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15.11.12

Irmã Ana Maria – 50 anos de vida religiosa, 25 dos quais em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2012)
TEXTO: Ir. Ana Maria Silva Ferreira

Este ano Jubilar é propício para parar, refletir, avaliar e, sobretudo, alegrar-me e dar graças ao Senhor por tantos benefícios recebidos ao longo de 50 anos de vida religiosa.
Nesta tarefa, em que o sentimento se torna mais vivo e mais exultante, não posso deixar de testemunhar publicamente o que foram para mim os quase 25 anos vividos nas lindas paragens de Ovar, anos esses que me marcaram para sempre, e de diferentes formas.

A Irmã Ana Maria celebrando as suas Bodas de Ouro na Casa do Instituto Jesus Maria
José, em Fátima, em 28/10/2012, na presença do Bispo da Guarda, D. Manuel Felício
Vinda de uma família numerosa, onde era imensamente feliz, foi em Ovar que fui recebida pelas Irmãs do hoje Instituto Jesus Maria José. Dada a exigência formativa para integrar a Vida Religiosa, foi em Ovar que emiti os Primeiros Votos. Depois de alguns anos de experiência e trabalho em outras Comunidades, foi em Ovar que fiz os Votos Perpétuos.
Em todo este caminho cruzei-me, melhor, relacionei-me com muitas pessoas, crianças, jovens, adultos. A minha ação era bastante diversificada. Não se limitava às tarefas domésticas. Abrangia um grande leque de contactos: no atendimento a pessoas que nos procuravam, nas visitas a famílias, na colaboração com a Paróquia, nomeadamente na Catequese. Tudo isto me ajudou a crescer, a tomar consciência e a firmar o meu “Sim” inicial, porquanto a vida é feita de um Sim mil vezes repetido. Foi ainda em Ovar que encontrei – e encontro – pessoas a quem muito devo pela ajuda dispensada nas horas mais difíceis, para que hoje pudesse estar aqui feliz e realizada, continuando o caminho a que Deus me chamou desde a juventude.
Na Comunidade de Ovar (a minha primeira Comunidade) encontrei o acolhimento, a simplicidade, o carinho e o ambiente que desejava para poder viver de um modo mais perfeito a minha entrega ao Senhor.
Por altura dos meus Votos Perpétuos, enquanto eu, numa Escola do Porto, adquiria alguns conhecimentos de pedagogia, as minhas Superioras e Irmãs mais idosas continuavam a acalentar um sonho antigo e lindo, que se referia a uma pequena porção do Povo de Ovar situada no Furadouro, mesmo à beira mar, povo trabalhador e simpático, habituado a tirar do mar o seu próprio sustento.
Aconteceu por aqueles tempos a Natureza deteriorar as condições até então propícias à pesca, tendo como consequência uma pobreza ainda mais acentuada. Estas Irmãs, imbuídas do Espírito do nosso Instituto Jesus Maria José – a dedicação aos mais pobres –, não tardaram com o seu apoio material e espiritual, confecionando roupas para as crianças, organizando a Catequese e levando alimentos, conforme lhes era possível. Coincidia esta ação com a chegada do primeiro Pároco, Padre António Fernando Lopes Ferreira, para a então Paróquia Experimental do Furadouro. Este também se empenhou nestas ações e apoiou eficazmente o trabalho das Irmãs, trabalho acrescido, entretanto, por terem aceitado agregar a si um movimento caritativo (a Sopa dos Pobres) ali existente, orientado por um grupo de senhoras de Ovar.

