![]() |
Imagem (“de roca”) de S. Cristóvão, que até 1910
tomava
parte na procissão do Corpo de Deus
de Ovar FOTO: Manuel Pires Bastos
|
TEXTO: Manuel Pires Bastos
Num saboroso texto publicado no “Notícias
de Ovar” em 10/11/1955, na secção “Saibam quantos…” estranhava o Dr. Zagalo dos
Santos que o culto a São Cristóvão fosse tão pouco expressivo em Ovar. E
perguntava: “Porquê esta ignorância do Dia do Orago da freguesia?”.
Usanças sancionadas por lei
A mesma questão já tinha sido levantada pelo Dr. João
Frederico (1818-1870), o primeiro historiador vareiro, nas suas “Memórias e
Datas para a história da vila de Ovar”, ao escrever, em meados do século XIX:
“Vai para quatro anos que [a Câmara] não assiste à função da Páscoa, nem manda
fazer a do Corpus Christi, parecendo deste modo apostada em acabar com tais
usanças sancionadas por lei. Não se sabe com bastante clareza qual o motivo
deste ruim procedimento, que nós atribuímos à descrença religiosa, pecado da
nossa época!”.
Zagalo dos Santos (1884-1957) esclareceu este assunto num
caderno manuscrito dos meados do século XX:
“S. Cristóvão há mais de um século que caiu em desuso,
certamente quando o mesmo aconteceu à Irmandade que o tinha por patrono. Mas
em dia do Corpo de Deus fazia a Câmara a festa e expunha-o nos Paços o Concelho
antes de o passear pelas ruas da vila, processionalmente. Como era advogado –
e continua a sê-lo – contra o fastio, que as terçãs trazem inevitavelmente,
neste dia, d’empréstimo, muito feio, muito alto, muito sério, tendo ao colo o
seu Menino Jesus e na dextra um pinheiro novo vindo da Estrumada, meia vila
passava diante dele, rezava-lhe a sua rogatória ou agradecimento e dava com a
regueifa doce as três voltas simbólicas ao seu braço hercúleo. À noite, no
salão rico da Câmara, havia baile em sua honra e, com o chá, belas torradas
oferecidas serviam-se aos convidados de circunstância, indo as sobras, no dia
seguinte, para os presos das enxovias [no rés-do-chão da própria Câmara]”.
S. Cristóvão de Cabanões
Mas recuemos no tempo, para melhor compreendermos o
cenário em que desde há nove séculos convivem S. Cristóvão e Ovar.
Um documento de 1132 (15 anos antes de nascer Portugal)
fala da “Igreja de S. Cristóvão de Cabanões”, o que corresponde à existência
de uma comunidade rural com a sua Igreja (possivelmente no mesmo sítio da atual
capela de S. João. A breve trecho, Cabanões passou a ser concelho e julgado,
com sede administrativa no lugar de Cabanões, e com uma nova Igreja mo atual
Largo de S. João, englobando toda a zona poente, já então chamada Ovar, e que,
no século XVI, devido ao crescimento urbano, passou a chamar-se Vila de Ovar,
atraindo para ali a nova Igreja, de uma só nave, mais espaçosa e com tal
requinte que o “Catálogo dos Bispos do Porto” de 1623 a considera “uma das
mais fermosas Igrejas do Bispado”, passando a freguesia a chamar-se S. Cristóvão
de Cabanões da Vila de Ovar, abrangendo toda a corda litoral entre o mar e a
ria, desde Ovar a S. Jacinto e, antes de haver a barra de Aveiro, com privilégios
até Mira.
Fixemo-nos agora em S. Cristóvão, o santo que os Cabaneiros
do século XII já tinham como padroeiro, certamente por ser um dos 14 Santos
Auxiliares, considerados protetores nos perigos, doenças e pestes. S.
Cristóvão, pelo significado do seu nome – que transportou Cristo – ficou
protetor dos embarcadiços e dos carreteiros, mas também curador do fastio.
Porque após o concílio de Trento (1545-1563) a Festa do
Corpo de Deus se passou a realizar com luzidos cortejos de exaltação da
Eucaristia, e sendo as Juntas de Paróquia e as Câmaras os promotores oficiais
dos festejos, com a colaboração de corporações de mesteirais, essas
manifestações de fé depressa foram esquecendo a “boa ordem”, que diz respeito a
precedências – homens leigos, religiosos, clérigos, regedores da cidade e mulheres
–, mas também a comportamentos como não comer, não beber, não fazer jogos, não
brigar, não usar armas, não dançar, mas, pelo contrário, irem “todos quietos
e devotos, cantando e respondendo às ladainhas dos santos e preces que nas
ditas procissões houver”.
