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23.4.15

Padre António de Oliveira Carvalho

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2013)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Padre António de Oliveira Carvalho
Conheci o Padre António de Oliveira Carvalho sendo ele Pároco da Carregosa, do concelho de Oliveira de Azeméis, e sendo eu um estudante no Seminário, natural do mesmo concelho.
Passei a conviver mais proximamente com ele em atividades pastorais em 1961, quando, também, já sacerdote, fui nomeado Pároco de Macinhata da Seixa, no mesmo concelho e Vigararia.
Já bastante idoso, o Padre Carvalho não dava a entender, pela sua discrição e reserva, o gosto que nutrira na juventude pela escri­ta, pela pintura e pela música, qualidades essas de que só tomei consciência mais tarde em Ovar, sua terra natal, onde viu a luz do dia em 14 de abril de 1904, no seio de uma família modesta, mas prestigiada. Foram seus pais Francisco de Oliveira Carvalho e Maria José Valente de Oliveira.
Como muitas crianças com aptidões para estudos mas sem meios para se ma­tricularem nos liceus ou nos colégios de então, o pequeno António foi encaminhado para o Seminário, onde cultivou as suas tendências literárias e artísticas e as suas capacidades humanas.

"Serões da Herdade", romance
do P.e António de Oliveira Carvalho
Terminando o curso teológico em 1929, exerceu, durante um ano letivo, o professorado no Colégio de Espinho. Ordenado sacerdote em dezembro do ano seguinte, celebrou a sua Missa Nova em Ovar em 18 de janeiro de 1931[1], iniciando a sua missão sacerdotal ao serviço da Diocese do Porto como Coadjutor em Santa Marinha (Vila Nova de Gaia), e em Fânzeres (1938). Foi sucessivamente Pároco de Vila Maior (Feira, 1938), Vila Chã (Amarante), Pindelo (Oliveira de Azeméis, 1942) e Carregosa, onde permaneceu 38 anos (1/1/1942 a 25/1/1991).
Recolhendo-se na terra natal em 1991, viria a falecer em Macieira de Cambra em 7/1/1995, sendo sepultado em Ovar.
A sua vocação literária manifestou-se em ensaios de escrita, particularmente na redação de um romance campesino – “Serões da Herdade”[2], inspirado nas terras rurais que pastoreou nas faldas das serras do Marão e da Freita, inspiração a que não falta um toque subtil do estilo de Júlio Dinis em “As Pupilas do Senhor Reitor”, romance que ele admirava por nomear pessoas de quem ouvia falar ou por recrear costumes e paisagens que ele mesmo conheceu em criança.
Como compositor musical, o Padre António de Oliveira Carvalho publicou, com partituras para piano, “Avante Juventude”, hino para a Juventude Católica, e um hino para a Cruzada Eucarística, ambos em edição de Eduardo da Fonseca, de Porto, e ainda uma canção romântica – “Solidão” –, editada em 1942 pela Litografia Invicta, do Porto, cuja letra vem inserida nos “Serões na Herdade”.
Quanto à sua dedicação à pintura, conhece-se um quadro de sua autoria em casa de Beatriz Carvalho, na Rua Camilo Castelo Branco, 16, Ovar.

Notas:
[1]“João Semana”, 15/02/1995.
[2] O romance “Serões na Herdade”, de 308 páginas, foi publicado pela Livraria Simões Lopes, do Porto, em 1948, em edição do autor, que se esconde sob o pseudónimo de Vale Solar.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/04/padre-antonio-de-oliveira-carvalho.html

17.6.13

Padre Manuel Rodrigues Lírio

Jornal JOÃO SEMANA (01/08 e 15/08/1986)
TEXTO: Alberto Sousa Lamy
Padre Manuel Lírio
(1881-1953)

A 23 de Agosto de 1881, no lugar de S. Miguel, nasceu o padre Manuel Rodrigues Lírio, fragateiro, e D. Ana de Oliveira Lopes. Seus avós paternos, Manuel Rodrigues Lírio e Teresa de Jesus, eram do lugar de Ações; seus avós maternos, Manuel Pereira da Fonseca Lopes e Maria de Oliveira, daquele lugar de S. Miguel.
Tendo feito o exame de instrução primária em Aveiro, após aprendizagem com o padre Francisco Marques da Silva, foi, depois, aluno do mestre Camarinha, à Ponte da Senhora da Graça.
Posteriormente, frequentou os seminários diocesanos do bispado do Porto: o dos Carvalhos e, por último, o da cidade Invicta.

O sacerdote (1905)
Feitos os seus estudos com altas classificações, Manuel Rodrigues Lírio, com 23 anos, recebeu ordens de presbítero, tendo rezado no Porto, na Igreja dos Clérigos, a 15 de Agosto de 1905, a sua primeira Missa.
Cantada a Missa Nova, quatro dias depois, a 19 daquele mês de Agosto, era nomeado Abade encomendado da freguesia de Gestaçô, do concelho de Baião. Mas pouco tempo demorou nesta freguesia, situada na margem direita da ribeira de Teixeira, afluente do Douro.
Uma afecção pulmonar retirou-o de Gestaçô um mês e meio após a sua investidura, e impediu-o de continuar a sua vida de Pároco. Enquanto em Ovar, e até ao fim da sua vida, tomou conta da capelania de S. Miguel.
Impossibilitado de paroquiar, dada a doença grave que cedo o afectou, dedicou-se ao ensino particular.

O poeta
Na sua mocidade, Manuel Rodrigues Lírio publicou, com vários pseudónimos, versos nos semanários e quinzenários locais.
Mais tarde, veio a reunir poesias suas num livro intitulado "Ao Ritmo do Coração", com o pseudónimo de Álvaro Sêco.
São versos simples, singelos, despretensiosos, modestos. Como aqueles da "Canção da varina", de que transcrevemos os primeiros versos:

"Assente sobre as areias
das ribas da beira-mar
a nossa terra é um berço
que as ondas vêm embalar".

Mais tarde, quando da sua prisão em Aveiro, fará versos no Convento de Jesus e no salão do Despacho da Misericórdia, à Praça José Estevão, que dedicará a outros presos naquela cidade, quer de Ovar quer de outras terras do distrito. Poesias essas, algumas de muita graça, que irá inserir nas "Memórias anedóticas de In Illo Tempore", escritas por ele em 1912. 
É da sua autoria a letra do Hino do Orfeão de Ovar (obra de Rogério de Brito e Padre Lírio), que se ouviu a 27 de Março de 1921 num espetáculo de gala em benefício dos Bombeiros Voluntários locais.

O jornalista
Enquanto se restabelecia da sua doença, o padre Lírio começou a colaborar no jornal O Ovarense, usando diversos pseudónimos: Alcinda, Mário Relvas, Martírio, Álvaro Sêco.
Colaborou também no Jornal de Ovar, no Regenerador Liberal, n'A Defesa, no Notícias de Ovar, e n'A Pérola.
Foi ainda correspondente de diários de Lisboa, designadamente do Diário Ilustrado, d'A Época, do Jornal da Noite, neles tendo também colaborado com vários artigos.
Após a Implantação da República, foi redactor da Revista Ovar, "transformação radical e completa" do Regenerador Liberal. Esta Revista, que se publicou de 17 de Novembro de 1910 a 19 de Abril de 1911, foi suprimida arbitrariamente pelas autoridades republicanas a 20 deste último mês.
A Revista de Ovar sucedeu o semanário Semana de Ovar, de que foi redator o padre Lírio, jornal que foi também suprimido, arbitrariamente, logo no seu primeiro número, de 27 de Abril de 1911, pelas autoridades administrativas.

