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23.11.11

O Bairro da Misericórdia

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/2009)
TEXTO: José de Oliveira Neves

É costume dizer-se que as conversas são como as cerejas, mas este velho rifão também pode ser aplicado às nossas recordações quando, depois de atingirmos uma idade de várias décadas, começamos a evocar factos passados na nossa juventude, os quais se sucedem uns aos outros como contas dum rosário.

Assim aconteceu ao memorar “A Quinta da Fábrica dos Coiros”, que deu motivo ao texto publicado neste jornal em 1 de Março de 2009 e que avivou na minha mente outros acontecimentos dum passado não muito distante, mas que já fazem parte da história da nossa terra… [CLIQUE NO LINK A AZUL]
Um deles foi a inauguração, em 28 de Abril de 1949, do Bairro da Misericórdia, cuja história vou procurar sintetizar, recorrendo à minha memória e ao jornal “Notícias de Ovar”, que iniciara, meio ano antes, a sua publicação, e de que era proprietário António Coentro de Pinho, também Presidente da Câmara de Ovar na época desse melhoramento.

O Presidente da Câmara inaugurando o Bairro da Misericórdia
Nos anos 40, aquele sítio era-me familiar, porquanto, tal como a Quinta dos Coiros, que, por estar próximo da minha casa, também foi palco de muitas das brincadeiras da minha infância.
Era um terreno baldio – a Estrumada –, rodeado de pinhais pertencentes a famílias muito notórias em Ovar.
Ali o povo da vila ia despejar o lixo doméstico e o entulho saído das obras feitas em suas casas, formando amontoados de lixo. (Naquele tempo, a Câmara não se encarregava desse trabalho, nem havia contentores nas ruas como actualmente existem).
Por ali passavam os pescadores e as pescadeiras do Lamarão e outras pessoas das redondezas a caminho da praia, seguindo pela Rua da Cadeia (hoje com o nome de Jorge Barradas), tomando aí a estrada para o Furadouro…
A construção do Bairro foi iniciada em fins de Janeiro de 1948, mas a obra tinha sido projectada, vários anos antes, pela Câmara Municipal. Por esta não possuir a capacidade financeira para a poder realizar, isso mesmo foi transmitido ao Ministro das Obras Públicas em fins de 1946, quando da sua visita à nossa terra.
Por sugestão daquele membro do Governo, e uma vez que a Misericórdia de Ovar acabava de receber uma avultada herança do grande benemérito Manuel Soares Pinto, foi feita à Santa Casa uma proposta para a transferência daquele encargo, o que foi aceite, responsabilizando-se a Câmara pela respectiva urbanização, incluindo água, luz e esgotos. O “Notícias de Ovar” de 21 de Abril de 1949 anunciava que o Bairro a inaugurar, a nordeste do edifício da Cadeia, se compunha de um total de 14 blocos, distribuídos por dois tipos de casas (A e B). No primeiro (A), 5 blocos de 4 casas cada um e mais de 3 de duas casas; no segundo (B), 6 blocos de 5 casas. No total, eram 50 casas, sendo 26 do tipo A e 24 do tipo B.
Dizia ainda o referido jornal que as casas iam ser inauguradas absolutamente prontas, “faltando apenas ligar o abastecimento da água à rede, o que deve verificar-se dentro dum mês e logo que estejam ultimadas as obras de ampliação do depósito da Cadeia, donde será feito esse fornecimento, até ser instalado o abastecimento de água à vila, obra a começar ainda dentro do corrente ano”.
Visitados os trabalhos em 18 de Abril de 1948 pelo Subsecretário de Estado da Assistência, Dr. Trigo Negreiros, e pelo Governador Civil do Distrito, Dr. João Dias Moreira, o novo Bairro foi inaugurado, um ano depois, num dia de chuva intensa, que impediu maior solenidade à cerimónia, não se efectuando a planeada sessão ao ar livre.
Cortou a fita simbólica o Presidente da Câmara, António Coentro de Pinho, procedendo à bênção do Bairro, o Pároco, Padre Crispim Gomes Leite.
Proferidas algumas palavras alusivas ao acto pelo Presidente do Município, a Filarmónica Ovarense executou alguns números de música.
Devido ao mau tempo, não chegou a discursar o Provedor da Santa Casa da Misericórdia, Francisco Gomes Ramada, mas o “Notícias de Ovar” transcreveu as suas palavras, onde se destaca um elogio ao grande benemérito Manuel Soares Pinto, à Câmara, que contribuiu com centenas de milhares de escudos, e ainda ao nosso conterrâneo Eng. Arala Chaves que, segundo Francisco Ramada, foi o melhor auxiliar que a Misericórdia poderia ter encontrado no decorrer das obras.
Na época, o Bairro da Misericórdia foi um grande melhoramento, beneficiando muitas famílias carenciadas, que ali se albergaram, pagando rendas bastante reduzidas.
Em Ovar, como no resto do país, os tempos eram difíceis. Grassava a doença da tuberculose, especialmente nos mais necessitados, e a pesca no Furadouro estava em fase decadendente, proporcionando pouco trabalho…
Felizmente despontava na nossa terra a industrialização, criando novos empregos, o que oferecia ao povo de Ovar melhor qualidade de vida.

