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19.4.16

A alquilaria Constantino

Jornal JOÃO SEMANA (01/10/2000)
TEXTO: Mário Miranda

A Alquilaria Constantino, situada no Largo da Estação dos Caminhos-de-ferro, tinha grande movimento no período da minha infância e até 1932/34, chegando a possuir duas parelhas de cavalos, bem tratados pelo seu cocheiro, José Loureiro, e sempre prontos para levar a Arada ou a S. Vicente os brasileiros que desembarcavam na estação, carregados de malas. O transporte era feito em “charabans”, como então se chamavam.
Por vezes, dada a quantidade de malas, estas tinham de ser bem amarradas, já que as estradas a isso obrigavam. E tudo, depois, lá seguia em ordem, sem que os passageiros tivessem de ficar em terra…
Ainda me recordo também de este tipo de carruagem ser utilizado para transportar o médico Dr. Salviano Cunha, pai do saudoso Dr. Mário Cunha, ao posto médico da estação da C.P.. Só que o Dr. Salviano, pouco tempo depois, veio a usar como meio de locomoção uma moto, que julgo ter sido a primeira a chegar a Ovar.
O Sr. Constantino tinha ainda duas “LANDAU”, fechadas com duas portas laterais e quatro lugares – sendo dois à frente e dois atrás  geralmente preferidas para casamentos.

A fina flor de Ovar no casamento do Dr. José de Almeida ("Dr. Almeidinha"), Administrador
 do Concelho e Conservador do Registo Civil, com D. Maria Emília Barbosa de Quadros, em
 16 de outubro de 1897, na Igreja Matriz de Ovar. Foto de Ricardo Ribeiro, pioneiro da Fotografia entre nós. Será este o mais antigo registo fotográfico de rua entre nós?

Os fins-de-semana estavam sempre ocupados com este género de serviço, havendo duas parelhas de cavalos, prevendo a hipótese de aparecer mais do que um casamento. Nunca era por falta de transportes que estes não se realizavam…
Aos cavalos jamais faltava comida, porque o Sr. Constantino transaccionava, em quantidade, fardos de palha. Era frequente receber na estação dos Caminhos-de-ferro vagões de palha vinda do Alentejo. (Mesmo depois de ter acabado com as carruagens, porque os automóveis lhe vieram estragar o negócio, a venda de palha continuou ainda durante anos).
Acompanhei muito de perto a azáfama da Alquilaria, tendo tido oportunidade de conversar, variadíssimas vezes, com o Sr. Constantino, que tinha sempre diversas histórias para contar acerca da sua movimentada vida, diariamente ocupada com os cavalos, as carruagens, os cocheiros.
Nas viagens mais distantes, muito além dos limites do concelho, quase sempre para estrangeiros vindos no caminhos-de-ferro, era ele que conduzia e quem fixava o custo.
Ainda hoje estão de pé os edifícios da sua residência e da Alquilaria, que não sofreram alterações.
Na altura, existiam ainda dois “charabans”: um do Realeiro e outro do Jerónimo. Só que os animais destes não apresentavam o aspecto físico dos do Constantino, e creio mesmo que não faziam grandes percursos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de outubro de 2000)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/04/a-alquilaria-constantino.html

30.1.14

O “Ida e Volta”

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2004)
TEXTO: Mário Miranda

Falar do conhecido e saudoso grupo do “Ida e Volta”, que fazia viagens diárias entre Ovar e Porto, é recordar como se viajava, há dezenas de anos, e como eram conhecidos, na altura, os comboios.
Tramways, do inglês, deu a palavra aportuguesada Tramueis, aplicada aos comboios entre Aveiro e Porto. O povo, no tempo da minha infância, chamava-lhes os tramas. Mais tarde a CP cognominou-os de Tranvias Hoje são chamados Suburbanos.
Era no tempo em que os conhecíamos por tranvias, que o grupo “Ida e Volta” viajava entre Ovar e Porto. Já vinham de longe essas viagens, mas foi depois de 1950 que o grupo começou a engrossar e a tomar forma, e de tal modo que se pensou confraternizar anualmente com um passeio pela Ria.