As condições de trabalho das Irmãs no Furadouro, na década de 60,
eram muito precárias. À esquerda, a Irmã Ana Maria
Sentindo sempre que ainda não era suficiente quanto faziam, as Irmãs pensaram fundar uma obra social.
Foi nessa altura que se envolveu também o Rotary Club de Ovar, através de alguns dos seus membros que, movidos pelo seu lema rotário, e sensibilizados pelas esposas, vindas da Sopa dos Pobres, se empenharam nesta obra, mesmo perante a dúvida de alguns colegas quanto ao sucesso do trabalho.
Quanto a mim, foi mais um Sim que dei – daqueles Sins que caracterizam a Vida Religiosa – ao aceitar ser a enviada para o início desta Obra. Dei-me na gratuidade total (até económica), com alegria e grande entusiasmo, pois, além do vigor da idade em que me encontrava, invadia-me o espírito cristão de dedicação aos mais pobres dos pobres, e também uma certa inclinação natural para um trabalho simples, desafiante e comprometedor.
As condições eram muito precárias, rústicas e cheias de limitações. Improvisava-se tudo, desde equipamento a jogos. Imperou a boa vontade e o arrojo de uns tantos, e tudo se ultrapassou através das etapas seguintes, que o Rotary Club foi liderando, e cujo sucesso está bem patente na grande dimensão que o Centro de Promoção Social foi atingindo, sendo hoje bem visível e abrangente.
Quanto a mim, após 10 anos de presença no Furadouro, outros serviços me foram pedidos em outros lugares e outras missões, chegando mesmo um pouco até às missões em Angola.
Hoje encontro-me novamente num serviço discreto, um pouco semelhante àquele a que já fiz referência, porque também aqui me sinto a contribuir para minimizar marcas de pobreza e desajustamentos familiares.

Viseu, novembro de 2012
Ir. Ana Maria Silva Ferreira

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE NOVEMBRO DE 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/11/irma-ana-maria-50-anos-de-vida.html

7.9.10

Fundação do Colégio das Doroteias em Ovar (1897)

A propósito da canonização de Santa Paula Frassinetti [na imagem], grande educadora do século passado e fundadora das Irmãs de Santa Doroteia, achamos de interesse a publicação das notas inéditas que se seguem, extraídas de um caderno policopiado daquela Congregação Religiosa, e referentes à fundação do Colégio dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria de Ovar, aberto em 21/10/1897 e encerrado a 8/10/1910. Pelo interesse histórico da descrição, esperamos publicar em seguida as notas referentes ao período de 1900 a 1910, ano da sua extinção compulsiva pelo Governo da República. (P. B.)

