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30.4.11

As "Verónicas" de Ovar

A "Verónica" Maria da Glória de Oliveira
(da Pinta) nascida em 1875 (foto R. Ribeiro)

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/1984)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

A memória do povo vareiro guarda com ternura o nome das "Verónicas" sempre raparigas solteiras que tornavam mais espectaculares as Procissões dos Passos e do Enterro do Senhor, cantando, em Latim, o responsório "O Vos omnes", numa melodia que, segundo documentação que possuímos, variou ao longo dos anos. De tal modo essa participação foi importante na vida de algumas dessas raparigas, que o apelido Verónica o povo diz, quase sempre, "barónica" as acompanhou para sempre, passando, mesmo, aos seus descendentes.
Por tudo isto, estranhamos que o Padre Manuel Lírio não faça qualquer referência à sua actuação musical nos dois últimos séculos, limitando-se a referir a participação da "Verónica Seráfia" na Procissão do Enterro do Senhor ("Os Passos de Ovar", pág. 47).

ANTECEDENTES

Entre as diversas personagens que figuravam, há seculos, na Procissão dos Passos, cantava-se a "Verónica"(1), simbolizando a dor e a clemência e cantando: "DOLEO SUPER TE, FILI MI, JESU DECORUS NIMIS ET AMABILIS SUPER AMOREM MULIERUM", texto decalcado no pranto do rei David pelo filho Absalão.
Isto nos afirma o Padre Manuel Lírio na sua obra "Os Passos de Ovar" (Imprensa Pátria, Ovar, 1922), que acrescenta: "Era feito este papel por um músico, rapaz, imberbe; por mais duma vez era um convidado de Aveiro. Ainda em 1789 isso se deu" ("Os Passos", pág. 40).
Como vemos, vem de longe pelo menos de há dois séculos o costume do canto da "Verónica" em Ovar. O facto de ser cantado por um rapaz, em falsete, deve-se à proibição, então em vigor, de as mulheres figurarem em espectáculos públicos.
Não sabemos quando é que o papel da Verónica foi assumido integralmente por mulheres. Foi-o, pelo menos, na viragem para este século.

O TEXTO

O texto que desde há mais de um século as Verónicas de Ovar cantavam, pertence ao Responsório do antigo Ofício de Matinas de Sábado Santo, e refere-se à dor de Cristo na sua Paixão. (Há quem, por devoção, o aplique às dores de Nossa Senhora).
É o seguinte:
"O VOS OMNES/QUI TRANSITIS PER VIAM, ATTENDITE ET VIDETE SI EST DOLOR SICUT DOLOR MEUS". Em português: "Vós todos os que passais pelo caminho, atendei e vede se há dor igual à minha".

Rosa da Silva Neves em 1908, aos 18 anos
A MÚSICA

A música, com ritmo e melodia de tipo gregoriano, era muito melancólica, como convinha ao teor da letra.
Conhecemos três versões diferentes a cantada pelas últimas Verónicas bastante mais floreada que as restantes.
Consta que uma dessas versões se não mesmo as três foi composta pelo inspirado Mestre Valério, autor de numerosas peças para Coro e Banda, algumas delas interpretadas anualmente na Semana Santa de Ovar, onde ainda este ano (em 1 de Abril de 1984) se cantou um trecho seu "Bajulans sibi crucem" ("Carregando a cruz, Jesus seguiu para o lugar chamado Calvário").

O ENQUADRAMENTO

Segundo o Padre Lírio, o cântico da Verónica era ouvido no dia da Procissão dos Passos e em Sexta-feira Santa.(Actualmente também em Quinta-feira Santa).
No 4.º Domingo da Quaresma, dia tradicional dos Passos de Ovar, cantava-se duas vezes:
1 - Na Igreja, após o Sermão que precedia a saída da Procissão;
2- No Passo chamado da Verónica (na Praça), antes do Miserere (este cantado pela Banda ou pelo Orfeão).