Alberto Capitão, António Ferraz, Manuel Monteiro, Horácio Fernandes, António Camossa, Fernando Pinto, 
Mário Batista, Manuel Santos, Augusto Lamy, Manuel Sanfins, Augusto Catalão, Mário Miranda, 
Arnaldo Rodrigues, José Castro, Leonardo Nordeste, Guilherme Amaral, Eduardo Souza, José Pinto, 
Ferreira de Espinho, Domingos de Válega, António Viana, Belmiro Ramos e Manuel Manarte
Durante algum tempo ainda viajávamos numas primitivas carruagens com varandins nos topos, por onde se fazia a entrada. Tinham vindo da Alemanha, como compensação da Grande Guerra de 1914-1918. Já eram conhecidas como “gaiolas”. Os bancos de pau, divididos a meio por uma tábua de 30 cm de largura, servia de encosto aos passageiros, que ali se sentavam ficando de costas voltadas uns para os outros.
A disposição dos bancos formava um corredor de tipo... risco ao lado.
Se alguma janela se abria, era certo e sabido que entravam faúlhas  queque perturbavam os olhos e, por vezes, inutilizavam alguma camisa… Quando chovia, o guarda-chuva tinha mesmo que ser aberto, porquanto o tejadilho, de lona alcatroada, tinha buracos por todo o lado, abertos pelas faúlhas.
Um dia, quando passávamos a Esmoriz, um senhor, de chapeuzinho, que ali costumava entrar e que tomou a carruagem onde ia o “Ida e Volta”, abriu uma janela do lado oposto e, quando o comboio iniciou a sua marcha, mandou uma valente “cuspidela” para o exterior. De imediato o nosso grupo orquestrou-lhe uma forte vaia, e de tal ordem que ele entendeu mudar de carruagem!
Por referir Esmoriz, lembro-me de que um dia um do nosso grupo, ao passar ali, perguntou ao António Ferraz, que tinha sempre resposta na ponta da língua: – Qual será a especialidade desta terra? 
Resposta pronta do Ferraz: “– Sopa de... aduelas!”.
Depois das gaiolas de varandins, começaram a aparecer as carruagens de portas, cada uma das quais correspondia a um compartimento. As portas eram fechadas por fora , o que as tornava perigosas, porque era frequente ficarem mal fechadas e abrirem-se em andamento.
A seguir vieram outras carruagens, também de portas, mas com corredor lateral, tendo ao centro um wc. Tudo muito sujo, com o agravamento de, no Inverno, o frio entrar por todo o lado, quase nos obrigando a fazer  todo o percurso a bater com os pés no chão, para aquecer. Que gozo que dava aquele barulho infernal até ao Porto! E o guarda-chuva tinha de estar sempre pronto para entrar em acção!
Como se estava a aproximar a chegada do comboio eléctrico, apareceram as carruagens de 1.ª classe. Quando vinha algum revisor dos antigos, desatava a resmungar, por viajarmos naquelas carruagens com bilhete de 3.ª. Só que a conversa dele entrava-nos por um ouvido e saía pelo outro!
Passámos muito maus bocados quando o comboio chegava atrasado a Ovar, pois era certo e sabido que também chegava atrasado ao Porto, já que não podia andar a mais de 30/40 km por hora, numa  via que era uma desgraça, mais parecendo uma montanha russa. E quando uma máquina avariava – e a maior parte delas já andavam suspensas por arames –, tínhamos que esperar que outra a viesse substituir. E era frequente acontecerem casos desses.
Nem vale a pena fazer o balanço do quanto hoje se ganhou  em velocidade, em comodidade, em pontualidade e, claro, no aumento do número de comboios disponíveis.
É pena que ainda haja “meninos” educados “modernamente” que têm tendência para inutilizar estofos e para riscar estupidamente as superfícies das carruagens. É pena que não sejam apanhados, para que lhes fosse aplicado um castigo de tal forma severo que nunca mais na vida voltassem a ter vontade de estragar o que tanto custou aos contribuintes!

