![]() |
| S. VICENTE (Patrono de S. Vicente de Pereira) |
Jornal JOÃO SEMANA (15/05/1981)
TEXTO: Manuel Pires Bastos
Ao tomarmos conhecimento do facto, e por nos apercebermos
do erro toponímico que tal uso está a veicular, quisemos saber donde partira
tão infeliz determinação.
Foi-nos explicado que o uso de tal designação nos
documentos do Registo Civil se tornou sistemático a partir de princípios de
1978, após uma consulta feita ao Centro de Identificação Civil e Criminal pelo
Conservador do Registo Civil de Ovar Dr. Joaquim do Amaral Pereira da Silva, que estranhava a frequência com
que as instâncias superiores se referiam à freguesia de São Vicente de Pereira
utilizando uma forma diferente de identificação.
Pelo Ofício n.º 1137/OGA, de 3/2/78, o Chefe da Divisão
de Identificação Civil informava, em resposta ao Ofício n.º 120 de 31/1/78 do
Conservador do Registo Civil de Ovar, e após consulta feita à Direcção-Geral da
Acção Regional e Local, que, “pelo Decreto-Lei 46139 de 31 de Dezembro de 1964,
e pelo Boletim Oficial do Ministério da Justiça, a designação da freguesia é
efectivamente São Vicente de Pereira Jusã”.
![]() |
| Bandeira do antigo Concelho de Pereira Jusã |
Lamentamos que, passados 14 anos, e já depois da Revolução
dos Cravos, se tivesse homologado uma decisão que nós consideramos infeliz e
lesiva dos interesses da freguesia. É que o topónimo “Jusã”, relativamente a
São Vicente de Pereira, é espúrio e contrário à verdade histórica e geográfica.
Senão, vejamos:
É espúrio, dado que aquela freguesia, que é paróquia pelo
menos desde os tempos da Reconquista Cristã, nunca usou tal denominação.
É contrário à verdade histórica, porque a verdadeira Pereira Jusã, outrora vila e concelho rural, com tribunal próprio, situava-se,
e ainda se situa hoje, na vizinha freguesia de Válega, também do concelho de
Ovar, que muito preza a sua posse. [CLIQUE NO LINK A AZUL]
É contrário à geografia, já que o nome Jusã atribuído ao
lugar de Pereira Jusã (Pereira, como hoje é mais prosaicamente conhecida), da
freguesia de Válega, está de acordo com a sua situação geográfica, a jusante,
isto é, a poente de outro lugar do mesmo nome pertencente à freguesia de São
Vicente – daí São Vicente de Pereira – lugar este que, pela sua posição em
relação ao primeiro, era também conhecido outrora como Pereira Susã (Susã significa a montante, isto é, acima, a nascente).
É possível que o acrescento Jusã, a que nos reportamos, tenha sido originado de boa fé, por suposição de que o designativo “de Pereira”
atribuído a São Vicente se referiria ao lugar de Válega, que foi sede do
concelho ao qual parte da Paróquia de São Vicente de Pereira pertenceu.
De facto, e como demonstrado ficou, não é assim. Pereira
Jusã é uma coisa, e Pereira Susã é outra. Esta última é que deu o nome à
freguesia de S. Vicente de Pereira.
Estranhamos que, quando foi tornado público este atropelo
toponímico, ninguém se tenha manifestado com veemência, evitando que uma
calinada de fácil emenda viesse a ganhar foros de credibilidade, veiculada,
como foi neste caso, por uma repartição oficial – e logo do Ministério da
Justiça! –, e se transformasse em perigo público pelas dúvidas e confusões que
veio e poderá vir a suscitar. Haja em vista que o Código Postal actualmente em
vigor chega a registar dois nomes diferentes para a mesma freguesia: – o
legítimo, São Vicente de Pereira, e o desnaturado, São Vicente de Pereira Jusã.
