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14.10.10

O ferro e os serralheiros em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2006)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Andava, desde há tempos, com a ideia de escrever um texto sobre o ferro e os serralheiros em Ovar no início do séc. XX.
Conversando acerca do assunto com o Sr. Padre Bastos, este indicou-me o número do “João Semana” de 15 de Dezembro de 2003, onde vem um magnífico artigo do Sr. Padre Pinho Nunes intitulado “Ferros de Ovar”, cuja leitura ainda mais me estimulou a prosseguir as minhas buscas, de que passo a dar o resultado.

Portão da antiga fábrica dos Bonifácios


Contexto histórico
Os historiadores não sabem com exactidão a data do início da utilização do ferro, supondo-se já ser usado 6 000 anos a.C., referindo-se a Assíria ou o Egipto como local da descoberta.
Durante a Idade Média – período no qual o ferro se tornou mais vulgar do que o cobre ou o bronze, primeiros metais a serem descobertos na Pré-História –, os mestres armeiros de Toledo, Solingen, Milão e Damasco gozaram de enorme prestígio, pelas lâminas saídas das suas forjas.
São várias as profissões com origem na laboração deste metal, das quais destaco três mais conhecidas: Serralheiros (indivíduos que fazem obras de ferro mais delicadas); Ferreiros (fabricantes de trabalhos mais grosseiros, como alfaias agrícolas); e Ferradores (artífices que dão forma às ferraduras e que, posteriormente, ferram as cavalgaduras, os bois, etc.).
Em Ovar havia, nos anos 30, oficinas específicas para cada um desses ofícios. Mas de acordo com os objectivos da minha investigação, quero aqui salientar apenas os serralheiros, a quem também chamavam ferreiros, alguns dos quais vinham do início do séc. XX.

Serralheiros de Ovar
Eram cinco as principais zonas de onde se exercia essa profissão:
Rua Alexandre Herculano – Guilherme Serralheiro e Evaristo;
Rua José Falcão – Francisco Maria Oliveira Dias (Francisco Maria das Pombas);
Alto de Saboga – Sevintes;
Ribeira – Francisco Nunes Matos (Porrinha de menino).
Fabricavam engenhos de tirar água dos poços, grades para sepulturas, varandas, corrimões, fechaduras, portões, ramadas, fogões para queima de lenha, bandeiras de portas e janelas, etc.
Nos Invernos dos anos 30 e das duas décadas seguintes, em Ovar, como noutras terras do país, os jovens adultos da classe média, tal como os mais desfavorecidos, usavam chancas e tamancos, um tipo de calçado em que a parte superior era de cabedal, assente numa base de madeira. (As chancas eram mais utilizadas pelo sexo masculino; os tamancos pelo feminino.)
Nos meses invernosos, este género de calçado dava muito trabalho aos serralheiros. Tanto que dedicavam um dia, geralmente o Sábado, para esse serviço, ferrando as suas bases, particularmente as biqueiras e os respectivos lados, com pequenas chapas de ferro, para durarem mais tempo.
Recordo ainda o barulho que faziam os tamancos ao pisarem o empedrado das estradas daquela época ou ao entrar na Igreja. (Na de Arrifana ainda se conserva, ao lado da entrada principal, uma pequena chapa de ferro em meia lua, para a limpeza desse calçado.)
Ainda nos princípios do séc. XX, todos os trabalhos de serralharia se faziam de forma manual. As uniões das peças, que hoje se conseguem facilmente através da soldadura com eléctrodos, eram, nessa época, ajustadas com grampos de ferro penosamente batidos e aplicados em furos executados com máquinas furadoras, de funcionamento manual.
Até mesmo a forja, elemento principal de todas as artes do ferro forjado, [CLIQUE NO LINK A AZUL] era alimentado com o ar fornecido por um fole ou uma ventoinha que, manejados pela força do homem, mantinham ao rubro o carvão de pedra – o Cardiff (designação da hulha oriunda do País de Gales, na época, a única a ser utilizada para esse serviço).

Crise da II Grande Guerra
Nos anos 40, após o final da chamada Grande Guerra, o ferro sofreu uma enorme subida, já bastante notada na década anterior devido à sua grande utilização em material bélico.
Foi um período crítico para a arte de ferreiro, tanto mais que, para agravar o problema, começou por essa altura a ser utilizado o motor eléctrico no regadio das terras de cultivo, destronando os engenhos ou noras, cuja feitura era uma boa fonte de rendimento para os serralheiros.
Devido a estas circunstâncias acentuou-se a crise de trabalho para os artistas deste ofício em todo o país, dando origem ao encerramento de algumas oficinas de serralharia na nossa terra.

Hoje, de novo a crise
Segundo me informou o serralheiro José Augusto da Silva Oliveira Soares (José Nota), que exerce a sua profissão na rua Daniel das Pupilas (aos Campos) existem, neste momento, em Ovar, além dele, mais dois profissionais do ferro. Um em Enxemil e outro na Ponte Nova.
José Soares (Nota) aprendeu o ofício com Francisco Matos (o “Porrinha de menino”), no tempo em que os trabalhos ainda eram feitos com maquinaria manual, sem aparelhos de soldadura eléctrica.

Campa em ferro forjado no cemitério de Ovar. Recuperar esta arte é preservar
 o riquíssimo património local
– “Hoje, qualquer um é serralheiro, se tiver uma forja, uma máquina de soldar com eléctrodos e alguma ferramenta.” – afirma, mostrando-me os ferros com que batia nos cravos de forma manual para unir as peças feitas separadamente.
Disse-me ainda o meu interlocutor que, presentemente, os serralheiros estão com muita carência de serviço, devido ao pouco trabalho existente na construção civil e à expansão dos materiais de alumínio que, em muitos casos, passaram a substituir o ferro.
Tal como nos anos 40, os ferreiros de Ovar sentem que os dias de hoje são de crise.
Oxalá, passem depressa, para bem dos que ainda vivem da apaixonante arte de trabalhar o ferro e que, simultaneamente, podem, através dessa arte, contribuir para melhorar a economia do nosso país!...