Estação de Ovar
Quanto ao passeio anual à Ria e à respectiva caldeirada de enguias, nunca falhavam! Nesse dia, o grupo fazia sempre uma verdadeira festa, como o comprova a foto que apresentamos. E todos apareciam!
Os barcos eram do Camossa e, por gentileza, o do Manuel “Guarda-Redes”. Por  vezes, quando havia mais pessoas, também ia o do Lino Brandão, que tinha sempre uma surpresa para oferecer aos visitantes!
Inicialmente, era no Guedes, da Torreira, onde se comia a melhor caldeirada da Ria. Depois variámos, chegando a ir ao cais do Bico, na Murtosa, a uma senhora especialista. Só que, num dos anos, houve uma confusão de datas, o que deu lugar a que a caldeirada ficasse pronta…  com um dia de antecedência. O certo é que, mesmo aquecida, dela nada ficou no fundo dos tachos...
Passeava-se na Ria, brincava-se, parodiava-se. As anedotas saiam em catadupa, dentro de um clima de alegria permanente.
Num dos anos, no lanche, no Barracão do Camossa, a pinga, de boa qualidade, levada pelo Fernando Pinto, fez com que dois dos convivas ficassem de tal maneira bem dispostos que um dizia para o outro: – Ele é tão bom! E se o levássemos para casa?  – Aonde? – Nos bolsos! – E para já!  E desataram a encher de vinho os bolsos um do outro. Só que o que levaram para casa foi, isso sim, “uma mostra da qualidade!...”.
Foram, como se costuma dizer, uns anos passados em cheio, e que nunca mais serão esquecidos!
Ao recordar esses tempos idos, aproveito para homenagear os queridos amigos que há muito já partiram, assim como os seus familiares ainda vivos, a quem desejo boa saúde.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/01/o-ida-e-volta.html

5.11.13

Histórias da Vela na Ria de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2003)
TEXTO: Helder Ventura

1 - Ventos do Sul

No ano de 1394 o nosso Rei D. João I, a pedido dos vereadores e homens bons de Aveiro, escreveu uma carta renovando a determinação dos Reis seus antecessores no sentido de não se lançarem "covos" ou redes de pesca nos canais de Ovar, Aveiro e Vagos, pois dificultavam a navegação dos navios.[1]
Este documento escrito confirma que, na Idade Média, o trânsito de navios transportando pessoas e bens entre estas duas localidades era bastante significativo, contribuindo decisivamente para a estruturação do carácter destes territórios.
Até à Baixa Idade Média e muito antes da data deste documento, a relação desta terra de Ovar com a água era muito diferente daquela que hoje se verifica. Seria possível, por exemplo, navegar directamente do Mar Oceano até às proximidades do Sobral Velho[2], até à Ponte Nova e até à Senhora da Graça...
A história da vela em Ovar tem, pois, História. Senão, vejamos...

Fenícios na Península
O poema Orla Marítima, escrito por Rúfio Festo Avieno, no séc. IV, de uma enorme importância para o entendimento da nossa história, suporta as descrições da costa ocidental da Península num outro escrito muito mais antigo, de um navegador grego de Massália (Marselha). Esta obra, denominada Périplo Massaliota, datada do século VI a. C., descreve sítios e povos da orla costeira do ocidente peninsular, referindo mesmo locais de culto e rituais ao deus púnico Haal Hamon  correspondente ao grego Saturno, protetor dos navegantes   e que, em meu entender, se destinavam, também, a referenciar locais de perigo ou de orientação ao longo da costa. Estes locais estão identificados. Trata-se do promontório Sacrum (Sagres) e da Berlenga Grande. Tínhamos portanto os gregos e antes deles os fenícios e mesmo os egípcios (Alexandria) a demandar as costas da futura Lusitânia. Deste modo, temos por certo que o caminho marítimo entre o Sul e o Atlântico Norte já era conhecido e navegado pelos marinheiros das antigas civilizações Mediterrânicas, pelo menos setecentos anos antes de Cristo.
Oriundos das cidades costeiras do que hoje chamamos Líbano ou Palestina, sendo Tiro a mais importante, os Fenícios eram sobretudo comerciantes e navegadores, e já no tempo do rei Salomão navegavam até às costas ocidentais da Península Ibérica. A sua terra era pobre, mas detinha em abundância um produto fantástico, a madeira. Com esta madeira  os célebres cedros  construíram barcos e uma das civilizações mais determinantes para a nossa cultura. Com a necessidade de comunicar e registar, inventaram o alfabeto, impulsionando a história rumo ao futuro. Neste futuro estão os portugueses e a sua vocação marítima...

