Raízes vareiras de Espinho e de Matosinhos
Texto de introdução: Manuel Pires Bastos ("J. S.", 01/02/2004)
(Ver artigo "Na rota do pescador de Ovar", de Fernanda Miguel, em baixo)
Pessoas de Matosinhos, Espinho e Ovar descobriram e
refizeram laços familiares quase perdidos, confraternizando e programando
actividades futuras que façam luz sobre a notável influência dos pescadores de
Ovar na génese e no desenvolvimento de Espinho e no progresso das artes da
pesca em Matosinhos.
Com base no facto histórico de um grande número de
famílias dos pescadores de Matosinhos serem descendentes de famílias naturais
ou oriundas de Espinho e de Ovar, o Núcleo de Amigos dos Pescadores de
Matosinhos – NAPESMAT – decidiu promover, como sua primeira iniciativa, uma
visita simbólica à cidade de Espinho e um encontro informal entre
representantes das embaixadas piscatórias de ambas as cidades, a que se juntou
uma pequena delegação da cidade de Ovar.
Fazer o estudo e o levantamento de semelhanças e
características comuns entre as três cidades, assim como promover o
relacionamento cultural das respectivas comunidades piscatórias, constituem os
objectivos do NAPESMAT, sendo esta visita o primeiro passo nesse sentido.
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António de Pinho Branco Miguel Júnior
(Bisavô de Fernanda Miguel)
(Nasceu a 09/01/1855, no lugar de Espinho,
freg. de Anta, de origem vareira)
1.º Juiz da Irmandade de N.ª Sr.ª da Ajuda.
1.º Presidente da Junta de Freguesia de Espinho
(09/1/1891) - Arquivo: M. Pires Bastos
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A escritora e historiadora espinhense Fernanda Miguel,
que vive a 100% a mística vareira, foi a abelha-mestra que congregou toda uma
imensa colmeia de gente dispersa que esperava ouvir uma voz de alerta e de
comando que lhe falasse das suas linhagens, cujas raízes comuns assentam, nos
sécs. XVIII e XIX, na classe piscatória ovarense, donde se transportaram, a
partir daí, para todo o litoral português,
nomeadamente para Espinho, praia que
ajudaram a criar, e, consequentemente, para Matosinhos, cuja história
trágico-marítima regista muitas vítimas com apelidos ainda em uso em Ovar.
Foi um encontro ternurento, tocado pelo maravilhoso:
pessoas que nunca se haviam encontrado, mas que, inesperadamente, ali se
reconheceram como parentes de longa data, ouvindo e contando histórias de avós
e tios comuns.
– “Só por isto valeu a
pena vir” – ouvíamos dizer a cada passo.
Mas muito mais coisas valeram a pena. A maior de todas, a
exaltação a Ovar e a afirmação incontestada de que aos ovarinos deve Espinho a
sua origem.
E também a constatação que as entidades autárquicas não
têm dado a devida atenção a este facto, a ponto de em 1999, nas comemorações do
1º centenário da elevação de Espinho a concelho, ter sido praticamente
ignorada.
E também a constatação de que as entidades autárquicas
não têm dado a devida atenção a este facto, a ponto de em 1999, nas
comemorações do 1º centenário da elevação de Espinho a concelho, ter sido praticamente
ignorada a ligação histórica entre as duas cidades.
O vareiro não era, propriamente, um pé descalço. Muitos
dos ovarinos arribados a Espinho eram também comerciantes em vários ramos de
negócio, para além do peixe, e tanto marearam vida, como estiveram na primeira
linha dos lutadores pela criação primeiro da freguesia de Espinho (1891) e,
posteriormente, do próprio concelho.
Por que motivo perdura, então, na mente de alguns
elitistas, uma certa animosidade atávica em relação à “alma vareira”, que foi a
força motriz que fez rolar a máquina do progresso Espinhense?
Coisas para reflectir… (Texto de Manuel Pires Bastos, jornal "João Semana", 1 de Fevereiro de 2004)
– “Em 1779 foram aforados na
costa de Espinho terrenos para construção de vinte e nove pescadores de Ovar” (Padre
Aires de Amorim, “Da Arte da Xávega de Espinho a Ovar”, pág. 139.)