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2006)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/10/o-ferro-e-os-serralheiros-em-ovar.html

24.3.10

Lavadeiras das Luzes – Vozes que ainda cantam no rio

Jornal JOÃO SEMANA (01/12/2009)
TEXTO: Fernando Pinto

Lavadeiras das Luzes, Ovar
FOTO: M. Pires Bastos
Sempre que um turista atravessa a ribeira da Graça, nas Luzes, fica com os pés colados no tabuleiro da ponte a contemplar o cenário bucólico que se estende lá em baixo no rio. Mulheres de chapéu e lenço na cabeça, com as suas bacias coloridas a transbordarem de roupa, batem as peças na pedra fria e cantam para passar o tempo, para espantar a crise...
O “João Semana” esteve à conversa com as lavadeiras das Luzes e trouxe de lá alguns recados: “Ponha lá no jornal, se faz favor, que as mulheres que lavam neste rio ainda não desistiram do seu sonho, do lavadouro que nos andam a prometer há anos”, repetiam elas, enquanto lhes tirávamos o retrato da praxe.

Maria do Céu, uma das lavadeiras mais antigas de Ovar
FOTO: Fernando Pinto
Dona Maria do Céu fez do rio a sua segunda casa. “Já não passo sem isto. Há anos que venho para aqui de manhã e só saio por volta das quatro horas”, confessa, cabisbaixa, passando a escova numa peça de roupa escura.
“Estamos para aqui esquecidas”, lembrou a Sr.ª Benvinda Oliveira, “mas os turistas gostam muito de nós! Estão ali no hotel, atravessam a rua Dr. João Semana”, e quando chegam aqui ficam a olhar para nós. Gostam de nos ver a ensaboar, a esfregar, a ensaboar”.

Ribeira das Luzes, onde as lavadeiras costumam lavar a sua roupa e a das freguesas
FOTO: Fernando Pinto
Rosa d’Assunção no seu texto Lavadeiras de Ovar, publicado na revista Reis de 1993 [clique no link], explica que a “roupa era ensaboada com sabão amarelo, bastante gordo. Ficava a roupa de um dia para o outro e só depois se lavava com o dito sabão, tirando-se primeiro o sujo. Lavava-se, em seguida, e depois de corrida em água corrente, voltava-se a ensaboar com sabão de veia azul e estendia-se a corar ao sol. Durante o dia, várias vezes se regava a roupa, a fim de não secar o sabão que continha. A determinada altura dava-se uma volta à roupa. Dizia- se mesmo: Vou dar volta à roupa.

Lavadeiras das Luzes, Ovar
FOTO: M. Pires Bastos
No fim do dia, às peças mais brancas tirava-se-lhes aquele sabão do coradouro, voltava-se a ensaboar e, no dia seguinte, voltava-se a estender. Só no fim do segundo dia de cora era corrida, torcida e posta a secar. Não havia lixívias, apenas se usava um pouco de cloreto nas toalhas de mesa com nódoas difíceis. Depois de seca, bem sacudida e dobrada, entregava-se ao dono e recebia-se o ajustado, conforme as peças”.

Uma grávida nas Luzes

No dia 20 de Maio, deste ano, recebemos este e-mail da jornalista Sónia Morais Santos, que nos deixou boquiabertos: “Estou a fazer uma reportagem para a revista de Sábado do novo jornal i, em que me era útil conversar com as Lavadeiras das Luzes. Vi no seu fotoblogue Olhar Ovarense, aquela fotografia belíssima, assim como um artigo do Ovarvirtual, de Joaquim Castro. O que eu queria perguntar-lhe, antes de me meter a caminho (sou de Lisboa e estou grávida de nove meses), é se me sabe dizer quando é que será mais fácil encontrar lavadeiras neste sítio. Agradeço a sua ajuda.”
Respondemos ao e-mail desta colega de profissão, deixando-lhe algumas dicas para que pudesse realizar o seu trabalho sem se cansar demasiado, devido ao “estado de graça” em que se encontrava. Passados dois dias, as lavadeiras das Luzes tinham a seu lado uma jovem de 35 anos, a poucos dias de dar à luz, sentada “confortavelmente” nos degraus escorregadios que levavam ao leito da ribeira da Graça!!!
No dia 20 de Junho, Sónia Morais Santos partilhava a sua experiência com os leitores da revista Nós. Deixamos-lhe a introdução desta sua aventura por terras vareiras, para que também possa ficar atónito: “É como se não fosse verdade. Como se fosse cenário. Como se houvesse uma câmara algures, de certeza, uma claquete, um ‘Corta!’ pronto a ser disparado por uma voz decidida. E, afinal, vai-se a ver e não. Não é uma cena de um filme, nem de uma novela, nem de uma série a relembrar tempos idos. Há mesmo mulheres dentro do rio, com alguidares de roupa suja e barras de sabão e escovas, há espuma e mãos que esfregam, há até cantorias para ajudar a passar o tempo, há tudo o que havia antes, num tempo que não é o de hoje”.
Lavadeiras das Luzes - FOTO: Fernando Pinto
Quem sabe se não é neste Natal, ou no próximo, que as lavadeiras das Luzes vão ter a prenda há muito desejada no “sapatinho”: um lavadouro condigno, desses que não deixam entrar água nas botas de borracha no Inverno, quando o caudal do rio engrossa e fica da cor do barro, desses que não gastam nada a não ser as mãos delicadas das vareiras que lavam passadeiras, colchas e carpetes para fora, para irem ganhando uns “tostões”, vencendo esta crise que teima em não passar.
Como disse uma das senhoras que passava pela ponte das Luzes – na altura em que a Dona Maria do Céu e a Sr.ª Benvinda Oliveira cantavam a “Aldeia da Roupa Branca –, “é ou não é verdade que os políticos passam a vida “a lavar roupa suja” e, no final, continuam todos amiguinhos uns dos outros e quem paga o pato somos nós?... E as duas lavadeiras continuaram a ensaboar, a esfregar, a cantar...

Ai rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.

Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol.

Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.

Um lençol de pano cru,
Vê lá bem tão lavadinho,
Dormindo nele, eu e tu,
Vê lá bem, está cor de linho.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Dezembro de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/03/lavadeiras-das-luzes-vozes-que-ainda.html




Um dos postais da minha exposição de Fotografia "FRUTOS DO OLHAR"
MUSEU DE OVAR (30 de junho a 28 de julho de 2012)