Transporte de madeira desde o Líbano, pelos Fenícios, que se fizeram ao mar para fundar
entrepostos comerciais desde o Mediterrâneo ao Atlântico

A "cabotagem" romana
Mais recentemente, no séc. II d. C., foi erguido na Corunha um farol que regista o nome do seu arquitecto, um tal Caio Sévio Lupo[3], de Aeminium (Coimbra). Este farol, a que chamaram a torre de Hércules, teria múltiplas funções, mas aquela que neste momento mais nos interessa é a de orientadora do tráfego marítimo, tanto ou tão pouco intenso que fez com que os romanos ali construíssem aquele farol que, embora muito remodelado, ainda hoje se mantém de pé.
Poderemos concluir que, das primeiras incursões mais ou menos aventureiras em busca de riquezas e terras novas, passámos gradualmente a um tráfego marítimo constante, baseado no comércio e no transporte de matérias-primas, como o estanho e outros metais oriundos das minas do norte da Galiza e mesmo da Bretanha. Mas esse tráfego seria também estratégico e militar, pois os romanos, para conquistarem e manterem as ilhas Bretãs, tinham necessidade de uma frota marítima activa...
Temos, portanto, Romanos[4], e muitos, a navegarem ao longo das nossas costas, nomeadamente os do Norte de África, herdeiros da cultura fenícia e ptolomaica, e que eram navegadores. Bons, ou muito bons?

Galera romana

Farol de Alexandria
Não sabemos. Mas sabemos, por exemplo,  que uma das regras no Porto de Alexandria era a obrigatoriedade de todos os barcos ali aportados disponibilizarem os documentos a bordo para serem copiados na célebre biblioteca da cidade. Livros, mapas, diários de bordo..., tudo! E o que restou do saber náutico da cultura Ptolomaica (Alexandria) passou a estar ao serviço de Roma, que utilizava os barcos e seus marinheiros para o comércio e transporte de tropas e escravos. Naturalmente, a "romanização" da Península, nomeadamente da Lusitânia, assentou fortemente nas rotas de navegação ao longo da costa, do Sul para Norte, caminho marítimo que era sistematicamente percorrido por barcos à vela, no sistema que hoje denominamos por "cabotagem", ou seja, navegação progredindo junto à costa e em viagens relativamente curtas.

Nas costas de Ovar
A presença de culturas marítimas antigas por estas costas de Ovar é, portanto, tão certa como a terra ser redonda. Por aqui aportavam os barcos, para reabastecimentos, reparações ou refúgio de tempestades. Aqui, entre a Ribeira de Mourão e a Ribeira de Cáster, Entre-Águas, Senhora da Graça e Ribeira de S. João encontravam madeira, água doce, aves, ovos, e peixes, muitos peixes, que procuravam, como ainda hoje, os areais da Ria para a desova...
Tínhamos uma paisagem de areais e areinhos, transição de águas doce e salgada, muita fertilidade, muita vida. Condições ideais para a implantação de um porto de abrigo, pois um "cabedelo" de areia protegeria a enseada da fúria directa dos Atlantes. E tínhamos o sal, que se formava espontaneamente nos pequenos charcos, entre duas marés...