– Segundo o Padre André de
Lima, teria sido a companha do “Ala” a primeira a arribar a Espinho, vinda do
Furadouro.
– “A minha bisavó, Rosa Dias
Serrano, (…) que veio de Ovar para Espinho montar negócio, já sabia ler muito
bem. Oh! Se sabia! E o meu bisavô também sabia ler. E trouxe consigo um criado
e duas criadas internas que também sabiam ler” (Fernanda Miguel, “Minha
Terra e Terra dos Meus Avós”, pág. 58)
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Desenho s/papel, da artista ovarense
Lúcia Maia - NATAL 2003 |
Verum genus
Contavam os antigos pescadores
que um dia, não
sei bem, há muito tempo,
por águas “luzas”(1), o rosto ao vento,
aqui chegaram fortes remadores.
Vencendo o fogo, temporais, areia…
na mente o sonho e determinação,
de filhos à ilharga ou pela mão,
quais Déboras da antiga Galileia,
Vieram as mulheres, para gerar
história linda a página inteira.
No chão montaram cama para amar.
Nessa noite e na duna mais fagueira
veio ao mundo Espinho e viu o mar,
parido na praia por mãe vareira.
Fernanda Miguel
Fevereiro/2000
(1) Luzas –
termo vareiro que significa límpidas, sem plâncton, quando associado à palavra
águas.
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NA ROTA DO PESCADOR DE OVAR
Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2004)
TEXTO: Fernanda Miguel
(Palestra proferida no encontro de
Espinho, em 22 de Janeiro de 2004)
I – Os primórdios
A arte de pescar e o peixe na nossa alimentação remontam
ao aparecimento da espécie humana sobre a Terra. O homem começa por pescar à
mão, aprisionando entre pedras e armadilhas os peixes que livremente nadam nas
superfícies líquidas formadas por águas que escorrem das montanhas, ainda antes
da descoberta do fogo. O salmão aparece ao lado do veado na arte rupestre do
paleolítico. A pesca artesanal surge na Pré-História com o recuo dos glaciares
a norte da Europa quando o homem sai das cavernas e começa a construir nas
margens de lagos e rios aldeias lacustres sobre palafitas ou estacas para se
defender das feras. É a profundidade do lago ou rio que leva o pescador a pôr
de lado a pesca à mão e a começar a fisgar o peixe da própria casa que habita.
Os movimentos geológicos operados no Globo recortam os
continentes, fazendo parar as águas onde eles começam. A evolução climatérica
altera-lhes a fisionomia e a cor. Cada animal do planeta procura habitat
próprio para viver e procriar, dando origem a migrações. O homem abandona a
húmida e insalubre casa lacustre e inicia, em terra, a construção de cabana com
ramos, lianas e folhas. Mas a sua condição de omnívoro impede que da roda dos
seus alimentos exclua o peixe.
No período da pedra lascada o homem caça e pesca com
arpão de pedra talhado em bico. Escava o tronco da árvore e constrói a piroga,
a sua primeira embarcação.
Os Iberos
A Europa, a quem os gregos chamaram «cara de anjo», acaba
por se recortar definitivamente entre o Oceano Glacial Árctico, a norte, o
Oceano Atlântico, a ocidente, o Mediterrâneo, mares anexos e Cáucaso a sul, e
Mar Cáspio, Montes Urais e Rio Ural, a oriente.
A Leste da Europa florescem as mais avançadas
civilizações da Antiguidade. Enquanto no Norte os povos continuam num estado
selvagem, quase primitivo, no sul e no centro da Europa os povos organizam-se,
rumo à civilização, beneficiados por clima propício e riqueza de solo e
subsolo. Povos asiáticos, mediterrânicos, afro-asiáticos e nórdicos olham os
europeus do centro e do ocidente com olhos de cobiça. O continente europeu é
invadido por povos dos mais variados tipos étnicos e somáticos, dos mais
diferentes cultos e credos religiosos e das civilizações mais díspares que,
mercadejando ou a ferro e fogo nele se instalam.
