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26.2.15

As Procissões Quaresmais na minha juventude

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2009)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Desde muito novo ouvi com muita atenção as histórias que contavam as pessoas mais velhas acerca dos nossos antepassados, e alguns nomes ficaram-me na memória.
Rejubilava sempre que um vareiro alcançava uma posição de destaque, aonde quer que fosse.
Dava-me muita satisfação ver multidões assistindo ao desfile das nossas seculares Procissões da Quaresma, e entusiasmava-me ouvindo os seus comentários a propósito do que lhes era dado observar.
Nesse tempo, muitos cidadãos participavam, especialmente por duas razões: a primeira, porque, sendo católicos, mesmo não praticantes a cem por cento, eram-no; e a segunda, porque era um brio participar nas Procissões. Até se dizia: quem quiser ver uma verdadeira Procissão de Passos, tem que se deslocar a Ovar ou a Lisboa. Tinham fama e o proveito.
Tomar parte nestas cerimónias reforçava – e de que maneira – o nosso “ego”, e mais ainda, porque sabíamos que no nosso distrito poucas terras estariam, como Ovar, em condições de pôr na rua cortejos religiosos ao nível dos nossos. E, a propósito, sabem que não vinha à nossa terra qualquer pregador. Vinha, sim, aquele que gozasse de mais nomeada. Tinha que ser um pregador de alto gabarito.
Nesse tempo era assim, e com tudo isso criámos uma fama lisonjeira, que se foi esvaindo aos poucos…
Há, pois, enraizado entre nós, um mal que nos parece de cura fácil. É moléstia que se cura, e está nas mãos dos vareiros curá-lo. Com participação de gente jovem, podem atingir-se duas finalidades: manter a fidelidade dos vareiros à religião que professam, e ajudar a manter tradi-ções muito antigas, durante outros tantas séculos.
Em muitas localidades do país vai uma azáfama enorme: numas para avivar tradições que se perderam; noutras, para encontrar novos motivos para atrair multidões.
A minha experiência diz-me que a nossa juventude é capaz de mostrar o que vale, e virá, a curto prazo, dizer-nos que estará presente nas próximas Procissões Quaresmais.
E não irei acabar este breve apontamento sem dizer que as mulheres de Ovar vão ter um papel muito importante para alcançarmos o objectivo que desejamos. São tanto ou mais briosas que os seus maridos ou filhos. É assim, ou não?

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/02/as-procissoes-quaresmais-na-minha_26.html

15.3.09

A Procissão dos Passos há 100 anos

TEXTO (recolha): António Mendes Pinto

Há 100 anos atrás [1903], o semanário regenerador vareiro “A Discussão”, ao falar da Procissão dos Passos, não fazia qualquer referência a Nossa Senhora das Dores e ao Sermão do Encontro, o que confirma a informação do P.e Manuel Lírio (“Os Passos de Ovar”) de que nem sempre se fazia essa tocante cerimónia.
O citado semanário fala de “um verdadeiro dia de Primavera”, da Irmandade, que à Procissão “procurou dar, como efectivamente deu, a maior imponência e luzimento”, e dos “comboios tanto ascendentes como descendentes que vinham completamente apinhados de povo, que, espalhando-se pela Vila, dava a esta um “tic” desusado e festivo”.
Vale a pena recordar alguns pormenores do evento tal como o repórter os retratou: “findo o sermão do Pretório, saiu o préstito religioso da Matriz cerca das 4 horas da tarde, o qual, percorrendo o costumado itinerário com uma ordem e decência como já há muito não víamos, oferecia um aspecto verdadeiramente majestoso, ao deslizar, com magnificência, por entre duas alas compactas de povo.




À frente do préstito, cuja direcção era confiada a José Marques e Drs. Pedro Chaves, Cunha e Lopes, seguia o alçado e o estandarte, às guias do qual pegavam os nossos amigos Drs. Sobreira e Descalço, e Revs. Sanfins e Gomes Pinto, e, após o andor com a magnífica e rica imagem do Senhor dos Passos, empunhava a vara de juiz o Rev.º, Pároco Dr. Alberto de Oliveira e Cunha, trajado com as suas vestes de capelão-fidalgo da Casa Real.
Sob o pálio, o Rev.º Francisco de Oliveira Baptista conduzia a santa relíquia, seguindo no couce da Procissão a Banda Marcial Ovarense que, durante o trajecto, tocou mimosas marchas fúnebres.
Fechava o préstito uma força de Infantaria 24, sob o comando de um alferes.
A Procissão recolheu já depois das 6 horas, sendo pregado em seguida o sermão no Calvário.
O orador, o Rev.º Alberto Cid, a quem estavam confiados os sermões, proferiu dois excelentes discursos.
As diferentes Capelas dos Passos conservaram-se expostas, durante o dia, à veneração dos fiéis, ornamentadas com elegância.”