[1] Esta carta vem referenciada na "Monografia de Ovar", de Alberto Sousa Lamy (I Volume, 2.ª edição).
[2] Não me repugna nada a ideia de que Muradões seria o Sobral Velho. Um simples passeio a pé pelo caminho que serpenteia ao longo do rio diz-nos que aquele lugar seria muito naturalmente preferido para a ocupação humana no contexto de há mil, mil e quinhentos anos...
[3] Caio Sévio Lupo, único artista Lusitano conhecido.
[4] Por Romanos entendemos povos que se tinham integrado no vasto Império Romano.

(Continua)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Março de 2003)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/11/historias-da-vela-na-ria-de-ovar_1.html

21.9.11

Recordando o “Comboio da Saudade”

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2010)
TEXTO: José de Oliveira Neves

A Estação de Ovar em 1952, ainda com a cobertura da
marquise envidraçada, repleta de gente, à chegada do
“Comboio da Saudade”
Não vou aqui fazer a história da Casa do Concelho de Ovar em Lisboa, porque esse trabalho já foi abordado por mim neste jornal em 15 de Dezembro de 2006. Mas não podia deixar de recordar uma feliz iniciativa desta colectividade, então ainda embrionária: a organização de um comboio-expresso com ligação directa entre Lisboa e Ovar, ao qual deram o nome de “Comboio da Saudade”.
Teve lugar esse acontecimento em 21 de Setembro de 1952, por ocasião das festas centenárias da Vila e da Festa do Mar, e foi levado a cabo por um grupo de vareiros bairristas residentes em Lisboa, com amor acrisolado à terra das suas raízes, pela qual tudo faziam desinteressadamente.
Nessa altura, esses vareiros formavam a Comissão Organizadora da Casa do Concelho de Ovar em Lisboa, instituição que havia de nascer, mais tarde, com o seu primeiro presidente, Dr. Albino Borges de Pinho (1953 a 1957). Um dos objectivos da viagem era, precisamente, despertar nos outros conterrâneos um maior entusiasmo pela nova associação.
Esse objectivo foi alcançado, traduzindo-se num grande sucesso, já que se deslocaram de Lisboa a Ovar vareiros que já aqui não vinham há muitos anos, trazendo consigo vários amigos da capital que não conheciam a nossa terra.
É oportuno registar o nome desses vareiros bairristas, para não serem ignorados pelos seus conterrâneos de hoje: José Augusto da Cunha Lima, presidente da Comissão Organizadora da Casa do Concelho de Ovar em Lisboa, João André M. Boturão, Manuel de Oliveira Ventura, José André Redes, Pelágio José Ramos, Artur de Oliveira Faneco, António A. Pinho Branco, Francisco de Oliveira Faneco, Afonso Pereira de Carvalho e Armando de Oliveira Soares.

Comissão Organizadora da Casa do Concelho de Ovar em Lisboa:
Sentados, da esquerda para a direita: Manuel de Oliveira Ventura, José Augusto da Cunha Lima
 e António Pinho Branco. De pé, pela mesma ordem: Pelágio José Ramos, Afonso Pereira de Carvalho,
José André Redes, Artur de Oliveira Faneco, Francisco de Oliveira Faneco e Armando de Oliveira Soares
Desde a primeira hora, o semanário “Notícias de Ovar” deu bastante apoio a esta iniciativa. E como o seu proprietário, António Coentro de Pinho, era, na ocasião, Presidente da Câmara Municipal de Ovar, tudo se conjugou para que a realização dessa jornada tivesse muito êxito.
No seu número de 18 de Setembro de 1952, aquele semanário convidava o povo e as colectividades do concelho a estarem presentes na estação do caminho-de-ferro da vila para assistirem à chegada do “Comboio da Saudade”, publicando o anúncio da Câmara Municipal de Ovar aqui reproduzido.