Até tese em contrário, o mais antigo povo que habitou a
Hispânia ou Península Ibérica, de que hoje fazem parte Portugal e Espanha, veio
de uma região de nome Ibéria, situada a sul da cordilheira do Cáucaso e entre o
Mar Negro e o Mar Cáspio – os Iberos.
Um povo aguerrido e feroz, de origem indo-germânica
penetra na Europa logo a seguir aos Iberos. Rechaçado em duros combates pelos europeus
invadidos, acaba por dominar os Iberos e com eles se fundir, dando origem aos
Celtiberos.
Fenícios e outros invasores
Dominavam na Península Ibérica os Celtiberos quando um
povo de comerciantes e de navegadores, de civilização avançada, oriundo da
Fenícia, região da Ásia Menor ou Anatólia, na costa ocidental da Síria e entre
o Líbano e o Mar, sulca o Mediterrâneo com a sua frota para na Assíria e no
Egipto colocar trigo e azeite que exporta. Senhor de ricas florestas donde
extrai madeira para fabrico de móveis e barcos, e já experiente na arte de
navegar ao largo, faz-se ao mar até ao Atlântico.
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| Barcos fenícios |
Fundando feitorias e colónias
no sul da península onde hoje é a Espanha, atinge o litoral que viria a ser a
costa de Portugal, comerciando com os nativos móveis, objectos de vidro, jóias
e tecidos de púrpura, que tinge com tinta extraída de um molusco chamado
murex,
ou trocando os seus produtos por metais peninsulares.
A permanência prolongada em feitorias e colónias por si
fundadas permite-lhe contacto com os autóctones e incursões terra adentro que
propiciam às mães locais o nascimento de filhos com traços somáticos e
caracteres fenícios ao mesmo tempo que os lavradores-pescadores deles aprendem
como construir barco com proa para cortar as ondas da arrebentação.
O esplendor fenício é eclipsado pela colónia de Cartago,
no norte de África, cujas expedições em demanda do estanho chegam até à
Cornualha, condado de Cornwall, na Inglaterra, a maior das antigas ilhas Solincas.
A civilização fenícia é momentaneamente apagada pela luz da nova Cartago, mas
os traços físicos dos marinheiros fenícios, o seu espírito de aventura, de
comerciantes e de colonizadores ainda persistem no pescador do litoral
português por onde aproaram.
Os pescadores, varinas e peixeiras de pele sardenta, de
olhos azuis e de cabelo louro ou da cor do fogo herdaram essas características
e a estatura alta dos terríveis e sanguinários piratas ou ladrões do mar que
vieram dos fiordes da Noruega, na Escandinávia, pilhando e escravizando homens
e mulheres de toda a costa portuguesa até ao promontório de Sagres, cujas
falésias envolventes escalaram para assaltar e incendiar as povoações, mais
tarde desses desmandos protegidas pelo forte de Sagres.
Em Ovar existiu atalaia ou torre fortificada que prevenia
as populações costeiras da presença de piratas argelinos no mar.
Os corsários ingleses atacaram as embarcações portuguesas
de rota costeira entre Lisboa e Porto e as embarcações de rota
inter-continental que cruzavam o Atlântico.
(Continua na edição de 15/02/2004)
Jornal JOÃO SEMANA (15/02/2004)
TEXTO: Fernanda Miguel
II – Ovar, terra abençoada
Desvendar quem primeiro pescou em Ovar é um longo e
estreito caminho perdido na negrura de milhares de anos, quando muito ao
alcance da Geofísica e da Geistória da costa entre Espinho e Aveiro e da história
da formação lagunar da Ria.
Raul Brandão diz-nos que a pesca na costa de Mira começou
quando o lavrador se lembrou de ir à sardinha no mar.
O Padre Lima e a tradição oral de Espinho dizem-nos que a
pesca caseira da nossa costa se fazia apenas quando os lavradores não tinham
trabalho no campo.
Ovar é uma Terra abençoada por Deus. Ao concebê-la com
rios e Ria, deu-lhe a natureza a várzea e o lameiro, o moliço e o sal, a
escorregadia enguia do lodo e toda a variedade de peixes que entre seixos do
leito se vêem à transparência das águas quando a luz e o calor do Sol as
atravessam.
