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15.7.08

A antiga Capela do Senhor da Piedade

Antiga Capela do Senhor
da Piedade
Jornal JOÃO SEMANA (01/08/1994)
TEXTO: Mário Miranda

O nosso amigo António Valente de Almeida, conhecedor de muitos factos passados no Furadouro, entregou-nos, a este respeito, alguns apontamentos de interesse que os seus antepassados lhe deixaram e que procuramos divulgar no nosso jornal.


Perde-se no tempo a devoção dos vareiros ao orago do Furadouro, Senhor da Piedade, em cuja honra foi erguida, no século XVII, uma capela, que foi o ex-libris da nossa terra, a qual saudosamente recordamos e que está documentada em fotografias de várias épocas.
Situava-se na parte mais alta do Furadouro, no cimo de uma duna, frente à que é hoje a Avenida Central [ver foto], num largo que se chamou D. Maria Pia e, depois da República, Largo Machado Santos.
O pequeno templo tinha a forma de um cubo, e era encimado por uma abóbada, toda pintada de branco, com uma porta ogival voltada para o mar.
Dizia-se que neste mesmo sítio – ou mais dentro do areal – existiu uma outra ermida, mas em madeira.
O Senhor da Piedade era representado pelo Cristo Crucificado, em pedra, com 1,20 m, e metido na própria parede, formando um nicho.



Furadouro - Ovar

Em 1882 foi-lhe acrescentada uma sacristia a sul e feitas obras de restauro, a expensas dos beneméritos Manuel Oliveira Manarte e Joaquim Valente de Almeida, ambos proprietários da Empresa de Pesca Senhora do Socorro.
Era um marco para a navegação. À noite, uma grande lamparina fazia sair a luz através de dois grandes orifícios que existiam na porta, funcionando como farol.
Em 1924, a Câmara mandou arrasar a duna, com o fim de fazer um adro e, ao mesmo tempo, construir um miradouro. Só que as obras não passaram das intenções. E a falta de areia deu origem a que tivessem de mandar fazer uma escada de madeira de emergência, com dois metros de altura, para acesso à capela…
Nova decisão errada tomou a Câmara em 1935, da Presidência de Pacheco Polónia, ao mandar fazer um enorme varandim, em cimento armado, com suportes apoiados na capela…
Todas as previsões técnicas admitiram que a derrocada podia acontecer a qualquer momento. Esse era, aliás, o vaticínio da maioria do povo, que se apercebia de que a ermida não tinha resistência suficiente para aguentar tamanha carga.
Tal como se previa, na manhã de 1 de Fevereiro de 1939, à vista de muita gente, a capela desmoronou-se, não aguentando a fúria das vagas. Da hecatombe salvou-se apenas a imagem de São Sebastião, hoje na capela nova, e a fotografia de uma Comissão das Festas do Mar de 1917, que se encontra no Museu de Ovar.
Da imagem do Senhor da Piedade não houve mais notícia. Mas é certo que não anda longe, sepultada na praia que todos pisamos.
Era o Senhor da Piedade lugar de peregrinações quando havia secas, epidemias, naufrágios, nevoeiros, etc. O seu sino avisava os pescadores que labutavam no “nosso” mar quando se dava a aproximação de temporais ou a alteração repentina de ondulação, ou quando o espesso nevoeiro lhes escondia a terra.
O constante badalar despertava a atenção dos habitantes do Furadouro, que iam, aflitos, ao “Alto”, como então se chamava ao local, para saber o que se estava a passar.


Do templo, e para além das recordações daqueles que, como nós, ainda o viram, restam fotografias como a que reproduzimos.
Antes de terminar, queremos deixar aqui a discordância de António Valente de Almeida em terem dado à Paróquia o nome de S. Pedro, quando deveria ter sido o de Paróquia do Senhor da Piedade. Era uma justa homenagem ao antigo titular da Capela e a única maneira de não se esquecer o venerável monumento que o mar, infelizmente, tragou para sempre, e que veio a ter, como substituto, um pouco a norte, a Capela da Senhora da Piedade ("Capela Nova"), também desaparecida nas águas do mar.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Agosto de 1994)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/07/antiga-capela-do-senhor-da-piedade.html

21.4.08

Uma achega de tomo para a história da Matriz de Ovar (IV)