Situação ímpar, ao que supomos, em todo o País. Situação que não se pode tolerar,
pelos equívocos que daí poderão advir no futuro.
![]() |
| Tribunal do antigo Concelho de Pereira Jusã, lugar que sempre pertenceu à freguesia de Válega (actual Concelho de Ovar) |
Por tudo isto, não devemos, por mais tempo, ficar
impassíveis perante uma decisão tomada arbitrariamente, mesmo que tenha partido
de órgãos oficiais, certamente servidos por funcionários desatentos ou apressados.
(Não quereríamos julgá-los com mais rigor). Quanto antes, há que reparar um
erro que, como provámos acima, atenta contra a história e geografia locais.
Anulem-se os documentos fautores do engano, sejam eles oriundos de
departamentos administrativos ou de departamentos militares. (O mapa cadastral
do Exército incorre também no mesmo equívoco, como também erra supinamente ao
confundir o Rio Ul com o Rio Antuã…)
Pereira Jusã é, hoje, um povoado humilde. Da importância
de antanho guarda ainda alguns minguados mas preciosos vestígios: o seu
tribunal, que serviu simultaneamente de centro judicial e administrativo até
1852, data da extinção do concelho, e a antiga cadeia, que voltou a funcionar
como tal em 1893, quando da demolição dos velhos Paços do Concelho de Ovar,
continuando agregada às justiças vareiras ainda em tempos da República.
Contudo, apesar da actual humildade, é um lugar cioso das
suas tradições e pergaminhos, e sobretudo do seu nome, que não gostaria de ver
postergado e, muito menos, indevidamente atribuído a terra alheia, mesmo que
seja, como neste caso, uma terra vizinha e amiga.
Nem São Vicente de Pereira necessita de tal dádiva, já
que, se acaso quisesse acrescentar o seu nome próprio, poderia usar um topónimo
muito seu – Susã –, coevo do anterior e, por isso, com absoluto rigor histórico
e geográfico.
![]() |
| Sítio do lugar de Pereira Susã, do tempo medieval, onde foi construída a primeira igreja de S. Vicente de Pereira (a actual igreja foi reconstruída a cerca de 100 metros) |
Senhores da Justiça! Senhores do Registo Civil! Senhores
da Divisão de Identificação Civil! Senhores do Exército! Vamos reparar uma
anomalia que, ao que supomos, apenas se mantém activa através dos Serviços do
Registo Civil, mas que nada garante não venha a tornar-se epidémica.
Gentes vareiras! Vamos evitar que Ovar, a terra-mãe das
duas localidades, continue a permitir que se adultere ou confunda o nome dos
próprios filhos!
Artigo publicado
no jornal JOÃO SEMANA (1 DE MAIO DE 1981)
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
“São Vicente de Pereira, sim
São Vicente de Pereira Jusã, não!”
![]() |
| Antigo marco do Couto de Cucujães, lugar de Aveneda, no extremo de S. Vicente de Pereira |
Vamos transcrever hoje o que sobre o assunto nos escreveu
o Dr. Joaquim Amaral Pereira da Silva, Conservador do Registo Civil de Ovar
aquando da introdução do topónimo Jusã
no nome daquela freguesia:
“Em 1977, se não me engano, começaram a vir devolvidos à
Conservatória do Registo Civil de Ovar os processos de Bilhete de Identidade
que referiam uma freguesia desse concelho por São Vicente de Pereira
esclarecendo que a sua denominação era São Vicente de Pereira Jusã. Consultei
os velhos livros paroquiais daquela freguesia e nunca encontrei São Vicente de
Pereira Jusã como denominação da
mesma escrita pelos seus antigos abades, mas, sim, apenas São Vicente de
Pereira. Continuou-se por isso a pôr esta forma reduzida, mais de acordo com os
textos dos registos paroquiais aludidos.
Acontece que nos bilhetes de identidade passou a vir
sempre o apêndice “Jusã”. Claro, por ordem do computador do Arquivo de
Identificação.