Monção, Feira, Coimbra
Na prática as coisas não se passavam bem assim, como se
lê no “Almanaque de Lembranças” para 1867, citado por Teófilo Braga acerca da
procissão de Corpus Christi em Monção, onde se incorporava um São Cristóvão
gigante, e onde davam espetáculo, com suas lutas e facécias, S. Jorge e o
dragão.
Na Vila da Feira, a expensas da Câmara, diz aquele
Almanaque que saía a imagem de São Cristóvão, de roca, coberta por um saio de
damasco vermelho, levando no seu bojo um homem parecendo que o Santo (que tem
uns catorze palmos de altura) anda pelo seu próprio pé. Depois da procissão, o Santo
grande era colocado em frente à Câmara, “onde vão muitas pessoas comer sopas
de pão e vinho, na firme crença de que ficarão por este meio livres de fastio.
Vão outras depor na mão do santo regueifas, que ficam propriedade do homem que
carregou com o Santo”.
Ainda na Monarquia, em 1905, decidindo a Câmara de
Coimbra deixar de fazer a procissão do Corpus Christi – a única que as Câmaras
mantinham após os anos 20/30 do século XIX, entregando ao Asilo de Cegos e
Aleijados a verba que seria suposto gastar, alguns munícipes queixaram-se ao
Governo, o qual, considerando a procissão como uma obrigação ancestral das
Câmaras, repôs a obrigação camarária”.
Ovar, com as suas autoridades, não fugia à regra de
organizar festas populares, quer civis (quando de celebrações nacionais ou
régias), quer religiosas.
Sobre a festa de Corpus Christi, que deveria ser
discreta como a da Feira, temos notícia de que na reunião (dizia-se
conferência) de 5/6/1784, os oficiais da Câmara mandaram notificar os responsáveis
das Confrarias da Senhora do Rosário, da Sr.ª da Graça, de Santo António, do
Coração de Jesus e da Confraria do Senhor para que dessem parte aos seus mordomos
para no dia do Corpo de Deus assistirem à procissão com suas opas e tochas”, e
avisassem para pegar nas varas do pálio no dito dia o Bacharel Zagalo e outros
cinco cidadãos.
Quanto a pormenores, sabemos pelo Dr. Zagalo, no seu
“Saibam quantos…” de 27/01/1949 que “somente no dia do Corpo de Deus, a
Excelentíssima Câmara – como se deve chamar-lhe – expunha o Santo à veneração
dos fiéis, festejando-o durante longos anos com toda a solenidade do ritual –
missa cantada, sermão e procissões, seguidos de baile na sua sala nobre, onde
os casados de então confortavam os buchos com chá, roendo as roscas doces
torradas que os devotos deixavam ao advogado contra as maleitas”.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de agosto de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/08/sao-cristovao-de-ovar-o-reavivar-de-uma.html
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/08/sao-cristovao-de-ovar-o-reavivar-de-uma.html














As informações de J. Frederico Teixeira Pinho, em “Memórias e Datas para a História da Vila de Ovar” (1959) confirmam o essencial. “Desde a sua fundação sempre se chamou a esta ermida de São Donato, e menos correctamente São Donato ou São Doado. Mais adiante, quando ali assentaram a imagem de São Goldrofe ou Goldofre, como escrevem outros, também assim fora chamada pelo vulgo que lhe depurtava o nome. Vem depois a lembrança: “Que São Goldrofe foi o primeiro Prior do Mosteiro de São Pedro de Arganil, em que floresceu pelos anos de 1086, quando canonizado por D. Miguel Pais, Bispo de Coimbra. E como por aqueles tempos podiam os Bispos canonizar para dentro das suas dioceses, mandou pôr a sua imagem no altar, e que festejassem no dia do seu glorioso trânsito, que foi a 4 de Fevereiro. É advogado contra as maleitas”. Relativamente às datas das inscrições (1578, 1692, 1696 e 1783), admite o historiador Teixeira de Pinho que “indicam sucessivas reformas, e talvez a introdução de novas imagens, tais como as de São Goldrofe, São Marcos Evangelista, e a da Virgem com o titulo auspicioso de Senhora da Ajuda”. 