Rua Padre Manuel Rodrigues Lírio, em S. Miguel, Ovar

Com António Augusto de Resende, o padre Lírio fundou, então, A Liberdade, que apenas teve três números, os de 18 e 25 de Maio, e de 1 de Junho de 1911, que foi apreendido na tipografia antes de circular.
A Revista de Ovar, a Semana de Ovar e ainda o Semanário de Ovar (único número a 4 de Maio de 1911), "foram um capricho da família Peixoto, sempre inquieta, principalmente na política. Os republicanos procuraram impedir as suas publicações, o que lhes era fácil. Por detrás dos nomes que se diziam directores e redactores, as pessoas daquele tempo viam facilmente o homem tão talentoso como irrequieto, que veio a pagar numa cela do convento de Santa Joana, em Aveiro, sob a invocação de outros pretextos, as afirmações que fez correr por aquelas folhas. Esse teimoso e arreliador era o Rev.º Manuel Rodrigues Lírio" (Zagalo dos Santos, Ovar na literatura e na arte, 195-196).

Capa do 1.º número do jornal ovarense
JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 1914)
"À roda do Dr. Soares Pinto, formou o escol dos monárquicos intransigentes, não desertando de entre eles a pena brilhante e cáustica do poeta, jornalista e memoralista, que é o senhor Padre Manuel Rodrigues Lírio. Assim, salvo o devido respeito pela comparação, como aqueles moscos que zumbem e ferem impertinentemente as criaturas, à Revista fizeram suceder a Semana de Ovar, publicada em 27 de Abril e a este o Semanário de Ovar, aparecido em 4 de Maio. De nada valia aos democráticos o manejo da lei, ou da arbitrariedade como de nada vale ao triste mortal, mesmo no saco do seu mosquiteiro, julgar-se isento do inquietante zumbido. Ele voltava, maçador, aborrecido, arreliante, como voltou a voz dos adversários, mais de chacota do que agravo, mais riso do que ataque" (Zagalo dos Santos, Notícias de Ovar, de 15 de Setembro de 1949).
A 1 de Janeiro de 1914 surgiu em Ovar o primeiro jornal católico, o João Semana, fundado pelos padres Manuel Rodrigues Lírio e José Ribeiro de Araújo, "uma pequena folha noticiosa e doutrinária, que nada tem nem quer ter com a política e os senhores políticos".
Foi seu primeiro director o padre José Maria Maia de Resende (1914-1917); seu segundo director foi o padre Lírio, de 14 de Outubro de 1917 a 1952, durante cerca de 35 anos!

O Almanaque de Ovar (1911 e 1913-1918)
O padre Manuel Rodrigues Lírio publicou, em 1911 e de 1913 a 1918, inclusive, o Almanaque de Ovar, em colaboração com Augusto Pereira de Resende e, posteriormente, com o padre José Ribeiro de Araújo.
Os sete números publicados do Almanaque de Ovar são um repositório admirável, interessantíssimo, de coisas, de pessoas e de acontecimentos relacionados com o concelho, principalmente com a freguesia de Ovar.
Os artigos insertos no Almanaque Ilustrado de Ovar ainda hoje se lêem com muito agrado e curiosidade, e pena foi que o almanaque não tivesse tido continuidade.

O polemista
O polemista agressivo, temido pelos seus adversários políticos, os democráticos, o Padre Manuel Rodrigues Lírio ajudou, com o Dr. Francisco Fragateiro, os republicanos liberais a zurzir, n'A Defesa, os afonsistas d'A Pátria.
Como tinha, aliás, ajudado os franquistas do Regenerador Liberal no seu ataque insensato aos outros semanários ovarenses e às políticas que representavam (republicana, monárquica regeneradora e progressista).
Algumas das polémicas em que interveio ficaram célebres na, então, vila de Ovar, especialmente as do João Semana com A Pátria. Em 1925, por causa da extinção da Irmandade das Almas do Purgatório, na Capela das Almas, no Largo Cinco de Outubro, travou polémica apaixonada com a democrática Pátria; esta, no mesmo ano, depreciou a Associação das Damas de Caridade, o que originou outra polémica com o católico João Semana.
Em 1928 nova polémica entre os dois semanários, quando da reabertura ao culto da Capela da Misericórdia; entre 1928-1930, polémica com A Montanha, do Porto, quando da herança do Dr. Joaquim Soares Pinto. Como não podia deixar de ser, o padre Manuel Rodrigues Lírio, no João Semana, defende os frades e protesta contra a campanha que se ergueu em Ovar contra eles.

O político
Talassa retinto, antes de quebrar que torcer, o padre Manuel Rodrigues Lírio foi perseguido pelos republicanos democráticos, estando preso por três vezes.
Em Julho de 1911 andou fugido por Sande, pela Quinta do Côvo e Anadia, tendo estado instalado na casa da Quinta da Costeira, em Carregosa, propriedade então do Bispo-Conde de Coimbra, D. Manuel Correia Bastos Pina.
"Ali, para reforço da sua segurança, durante o dia refugiava-se nas grutas do santuário de Nossa Senhora de Lourdes, e deixou crescer as barbas para mais facilmente iludir os espiões dos seus contumazes perseguidores" (Dr. Arnaldo Soares de Pinho, no João Semana de 1 de Abril de 1986).
Preso, finalmente, após rocambolescas perseguições, esteve em Agosto de 1911 encarcerado durante 20 dias, dos quais oito com incomunicabilidade.
Entretanto, Paiva Couceiro fez a sua primeira incursão a 5 de Outubro deste ano de 1911, no 1.º aniversário da República, contando com o bom êxito de alguns complots monárquicos que haviam sido organizados em diversos pontos do país.
Em Ovar, onde o sentimento monárquico ficara vivo, teria também havido um complot? Ter-se-iam verificado actos preparatórios de levantamento da população civil?
Os republicanos locais nunca tiveram dúvidas, os monárquicos negaram sempre qualquer participação, e as provas circunstanciais nunca foram concludentes.
Como consequência desse discutido complot estiveram presas 23 pessoas naturais ou residentes em Ovar, entre as quais três licenciadas em direito e seis mulheres.
E, como também não podia deixar de ser, o Padre Manuel Rodrigues Lírio!
Este, detido a 29 de Outubro de 1911, seguiu de comboio para Aveiro, onde esteve preso 75 dias, até 11 de Janeiro de 1912.
Nas Memórias anedóticas de In Illo Tempore, escritas em 1912 com o pseudónimo de Mário Relvas, o Padre Lírio deu-nos uma descrição, algo facciosa, como é compreensível, desses graves acontecimentos que tanto adulteraram o clima político em Ovar, já então bastante corrompido.
Cronista monárquico, o Padre Lírio descreve a sua prisão no Convento de Jesus, servindo de cadeia, quando esteve guardado "à vista por sentinelas policiais de baioneta calada, duros, intratáveis que vieram substituir as militares, atenciosas e delicadas", em estado de incomunicabilidade. Depois de levantada esta incomunicabilidade, reporta-se à transferência para o salão do Despacho da Misericórdia, na Praça José Estevão, onde esteve preso até à libertação sem culpa formada.
José Maria Figueiredo
Por último, a quando da Traulitânia, e na sequência da libertação de Ovar, a 12 de Fevereiro de 1919, esteve novamente preso, no quartel da então vila, tendo sido libertado pela acção dos republicanos locais.
As Memórias anedóticas de In Illo Tempore inserem várias poesias do Padre Lírio dedicadas a outros presos políticos.
A título de curiosidade publicamos a que dedicou ao cidadão José Maria Rodrigues Figueiredo, que foi um dos fundadores do partido republicano local, presidente da comissão administrativa da Misericórdia e "admirador e amigo ardente" do dr.  Soares Pinto:

Zé Maria Figueiredo
conspirador presidiário
fica varado de medo
quando chega o comissário

Antes mesmo de ele transpor
do portão o limiar
Rua do Brejo, Ovar (foto de Ricardo Ribeiro)
se se vê no corredor
foge p'rá cela que é um ar!...

