TEXTO: Ir. Ana Maria Silva Ferreira
Este ano
Jubilar é propício para parar, refletir, avaliar e, sobretudo, alegrar-me e dar
graças ao Senhor por tantos benefícios recebidos ao longo de 50 anos de vida
religiosa.
Nesta
tarefa, em que o sentimento se torna mais vivo e mais exultante, não posso
deixar de testemunhar publicamente o que foram para mim os quase 25 anos
vividos nas lindas paragens de Ovar, anos esses que me marcaram para sempre, e
de diferentes formas.
| A Irmã Ana Maria celebrando as suas Bodas de Ouro na Casa do Instituto Jesus Maria José, em Fátima, em 28/10/2012, na presença do Bispo da Guarda, D. Manuel Felício |
Vinda de uma família numerosa, onde era imensamente
feliz, foi em Ovar que fui recebida pelas Irmãs do hoje Instituto Jesus Maria
José. Dada a exigência formativa para integrar a Vida Religiosa, foi em Ovar
que emiti os Primeiros Votos. Depois de alguns anos de experiência e trabalho
em outras Comunidades, foi em Ovar que fiz os Votos Perpétuos.
Em todo este caminho cruzei-me, melhor, relacionei-me com
muitas pessoas, crianças, jovens, adultos. A minha ação era bastante
diversificada. Não se limitava às tarefas domésticas. Abrangia um grande leque
de contactos: no atendimento a pessoas que nos procuravam, nas visitas a
famílias, na colaboração com a Paróquia, nomeadamente na Catequese. Tudo isto
me ajudou a crescer, a tomar consciência e a firmar o meu “Sim” inicial,
porquanto a vida é feita de um Sim mil vezes repetido. Foi ainda em Ovar que
encontrei – e encontro – pessoas a quem muito devo pela ajuda dispensada nas
horas mais difíceis, para que hoje pudesse estar aqui feliz e realizada,
continuando o caminho a que Deus me chamou desde a juventude.
Na Comunidade de Ovar (a minha primeira Comunidade)
encontrei o acolhimento, a simplicidade, o carinho e o ambiente que desejava
para poder viver de um modo mais perfeito a minha entrega ao Senhor.
Por altura dos meus Votos Perpétuos, enquanto eu, numa
Escola do Porto, adquiria alguns conhecimentos de pedagogia, as minhas
Superioras e Irmãs mais idosas continuavam a acalentar um sonho antigo e lindo,
que se referia a uma pequena porção do
Povo de Ovar situada no Furadouro, mesmo à beira mar, povo trabalhador e
simpático, habituado a tirar do mar o seu próprio sustento.
Aconteceu por aqueles tempos a Natureza deteriorar as
condições até então propícias à pesca, tendo como consequência uma pobreza
ainda mais acentuada. Estas Irmãs, imbuídas do Espírito do nosso Instituto
Jesus Maria José – a dedicação aos mais pobres –, não tardaram com o seu apoio
material e espiritual, confecionando roupas para as crianças, organizando a
Catequese e levando alimentos, conforme lhes era possível. Coincidia esta ação
com a chegada do primeiro Pároco, Padre António Fernando Lopes Ferreira, para a
então Paróquia Experimental do Furadouro. Este também se empenhou nestas ações
e apoiou eficazmente o trabalho das Irmãs, trabalho acrescido, entretanto, por
terem aceitado agregar a si um movimento caritativo (a Sopa dos Pobres) ali
existente, orientado por um grupo de senhoras de Ovar.
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| As condições de trabalho das Irmãs no Furadouro, na década de 60, eram muito precárias. À esquerda, a Irmã Ana Maria |
Sentindo sempre que ainda não era suficiente quanto
faziam, as Irmãs pensaram fundar uma obra social.
Foi nessa altura que se envolveu também o Rotary Club de
Ovar, através de alguns dos seus membros que, movidos pelo seu lema rotário, e
sensibilizados pelas esposas, vindas da Sopa dos Pobres, se empenharam nesta
obra, mesmo perante a dúvida de alguns colegas quanto ao sucesso do trabalho.
Quanto a mim, foi mais um Sim que dei – daqueles Sins que caracterizam a Vida Religiosa – ao aceitar ser a enviada para o início desta Obra. Dei-me na gratuidade total (até económica), com alegria e grande entusiasmo, pois, além do vigor da idade em que me encontrava, invadia-me o espírito cristão de dedicação aos mais pobres dos pobres, e também uma certa inclinação natural para um trabalho simples, desafiante e comprometedor.
Quanto a mim, foi mais um Sim que dei – daqueles Sins que caracterizam a Vida Religiosa – ao aceitar ser a enviada para o início desta Obra. Dei-me na gratuidade total (até económica), com alegria e grande entusiasmo, pois, além do vigor da idade em que me encontrava, invadia-me o espírito cristão de dedicação aos mais pobres dos pobres, e também uma certa inclinação natural para um trabalho simples, desafiante e comprometedor.
As condições eram muito precárias, rústicas e cheias de
limitações. Improvisava-se tudo, desde equipamento a jogos. Imperou a boa
vontade e o arrojo de uns tantos, e tudo se ultrapassou através das etapas
seguintes, que o Rotary Club foi liderando, e cujo sucesso está bem patente na
grande dimensão que o Centro de Promoção Social foi atingindo, sendo hoje bem
visível e abrangente.
Quanto a mim, após 10 anos de presença no Furadouro, outros
serviços me foram pedidos em outros lugares e outras missões, chegando mesmo um
pouco até às missões em Angola.
Hoje encontro-me novamente num serviço discreto, um pouco
semelhante àquele a que já fiz referência, porque também aqui me sinto a
contribuir para minimizar marcas de pobreza e desajustamentos familiares.
Viseu, novembro de 2012
Ir. Ana Maria Silva Ferreira
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE NOVEMBRO DE 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/11/irma-ana-maria-50-anos-de-vida.html