Em Sexta-feira Santa eram três as intervenções:
1- na Igreja (no "Cenáculo", no final do Sermão e antes da saída do Enterro do Senhor);
2- no pátio superior da Capela do Calvário, ao recolher o esquife com a imagem do "Senhor morto";
3- de novo na Igreja, após o Sermão das Lágrimas (na presença do andor da Virgem).
Verónicas houve que cantavam também na escadaria exterior da Igreja e em todos os Passos.
O povo aglomerava-se, em grande número, nesses locais, disputando as melhores posições, pois todos gostavam não só de ouvir "cantar a Verónica" mas também de ver a encenação com que esta acompanhava o seu canto.
Este canto deixou de ouvir-se a partir de 1965, sendo retomado na década de 80 com a actual "Verónica" Clara Maia.
Havia o maior cuidado na escolha e apresentação das "Verónicas" que, para além de terem boa voz e Ovar sempre teve a fama de as possuir , deveriam apresentar-se com a máxima dignidade.
Para que isso fosse possível, havia bons ensaiadores para a música e para os gestos, e algumas famílias gradas da terra ataviavam a jovem cantora com as melhores joias e com trajes a preceito. (Normalmente iam de vestido preto e mantilha).
Olívia Augusta de Lemos ("do Caulino"),
que deve ter cantado entre 1910-1920

O SUDÁRIO

Enquanto cantava, a "Verónica" ia desdobrando, em ritual estudado, um pequeno Sudário onde estava pintado o rosto dolorido de Jesus. Pelas gravuras que apresentamos pode concluir-se que esses sudários iam sendo substituídos, ao longo dos anos, certamente à medida que o tecido se ia deteriorando. O último destes exemplares, guardado na Ordem Terceira, continua a sair na Procissão do Enterro do Senhor, à frente da imagem de Nossa Senhora das Dores, transportado por uma menina.
O mesmo Sudário, com as suas guarnições de prata maciça, costuma figurar na imagem da Verónica existente no Passo da Praça, quando todas as Capelas estão abertas, isto é, em dia das Procissões dos Passos e do "Terro-terro" (na noite de Quinta-feira Santa), por se ter estragado o que lá existia.
Foi pintado por Laura Bastos (Freitas), nascida em Ovar em 19 de Março de 1887, filha de José Oliveira Manarte e de Grácia Oliveira Bastos, negociantes de cereais, das Ribas. Educada no Colégio das Doroteias, em Ovar, ali despertou para a vida artística, que aperfeiçou nas Belas Artes do Porto. Alguns dos seus trabalhos em pintura e bordado encontram-se ainda em Ovar, na posse de familiares e de instituições religiosas. Residiu em Lisboa com seu marido, António Freitas, não se privando de passar algumas temporadas em Ovar, vindo a falecer em 31 de Dezembro de 1969 na residência das Doroteias, na Figueira da Foz, onde viveu os últimos anos de vida.
O pequeno Sudário das "Verónicas" corresponde à toalha em que ficou marcado o rosto de Jesus quando a Verónica lho limpou, segundo a tradição, no caminho do Calvário (Via Sacra, ou Via Dolorosa), e não se deve confundir com o Sudário de maiores dimensões que era exibido nos púlpitos pelos pregadores, em Sexta-feira Santa, lembrando o lençol que envolveu o corpo do Senhor no túmulo. (A prédica que acompanhava esta exposição fazia verter lágrimas pungentes a muitos dos piedosos auditores que, no fim, beijavam respeitosamente aquela insígnia). O último destes Sudários conserva-se também no Museu da Ordem Terceira.

AS "VERÓNICAS"

1- Maria da Glória de Oliveira ("da Pinta"), nascida em 1874. É a primeira "Verónica" de que há notícia.

2- Maria Carolina Ermelinda de Almeida (Marquinhas da Vitorina), filha de Francisco André Redes, professor de Instrução Primária, natural de Ovar, e de Vitorina Ermelinda de Almeida, doméstica, natural de Barcelos, residentes no Bairro de Sant'Ana. Nascida em 9 de Agosto de 1878 e baptizada em 20 do mesmo mês, pelo Padre Francisco Dias, teve como padrinhos o Dr. Domingos Manuel de Oliveira Arala (Bacharel em Direito), e D. Maria Carolina Barbosa da Gama e Quadros (solteira, da Praça).
Apesar da qualidade do seu berço, a Marquinhas da Vitorina, como era conhecida, foi costureira na Rua dos Lavradores, e veio a casar, em 1906, com um marítimo, Manuel Leite dos Santos, de quem teve um filho (também Manuel Leite dos Santos), que lhe veio a grangear fama através do apelido.
Trata-se do célebre Neca da Verónica, nascido em Ovar em 27 de Julho de 1907, e residente em Coimbra. Notabiliou-se, durante 32 anos, como desportista amador (Futebol, Andebol, Basquetebol e Atletismo) (2)
A ida das Marquinhas para Coimbra (Santa Clara) coincidiu com a transferência para ali de seu 2.º marido, Joaquim Filipe, soldado da GNR, natural de Loureiro, com quem casara em 9 de Dezembro de 1912, quando era soldado do 24 em Ovar e modesto sapateiro.
Em Coimbra viriam a falecer: o marido em 1947, e ela em 27 de Agosto de 1967, e o filho há poucos anos.