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Abril de 2003)


A devoção dos Passos em Ovar vem do séc. XVI (desde 1572, segundo se tem escrito), começando, pouco depois, a ter visibilidade através de uma procissão solene que passava por diversos lugares evocativos dos Passos da Paixão, primeiro em capelinhas portáteis, de madeira, e, quase dois séculos depois, nas monumentais capelas de pedra e talha dourada espalhadas pela cidade, desde o Pretório, na Igreja Matriz, até à do Calvário. (P. B.)

12.3.09

A Procissão dos Terceiros há 100 anos

TEXTO (recolha): António Mendes Pinto

Segundo o Semanário regenerador “A Discussão”, de Março de 1903, o Definitório da Ordem Terceira empregou todos os seus esforços para que a Procissão das Cinzas se revestisse de esplendor, fazendo convites especiais para os cargos de directores da procissão.


Houve oferta de adornos e “melhoramentos” nos andores.
O 1.º – de N.ª Sr.ª da Conceição – foi completamente reformado à custa da zeladora D. Rosa Emília de Jesus (imagem retocada, nova peanha em talha dourada, das oficinas do escultor José Soares de Oliveira, do Porto, caixa magnificamente adornada com sanefas de seda branca, ramos de flores e silvas artificiais, e um bouquet, executado “no Colégio dos SS.mos Corações de Jesus, Maria e José de Ovar”).
O 6.º andor – Santo Ivo – recebeu uma almofada de seda roxa para receber a borla de Doutor em Cânones, e ricas flores artificiais, oferta da zeladora D. Teresa Lopes Conde.
O 7.º – S. Francisco nas Silvas – foi igualmente reformado por completo, e a imagem, encarnada de novo, tomou nova posição, sendo o andor substituído por outro de belo efeito, tudo devido à boa vontade da Mesa, da protectora D. Maria Godinho Camossa e de outros benfeitores.
O 8.º – S. Luís, Rei de França – ostentou, pela 1.ª vez, um “esplendor de prata de subido valor”, devido aos esforços da zeladora D. Maria José de Oliveira Pinto.
O 9.º – Santa Isabel de Portugal – recebeu novas flores, custeadas pela ministra irmã D. Maria Araújo de Oliveira Cardoso.
Foram ainda oferecidos um resplendor de prata para Santa Margarida (pelo Irmão Ministro, Dr. João de Oliveira Baptista), “um esplêndido bouquet” (pela filha do anterior, D. Bárbara da Gama Fragoso) e quatro jarras de talha dourada para o andor da Ordem (por uma comissão daquele andor).


Deste histórico relato publicado horas antes da saída da Procissão dos Terceiros, constatamos que, há um século, a Ordem Terceira manifestava grande pujança, conseguindo enriquecer o seu património com peças que certamente poderão ser vistas neste dias, nos andores respectivos.
Achamos ainda pertinente acrescentar um pequeno excerto relacionado com a qualidade das peças artísticas confeccionadas pelas Irmãs Doroteias, sedeadas no Colégio dos Sagrados Corações de Jesus e Maria ( e não de Jesus, Maria e José, como vem escrito, por lapso do jornalista). Ei-lo:
“Para dizer o que sentimos àcerca do valor artístico e fino gosto destes ramos precisávamos de largo espaço e por isso nos limitamos a afirmar que não esperávamos outra cousa das dignas directoras daquele estabelecimento de ensino”.Esse estabelecimento seria fechado anos depois (em 1911) com a expulsão das Religiosas, dando lugar à Santa Casa da Misericórdia de Ovar onde, em 1951, passaram a trabalhar outras Irmãs, do Instituto – note-se a coincidência! – Jesus Maria José.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Março de 2003)