E, ainda ofegante da estafa
p'ra fingir que não saira
desarrolha uma garrafa,
põe-se à mesa e... toca e vira!...
Bebe umas boas goladas
livre de importunos, sós,
sobre buxas de arrufada
e vareiro pão de ló.

Nada há que mais o aflija
que ser cá fora encontrado:
prefere ser apanhado
com a boca na botija.

E assim  caso singular! 
este ilustre presidiário
não faz senão engordar
com os sustos do comissário.


O professor
Não podendo exercer, como desejava, dada a sua doença, cargos pastorais, o Padre Lírio encetou uma nova vida, a do professorado.
A 11 de Novembro de 1918 abriu no edifício em que funcionara a secção feminina do Colégio Júlio Dinis (um prédio da esquina da Rua Coronel Galhardo e Largo do Hospital, actualmente propriedade do autor destas linhas), o Colégio Ovarense, fundado pelos padres Manuel da Silva Brandão e António Augusto da Fonseca Soares e pelo professor António Augusto Correia Baptista.
Foram neste colégio professores os padres Manuel Lírio, que também foi diretor, e Miguel de Oliveira, este de 11 de Novembro de 1918 a 25 de Fevereiro de 1919.
Um desentendimento com o proprietário do edifício, o meu avô Francisco de Matos, originou o fim do colégio em 1929.
Do Colégio Ovarense, o padre Lírio passou para o Colégio dos Carvalhos, nos arredores do Porto, daí foi para o Colégio S. Luís, de Espinho, onde o foi buscar o dr. Arnaldo Soares de Pinho para o Externato Cambrense, da vila de Cambra (instalado em 1945). Neste colégio, o padre Lírio leccionou desde a sua instalação até a sua doença o impedir de ensinar.

O historiador (1922 e 1926)

Casa onde residiu o Padre Lírio, um dos fundadores do jornal "João Semana"

Muito interessado na história de Ovar e dos seus povos, o padre Manuel Rodrigues Lírio, além de artigos dispersos pelo Almanaque de Ovar e pelos jornais da vila, escreveu duas monografias - Os Passos de Ovar, em 1922, e os Monumentos e Instituições religiosas (1926).
Os Passos é a descrição, exuberante de pormenores, da Irmandade dos Passos, a mais antiga e a mais importante das irmandades de Ovar, das suas capelas privativas, das suas procissões e das suas tradições.
Nos Monumentos e instituições religiosas o padre Lírio faz uma exaustiva descrição da Igreja, dos seus altares e das suas capelas; refere as capelas públicas e particulares da freguesia, as associações religiosas, e assinala algumas tradições religiosas, sendo muito interessantes as referências à procissão dos farricocos ou dos fogaréus, às cabeceiras, à devoção do Rosário, bem como a explicação para o dito - "Os vareiros enterraram o Senhor na areia"!
Na minha Monografia de Ovar, coloquei-o entre os cinco maiores historiadores locais: dr. João Frederico Teixeira de Pinho (1818-1870), António Dias Simões (1870-1922), Padre Manuel Rodrigues Lírio (1881-1953), dr. António Baptista Zagalo dos Santos (1884-1957) e Padre Miguel Augusto de Oliveira (1897-1968).

O Padre Lírio e a Misericórdia
O Padre Lírio, que foi um dos 68 sócios fundadores da Misericórdia de Ovar, veio a ser vogal da mesa administrativa presidida pelo dr. João Baptista Nunes da Silva (republicano liberal).
Após a Revolução de 28 de Maio de 1926, os democráticos foram corridos da Misericórdia, num escandaloso procedimento político que muita tinta fez correr.
Por alvará de 17 de Março de 1928, do tenente de infantaria 7, delegado do Governo com atribuições de Governador Civil do distrito de Aveiro, foi exonerada a Mesa do Provedor Dr. Domingos Lopes Fidalgo, e nomeada em sua substituição outra presidida por aquele Dr. João Baptista Nunes da Silva. Entre os seus vogais contavam-se os padres Manuel Lírio e José Maria de Resende.
No caso da herança do Dr. Joaquim Soares Pinto (1928-1930), o padre Manuel Rodrigues Lírio colocou o João Semana na defesa intransigente dos padres Leonardo de Castro e Teófilo de Andrade, tendo sido testemunha de defesa deste último.
Tal posição acarretou-lhe o ataque de todos aqueles que consideravam que a defesa daqueles padres era contrária aos interesses da Santa Casa da Misericórdia de Ovar.
A Montanha, do Porto, não o poupou, como se observa pela transcrição da primeira parte dum soneto humorístico nela inserto:

"Não lamentes, ó Lírio o teu estado;
Lírio roxo tem sido gente boa,
Roxíssimos lirós há em Lisboa
Muitos lírios se têm ordenado".

O teatro (1935 e 1937)
O Padre Lírio colaborou em festas escolares, designadamente com um auto e uma farsa.
Em 1935 publicou Diogo Cão em Cabo Negro (Auto do Padrão), que com o título Por mares nunca dantes navegados mereceu uma menção honrosa.
A cena passa-se no século XV, evidentemente, tendo como personagens o navegador Diogo Cão, um contra-mestre e três marinheiros.
Em 1937 publica, por sua vez, Dia Feriado, farsa num acto, que se desenrola no dia de anos duma das personagens - cinco estudantes e a criada.
Segundo nos informa a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira - o artigo deve ser da autoria do Padre Miguel de Oliveira -, o Padre Lírio tinha pronto para publicar um romance intitulado Vidas trágicómicas. Isto em 1946.
O Padre Manuel Rodrigues Lírio veio a falecer na manhã de 19 de Novembro de 1953, com 72 anos, após prolongada doença, na sua casa de S. Miguel.

BIBLIOGRAFIA:
Alberto Sousa Lamy, Monografia de Ovar, I e II volumes (1977); História da Santa Casa da Misericórdia de Ovar (1984), e Centenário da Imprensa Ovarense (1983); Zagalo dos Santos, Ovar na Literatura e na arte (1926); Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 15.º; João Semana, de 26/11/1953; Notícias de Ovar, de 26/11/1953.
São também de muito interesse os artigos publicados no João Semana, desde 15 de Março de 1986, por cidadãos que conheceram e conviveram com o Padre Lírio.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 e 15 de Agosto de 1986)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/06/padre-manuel-rodrigues-lirio.html

5.10.12

O Padre Cruz em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/2007)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça (A. A.)