O Bairro da Misericórdia na actualidade
Naquele Bairro, hoje muito descaracterizado, com várias casas envolvidas por anexos feitos pelos seus moradores, e rodeado de novas urbanizações das mais diversa ordem, nasceu e viveu muita gente que, depois de casar, optou por residir em outros locais, deixando para sempre aquele aglomerado habitacional, onde foram ficando as pessoas idosas e mais desfavorecidas, que constituem a maior parte dos seus actuais inquilinos, confirmando uma bonita expressão da ilustre escritora Agustina Bessa-Luiz: “Na juventude vive-se, na velhice mora-se”.
Já velhinho, o Bairro da Misericórdia, continua de pé, a cumprir a função para que foi criado. Mas, como tudo na vida é temporário, não tardará o dia em que será substituído por alguma urbanização moderna, mais adequada aos novos tempos que vão surgindo…

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Abril de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 145) 

19.8.10

A Barca da Misericórdia

João Arada e Costa
Jornal JOÃO SEMANA (01/01/1978)
TEXTO: Arada e Costa

Não pretendemos desenvolver a sua história. Ela está bem documentada na “Monografia de Ovar” da autoria do nosso ilustre conterrâneo Dr. Alberto Sousa Lamy.
Simplesmente dar a conhecer aos que ainda não sabem, que ela sulcava as águas da Ria, de Ovar a Aveiro, transportando pessoas e cargas. Desde o sábado até ao pôr do Sol de segunda-feira os pobres não pagavam a passagem.
Cais da Ribeira - Ovar - ponto de partida e de chegada da Barca da Misericórdia
(Fotografia do início do séc. XX)
Era uma obra de Misericórdia da Igreja, cujo espírito, aliás, esteve na origem das Misericórdias portuguesas.
O produto da exploração da Barca da Misericórdia revertia em favor dos pobres, dando-lhes auxílio na doença e proporcionando-lhes sepultura condigna após a morte.
Nossa Senhora da Boa Morte
(Pietá) 
Existia ainda outra Obra de Misericórdia, o Albergue dos peregrinos, devoção da família Pereira de Campos, de quem descendemos pelo ramo paterno. Funcionava numa casa sita ao Coval do Concelho, nome mais tarde adulterado para Curral do Concelho, e tinha por fim dar pousada aos peregrinos pobres que por aqui passassem, dando-lhes ceia e pequeno-almoço. Vinha este albergue do ano de 1700.
A família instituidora era dona da quinta de S. Roque na Ribeira, cuja área cobria 69.000 metros quadrados. Ali edificaram o pequeno oráculo do santo. Na doação que deixaram de uma parcela da quinta, desde o rio velho até ao moinho de vento, se determinava que as esmolas revertiam para o culto do santo e para mandar rezar três missas no dia de Natal na capela de Santa Catarina: a primeira pelos doadores, a segunda em louvor a S. Roque, e a terceira a Nossa Senhora da Boa Morte, cujo culto e imagem foi também da sua devoção.
Consultámos um livro da Barca da Misericórdia, que possuímos entre volumoso maço de documentação, com o termo de abertura lavrado em 10 de Fevereiro de 1831.
Está assinado e comprovado pelo Provedor da Comarca, Luís Manuel Ferreira da Veiga. Desse velho livro destacamos e respeitamos a seguinte transcrição:

Contas da receita e despeza da Barca da Misericórdia d’esta Villa d’Ovar no anno de 1831 para o de 1832:
RENDIMENTO
- P[elo] dinheiro de Arrematação da Barca, na Lei moeda em ouro = 10$100 (10 mil e cem reis)

DESPEZA
- P se pagou de Receptuario ao Capitão-Mor Dom.ºs do Rosário Costa e ao boticário Joze Manoel Teix.ª de Pinho 85$190 (Líquido 15$810)
-P Inporte de Esmollas aos pobres d’esta vila e fora d’ellla e barcagens aos passageiros p.ª Aveiro (6$020)
-P D.º de Mortalhas p.ª os Defuntos pobres d’esta Freguesia (6$050)
- P D.º de prover estas contas ($500)
- E por esta forma se verão estas contas por feitas e acabadas ficando a receita pella despesa e assignarão,
Eu António Roiz Pepulim o sobre escrevi asegnei. O Juiz da Ihreja Domingos do Rozario Costa
O escrivão da Igreja
António Roiz Pepulim

Provedor da Igreja
Manoel José Marques

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 1978)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/08/barca-da-misericordia.html

ADENDA -----------------------------------------

A Barca da Misericórdia

"A beneficência pública, a cargo da Mesa da Igreja, objetivara-se numa Misericórdia, e a particular originara no Curral do Concelho, o Albergue dos Peregrinos. Faltava casa para recolher e tratar os doentes pobres; mas em 1801 lançam-se os alicerces do Hospital, por iniciativa do benemérito e exemplar sacerdote e caritativo pároco desta freguesia, João de Sequeira Monterroso e Melo". (Era ainda Ovar uma freguesia da Feira, só alcançando independência administrativa em 1835". (in Almanaque de Ovar, 1916, pág. 49)