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6.8.15

São Cristóvão de Ovar – O reavivar de uma tradição

Imagem (“de roca”) de S. Cristóvão, que até 1910 
tomava parte na procissão do Corpo de Deus
de Ovar FOTO: Manuel Pires Bastos
Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2015)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Num saboroso texto publicado no “Notícias de Ovar” em 10/11/1955, na secção “Saibam quantos…” estranhava o Dr. Zagalo dos Santos que o culto a São Cris­tóvão fosse tão pouco expressivo em Ovar. E perguntava: “Porquê esta ignorância do Dia do Orago da freguesia?”.

Usanças sancionadas por lei
A mesma questão já tinha sido levantada pelo Dr. João Frederico (1818-1870), o primeiro historia­dor vareiro, nas suas “Memórias e Datas para a história da vila de Ovar”, ao escrever, em meados do século XIX: “Vai para quatro anos que [a Câmara] não assiste à fun­ção da Páscoa, nem manda fazer a do Corpus Christi, parecendo deste modo apostada em acabar com tais usanças sancionadas por lei. Não se sabe com bastante clareza qual o motivo deste ruim procedimento, que nós atribuímos à descrença re­ligiosa, pecado da nossa época!”.
Zagalo dos Santos (1884-1957) esclareceu este assunto num cader­no manuscrito dos meados do sé­culo XX:
“S. Cristóvão há mais de um século que caiu em desuso, certa­mente quando o mesmo aconteceu à Irmandade que o tinha por patro­no. Mas em dia do Corpo de Deus fazia a Câmara a festa e expunha-o nos Paços o Concelho antes de o passear pelas ruas da vila, proces­sionalmente. Como era advogado – e continua a sê-lo – contra o fastio, que as terçãs trazem inevitavelmen­te, neste dia, d’empréstimo, muito feio, muito alto, muito sério, tendo ao colo o seu Menino Jesus e na dextra um pinheiro novo vindo da Estrumada, meia vila passava dian­te dele, rezava-lhe a sua rogatória ou agradecimento e dava com a re­gueifa doce as três voltas simbóli­cas ao seu braço hercúleo. À noite, no salão rico da Câmara, havia bai­le em sua honra e, com o chá, belas torradas oferecidas serviam-se aos convidados de circunstância, indo as sobras, no dia seguinte, para os presos das enxovias [no rés-do­-chão da própria Câmara]”.

O P.e Manuel Pires Bastos falando no dia 25 de julho de 2015 sobre o tema “O reavivar de uma tradição – a imagem de São Cristóvão na Procissão do Corpus Christi”, na presença
do Bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos, e dos autarcas locais 
FOTO: João Elvas

S. Cristóvão de Cabanões
Mas recuemos no tempo, para melhor compreendermos o cenário em que desde há nove séculos con­vivem S. Cristóvão e Ovar.
Um documento de 1132 (15 anos antes de nascer Portugal) fala da “Igreja de S. Cristóvão de Ca­banões”, o que corresponde à exis­tência de uma comunidade rural com a sua Igreja (possivelmente no mesmo sítio da atual capela de S. João. A breve trecho, Cabanões passou a ser concelho e julgado, com sede administrativa no lugar de Cabanões, e com uma nova Igreja mo atual Largo de S. João, englobando toda a zona poente, já então chamada Ovar, e que, no sé­culo XVI, devido ao crescimento urbano, passou a chamar-se Vila de Ovar, atraindo para ali a nova Igre­ja, de uma só nave, mais espaçosa e com tal requinte que o “Catálo­go dos Bispos do Porto” de 1623 a considera “uma das mais fermosas Igrejas do Bis­pado”, passando a fregue­sia a chamar-se S. Cristó­vão de Cabanões da Vila de Ovar, abrangendo toda a corda litoral entre o mar e a ria, desde Ovar a S. Jacinto e, antes de haver a barra de Aveiro, com pri­vilégios até Mira.
Fixemo-nos agora em S. Cris­tóvão, o santo que os Cabaneiros do século XII já tinham como pa­droeiro, certamente por ser um dos 14 Santos Auxiliares, considerados protetores nos perigos, doenças e pestes. S. Cristóvão, pelo significa­do do seu nome – que transportou Cristo – ficou protetor dos embar­cadiços e dos carreteiros, mas tam­bém curador do fastio.