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/1988)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Fazem parte do caderno de documentos a que nos vimos reportando, uns «Apontamentos para a Capella do Santíssimo Sacram.to da Igreja da Villa de Ovar», em 15 números ou artigos, assinados por Manoel Lourenço Afonso, certamente o mestre de obras encarregado da construção.
Vamos citar, resumidamente, esses artigos:
1.º – Terá a Capela 20 palmos de comprimento e 20 de largura, medidos por dentro, e «hum degrau no Arco como o da Capella do Paço e o arco do m.mo feitio como o do Paço».
2.º – Será toda lageada com pedras «d’Aguncide bem lavrada» de palmo e meio em quadro.
3.º – Terá 3 degraus de 5 polegadas de altura com seu brocel e palmo e meio de passo (= largura), e «todo o presvitério será lageado como a Capella».
4.º – Terá uma sapata em volta «a sacar fora das paredes…»
5.º – Sobre isto assentará a base do pedestal de cada pilastra. Entre cada pedestal com sua cornija levará cantaria, e «para mostrar-se o almofadado, este pedestal será da altura da banqueta do altar». 6.º – Sobre os pedestais assentarão as pilastras com sua base e capitel, e meias canas; e o capitel «irá receber o entablamento, arquitrava, friso e cornija».
7.º – Os alicerces terão 8 palmos de altura e 5 de grossura até à sapata, e 4 daí para cima. A parede onde se há-de formar o Arco «hade alinhar com a nova parede que se hade fazer para a Igreja», deixando de fora uns aguilhões desvastados de cantaria «para se introduzirem na nova parede», do lado poente. Na parte Nascente, será desmanchado o cunhal da Igreja próximo ao altar de N.ª S.ª do Rosário, «e ligada aquella parede com a da nova Capella».
8.º – No exterior levará uma sapata de cantaria que receberá uma faixa de 4 palmos de altura «reçaltiando nos cunhaes que deve levar a m.ma Capella» (…)
9.º – A empena será coberta de cantaria «como a da Capella Mor com huma crus em sima e duas piramidees sobre os cunhaes», e na mesma altura que a dos Passos.
10.º – Toda cantaria deve ser «das pedreiras d’Agoncida», sem o mínimo defeito, e as paredes de «bom gramaço de cal e area». O Inspector marcará o sítio do «almario para receber a Tribuna».
11.º – Trata do madeiramento do tecto e forro com «bons frichaes de carvalho ou castanho, barrotes de castanho»…
12.º – «No meio desta armação haverá um óculo redondo», e por cima da sua faicha terá hum brandeo de balaústres de castanho torniados e intalhados bem executados com o mimo que se faz no Porto».
13.º – Atrás daquele «brandeo haverá um apilastrado com 8 pilastras em circunferência e caixilhos com vidros entre as mesmas. A cúpula do óculo será «de bons barrotes e frechaes de castanho» e terá «um lanternim de bronze para a Alampeda» (…)
14.º – Os telhados serão «dobrados e bem amouriscados com as passadeiras percizas para a clarabóia» e a telha será da melhor.
15.º – Da cornija ao óculo será cambutada e forrada de castanho para receber os ornatos, ou fasqueada de pinho se for para receber estuque.
Segundo um documento deste processo, custou 38 mil reis a colocação dos vidros e redes de arame nas frestas da Capela do SS.mo e o arranjo da «Casa do relógio» (soalho, tapamento do Sul e do Nascente, duas portas novas, uma «coberta em sima do relógio em razão da agoa, a verter para os lados», e um tapamento por onde descem os pesos).
Acompanha estes documentos, anteriores a 1834, um desenho muito pormenorizado do altar do Santíssimo Sacramento, só divergente do definitivo por ter uma cúpula e um pelicano sobre o Sacrário, peças que foram tiradas para a colocação das actuais imagens.
Num documento de 31-8-1836, o Secretário da Câmara, Salvador José da Silva Lima faz entrega dos «livros, autos e chave do cofre pertencentes à Igreja Matriz desta Villa» ao Comissário de Paróquia, Francisco de Oliveira Baptista.
Ali se citam:

«Hum L.º de Entradas dos pagamentos do Real no Cofre, e contas tomadas ao mesmo», com 40 folhas escritas;
«Hum dito de sahidas dos pagamentos do mesmo Cofre, e contas», com 42 folhas escritas;
«Huns autos de Vistoria, e Rematação da obra da Capella do Santíssimo Sacramento da Villa d’Ovar, e mais obras competentes à Igreja da mesma Villa», com 147 folhas escritas e mais 17 em apenso; um recibo do rematante António José da Silva e «sete riscos incluídos no apenso pertencentes às mesmas obras da Igreja»;
«Ditos de Rematação do Real aplicado para as obras, com 103 folhas escritas;
«Ditos do Cofre do Real da Igreja como Autor, com a ré Luísa Maria, viúva de António Ferreira, da Praça d’Ovar», e um apenso com um documento de partilhas do Capitão Inácio Pereira da Silva Guimarães.
CAPELA DO SANTÍSSIMO, LADO DIREITO DA IGREJA MATRIZ DE OVAR










