Mostrar mensagens com a etiqueta PATRIMÓNIO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta PATRIMÓNIO. Mostrar todas as mensagens

22.8.09

O Pelourinho de Pereira Jusã - Existe uma peça original

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2005)
TEXTO: António Pinho Nunes

Na 1.ª edição da “Monografia de Ovar”, o Dr. Alberto Lamy refere-se à extinção do concelho de Pereira Jusã e diz que “em 1914, na sessão camarária de 3 de Janeiro (…), foi decido que se vendessem em hasta pública os antigos paços do concelho de Pereira Jusã com todas as suas pertenças” [na foto].


O pelourinho no primitivo local, antes de 1914, ano em que foi vendido
Em nota, o mesmo autor acrescenta: “foi também vendido, na mesma altura, o pelourinho de granito, constituído por uma coluna cilíndrica encimada por um globo”. E citando o P.e Miguel de Oliveira que, em 1952, escreveu um artigo sobre Válega num número extraordinário do “Notícias de Ovar”, comemorativo dos centenários de Ovar, refere que o historiador valeguense escreveu a respeito: “A coluna veio a ser aparelhada para pardieira de uma porta; a bola foi escavada e serve agora (1952) de pia a um cão…” [Na foto].

Entretanto, alguns anos antes da reconstituição do pelourinho (no qual está inscrita a data de 1989), Alberto da Fonseca Figueiredo, residente em Valdágua, descobriu em casa de D. Palmira Pereira (residente no lugar de Pereira e muito próximo do actual pelourinho), o que lhe parecia ser o tal globo que rematava a coluna e que, por sinal, ainda servia de pia a um cão…Convencido de que estava ali uma parte importante do pelourinho, pediu a pedra à senhora, que lha ofereceu.
É curioso que, ao contrário do que informa o P.e Miguel, o globo não parece ter sido mais escavado do que foi inicialmente, isto é, para ser encaixado no topo da coluna. A abertura com 0,12 m de diâmetro, a profundidade com 0,19 m e a perfeição do trabalho de cantaria dão a indicação de que era assim que o globo encaixava, à justa, no topo da coluna.

Desta, nem vestígios. Pessoa idónea afirmou-me que estava na casa de uma familiar, no lugar da Azenha. 

No entanto, não vi lá jeitos de nada…
O pelourinho, reconstituído na actualidade, junto ao antigo tribunal
Porém, no quintal em frente da antiga Casa da Câmara estava uma pequena coluna que parecia… Foi-se lá ver se a bola encaixava. Pois não! Chegou-se, então, à conclusão de que se tratava de um simples “frade”, mas de tamanho invulgar.
Portanto, parece que podemos chegar à conclusão de que aquela pedra é o tal remate do pelourinho de Pereira Jusã.
Além disso, as fotos (a antiga e a actual) e a própria pedra encontrada, revelam que se trata do mesmo globo.

Onde pára, agora, essa relíquia?

Está no lugar mais indicado, que é o Museu de Ovar, por oferta feita pelo referido Sr. Alberto Figueiredo, em 10/1/2005. Junto, está uma outra preciosidade que pertenceu à Câmara do Concelho de Pereira Jusã, e que é a sua última bandeira. Após a extinção do concelho, em 1852, essa bandeira foi levada para Ovar e serviu como bandeira da Câmara. Pena é que esteja tão danificada!
E, já agora, ao falar em Pereira Jusã, não posso deixar de lamentar a degradação progressiva em que se encontra a casa-capela da “Quinta do Fonseca”, frente ao actual pelourinho. Oxalá me engane, mas estou cada vez mais convencido de que aquela preciosidade é mesmo para cair.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/08/o-pelourinho-de-pereira-jusa.html

5.8.09

Admiráveis palmeiras em Cortegaça

TEXTO: Manuel Pires Bastos

Eis um caso espantoso – poderemos dizer único –, que não tem sido devidamente sublinhado pelos jornalistas e repórteres fotográficos. Falo das duas magníficas árvores que ladeiam a Igreja de Cortegaça.


