Jornal JOÃO SEMANA (15/04/2016)
TEXTO: João M. Gomes Costa
Era através
de canais, por meio de embarcações (bateiras, mercantelas, moliceiros e os
mercantéis de sal) que o lugar da Marinha fazia as suas ligações com as
localidades da Nossa Senhora de Entráguas, Ribeira de Mourã (Avanca), Bunheiro,
Murtosa, Aveiro, entre outras. Em Pardilhó realizava-se, mensalmente, a feira
dos 9 e 23, local onde se vendiam, entre outros, produtos hortícolas e animais,
sendo também as embarcações o meio privilegiado de transporte para ali. Era
mais fácil ir às feiras de Pardilhó do que às de Ovar, pois os acessos para
esta vila eram menos acessíveis. A atual descendência do povo da Marinha
resulta de laços matrimoniais que ao longo dos tempos foram sendo estabelecidos
entre as gentes daquelas regiões, com particular ênfase de Pardilhó e do
Bunheiro.
Os serões, as festas...
Antes de 1950 já havia entre os jovens a tradição de
aproveitarem as longas noites dos serões invernosos para cantarem e dançarem
nas eiras, cobertos e pequenas salas das localidades da Marinha, Torrão do
Lameiro e Quintas do Norte. Findo o verão, e iniciando-se o outono, começavam
as tradições das escolhedelas de feijão, momentos sempre propícios à animação
das gentes, com danças e cantares que serviam, igualmente, para os rapazes e
raparigas estabelecerem os primeiros namoricos. Em setembro começavam as
estonadas (designadas noutras regiões por desfolhadas), período da recolha do
milho e das escolhedelas. Também era nesta altura que se faziam as cortadas de
tiras feitas em tecidos de roupa velha, que se destinavam quer à criação de
mantas de farrapos, quer às abridelas de lã, que se destinavam ao fabrico de
mantas.
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| Uma atuação do Rancho Folclórico de Ovar |
Na Marinha e no Torrão do Lameiro cultivava-se aveia,
centeio, cevada, milho e feijão. O grão do milho e do centeio, depois de separado
respetivamente dos canulos e da palha, era moído, para depois se fazer broa,
que servia tanto para consumo próprio como para venda, tal como os respetivos
cereais. Os animais domésticos que criavam também eram alimentados tanto com os
cereais como com a palha que deles resultava. O feijão era uma leguminosa que
também fazia parte da subsistência do povo, nesta localidade. A cevada, sendo
igualmente de subsistência, também era comercializada, tal como a palha, para
o gado. As palhas destes cereais tinham ainda uma outra funcionalidade: com
elas eram enchidos os colchões das camas, servindo ainda de acomodamento,
proporcionando um certo conforto nas proas dos barcos que povoavam os canais
da ria, já que eram as pequenas embarcações o meio de transporte privilegiado nas
deslocações. Em todas as atividades que implicassem o trato e a preparação
dos diferentes cereais, bem como após a realização das estonadas e cortadas
de tiras e abridelas de lã, o povo, animado, procurava o lado lúdico da
confraternização e do convívio. Assim, os rapazes e as raparigas juntavam-se,
rotativamente, nas várias casas – as raparigas, tendo sempre como firme e
claro propósito a realização dos (referidos) trabalhos agrícolas –, e só no
final das tarefas, aproveitavam o resto do serão para então dançarem e
cantarem. O tocador em algumas modinhas poderia dançar, não necessitando de as
acompanhar musicalmente, pois eram exclusivamente cantadas.
O único moinho de vento que existia no lugar da Marinha
estava montado em cima de 2 ou 4 rodas de carro de tração animal. A proprietária
deste moinho era conhecida pelo epíteto de “Ti Pataca”, proveniente de uma
família abastada da localidade.
No quotidiano doméstico, para além dos trabalhos da
lavoura, as mulheres iam buscar às margens da Ria molhos de tojo, giesta ou
carqueja, que chegavam dos barcos provenientes do rio Vouga, e que traziam à
cabeça. Por sua vez, os homens transportavam dois molhos no bordão (pau de dois
metros e com um diâmetro de 8 a 10 cm), fazendo o percurso da Ria até às dunas.
Tal tarefa constituía uma preparação/defesa para que as areias não arrasassem
as plantações de pinheiros, além de que era necessário protegerem-se construindo
abrigos, contra ventos e marés, do Torrão do Lameiro até Maceda. Ao regressarem
das suas tarefas aproveitavam para se divertirem, dançando e cantando ao
desafio. As raparigas, quando iam carregadas com os molhos, levavam a concertina
ao ombro, pois era impossível ao tocador transportá-la, uma vez que também ele
ia carregado com o referido bordão.
O rancho da Marinha
Segundo um artigo de Lamy Laranjeira na edição n.º 14 de
1980 da Revista Reis, José Coito, ensaiador do Grupo Folclórico de Ovar, era
“exigente, severo para as faltas cometidas e condescendente para ocorrências
felizes”. Na mesma revista, o poeta Homem de Mello assevera que “o marido da
cantadeira é um elemento precioso”, dadas as exigências das suas funções e os
conhecimentos na arte de dançar.
O professor Manuel Lopes Conde formou e preparou um grupo
de jovens e adultos da classe lavradeira para atuar no Campo da Associação
Desportiva Ovarense, nas festas sanjoaninas, junto com outros grupos de marchas
de Ovar. De acordo com a revista Reis de 1987, num artigo publicado por Maria
Luísa Resende, ao apresentar-se no referido local, o grupo das Marinhas
“apareceu a destoar: em vez de arcos e balões, trouxe as lanternas de ir às
minhocas e trajos de trabalho… Quando entrou no Campo, foi uma vaia geral, um
gozo indescritível. Começaram a dançar as suas modas e o público, estupefacto,
parou de rir e de assobiar.
No fim, aplaudiu de pé! Aí nasceu o primeiro rancho
folclórico de Ovar!”.
Esta era uma forma de se manifestarem, reivindicando por
não existir luz elétrica na Marinha e no Torrão do Lameiro. A eletrificação
destes lugares só surgiu em 1959, sendo inaugurada, simultaneamente, em ambas
as localidades. Foi nesse grupo organizado, e com esse ensaiador, que nos anos
de 1950 nasceu o Rancho da Marinha. A partir deste espetáculo a Junta do
Turismo passou a incentivar a manutenção deste grupo para a realização de
outros espetáculos a nível regional e nacional.
(Continua)
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de abril de 2016)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/07/as-origens-do-folclore-em-ovar-i-e-ii.html
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/07/as-origens-do-folclore-em-ovar-i-e-ii.html