Nos últimos anos do século XIX, um venerando sacerdote de Ovar, o Padre João de Oliveira Saborino, já de idade avançada, pensou empregar os seus avultados bens de fortuna numa obra de beneficência em proveito da sua terra natal. Enquanto meditava na modalidade de beneficência que a fundação adoptaria, concebeu o projecto de construir um hospital para velhos, que entregaria às Irmãzinhas dos Pobres (1).
O Padre João Saborino conhecera as Irmãs Doroteias em Vilar (Porto), onde fora capelão, e conhecia, sobretudo, a Madre Ana Barbosa, sua conterrânea. Informada esta Madre dos planos do sacerdote, falou-lhe na fundação de um colégio para meninas de todas as condições sociais. Durante dois anos, o Padre Saborino estudou a proposta, e em 1897 decidiu chamar as Irmãs para a abertura dum colégio.
Quando estavam as paredes do edifício levantadas, a Madre Provincial Luísa Trabucco deslocou-se a Ovar para aí dirigir a divisão dos compartimentos, de acordo com a finalidade da casa. Era a primeira fundação cujo edifício se construía de raiz, e daí o poder obedecer a uma planta traçada pela Madre Provincial.
Um manuscrito anónimo, conservado no Arquivo da Casa Provincial, descreve esta visita da Madre Trabucco a Ovar com duas Irmãs cujos nomes não menciona. O ponto de partida foi Vilar, e o trajecto, percorrido de comboio. Na estação, a esperá-las, “duas senhoras num coupé em que caberiam, quando muito, três pessoas (…)”. Os solavancos do carro, por caminhos quase intransitáveis, atiravam as ocupantes umas contra as outras, em risco sério de “quebrarem as cabeças”, diz o manuscrito. Chegadas a casa do Padre Saborino, encontraram a mesa posta para jantarem (2), e só depois de um passeio de"char à bancs, até à praia, a cerca de uma légua de distância", foram visitar a construção do colégio.
O edifício levantava-se no meio de um extensa cerca e compunha-se de três corpos unidos entre si “numa arquitectura elegante e cómoda” que soubera tirar magnífico proveito do ar e luz circundantes. Depois de combinarem a divisão interna da casa, sentaram-se junto do grande poço aberto na quinta e aí discutiram as cláusulas da fundação que, da parte do Padre João Saborino, se reduziam a querer somente que ali sempre funcionasse uma escola para crianças pobres, sem exigir qualquer garantia material para si.
Uma parte da casa estaria habitável no princípio do ano lectivo 1897/98.
A 18 de Outubro de 1897 no comboio do norte, saíram de Lisboa para Ovar a Madre Ana Barbosa, como Superiora, Sor Guilhermina Sarmento e a Irmã Amélia Duque. Chegaram à estação de Ovar no dia seguinte, às 6h da manhã, e aí as esperavam duas senhoras, uma irmã e outra prima da Madre Barbosa. Dirigiram-se logo a casa do Padre Saborino, onde almoçaram. Sor Sarmento tinha continuado no mesmo comboio para o Porto, acompanhada da postulante Rita Figueiredo, que seguia para o Sardão. De Vilar trouxe a Irmã Gonçalves, destinada também à fundação, chegando ambas a Ovar pelas 13h do mesmo dia.
De tarde, as Irmãs entraram na sua nova casa, ainda em obras. O primeiro trabalho a que procederam foi o da abertura dos fardos trazidos de Lisboa com móveis, roupas, livros, loiças, utensílios de cozinha. Nesse dia, a ceia, mandada pelo Padre Saborino, foi servida em cima dum caixote, por não haver ainda mesas.
A inauguração da casa só pôde efectuar-se a 21 de Outubro. Os dias que mediaram desde a chegada das Irmãs foram ocupados nas limpezas mais urgentes, a que se associaram as zeladoras do Apostolado da Oração, de que o Padre Saborino era director, que espontaneamente se ofereceram para esfregar soalhos e lavar vidros. Ainda as mesmas “ornaram com bandeiras e auriflamas a fachada do edifício” para a inauguração.
No dia 21 chegou do Porto, para benzer a casa,“o cónego da Igreja Lauretana, Padre Ilídio da Costa”, grande amigo do fundador. Vinha com ele sua mãe e um sacristão da Igreja de S. Bento. No mesmo comboio das 9h da manhã chegaram as Superioras do Norte: a Madre Ana do Espírito Santo Morais, Superiora de Guimarães, a Madre Maria do Carmo Cabras, de Vila do Conde, acompanhada pela Irmã Miguel, que devia ficar cozinheira em Ovar, e a Madre Luísa Cervetto, do Sardão, acompanhada da Madre Teresa Sá.
A bênção da casa começou pelas 10h da manhã. Acolitavam o cónego Ilídio da Costa o Padre Saborino e outros eclesiásticos por ele convidados. Presentes, também, os zeladores do Apostolado da Oração, com opas e tochas acesas. Por fim benzeu-se a capela, depois do que o mesmo oficiante celebrou o Santo Sacrifício, a que assistiu numeroso clero e muito povo, que enchia a capela e corredor contíguo. Os operários que construíram a casa homenagearam o Padre Saborino, convidando duas bandas de música para tocarem à Missa. A alocução foi proferida pelo cónego Ilídio, que exaltou a obra do fundador em favor dos seus conterrâneos. Cantou-se, seguidamente, o Te Deum, e, de tarde, houve bênção solene do Santíssimo Sacramento. Estava inaugurado o colégio dos Sagrados Corações de Jesus e Maria, como foi chamada a casa de Ovar.
A abertura das aulas fez-se no dia 3 de Novembro. O colégio começou a funcionar com cinco alunas semi-internas. Ficou mestra de estudo Sor Sarmento; de trabalho, a Irmã Duque. A ”aula externa” abriu com cinquenta alunas. Do estudo e trabalho foi encarregada a Irmã Gonçalves, ajudada pela irmã Duque.