3- Rosa da Silva Neves ("do Amaro"), da Poça, onde nasceu em 15 de Setembro de 1889, filha de Manuel de Pinho Neves e de Maria da Silva do Amaro, que deve ter cantado desde 1905 até ao seu casamento, em 29 de Junho de 1911, com Manuel Pereira de Almeida (o "Travessa"), serralheiro, do mesmo lugar.
Foi seu ensaiador Benjamim Rodrigues da Silva (Nábia), regente da Banda Ovarense (falecido em 1918).

4 e 5 - Ainda no princípio do século terá havido duas "Verónicas" que não foi possível identificar, mas que residiram uma na Ribeira e outra na descida da Igreja, junto à Casa da Ordem Terceira. Esta última seria de idade mais avançada do que o habitual em "Verónicas".

6- Olívia Augusta de Lemos ("do Caulino"), filha de Elísio Quintans de Carvalho e Lemos, e de Isménia Ferreira de Araújo e Lemos, comerciantes no Largo do Mártir (Jardim da Estação, junto aos "Irmãos Unidos"), nascida em 23 de Setembro de 1894.
Consta que cantou muitas vezes, e muito bem. Casou aos 27 anos com Manuel de Sá Couto, Professor do Ensino Secundário (em Espinho), e faleceu em 15 de Abril de 1949.

Maria Augusta Campos em 1926,
aos 19 anos, na sua 3.ª e última
representação da Verónica
7- Margarida Rodrigues Capôto ("das Berças"), que trabalhava de alfaiate, e que residiu na Rua Dr. José Falcão (junto à Casa S. Luís), nascida em 27 de Março de 1901, filha de José Maria Rodrigues Tarujo, "carpinteiro de machado", e de Maria Emília Marques Craveiro, costureira, da Rua dos Ferradores (Rua Visconde de Ovar). Casou em 19 de Outubro de 1923 com António de Oliveira Barbosa ("Nanquenanque"), e faleceu em 7 de Maio de 1973.

8- Maria Augusta de Oliveira Dias Campos, costureira, filha de Carlos de Oliveira Campos, oleiro, e de Maria José de Oliveira Dias, nascida em 24 de Agosto de 1906 na Rua do Pinheiro (Rua Licínio de Carvalho), onde reside, viúva de Manuel Dias Resende, marítimo. Cantou em 1924 a 1926, ensaiada por Artur Rodrigues da Silva (Nábia), também regente da Música Velha.
9- Rosa Rodrigues Assunção (Rosa "Chavinha"), de Assões, filha de Domingos José de Assunção e de Maria Rodrigues de Almeida, lavradores, nascida em 2 de Abril de 1906. Cantou de 1927 a 1929, ensaiada pela "Verónica" anterior. É viúva de Alfredo Soares Santa.

10- Luzia Rodrigues de Jesus, nascida em 1909, em Assões. Já é falecida.

11- Dolorosa de Pinho Resende (Maia), lavradeira, da Ribeira, filha de José Maria de Resende e de Maria José de Pinho, nasceu a 2 de Janeiro de 1913, e cantou de 1931 a 1938 (dos 18 aos 25 anos), até ao seu casamento com António Maria de Pinho Maia, comerciante, de S. Miguel.
Dolorosa de Pinho Resende (Maia),
nascida em 1913
Foi ensaiada por António da Silva Roma Capôto (maestro da Banda Velha desde 1916). Dado que não lhe foi facilitada a audição das anteriores Verónicas, foi obrigada a entoar todas as notas que o músico tocava num instrumento, só depois adicionando a letra. Posta à prova antes da apresentação, comentou a esposa do maestro, ao aperceber-se da sua belíssima voz:
- A Dolorosa nem teve pigarro! Foi a melhor recompensa para o seu esforço.
Cantava-se, então, em todos os Passos, antes do canto do "Miserere", e ela fazia-o com arte, e mais depressa ou mais dolentemente conforme o cariz do tempo em cada ano...Após esta Verónica, e dado um evidente puritanismo então vivido na Igreja, veio uma geração de "Verónicas" - crianças, todas elas filhas de intérpretes anteriores.

