TEXTO: José de Oliveira Neves
Com o aproximar do Verão, vêm-me à lembrança as sachadeiras que, no tempo quente, há uns anos atrás, passavam pelas ruas da nossa cidade trazendo às costas as ferramentas do trabalho: sachos e enxadas. Quase sempre em grupos, vinham das nossas aldeias mal o sol rompia no horizonte e quando o dia era ainda uma criança.
Chamavam-lhes, aqui em Ovar, as Marias de Arada, talvez por grande parte delas provir dessa nossa freguesia.
Contou-me uma lavradeira de provecta idade que, no seu tempo (princípio do séc. XX), as sachadeiras vinham das aldeias e das zonas rurais de Ovar para o Mercado – ou praça, como então lhe chamavam –, junto da Câmara, para aí serem contratadas por quem necessitasse dos seus serviços.
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| As sachadeiras |
Por entre o milho e outras culturas, sachavam a terra manualmente, removendo-a, tornando-a mais fofa e destruindo as ervas daninhas.
À tardinha, quando o astro-rei começava a esconder-se no mar e a Terra ficava iluminada pelo crepúsculo, era muito bonito vê-las passar de volta, depois de um dia de trabalho árduo, cantando a várias vozes, num tom harmonioso, como se de um coro orfeónico se tratasse.
Muitas vezes, os rapazes da época, levados pela sua juventude impetuosa, lançavam-lhes alguns piropos, a que elas respondiam com a sua piada brejeira, continuando a seguir o seu percurso, sempre a cantar…
Aquelas vozes ainda hoje parecem chegarem aos meus ouvidos, trazidas pelo vento.
E dos versos que cantavam ainda retenho alguns na minha memória, como estes que aprendíamos nos livros da escola: “Indo um lavrador p’ra Arada, ai Jesus / Encontrou um pobrezinho, ai Jesus!”, cujo poema continuava, descrevendo uma velha lenda, ou como aqueloutro que lembrava os canários com penas muito bonitas, fazendo inveja àquelas mulheres do campo: “Canário, lindo canário! / Canário, meu lindo bem. / Quem me dera ter as penas / Que o lindo canário tem!...” Estes versos, cantados a várias vozes, misturadas com o piar das aves que, na época, costumavam cruzar os céus, eram encantadores!...
Pouco a pouco, o trabalho das sachadeiras deixou de ser feito de forma manual, sendo o sacho e a enxada substituídos pelas máquinas, que não têm alma nem poesia.
Quem as viu sachar, em grupos, as terras cultivadas, até ao pôr-do-sol, e passar pelas ruas a cantar melodiosas cantigas que o vento arrastava para longe, hoje, ao recordá-las, sente saudade!...
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE JUNHO DE 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/05/as-sachadeiras-texto-jos-de-oliveira.html