6.8.09

Armando Andrade – Centenário de um artista vareiro

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2008)
TEXTO: Delfina Carmen

Armando Andrade
Falar do Armando não é fácil, pois viveu já há muitos anos.
Mas a sua postura como pessoa não passou despercebida, porque era diferente nas suas atitudes. Um tanto excêntrico, era um homem bom, sempre disposto a ajudar os outros. Muito respeitador, surpreendia pela sua modéstia e pelas suas atitudes de honradez.
Por 1935 vivia em Porto Igreja, S. Vicente de Pereira, freguesia onde nasceu em 19 de Maio de 1908.
Ali conviveu muito com o meu pai, Domingos Fernandes da Silva, pois éramos vizinhos.
Era um bom homem, de grande sensibilidade, mas intranquilo, confiante no seu trabalho, mas infeliz.
De temperamento difícil, foi sempre incompreendido.
Sentia-se um artista (porque o era) e exigia que o tratassem como tal. O que não acontecia, porque as pessoas da terra não eram sensíveis aos seus dotes artísticos. Mas ele desculpava-os, dizendo:
“Coitados, não sabem o que é arte!”. E o meu pai, mais compreensivo, afirmava:
“Este rapaz ainda vai dar muito que falar!”.
Já nessa altura da sua juventude ele produzia trabalhos lindíssimos e artisticamente perfeitos, confeccionados em barro, terra-cota, madeira, etc. Entre eles um par de príncipes, de uma perfeição invulgar!
Casa de Armando Andrade
Fez um trabalho – “O Menino dos Caracóis” – para a família Malaquias: – o busto do Jorge, irmão do cineasta Paulo Rocha, obra que foi muito elogiada pelos críticos de Arte.
Aqueles que o conheciam a sério já o consideravam um artista de génio.
Como era muito modesto, e sem ajudas para se promover (sem mecenas), poucos lhe atribuíam os méritos que realmente possuía. Ele que também não ligava nada ao dinheiro, de tão desprendido que era dos valores materiais, mesmo depois de casado. O meu pai chegou a chamar-lhe a atenção, pois tinha mulher e dois filhos que, por vezes, passavam mal. Até porque, quando se via desanimado com a vida, sem futuro e sem meios de subsistência, ele, que era um temperamental, mostrava-se de mau génio, a ponto de os filhos o temerem.
Os seus sonhos desvaneciam-se, então, e ele desabafava, desiludido:
– “Sou um pobre pinta-ratos…”
O seu génio artístico era, de facto, incompatível com o seu génio temperamental, acontecendo que nem a mulher nem os filhos sabiam quando eram obrigados a tratá-lo por Armando ou por “pinta-ratos”! Dependia do dia, ou mesmo da hora… No entanto, ele adorava a família, brincava muito com os filhos.
Em situações mais críticas, o meu pai intervinha e apaziguava a família. Por isso eles o respeitavam muito.
O rapaz, o Hipólito, é também um grande artista. Da menina não me lembro o nome, mas também não era muito vulgar. (Ele dizia que os nomes dos filhos não eram vulgares, porque eles também não iriam ser vulgares!).
O Armando gostava muito de trovoadas. Sempre que trovejava, fosse de dia ou de noite, quer chovesse ou ventasse, abria todas as portas e janelas de sua casa. Os filhos, amedrontados, pediam que ele as fechasse, mas o Armando não os ouvia…. Cantava, ria e chorava… Não sabíamos porque o fazia!
Num dos serões que passou em nossa casa a jogar cartas com o meu pai, o Armando aproveitou uma das folhas de papel onde apontavam os jogos, e fez, a lápis, um retrato do meu pai, que ainda guardo, encaixilhado, com muito gosto e carinho [na imagem, Domingos Fernandes da Silva (Calrote), desenho de 1935].
Numa noite, em nossa casa, o Armando zangou-se com o meu pai, por causa do jogo. Para o castigar, pintou a sua caricatura na portada de sua casa, para que o meu pai, que morava em frente, ao abrir a janela do seu quarto, visse aquela figura feia pintada em branco e em grande dimensão. E não é que o meu pai adorava ver-se assim retratado na portada do Armando, num desenho que durou anos?
Entretanto, o meu pai faleceu em 1939, e ele saiu de S. Vicente, indo trabalhar para a França, espalhando a sua arte pelos quatro cantos do mundo. Algumas das suas obras figuram no Museu de Limoges onde, sempre que podia, ia ver os seus trabalhos, anonimamente, pois não queria honrarias. Passava muitas horas a admirar esses seus “filhos”, como ele dizia, e voltava para Portugal, feliz!
Trabalhou para a Vista Alegre, onde fez trabalhos notáveis, inclusivamente para o Brasil, onde
“Lavadouro nos Moinhos dos Pelames”, em Ovar
Óleo de 1963, de Armando Andrade, Colecção do Museu de Ovar
foi figura de jornais.
Acabou por ser reconhecido como Artista. Mas nunca como merecia. Talvez pela sua timidez.
Na realidade, o Armando era um homem diferente. Um homem de sonhos. Bem sonhados, mas não totalmente realizados!
Sempre pronto a ajudar as pessoas como se cumprisse um dever, foi humilde até na própria morte, ocorrida em 24 de Fevereiro de 1986.
Desejo, Armando, que não tenhas, agora, sonhos irrealizados. Tu que cumpristes a tua missão como homem e como Artista!

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2008)


Armando Andrade
Primeiro o artista, ou o barro?

TEXTO: Manuel Pires Bastos

Um filão de barro branco – o puríssimo caulino donde nascem as porcelanas da Vista Alegre – marcou, ainda criança, a vocação artística do Armando.
Ali, em S. Vicente de Pereira, Ovar, cada bocado de barro era atracção e desafio permanente à habilidade das suas mãos frágeis, donde saíam figuras as mais diversas, cheias de realismo e beleza.
Nascido há um século – em 19 de Maio de 1908 –, cedo se fez ao trabalho na empresa de transportes A Boa Nova de Ovar, de António Ferreira da Costa, do lugar da Herdade, na sua terra natal, onde aprendeu a arte da pintura em chapa.
O seu gosto pela cerâmica de tal modo sensibilizou os encarregados dos caulinos que o convidaram a transferir-se para a Vista Alegre, onde se iniciou no desenho, na pintura e na cerâmica artística, vindo a fazer estágio em Limoges.