O altar do Santíssimo Sacramento foi privilegiado pelo Papa Clemente XIII em 24-7-1760, a pedido do Vigário João Bernardino Leite de Sousa. («Memórias e Datas» pág. 159).
Ali se guardou o Santíssimo durante alguns períodos.
Já no século passado o Sacrário passara a Capela-mor.
O portão de ferro, com desenho de Manuel António da Fonseca, da Vila da Feira (2$400 reis), foi executado por Joaquim Manuel de Freitas, de Montinho
(Vila da Feira), custando 96$000

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE MARÇO DE 1988) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/uma-achega-de-tomo-para-histria-da_5880.html

Uma achega de tomo para a história da Matriz de Ovar (III)

Jornal JOÃO SEMANA (15/02/1988)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Do caderno de documentos relativos à construção da Igreja de Ovar consta o respectivo «caderno de encargos», denominado «Apontamentos para a Igreija da Villa de Ovar», sem data, mas anterior a 1834.
Nestes «Apontamentos» é referido o «Risco» de 1804 (cf. «João Semana» de 15/1/1988), com a indicação de que poderia ser alterado por intervenção do Inspector.
É natural que fosse este Inspector a solicitar a nova versão de projecto, nunca anterior a 1833 ou 1834.
Nestes «Apontamentos para a Igreija da Villa de Ovar», especificam-se os trabalhos a realizar na nova Matriz por pedreiros, carpinteiros e trolhas, ali se encontrando alguns dados de muito interesse, como, por exemplo:
– A altura será de 58 palmos, «desde a sapata até à cimalha rial»;
– as torres não terão os «balaústres que o risco mostra, e terão as janelas, ou frestas que o Inspector determinar». (A referência aos balaústres mostra que nesta altura só havia a planta de 1804);
– os alicerces do frontispício e ilhargas das torres terão 12 palmos de profundidade e 8 de largo «até à sapata», e a parede terá a grossura de 7 palmos;
– em lugar de 1 janela «que mostra o risco», levará duas, com a altura e a largura das da Capela-Mor, tendo entre ambas um nicho da mesma altura e «com a elegância necessária, e cúpula de conxa como o Inspector determinar»;
– terá 2 portas travessas «da altura e largura como as que tem, ou como lhe destinar o Inspector»;
terá «quatro frestas por banda, das padieiras direitas», como as da Capela-Mor;
as paredes terão, em cima, «a competente cimalha como a da Capela do Santíssimo Sacramento»;
– «as paredes das arcadas e empena do Arco Cruzeiro serão elevadas…»;
– as paredes interiores levarão, «no prume de cada columna huma linha de ferro da groçura e feitio das que tem…»;
estas linhas de ferro sairão fora das paredes exteriores… (À margem, há a seguinte anotação: «Falta»).
Uma das torres terá escada de caracol e um vão para o relógio;
Outra terá, em baixo, o Baptistério;
A Igreja será tapada com madeira pelo sítio dos Arcos, com porta debaixo do coro, «de sorte que fica vedado athe durar a obra»;
o arrematante poderá usar a pedra e materiais que são da Igreja antiga.
«a porta principal será a mesma e quando não possa servir o Inspector determinará como hade ser»;
«a armação da Igreja será toda infreixaelada, em freixaes de serne de carvalho…»;
a telha que faltar será da melhor…;
Em advertência: «os altares laterais tornar-se-ão a por na maneira em que estão qu.do algum delles se desmanche».

