sentido territorial-agrário (e não vila na acepção municipal, categoria que teve Pereira, de Válega, e não S. Vicente de Pereira Jusã). Quando se erigiram as duas freguesias referidas, parte da “villa” ficou numa, e parte na outra – coisa, repito, frequente [1]. Monsenhor Miguel de Oliveira viu isso já, e, portanto, bem, embora o não esclareça, por “villa” repartida paroquialmente, na origem [2]. Este aspecto da questão fica solucionado, clara e facilmente…
O outro aspecto é a designação Pereira Jusã para a freguesia de S. Vicente, sendo Pereira Jusã a vila extinta, na freguesia de Válega. Julgo que não oferece problema de maior: uma apropriação do nome da dita vila, muito auxiliada pela ignorância em que aí se caiu do sentido de “Jusã”, que significava “de baixo”. Ora, a actual Pereira Jusã fica “de cima”, o que denuncia o facto; e até o esclarece segundo acabo de dizer, o que é também frequente [3]. Realmente, a incongruência é muito expressiva – e mais: nenhum autor, nem sequer Mons. Miguel de Oliveira, se refere ao facto de a freguesia de Pereira Jusã actual aparecer, nas inquirições de D. Dinis de 1288 e nas suas sentenças de 1290, como Pereira Susã (melhor, Pereira de Susã), isto é, de cima, pois Jusã é relativo a Pereira da freguesia de Válega, que está abaixo e foi, pois, a legítima Pereira Jusã (Pereira de Jusã) [4].

Câmara e Cadeia (à esq.), Pelourinho e Capela de S. Sebastião,
do extinto concelho de Pereira Jusã (Válega)
Registo, portanto, que hoje Pereira Jusã, na freguesia de S. Vicente actual, só pode explicar-se por apropriação, como em vários casos no País, embora já antiga, mas posteriormente ao século XIII – XIV. Fica até melhor opinião.
Outro aspecto muito interessante é o concernente ao termo da vila de Pereira, em Válega, o qual abrangia os núcleos actuais de Guilhovai (antigo Guillivar), na freguesia de Ovar, Bustelo, na freguesia de Válega, Cácemes, na freguesia de S. Vicente de Pereira Jusã, e o couto e freguesia de Cortegaça (do concelho de Ovar); mas este assunto, com outros igualmente interessantes, não me foi submetido à apreciação possível, motivo por que não lhe toco.

Capela e Quinta de N.ª Sr.ª da Conceição, em Pereira Jusã (Válega)

Notas:
[1] Na minha freguesia natal, por exemplo (a qual é pequena), nada menos de três lugares estavam nessas condições, isto é, repartidas por duas paróquias e, o que é mais, até por duas circunscrições administrativas medievais (“terras”), diferentes. Ver o meu livro “A História de Britiande” (1997), págs. 76-77, 80-81,85-87, 120-123. E, ainda hoje, sucede lá isso: lugares repartidos por duas freguesias.
[2] Cf. O seu livro “Válega” (1981), págs. 110 – 151.
[3] Assim, Vila Nova de Gaia, na freguesia da Feitosa, e Ponte de Lima, era, de início, só Gaia (de Acaia, no foral de 1125 daquela vila); assim a Vila Cova à Coelheira, no concelho de Seia, com influência de igual designação da freguesia do concelho de Vila Nova do Paiva (esta com a única e documentada Coelheira). À freguesia de Pampilhosa do Botão, concelho de Mealhada, ouvi eu chamar Pampilhosa da Serra há muitos anos, por confusão com esta (no distrito de Coimbra, e vila).
[4] C.f. T. do Tombo, “Inquirições de D. Dinis”, L. 4, fls. 4v.º-5, e “Inquirições da Beira”, fls. 13,v.º-14.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Novembro de 1998)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/10/pereira-de-susa-e-pereira-jusa.html