Imagem (“de roca”) de S. Cristóvão
FOTO: João Elvas
A “boa ordem” das Procissões
Porque após o concílio de Tren­to (1545-1563) a Festa do Corpo de Deus se passou a realizar com luzidos cortejos de exaltação da Eucaristia, e sendo as Juntas de Pa­róquia e as Câmaras os promotores oficiais dos festejos, com a colabo­ração de corporações de mesteirais, essas manifestações de fé depressa foram esquecendo a “boa ordem”, que diz respeito a precedências – homens leigos, religiosos, clérigos, regedores da cidade e mulheres –, mas também a comportamentos como não comer, não beber, não fazer jogos, não brigar, não usar ar­mas, não dançar, mas, pelo contrá­rio, irem “todos quietos e devotos, cantando e respondendo às lada­inhas dos santos e preces que nas ditas procissões houver”.

Monção, Feira, Coimbra
Na prática as coisas não se passavam bem assim, como se lê no “Almanaque de Lembranças” para 1867, citado por Teófilo Bra­ga acerca da procissão de Corpus Christi em Monção, onde se incor­porava um São Cristóvão gigante, e onde davam espetáculo, com suas lutas e facécias, S. Jorge e o dragão.
Na Vila da Feira, a expensas da Câmara, diz aquele Almanaque que saía a imagem de São Cristóvão, de roca, coberta por um saio de damasco vermelho, levando no seu bojo um homem parecendo que o Santo (que tem uns catorze palmos de altura) anda pelo seu próprio pé. Depois da procissão, o Santo grande era colocado em frente à Câmara, “onde vão muitas pes­soas comer sopas de pão e vinho, na firme crença de que ficarão por este meio livres de fas­tio. Vão outras depor na mão do santo regueifas, que ficam propriedade do homem que carregou com o Santo”.
Ainda na Monar­quia, em 1905, decidin­do a Câmara de Coimbra deixar de fazer a procis­são do Corpus Christi – a única que as Câmaras mantinham após os anos 20/30 do século XIX, entregando ao Asilo de Cegos e Aleijados a verba que seria suposto gastar, alguns munícipes queixaram-se ao Gover­no, o qual, considerando a procissão como uma obrigação ancestral das Câmaras, repôs a obri­gação camarária”.
Ovar, com as suas autoridades, não fugia à regra de organizar fes­tas populares, quer civis (quando de celebrações nacionais ou régias), quer religiosas.
Sobre a festa de Corpus Chris­ti, que deveria ser discreta como a da Feira, temos notícia de que na reunião (dizia-se conferência) de 5/6/1784, os oficiais da Câmara mandaram notificar os responsá­veis das Confrarias da Senhora do Rosário, da Sr.ª da Graça, de Santo António, do Coração de Jesus e da Confraria do Senhor para que des­sem parte aos seus mordomos para no dia do Corpo de Deus assistirem à procissão com suas opas e to­chas”, e avisassem para pegar nas varas do pálio no dito dia o Bacha­rel Zagalo e outros cinco cidadãos.