Para além da harmonia e beleza do templo, quem não admirará a esbelteza das palmeiras gémeas que, quais “sentinelas vigilantes da casa do Senhor”, ali permanecem firmes e leais, enfrentando, desde há quase um século, as intempéries e o desgaste do tempo?
E a sua perfeita simetria, sem que na sua génese tenha havido, da parte do homem, outra qualquer interferência que não fosse escolhê-las – tão iguais, tenras e imprevisíveis… –, adquiri-las e plantá-las.
Admirável coincidência: ao longo de 90 anos de crescimento harmonioso – sempre iguais até na luta pela sobrevivência –, o mesmo húmus e a mesma seiva as alimentou, a mesma cosméstica lhes emprestou a elegância e o porte altivo, o mesmo esteticista as manteve firmes e sem rugas…
Que se mantenham por muitos anos, sempre fieis e vigilantes, estas magníficas palmeiras, humildes guardiãs da Igreja Matriz de Cortegaça.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Agosto de 2007)

31.7.09

A arte do “Ferro Forjado” em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/1995)
TEXTO: António Valente de Almeida

Os nossos Serralheiros Civis, mais conhecidos, antigamente, por Ferreiros, criaram fama dentro e fora de portas.
A sua competência, aliada à sua honradez, foi a principal causa de tanto sucesso no seu mister.
Aqueles que tive a honra de conhecer – e ando aqui desde 1920 – deram-me a convicção de que assim era não só pelo seu trato pessoal, mas também por tudo aquilo que eu ouvia a seu respeito: serem fieis seguidores de seus antecessores, realizando verdadeiras obras-primas que ainda hoje, apesar de mal tratadas, extasiam os nosso olhos. Seis oficinas, cada uma delas regida pelo seu proprietário-trabalhador, foram autênticos atelieres dessa nobre arte, escolas onde uma juventude ávida de saber do ofício se preparava para a vida.
Por curiosidade, aqui deixo os nomes dos proprietários das oficinas de Serralharia que conheci, bem como a sua localização:
Guilherme Nunes de Matos, na Rua Alexandre Herculano n.º 83-85; José António Valente (Ti Zé Nau), que, além de varandas e engenhos, fazia os gradeamentos das campas do cemitério, e seu sobrinho Evaristo Valente, na Rua Alexandre Herculano, 106; Francisco Oliveira Dias, na Rua José Falcão, 107; Manuel Paciência, no Largo 1.º de Dezembro (São Miguel); Francisco Sevintes, na Rua Manuel Arala (entrada onde hoje é a “Garrafeira”); Francisco Matos, na Rua Alexandre Sá Pinto (Rua das Ribas) 85.
O pai do Ti Zé Nau, de nome José Valente, executou o artístico portão do cemitério de Ovar (na foto) enquanto o seu neto Evaristo Valente foi o executor do portão lateral.
Com ferramentas rudimentares – forja, accionada por um fole, martelo, malho, talhadeira e um gancho, a que chamavam “gato” –, fizeram aquilo que hoje contemplamos: um maravilhoso património que constitui um verdadeiro Museu a céu aberto, com peças as mais simples e as mais complicadas, a exporem-se aos curiosos ao longo das ruas da velha urbe vareira, nos balcões das varandas, nos peitoris das janelas, nas grades de portadas, nos resguardos de vitrais, e até nos gradeamentos do nosso Campo Santo. Para não falarmos dos rendilhados portões do Cemitério e das duas capelas laterais da Igreja, estes fabricados por artistas de fora.


Ao contemplarmos este espólio precioso, sentimos, em alguns casos, uma sensação de horror, por verificarmos que a seu lado se constroem autênticos mamarrachos, não tendo os seus construtores e os seus proprietários sabido conjugar com gosto as duas épocas, deixando um mau exemplo aos vindouros.
Lamento ainda não se notar, por parte de quem deveria ter mais responsabilidade na matéria, o devido empenho na salvaguarda desse património histórico e cultural.