12- Raquel Oliveira Dias Campos, filha de Maria Augusta, nascida em 24 de Maio de 1928. Cantou 4 anos, a partir de 1939, e também foi ensaiada por Roma Capôto, seu tio. Casou em 1960 com José Lopes Perdigão.
Raquel Campos: a primeira criança que
fez de Verónica. Cantou de 1939 a 1942
Vive actualmente no Brasil.
As últimas Verónicas foram as irmãs Pinho Maia, filhas de Dolorosa Maia.

13- Maria Clara de Pinho Maia, nascida em 28 de Outubro de 1939, cantou dos 8 aos 15 anos (de 1947 a 1954).

14- Margarida Augusta (de Pinho Maia), nascida em 2 de Março de 1943. Cantou em 1955/1956, e depois nos Passos da Senhora Aparecida (Rio de Janeiro, Brasil).

15- Maria de Fátima, nascida em 24 de Março de 1947. Cantou em 1957 e 1958, e também nos Passos da Senhora da Aparecida, no Rio de Janeiro, onde substituiu, com grande êxito, uma cantora idosa.

16- Virgínia Dolorosa (nascida a 4 de Setembro de 1950). Actuou duas vezes, em 1962-1963.

17- Catarina do Céu (nascida a 1 de Novembro de 1951). Cantou apenas um ano, mas com o privilégio de aparecer na Televisão, que pela primeira vez filmou o acontecimento.

18- Maria Manuela (nasceu a 27 de Outubro de 1953), que actuou em 1965 e 1966.

19- Maria Clara de Pinho Maia (ver n.º 11). De 1947 a 1954. Voltou a cantar na década de 80. continuando até aos dias de hoje.
A Verónica Clara Maia
aos 14 anos (1953)

Clara Maia em 2010
[FOTO: Fernando Pinto]
Maria da Glória de Oliveira, mais conhecida por Glória da Pinta, nascida em 28 de Dezembro de 1874 na Travessa da Fonte, filha de Manuel de Oliveira, barbeiro, e de Júlia Emília da Silva, costureira, neta paterna de Francisco de Oliveira e de Maria d'Oliveira Pinta, da dita Travessa, e materna de Manuel da Silva e de António Gomes da Silva, da Rua da Fonte (actual Alexandre Herculano).
Casou aos 35 anos (em 7 de Abril de 1910) com Manuel José de Oliveira Ramos, o Fangueira, de 41 anos, sacristão da Senhora da Graça e armador dos andores da Ordem Terceira, e faleceu, já viúva, em 27 de Dezembro de 1956, na Rua Luís de Camões.
Era a irmã da Mestra Maria do Céu da Pinta (nascida em 22 de Outubro de 1878 e falecida em 4 de Agosto de 1961).
Consta que tinha uma voz tão forte que, cantando na escadaria da Igreja, se ouvia na Praça.
Tendo em conta que deverá ter sido Verónica entre os 18 e os 25 anos, idade provável em que foi tirada a fotografia que apresentamos, concluiu-se que cantou por volta de 1895.
O Sudário que a acompanha é o mesmo da Verónica Olívia "do Caulino", cerca de 25 anos depois. Era exímia em armar os "pavilhões" de S. João.
E vamos à segunda "Verónica" que "repescámos".
Trata-se de Luzia Rodrigues de Jesus, do lugar de Assões.
Era filha de Francisco Duarte Pereira e de Maria do Carmo de Jesus, nascida em 29 de Junho de 1909. Deverá ter cantado em 1930, após a Rosa Chavinha, também de Assões. Casou tardiamente com Mário Fernandes Carvalheira, e faleceu em 8 de Agosto de 1961.

Aproveitamos a oportunidade para publicar a foto da Verónica Olívia Augusta de Lemos, "do Caulino" (1894-1949), cujo Sudário, na gravura, se apresenta imperceptível (no original percebe-se que se trata do mesmo das Verónicas anteriores), mas que documenta o processo do seu desdobramento durante o canto.