Quanto a pormenores, sabe­mos pelo Dr. Zagalo, no seu “Sai­bam quantos…” de 27/01/1949 que “somente no dia do Corpo de Deus, a Excelentíssima Câmara – como se deve chamar-lhe – expu­nha o Santo à veneração dos fiéis, festejando-o durante longos anos com toda a solenidade do ritual – missa cantada, sermão e procis­sões, seguidos de baile na sua sala nobre, onde os casados de então confortavam os buchos com chá, roendo as roscas doces torradas que os devotos deixavam ao advo­gado contra as maleitas”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de agosto de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/08/sao-cristovao-de-ovar-o-reavivar-de-uma.html

27.9.13

O culto de N.ª Sr.ª da Cardia

N.ª Sr.ª da Cardia
Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2006)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Os templos da sua história

O título de N.ª Sr.ª da Cardia corresponde a uma pequena imagem em madeira, com cerca de 25 cm de altura, existente em casa de D. Maria Glória de Oliveira Silva, veneranda senhora de 96 anos[1], viúva de Gaspar Rodrigues Leite[2].
Vive a D. Glória em Cimo de Vila, na estrada de Ovar para Cucujães, em frente ao eucalipto centenário.
A imagem, possivelmente do séc. XIX, esteve ao culto nas primitivas alminhas situadas no local onde se encontra a actual capela de Cimo de Vila, mas mais recuadas da estrada, em terreno de uns Costas, por alcunha os Pêssegos.
Depois de ter comprado esse terreno com a casa anexa, o casal Gaspar e Maria Glória resolveu fazer, no local, uma festa em honra de N.ª Sr.ª da Cardia, enfeitando esse espaço, que normalmente se encontrava muito sujo, e que, a partir daí, ficou com aspecto mais atraente.
Surgiu então ao Gaspar a ideia de construir ali uma capela a sério, com paredes e telhado, apta a receber um altar onde se rezasse Missa.
Para o efeito, ele mesmo derrubou os velhos muros laterais, contratou um mestre pedreiro, comprou cimento e cal, e transportou no seu carro de bois a pedra necessária para a obra.
Iam já avançadas as paredes quando surgiu, inesperado, o primeiro entrave: ao passarem por ali os fiscais da Câmara, alertados pelo cantoneiro da zona, e ouvindo da boca da D. Glória que a obra não tinha licença, logo a embargaram.
Um filho do Gaspar, lesto como uma lebre, pondo pés ao caminho, chegou ao Furadouro, dando conta do ocorrido com o pai, então a trabalhar no mar com os seus bois.
Regressado de imediato, resmungou este ao cantoneiro:
 Olhe que eu não tirei licença, nem tiro! Porque a capela não é para dar lucro. E digo mais: se me der licença, findo-a. Se não, fica mesmo como está…
Comunicado este diálogo ao fiscal, não tardou ele a vir dar ordens para terminar a empreitada.
Se as antigas alminhas já eram muito procuradas por devotos, que invocavam a Senhora da Cardia para que lhes valesse nas suas doenças, particularmente do coração, mais passou a sê-lo a nova capelinha, que feria mais a atenção dos viandantes, em especial das peixeiras que por ali passavam na venda de pescado.
Até gente de longe, que fazia com frequência o percurso da serra para Ovar, ali parava um pouco, invocando a intercessão da Virgem.
O pequeno templo, que começou a aglutinar à sua volta a população do lugar, foi-se tornando centro de culto, permanecendo assim ao longo de várias dezenas de anos, até que um grupo de bairristas decidiu avançar com o projecto de uma capela grande, onde todos pudessem cumprir o preceito dominical.
Contactados os proprietários, estes, anuindo à vontade do povo, cederam o domínio da velha capelinha e venderam o terreno anexo para que fosse implantado o novo espaço sagrado, pondo como condição ficarem com a velha imagem da patrona da capela, bem como com uma de S. José, de tamanho igual.
Assim nasceu a actual capela de Cimo de Vila, mantendo-se a anterior ao lado, servindo de  sacristia, e passando a haver ali, ao Domingo, Missa de preceito, e realizando-se no mês de Maio a festa anual[3].