Ao remexer uma gaveta, encontrei, sem contar, uma pagela editada pelo Apostolado da Oração em 1994. Ao relê-la, recordei duas passagens da minha meninice que jamais esqueci. Não era possível!
Referia-se a pagela ao Santo Padre Cruz, o virtuoso sacerdote de Alcochete, que todos os portugueses da segunda metade do século XX conheciam, e que mesmo aqueles que não se afirmavam católicos respeitavam sem qualquer hesitação.
Padre Francisco Rodrigues da Cruz
(Padre Cruz: 1859-1948)
Eis o texto:
Caminhava o santo Padre Cruz pela rua do Arsenal em Lisboa. Um marinheiro fixa-o atentamente, aproxima-se e pergunta:   O Senhor é o Padre Cruz?
– Sou, sim, meu irmão.
O marinheiro beija-lhe a mão e diz:
– Fui educado nas Mónicas e lá conheci Vossa Reverência. Até me lembro da oração que me ensinou: “Jesus, Maria e José, alumiai-nos, socorrei-nos e salvai-nos”. Um dia, o meu barco, batido pelas ondas, ia naufragar. Lembrei-me então da igreja das Mónicas, do Padre Cruz e da oraçãozinha que nos ensinou e comecei a rezá-la. Deus ouviu a minha humilde prece. O mar serenou e o barco, por graça de Deus, chegou ao porto, são e salvo.

Eis agora as minhas recordações pessoais.
Em determinado dia do início da década de 30, andava na rua, certamente na brincadeira com outros garotos da mesma idade, quando reparei num grupo de pessoas, a maior parte das quais minhas conhecidas, que se faziam acompanhar de várias crianças, quase todas do sexo masculino, às quais eu me juntei.
Encaminhavam-se, possivelmente, para o Hospital.
Recordo-me de ter reconhecido algumas senhoras ligadas a associações religiosas: D. Sofia Vidal, D. Maria Amélia Cardoso e irmãs D. Carolina e D. Helena, e outras que não consigo referenciar.
Fazia parte da comitiva um sacerdote a que chamavam senhor Padre Cruz, figura que todo o país conhecia pela acção do Bem Fazer junto dos mais fracos.
No larguinho da Rua Júlio Dinis onde, durante alguns anos funcionou o mercado do peixe, fez-se uma paragem, aproveitada para o virtuoso sacerdote ensinar aos mais pequenos a pequena oração “Jesus, Maria e José”, prometendo uma moeda a quem aprendesse e depois a repetisse bem. Uma das moedas calhou-me a mim.
Isso mesmo aconteceu com muitos, se não com todos os protagonistas desta cena.
Depois de consumado este interessante episódio, todos seguiram o seu destino.
Passado algum tempo, o autor destas notas encontrava-se à porta da Igreja Matriz com outros miúdos e reparou que vinha do interior do templo o santo Padre Cruz, figura que havia gravado na sua memória desde o primeiro momento em que a viu. Perguntando o Sr. Padre Cruz se conhecíamos a casa onde morava o senhor abade Padre Alberto Cunha, a minha resposta foi imediata:
– Conheço eu!
Escultura do Padre Cruz
– És capaz de me levar até lá?
– Sou, sim!
E lá fomos nós, percorrendo aquele caminho que seguia ao comprido com o cemitério até quase à ponte dos Pelames. (Nesse tempo ainda não existia a Avenida do Bom Reitor). Subimos a ladeira que dá acesso à Rua Alexandre Herculano, virámos à esquerda, e logo um nada depois apontei a casa dizendo:
– É esta!
– Obrigado meu menino!
– Não tem de quê, - foi a resposta.
Nesta passagem, que me deixou muito feliz por me ter sido dada a oportunidade de ser útil a alguém, um pormenor houve que registei e que me deixou impressionado: ao passar junto de um pequeno portão do cemitério, a meio do caminho a que já me referi, parou um momento voltado para o Campo Santo, murmurou algumas palavras que não consegui entender, e traçou o gesto de bênção para dentro. De tal modo me surpreendeu esse gesto, que ficou profundamente gravado no meu espírito.
E, já agora, uma recomendação: procurem ler alguma publicação sobre a vida do Padre Cruz. Na humildade da sua figura e no seu impressionante labor apostólico em prol dos mais desfavorecidos encontrarão exemplos que, tal como o que motivou este texto, nos fazem pensar em rumos de vida que nunca serão nem de vaidades nem de opulência.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE NOVEMBRO DE 2007) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/09/o-padre-cruz-em-ovar.html


ADENDA -----------------------------------------

AINDA SOBRE O PADRE CRUZ

"Em 27/04/1928, data em que Salazar entrou para o Governo, estava o Padre Cruz em Ovar, afirmando acreditar no bom governo futuro. (Jornal "João Semana", 23/04/1953 e 11/06/1953)

"Esteve 3 dias em Ovar em 1946, celebrando Missa no Carregal, na empresa do Colares Pinto". ("J. S.", 22/08/1946)

"Visitou a cadeia e o hospital" ("J. S", 11/08/1946)

O Padre Cruz com Appio Sotto-Mayor
e o historiador Padre Miguel de Oliveira

Maria Águeda Collares Pinto
A nossa leitora Maria Águeda Collares Pinto informa-nos:
“Nesse tempo, ficou o Padre Cruz as noites que passou em Ovar, na Quinta Dr. Pinto, pertencente na altura à minha família materna. Tenho uma foto dele, acompanhado pelo meu pai, Appio Sotto-Mayor, e pelo Padre Miguel de Oliveira. Ainda guardo um pequeno santinho que representa o Menino Jesus deitado.Tem na parte de trás uma oração e a assinatura do Padre Cruz”.

Para além da estadia referida, que teve lugar em junho de 1946, e em que celebrou Missa na Quinta Colares Pinto, como registou o “João Semana” da época, o Padre Cruz passou mais vezes por Ovar, numa das quais, em 6 de maio de 1920, visitou a Santa Casa de Misericórdia, cuja capela estava em recuperação.

8.3.12

O Padre António Rodrigues Conde

Um vareiro que trabalhou com Madre Rita

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2006)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Padre António Rodrigues Conde,
aquando da sua Missa Nova
De Ovar a Paramos
O Padre António Rodrigues Conde, natural de Ovar e ordenado sacerdote em 1890, foi nomeado Pároco Encomendado de Paramos em 1893, logo se movimentando para a criação de um colégio para educação de meninas, por saber quanto a instrução cívica e religiosa era fundamental em qualquer comunidade. Isso tornou-se possível graças ao apoio de uma benemérita paroquiana, Maria Maia de Jesus, do lugar da Poça (falecida em 11/04/1957, com 86 anos) (1).
Para assegurar a orientação do Colégio, o Padre Conde convidou as religiosas Franciscanas de Nossa Senhora da Conceição (Irmãs Franciscanas Hospitaleiras), uma das poucas Congregações que, por serem estrangeiras e se dedicarem à assistência social, podiam existir em Portugal.
Acedendo ao pedido, começaram por sensibilizar a população para o projecto do Pároco, levando o povo a colaborar na edificação do edifício com materiais, donativos e mão-de-obra, e a participar nas reuniões de formação espiritual que faziam na sacristia da Igreja, com a permissão daquele sacerdote, apesar da oposição de uma facção política adversa, que chegou a manifestar-se contra os apoiantes da obra e contra o pároco (2).
No Colégio, concluído em 1897 (3), e dedicado ao Coração de Jesus (4), continuou, a par das actividades com as crianças, a formação dos adultos, com retiros frequentes, a que acorriam grupos de pessoas das redondezas.
Assim aconteceu até 1903, ano em que as Irmãs Franciscanas se ausentaram, deixando nas mãos do seu Director, o Padre Conde, um Colégio órfão de mãe (5).

