Jornal JOÃO SEMANA (15/01/1977)
TEXTO: Arada e Costa
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| Nossa Senhora da Graça |
Perde-se na ampulheta do tempo a data em que o nosso povo invoca Nossa Senhora da Graça.
Lendas, preces, favores e cantares envolvem, em Ovar, o seu culto, vindo do século XV.
Pelas ruas da nossa terra, ao cair das tardes de Abril e Maio, principalmente, viam-se ranchos de criancinhas a cantarem:
Lendas, preces, favores e cantares envolvem, em Ovar, o seu culto, vindo do século XV.
Pelas ruas da nossa terra, ao cair das tardes de Abril e Maio, principalmente, viam-se ranchos de criancinhas a cantarem:
Senhora da Graça,
De graça estais cheia,
Quando o mar abrange
a lua arrodeia!
Arrodeia, arrodeia,
volta a arrodear.
Nasce na terra,
põe-se no mar!
Põe-se no mar,
É lugar sagrado.
Cantemos todos:
Bendito louvado!
Eram as novenas e promessas a Nossa Senhora da Graça. Na velha lareira da casa avoenga, em noites de invernia, encarrapitado nos joelhos do meu avozinho, ele contava-me muitas histórias dentre as quais uma lenda de Nossa Senhora da Graça.
«A Senhora tinha aparecido nas escadas que davam acesso ao ancoradoiro das Hortas (1). A Senhora fora levada em procissão para a igreja matriz, cantando-se e rezando, louvando tão grande prodígio. A Senhora lá ficara entre flores e luzes. Mas, para grande espanto do povo, ao abrir-se a igreja, no dia seguinte, a Senhora já lá não se encontrava.
De novo regressaram ao cais. A imagem estava no seu antigo lugar. Nova condução para a matriz, e novo desaparecimento. Até que, após várias tentativas infrutíferas, a Virgem aparece com um dístico a seus pés: «Quero que me edifiquem aqui uma igreja em meu nome, e livrarei esta terra do flagelo da peste que grassa no Reino». (2)
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| Altar-mor da Capela da Nossa Senhora da Graça (Ovar), dos finais do séc. XVII |
A linda imagem que a gravura mostra é de pedra, verdadeira relíquia da escola Coimbrã do século XV, possivelmente da primitiva ermida.
Nossa Senhora da Graça era festejada até 1854 em 15 de Agosto e a festa era precedida de uma feira que durava oito dias.
A confraria possuía muitos foros em propriedades rústicas e urbanas.
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Notas:
(1) Hortas: era assim denominado todo o bairro que vai do rio Graça ao Carril: Ali se situavam as salinas que o primeiro e segundo foral de Ovar referem.
(2) A peste grassou durante parte do reinado de D. Duarte, ano a que se atribui o culto de Nossa Senhora da Graça.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JANEIRO DE 1977)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/nossa-senhora-da-graa-entre-lenda-e.html