A Câmara Municipal de Ovar convidava a população e as colectividades
 do Concelho a comparecerem na Estação à chegada do Comboio
O comboio saiu do Rossio, em Lisboa, às 7 horas do dia 21 de Setembro, chegando a Ovar por volta das 11 horas, conforme estava previsto. Disse-me o Sr. Francisco de Oliveira Faneco, um dos membros da organização, que em Aveiro pediram ao maquinista para que dali em diante fizesse accionar o apito da máquina até à sua chegada a esta vila, no que ele concordou. Isso permitiu que o povo das povoações vizinhas parasse para observar, interrogando-se sobre o que se passava.
Foi em apoteose que o “Comboio da Saudade” entrou na gare da nossa estação. (A foto ainda a retrata com a cobertura da marquise em ferro, coberta de zinco e vidro, desmantelada nos anos 60 do séc. XX devido à electrificação da Linha do Norte). Ali “se viam as entidades oficiais, colectividades com os seus estandartes e a Banda Ovarense, tendo subido ao ar uma grande salva de foguetes”, como se lia no semanário de 25/9/1952.
Seguiu-se um cortejo para a Câmara, onde estava constituída a mesa, com o Presidente, os membros da Comissão Organizadora da Casa do Concelho de Ovar em Lisboa, os vereadores e entidades oficiais e representantes das colectividades locais.
O Sr. António Coentro de Pinho, como primeiro autarca do concelho, deu as boas vindas aos visitantes, tendo-lhe respondido, a agradecer, o Sr. José Augusto da Cunha Lima, presidente da Comissão Organizadora da Casa do Concelho em Lisboa.
O “Notícias de Ovar” informava ainda: “Da Câmara, seguiram estes para o Largo dos Combatentes, onde visitaram a fonte do Hospital, o edifício do antigo Quartel de Infantaria 24 e a Capela de S. Pedro, onde se encontra o “Passo do Calvário”, indo, depois, à Matriz, que viram com particular interesse, alguns dos restantes “Passos” e, finalmente, à casa onde viveu durante algum tempo o grande escritor Júlio Dinis. No fim do almoço, foi-lhes proporcionado um passeio pela Ria até ao Torrão do Lameiro”.
A comitiva partiu de Ovar, com rumo a Lisboa, às 2 horas e 30 minutos do dia 22, como estava previsto, depois de uma despedida comovente para os que seguiam e para aqueles que cá ficavam.

Grupo Coral da Casa do Concelho de Ovar em Lisboa numa visita ao
Estádio Nacional, onde se destacam alguns membros fundadores desta colectividade:
Em baixo, o 1.º da esquerda é José André Redes. De pé, da esquerda para a direita:
1.º Francisco de Oliveira Faneco, e o antepenúltimo o seu pai, Artur de Oliveira Faneco.
Ao recordarmos este acontecimento, que há mais de 50 anos empolgou a população da nossa terra, prestamos homenagem aos nossos conterrâneos residentes, nessa época, em Lisboa, muitos deles já falecidos, os quais, embora vivendo longe, traziam Ovar no coração. Lamentamos que a Casa do Concelho de Ovar em Lisboa, extinta cerca de 20 anos depois, em 17 de Janeiro de 1973, tivesse tido uma existência tão breve.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 139) 

9.1.09

As camionetas da Carreira de Ovar – Furadouro nos princípios dos anos 30

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/1993)

TEXTO: Mário Miranda

Se recordar é viver, cá estamos a contar casos passados no princípio dos anos 30. Apesar de mais de 60 anos passados, ainda está na lembrança de muitos como se apresentavam as camionetas da carreira entre OVAR–FURADOURO.
Claro que não vale a pena comparar a viagem que se faz hoje com a daquela época. Para não falar nas estradas que tínhamos, se é que podíamos chamar-lhe estradas…

Inicialmente, as camionetas eram totalmente abertas. Nem se falava de autocarros, porque, naquele tempo, esse era ainda um nome desconhecido. (Só muito mais tarde, quando começaram a mostrar algum conforto e maior tamanho é que passaram a denominar-se assim).