Algumas alunas do Colégio das Doroteias com professores e amigos da Instituição
(Foto extraída do "Dicionário da História de Ovar", de Alberto Sousa Lamy)
A Casa, nos seus inícios, não possuía proventos para se governar autonomamente. Quanto às Irmãs chagaram, o Padre Saborino deu-lhes 50 000 reis para as primeiras despesas, e responsabilizou-se por pagar anualmente a quantia de 300.000 reis até o colégio auferir os lucros necessários para a sustentação das Irmãs.
O acolhimento da população não podia ter sido mais favorável. Contudo, o meio social, pouco culto, não favorecia nem fazia pressagiar grande desenvolvimento ao colégio, sobretudo quanto as alunas internas.
Com grande concurso de crianças deu-se princípio à Obra das Catequeses, no dia 18 de Janeiro de 1898, na Igreja Paroquial.
Em Outubro do mesmo ano, veio como Superiora para Ovar, a Madre Joaquina Gomes. Durante o seu governo foi erecta a Congregação das Filhas de Maria, depois de um retiro preparatório pregado pelo Padre Morais (Sacerdote Jesuíta), de 17 a 21 de Janeiro de 1899. No dia de Santa Inês desse ano foram admitidas cinquenta e oito aspirantes a Filhas de Maria. Como director da Congregação foi nomeado o Padre Magalhães, S. J., que passou a deslocar-se mensalmente do Porto a Ovar para fazer as reuniões prescritas pelo Manual da Congregação.
Entretanto, a Superiora, atendendo talvez ao exíguo número de Irmãs que compunham a comunidade, julgou conveniente suspender o ensino da catequese na igreja paroquial, assim como não permitiu que as Irmãs continuassem a acompanhar as alunas externas à Missa nos domingos.
Desconhecem-se pormenores, mas sabe-se que, a quando da sua visita a Ovar, nos fins do ano 1899, a Madre Provincial Morais ficou na disposição de mudar a Superiora, a Madre Gomes: “(…) O Padre João Saborino está muito descontente e pediu de viva voz, o que já me tinha pedido várias vezes por escrito, que levasse aquela Superiora porque não sabia governar, embora fosse muito santa”. Foi escolhida, provisoriamente, para a substituir, a Madre Almeida Silvano, que partiu para Ovar nos fins de Fevereiro ou princípios de Março de 1900. No fim do ano, a Madre Provincial escrevia para Roma: “(…) Já visitei a casa de Ovar que, graças a Deus, vai indo perfeitamente e o Padre Saborino muito contente com a Madre Almeida Silvano; já mandou construir, à sua custa, um outro andar para as alunas internas”.

O Colégio das Doroteias, aberto a 21 de Outubro de 1897 e encerrado 8 de Outubro de 1910, já com o acrescento para as alunas internas. Com a saída das Irmãs após a implantação da República, o edifício passou a ser a sede da Santa Casa da Misericórdia de Ovar

A Madre Provincial deparou com uma lacuna "(…) e era de não ensinarem a doutrina às crianças, o que deixei recomendado”. Voltou, portanto, a abrir a catequese.

A capela do colégio polarizou a piedade dos arredores: acorria muita gente para tomar parte na Santa Missa, na Comunhão das primeiras sextas-feiras, nas devoções dos meses de Maria e do Sagrado Coração de Jesus.
Em Junho de 1900 foi pregado um retiro para as Filhas de Maria, mas nele poucas participaram devido aos trabalhos dos campos.
No fim do ano de 1900, as alunas semi-internas eram trinta e sete; as internas sete (o internato começou com duas alunas em Maio de 1899); quanto às alunas gratuitas, embora estivessem inscritas noventa, assistia às aulas uma média de cinquenta. A frequência destas era bastante irregular: no inverno, atingia o ponto máximo; a partir de Maio, a escola era trocada pela praia (3).
Neste mesmo ano, há que assinalar, em 10 de Abril, a morte da primeira Superiora da casa (e a quem se ficou devendo a fundação), a Madre Ana Barbosa, que santamente faleceu em Ovar, num acto de perfeito abandono no Santíssimo Coração de Jesus: “Nas Vossas Mãos e no Vosso Divino Coração entrego a minha alma e o meu corpo” foi a sua oração até ao fim, até ao momento da resposta divina ao seu humilde apelo.