Desenho do interior da Igreja de Ovar, do Arquitecto Luís Inácio de Barros Lima, por certo feito em 1804, quando do 1.º «Risco» do frontispício, de sua autoria. A arquitectura aqui apresentada deverá corresponder, pelo menos aproximadamente, à arquitectura do templo anterior, do século XVII, em cujos alicerces assentou o actual, que acabou por ser mais levantado

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE FEVEREIRO DE 1988) 

http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/uma-achega-de-tomo-para-histria-da_21.html


LEIA TAMBÉM OS SEGUINTES TEXTOS:
- Uma achega de tomo para a história da Matriz de Ovar (IV)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/uma-achega-de-tomo-para-histria-da_5880.html

10.4.08

Uma achega de tomo para a história da Matriz de Ovar (I)

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/1988)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Acerca da actual Igreja Matriz de Ovar debruçaram-se, em pormenor, os historiadores locais Dr. João Frederico Teixeira de Pinho («Memórias e Datas para a História de Ovar», Ovar, 1959, edição póstuma), e Padre Manuel Lírio («Monumentos e Instituições Religiosas – Subsídios para a História de Ovar», Porto, 1926), havendo, para os aspectos artísticos e arquitectónicos, um precioso trabalho do Padre António Nogueira Gonçalves («Inventário Artístico de Portugal», vol. X, Distrito de Aveiro – Zona do Norte, Lisboa, 1981).Destas fontes se infere que o corpo principal da actual Igreja é uma reconstrução do templo anterior, que, por sua vez, sucedera a um outro ainda mais antigo, que vinha do século XVI, quando da mudança da sede da Paróquia.

Igreja Matriz de Ovar (anos 90)
[Foto Fernando Pinto]
A reconstrução de 1834 (data gravada na frontaria da Igreja) fez-se a partir dos alicerces do templo antecedente, então em ruínas.
Deixando de parte as minudências históricas que sempre explicam e acompanham projectos desta envergadura, e que podem encontrar-se quer nos autores referidos, quer em outros trabalhos posteriormente publicados, vamos hoje trazer à luz alguns elementos inéditos relacionados com a génese da última reconstrução, e que constituem uma achega muito interessante não só para a história da nossa Matriz como para o estudo do património cultural vareiro.
Estes elementos, que se encontram no Arquivo Municipal de Ovar, e que nos foram facultados pelo sr. Arquitecto Faria Pires, constam de um processo que contém:- Dois desenhos de alçados para a frontaria da Igreja, um deles datado de 1804 e o outro sem data (posterior a 1824, ano gravado a letras de água na folha de papel em que o trabalho foi executado);
- Dois desenhos relacionados com a base e a cúpula da torre;
- Um croqui colorido com um pormenor do interior da Igreja de então, notando-se as colunas muito mais baixas do que as actuais;
- Um desenho a lápis com medidas do interior da Igreja;
- «Apontamentos para a Igreija da Villa de Ovar», em 12 folhas, em que são especificados os trabalhos de pedreiro (7:869$665 reis), carpinteiro (2: 250$000), e trolha (550$000).
Estudo para a fachada da Igreja Matriz de Ovar
- Documento de 27/5/1833, em que o mestre António José da Silva, declara ter recebido o «risco do frontespício da Igreija d’Ovar» para mandar copiar e servir-me da sua cópia de governo para a obra».
- «Relaçam dos livros, Autos e Chave do cofre pertencente à Igreja Matriz desta Villa, de que faço entrega ao Snr. Commissario da Parochia Fran.co d’Oliv.a Bap.ta». (Tem a data de 31.8.1836, e é assinada pelo Secretário da Câmara, Salvador José da Silva Lima).
- «Apontamentos para a Capela do Santissimo Sacram.to da Igreja da Villa de Ovar», com 10 folhas e um pormenorizado desenho da talha do respectivo altar (o mesmo da actualidade, do lado direito da Igreja, embora sem as imagens ligadas ao culto do Sagrado Coração de Jesus).

Apresentamos, em gravura, os referidos estudos para a fachada da Matriz, os quais, embora pouco audaciosos, contêm, gradativamente, os elementos caracterizadores da solução definitiva (mais consentânea com a projecção que já tinha, há um século e meio, a então Vila de Ovar, mas só possível graças à colaboração do Governo da época, que para a sua fábrica aplicou o imposto do real da água).
Atente-se na simplicidade do projecto de 1804, do Arquitecto Luís Inácio de Barros Lima, do Porto, com uma única janela ao centro e uma torre de linhas orientais.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JANEIRO DE 1988)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/uma-achega-de-tomo-para-histria-da.html


LEIA TAMBÉM OS SEGUINTES TEXTOS:
- Uma achega de tomo para a história da Matriz de Ovar (II)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/uma-achega-de-tomo-para-histria-da_14.html

- Uma achega de tomo para a história da Matriz de Ovar (III)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/uma-achega-de-tomo-para-histria-da_21.html

- Uma achega de tomo para a história da Matriz de Ovar (IV)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/uma-achega-de-tomo-para-histria-da_5880.html