O Instituto Jesus Maria José
Conformado, mas não vencido, o Padre Conde voltou-se para Madre Rita Amada de Jesus, então a viver nos seus conventos de Tourais (Seia) e Louriçal do Campo (Castelo Branco), solicitando-lhe a colaboração do seu Instituto. [CLIQUE NO LINK A AZUL]
Este pedido terá calado bem fundo no coração de Madre Rita, que na sua juventude percorrera estas terras do sul do Douro, e até por lhe proporcionar uma excelente oportunidade para implantar a primeira casa da sua Congregação na Diocese do Porto.
Se a resposta não foi tão pronta, isso ficou a dever-se à falta de religiosas. Mas a situação melhorou com o surgimento de novas vocações (6), e Madre Rita abalançou-se, em 1905, à reestruturação do Colégio abandonado (7).
O Padre Manuel Fernandes de Sá, na sua “Monografia de Paramos”, afirma em relação à actividade das Irmãs Jesus Maria José: “Para a abertura do Colégio foram enviadas 5 Irmãs. Leccionavam nele e, além disso, assumiram a responsabilidade do coro da Matriz e aulas de Catequese" (8).
Lê-se no livro “Rita Lopes de Almeida – Biografia Documentada”: “O zelo de Madre Rita estendia-se por toda a região, pela educação ministrada às crianças pobres e abandonadas e também às alunas. Isto é testemunhado não só pelas suas religiosas, como por outras pessoas e antigas alunas que a conheceram (9).
E acrescenta o Padre Sá:
“Esse óptimo Colégio, muito frequentado e destinado à educação da infância, exerceu salutar influência nas almas juvenis, tanto mais que, nesse tempo, a freguesia de Paramos não tinha escola primária” (10).
Estranhamente, no “Anuuário Eclesiástico da Diocese do Porto” de 1907 afirma-se que não há na freguesia escolas paroquiais, não se fazendo qualquer alusão ao Colégio e às Religiosas (na altura as Irmãs Jesus Maria José), nem se cita qualquer capela particular ao lado das duas capelas públicas ali referidas: N.ª Sr.ª da Guia e de S. João (11).


No entanto, segundo a Monografia citada, o colégio tinha uma espaçosa capela interna, com Santíssimo, onde se faziam anualmente exercícios espirituais, muito frequentados por senhoras de várias terras (12).
Quando da perseguição religiosa da República, com a expulsão das Irmãs e a confiscação de todos os bens da Igreja (decreto do Governo Provisório de 8 de Outubro de 1910), o Colégio foi encerrado e “o Santíssimo foi levado processionalmente para a Igreja, não entre cânticos, mas no meio de lágrimas e soluços” (13).
Algumas religiosas permaneceram nos arredores, semi-escondidas, continuando, na medida do possível, a prestar serviços na paróquia, particularmente na Catequese, uma vez que o P.e Conde, então vigário, continuou a dar-lhes todo o apoio.
Vendida a casa pelo governo, em hasta pública, a um comerciante de Oleiros, de nome Joaquim (14), este vendeu-a, pouco depois, a José Alves Vieira, proprietário, de Paramos, que em 1921 a passou por escritura de venda, a seu filho António Maria Alves Vieira, casado (1920) com D. Adília Sá, casal que ocupou o 1.º andar e que revestiu de ferros a escadaria artística central e colocou no torreão as iniciais A.M.A.V. 1925 e registos azulejados da Imaculada Conceição, do Coração de Jesus e de S. José, o que faz supor um manifesto respeito pelas duas Congregações que por ali passaram (15).
No prédio viriam a instalar-se, sucessivamente, a Junta de Freguesia, uma escola particular, duas salas do ensino oficial, uma guarnição militar (durante a Segunda Grande Guerra) e, posteriormente, um laboratório de análises (na parte mais alta) e um armazém de materiais.
Por falecimento de António Maria, o prédio passou para os seus cinco filhos (Berta, Albertina, Maria Augusta, Silvério e Arménio Sá). Desde há poucos anos o edifício pertence ao industrial de Tanoaria Martinho Dias, de Paramos.

Alguns dados sobre o Padre Conde
O Padre António Rodrigues Conde nasceu em 04/02/1868 na Rua da Fonte (actual Rua Alexandre Herculano), Ovar, filho de António Rodrigues Conde e de Rosa de Jesus Lopes dos Santos, sendo neto paterno de António Rodrigues Conde e de Mariana de Oliveira da Graça, e materno de José Rodrigues Duarte e de Maria Lopes dos Santos.
Padre António R. Conde
O seu processo de admissão a ordens sacras na Diocese do Porto (Habilitação de genere) data de 1890, recebendo o Presbiterado dois anos depois, e celebrando a sua Missa Nova na Matriz de Ovar em 10/8/1892.
Fundou, durante a sua paroquialidade em Paramos, a Pia União dos Filhos de Maria (1895), que durou poucos anos, a Pia União das Filhas de Maria (1895), a Agregação do SSmo. Sacramento (1915, na Coadjutoria do Padre Manuel Francisco de Sá), a Associação de Nossa Senhora de África (1920, na mesma Coadjutoria) a Associação de S. José (1922) e a Sociedade de S. Vicente de Paulo (1913, ainda existente).
Por carta régia de D. Carlos de 15/07/1900, foi apresentado como Pároco Colado da mesma freguesia, com provisões diocesanas de 28/08/1900 e 16/09/1900.
Dele afirmou o Bispo do Porto, Cardeal D. Américo: “Muito bom comportamento, habilitações e importantes serviços que tem prestado à freguesia de que se trata na sua qualidade de encomendado”.
Perseguido pela República, teve de abandonar temporariamente a paróquia (1911-1921), dedicando-se à pregação de missões populares (16).
Por motivos de doença cancerígena, deixou de paroquiar em Setembro de 1931, vindo a falecer em 18 de Novembro de 1932, “na sua casa de Paramos”, sendo sepultado no cemitério dessa freguesia, em jazigo de família (17).
Ao noticiar a sua morte, o “João Semana” de 24/11/1932, pela pena do seu Director, Padre Manuel Lírio, afirmava que o Padre Conde era um “distinto orador sagrado”, que em Paramos “fundou em tempos um colégio que dirigiu com notável proficiência, pois possuía assinalados dotes literários”, que “gastou a sua vida num largo apostolado da palavra de Deus, que fazia ouvir com agrado por essas freguesias da diocese onde frequentes vezes era chamado”, e que “teve de sofrer o exílio dos que desassombradamente davam testemunho da sua fé, nos tempos mais difíceis para a vida religiosa, após a mudança das instituições”.
A residência contígua ao colégio terá sido oferecida pela mesma benemérita Maria Maia de Jesus, para ali residir o Pároco após a República (18). Mas o Padre Conde viveu em casa própria, próxima do colégio, onde hoje se situa a Junta de Freguesia.