Perfilavam-se na Praça da República [na foto], e não havia horários. A primeira partia, com lotação algumas vezes incompleta.
A camioneta do HERDEIRO era uma “FORD”, toda pintada de cor verde, semi–aberta, com cortinas para proteger os passageiros das intempéries. O som estridente da sua buzina distinguia-a de todas as outras.
Tivemos ocasião de ver, na recente EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA “MEMÓRIAS DA URBE” no Salão da C.M.O., uma fotografia dos anos 30, onde se vê a camioneta do HERDEIRO estacionada na Praça da República, próximo das bombas de gasolina da VACUM.
O Herdeiro, natural de Guilhovai, tinha chegado há pouco tempo do Brasil, donde já vinha encartado, segundo informação que acolhemos.
A “VAREIRINHA”, do Oliveira, da Arruela, era muito semelhante à do HERDEIRO.
Uma outra, propriedade de Alexandre Seixas, era mais pequena, já fechada, com entrada pela rectaguarda, “de risco ao meio”, como vulgarmente se diz, por ter os bancos dispostos ao comprido, dum e outro lado do corredor. Apesar de pequena, esta camioneta era resistente, e o Seixas um bom profissional de mecânica automóvel. Chegou a ir a Lourdes, com um grupo excursionista, como nos disse um familiar.
Embora andasse pouco tempo em serviço, não esquecemos o camião do Luzio, com rodas de borracha maciça e que pensamos fosse da marca “BERLIET”. Transformado para o transporte de passageiros, possuía bancos de madeira debaixo e por cima do tejadilho.
Escusado será dizer que levava um grande número de pessoas de uma só vez, sobretudo durante as festas do mar. E o mais importante, é que o custo da passagem era metade do que levavam os outros, isto é, apenas cinco tostões. Viajar nela numa estrada cheia de covas e raízes de eucaliptos seculares, a saírem fora do pavimento, tornava-se um verdadeiro tormento… (Existe um registo em azulejo, na estação da CP, com data de 1918, que mostra a referida estrada, com os tais eucaliptos).
Mais tarde aparece uma camioneta da marca Panhard, que oferecia algum conforto, de Amadeu da “Varina” e de outro sócio. Ao que julgamos, venderam-na, depois, ao António Castanheira, passando a ser conhecida pela camioneta do “ António da Veloz”, por o condutor andar sempre com velocidade moderada. Dizia-se mesmo que tinha um calço debaixo do acelerador para não atingir grandes velocidades… A cobrança dos bilhetes era feita pela esposa.
Para além das camionetas, também o “LANDAU” do Constantino da Estação era alugado a grupos que, mesmo pagando mais caro, o preferiam como transporte, por proporcionar uma certa independência e maior gozo na viagem.
Se hoje, no Verão, ao fim-de-semana, o movimento é intenso, já naquela época se viajava muito de camioneta para o Furadouro. Mas muito mais a pé, o que não acontece agora, dados os meios rodoviários ao dispor e ainda porque a maioria das pessoas não está, nestes tempos, disposta a fazer caminhadas, por mais simples que sejam.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Maio de 1993)


António de Oliveira, natural de Lisboa, fixou residência em Ovar em 1919. Teve a “Garage Vareirinha” na actual Rua Rodrigues de Freitas. Em 1929 fez viagens a Fátima, Braga e Sevilha. Teve alvará de Escola de Condução, que passou a Firmino Santos (hoje Escola de Condução Ovarense). Antes de se ausentar para Venezuela, transformou a sua camioneta, que passou a transportar água para o Furadouro.

23.9.08

Um pouco da história das Oficinas de Obras Metálicas

Jornal JOÃO SEMANA (01/12/2001)
TEXTO: Mário Miranda

É sempre interessante dizer alguma coisa da história das Oficinas de Obras Metálicas de Ovar, de que já não há vestígios físicos, pois tudo foi arrasado.
Deram pão a muitos vareiros, mas também a famílias de fora, que por aqui criaram raízes. (Ainda hoje há entre nós excelentes artistas descendentes desses grandes artífices).
Porque lá trabalhei durante dois anos, posso contar um pouco da sua vida.