Notas:
(1) As Irmãzinhas dos Pobres têm casa no Pinheiro Manso, à Boavista, no Porto.
(2) O jantar era (e ainda se chama nas aldeias), a refeição do meio-dia
(3) Nesse período, os trabalhos piscatórios atraíam ao Furadouro muitas famílias de Ovar

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Abril de 1984)

Leia AQUI um depoimento de Madre Virgínia Roque sobre o encerramento compulsivo deste Colégio, após a implantação da República (1 de Julho de 1984).

9.8.09

Madre Rita Amada de Jesus

Percurso de Madre Rita
nas dioceses do Porto, Viseu e Guarda

Jornal JOÃO SEMANA (1/6/2006)
Rita Amada de Jesus teve uma experiência
religiosa muito ligada à Diocese do Porto.
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Nascida em 5 de Março de 1848 em Casalmendinho, freguesia de Ribafeita, numa família de agricultores com 7 filhos, passou algumas temporadas da sua infância em casa de outras famílias, nomeadamente na de um distinto médico de Viseu, cuja filha a ensinou a ler e a escrever, proporcionando-lhe uma educação esmerada, que muito a ajudou nos seus contactos apostólicos futuros.

De Viseu para o Porto
Apesar de mostrar, desde muito cedo, vocação para a vida consagrada, só aos 29 anos, em 1877, iniciou a sua formação religiosa, como aspirante, no Porto, na Casa das Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora (de Calais), poucos anos antes chegadas a Portugal, e que residiam num antigo palacete (“a Casa das Sereias”) ao fundo da Rua da Bandeirinha, 31, sobranceiro à Alfândega do Porto, Religiosas essas a quem chama, nos seus escritos, “Irmãs da Caridade”(1).



Casa das Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora, no Porto.
(O portal da casa está ornado com duas colunas simulando sereias)

Na foto, restos do antigo colégio de Sanguedo, na actualidade
Dali saiu, ao fim de um ano, doente e insatisfeita, mas mais conhecedora dos regulamentos conventuais, com vontade decidida de concretizar o seu sonho antigo: fundar um Instituto próprio, direccionado para a defesa dos valores da Família e para a formação de raparigas pobres ou em perigo moral.
Em Sanguedo (concelho da Feira), frequentou, durante um ano, como pensionista, o colégio das Religiosas Franciscanas (Associação de Santa Clara)1, de onde saiu com 32 anos.
Foi ainda na Diocese do Porto, a sul do Douro, que passou os anos seguintes, na busca de novos horizontes para a sua missão: em Esmoriz (concelho de Ovar), numa visita ao pároco local, este apresentou-lhe uma senhora que prometia deixar-lhe os seus bens se aceitasse ficar na sua companhia, mas ela rejeitou a ideia. Em Lourosa e em Lamas partilhou, durante largos meses, habitações de famílias locais, donde partia para as freguesias vizinhas em acções de apostolado, serviços esses a que se dedicava desde muito jovem, dada a sua intensa devoção à Eucaristia e ao Sagrado Coração de Jesus (muito contribuindo para o desenvolvimento do Apostolado da Oração), ao mesmo tempo que promovia a recitação do Rosário e chamava à conversão pessoas de vida escandalosa.
A morte da mãe levou-a de regresso a Ribafeita, mas por pouco tempo.