Se Ovar se ufana de ser a Cidade do Azulejo – e até propaga este título como cartaz turístico –, com a mesma propriedade se deveria ufanar de ser considerada também a Cidade do Ferro Forjado, Arte que saiu das mãos de filhos seus, muitos dos quais, não cabendo em sua própria casa, se espalharam, mundo fora, levando consigo o nome da sua terra e capitalizando fama e algum proveito.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Novembro de 1995)

http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/07/arte-do-ferro-forjado-em-ovar.html

12.6.09

O órgão de tubos da Matriz de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2000)
Órgão da Igreja Matriz de Ovar,
inaugurado em 14/10/1862
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Uma das peças que mais dignificam o património artístico da Igreja Matriz de Ovar é o pequeno órgão de tubos que se encontra ao centro do coro alto, voltado para a nave central e que foi oferecido à Paróquia, em 1862, por António Ferreira Meneres (filho), um benemérito vareiro que viveu no Porto, onde se dedicava à exportação de vinhos generosos.
Para conhecimento dos nossos leitores e dos curiosos de antiguidades e de assuntos musicais, aqui registamos alguns pormenores históricos e técnicos desse órgão, fornecidos pelo Mestre-Organeiro Pedro Guimarães, de Esmoriz.
Trata-se de um instrumento inglês de meados do séc. XIX, da autoria de Bischop & Starr, como indica uma placa por cima do teclado e outra dentro da caixa de vento. Esta oficina de organaria construía também instrumentos para a Casa Real inglesa. O órgão sofreu, pelo menos, duas intervenções no século XX: em 1944, por Waldemar Ferreira Alves Moreira, e outra nos fins da década de 70, por Mário Santos, um antigo técnico organeiro de Braga então a residir em Ovar (na Ponte Nova).

Neste momento, o instrumento encontra-se ainda totalmente montado, não faltando nenhuma peça significativa.Olhando-o de relance, ressalta à nossa vista um conjunto de tubos denominado Principal de 8 pés, a partir de C2. O sistema de foles, original, encontra-se, em parte, por debaixo do banco do organista, sem ter sofrido alterações.
O órgão possui 1 manual com 54 notas e 6 puxadores (na caixa, frente ao banco), correspondendo 1+2 a M.D.+ M.E. e 3 registos inteiros, tendo como base um Flautado Principal de 12 (na fachada). Encontram-se 2 pisantes na consola para actuar os puxadores dos 4 e 2 pés.
De referir que este instrumento possui um registo inventado por esta oficina: Clarabella 8 pés, que é uma flauta de madeira em que a câmara-de-ar no lábio inferior não se encontra no pé do tubo mas na tampa do próprio lábio inferior.
Os materiais utilizados neste instrumento são pinho fino na caixa e nas partes da mecânica das notas, e mogno no Someiro; os tubos de metal são de uma liga de estanho e chumbo.
O sistema de vento é constituído por 1 fole paralelo com 2 pregas (interior e exterior) e 2 contrafoles, no seu estado original, faltando os pesos do fole. É accionado manualmente por uma alavanca (visível na gravura).
Pensa o referido técnico que este instrumento forma uma unidade e que não deverá ser alterado.
Para a sua recuperação deverão ser efectuados os seguintes trabalhos: Desmontagem, limpeza geral de todas as partes, colocação de peles novas nos foles e montagem de um ventilador eléctrico, reparação de toda a tubaria de forma a que se possa afinar e tenha estabilidade suficiente, e restauro do someiro e mecânica das notas e registos.

Tratando-se de um instrumento de construção sólida, bastante interessante, e que possui muitas características típicas do seu período de construção, vale a pena recuperá-lo.
Não haverá um ou vários mecenas que queiram dar vida a este órgão histórico, continuando a obra benemérita de António Ferreira Meneres (filho)?

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE AGOSTO DE 2000)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/06/o-orgao-de-tubos-da-matriz-de-ovar-uma.html


ADENDA -----------------------------------------

Antes deste órgão, oferecido por António Ferreira Meneres e inaugurado em 14/10/1862, houve um outro órgão de tubos que, segundo o Padre Manuel Lírio, em "Monumentos e Instituições Religiosas de Ovar", estava desmantelado nos meados do século XIX. 