Barreiro de S. Vicente de Pereira de onde se extraiu o caulino
que deu origem a preciosas peças de porcelana, muitas das quais
saídas das mãos de Armando Andrade

Barreiro de S. Vicente de Pereira
(Imagem de satélite - Google Earth)

Barreiro de S. Vicente de Pereira de onde se extraiu o caulino (1960)
A partir de 1938 laborou, sucessivamente, nas Fábricas de Cerâmica artística do Carvalhido (V.N. Gaia), Sacavém (1942-1945), Soares dos Reis (Gaia) e Lusitânia (marginal do Douro, Porto). De 1946 a 1948 trabalhou em sociedade com Nelson Ribeiro, mas, por segurança económica, preferiu trabalhar, de novo, como contratado, na Vista Alegre (1947-1949) e seguidamente na Artibus (Aveiro, 1949-1959?), Raul da Bernarda (Alcobaça), SPAL (Alcobaça, 1968-70), Garranchos (Aveiro) e Primagera (Aradas, Aveiro).
Prato artístico (Reis de Portugal) da autoria do ceramista/escultor
Armando Andrade, destinado ao Presidente da República Óscar Carmona 
Pelo caminho, algumas estadias no Brasil, onde deu brado o restauro de uma peça de cerâmica do espólio museológico do rei D. João VI. Além de notáveis obras em cerâmica, deixou valiosas peças a óleo, aguarelas, desenhos, medalhas e estátuas. Os seus 75 anos foram celebrados em 1985, sob a tutela da ADERAV, com uma Exposição orientada pelo Dr. Amaro Neves, Coronel Cândido Teles e Dr. Énio Semedo, Exposição que esteve patente primeiro no Museu de Aveiro e depois no de Ovar, e que era acompanhada por uma revista-catálogo com o testemunho de vários colaboradores.

Na Revista anual “Dunas – Temas & Perspectivas”, n.º 6, editada pela Câmara Municipal de Ovar em 2006, o Dr. Amaro Neves evocou a sua figura, sugerindo que a proximidade do seu centenário despertasse a consciência dos vareiros para “uma justa evocação do artista, na sua terra”.
Oxalá a Exposição que está a ser preparada pelo Museu de Ovar, e aberto até 30 de Junho, cumpra este desiderato, avivando a memória de um grande Mestre que nos deixou, em Aradas, Aveiro, em 24 de Fevereiro de 1986, aos 77 anos, e a quem Ovar dedicou uma rua na Cova do Frade, a norte da Rua João Corte-Real.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Maio de 2008)



No centenário de um Artista vareiro

TEXTO: Maria Dulce Vieira

A pedido do Director deste jornal, ouso escrever algumas palavras sobre Armando Andrade na data do 100.º aniversário do seu nascimento, em S. Vicente de Pereira, deste concelho de Ovar, em 19 de Maio de 1908.

Pintura de Armando Andrade. Ao fundo,
Capela da Vista Alegre

De facto, eu não quero – nem posso, de forma alguma – perder a oportunidade que me é dada para falar de alguém que, para mim e para a minha família, foi sempre considerado um Homem bom e um excepcional Artista.
Neste mês de Maio de 2008, comemorativo da efeméride, é preciso reavivar a sua memória, num comprimento de onda que permita fazer ouvir mais longe o que foi e o que continua a ser, através da obra que nos legou, o Ceramista e Pintor Armando Andrade.


Armando Andrade e o seu filho Hipólito,
dois Artistas plásticos entre paisagens inspiradoras

Um dos meus amigos, que prezo muito porque, além desse atributo, é meu filho, sempre que me vê a escrever, costuma dizer- me, à laia de pergunta desmotivadora: – Para que se publicam coisas que não conseguem dizer nada de novo e, portanto, nada que o mundo já não saiba?
Neste caso concreto, eu, que tive o privilégio de conhecer, desde criança, o Armando Andrade, não posso calar as minhas impressões sobre ele, repetindo exaustivamente, e sem sombra de exagero, que se tratava de um artista com um talento admirável e inato para o desenho, a pintura e a escultura.
Com apenas 6 ou 7 anos de idade já era admirado pelas obras que saíam das suas mãos pequeninas, quer em esculturas, feitas com o caolino extraído nos barreiros de S. Vicente de Pereira, vizinhos da sua casa, quer em retratos, já então muito apreciados.

Como referi em texto publicado na revista “Reis”, da JOC/LOC de Ovar, de 2008, o meu Pai, fundador dos transportes de passageiros “A Boa Nova de Ovar”, contratou-o diversas vezes, a primeira das quais ainda rapazinho, para pintar as carroçarias dos seus autocarros, montados na nossa oficina, em S. Vicente, no lugar da Herdade. Com a ajuda da espátula, dos pincéis, ou da pistola, os materiais manuseados por si produziam, como que por magia, trabalhos magníficos.
Contratado pela fábrica de cerâmica Vista Alegre, foi residir para Ílhavo, onde se dedicou exclusivamente à pintura e modelagem, e de tal modo manifestou as suas aptidões que os seus patrões o enviaram para Limoges, em França, a fim de frequentar ateliês de Arte, o que contribuiu para aperfeiçoar, ainda mais, a sua sensibilidade artística.
Por meados de 1984, na companhia de sua irmã Margarida, que continuou a viver em S. Vicente, visitei-o em Esgueira, já no seu leito de morte. Foi a última vez que tive oportunidade de lhe testemunhar o meu apreço, estima e consideração, o que reitero agora, na comemoração centenária do seu nascimento.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2008)

5.5.09

Figuras Populares – O Júlio dos jornais

Júlio Ferreira Manguela
(O Júlio dos jornais)
Jornal JOÃO SEMANA (15/5/2006)

TEXTO: Orlando Caió

Era uma figura bastante conhecida em Ovar nas já distantes décadas de 1940 e 1950.
Manhã cedo, com a sacola de ardina ao ombro e quase sempre apressado, percorria as ruas de Ovar, anunciando os jornais mais influentes de então, como “O Primeiro de Janeiro”, “O Século”, “O Comércio do Porto” e “O Jornal de Notícias”, e os números dos bilhetes da Lotaria Nacional.
Júlio Ferreira Manguela de seu verdadeiro nome, nasceu em Ovar, no lugar do Sobral, a 22 de Agosto de 1917, no seio de uma família de humildes lavradores. Anos mais tarde, viria a fixar residência precisamente no rés-do-chão do prédio onde funciona a sede do Clube Recreativo da Ponte Nova.
O Júlio era uma pessoa humilde e bem disposta, do qual muitos ainda lembram a especial maneira de assobiar, imitando na perfeição o apito dos árbitros de futebol.
Como vendedor de jornais e lotaria, trabalhou para a antiga Casa Gonzalez, situada na rua Cândido dos Reis – desde os anos 40 até 1958 –, e depois, até ao início da década de 1960, para a Casa Reis, situada no Largo da Família Soares Pinto, junto ao Neptuno.Do Júlio, ficou-nos a imagem de uma pessoa simpática, honesta e eficiente na sua função principal, que era a de ardina.Júlio Ferreira Manguela faleceu em Ovar a 22 de Março de 1971, com 53 anos de idade, em consequência de um acidente de viação ocorrido na Ponte Nova.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Maio de 2006)