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Notas
(1) Sá, Padre Manuel Fernandes de, “Monografia de Paramos”, Figueira da Foz, 1973. Esta paroquiana cedeu uma parte da sua propriedade, no lugar da Junqueira, para a edificação do colégio e, posteriormente, uma outra parcela, contígua, para a construção da residência paroquial.
(2) Informação de Rosa Dias dos Santos (n. 28/05/1906 - f. 30/11/1994) Conta-se que um desses opositores afirmou que gostaria de ver o Padre com a língua cortada, e que, por coincidência, o Padre Conde se feriu pouco depois, na língua, ao cair da sua bicicleta…
(3) Que havia vontade de construir uma obra ainda mais grandiosa, prova-o a existência de pedras salientes nas paredes do lado norte, preparadas para um futuro prolongamento.
(4) Há quem afirme que no tempo das Irmãs Franciscanas era dedicado a N.ª Sr.ª da Conceição, só tomando o nome do Coração de Jesus com a chegada das Irmãs Jesus Maria José.
(5) Terão as Irmãs Franciscanas saído por pressões políticas?
(6) Dera-se recentemente a abertura do Noviciado da Congregação em Louriçal do Campo.
(7) Colégios abertos por Madre Rita: Gumiei (Ribafeita, Viseu), de 24/9/1880, data considerada como da fundação do Instituto JMJ, até 1882; Farejinhas (Castro Daire), de 1882 a 1890; Tourais (Seia, diocese da Guarda), 1890; Paramos (Espinho, de 1905 a 1910; Louriçal do Campo (Castelo Branco, de 1902 a 1910).
(8) Monografia cit., pág. 45.
(9) “Rita Lopes de Almeida – Biografia Documentada”, Viseu, 1996, pág. 259.
(10) Monografia cit., pág. 41.
(11) O mesmo Annuário cita o Colégio de Sanguedo, dirigido pela Associação de Santa Clara, que Rita frequentara pelos 30 anos.
(12) “Num determinado ano chegaram a 160 e, nos anos seguintes, pelo grande número de participantes, faziam-se por duas vezes” (Biografia Documentada, pág. 41).
(13) Monografia cit.
(14) Com confeitaria junto à Estação dos CF. de Espinho, actual Galeria Sabinos.
(15) O António Maria comprometeu-se a pagar às suas três irmãs as respectivas tornas.
(16) Foi um dos pregadores de uma associação de sacerdotes diocesanos (popularmente chamada “Vinagreira”) que realizavam missões nas freguesias, serviço esse em que ocupou o tempo em que esteve afastado da paróquia.
(17) O assento de óbito é assinado pelo Padre Manuel Francisco de Sá, seu antigo Coadjutor e substituto na paroquialidade. O registo civil de óbito, na repartição de Registo Civil de Espinho, tem o número 235, f.ª 128
(18) Em 1907, segundo informa a citada Monografia, havia residência paroquial e um Coadjutor, sustentado pelo Pároco, com a ajuda dos paroquianos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JUNHO DE 2006)

ENDEREÇO PARA COLOCAR NUMA BIBLIOGRAFIA
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/03/o-padre-antonio-rodrigues-conde_08.html

18.9.11

Padre José Ribeiro de Araújo – Protector da minha vida

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2010)
TEXTO: Mário Ferreira Carapinha

Em 20 de Junho último [20/06/2010], na missa das 11 horas da Igreja Matriz, fui surpreendido por um grupo coral de Perosinho – Vila Nova de Gaia –, que aqui se deslocou em homenagem ao seu conterrâneo e antigo cura de Ovar Padre José Ribeiro de Araújo, um dos fundadores do jornal “João Semana” e do Grupo 66 dos Escuteiros de Ovar.

Padre José Ribeiro de Araújo,
um dos fundadores do jornal “João Semana”
Acontece que eu tenho uma dívida enorme para com o Padre Ribeiro de Araújo, pois a ele devo o arranque da minha vida espiritual e económica.
Tinha eu cinco anos quando meu pai, dono de uma oficina de marmorista em frente à sua casa, faleceu com a pneumónica, aos 38 anos, deixando a minha mãe viúva, com cinco filhos menores – o mais velho com dez anos –, sem possibilidade alguma de nos manter. O meu avô paterno morreu no alto mar, de regresso do Brasil. O seu espólio, que continha cheques de sete milhões de marcos (moeda alemã), que ainda tenho em meu poder, só foi entregue a minha mãe passados dois anos, o que veio a impedir o seu recebimento, pois a Alemanha, derrotada na Grande Guerra de 1914/18, tinha decretado a bancarrota.
Por sua vez, o primo de minha mãe, Dr. Joaquim Soares Pinto, por ser monárquico, teve de fugir para Espanha, onde foi acolhido em Vigo, no convento dos Franciscanos, aos quais, como retribuição deste gesto, deixou, à sua morte, o saldo da sua conta em Londres, no montante de alguns milhares de contos. (Os seus imóveis foram deixados à Santa Casa da Misericórdia de Ovar, com a recomendação de que o usufruto dos mesmos fosse para minha mãe e suas duas irmãs, usufruto que nunca receberam.)
Com estas contrariedades, não tivemos outro remédio senão ir apanhar lenha aos pinhais, ir às compras de nossos vizinhos, pedir-lhes um caldo, ou um naco de pão…
E assim fomos andando, até que o Padre Ribeiro de Araújo, comovido com a nossa situação financeira, me convidou a ajudá-lo à missa, tinha eu 8 anos. Como naquele tempo havia oito padres em Ovar, celebrando missa diariamente, lá ia angariando uns tostões.
Feita a 4.ª classe, a minha mãe, que era contemporânea do Manuel Ramada, foi-lhe pedir para me deixar trabalhar na sua fábrica, ao que ele acedeu. Mas quando a minha mãe me disse para a acompanhar àquela empresa, eu recusei, dizendo-lhe que antes queria ir estudar.
Naquele tempo apenas havia liceus no Porto e em Aveiro, o que exigia gastos com deslocações, que a nossa bolsa não aguentava.
Passados dois anos, o Padre Ribeiro de Araújo, não me vendo ir trabalhar, perguntou a minha mãe: – E se for estudar para Padre?. Quando a minha mãe me questionou sobre o assunto, eu respondi: – Eu quero é ir estudar, seja para o que for!.
Então, o Padre Ribeiro de Araújo, baseado no meu parentesco com o Dr. Soares Pinto, benemérito dos franciscanos, telefonou para o colégio destes, em Braga, tendo-lhe sido respondido que podia aparecer lá naquele dia. A minha mãe ainda lhe disse que eu não tinha roupa própria para levar, mas a resposta foi: – Venha hoje mesmo, com o que traz vestido. E lá fui eu, sozinho, até Braga, com treze anos. Na estação, perguntei onde era o colégio dos Franciscanos, tendo-me sido dito que era distante, em Montariol. E lá fui eu percorrer cinco quilómetros, pergunta aqui, pergunta ali, até que cheguei ao meu destino.
Em Montariol andei até ao sexto ano, passando sempre com médias de dezasseis valores. Até que, não tendo os meus superiores notado em mim sinais de vocação sacerdotal, tive de sair do Colégio em 1939.
Um dia, defrontei-me na rua, em Ovar, com o Padre Ribeiro, que me interrogou sobre a minha situação. Logo no dia seguinte ele foi encontrar-se com o Dr. Nunes da Silva, nosso médico, com quem se abriu sobre o meu caso. Este, também informado sobre a situação penosa de minha mãe, telefonou para um nosso primo, Dr. António Sobreira, director do Banco Nacional Ultramarino, em Lisboa, que logo disse estar aberto um concurso de admissão de novos empregados. E assim, depois de umas curtas explicações do Sr. Gama, da papelaria Carvalho, sobre a resolução de problemas, lá fui incluído no concurso dos candidatos ao Banco. No dia próprio fui para Aveiro, e não me sentindo capaz de resolver um problema constante da prova, mas tendo levado comigo uns apontamentos, consultei-os às escondidas, e, pouco depois, saí para a rua. Cá fora, à medida que chegavam os outros concorrentes, e perguntando-lhes o resultado do problema, todos apresentavam o mesmo resultado, diferente do meu. E lá regressámos a casa, eles cantando de alegria, e eu naturalmente entristecido. Chegados a Ovar, ao passar pela Papelaria Carvalho, foi perguntado ao grupo quem tinha resolvido melhor o teste do concurso. Resposta: Todos fizemos certo, excepto o Mário. E o Gama, decepcionado comigo, ripostou: – Então tu, Mário, que és o mais necessitado, tiveste o pássaro na mão e deixaste-o fugir? E perguntou: – Ora digam lá qual é o problema! Escreveu-o, resolveu-o, e disse: dá tanto. E eu disse-lhe: – Essa é a conclusão a que eu cheguei. – Então só tu é que passaste. Parabéns.
Quando me encontrou, o Padre Ribeiro de Araújo, que já tinha sido informado do meu êxito, também me deu os parabéns.
Passados uns dias, fui convocado para me apresentar na agência do Banco em Lamego. Acontece que, entrementes, tinha ido à inspecção militar e, pouco depois, fui convocado para me apresentar no Quartel de Metralhadoras Três, no Porto, ficando, assim, suspensa a minha entrada na actividade bancária. Até 1945, já que, depois de ter saído da tropa, fui colocado na agência do Banco em Ovar.
Perante esta minha odisseia, cumpre-me pedir a Deus que recompense o Padre Ribeiro de Araújo por todo o bem que me proporcionou. E, porque diz o ditado “quem faz um cesto, faz um cento”, ponho-me a imaginar quantos necessitados vareiros não terá o Padre contemplado com benemerências similares. Alguém o sabe? Está no segredo de Deus!