NOTAS:
[1] Nascida em 15/10/1907.
[2] Nascido em 1898 no Sobral, e falecido cerca de 1980. Era parente da Aurora, zeladora da capela do Furadouro.
[3] O culto popular sob a invocação da Senhora da Cardia é diminuto. Há poucos anos, uma mulher do Salgueiral, cujo marido era de Guilhovai, fez-lhe uma promessa, e cumpriu-a.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Maio de 2006)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/09/o-culto-de-n-sr-da-cardia.html

6.8.11

O culto a São Domingos em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2001)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Altar do Rosário da Igreja Matriz de Ovar
(Clique na imagem para aumentar)
1 – O Altar do Rosário

Desde há séculos que S. Domingos de Gusmão anda ligado iconograficamente a Ovar por via do culto mariano. Ele, que foi um paladino da devoção do Rosário, está representado no altar desta invocação, na nave direita da matriz, altar que, como o indica a esplendorosa talha do seu retábulo, de colunas salomónicas, data do último quartel do século XVII, da fase de transição para o barroco, contemporâneo da configuração actual da Igreja. (Sabe-se que o culto a Nossa Senhora do Rosário já existia na Igreja anterior, de uma só nave,).
A imaginária deste riquíssimo altar tem como tema único a devoção mariana, tal como se constata na gravura ao lado:
1 – A imagem da titular, de excelente confecção, em madeira policroma, é expressiva e bela, tendo o Menino nos braços e um rosário pendente das mãos. Rodeiam-na, no plano central, raios de luz e anjos sustentando rosas.
2 – Nos panos laterais, entre as quatro colunas, encaixam-se quatro baixos-relevos alusivos a outros tantos momentos da infância de Jesus: Anunciação e Nascimento, à esquerda, e Circuncisão e Adoração dos Magos, à direita.
3 – Sob as bases das colunas, figuram, em dois destes baixos-relevos: no da esquerda, a Senhora do Rosário com S. Domingos e Santa Catarina de Sena; no da direita a Senhora do Rosário com o Menino Jesus e Santo António. Nos do centro, Nossa Senhora com seus pais (Santa Ana e S. Joaquim), e S. José com o Menino.
4 – Ao alto, no centro do tímpano, a Assunção da Virgem.
5 – Nas colunas centrais, de enrolamentos ténues, de estilo renascentista, emergem quatro virtudes em figurinhas alegóricas: Fé, Fortaleza, Temperança e Justiça.

2 – O painel de S. Domingos

Nossa Senhora entregando
o Rosário a S. Domingos
É o primeiro dos quatro painéis da base das colunas aquele que nos interessa neste momento, por se referir ao principal promotor da devoção do Rosário, São Domingos, nascido em 1170 em Caleruega, Castela-a-Velha (Espanha), falecido em Bolonha a 6 de Agosto de 1221, e canonizado 13 anos depois, pelo Papa Gregório IX.
A cena ali representada inspira-se numa piedosa tradição que refere ter N.ª Sr.ª aparecido ao Santo, então preocupado com a conversão dos hereges albigenses, sugerindo-lhe, como garantia de sucesso, que espalhasse a devoção do Rosário.
A Virgem, tal como o Menino, que se apresenta desnudo, ao seu colo, está coroada, e rodeada de anjos. A seus pés, S. Domingos, com uma açucena na mão esquerda, recebe, na direita, o rosário, tendo a seu lado um cão que segura, na boca, uma tocha acesa. (A açucena é símbolo da pureza, e a tocha acesa, enxergada, num sonho, por sua mãe grávida, simboliza a vocação do futuro evangelizador (“Vós sois a luz do mundo”).
A presença de Santa Catarina de Sena (1347-1380), figura grada do pensamento cristão medievo – como acontece com S. Francisco, que muitas vezes a substitui em quadros semelhantes –, tem a ver com o seu contributo, como Doutora da Igreja, para a difusão e purificação do Cristianismo na Europa, em pleno cisma de Avinhão. O Menino, fitando-a de frente, entrega-lhe, como dádiva celeste, uma coroa de espinhos, símbolo da sua união mística com ela.
Nossa Senhora dando o Rosário a São Domingos.
À direita, S. Francisco de Assis (registo em azulejo
na Casa-Museu da Ordem Terceira de Ovar)
Em pinturas similares são apresentadas a Santa Catarina ora uma coroa de rosas, ora a coroa de espinhos, ora uma açucena, ou mesmo o rosário. Esta divergência explica-se pelo facto de muitos artistas, ao reproduzirem quadros famosos, lhes introduziram algumas diferenças, como a mudança de posicionamento dos personagens, trocando, consciente ou inconscientemente, ou a pedido do cliente, a posição dos respectivos adereços.
Quadro de Bento Coelho (1620-1708)
(Clique na imagem para aumentar) 
Acontece isso no quadro de Bento Coelho (1620-1708), do mesmo período da talha de Ovar: o Menino, à esquerda, dá a açucena a Santa Catarina, coroada de espinhos, enquanto a Virgem entrega a São Domingos, à direita, um Rosário (com oito mistérios), como arma infalível de conversão. É para ele que se volta o olhar terno de Nossa Senhora…