2.2.09

O Professor Baptista – Exigente e disciplinador

TEXTO: José Maria Fernandes da Graça
Antigamente era assim: os alunos quando entravam para a escola não sabiam se nela ficavam até completar a sua escolaridade obrigatória. Eu, por exemplo, por força do sistema, fui aluno, por ordem cronológica, das professoras D. Palmira Freire de Liz e D. Benilde Figueiredo, ambas na Olaria, ficando, por último, nas mãos do senhor professor Baptista, na Escola Conde de Ferreira (escola do Castelo).
Era inegável que este educador tinha fama de mau, mas não o era. Era simplesmente rigoroso, exigente e disciplinador, não admitindo sornices. Com ele, tinha-se mesmo que aprender, pois não poupava esforços para que esse objectivo fosse atingido.
Ainda hoje recordo, e já lá vão tantos anos, as aulas de História, para além de outras, evidentemente. Encantava a forma como descrevia tantos feitos do nosso glorioso passado que, nas suas palavras, parecia adquirir uma grandeza ainda mais vasta. Nessas lições, nenhum de nós perdia uma palavra que fosse proferida pelo nosso inesquecível mestre. Era magistral nesta matéria e enorme o seu poder de transmitir. Empolgava-nos.
Com ele, só não aprendia quem fosse madraço ou falho de inteligência.

Um passeio pela mata

Gostaria, mesmo sem coordenação, recordar alguns pormenores que me marcaram pela singularidade do seu conteúdo.
Vejamos: num certo dia, comunicou-nos que no dia tal iríamos dar um passeio, claro está, a pé, até ao Furadouro, mas através da mata. Na data aprazada, aí fomos nós com o senhor Professor, de sapatilhas – hoje seriam ténis – e com um pequeno lanche, através dos pinhais, em direcção à Mata da Bicha. Durante o percurso foi-nos transmitindo os seus conhecimentos de Botânica e os benefícios que nos eram fornecidos pelas árvores que nos envolviam.
Era visível o entusiasmo de todos nós nesse memorável dia, que terminou na praia do Furadouro.
A propósito, tenho-me lembrado muitas vezes da expressão usada pelo senhor Professor Baptista para classificar a areia da nossa praia: – é tão limpa, tão limpa, que podemos deitar-nos nela com o nosso melhor fato, sem corrermos o risco de o sujar. (As palavras “poluição” e “ecologia” estavam a dezenas de anos de terem, como hoje, uma vital importância.)
Outro pormenor de que alguns ex-alunos seus ainda vivos se recordarão por certo: do lado sul da Escola Conde Ferreira, havia um espaço de terra que foi transformado em jardim e cujo arranjo foi confiado aos alunos, que se esmeravam, numa salutar competição, para tornar o canteiro ao seu cuidado o mais vistoso.
Gerou-se entre todos um gosto especial pelas flores, bem patente nos canteiros do jardim a que nos referimos.
Havia um, no entanto – maior, redondo –, que era, de facto, o melhor tratado. Era por nós conhecido pelo canteiro do Praça (António de Oliveira Praça, filho de um conhecido e conceituado mercantel de peixe do Furadouro).

Agora, um pormenor que diz bem do nível do Sr. professor Baptista: Há tempos, ao ler um jornal diário do Porto, deparámos com um artigo onde se recordava a competência deste nosso mestre.
O articulista, censurando a falta de conhecimentos de Português de alguns locutores da Rádio e da TV, a propósito de expressões erradas que utilizavam com inusitada frequência, dizia, a propósito: – Se tivessem sido alunos do senhor professor Baptista, os seus conhecimentos não lhes propiciariam dizer tais asneiras!Em síntese, era isto o que dizia o Telmo Ribeiro Arez, o dito articulista, cujo nome de imediato nos recordou um Chefe da Estação dos Correios da Rua Alexandre Herculano, desta cidade. Trata-se de um seu filho, médico, que viveu em Ovar. Não sei se terá até nascido aqui. A sua mãe também era, ao tempo, funcionária dos Correios, juntamente com o seu marido, o senhor Arez. Gente boa, de origem goesa, cremos, e que ainda hoje é recordada.

Uma homenagem em falta...

Para finalizar, quero penitenciar-me por não ter levado por diante uma ideia que durante anos me acompanhou: homenagear o inesquecível professor, juntando à sua volta, num almoço de confraternização, muitos daqueles que ele ajudou a formar com o seu saber, que repartiu tão prodigamente por todos.
Pensei na homenagem, tinha possibilidades de concretizar a ideia servindo-me das páginas do “Notícias de Ovar”, a que tinha todo o acesso. De várias realizações em que, com outros, me envolvi, falhou essa, que poderia ter lançado. Acredito que, com esta confissão, estarei perdoado. Mas teria sido bem melhor ter realizado o que pensei. Ainda hoje, quando me lembro do grande mestre, não perdoo a mim mesmo essa falta.
Breve biografia
do Professor Baptista

António Augusto Correia Baptista nasceu a 3 de Outubro de 1891, nesta cidade, onde faleceu a 30 de Março de 1973.
Era filho de Francisco Correia Baptista, fragateiro, e de Ana Moreira. Órfão de pai ainda criança, teve, naturalmente, muitas dificuldades em conseguir a formação escolar que lhe desse acesso a uma profissão para a qual sentia especial tendência – o ensino.
Casou, em 1913, com Maria Palmira dos Santos Amador. Professor primário (emérito, segundo o historiador Alberto Lamy),exerceu o magistério durante 44 anos, a maior parte do tempo na Escola Conde Ferreira, com aulas de manhã e à tarde. Época muito difícil para os professores, por mal recompensados no trabalho exaustivo que desenvolviam.
De salientar, a actividade e o empenho que punha na preparação de concorrentes ao Magistério Primário, a operadores dos CTT e a telefonistas desta ou outra empresa...
Este parágrafo justifica-se porque foi realmente avultado o número de pessoas que recorreram aos seus conhecimentos literários para a entrada em lugares onde o acesso não era nada fácil.
Depois de ter leccionado História e Geografia no Colégio Júlio Dinis, em Ovar, aqui fundou, em 1918, com o P.e Manuel Rodrigues Lírio e outros, o Colégio Ovarense, muito contribuindo para o desenvolvimento intelectual dos jovens vareiros desse tempo.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2003)

21.11.08

O extraordinário Rui Cunha

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2005)


TEXTO: Mário Miranda

O que vou contar sobre o Dr. Rui Cunha é baseado não só nos conhecimentos colhidos quando, ainda muito novo, fui sócio do velho Aliança, mas também em informações fornecidas por sua irmã, D. Palmira Cunha, e por uma obra de Armando Sampaio dedicada à Associação Académica de Coimbra, de que foi atleta, depois de ter sido seu presidente durante vários anos, e por isso, pessoa muito conhecida no meio desportivo do país.