Artigos publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Agosto de 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/09/padre-jose-ribeiro-de-araujo-protector.html

28.4.11

Padre António da Silva Maia - Um grande em Angola

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2011)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Padre António Maia
Encontrar em Abril de 2011, numa feira de antiguidades no Mercado de Ovar, uma obra científica de um autor vareiro, foi inesperada e saborosa surpresa. Mais saborosa ainda sabê-la publicada há menos de um ano, em 3.ª edição, com o alto patrocínio de duas fortes empresas de Angola. Uma verdadeira consagração internacional!
Trata-se de um dicionário complementar, editado pela primeira vez há 50 anos (1961), referente à língua portuguesa e a dois dos dialectos mais falados do centro e norte de Angola – Kimbundu e Kikongo –, do qual se dizia, em palavras prefaciais, ser “obra sublime realizada por mais dum decénio pelo génio extraordinário e fecundo do Revmo. Padre António da Silva Maia, verdadeiro orgulho e glória do clero secular de Angola” (Félix J. Gaspar Pereira Bravo).
O Padre António da Silva Maia, nascido em 13 de Maio de 1905 no lugar de Cimo de Vila, Ovar, fez os estudos eclesiásticos em Portugal. Optando pela vida missionária, seguiu em Novembro de 1975 para Angola, ordenando-se sacerdote na Catedral de Luanda em 26 de Junho de 1936.
No seu vasto percurso por terras angolanas Gabela (Amboim), Vila Nova de Seles (Dezembro de 1941) e Ambriz –, deixou a assinalar a sua passagem, como marcos característicos, o estudo das línguas nativas (também o Omumbuim e o Mussele), que utilizou na palavra falada e escrita, e que verteu em textos impressos em Cucujães, na Editorial Missões, bem perto da sua casa natal, e a solidez da fé nas comunidades paroquiais que criou.
O facto de se manter sempre ao lado dos seus fiéis foi considerado pelas autoridades portuguesas como uma traição a Portugal. Expulso de Angola, Pátria que o considera como um dos seus filhos adoptivos mais ilustres, voltou à terra de origem em 1975, colaborando nas Paróquias de Ovar, vindo a falecer em 10 de Março de 1981.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/04/padre-antonio-da-silva-maia-um-grande.html

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Padre António Maia

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/1992)
TEXTO: D. André Muaca

Angola está a celebrar os 500 anos da evangelização que teve início no dia 29 de Março de 1491 com a chegada dos primeiros missionários portugueses à foz do rio Zaire.
A partir de então começou uma nova história, que se prolonga até hoje. Angola entrou na história da Salvação com os seus patriarcas e profetas, apóstolos e doutores, virgens e mártires.
O Padre António da Silva Maia faz parte da plêiade de missionários que, em Angola, alargaram os horizontes da Igreja, dissiparam as trevas que obscureciam as inteligências, acendendo nas almas a luz da fé. Piedoso, ensinou-nos a rezar; zeloso, aumentou o número de cristãos pela catequese; activo, percorreu a pé as picadas das florestas de Angola, abrindo os olhos aos cegos, os ouvidos aos surdos, a língua aos mudos, e fazendo andar os coxos.
Os Actos dos Apóstolos fazem a estatística das primeiras conversões. Padre Maia não mediu o seu trabalho nem contabilizou o resultado. Semeava e colhia, preocupando-se apenas com a qualidade. Que formou bons cristãos, famílias unidas e zelosas, não restam dúvidas. Nas zonas evangelizadas por Padre Maia estão a surgir vocações consagradas de ambos os sexos, de uma maneira admirável.
Padre Maia não conquistava as almas; atraía-as. Era afável, compreensivo e tolerante. Mas no tocante à prática das virtudes cristãs, era enérgico e decidido. Em cada circunstância tomava a atitude mais eficaz na transformação e melhoria dos seus cristãos.
Sabia controlar-se. Guiava os seus impulsos. Repreendia com suavidade. Nunca provocou qualquer tempestade. Não era exigente. Fazia o que os seus superiores lhe pediam e ia para onde o mandavam. Em todos os lugares era o mesmo, inspirando confiança, portando-se como pai e levando a semente do Evangelho aos corações.
Monumento ao Padre Maia, na Gabela,
junto da Igreja por ele iniciada. As placas em bronze
foram oferecidas pela Paróquia de Ovar
Padre Maia trabalhou principalmente na Província Administrativa de Kuanza-Sul, hoje Diocese de Nova Redondo ou Sumbe.
Esta região é uma fronteira cultural, com populações falando diversos dialectos ou línguas.
Sabendo que só podia transmitir eficazmente a palavra de Deus através da língua falada pelos seus evangelizandos, Padre Maia estudou e falava correctamente as línguas dessas populações, tendo deixado Gramáticas e Dicionários para a aprendizagem de algumas dessas línguas.
Nunca fez discursos sobre a inculturação, mas viveu-a e praticou-a. Fez-se angolano com os angolanos para ganhar todos o Cristo.
E isso criou-lhe problemas.
A violência que caracterizou o início da guerra da independência semeou o pânico, e muitos portugueses perderam a cabeça. Padre Maia conservou-se tranquilo, não modificou o seu comportamento em relação aos negros, andava de porta em porta consolando e confortando as vítimas injustas da represália. Por esta razão foi taxado de traidor à Pátria Portuguesa e de conivente com os terroristas.
Preso em Ambriz, sua última paróquia, e depois de alguns meses nas cadeias de Luanda, não foi deportado, mas expulso e exilado em Portugal, como vários sacerdotes angolanos.
Foi exilado porque uma vez que escolheu a vida das Missões, foram dirigidas ao Padre Maia as palavras de Deus a Abraão: “Deixa a tua terra e a tua parentela e parte para a terra que Eu te indicar. Farei de ti pai de um grande povo”.