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE AGOSTO DE 2001)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/08/o-culto-sao-domingos-em-ovar.html


ADENDA -----------------------------------------


Após um restauro

Painel de S. Domingos recebendo o Rosário (Igreja Matriz de Ovar)
Antes do restauro (Maio de 2007) e na actualidade
Quando de uma intervenção de restauro feita neste altar do Rosário, após a publicação deste artigo, foram refeitas neste painel as mãos direitas da Virgem e de S. Domingos (entregando e recebendo um terço,) bem como a coroa de espinhos de Santa Catarina, peças que tinham sido vítimas de qualquer acidente involuntário ocorrido no decurso de três séculos bem medidos, e cujo desenho e características exactas se desconhecem. Opção discutível. Mais um tira-teimas para os curiosos da Iconografia…

Fraternidade Dominicana

Sucedendo a uma antiga Confraria do Rosário que em 2 de Fevereiro de 1935 tinha como assistente espiritual o Padre Cura de Ovar Padre José Ribeiro de Araújo, e que estava ligada à Ordem de S. Domingos, foi fundada em 12 de Outubro de 1935, a Fraternidade Dominicana na Paróquia de Ovar, que teve como primeiro assistente religioso Frei Gil Alferes, e como primeira presidentes (Prioresa) D. Palmira Freire de Liz (1935-1967), foi adquirida, em 1937, uma imagem de S. Domingos, substituída, em 1955, por uma de maior porte, que se encontra ao culto junto ao altar do Rosário. (A antiga conserva-se à guarda do actual presidente da Fraternidade, Manuel Pinto Soares).
Na Capela do lugar do Sobral, que agora pertence à Paróquia de S. João de Ovar, há uma boa imagem de S. Domingos, titular daquele templo, que conta cerca de três séculos.

Formação e serviços

Patente de admissão quando da fundação da Fraternidade Dominicana de Ovar (1935)
Leonor do Amaral

À primeira prioresa sucederam Maria Maia Ferreira (1963-1967), Leonor Prado Bueno do Amaral (1967-1992, na foto), Maria Marques da Costa (1992-1997), Carolina Alice Soares (1997-2009) e Manuel Pinto Soares (2010).
Em 1973 havia 118 membros, número que começou a diminuir progressivamente com o falecimento das Irmãs e por haver poucas novas admissões. (Em 1997 eram poucas dezenas).
É missão das irmãs leigas prestar serviços de caridade, de catequese e de liturgia, e participar em actividades de formação e de piedade dentro e fora da Paróquia.

Frontispício do 2.º volume da edição de 1767 da História de São Domingos, de Frei Luís de Cácegas, reescrita por Frei Luís de Sousa, natural de Santarém, obra oferecida recentemente à Paróquia por uma família ovarense
(FOTO DO PAINEL:  arquivo do jornalista Fernando Pinto) 

Texto da adenda: M. P. B.