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NOTAS:
(1) Verónica significa, etimologicamente, verdadeira imagem (verus+ícon). Por apropriação, o termo passou a designar a mulher que transporta essa "Santa Face". A tradição apresenta-a como Seráfia, filha de Sirac.
(2) Sobre o Neca da Verónica ler a Revista "Reis" (Ovar, 1981).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Abril e 15 de Maio de 1984)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/04/jornal-joao-semana-15041984-texto.html

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Veja o vídeo da Verónica Clara Maia no YOU TUBE [CLIQUE NO LINK A AZUL]
interpretando o motete "O vos omnes" na Capela do Calvário em Ovar,
em 3 de Abril de 2011.

UM PEDIDO: A Paróquia de Ovar, responsável pelo jornal "João Semana", agradece às pessoas possuidoras de fotografias ou elementos ligados às "Verónicas" que enviem esse material para o e-mail jornaljoaosemana@sapo.pt.
Essa informação será devidamente aproveitada e publicada no jornal ou neste sítio com os respectivos créditos (nome do autor).

18.2.10

Para a história dos Passos de Ovar

Texto de uma carta de Francisco Manarte, que foi Presidente da Irmandade dos Passos quando das obras (1942-1949) e posterior classificação (16/06/1949) das Capelas como “Imóveis de Interesse Público”, enviada em Janeiro de 1999 à Redacção do “João Semana”.

"Reverendo M. Pires Bastos

(…) Quanto ao artigo “PASSOS DE OVAR”, dizia o jornal de 1 de Dezembro de 1998 que “faltavam poucos meses para se completarem 50 anos sobre a classificação dos Passos de Ovar como monumentos de interesse público”.

Vale a pena lembrar um pouco dessa “história”.
No restauro feito anteriormente, os “moradores” das Capelas tiveram de ser mudados por tempo indeterminado para outra morada, o antigo Estúdio Almeida, situado na Rua Padre Ferrer, em Ovar, para se tratar da pintura das paredes que estavam a esfarelar.
Assim se iniciou o restauro da primeira Capela – a do Castelo –, com muito amor e sacrifício dos Ovarenses que, conhecedores da grave “doença” que no momento afligia a Irmandade dos Passos (“a falta daquele material com que se compram os melões”), nunca negaram a sua ajuda.
Ainda as obras da primeira Capela não estavam terminadas e já havia dinheiro para o início das obras na segunda Capela, o mesmo acontecendo com as restantes que faltavam; e assim se foi conseguindo o milagre do restauro dos Passos de Ovar, levado a efeito por uma Irmandade que não se deu por vencida quando, antes do restauro, lhe foi negada a classificação de interesse público para as suas Capelas.
Nesse recuado tempo, quando Ovar teve conhecimento de Os Passos de Ovar terem sido classificados como monumentos de interesse público, já o restauro tinha sido feito. E foi por isso que, em sinal de protesto, o Presidente da Irmandade se demitiu do cargo que anteriormente ocupava.
Assim termina a história do restauro dos Passos de Ovar, feito pelo autor destas linhas, modesto entalhador que também não deixou de ser mobilizado para diversos trabalhos, entre os quais a moldura da bela reprodução que German Iglesias pintou em pouco mais de duas semanas – O GÓLGOTA, que se encontra numa das paredes da Capela com o mesmo nome (ou Calvário), em Ovar. (…)”

Francisco Manarte (Estados Unidos)

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 1999)

Cronologia do restauro dos Passos de Ovar (1942-1943)

Aos dados fornecidos pelo Sr. Manarte – "Para a História dos Passos de Ovar" – sobre os esforços feitos pela comunidade vareira para o arranjo das Capelas em 1942, juntamos os que nos fornece o “João Semana” de então:

João Semana 9/7/1942
“Promovida pela actual Mesa da Irmandade dos Passos d’Ovar e a expensas da mesma, vai ser feita a restauração das pinturas das capelas dos Passos e das suas respectivas imagens. O serviço do restauro principiou já no Passo que fica junto à Escola do Conde Ferreira e continuará nos seguintes, se para isso houver recursos e na medida em que os houver. Está encarregado desse serviço o distinto pintor German Iglesias, de Penafiel”
“(…) Ao examinar as capelas dos Passos e as imagens, viu o artista com horror o estado lastimoso em que as deixaram os enfeites e as ornamentações que aí anualmente se fazem: imagens mutiladas, pregos espetados nas mesmas e na talha, dourados estragados, etc.”