22.4.09

Relógios “de gaiola” em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2005)
TEXTO: Mota Tavares

Não é por mero acaso que se encontra, na região de Aveiro, uma razoável quantidade de relógios – de torre e de caixa alta – dos séculos XVIII e XIX. Não podemos dissociar desta realidade o facto de existirem bons portos de mar, utilizados pelo comércio internacional desde os alvores da nossa nacionalidade.


O antigo relógio da Igreja (1782) está a ser recuperado por Áureo Neves, de Ovar

Da importação da relojoaria estrangeira à fabricação nacional não mediou muito tempo. Logo que os nossos artistas tiveram ao seu alcance as matérias-primas necessárias e suficientes, aplicaram o seu engenho na produção artesanal, pois nesta e noutra arte os portugueses nunca deixaram os seus créditos por mãos alheias.

O mesmo relógio na actual fase de recuperação
Temos, assim, na região, a mistura das máquinas importadas com as de fabricação nacional, de igual qualidade e mais baixo preço. E se aludimos à qualidade é porque os relógios que conhecemos, reconhecidamente portugueses, nada ficam a dever aos seus congéneres franceses ou ingleses.
É englobado nesta análise que figura o relógio “de gaiola” apeado da torre da igreja paroquial de Ovar , feito em Aveiro, em 1782, por João Rodrigues Branco – IOAM RODRIGVES BRANCO OFES EMAVEIRO.ANNO.1782. Assim está gravado na estrela medial que suporta e centra a roda contadora das horas (na foto).

Trata-se de uma máquina da segunda fase da construção dos relógios “de gaiola”, pois já é usado o bronze polido em lugar do ferro, que se utilizou até ao séc. XVII. A perfeição dos acabamentos denota um cuidado acrescido, em ordem à regulação, precisão e durabilidade da máquina. Usa o pêndulo de Galileu, adaptado à relojoaria pelo sábio holandês Huygens, a partir de 1657.Esta máquina, que se encontra numa dependência da igreja paroquial, é digna de ocupar melhor lugar, com direito a preservação e possibilidade de visita pública, já que se trata de um exemplar único e pertencente a um património a preservar, assinado por um relojoeiro da região, o que lhe confere um valor nacional.
Infelizmente, em Portugal tem presidido, em muitas paróquias, o princípio de “não trabalha, atira-se fora e compra-se uma modernice sem valor futuro”. Não se imagina a quantidade de máquinas de relojoaria férrea que têm sido vendidas a quilo para a Alemanha, França, Inglaterra, etc. Infelizmente, estou a escrever com conhecimento de causa. Assim tem desaparecido o nosso património.
Outro relógio “de gaiola” de Ovar, mas este preservado e a trabalhar – e em bastante bom estado –, é o da Capela de St.º António. Somente por dedução, baseada na análise do pêndulo, poderemos arriscar que poderá ser de fabricação nacional.
Tem gravado o ano de fabrico: 1846. Uma aturada investigação, que ainda não se fez, poderá levar a conclusões, desde que se encontrem documentos. A máquina, por ser mais moderna, é mais elaborada do que a da igreja paroquial, executando mais funções. É um lindo exemplar, bastante bem cuidado, o que se deve à dedicação e entusiasmo do senhor Carlos Barbosa, da Comissão da capela, a quem os ovarenses devem estar agradecidos, pois verifiquei ser um amante do património da sua terra no respeitante à capela e ao seu relógio.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Agosto de 2005)

7.12.08

São Goldrofe em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/04/1993)
TEXTO: João Alves das Neves

No estudo que consagrou ao Mosteiro de São Pedro de Folques, inserto no volume Santa Cruz de Coimbra – do século XI ao século XX (Coimbra, 1984), enumera Monsenhor A. Nunes Pereira a existência de 4 imagens de São Goldrofe.
A mais conhecida é, naturalmente, a da igreja matriz de Folques, mas há também a da capela do Senhor da Agonia (em Arganil), outra na sacristia da igreja de Nossa Senhora da Paz, no lugar de Moinho da Mata (Montemor-o-Velho).