Embora as Conservatórias do Registo Civil não estejam na
dependência do citado Arquivo, em matéria de bilhetes de identidade, e só
nisso, têm de seguir as suas directrizes. As Conservatórias são, nesse aspecto,
um serviço intermediário de recepção, enquanto que o Arquivo é um serviço de
emissão.
Não concordando com a posição tomada pelos Serviços de
Identificação, fiz a exposição a que alude no seu artigo, e porque me chegou a
notícia pelo Ofício n.º 1137/06-A de 3/2/78 do Chefe da Divisão de
Identificação Civil da obrigatoriedade legal para a aceitação do composto
denominativo “São Vicente de Pereira
Jusã” (Decreto-Lei 46139 de 31 de Dezembro de 1964) curvei-me com custo perante
uma situação que, à partida, tinha bastante de estranho e insólito.
Não poderia ter resistido, porque cometeria uma ilegalidade e porque provocaria
prejuízo às pessoas utentes dos Serviços, por acabarem de ficar sem seguimento
os seus processos de bilhetes de identidade.
![]() |
| Cais do Puxadouro, Válega (final do século XX). Ao fundo o armazém dos caulinos procedentes de S. Vicente de Pereira, Ovar, e destinados à fábrica da Vista Alegre |
Talvez tivesse iniciado a minha campanha no sentido em
que o meu amigo lançou uma agora, se nesse mesmo ano de 1978 não tivesse
solicitado ao Sr. Ministro da Justiça a minha transferência para Lisboa.
Estou eu todo aqui, inteiro, para o apoiar e fazer algo que esteja ao meu alcance para que seja restituído ao ex-concelho de Pereira Jusã o Jusã que lhe pertence (a cada um o que lhe pertence) e procurarei com o meu Ex.mo Amigo novos elementos que nos acompanhem. Não me passou procuração, mas, como disse, pelo elo que me liga ao assunto, procurarei nos meus contactos aflorar este problema de história local, para que se desfaça o equívoco.
Note-se uma coisa: Quando, um dia, em 1969, cheguei a Ovar, um inspector do Registo do Notariado tinha chamado a atenção que na Conservatória de Ovar se devia escrever o nome daquela freguesia com o vocábulo “Jusã”, e invocava já razões legais. Não foi respeitado esse ponto, e continuou-se a não colocar o Jusã. Só passados quase dez anos, com o bloqueio do Arquivo, tivemos de ceder.
Estou eu todo aqui, inteiro, para o apoiar e fazer algo que esteja ao meu alcance para que seja restituído ao ex-concelho de Pereira Jusã o Jusã que lhe pertence (a cada um o que lhe pertence) e procurarei com o meu Ex.mo Amigo novos elementos que nos acompanhem. Não me passou procuração, mas, como disse, pelo elo que me liga ao assunto, procurarei nos meus contactos aflorar este problema de história local, para que se desfaça o equívoco.
Note-se uma coisa: Quando, um dia, em 1969, cheguei a Ovar, um inspector do Registo do Notariado tinha chamado a atenção que na Conservatória de Ovar se devia escrever o nome daquela freguesia com o vocábulo “Jusã”, e invocava já razões legais. Não foi respeitado esse ponto, e continuou-se a não colocar o Jusã. Só passados quase dez anos, com o bloqueio do Arquivo, tivemos de ceder.
Agradecemos ao Dr. Pereira da Silva o seu útil depoimento
e as diligências que possa fazer em Lisboa para a reparação deste “Delito
Toponímico”. No próximo número falaremos de outras achegas recebidas.
![]() |
| Lápide da primitiva capela de Nossa Senhora de Entráguas, do século XV (1411?), da Paróquia de Santa Maria de Válega, do concelho de Pereira Jusã |
Leitura possível da lápide:
Esta obra mãdou fa
zer Alvaro Domingues Dign.