É natural supor que a exploração de cada uma destas
dádivas tenham coexistido em dada era da vida de Ovar e do Globo. O denso
pinheiral, onde o sépia da flor do pinheiro e o amarelo-ouro da mimosa da
acácia se misturam no início da Primavera, é obra da mão do homem, que o semeou
ao longo dos anos para defender os seus campos das areias da praia arrastadas
pelos ventos.
Pescadores de Ovar no século XIII
O foral de Ovar data do ano de 1514, no reinado de D.
Manuel I. Mas já «nas inquirições de 1251 se encontra uma contribuição sobre os
moradores de Cabanões no dia em que o rei estiver na Feira, se for dia de
pesca»
Os entendidos nestas andanças dos pescadores e da pesca
atribuem a Ovar a fundação do Furadouro que, por volta do século XVI, teria
sido a sua primeira «colónia». A glória deste feito cabe aos pescadores da Ria,
sobretudo aos de Arruela, que na árida, fria e desabrigada Gelfa ou língua de
areia entre o mar e a Ria, estacaram os primeiros palheiros de tabuado, quando
já cansados de palmilharem diariamente a légua e meia que do mar à vila os
separava da família e do lar.
Geralmente, o pescador corria diariamente toda a costa
próxima, a sul e a norte de Ovar, só regressando a casa à noite. Quando passou
a estanciar noutras praias, vinha a Ovar e a casa ao Domingo, para se
retemperar de forças, conviver com a família e os amigos e ir à Missa na sua
Terra.
Com o andar do tempo passou a vir à Terra só no fim da
safra. O falecimento dos ascendentes e parentes próximos e o nascimento de
filhos nas terras por ele colonizadas acabaram por fixá-lo à nova Terra sem,
contudo, esquecer os amigos de infância, os lugares onde brincou em criança e a
casa onde veio à luz do dia e onde viu nascer os irmãos e morrer os avós.
Os pescadores do Furadouro correram quase toda a costa
ocidental e meridional de Portugal, na procura de tiradouros para lançar as
redes.
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| Pescadores de Ovar |
Durante o século XVI visitam a Torreira e S. Jacinto, na
praia das Areias e Costa Nova.
Caminhando para o Sul, chegam aos areais da Costa da
Caparica e de Santo André, e vão até Olhão, no Algarve.
Quando se voltam para o Norte, fundam centros piscatórios
em Cortegaça, Esmoriz e Paramos.
Espinho é visitado pelos pescadores do Furadouro, da
freguesia de S. Cristóvão, durante o século XVIII. Nos primeiros tempos, os
pescadores de Ovar que trabalham na costa de Espinho regressam à sua terra de
origem todos os anos, no fim da safra.
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| Redeiro de Ovar |
Famílias vareiras em Espinho e Matosinhos
Em 1777 Espinho tinha 48 palheiros, pertencentes a 46
famílias, sendo 34 de Ovar.
Em 1778 e 79 foram aforados terrenos a 29 pescadores de
Ovar.
Em 1811 é lavrada em Espinho escritura de formação de
companha com 102 pescadores «assistentes em Ovar».
Com a fixação definitiva dos povoadores, iniciam-se
correntes migratórias paralelas, de Ovar e de Espinho, para o Norte e Ribatejo.
No século XIX, pescadores de Espinho têm casa em Vila
Franca de Xira e noutras regiões do Ribatejo só para a pesca do sável. Depois,
passam a pescar no Douro, nos lugares de Sobreiras, Cabedelo, Insa, Rio de
Baixo e Fonte do Preto, pelo processo de arrasto, como a pesca da sardinha em
Espinho. Os «marmoteiros», como lhes chamavam, pescam a par de
mulheres-pescadoras de Valbom, as valboeiras.
Uma das primeiras famílias a povoar S. Pedro de Afurada
foi a família de José Ferreira Neto, o ti Zé Sabeler, que para lá se mudou
quando o mar lhe levou as casas e a arte de xávega entrou em decadência devido
à pesca indiscriminada de traineiras de Matosinhos.
Há referências de população piscatória em Matosinhos com
antroponímia vareira desde 1680. Os vareiros teriam aparecido em Vila do Conde
no século XVII e na Póvoa do Varzim no século XVIII. É de notar, porém, que a
antroponímia vareira é comum a Ovar e a Espinho. Pescadores de Espinho residem
já em Matosinhos antes do começo das invasões do mar à nossa praia, nos meados
do século XIX.