Um garoto de Ovar na Académica

Um dia, Armando Sampaio disse: – “ Precisamos de um avançado centro. Logo alguém respondeu: - “ Está no Liceu de Aveiro um garoto de Ovar, que é formidável. – Pois que venha já, à experiência”.

Quando chegou, perguntaram-lhe o seu nome, e ele respondeu, com uma certa timidez: – Salviano Rui de Carvalho Cunha e Costa.

De início, não me pareceu que podia ser o jogador de que tanto necessitávamos. Como me enganei!... Ao experimentá-lo, horas depois, tive o prazer de apreciar a mais extraordinária revelação do futebol português. Eu tenho vinte e tal anos de contacto permanente com o desporto nacional, e nunca os meus olhos viram coisa semelhante: um gaiato de dezasseis anos, com uma velocidade e um “dribling” desconcertantes, um pontapé fácil, certeiro, e tão valente que suplantou o de muitos internacionais. Que assombro!
Aprovado por unanimidade, sendo aluno do 4.º ano do Liceu, só abandonou a Associação Académica quando, já médico, a sua vida profissional o obrigou a isso!...
Uma tarde, contra o Santa Clara, obteve, à sua conta, 12 pontos!... Passou, desde então, a ser considerado o “recordman”, a nível nacional, destronando o então saudoso Pepe, do Belenenses, que, dias antes, alvoraçara a crítica ao marcar 10 bolas num jogo!
Rui tinha começado a carreira com 10 anos de idade, no nosso velho Aliança, clube de que era muito amigo.
Muito humano, muito modesto, ofereceram-lhe, em Coimbra, as mais vantajosas ofertas materiais, mas nada o moveu. Manteve-se fiel até ao fim no seu posto académico, sem nunca receber um centavo de retribuição. Até as botas, mandadas vir de Inglaterra, eram pagas por ele.

Um dia, em Alcobaça, num jogo em que não alinhara por trazer um braço ao peito, ao ver o grupo a perder, não se conformou e, num esforço que teve o seu quê de leviandade, tirou as ligaduras e foi jogar também! Hoje algum jogador faria isso?
O Futebol não era, contudo, a sua maior paixão. Na realidade, só o amor à Associação Académica o manteve tantos anos na actividade desportiva. O mar, isso sim! E se assim falo é porque sei que, já depois de casado, por ser um apaixonado da Ria e, claro, por gostar de navegar, construiu uma casa em frente ao Areinho, onde fazia férias. Ultimamente passava ali, com a família, durante metade do ano, os seus melhores dias.
Como se tratava de um jogador de excepção, o seleccionador Cândido de Oliveira chamou-o à Selecção Nacional. Mas, como já anteriormente tinha vestido a camisola verde-rubra, sempre como suplente, o Rui entendeu ser altura de dizer basta a tanto “gozo”. E mandou-os “rifar” para sempre! Nessa altura, os seleccionadores só escolhiam jogadores de Lisboa e Porto. O resto do país não contava!


Médico, arrisca a vida!

Uma vez formado em Medicina, concorreu à Armada, sendo admitido com elevada classificação. Daí em diante ficou absorvido pelas suas viagens através do mundo.
Foi numa dessas digressões que praticou um acto que, pela verdadeira coragem demonstrada, o notabilizou.
Estava-se em plena II Grande Guerra Mundial. O barco onde prestava serviço recolheu alguns náufragos, vítimas inocentes da terrível conflagração. Como médico, sabia que o seu dever era tratá-los, minorar-lhes o sofrimento. Mas, podendo aguardar comodamente a chegada das vítimas, o seu temperamento de lutador e a bondade do seu coração não lhe permitiram esperar que os marinheiros transportassem os feridos à sua presença. Vendo que alguns infelizes ainda se debatiam nas ondas e que pediam socorro, tomou lugar nas pequenas lanchas e, com a sua energia de atleta, saltou também para o mar, arriscando a sua vida para salvar a vida dos outros. O Governo condecorou-o por este acto de abnegação, mas ele, uma vez em terra, não dissera a ninguém que o fez!
Já casado com uma senhora açoriana e com filhos, resolveu, um dia, fazer um cruzeiro no Mediterrâneo com a família. Atracado o paquete a um porto italiano, reparou, ao desembarcar, que estavam ali pessoas à espera. A dada altura, um cavalheiro inquiriu, com voz forte, se eram portugueses. Como a resposta foi positiva, logo ele perguntou se estava presente o Sr. Dr. Salviano Rui de Carvalho Cunha e Costa. O Rui ouviu, não se moveu, mas levantou o braço. Rapidamente o cavalheiro, um italiano, correu para ele, lançou-se ao seu pescoço e, abraçando-o efusivamente, disse, emocionado: – Se estou vivo, devo-o ao Senhor Doutor, que me salvou daquela tragédia em alto mar. Claro que as lágrimas de imediato lhe correram pelas faces. Foi uma coincidência muito feliz e inesquecível!
Um dia, colocaram no balneário de Santa Cruz uma lápide dedicada ao Rui. Homenagem justa, que alguma coisa ficará dizendo às gerações vindouras, mas pequena, mesmo muito pequena, para quem foi tão grande e tão valorosamente se soube impor.
Rui Cunha jamais será esquecido por Ovar. Mas algo falta fazer: prestar-lhe uma homenagem justa: dar o seu nome a uma das artérias da nossa cidade.




Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Junho de 2005)

10.11.08

Fragateiros de Ovar

TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Ainda senhor de uma memória excelente, o nosso prezado amigo e conterrâneo Sr. João Pinto Ramalhadeiro, cuja actividade foi sempre exercida sobre as águas do Tejo e do mar, enviou-nos uma relação de proprietários de fragatas e de fragateiros de Ovar e Válega que habitavam em Lisboa por volta de 1936, ano em que o trabalho nas fragatas estava em total decadência. Mesmo assim, o amigo Ramalhadeiro ainda conseguiu, de memória, relacionar oito proprietários daquelas embarcações e cerca de 190 elementos que as tripulavam.
Não será de reparar que uns tantos nomes não se encontrem correctos, e que muitos sejam mencionados pelas alcunhas por que eram conhecidos. Não virá daí qualquer mal ao mundo, e sempre ficará uma referência para quem, um dia, queira escrever a história da diáspora vareira que nos séculos XVIII, XIX e XX aportou a Lisboa e ali deixou fortes marcas de um povo humilde, sério e trabalhador, tal como hoje ainda é recordado.