Casa natal do Padre Maia em Cimo de Vila, Ovar
Padre Maia, português por nascimento e angolano por opção, é um dos pontífices da Igreja de Angola, que está a celebrar os 5 Séculos de Evangelização e Encontro de Culturas.
Honra e glória a Ovar, que o viu nascer.
Parabéns a Angola, sua nova Pátria.

Lisboa, 5 de Maio de 1992
Eduardo André Muaca
Arcebispo Emérito de Luanda

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de maio de 1992)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/04/padre-antonio-da-silva-maia-um-grande.html

Em 29 de Setembro de 1941, quando da sua nomeação para Santo António de Seles, a Paróquia da Rainha Santa Isabel, da Gabela, prestou-lhe uma sentida Homenagem de despedida.
"Lançou ali as bases da fé pela evangelização do indígena, e pôde assim criar uma freguesia, dotando-a com uma Igreja Paroquial, que é na verdade um monumento de fé, elegante, ampla e artística" (Jornal JOÃO SEMANA, 25/12/1941)

28.9.10

Manuel Alves Pardinhas – um homem de vocações

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2009)
TEXTO: Fernando Pinto

«Ao escrever, descrever e analisar, o escritor, como qualquer produtor de obra de arte, ou outra afinal, escreve e descreve e analisa-se a si mesmo e à sua circunstância, e como que se produz e reproduz. Não se lhe esgota o talento criativo nesta ou naquela produção, nem a obra literária, nascida e autonomizada, se prende à sorte eventual do seu demiurgo. A obra pode ser crítica do autor e este dela. Facilmente se passa de sujeito a objecto literário, e não só.
Desde já, é agradável sentir-se o autor agasalhado no mérito e memória da sua obra de algum dia, adormecida embora no pó de qualquer estante e no sorriso parado dos seus heróis.
Escrever tem algo de destino e de vocação.
Esse Livro é um testemunho.» (Manuel Pardinhas, “Breves Palavras”, em “Para um Álbum Diocesano”)

Faz um ano que o Rev. Dr. Manuel Alves Pardinhas partiu. Teve uma vida longa – 83 anos bem preenchidos.
Confesso que as frases que servem de introdução ao presente artigo continuam a florescer no meu espírito. Escutei-as, pela primeira vez, corria o ano de 1995, aquando da composição deste seu livro. Aqui, no jornal “João Semana”, de pé, a meu lado, trajado de negro, com um punhado de folhas brancas nas mãos, da cor do seu cabelo, o Dr. Pardinhas lia e relia, em voz alta, estas suas “Breves Palavras”.
O seu rosto iluminava-se sempre que encontrava, abandonado sobre a mesa da redacção, um manuscrito de algum colaborador do jornal. Perguntava, a correr, de quem era aquela letra e, depois de satisfeita a sua curiosidade, dizia, quase soletrando: «– Não existem caligrafias bonitas, meu jovem! CA-LI-GRA-FI-A já quer dizer letra bonita.» E sorria...

Homem de leis e de letras
Sacerdote, jurista, professor, o Dr. Pardinhas era um cidadão do Mundo. Nasceu em Cortegaça em 27 de Fevereiro de 1925, e faleceu em 5 de Maio de 2008, em Vigo (Espanha), onde residia há alguns anos.
Descobriu o desenho das primeiras letras em Angola (Moçâmedes) e já na sua terra natal pôde fixá-las nos cadernos escolares.
Estudou nos Seminários de Vilar e da Sé, no Porto, tendo sido ordenado sacerdote em 20 de Setembro de 1947, pelo Bispo D. Agostinho de Jesus e Sousa.
Licenciado em Direito Canónico (Universidade de Salamanca) e em Direito Civil (Universidade de Coimbra), colaborou no Centro Académico da Democracia Cristã (CADC), de cuja revista “Estudos”, foi redactor e sub-director.

Barítono, professor e orador
Cantor e ensaiador do Orfeon Académico de Coimbra, de que foi Vice-Director artístico, viajou pelo país, pelo Brasil (cuja visita, realizada em 1954, deu azo à publicação de várias crónicas fixadas no “Roteiro do Brasil”, facto referido na edição n.º 8 da revista vareira “Dunas”), pelos Açores, em 1960 (“Capas Negras nos Açores”), e, mesmo depois de concluído o curso, por Angola e pelo Japão.

Professor no Centro de Cultura Católica do Porto, no Seminário Maior (durante cerca de 20 anos) e no Liceu Alexandre Herculano, da mesma cidade, trabalhou no Tribunal Eclesiástico (como notário e advogado) e na Pastoral Diocesana.
Cultivou com mestria a Oratória sagrada e colaborou em várias revistas e na imprensa, sobretudo regional. (No “João Semana” manteve por algum tempo a secção “Mel do meu favo”, onde discorria serenamente sobre temas de diálogo entre razão e fé).

Três das suas obras –“Rosa Rosas com Perfil” (1992), “Minha Terra Nossa Gente” (1993) e “Para um Álbum Diocesano” (1995) – foram compostas na redacção deste jornal. No prefácio da última, D. Armindo Lopes Coelho, na altura Bispo de Viana do Castelo e depois Bispo do Porto (1997), escreveu: «Inteligente e perspicaz, o Dr. Pardinhas assimilou o espírito académico, sobretudo coimbrão, que o faz vaguear na satisfação da curiosidade e da cultura, sem se deixar colar para não perder a liberdade, sem se vincular ao compromisso monótono para conservar a distância que é necessária à perspectiva e à análise crítica.»

Manuel Pardinhas, ao centro, no "Dia do Escritor Ovarense" (21 de Novembro de 1993)

Escolhi o início de “Regresso na Primavera”, último capítulo de “Para um Álbum Diocesano”, para terminar esta minha homenagem ao P.e Dr. Manuel Alves Pardinhas.
Tentem ouvir essas palavras, saídas das profundezas do seu espírito, como quem escuta o gorjear de uma andorinha rasgando o céu:
«Mas quando for de vez de férias – que o curso não dura sempre, os anos cansam e a própria memória escurece –, já não encontrarei ninguém. Chegarei tranquilo da grande Catedral perpendicular, apontando ao céu, e da grande Praça horizontal, partida, de muitas e variadas gentes, por onde andei e me gastei e me cumpri ou me cumpriram. Da meia volta que dei ao mundo, e da quase volta inteira que dei a mim mesmo, rezam as marcas das ilusões e os traços de neve que me coroam, e o que fazer é só com Deus.»

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de maio de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/10/manuel-alves-pardinhas-homenagem-um.html