Vigario Forânio e abade de Santa Maria
Vigario Forânio e abade de Santa Maria
de Valega em honra da Senhora de Entre
rios ... ... ...
concelho de pereira ...
no ano de ....
rios ... ... ...
concelho de pereira ...
no ano de ....
M. P. B.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE JUNHO DE 1981)
“São Vicente de Pereira, sim!
São Vicente de Pereira Jusã, não!...”
Transcrevendo, em 21/5, todo o texto publicado sob o
título em epígrafe no “João Semana” de 1 de Maio último, o prezado colega local
“Notícias de Ovar” veio reforçar a nossa posição quanto à necessidade de ser
expurgada do apelativo “Jusã” a freguesia de São Vicente de Pereira.
Ali afirma o articulista que desconhecia completamente o
caso em foco, e que, se fosse vivo, o próprio historiador e jornalista
Monsenhor Miguel de Oliveira, “ele que não consentia que na sua Válega tocassem
mesmo que fosse com uma flor”, não deixaria de terçar armas em defesa da
reposição da verdade histórica, já que o termo “Jusã” pertence, sim, de
direito, ao lugar de Pereira desta última freguesia, sede do antigo concelho de
Pereira Jusã.
Ora acontece que o próprio “Notícias de Ovar”, e
precisamente pela pena brilhante de Mons. Miguel de Oliveira, no “Número
Extraordinário Comemorativo dos Centenários de Ovar” (1952), de que nos
mostraram um exemplar já depois de termos dado a lume o nosso depoimento,
publicou (pág. 58) um texto intitulado “Qual é o nome exacto da freguesia de S.
Vicente?”, em que encontramos alguns dados preciosos que em muito poderão
enriquecer o intrincado processo deste “delito toponímico”.
![]() |
| Ao fundo, o lugar de Pereira, visto do Cruzeiro |
Assim, o probo historiador, ao constatar que nas
estatísticas do Recenseamento Geral da População Portuguesa realizado em 1950 a
freguesia de São Vicente de Pereira vinha acrescida do famigerado “Jusã”,
escreveu ao Instituto Nacional de Estatística fazendo notar esse e outros
“lapsos”.
Foi-lhe respondido:”… no que diz respeito à freguesia de
São Vicente de Pereira Jusã, informa a Câmara Municipal de Ovar no seu ofício
de 4 do corrente que essa denominação é a exacta. Acresce ainda que é a que
figura no Código Administrativo”.
E o historiador, depois de referir a existência das duas
Pereiras – a Susã (= de cima) e a Jusã (= de baixo), pergunta e responde: “Qual
é a denominação exacta? Parece que não pode ser outra senão a que está de
acordo com a história e com o uso constante do povo. Qual é o sanvicentino
culto ou inculto que conhece a sua terra por S. Vicente de Pereira Jusã?”
(Aqui o historiador excede-se, pois, em verdade, alguns
sanvicentinos, e de várias idades, citam, por vezes, a sua terra como “São
Vicente de Pereira Jusã”: Mas julgamos que se trata de um purismo artificioso,
derivado da interpretação oficial. Os mesmos também dizem com frequência: “S.
Vicente de Ferreira” em vez de S. Vicente de Pereira… E não terão nenhuma razão
para isso!
Não sabemos se a Câmara M. de Ovar de então chegou a
tirar-se de cuidados para explicar as fontes da sua informação. O que sabemos é
que, por norma, nem essa nem outras entidades oficiais utilizavam a denominação
espúria que tão peremptoriamente afirmavam ser “a exacta”. Só mais tarde, como
aqui foi escrito em 1/5, o seu uso se tornou obrigatório nos serviços de
Identificação, de acordo com o Boletim Oficial do Ministério da Justiça e pelo
Decreto-Lei 46139 de 31/12/63, “obrigatoriedade” que, no entanto, só em 1978 se
tornou exigida pelo Centro de Identificação Civil e Criminal, quando ali entrou
o inflexível querer da computadorização. Como se os computadores não fossem
meros repetidores mecânicos e frios das verdades ou dos erros que os homens
lhes programam!