Há lacunas imperdoáveis na história dos vareiros que, forçadamente ou não, tiveram que trocar a sua terra por outra: Lisboa, Espinho, Régua, Afurada, Matosinhos, Costa da Caparica, Costa de Santo André, Olhão, Penafiel, Mesão Frio, Vila Real, Lamego, Porto, Bairrada, e quantas mais…
Que campo maravilhoso para um trabalho de investigação a cargo do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Ovar, recorrendo a pessoas especializadas para o efeito, nomeadamente de Institutos e Universidades! Isto é o que se costuma fazer em terras que prezam os seus valores e o seu património.
Estamos cansados de bater na mesma tecla, mas ainda não fomos ouvidos. Pessoalmente, não somos prejudicados com isso. Mas Ovar é-o, sem dúvida alguma!
Convencidos de que temos razão, iremos insistir sempre que tenhamos oportunidade e motivos para o fazer. Não somos de desistir, e a imagem que devemos ter dos vareiros que saíram de cá deve acompanhar-nos. Honraram Ovar e, consequentemente, todos nós.

Proprietários de fragatas naturais de Ovar em 1936:
Gomes Casca; José Gomes da Silva; Salvador Pampulim; Manuel José de Pinho; Soares Santa; Possantes; Manuel Gomes Cascarejo; Francisco Gomes Leite.

Fragateiros de Ovar e Válega em 1936:
Valentim Venceslau; Valdemar Sousa; Joaquim Sousa; Alberto Sousa “Gris”; José Ganau; João Pelim; Manuel Fião; Manuel Ramilo; Manuel do Trigo; António Valguês (Válega); Manuel Valguês (Válega); Manuel Cabral (Válega); António O. Luzes; Bernardo da Pinta; José da Pinta; Salviano Tripa; Francisco Tripa; Manuel Tripa; João da Sueca; Francisco Pula; Mário Ramalhete; Joaquim Cabarneira; David Travanca; António Travessa; Manuel Maria Azóia; José Maria Azóia; Manuel Gomes Cascarejo; José Gomes Cascarejo; Abílio Oliveira Trindade; Brandão Gomes Cacheira; Álvaro Manata; José Arrenta; David da Ribeira; Manuel Calceteiro (Neca Calceteiro); António Zareco; José Videira; Belmiro Pinho Branco; José Pinho Branco; José de Pinho; António de Pinho; José Muscoso; Henrique Lindinho; João Farraia (Padeiro); José Farraia (Padeiro); Agostinho Farraia (Padeiro); Manuel Farraia (Padeiro); Joaquim Farraia (Padeiro); Manuel Caió; José Caió; António Augusto Rajado (cunhado do Elvas); Manuel Geada; João Geada; Francisco Geada; Damião Geada; António Geada; José Maria Geada; João Fião; José Maria Fião; João Ligas; Manuel Vaz (Sapata); Abraão Vaz (Sapata); António Castelo Branco; José Maria Barbado; João da Riquinha; Manuel Ginete; José Rato¹; António Rato; António Silva; António Caralinda; João Dias; Manuel Capitão; Francisco Saboga; Elias Clemente; Américo Aleixo; Manuel da Josefina; Manuel Rabiço; Alberto Paciência; Manuel Maria Bebágua; José Bebágua; António Saronó; Domingos Espichado; Francisco Maria Espichado; Manuel Gringa; Francisco Maria Espanhol; Manuel Escora; Francisco Barbosa: António Barbosa; José Barbosa; José Barbosa Júnior; José Barbosa; Virgílio do Carregal; Serafim do Carregal; Manuel Conde; Firmino Conde; Amadeu Conde; Alfredo Conde; Francisco Correia Vermelho (“Carregal”); Manuel Correia Vermelho; Eduardo Ravázio; José Beta; Manuel Beta; José Areias; Francisco Glória; Manuel Maria Zareco; João Prior; Carlos Faneco; Manuel do Rio; João do Rio; António Cravo; António Santa Camarão; António Manarte; António Pelim; António Ramiro; Antero Ceboleiro; Luís Manarte (“Luís Bexiga”); João Maria Ceboleiro; Francisco Batoca; Francisco Maria Batoca; José Batoca; Manuel Batoca Júnior; António Relvas; Manuel José Pinéu; José Pinéu; Manuel Oliveira Manarte (Relojinho); José Maria Rei; José Catoita; Manuel Catoita; Américo Catoita; Manuel Caleira; José Correia; Augusto da Batoca; Manuel Manata; José da Ruvinha; João Oliveira Vendeira; José Lopes Fião; Salvador Lopes Fião; José Maria Fião; António Augusto Rodrigues Aleixo (“Fião”); Joaquim Raia; Manuel de Arada; António Pinto Garranas (Quinito); José Pinto Garranas; João Maria Gualtério; Francisco Ramalhete; José Maria Ramalhete; José Parrano; Manuel Azoia; Manuel Maria Azoia; Carlos da Moleira; José F. da Silva; Manuel F. da Silva; António de Oliveira Vinagre; João Campona; José O. Manarte; José Maria Pelouro; José Pelouro; Manuel Pelouro; Zeca Pelouro; Isidro; Sebastião Rebelo; Bernardo Rebelo; Manuel P. Rebelo (“Lapuz”); José Nabo; Manuel Maria (“Mestre do Foca”); António Fanha; António Fanha Júnior; Manuel Rabela; Manuel Rebela Júnior; João do Batelão de Água (João Barreto); José Solheiro; Álvaro Solheiro; José Verão; António Rabiço; João Regadinho; Artur Coito; Manuel Coito; Álvaro Morgado; António Canário; Manuel Tadeus; Francisco Tadeus; António Vau; José Formigal; João Canastreiro; José Veiros; Manuel Rabiço; Manuel Maria Canário; António da Isepa.

(¹) Teotónio Pereira ia comer à fragata de José Rato [tio da Maria José, casada com Mário Santos (Gesta)].

Como conheci os irmãos Silvestre (Mestres “Marcelas”)

Conheci o Sr. João Marcela e o Sr. Bernardino em 1936, em Mutela, onde eram construtores de fragatas e barcos de madeira.
O João Gomes Silvestre era mestre carpinteiro de machado, e o mestre Bernardino Gomes Silvestre era calafate, tendo sido ambos construtores em Ovar, num estaleiro que tinham ali para os lados da Ribeira
(ver foto). Eu mesmo andei numa fragata, a "Sertória", construída por eles em Ovar, e lançada ao mar em 7/3/1907.
O mestre João era grande na estatura e grande nas obras que fazia. Tudo o que saía das suas mãos era perfeito.
O irmão, mestre Bernardino, era a mesma coisa. Vi-o a calafetar uma fragata com água pela cintura…
Havia vários estaleiros na Praia de Mutela, mas os dos Marcelas rivalizavam com todos: serviam uma clientela das melhores que havia, de que faziam parte alguns proprietários de fragatas naturais de Ovar.
Muita coisa boa poderia dizer destes dois gigantes e competentes fragateiros da minha terra, que Deus chamou ainda novos.