J. S. 20/8/1942
Capelas dos meados do século XVIII, talvez únicas na Península na sua estrutura ornatos e pinturas, “apesar de meio apagadas, causam ainda boa impressão aos seus visitantes”.
A construção de pedra e cal começou em 1748.
“Até aí (as Capelas) eram portáteis e as suas figuras de colmo com fardas alugadas na ocasião em que se expunham ao público”.
Acaba de ser restaurado o Passo do Horto, junto à Escola Conde de Ferreira (ou do Castelo), que esteve exposto em 15 e 16 de Agosto de 1942. “Está um encanto, um primor”. “Já não parece o mesmo que o artista encontrou cheio de lixo, com as imagens mutiladas (só dedos faltavam uns 22), pregos espetados nas mesmas”.
É intenção continuar, para o que a Irmandade vai fazer uma subscrição. “A obra merece bem a simpatia e o auxílio de todos”.

J. S. 15/10/1942
A subscrição pública, que vai em 3.292$50, está longe de cobrir as despesas, “orçadas em cerca de 25 contos, apesar de o artista se limitar a uma exígua remuneração dos seus valiosos serviços”.
Já estão prontas 2 capelas – Horto e Encontro. “Está agora a ser restaurado o terceiro Passo, que fica junto do quartel dos Bombeiros, indo essa obra já muito adiantada”.

J. S. 24/12/1942
Estão 4 Capelas restauradas. Faltam 3: S. Tomé, Calvário e Igreja.
“O valor artístico destas capelas (…) ficou bem patente depois que lhes tocou o hábil pincel de German Iglesias que não se limitou somente a avivar as pinturas antigas mas completou-as com novas pinturas cheias de cor e de vida (No Passo da Verónica acrescentou à pintura antiga a Oração no Horto e o beijo de Judas, este no recanto à esquerda, tapando um antigo Calvário, de que se vê agora, em “janela”, a imagem de Cristo - ver gravuras).
Vão adiantadas as obras na capela de S. Tomé. A subscrição vai em 9.000$00.


J. S. 1/4/1943
Realizou-se “a tradicional e majestosa procissão do Senhor dos Passos, que aqui atraiu uma enorme concorrência de forasteiros”, e que “foi imponente e bem organizada”. “Todas as capelas um primor”.
A subscrição vai em 15.285$05. Em 8/7/1943 chega aos 18.998$75.

J. S. 16/12/1943
“(…) A Mesa da Irmandade para levar a efeito esse restauro contou de antemão com a generosidade dos fiéis e sobretudo dos vareiros, aos quais enviou muitas centenas de circulares, a pedir subsídios; e justo é reconhecer que muitos responderam generosamente à chamada”.
Anda em obras a última Capela. A receita está em 21.298$75.
(Em 27/1/1944 chega aos 31.755$00, graças a um subsídio de 10.000$00 da Câmara Municipal).
Registe-se que a Matriz estava também a recolher fundos para grandes obras de beneficiação, iniciadas em 1941, e que outras subscrições estavam em curso, como a da Casa da Ordem Terceira.

J. S. 16/3/1944
Vai realizar-se a Festa dos Passos. “Revestirá a solenidade dos anos anteriores e será um dia de festa para Ovar”.
“A Mesa da Irmandade que tanto se empenhou pela obra de restauro das capelas, que tantos sacrifícios custou, não consentirá que entre as imagens sejam colocadas, como antigamente, avencas e flores, permitindo assim a todos poderem apreciar a beleza expressiva dessas esculturas e a sua magnífica exposição, e evitando que tudo se deteriore”.

J. S. 31/3/1949
Foi comunicado à Câmara Municipal que passam a ser considerados como Imóveis de Interesse Público os “Passos de Ovar”, os quais, compostos por uma série de capelas isoladas, foram construídos em meados do século XVIII. (O Decreto oficial, n.º 37-450, só seria promulgado em 16 de Junho seguinte).
O jornal louva os cuidados das mesas administrativas da Irmandade, particularmente a actual, com destaque para o mesário Manuel Coelho da Silva Capoto, e espera a ajuda do Estado “na sua conservação e aumento. (Em 30/6, ao comunicar a publicação da notícia no “Diário de Governo”, o “João Semana” conclui: “Há necessidade de obras de vulto a fazer ali, como o douramento da rica talha, etc., que sem o subsídio dos cofres públicos serão difíceis, hoje em dia”).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 1999)