Curiosamente, o grande sacerdote, historiador e artista não menciona a de São Donato (de Ovar) no referido estudo, mas já o havia feito numa carta publicada n’A Comarca de Arganil (n.º 2699, de 20/XI/1940). E ao conversarmos há poucas semanas, sobre o caso, logo Mons. Nunes Pereira nos remeteu para o Inventário Artístico do Distrito de Aveiro, onde há um pormenorizado verbete sobre a capela de São Donato e da sua imagem de São Goldrofe. E com essa escassa bagagem lá fomos recentemente, a fim de nos certificarmos se havia ou não o nosso São Goldrofe de Ovar
Existe, sim, e tivemos a oportunidade de o conhecer, depois de um contacto inicial com o Departamento de Turismo ovarense, onde uma simpática funcionária nos declarou nunca ter ouvido falar do santo da nossa terra. Felizmente, vimos uma “História de Ovar” e pedimos-lhe que nos deixasse procurar, e ambos encontrámos rapidamente o procurado São Goldrofe, de São Donato. A seguir, numa estante, descobrimos mais 2 “histórias” da região e achámos novas referências ao santo arganilense.
Só nos faltava conversar com alguém que nos fornecesse mais pistas – e assim conhecemos o Sr. Padre Manuel Pires Bastos, que no folheto “Igreja Matriz de Ovar – Arquitectura e Obras de Arte” dedica a sua atenção também à capela de S. Donato. E, num dia chuvoso, localizámos o templo, que estava fechado, mas que pudemos fotografar. Foi um encontro emocionante com este às vezes citado mas pouco conhecido
São Goldrofe, cuja imagem está hoje num nicho da fachada da capela do lugar de São Donato, que pertence actualmente à freguesia de São João, no concelho de Ovar.
De resto, as informações são mais amplas e seguras no Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Aveiro (Zona Norte), coordenada pelo Padre Prof. Dr. A. Nogueira Gonçalves, segundo o qual a antiga capela de São Donato foi demolida em 1906 (há inscrições de 1578, 1692 e 1783) e a nova veio a ser erguida noutro lugar próximo, sob a invocação de Nossa Senhora da Ajuda. De acordo com o referido “inventário”, a única escultura antiga é a de São Goldrofe, que colocaram no nicho da frontaria; é da oficina de Coimbra, de calcário, dos meados do século XV. Representa-o de barba comprida, cabelo farto, gorro na cabeça, vestido de túnica e de comprido tabardo que quase oculta aquele, bordão em T na direita, na esquerda o livro fechado. Este vestuário aparece correntemente nas representações masculinas e principalmente nas dos eremitas. A escultura de Folques (Inv. Art. Dist. Coimbra, pág. 16, est. 39) apresenta-o de túnica. São Goldrofe foi prior, e provavelmente fundador, do mosteiro de Arganil – Folques, nos fins do século XI.
Do verbete, que é razoavelmente extenso, destacamos ainda a passagem em que o douto professor Nogueira Gonçalves assinala que a escultura “ovarense” terá vindo, com base em informações de pessoas da região, duma antiga capela que estava no sítio de São Silvestre, lugar de pinhais, onde parece haver restos de alicerces. O que de verdadeiro haja nisto não o podemos saber.
Há que indagar como é que o culto de São Goldrofe chegou a Ovar e às demais terras da região – e esta pergunta também poderá ser feita relativamente ao lugar da Póvoa (“três léguas distantes de Lisboa”), de Montemor-o-Velho, de Coimbra, de Campo de São Martinho (Póvoa de Lanhoso) e de outros lugares onde a imagem de São Goldrofe acedeu aos altares. Histórias que temos de documentos através da História…Como faremos a seguir, a propósito das terras ovarenses.