Em 1928, Santos Lessa encontra na praia de Matosinhos,
entre outros pescadores de Espinho, o velho António Martins Jacob, conhecido pelo
«Ti Morto» que lhe diz já pescar naquela praia «ainda de fralda». Ao
perguntar-lhe quantos anos tem, ele responde prontamente: «Um cento» para logo
lhe explicar que nascera em Espinho, onde morava com sua família e onde seu
bisavô ganhara a alcunha de «Morto» que dele herdou.
Mas as migrações de pescadores para Matosinhos,
propriamente ditas, só teriam começado depois das invasões do mar e da queda da
arte de xávega em Espinho.
É o filho mais velho do ti Zé Sabeler, José Ferreira
Neto, que, dando o salto de Afurada para Matosinhos, revoluciona a arte de
pesca das traineiras com a introdução do cerco americano.
Peixeiras e Mercantéis
Nos séculos XVIII e XIX, peixeiras e mercantéis colocam o
peixe de Ovar, Espinho e praias intermédias no interior rural e cidades
próximas. Mercantéis a maior escala levam a sardinha de Espinho e de Ovar até
Albergaria-a-Velha, Beiras, Douro e Trás-os-Montes e Alto Douro. Fundam, na
Régua, interposto de distribuição que leva a sardinha vareira a outras
localidades, designadamente Lamego. Ainda hoje se diz na Régua que a grande
vinhateira Dona Antónia Ferreira, a Ferreirinha, era filha de uma peixeira
ovarina.
Com a partida dos pescadores de Espinho para Matosinhos,
uma relação de avô, pai e filho, firmada no sangue, na religião e na
costumeira, se estabelece entre Ovar, Espinho e Matosinhos.
Os pescadores de Espinho – como já fizeram os de Ovar
quando povoaram o Furadouro – começam por ir para Matosinhos à segunda-feira, e
por regressar, de baú na mão, em cada fim-de-semana. Quando passam a levar
consigo a família, fazem em Matosinhos a safra, mas regressam sempre a Espinho,
onde têm casa, no princípio do defeso, para fazerem a pesca das «manjoeiras».
Pescadores de Espinho e Ovar pescam em Vila do Conde e
Póvoa do Varzim no século XIX.
(Continua na edição de 01/03/2004)
Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2004)
TEXTO: Fernanda Miguel
III – Laços entre Espinho e Matosinhos
Pescadores de
Espinho e Ovar pescam em Vila do Conde e Póvoa do Varzim no século XIX.
A lei implacável
do tempo e do ciclo da vida acabam por enfraquecer algumas das relações entre
Espinho e Ovar, mas não os laços afectivos e a memória. Se conheço a procissão
dos Passos em Ovar foi porque minha avó me levou a vê-la quando era criança. Ao
Carnaval de Ovar fui, na juventude, com meu tio Manuel, que tinha estado no
Congo Belga.
A primeira pessoa
sepultada no novo cemitério de Matosinhos foi uma Senhora natural de Espinho,
de nome Maria Rosa Crista (um apelido de Ovar).
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Das conservas generalizadas de Ovar (carne, peixe, fruta, azeitonas, etc.), a firma Brandão passou às conservas de peixe em Matosinhos |
Em muitos outros
factos da história de Matosinhos marcam, presença em primeiro lugar, os
naturais de Espinho, a ensinar o caminho aos filhos da localidade. Assim, a
mais antiga parteira da classe piscatória desta terra – a tia Mariana Vareira –
e sua irmã, a Zefa Menineira, duas bondosas mulheres que encaminharam para a
luz numerosos filhos de Matosinhos e por quem as parturientes tinham grande
estima e absoluta fé, eram também espinhenses de nascimento.
Os espinhenses
que emigraram para Matosinhos e os seus naturais que deles descenderam marcaram
presença em Espinho, uns e outros em alguns dos seus factos históricos e
religiosos, nas relações comerciais, na alegria e no luto, nos serviços da
administração pública, no equipamento habitacional e na oferta de cómodos e
casas a banhistas. Os mais novos responderam à chamada militar em Espinho, onde
foram recenseados.
