Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2004)
TEXTO: Mário Miranda
Ainda fui iluminado, durante algum tempo, pela energia
eléctrica produzida em Ovar. Vi a máquina a vapor que accionava o gerador,
máquina que, afinal, depressa deixou de ter capacidade para o fornecimento
total de energia à vila vareira.
A iluminação nas ruas era comparada, então, à dos
pirilampos. Em casa notava-se esse enfraquecimento progressivo, que se tentava
ultrapassar substituindo-se as lâmpadas por outras de maior consumo que, mesmo
assim, não nos satisfaziam.
Recordo-me de uma pequena construção em madeira, com
cobertura artística, pintada de cor acastanhada, onde estava a bomba ou bombas
que lançavam a água no depósito (depois transformado em armazém), localizado
junto do edifício das máquinas. Esta construção estava instalada à beira do rio
Cáster, então ainda com água “virgem”, a pouco mais de 200 metros a sul dos
Pelames.
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| Na foto de Ricardo Ribeiro: Instalação da bomba centrífuga movida a eletricidade para o fornecimento de água à fábrica de eletricidade de Ovar |
Foi pena terem retirado dali todo o equipamento e
destruído a chaminé (a não ser que esta oferecesse perigo de derrocada). Tudo
ali deveria ter sido conservado, como se houvesse de entrar em funcionamento em
qualquer altura. A manter-se em bom estado de conservação, poderia vir a
tornar-se numa fonte de interesse turístico local. Até por se tratar de um
edifício histórico…
Estou a lembrar-me do belo edifício da fábrica de energia
eléctrica de Lisboa, construção muito semelhante à da fábrica de Cerâmica
Campos, em Aveiro, toda em tijolo, o que lhe confere uma certa graça e hoje
transformada em Casa da Cultura e serviços.
Na antiga fábrica de Lisboa fazem-se palestras e
exposições, além das visitas normais ao Museu de Indústria de Energia Eléctrica
ali instalado, à beira Tejo, entre Alcântara e Belém. (Na altura, a empresa
tinha o nome de Companhias Reunidas do Gás e Electricidade, nome que manteve
durante muitos anos.)
Foi a América, em 1882, o país que deu começo ao
fornecimento de energia eléctrica a todas as ruas e residências. É natural que
assim acontecesse, pois os inventores eram americanos.
Só passados 31 anos é que a electricidade chegou a Ovar.
Desde o início dos trabalhos preparatórios (1903) até à
inauguração (1913) gastaram 10 anos em propostas, concursos desertos,
prorrogações de prazos, combinações de accionistas, contas, relatórios,
escrituras, etc, etc!
Finalmente, em 1 de Dezembro de 1913 é inaugurada a
iluminação em Ovar.
O Presidente da Câmara, Dr. António Santos Sobreira, o
Dr. Pedro Chaves e o Dr. Gaspar Teixeira de Queirós Coelho de Castro
Vasconcelos, Juiz da Comarca de Ovar (pai do grande escritor Eça de Queiroz),
ligaram a corrente na casa das máquinas, repleta de gente, tendo discursado o
Dr. Pedro Chaves e o Dr. António dos Santos Sobreira. Organizou-se, depois, uma
marcha “aux flambeaux” que, partindo da Central, percorreu várias ruas de Ovar,
terminando na Praça da República, onde, da varanda dos Paços do Concelho, o Dr.
Pedro Chaves falou ao povo que enchia a praça.
Em Agosto de 1931, a povoação de Ovar passou a ser
fornecida de energia pela União Eléctrica Portuguesa (barragem do Lindoso) e
não pelas máquinas da Companhia Portuguesa de Electricidade e Tracção de Ovar,
que chegou a projectar um ramal de caminho de ferro até ao Furadouro, assunto
sobre o qual o poeta popular Caleiro, que passou por Ovar nos anos 30. chegou a
ironizar com versos como este: “A estrada para o Furadouro/há-de estar pronta
em Janeiro. / Os carris estão a fazer / no Guilherme Serralheiro.”
Cheguei a Lisboa aí por 1932, e ainda vi que muitas ruas,
fora do centro, eram iluminadas a gás.
Pelos finais de 1937, tive de me deslocar, em serviço dos
CTT, a Caldas da Rainha, acompanhado por um colega muito alegre e cheio de
humor. Ali estivemos dois dias, tendo procurado, na altura, uma pensão no
centro da cidade. Quando do almoço, achámos estranha a presença de uma mesa
longa no centro da sala. E à noite, ao jantar, notámos que uma grande lâmpada
colocada ao meio da mesa, de 100 velas, como então lhe chamavam – hoje dizemos
100 watts –, dava uma luz muito fraquinha. Sem perda de tempo, o meu colega saiu
à rua, comprou uma grande vela e colocou-a em cima da mesa. Tendo-a acendido,
apagou a lâmpada da luz eléctrica e sentou-se calmamente no seu lugar. Todos os
comensais acharam muita graça, gargalharam e até concordaram…
Caldas da Rainha, tal como Ovar, tinha sido iluminada
através de um gerador próprio, semelhante a muitos outros espalhados pelo país!
Apesar da energia ter melhorado com a introdução da
Hidro-Eléctrica do Douro, durante muito tempo, especialmente nas ruas, pouco
beneficiámos.
Quando da chegada de Carlos Silva ao Executivo vareiro,
deu-se uma volta de 180º na iluminação pública de Ovar, cujas ruas passaram a
ter balastros para néon. E de tal maneira ficámos bem servidos, que até as
hospedeiras de bordo dos aviões da carreira Porto-Lisboa, ao passarem por
Ovar, chamavam a atenção dos passageiros para que olhassem e vissem a “vila
mais bem iluminada do país!”
Posso testemunhar essa chamada de atenção aos
passageiros da TAP porque, por uma questão de serviço, tive de viajar algumas
vezes de Lisboa para o Porto, ainda em aviões a hélice.Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de agosto de 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/10/a-luz-electrica-em-ovar-em-1913.html
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