Com a sua atitude de 1951, a nossa Câmara em nada
contribuiu, antes pelo contrário, para a clarificação de um problema que,
levantado pela voz autorizada de Mons. Miguel de Oliveira, poderia ter sido,
então, facilmente solucionado.
![]() |
| Igreja Matriz de Válega na actualidade. Data do século XVIII e sucedeu a uma primitiva igreja situada um pouco a sul |
![]() |
| Capela levantada no século XX, no lugar onde estava situada a Igreja Velha (Válega) |
Vale a pena continuar a luta pois temos boas companhias.
E, já agora, uma sugestão à Câmara Municipal de Ovar de
hoje: Se a Câmara de 1951, logo após o Censo de 1950, contribuiu, embora
involuntariamente, para o atraso de uma solução que já então se impunha, urge
que a Câmara de 1981 faça um trabalho de sentido inverso, agindo energicamente
para que as dúvidas se desvaneçam e se reponha definitivamente a verdade.
Há que actuar de imediato, na esperança de que os
relatórios do Censo/81 possam incluir já a denominação certa da freguesia de
S. Vicente de Pereira.
M. P. B.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JULHO DE 1981)
“São Vicente de Pereira, sim!
São Vicente de Pereira Jusã, não!...”
Ainda ligado a este tema, publicamos hoje mais um texto
recebido. Não trazendo, propriamente, qualquer achega para a resolução do
problema, mostra a vontade dos seus conterrâneos em o verem definitivamente
esclarecido, e lança alguns dados para um melhor conhecimento da sua terra.
Aí vai a colaboração de Euclides Resende:
Falando de… S. Vicente de Pereira
Não é com ânimo leve que se pode falar de S. Vicente de
Pereira. Mas há sempre algo que contar sobre as suas gentes, a sua vida
quotidiana, a sua história.
Há uns bons anos foi-me grato ler no jornal da nossa vila
vareira uma história verdadeira de amor vivida e com o seu enredo nesta nossa
freguesia de S. Vicente de Pereira. Foi seu narrador o Ex.mo Sr. Conselheiro
Dr. Guilherme de Oliveira Santos, o qual, de vez em quando, vem com um artigo
muito interessante neste jornal.
![]() |
| Casa do Dr. Guilherme de Oliveira Santos, no lugar da Torre, São Vicente de Pereira |
Recentemente veio a lume o nome de S. Vicente de Pereira
a propósito do termo “Jusã”, que o Arquivo de Identificação de Lisboa teima em
colocar nos bilhetes de identidade, sabendo-se agora que afinal S. Vicente de
Pereira não tem esse sobrenome. Artigo bem tratado, logo implica que haja
explicações capazes para que os seus naturais fiquem esclarecidos sobre o
supérfluo “Jusã”.
Mas também se verifica que nos anuários existentes, bem
como no tão falado Código Postal, o nome de S. Vicente de Pereira figura com o
Jusã, não se sabendo porquê. Ora é necessário saber esse porquê, pois todos os
de S. Vicente estavam já convencidos de que a sua freguesia era assim chamada e
de que o seu cognome sobrevinha dos tempos passados. De facto, o signatário
assim conheceu, desde pequeno, a sua freguesia, ficando admirado ao verificar
agora que tal era errado.
Porém, mais admirado já me encontrava anteriormente a
esta notícia, quando através da rádio amadora (Banda do Cidadão, tipo
rádio-telefone, em conversa com um macanudo amigo de Cucujães, tive
conhecimento de que S. Vicente de Pereira, antes de pertencer a Ovar, era um
lugar da nossa vizinha freguesia de Cucujães.