Até aos anos 40,
todas as traineiras de Matosinhos com pescadores de Espinho se engalanavam no
dia de Nossa Senhora da Ajuda, para estarem presentes na altura da bênção do
mar, em espectáculo comovente, de pescadores a acenar à Virgem com a boina e
com as sirenes a apitar.
Em 1941
formaram-se duas comissões – uma de Espinho e outra de Matosinhos – com o fim
da angariação de fundos para a construção da capela de S. Pedro.
Da comissão de
Matosinhos faziam parte Domingos da Mateira, Luciano Sabeler e Octávio Pinhal,
todos de Espinho e residentes em Matosinhos (mas com origens em Ovar).
A imagem de S.
Pedro, o padroeiro dos pescadores, foi oferecida à Capela por Cândida Arruda,
de Espinho, casada com José Ferreira Neto, o «Batota», natural de Afurada mas
descendente dos Sabeler de Espinho.
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A fábrica Brandão,
Gomes & C.ia Lda já existia em 1900.
Augusto de Oliveira
Gomes, José de Oliveira Gomes, Alexandre Brandão
e Henrique Brandão, os
fundadores da firma, eram todos de Ovar,
contribuindo firmemente para o
progresso de Espinho.
Augusto Gomes foi o primeiro Administrador do
Concelho, e Henrique Brandão foi Presidente da Câmara (1905-1908) |
Rosa Americano,
também natural de Espinho e residente em Matosinhos, ofereceu a imagem da
Senhora do Rosário.
Cândida do Arruda
e José «Batota» juntaram-se à comissão eleita entre os espinhenses deslocados
em Matosinhos na angariação de fundos junto das traineiras e dos pescadores.
Em 1943, 1944 e
1959 têm lugar em Espinho convívios semelhantes ao de hoje.
Em 1947 vieram ao
funeral de minha avó, Emília Dias Serrano, todos os seus familiares de Afurada
e de Matosinhos.
No grande
naufrágio de 2 de Dezembro de 1947 morreram cerca de 50 pescadores de Espinho
que trabalhavam nas traineiras matosinhenses naufragadas.
Pelos anos 60, o industrial Hermano Serrano,
natural de Espinho e residente em Matosinhos, comprou a fábrica «Brandão, Gomes
e C.ª», num arrojado investimento de lucro duvidoso, pelas recordações que
ainda o prendiam à Terra natal.
Ainda há pouco
mais de um ano acompanhei à sua última morada, em Matosinhos, a minha tia Maria
Esteves Arruda Americano, e meu primo António Esteves Americano.
Nas ruas
principais do Cemitério de Matosinhos vi muitos jazigos de famílias vareiras de
Espinho.
A família
Serrano, depois que se fixou definitivamente em Mato-sinhos, fez doação do seu
jazigo de família à Santa Casa da Misericórdia de Espinho.
Ovar – Espinho –
Matosinhos
A presença de uma
representação de Ovar neste convívio vareiro é a prova irrefutável dos laços
afectivos e de memória que unem as três cidades.
A presença de tão
grande representação da classe piscatória de Matosinhos entre nós é sinal claro
de que, apesar da separação, da distância e do tempo, a alma vareira ainda está
viva, bate e palpita em uníssono. E a resposta aos «velhos do Restelo» que,
querendo tomar o nosso lugar na História, me diziam que os pescadores foram
para Matosinhos e esqueceram Espinho. Como se fosse possível apagar uma
história de 200 anos e os santos laços do sangue, da fé e do afecto que nos
prendem à família, às raízes e à Pátria!
A presença de
ilustres espinhenses entre pescadores e personalidades com origem na classe piscatória é o sinal mais evidente de
que a verdadeira História de Espinho não lhes é alheia e de que, num País
democrata, há lugar para todos.
Viva Ovar! Viva
Matosinhos! Viva Espinho! Viva o Povo Vareiro!
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Pescadores de Ovar
[FOTO: FERNANDO PINTO] |
Fontes:
Alvoradas de Fé –
Santos Lessa
Os Sabeler, uma
família de pescadores – Farinha Isidoro
O Furadouro –
Lamy Laranjeira
Capela de S.