O culto a São Goldrofe foi devidamente anotado e documentado, em terras ovarenses e adjacentes, por vários historiadores da região, esclarecendo o P.e José Ribeiro de Araújo, no livro “Poalhas da História da Freguesia e Igreja de Ovar”, que, “entre o burgo de Ovar e São Donato medeia a distancia de cerca de 4 Km., antigamente de maus caminhos, desagradáveis ao piso. Este facto fez dizer ao povo, em frase petrificada, para indicar uma distância grande de um ponto para o outro, o seguinte: “Ui! Ele mora lá em São Guelindrofe!”.
Foi São Donato o primeiro padroeiro – acrescenta J. R. de Araújo –, mas sucedeu-lhe em 1623 ou já antes São Goldrofe que o povo por corrupção pronunciava São Guelindrofe. A imagem deste santo, de pedra lioz, existe muito bem conservada”.
Por sua vez, o P.e Miguel de Oliveira acentua, em “Ovar na Idade Média” (1967): “Depois de ter sido orago da ermida e de ter legado o seu nome ao lugar, São Donato viu-se substituído na devoção popular por São Goldrofe, outro santo de quem igualmente se sabe muito pouco” (…) ainda que tenha sido venerado não apenas em Folques mas igualmente na igreja de São Miguel, em Montemor-o-Velho, num forte a três léguas de Almeida e “apud Ovar prope Talabricam”. E prossegue “Na linguagem popular, o nome deste santo corrompeu-se em São Guelindrofe, e chegou a suplantar São Donato na designação do lugar…(…) Oficialmente, prevaleceu o nome de São Donato, que bem o merecia, pois deve ter, pelo menos, uns mil anos de tradição”.


As informações de J. Frederico Teixeira Pinho, em “Memórias e Datas para a História da Vila de Ovar” (1959) confirmam o essencial. “Desde a sua fundação sempre se chamou a esta ermida de São Donato, e menos correctamente São Donato ou São Doado. Mais adiante, quando ali assentaram a imagem de São Goldrofe ou Goldofre, como escrevem outros, também assim fora chamada pelo vulgo que lhe depurtava o nome. Vem depois a lembrança: “Que São Goldrofe foi o primeiro Prior do Mosteiro de São Pedro de Arganil, em que floresceu pelos anos de 1086, quando canonizado por D. Miguel Pais, Bispo de Coimbra. E como por aqueles tempos podiam os Bispos canonizar para dentro das suas dioceses, mandou pôr a sua imagem no altar, e que festejassem no dia do seu glorioso trânsito, que foi a 4 de Fevereiro. É advogado contra as maleitas”. Relativamente às datas das inscrições (1578, 1692, 1696 e 1783), admite o historiador Teixeira de Pinho que “indicam sucessivas reformas, e talvez a introdução de novas imagens, tais como as de São Goldrofe, São Marcos Evangelista, e a da Virgem com o titulo auspicioso de Senhora da Ajuda”.


Concluímos com as observações constantes da “Monografia de Ovar”, de Alberto Sousa Lamy (1.º volume, 1977), onde são acrescentados mais pormenores acerca das capelas de São Donato: “1.ª – A primitiva (1138/1906): (…) temos a primeira referência à ermida de São Donato no Catálogo dos Bispos do Porto, de D. Rodrigo da Cunha, numa doação de 1138, que o bispo do Porto, D. João Peculiar, “fez aos frades que vivião na ermida de São Christovão de Lafões da Ordem de São Bernardo – notícia que merece reservas. Este templo teve como orago São Donato e, posteriormente, São Guldrofe ou Goldrofe (1623 e 1690). Mais tarde voltou ao primitivo nome (1758). Capela antiquíssima, de pedra lioz, sita no lugar de Guilhovai, foi demolida em 1906 contra a vontade do bispo do Porto, D. António Barroso, após discórdias entre populares que a queriam conservar e aqueles que a desejavam derrubar.
2.ª – Capela de N.ª S.ª da Ajuda (…) o templo veio a ser inaugurado em 1903, tendo como padroeiro N.ª S.ª da Ajuda”.
Por tudo isto se conclui que a “presença” de São Goldrofe em terras ovarenses tem um significado profundo que ultrapassa o domínio histórico, pois ilustra a amplidão da fé que suscitou muito para além de Arganil. E as sugestões que nos ocorrem depois desta breve digressão por São Donato podem determinar, quem sabe, outras buscas e interpretações, um dia, em torno do santo que nasceu em Arganil.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Abril de 1993)