Por julgar ser do desconhecimento de muita gente, daqui
lanço esta achega à nossa Juventude, e talvez até àqueles que atingiram já ou
que estão a atingir a terceira idade. Jamais ouvi, a quem quer que fosse, falar
em tal, e, segundo me contava minha mãe, nascida em 1898, S. Vicente de Pereira
era de Ovar e Cucujães de Oliveira de Azeméis.
Quem já teria ouvido falar em tal? Convicto estou de que
ninguém se lembrará disto. Mas, por mais incrível que pareça, o certo é que S.
Vicente de Pereira faz parte da história da Vila de Cucujães. Ainda não estou
documentado para poder narrar algo, mas espero vir a dizer alguma coisa sobre o
assunto.
Euclides Resende
----------------------------
NOTA DE REDACÇÃO: Aqui vai uma ajuda ao nosso
correspondente. Cucujães recebeu de D. Afonso Henriques o privilégio de Couto
em 7/7/1139, privilégio esse confirmado por D. Afonso II (1257), D. João I
(1432), D. João II (1687), e que consistia em receber impostos e ter jurisdição
civil e criminal no seu território. A jurisdição criminal foi suprimida em 1481 (Cortes de
Évora), passando para a Feira, e os impostos e a administração da justiça foram
extintos em 1790.
“Cucujães, que ainda conservou os direitos de Padroado e
a regalia de nomear Juiz, manteve-se como concelho até 31/12/1836, estando incorporada
nele a freguesia de S. Vicente de Pereira. Passou nessa data para a
administração de Oliveira de Azeméis, tornando efectiva uma resolução que já
vinha de 1779, quando da criação deste concelho por D. Maria I, mas que não
tinha entrado em vigor” (cf. M. Pires Bastos, “Vila de Cucujães – Bosquejo
Histórico”, em “Correio de Azeméis” 8/11/1980).
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE SETEMBRO DE 1981)
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Quando em 1968 quisemos completar o nosso trabalho
denominado “O ESTUDO DA FUTURA DIVISÃO ADMINISTRATIVA DA VILA DE OVAR”,
dirigimo-nos ao Reverendo Monsenhor Miguel de Oliveira, considerado historiador
português e um grande sabedor nestes assuntos, com o propósito de nos informar
determinados elementos etimológicos respeitantes ao nosso Concelho.
M. O.”
“Nesta freg. de Válega e cazas da camera deste julgado da
villa de Pereira Jusãa, ahonde estando prezente o cidadão Manoel José da
Fonseca Juiz de Paz do Julgado desta dita villa, ahonde eu Escrivão de seu
cargo vim, aqui perante elle dito Juiz appareceram João Vallente da Fonseca do
Lugar de Villarinho, etc.”.
FOTOS: M. Pires Bastos (MPB) e Fernando Pinto (FMOP)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/05/sao-vicente-de-pereira-sim-sao-vicente.html
“São Vicente de Pereira, sim!
São Vicente de Pereira Jusã, não!...”
Temos vindo a acompanhar com redobrado interesse a
campanha lançada nas colunas do “João Semana” pelo Rev. Dr. Pires Bastos, no
sentido de se acabar definitivamente com a errada designação de “São Vicente de
Pereira Jusã”, ficando apenas o verdadeiro nome de São Vicente de Pereira a
designar esta freguesia do concelho de Ovar.
![]() |
| Monsenhor Miguel de Oliveira |
O muito ilustre valeguense atendeu, de imediato, o nosso
pedido, enviando-nos alguns dados cujos originais passo a publicar, e que
ajudarão a esclarecer as dúvidas que alguém possa ainda ter sobre o uso do
termo “Jusã”, que, como afirma pitorescamente Mons. Miguel, “faleceu” em 28 de
Dezembro de 1852, com a extinção do concelho de Pereira Jusã.
Entretanto, melhor do que nós, leigo nestes problemas,
aqui vai aquilo que pelo seu próprio punho nos escreveu o saudoso historiador
em 24/1/1968, e que se contém em duas folhas de bloco e num cartão que as
acompanhava.