7.12.08

São Goldrofe em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/04/1993)
TEXTO: João Alves das Neves

No estudo que consagrou ao Mosteiro de São Pedro de Folques, inserto no volume Santa Cruz de Coimbra – do século XI ao século XX (Coimbra, 1984), enumera Monsenhor A. Nunes Pereira a existência de 4 imagens de São Goldrofe.
A mais conhecida é, naturalmente, a da igreja matriz de Folques, mas há também a da capela do Senhor da Agonia (em Arganil), outra na sacristia da igreja de Nossa Senhora da Paz, no lugar de Moinho da Mata (Montemor-o-Velho).

Curiosamente, o grande sacerdote, historiador e artista não menciona a de São Donato (de Ovar) no referido estudo, mas já o havia feito numa carta publicada n’A Comarca de Arganil (n.º 2699, de 20/XI/1940). E ao conversarmos há poucas semanas, sobre o caso, logo Mons. Nunes Pereira nos remeteu para o Inventário Artístico do Distrito de Aveiro, onde há um pormenorizado verbete sobre a capela de São Donato e da sua imagem de São Goldrofe. E com essa escassa bagagem lá fomos recentemente, a fim de nos certificarmos se havia ou não o nosso São Goldrofe de Ovar
Existe, sim, e tivemos a oportunidade de o conhecer, depois de um contacto inicial com o Departamento de Turismo ovarense, onde uma simpática funcionária nos declarou nunca ter ouvido falar do santo da nossa terra. Felizmente, vimos uma “História de Ovar” e pedimos-lhe que nos deixasse procurar, e ambos encontrámos rapidamente o procurado São Goldrofe, de São Donato. A seguir, numa estante, descobrimos mais 2 “histórias” da região e achámos novas referências ao santo arganilense.
Só nos faltava conversar com alguém que nos fornecesse mais pistas – e assim conhecemos o Sr. Padre Manuel Pires Bastos, que no folheto “Igreja Matriz de Ovar – Arquitectura e Obras de Arte” dedica a sua atenção também à capela de S. Donato. E, num dia chuvoso, localizámos o templo, que estava fechado, mas que pudemos fotografar. Foi um encontro emocionante com este às vezes citado mas pouco conhecido
São Goldrofe, cuja imagem está hoje num nicho da fachada da capela do lugar de São Donato, que pertence actualmente à freguesia de São João, no concelho de Ovar.
De resto, as informações são mais amplas e seguras no Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Aveiro (Zona Norte), coordenada pelo Padre Prof. Dr. A. Nogueira Gonçalves, segundo o qual a antiga capela de São Donato foi demolida em 1906 (há inscrições de 1578, 1692 e 1783) e a nova veio a ser erguida noutro lugar próximo, sob a invocação de Nossa Senhora da Ajuda. De acordo com o referido “inventário”, a única escultura antiga é a de São Goldrofe, que colocaram no nicho da frontaria; é da oficina de Coimbra, de calcário, dos meados do século XV. Representa-o de barba comprida, cabelo farto, gorro na cabeça, vestido de túnica e de comprido tabardo que quase oculta aquele, bordão em T na direita, na esquerda o livro fechado. Este vestuário aparece correntemente nas representações masculinas e principalmente nas dos eremitas. A escultura de Folques (Inv. Art. Dist. Coimbra, pág. 16, est. 39) apresenta-o de túnica. São Goldrofe foi prior, e provavelmente fundador, do mosteiro de Arganil – Folques, nos fins do século XI.
Do verbete, que é razoavelmente extenso, destacamos ainda a passagem em que o douto professor Nogueira Gonçalves assinala que a escultura “ovarense” terá vindo, com base em informações de pessoas da região, duma antiga capela que estava no sítio de São Silvestre, lugar de pinhais, onde parece haver restos de alicerces. O que de verdadeiro haja nisto não o podemos saber.
Há que indagar como é que o culto de São Goldrofe chegou a Ovar e às demais terras da região – e esta pergunta também poderá ser feita relativamente ao lugar da Póvoa (“três léguas distantes de Lisboa”), de Montemor-o-Velho, de Coimbra, de Campo de São Martinho (Póvoa de Lanhoso) e de outros lugares onde a imagem de São Goldrofe acedeu aos altares. Histórias que temos de documentos através da História…Como faremos a seguir, a propósito das terras ovarenses.