ADENDA --------------------------------------

A tempo: Acabo de receber fotocópias de artigos de Mons. Miguel de Oliveira (“Qual é o nome exacto da freguesia de S. Vicente”, em “Notícias de Ovar”, n.º especial, 1952), e do P.e Dr. Manuel Pires Bastos (“Um delito toponímico”, em “João Semana” 1/5/1981, e “S. Vicente de Pereira sim, S. Vicente de Pereira Jusã, não!” em “João Semana” de 1/6/1981 e 15/7/1981), nos quais o problema do nome da freguesia de S. Vicente já está resolvido – e segundo aquilo que, no meu texto, expus.
De facto, S. Vicente Pereira Jusã é um absurdo, histórico e topográfico: é “de cima (Susã, como na designação antiga), e, pois, só S. Vicente de Pereira. Se se quiser epitetar, então ponha-se “Pereira Susã” naquela designação.
Nada fiz de original, porque, repito, o caso já estava resolvido.
Devo, porém, notar que o epíteto, errado, “Jusã” já ocorre à roda de 1950, na "Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira" (s.vv. Ovar e Pereira), e no mapa(s.v. Ovar).
Urge, pois, desfazer o engano. O que o meu artigo, agora, significa é, repito, a conformidade com os artigos agora recebidos. A. A. F.

22.8.09

O Pelourinho de Pereira Jusã - Existe uma peça original

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2005)
TEXTO: António Pinho Nunes

Na 1.ª edição da “Monografia de Ovar”, o Dr. Alberto Lamy refere-se à extinção do concelho de Pereira Jusã e diz que “em 1914, na sessão camarária de 3 de Janeiro (…), foi decido que se vendessem em hasta pública os antigos paços do concelho de Pereira Jusã com todas as suas pertenças” [na foto].


O pelourinho no primitivo local, antes de 1914, ano em que foi vendido
Em nota, o mesmo autor acrescenta: “foi também vendido, na mesma altura, o pelourinho de granito, constituído por uma coluna cilíndrica encimada por um globo”. E citando o P.e Miguel de Oliveira que, em 1952, escreveu um artigo sobre Válega num número extraordinário do “Notícias de Ovar”, comemorativo dos centenários de Ovar, refere que o historiador valeguense escreveu a respeito: “A coluna veio a ser aparelhada para pardieira de uma porta; a bola foi escavada e serve agora (1952) de pia a um cão…” [Na foto].

Entretanto, alguns anos antes da reconstituição do pelourinho (no qual está inscrita a data de 1989), Alberto da Fonseca Figueiredo, residente em Valdágua, descobriu em casa de D. Palmira Pereira (residente no lugar de Pereira e muito próximo do actual pelourinho), o que lhe parecia ser o tal globo que rematava a coluna e que, por sinal, ainda servia de pia a um cão…Convencido de que estava ali uma parte importante do pelourinho, pediu a pedra à senhora, que lha ofereceu.
É curioso que, ao contrário do que informa o P.e Miguel, o globo não parece ter sido mais escavado do que foi inicialmente, isto é, para ser encaixado no topo da coluna. A abertura com 0,12 m de diâmetro, a profundidade com 0,19 m e a perfeição do trabalho de cantaria dão a indicação de que era assim que o globo encaixava, à justa, no topo da coluna.

Desta, nem vestígios. Pessoa idónea afirmou-me que estava na casa de uma familiar, no lugar da Azenha. 

No entanto, não vi lá jeitos de nada…
O pelourinho, reconstituído na actualidade, junto ao antigo tribunal
Porém, no quintal em frente da antiga Casa da Câmara estava uma pequena coluna que parecia… Foi-se lá ver se a bola encaixava. Pois não! Chegou-se, então, à conclusão de que se tratava de um simples “frade”, mas de tamanho invulgar.
Portanto, parece que podemos chegar à conclusão de que aquela pedra é o tal remate do pelourinho de Pereira Jusã.
Além disso, as fotos (a antiga e a actual) e a própria pedra encontrada, revelam que se trata do mesmo globo.

Onde pára, agora, essa relíquia?

Está no lugar mais indicado, que é o Museu de Ovar, por oferta feita pelo referido Sr. Alberto Figueiredo, em 10/1/2005. Junto, está uma outra preciosidade que pertenceu à Câmara do Concelho de Pereira Jusã, e que é a sua última bandeira. Após a extinção do concelho, em 1852, essa bandeira foi levada para Ovar e serviu como bandeira da Câmara. Pena é que esteja tão danificada!
E, já agora, ao falar em Pereira Jusã, não posso deixar de lamentar a degradação progressiva em que se encontra a casa-capela da “Quinta do Fonseca”, frente ao actual pelourinho. Oxalá me engane, mas estou cada vez mais convencido de que aquela preciosidade é mesmo para cair.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/08/o-pelourinho-de-pereira-jusa.html