João Pinto Ramalhadeiro

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2004)

26.10.08

Padre António da Silva Maia - A consagração que tarda

Jornal JOÃO SEMANA (1/10/1990)

TEXTO: Pinho Lopes

Depois de vários anos volvidos sobre o falecimento do Missionário que se chamou padre António da Silva Maia, é chegada a hora de todos nós que o conhecemos, o tivemos entre nós e o vimos passar com a sua sotaina e a sua bicicleta, relembrarmos o homem e a sua obra, a humildade e o apagamento que foi o seu viver, o desbravador e pioneiro dos morros do Amboím e terras do Seles e o cultor admirável e linguista insigne que transformou dialectos em línguas vivas, com gramática, dicionário, etc…etc.
A grandeza da sua obra missionária, com realizações materiais assinaláveis criação de paróquias (GABELA E VILA NOVA DO SELES), construção de igrejas e fundação de um colégio exemplar, dão a dimensão exacta dum homem que soube viver em condições precárias e difíceis, sem qualquer conforto e suportando um clima que deixa marcas e arruína a saúde dos mais fortes.

Igreja da Gabela, construída no tempo do Padre Maia e restaurada depois da independência
Foi o primeiro desbravador e cabouqueiro de dialectos que estudou, escreveu e fixou como mestre respeitado e brilhante, constituindo a sua obra de linguística, que se estende por diversos títulos, o primeiro ponto de referência e manual obrigatório e único de quem quiser estudar ou aprender as línguas OMUMBUIM, falada no Amboím, e MUSSELE, falada na região de Seles, em Angola.
Quando olhamos com atenção e olhos bem abertos para a sua obra, as suas realizações, o seu viver, a sua cultura, espantamo-nos como foi e continua a ser possível que ninguém alerte, admire ou reconheça o valor do homem, a obra do missionário e a craveira intelectual e a cultura extraordinária deste Vareiro que, até hoje, não soubemos compreender. Noutros países, ditos do progresso e líderes da civilização, o Padre António da Silva Maia teria sido inundado de convites para palestras nas Universidades, Centros de Cultura, etc… Que o diga a América do Norte; para que falar numa Inglaterra ou citar uma Alemanha?… Sempre fomos pobres. Mas continuamos míopes e mal agradecidos.
Mas, apesar de tudo e felizmente, foi este jornal, há bastantes anos, o primeiro a dar notícia da obra que o padre Maia tinha encetado. O “Notícias de Ovar” secundou-o com entusiasmo e vareirismo.
A Imprensa de Ovar deu o exemplo e cumpriu a sua missão.Mas ninguém foi mais longe. Porquê? Talvez porque o nosso Missionário, depois duma obra ímpar e gigantesca, como homem, como missionário e como filólogo linguista, se negou sempre a subir ao palco da vida. Nunca se permitiu passar dos bastidores, e as pessoas andavam demasiadamente preocupadas e embrulhadas na sua mediocridade e egoísmo, e tinham os olhos encravados para enxergar este apagado e humilde gigante que não foi profeta na sua terra.
Uma vida dura e humilde, trabalhosa e determinada que foi uma lição, desde o seu emprego na serração do Ramada, criado de lavoura, entrada no Seminário de Vilar, no Porto, com 18 anos, passagem por Cucujães e Olivais, Missa Nova em Luanda, cumprindo já seu sonho africano, chegada ao Amboím e início de uma obra que nos devia espantar e orgulhar como vareiros e portugueses, mas que nos deixou apáticos, indiferentes, tendo talvez na ponta da língua alguma história ou dichote para contar de ALGUÉM que devíamos respeitar e admirar!...
Não é muito difícil – nem será preciso exibir, para tanto, qualquer canudo – perceber que a pobreza maior e mais angustiante não é a material; a pobreza intelectual e espiritual é muito mais grave, preocupante e lamentável e dá a dimensão dos homens e sociedades.


Padre António da Silva Maia
A obra do Padre Silva Maia ultrapassou muito as fronteiras de Ovar, e o Portugal de hoje foi pequeno para seus sonhos, cabendo a Angola receber, e ver nascer, crescer e frutificar as realizações sonhadas, idealizadas e sofridas por este vareiro grande e humilde, culto e modesto.
Nos tempos que correm, já o Governo Português galardoou obra recente de um missionário de Cucujães, que se debruçou sobre o estudo do dialecto Macua, do norte de Moçambique. Para que não tarde mais, para que os vareiros lutem pelo o que é seu, que é digno, valoroso, e terá de ser o nosso orgulho, teremos de fazer saber ao Governo que o Padre Maia foi um Português que dignificou e honrou Portugal com uma obra a todos os títulos espantosa, quer como Missionário quer, sobretudo, como filólogo emérito, que Angola terá de reconhecer sempre como alicerce e bastião primeiro de dois dialectos.
Sabemos que as paróquias de Ovar estarão disponíveis para se empenharem nesta caminhada.
A nossa Câmara Municipal, com todas as forças vivas e actuantes de Ovar, saberão formar um coro único e uníssono em louvor e reconhecimento do Padre Silva Maia. Para mais glória e orgulho de Ovar e das suas gentes.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Outubro de 1990)

 Celebração de acção de graças em memória do P.e Maia na Igreja Matriz de Ovar, em 17/5/1992, com a presença do Bispo de Quelimane, D. Francisco Nunes Teixeira, já falecido, e do bispo de Sumbe (actualmente arcebispo no Lubango), D. Zacarias Camwenho. A homilia foi feita pelo P.e Farias, actual pároco da Gabela (na foto).
Monumento ao Padre Maia, na Gabela, 
junto da Igreja por ele iniciada
No passado dia 27 de Setembro, na Gabela, em Angola, foi prestada homenagem póstuma ao Padre António da Silva Maia, sacerdote vareiro que ali prestou serviço missionário. As placas em bronze do monumento agora inaugurado foram oferecidas pela Paróquia de Ovar. A homenagem marcou o arranque do programa comemorativo do 1.º centenário daquela cidade, cuja Igreja foi iniciada com o esforço do nosso conterrâneo.