Eis o teor do cartão:
“P.e Miguel de Oliveira, com muitos cumprimentos, envia
em folhas juntas as informações pedidas. O enorme volume do Censo da População
em 1960, editado pelo Instituto Nacional de Estatística, já traz indicação das
principais datas de incorporação de freguesias. Para Ovar tinha-me pedido
elementos o Presidente da Câmara, Carlos Nunes da Silva. Não houve maneira de
obter a correcção do nome da freguesia de São Vicente de Pereira. Teimam que é
“Jusã”. E que se lhes há-de fazer?
Com a maior estima
24/1/1968
Padre Miguel Oliveira”
![]() |
| Canhão de Válega, que serviu de arma de arremesso nas guerrilhas académicas entre jovens de Válega e de Avanca, em meados do século XX |
E agora, o conteúdo das duas folhas manuscritas:
“CONCELHO DE OVAR
1- Cabanões
e Ovar nunca pertenceram ao concelho da
Feira, embora figure em muitos livros a falsa informação. Constituíram concelho
à parte, já existente em 1251.
2- Alguns
lugares pertenceram ao concelho de Pereira Jusã, juntamente com metade da
freguesia de Válega e parte da de São Vicente de Pereira. Este concelho,
extinto em 1853, tinha a sede em Válega, no actual lugar de Pereira. NUNCA
existiu nem existe uma freguesia com o nome de São Vicente de Pereira Jusã,
embora este falso apelativo figure nas próprias publicações oficiais. O “Jusã”
pertencia à vila e concelho, e com eles… faleceu.
3- As
primeiras freguesias que passaram para o concelho de Ovar foram as de Válega e
S. Vicente, com a totalidade dos seus lugares. (Os que não pertenciam a Pereira
Jusã foram do termo da Feira, até passarem, em 1800, para o de Oliveira de
Azeméis). O decreto que suprimiu o concelho de Pereira Jusã e incorporou essas
duas freguesias no concelho de Ovar é datado de 28 de Dezembro de 1852 e foi
publicado no “Diário do Governo”, n.º 196, de 22 de Agosto de 1853.
4- A
freguesia de Arada passou para o concelho de Ovar por decreto de 31 de Dezembro
de 1853.
5- Esmoriz,
Cortegaça e Maceda, pela lei de 21 de Junho de 1879, publicada no “Diário do
Governo”, n.º 145, de 2 de Julho.
6- As
mudanças relativas às freguesias de Esmoriz, Souto e Pardilhó foram em 11 de
Outubro de 1926 e 14 de Abril de 1928. Convém ver a colecção do “Diário do
Governo” que não tenho à mão.
Lisboa, 24/1/1968
Nas edições do Instituto Nacional de Estatística
referentes aos Censos efectuados em Portugal, a partir do 2.º (1878), figura
sempre o nome de São Vicente de Pereira Jusã, como, aliás, figura também no
Dec.-Lei n.º 46139, de 31 de Dezembro de 1964, que deu nova redacção ao Artigo
458.º do Código Administrativo, respeitante à classificação de todos os
concelhos e das freguesias do Continente e Ilhas e as suas respectivas
designações.
Contudo, no 1.º Censo da população efectuada no Reino de
Portugal em 1864, a freguesia de São Vicente de Pereira figurou apenas com o
nome de Pereira Jusã.
Acabe-se de uma vez para sempre com o dislate de Jusã em
São Vicente de Pereira. Para isso têm a palavra as autarquias locais, que devem
diligenciar junto do Governo para a sua devida correcção em legislação adequada
a publicar no “Diário da República”, para, assim, e a partir da sua publicação
na folha oficial, se acabar com o erro, que alguns teimam em manter, de
acrescentar à freguesia de São Vicente de Pereira um termo – JUSÃ – que,
afinal, faleceu, como diz Mons. Miguel de Oliveira, com o extinto Concelho de
Pereira Jusã.