Uma obra querida por Deus
Acolhida na citada família de Viseu, que todos os anos costumava ir a banhos para a Granja, Rita retomou o caminho do Porto, ali contactando o P.e Francisco Pereira, da Companhia de Jesus, seu confessor quando estivera nas Franciscanas Missionárias, esperando dele um conselho avisado acerca da sua pretendida Obra.
Se no primeiro contacto a opinião do P.e Francisco foi negativa, o que a deixou amargurada, mas em humilde conformação com a vontade divina, num segundo encontro, um ano depois, o mesmo sacerdote afiançava-lhe que essa Obra era querida por Deus. Rita ficou radiante, não lhe faltando o ânimo necessário para iniciar, de imediato, a sua missão.
Após algum desencanto com as autoridades visienses, que não lhe queriam dar crédito, por ser uma mulher do povo, e depois de utilizar alguma diplomacia, em que tiveram acção meritória o Bispo de Viseu, D. António Alves Martins, e um deputado às Cortes, natural de Viseu (o Cónego Gaudêncio, futuro bispo de Portalegre), conseguiu obter do Governo a necessária licença para a fundação de um Colégio para meninas (14 de Setembro de 1880, dia que passou a ser considerado como a data da fundação da Pia União que, anos depois, na hora permitida pela lei, viria a dar origem à Congregação Jesus Maria José).

De Gumiei a Paramos
O Colégio funcionou primeiro em Gumiei (Ribafeita), durante dois anos, e posteriormente, ao longo de mais oito anos, em Farejinhas, concelho de Castro Daire, para onde se transferiu para evitar a perseguição das autoridades visienses, que não viam com bons olhos uma mulher de 32 anos a orientar um colégio no seu concelho, embora não houvesse, então, em todo o distrito, uma única escola feminina…


Antigo colégio de Farejinhas

Padre Conde
Em Farejinhas, e apesar de idênticas perseguições, e até de provações internas criadas por algumas das suas religiosas, a Obra que Rita sonhara dava passos cada vez mais firmes.
Seguiram-se: em 1880, o Colégio de Tourais (Seia), e em 1890, o de Louriçal do Campo, ambos na Diocese da Guarda, e em 1905 o Colégio do Sagrado Coração de Jesus, em Paramos (Espinho), na Diocese do Porto, ocupando uma casa construída pela Paróquia a cargo do Padre António Rodrigues Conde, natural de Ovar [na foto] e orientada, até 1903, por outra Congregação Feminina); em 1906 o colégio da Lapa do Lobo (Nelas, Viseu) e em 1907 o Colégio de N.ª Sr.ª de Lurdes e o Asilo dos Órfãos, em Castelo Branco. [CLIQUE NO LINK A AZUL]

Entretanto, em 10/5/1902, num período de maior abertura política, a Santa Sé aprovou as Constituições da Congregação (de votos simples de direito pontíficio, mantendo-se, contudo, para pessoas leigas, a Pia União).


A criação do Noviciado em Louriçal do Campo, e a assistência aí prestada pelo jesuíta P.e José Lapa Rodrigues, muito contribuíram para a evolução do Instituto, dando-se a feliz circunstância de esse sacerdote, que ficara depositário do manuscrito autobiográfico de Madre Rita, ter emigrado para o Brasil, após a implantação da República (5/10/1910), e ali ter continuado a prestar assistência espiritual às Irmãs, actualizando os seus Estatutos.

Abertura ao mundo

De facto, em 1911, as religiosas foram obrigadas a deixar as suas casas, de que foram espoliadas pelo governo republicano, tendo a Fundadora providenciado para que as Irmãs mais válidas partissem, em 1912, para terras brasileiras.
Madre Rita Amada de Jesus faleceu na sua terra natal em 6/1/1913, pouco depois da saída do 2.º grupo de Irmãs para o Brasil.


Madre Rita no dia do seu funeral, em 7 de Janeiro de 1913, em Ribafeita.
Os seus restos mortais foram transferidos para o cemitério de Viseu em 17/06/1972
No Brasil, a Congregação – hoje Instituto Jesus Maria José – consolidou-se fortemente, espalhando Colégios e uma Faculdade por diversos Estados da Federação, e alargando a sua acção apostólica por outros países da América Latina (Bolívia, Peru e Paraguai) e da África (Angola, Moçambique e Cabo Verde).