O culto a São Goldrofe foi devidamente anotado e documentado, em terras ovarenses e adjacentes, por vários historiadores da região, esclarecendo o P.e José Ribeiro de Araújo, no livro “Poalhas da História da Freguesia e Igreja de Ovar”, que, “entre o burgo de Ovar e São Donato medeia a distancia de cerca de 4 Km., antigamente de maus caminhos, desagradáveis ao piso. Este facto fez dizer ao povo, em frase petrificada, para indicar uma distância grande de um ponto para o outro, o seguinte: “Ui! Ele mora lá em São Guelindrofe!”.
Foi São Donato o primeiro padroeiro – acrescenta J. R. de Araújo –, mas sucedeu-lhe em 1623 ou já antes São Goldrofe que o povo por corrupção pronunciava São Guelindrofe. A imagem deste santo, de pedra lioz, existe muito bem conservada”.
Por sua vez, o P.e Miguel de Oliveira acentua, em “Ovar na Idade Média” (1967): “Depois de ter sido orago da ermida e de ter legado o seu nome ao lugar, São Donato viu-se substituído na devoção popular por São Goldrofe, outro santo de quem igualmente se sabe muito pouco” (…) ainda que tenha sido venerado não apenas em Folques mas igualmente na igreja de São Miguel, em Montemor-o-Velho, num forte a três léguas de Almeida e “apud Ovar prope Talabricam”. E prossegue “Na linguagem popular, o nome deste santo corrompeu-se em São Guelindrofe, e chegou a suplantar São Donato na designação do lugar…(…) Oficialmente, prevaleceu o nome de São Donato, que bem o merecia, pois deve ter, pelo menos, uns mil anos de tradição”.


As informações de J. Frederico Teixeira Pinho, em “Memórias e Datas para a História da Vila de Ovar” (1959) confirmam o essencial. “Desde a sua fundação sempre se chamou a esta ermida de São Donato, e menos correctamente São Donato ou São Doado. Mais adiante, quando ali assentaram a imagem de São Goldrofe ou Goldofre, como escrevem outros, também assim fora chamada pelo vulgo que lhe depurtava o nome. Vem depois a lembrança: “Que São Goldrofe foi o primeiro Prior do Mosteiro de São Pedro de Arganil, em que floresceu pelos anos de 1086, quando canonizado por D. Miguel Pais, Bispo de Coimbra. E como por aqueles tempos podiam os Bispos canonizar para dentro das suas dioceses, mandou pôr a sua imagem no altar, e que festejassem no dia do seu glorioso trânsito, que foi a 4 de Fevereiro. É advogado contra as maleitas”. Relativamente às datas das inscrições (1578, 1692, 1696 e 1783), admite o historiador Teixeira de Pinho que “indicam sucessivas reformas, e talvez a introdução de novas imagens, tais como as de São Goldrofe, São Marcos Evangelista, e a da Virgem com o titulo auspicioso de Senhora da Ajuda”.