Pedro – Artur Faustino
Fernanda Miguel
Espinho, 22 de
Janeiro de 2004
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (edições de 01/02/2004, 15/02/2004 e 01/03/2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/12/na-rota-do-pescador-de-ovar.html
VAREIROS EM ESPINHO
A imprensa de Espinho e de Ovar, e não sabemos se também a de Matosinhos, já se referiu a em encontro de “vareiros” efectuado naquela primeira cidade, em 22 de Janeiro último, por iniciativa da professora, escritora e historiadora Fernanda Miguel, que teve a gentileza de convidar o Pároco de Ovar a estar presente, pedindo-lhe que se fizesse acompanhar por algumas pessoas da cidade, o que aconteceu. Estiveram ali, para além do Pároco, sete vareiros, que muito bem se integraram no conjunto. Por razões de saúde não fomos lá, ficando com imensa pena de não o poder fazer.
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Fernanda Miguel e irmã (à direita), recebendo em sua casa, em Espinho, algumas personalidades de Ovar. Na foto: José Maria Fernandes da Graça, a pintora Beatriz Campos e Mário Carapinha.
FOTO: M. Pires Bastos |
No dia seguinte, tivemos o cuidado de perguntar a cada um dos nossos conterrâneos, isoladamente, a sua impressão sobre o encontro, que foi, na opinião de todos, excepcionalmente agradável e cativante, pois o nome de Ovar foi citado várias vezes com bastante entusiasmo. Ainda bem.
Dias depois, e convidados pelo nosso Pároco, tivemos o prazer de nos deslocarmos com mais quatro conterrâneos a Espinho onde, em casa da professora D. Fernanda Miguel, passámos uma parte de tarde conversando sobre pescadores, pesca e palheiros, temas em que fomos muito grandes, mas em que já não somos nada, e sobre o povoamento de Espinho e seu engrandecimento por outros filhos de Ovar, etc., etc. Uma tarde bem passada, muito do nosso agrado, por nela se terem versado temas que a tantos de nós muito dizem.
Mas registámos uma nota que, por invulgar, não pode deixar de ser mencionada neste ligeiro apontamento. Qual foi? A falar dos seus antepassados, a D. Fernanda Miguel fê-lo com tanto interesse e vivacidade que nos espantou.
Uma senhora, talvez da terceira ou quarta geração, se não mais ainda, patenteou um orgulho nos seus antepassados que, sinceramente, nos impressionou. Neste capítulo, a nossa anfitriã foi digna de Espinho, onde nasceu, e de Ovar, de onde eram os seus avós, herdeiros de um nome muito nosso, muito vareiro, Pinho Branco.
Eram momentos como os que nos foi dado viver que muitos vareiros, quase todos, deveriam sentir, para revitalizarem a sua auto-estima.
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Espinho em 1870 (actual Avenida 8)
Duas das primeiras quatro casas construídas em pedra em
Espinho eram de gente vareira,
cujos ascendentes para ali se deslocaram de Ovar
a partir do século XVII
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É notório: deixámos de acreditar em nós próprios e se não formos directamente influenciados pelos exemplos que nos foram deixados pelos nossos maiores, nunca mais saímos da cepa torta, como se costuma popularmente dizer. Mas, atenção, não poderemos pensar só no passado; o futuro terá de ser entusiástica e ambiciosamente pensado.
Vale a pena pensar, reflectir e agir rapidamente.
Agora, que tanto se fala na criação de grandes áreas metropolitanas, parece ser o momento exacto para, conscientemente, fazermos a opção que mais nos interessa e que deverá ser a que nos possa proporcionar o desenvolvimento que outros concelhos já alcançaram e o nosso ainda não. Assunto importante, que a todos nós deverá merecer a maior atenção. (Jornal "João Semana", 1 de Março de 2004)
ADENDA -----------------------------------------
Augusto Gomes, natural de Ovar, liderou o grupo que levou
à criação do concelho de Espinho. Era proprietário da fábrica de conservas
Aliança, uma das maiores do país, com posição política conservadora.
Faleceu em 1924, quando se preparava para abrir uma
filial em Vigo.