Casa-Geral do Instituto Jesus Maria José em S. Paulo, Brasil

Entretanto reabria sucessivas comunidades em Portugal: Trancoso e Viseu (1934), Paços de Brandão (Noviciado, 1942-1952), Espinho (Hospital em 1949 e Patronato em 1958), Porto (Lar de Santa Rita, 1950 – 1952, e Centro Social da Sé, 1952-1953), S. João de Ver (1952-1953), Ovar (Casa Provincial e Noviciado, desde 1951), Asilo-Creche da Misericórdia de 1952-1957, Jardim de Infância Jesus Maria José desde 1958, Centro de Promoção Social do Furadouro desde 1969, Jardim de Infância Alvorada desde 1978), Coimbra (Lar da Sagrada da Sagrada Família, para estudantes, desde 1954 e Casa de S. José, para o Noviciado desde 1982), Viseu (Lar de Santo António e Centro JMJ de Jugueiros), Paul e Dominguizo (Covilhã), e Alverca do Ribatejo.
Casa da Província Portuguesa do Instituto Maria José, instalada em Ovar, desde 1952

Nos altares

O Processo de Canonização teve a abertura oficial em Viseu em 4/12/1991, sendo enviado para a Cúria Romana em 23/10/1994. Após a aceitação de autenticidade de um milagre acontecido em Franca, Brasil (cura de uma senhora desenganada da medicina), João Paulo II marcou a sua beatificação para 24 de Abril de 2005, o que não aconteceu em virtude da morte do Papa.


Um ano depois, a Diocese de Viseu e muitas outras de Portugal, do Brasil e de outros países, particularmente aquelas onde as Irmãs Jesus Maria José prestam serviços, viveram intensamente esta hora de exaltação, celebrando jubilosamente a liturgia da Beatificação presidida pelo Cardeal D. José Saraiva Martins [foto], um português que é Prefeito da Congregação de Causas dos Santos e que veio de Roma como legado do Papa Bento XVI.

Notas
(1) O governo só permitia, então, a existência de congregações estrangeiras, e apenas as que se dedicassem a serviços de beneficência e à missionação. Só pelo Decreto de 18/4/1901 foi regulada a instituição de associações religiosas, e só quando se destinassem à acção social, ao ensino e à missionação.
(2) Uma das Irmãs do Convento de Sanguedo, falecida depois de 1910, a Irmã Júlia, levou para a sepultura o seu hábito azul, das Irmãs de Santa Clara. (Informação de Justino Francisco Pinto, de Sanguedo).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Junho de 2006)


Estiveram presentes nas cerimónias da Beatificação, em Viseu, em 28 de Maio de 2006, cerca de vinte Bispos, cerca de centena e meia de sacerdotes e vários milhares de leigos, particularmente oriundos das terras por onde Madre Rita passou ou por onde actuam as religiosas do Instituto que ela fundou em 1880.
A cidade de Viseu viveu intensamente a festa e os seus preparativos, envolvendo não só a Diocese e as Paróquias, como as instituições civis, militares, associativas e de saúde.
Em diversos momentos da celebração esteve bem evidente a dimensão multicontinental do Instituto Jesus Maria José, com a intervenção de religiosas e membros do clero (bispos e sacerdotes), oriundos do Brasil, do Peru, do Paraguai, da Bolívia, de Angola e de Moçambique.
Um grande grupo coral, acompanhado por órgão e por diversos instrumentos, deu brilho aos cânticos litúrgicos, e algumas centenas de escuteiros prestaram serviços na orientação dos participantes.

Madre Alda Mishelin e Irmã Inês, respectivamente Superiora Geral e Superiora Provincial Portuguesa
do Instituto Jesus Maria José ao tempo da Beatificação de Madre Rita