Foi principalmente nos anos 30 e 40 que as Oficinas se desenvolveram, sobretudo quando as linhas ferroviárias do Minho, Douro, Sul e Sudeste passaram para a CP e se fizeram, em Portugal, inúmeras pontes e muitas obras de arte na rede ferroviária.


Oficinas de Obras Metálicas de Ovar
Ligadas às Oficinas havia quatro brigadas para a conservação das pontes e montagem de novos tramos. Funcionavam de Norte a Sul do País, percorrendo todas as linhas ferroviárias. Conheci dois desses chefes de brigada, o Torres e o Campos, considerados óptimos profissionais. A ponte D. Maria I, no Porto, tinha uma brigada quase permanente que, além da substituição de rebites e de partes de cantoneiras, também cuidava da pintura, considerada fundamental para uma boa conservação. Para o alojamento dos numerosos grupos de trabalhadores que faziam parte das brigadas havia carruagens transformadas em camaratas com beliches, inclusive carruagens-oficinas. Claro que não podia faltar equipamento pesado, como compressoras e muitos outros mecanismos que ficavam junto das pontes.
O chefe geral das Oficinas era o muito conhecido Gaioso, que tinha residência na casa da CP próxima da passagem de nível de S. João, onde se situava a primitiva capela de S. Sebastião, casa que ainda hoje existe. Tinha três filhas, uma das quais casou com o engenheiro Frederico Abragão, que sempre foi o chefe principal dos Serviços Centrais de Engenharia de Lisboa, onde se executavam os projectos para a construção de pontes que, como as outras obras de arte, eram montadas nas Oficinas de Obras Metálicas de Ovar.
Oficinas de Obras Metálicas de Ovar
O responsável de todos os trabalhos oficinais, assim como da montagem de pontes, era o contra-mestre Caridade, homem inteligente e de excepcionais conhecimentos teóricos e práticos.
No extremo das oficinas havia um Grande Plano, para onde, e após uma rigorosa interpretação, os projectos que vinham de Lisboa eram transferidos e convertidos em tamanho natural.
Passava-se, depois, às cantoneiras e chapas, que eram perfuradas e cortadas, seguindo, no seu conjunto, até à linha de montagem. (Neste vai-vem, muitas mais “voltas” o material tinha que levar).
Mas faziam-se outras peças, como Tirefonds e grandes parafusos.
Nos últimos tempos, uma siderurgia alemã fornecia fortes vigas já confeccionadas nos tamanhos necessários para serem usadas nos tramos inferiores, o que poupava mão-de-obra e oferecia maior segurança e duração.
Além da construção de pontes, nas oficinas de Ovar produziam-se e reparavam-se as mais variadas peças utilizadas ao longo da via-férrea, particularmente o que se relacionasse com as agulhas de sinalização, básculas, placas giratórias, aparelhos de dilatação para as pontes, e os simpáticos “Crossmas”, aparelhos trabalhados com o mais variado material e montados em todo o percurso ferroviário e que eram produzidos ou reparados nas Oficinas de Obras Metálicas.
Durante dois anos estive nos serviços de traçagem no Grande Plano, tendo feito trabalhos para pequenas pontes. Depois de alguma prática, o contramestre Caridade entregou-me um serviço de maior responsabilidade, o tramo superior da ponte sobre o rio Ave, na Trofa. Foi um trabalho completo, com o risco directo do plano para cantoneiras e chapas, sendo estas perfuradas e cortadas até à conclusão da sua montagem.
Felizmente não houve qualquer problema.
Foi o meu último trabalho nas Oficinas de Obras Metálicas, donde
segui para a Escola Industrial Afonso Domingues, em Lisboa, para concluir o curso de máquinas e tirar o curso complementar de Electricidade e Telecomunicações, que me havia de abrir outras portas.


O que resta das antigas Oficinas de Obras Metálicas de Ovar
[FOTO: jornalista Fernando Pinto]

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de dezembro de 2001)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/09/um-pouco-da-histria-das-oficinas-de.html