Válega e Pereira Jusã
![]() |
| Algemas do Tribunal do Concelho de Pereira Jusã |
(De um documento de 1/2/1845, existente no Cartório
Paroquial de Válega e procedente da Casa do antigo Bispo de Vila Real, D.
António Valente da Fonseca).
Ovar, 01/10/1981
Waldemar Gomes Lima
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE NOVEMBRO DE 1981)
---------------------------------------------------------------------------------------------------
A denominação correcta
de S. Vicente de Pereira
de S. Vicente de Pereira
Na reunião camarária de 18/10/1988, foi aprovada uma
Proposta do Vereador Augusto Rodrigues, visando corrigir um grave erro toponímico
em que caiu o Ministério da Justiça (!), e de que é vítima a freguesia de São
Vicente de Pereira.
Porque o “João Semana” já teve intervenção na matéria,
pugnando contra o mesmo erro, aqui estamos ao lado da Câmara Municipal,
dando-lhe o nosso total apoio na defesa de uma causa que não pode sofrer a
mínima contestação e que já deveria ter sido resolvida há muito por um
Ministério a quem compete clarificar a verdade das situações.
Eis o texto da Moção:
DENOMINAÇÃO CORRECTA DA FREGUESIA DE SÃO VICENTE DE PEREIRA
Em 1978, a Direcção-Geral da Acção Regional e Local,
emitiu um ofício em que dizia: «… informo V. Ex.ª de que a freguesia do
concelho de Ovar de que se solicita a designação correcta se denomina São
Vicente de Pereira Jusã».
A partir daquela data, quer o Centro de Identificação
Civil e Criminal na emissão de Bilhetes de Identidade, quer as várias
Repartições que tratam de assuntos relacionados com a identificação dos
cidadãos passaram a fazer constar em todos os documentos, a denominação de São
Vicente de Pereira Jusã, para esta freguesia do nosso concelho.
Ora tal deve-se certamente a erro daquela Direcção-Geral,
porquanto São Vicente de Pereira sempre se denominou desta forma e não como
informaram.
Pereira Jusã foi concelho antiquíssimo, na comarca de
Esgueira. Pela reforma de 1836 ficaram a pertencer-lhe as freguesias de Válega
e São Vicente de Pereira, na sua totalidade. A sua sede situava-se no lugar de
Pereira Jusã, da hoje freguesia de Válega.
Em 1852 foi o concelho de Pereira Jusã extinto e as
freguesias que o compunham incorporadas no de Ovar – Válega e São Vicente de
Pereira. A vila de Pereira Jusã, hoje reduzida a simples lugar da freguesia de
Válega, passou a chamar-se Pereira, como ainda hoje se chama. São Vicente de
Pereira é que nunca foi de Jusã, e nem o poderia ser, porque se situa a
nascente da freguesia de Válega. Também pelos livros paroquiais daquela
freguesia, por mais antigos que sejam, se constata que aquela freguesia sempre
se denominou de São Vicente de Pereira.
![]() |
| Capela de São Geraldo, em S. Vicente de Pereira |
Porque dúvidas não nos restam de que houve lapso na
informação prestada pela Direcção-Geral da Acção Regional e Local, em 1978,
proponho que, auscultadas a Junta e a Assembleia daquela freguesia, se dê
conhecimento àquela entidade ou à que actualmente tem tal incumbência, de que a
freguesia do concelho de Ovar se denomina SÃO VICENTE DE PEREIRA e não São
Vicente de Pereira Jusã, como erradamente aquela Direcção-Geral informou em
1978, pelo s/ofício n.º 919, de 16 de Fevereiro.
Ovar, 18 de Outubro de 1988
O Vereador,
Augusto Rodrigues
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE NOVEMBRO DE 1988)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/05/sao-vicente-de-pereira-sim-sao-vicente.html






























