Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2009)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça
Desde muito novo ouvi com muita atenção as histórias que
contavam as pessoas mais velhas acerca dos nossos antepassados, e alguns nomes
ficaram-me na memória.
Rejubilava sempre que um vareiro alcançava uma posição de
destaque, aonde quer que fosse.
Dava-me muita satisfação ver multidões assistindo ao
desfile das nossas seculares Procissões da Quaresma, e entusiasmava-me ouvindo
os seus comentários a propósito do que lhes era dado observar.
Nesse tempo, muitos cidadãos participavam, especialmente
por duas razões: a primeira, porque, sendo católicos, mesmo não praticantes a
cem por cento, eram-no; e a segunda, porque era um brio participar nas
Procissões. Até se dizia: quem quiser ver uma verdadeira Procissão de Passos,
tem que se deslocar a Ovar ou a Lisboa. Tinham fama e o proveito.
Tomar parte nestas cerimónias reforçava – e de que
maneira – o nosso “ego”, e mais ainda, porque sabíamos que no nosso distrito
poucas terras estariam, como Ovar, em condições de pôr na rua cortejos
religiosos ao nível dos nossos. E, a propósito, sabem que não vinha à nossa
terra qualquer pregador. Vinha, sim, aquele que gozasse de mais nomeada. Tinha
que ser um pregador de alto gabarito.
Nesse tempo era assim, e com tudo isso criámos uma fama
lisonjeira, que se foi esvaindo aos poucos…
Há, pois, enraizado entre nós, um mal que nos parece de
cura fácil. É moléstia que se cura, e está nas mãos dos vareiros curá-lo. Com
participação de gente jovem, podem atingir-se duas finalidades: manter a
fidelidade dos vareiros à religião que professam, e ajudar a manter tradi-ções
muito antigas, durante outros tantas séculos.
Em muitas localidades do país vai uma azáfama enorme:
numas para avivar tradições que se perderam; noutras, para encontrar novos
motivos para atrair multidões.
A minha experiência diz-me que a nossa juventude é capaz
de mostrar o que vale, e virá, a curto prazo, dizer-nos que estará presente nas
próximas Procissões Quaresmais.
E não irei acabar este breve apontamento sem dizer que as
mulheres de Ovar vão ter um papel muito importante para alcançarmos o objectivo
que desejamos. São tanto ou mais briosas que os seus maridos ou filhos. É
assim, ou não?
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/02/as-procissoes-quaresmais-na-minha_26.html