Concluímos com as observações constantes da “Monografia de Ovar”, de Alberto Sousa Lamy (1.º volume, 1977), onde são acrescentados mais pormenores acerca das capelas de São Donato: “1.ª – A primitiva (1138/1906): (…) temos a primeira referência à ermida de São Donato no Catálogo dos Bispos do Porto, de D. Rodrigo da Cunha, numa doação de 1138, que o bispo do Porto, D. João Peculiar, “fez aos frades que vivião na ermida de São Christovão de Lafões da Ordem de São Bernardo – notícia que merece reservas. Este templo teve como orago São Donato e, posteriormente, São Guldrofe ou Goldrofe (1623 e 1690). Mais tarde voltou ao primitivo nome (1758). Capela antiquíssima, de pedra lioz, sita no lugar de Guilhovai, foi demolida em 1906 contra a vontade do bispo do Porto, D. António Barroso, após discórdias entre populares que a queriam conservar e aqueles que a desejavam derrubar.
2.ª – Capela de N.ª S.ª da Ajuda (…) o templo veio a ser inaugurado em 1903, tendo como padroeiro N.ª S.ª da Ajuda”.
Por tudo isto se conclui que a “presença” de São Goldrofe em terras ovarenses tem um significado profundo que ultrapassa o domínio histórico, pois ilustra a amplidão da fé que suscitou muito para além de Arganil. E as sugestões que nos ocorrem depois desta breve digressão por São Donato podem determinar, quem sabe, outras buscas e interpretações, um dia, em torno do santo que nasceu em Arganil.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Abril de 1993)

1.4.08

Nossa Senhora da Graça – Entre a Lenda e a História

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/1977)
Nossa Senhora da Graça
TEXTO: Arada e Costa

Perde-se na ampulheta do tempo a data em que o nosso povo invoca Nossa Senhora da Graça.
Lendas, preces, favores e cantares envolvem, em Ovar, o seu culto, vindo do século XV.

Pelas ruas da nossa terra, ao cair das tardes de Abril e Maio, principalmente, viam-se ranchos de criancinhas a cantarem:

Senhora da Graça, 
De graça estais cheia,
Quando o mar abrange
a lua arrodeia!

Arrodeia, arrodeia,
volta a arrodear.
Nasce na terra,
põe-se no mar!

Põe-se no mar,
É lugar sagrado.
Cantemos todos:
Bendito louvado!


Eram as novenas e promessas a Nossa Senhora da Graça. Na velha lareira da casa avoenga, em noites de invernia, encarrapitado nos joelhos do meu avozinho, ele contava-me muitas histórias dentre as quais uma lenda de Nossa Senhora da Graça.
«A Senhora tinha aparecido nas escadas que davam acesso ao ancoradoiro das Hortas (1). A Senhora fora levada em procissão para a igreja matriz, cantando-se e rezando, louvando tão grande prodígio. A Senhora lá ficara entre flores e luzes. Mas, para grande espanto do povo, ao abrir-se a igreja, no dia seguinte, a Senhora já lá não se encontrava.

De novo regressaram ao cais. A imagem estava no seu antigo lugar. Nova condução para a matriz, e novo desaparecimento. Até que, após várias tentativas infrutíferas, a Virgem aparece com um dístico a seus pés: «Quero que me edifiquem aqui uma igreja em meu nome, e livrarei esta terra do flagelo da peste que grassa no Reino». (2)

Altar-mor da Capela da Nossa Senhora da Graça (Ovar),
dos finais do séc. XVII
O certo é que uma pequena ermida foi logo edificada na margem do cais. Mais tarde, em 1660, e porque a devoção à Virgem era muito intensa, não só em Ovar como nas terras limítrofes, o povo construiu uma magnífica capela recamada de preciosos azulejos quer no exterior quer no interior. O tecto era composto de quadros de talha, com telas pintadas representado os passos da vida da Virgem.
A linda imagem que a gravura mostra é de pedra, verdadeira relíquia da escola Coimbrã do século XV, possivelmente da primitiva ermida.
Nossa Senhora da Graça era festejada até 1854 em 15 de Agosto e a festa era precedida de uma feira que durava oito dias.
A confraria possuía muitos foros em propriedades rústicas e urbanas.

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Notas:
(1) Hortas: era assim denominado todo o bairro que vai do rio Graça ao Carril: Ali se situavam as salinas que o primeiro e segundo foral de Ovar referem.
(2) A peste grassou durante parte do reinado de D. Duarte, ano a que se atribui o culto de Nossa Senhora da Graça.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JANEIRO DE 1977)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/nossa-senhora-da-graa-entre-lenda-e.html