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15.10.13

A luz eléctrica em Ovar em 1913

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2004)
TEXTO: Mário Miranda

Ainda fui iluminado, durante algum tempo, pela energia eléctrica produzida em Ovar. Vi a máquina a vapor que accionava o gerador, máquina que, afinal, depressa deixou de ter capacidade para o fornecimento total de energia à vila vareira.
A iluminação nas ruas era comparada, então, à dos pirilampos. Em casa notava-se esse enfraquecimento progressivo, que se tentava ultrapassar substituindo-se as lâmpadas por outras de maior consumo que, mesmo assim, não nos satisfaziam.
Recordo-me de uma pequena construção em madeira, com cobertura artística, pintada de cor acastanhada, onde estava a bomba ou bombas que lançavam a água no depósito (depois transformado em armazém), localizado junto do edifício das máquinas. Esta construção estava instalada à beira do rio Cáster, então ainda com água “virgem”, a pouco mais de 200 metros a sul dos Pelames.

Na foto de Ricardo Ribeiro: Instalação da bomba centrífuga movida a eletricidade
para o fornecimento de água à fábrica de eletricidade de Ovar

Foi pena terem retirado dali todo o equipamento e destruído a chaminé (a não ser que esta oferecesse perigo de derrocada). Tudo ali deveria ter sido conservado, como se houvesse de entrar em funcionamento em qualquer altura. A manter-se em bom estado de conservação, poderia vir a tornar-se numa fonte de interesse turístico local. Até por se tratar de um edifício histórico…
Estou a lembrar-me do belo edifício da fábrica de energia eléctrica de Lisboa, construção muito semelhante à da fábrica de Cerâmica Campos, em Aveiro, toda em tijolo, o que lhe confere uma certa graça e hoje transformada em Casa da Cultura e serviços.
Na antiga fábrica de Lisboa fazem-se palestras e exposições, além das visitas normais ao Museu de Indústria de Energia Eléctrica ali instalado, à beira Tejo, entre Alcântara e Belém. (Na altura, a empresa tinha o nome de Companhias Reunidas do Gás e Electricidade, nome que manteve durante muitos anos.)
Foi a América, em 1882, o país que deu começo ao fornecimento de energia eléctrica a todas as ruas e residências. É natural que assim acontecesse, pois os inventores eram americanos.
Só passados 31 anos é que a electricidade chegou a Ovar.
Desde o início dos trabalhos preparatórios (1903) até à inauguração (1913) gastaram 10 anos em propostas, concursos desertos, prorrogações de prazos, combinações de accionistas, contas, relatórios, escrituras, etc, etc!
Finalmente, em 1 de Dezembro de 1913 é inaugurada a iluminação em Ovar.
O Presidente da Câmara, Dr. António Santos Sobreira, o Dr. Pedro Chaves e o Dr. Gaspar Teixeira de Queirós Coelho de Castro Vasconcelos, Juiz da Comarca de Ovar (pai do grande escritor Eça de Queiroz), ligaram a corrente na casa das máquinas, repleta de gente, tendo discursado o Dr. Pedro Chaves e o Dr. António dos Santos Sobreira. Organizou-se, depois, uma marcha “aux flambeaux” que, partindo da Central, percorreu várias ruas de Ovar, terminando na Praça da República, onde, da varanda dos Paços do Concelho, o Dr. Pedro Chaves falou ao povo que enchia a praça.
Em Agosto de 1931, a povoação de Ovar passou a ser fornecida de energia pela União Eléctrica Portuguesa (barragem do Lindoso) e não pelas máquinas da Companhia Portuguesa de Electricidade e Tracção de Ovar, que chegou a projectar um ramal de caminho de ferro até ao Furadouro, assunto sobre o qual o poeta popular Caleiro, que passou por Ovar nos anos 30. chegou a ironizar com versos como este: “A estrada para o Furadouro/há-de estar pronta em Janeiro. / Os carris estão a fazer / no Guilherme Serralheiro.”
Cheguei a Lisboa aí por 1932, e ainda vi que muitas ruas, fora do centro, eram iluminadas a gás.
Pelos finais de 1937, tive de me deslocar, em serviço dos CTT, a Caldas da Rainha, acompanhado por um colega muito alegre e cheio de humor. Ali estivemos dois dias, tendo procurado, na altura, uma pensão no centro da cidade. Quando do almoço, achámos estranha a presença de uma mesa longa no centro da sala. E à noite, ao jantar, notámos que uma grande lâmpada colocada ao meio da mesa, de 100 velas, como então lhe chamavam – hoje dizemos 100 watts –, dava uma luz muito fraquinha. Sem perda de tempo, o meu colega saiu à rua, comprou uma grande vela e colocou-a em cima da mesa. Tendo-a acendido, apagou a lâmpada da luz eléctrica e sentou-se calmamente no seu lugar. Todos os comensais acharam muita graça, gargalharam e até concordaram…
Caldas da Rainha, tal como Ovar, tinha sido iluminada através de um gerador próprio, semelhante a muitos outros espalhados pelo país!
Apesar da energia ter melhorado com a introdução da Hidro-Eléctrica do Douro, durante muito tempo, especialmente nas ruas, pouco beneficiámos.
Quando da chegada de Carlos Silva ao Executivo vareiro, deu-se uma volta de 180º na iluminação pública de Ovar, cujas ruas passaram a ter balastros para néon. E de tal maneira ficámos bem servidos, que até as hospedeiras de bordo dos aviões da carreira Porto-Lisboa, ao passarem por Ovar, chamavam a atenção dos passageiros para que olhassem e vissem a “vila mais bem iluminada do país!”
Posso testemunhar essa chamada de atenção aos passageiros da TAP porque, por uma questão de serviço, tive de viajar algumas vezes de Lisboa para o Porto, ainda em aviões a hélice.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de agosto de 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/10/a-luz-electrica-em-ovar-em-1913.html

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17.11.11

Avivando a memória de um pioneiro da luz eléctrica em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/1983)
TEXTO: Maria José vinga

Maria José Vinga
Vinha eu de uma reunião, eram 11h50 da noite. Noite de Novembro, escura. Noite feia, a adivinhar Inverno.
Vinha só. Por isso dava largas ao meu pensamento. Não tinha medo, porque as ruas estavam bastante iluminadas, e a força da luz tinha varrido da minha imaginação toda a espécie de receios.
Vinha paulatinamente, pensando no valor e nas propriedades da luz. Sim, da luz, a primeira e melhor coisa que Deus criou. A luz, em si, é vida, alegria, e o encanto de tudo. Sem luz, não há beleza.
A luz, nessa noite, estava brilhante, esplêndida. Esbatendo-se nas casas, tornava-as claras, verídicas, reais.
Lembrei-me, então, dos velhos tempos em que não havia luz eléctrica, em que a iluminação era feita por candeeiros a petróleo, com os vidros enfarruscados pelo fumo, e que, a horas tardias como esta, já deveriam estar a extinguir-se, por falta de combustível. Que diferença!
Confortada com o brilho daquela boa luz, meu pensamento voltou-se para o céu, numa prece bem sentida pelo autor deste invento e pelo grande homem que tanto se esforçou por introduzi-lo em Ovar. Foi ele o Dr. José Nogueira Dias de Almeida.

José Nogueira Dias de Almeida
Conheci muito bem este prestante cidadão e médico, que foi meu professor no Colégio Júlio Dinis, em 1916 e 1917. Era natural da Póvoa da Rainha, concelho de Gouveia, no distrito da Guarda. Estudou Medicina em Coimbra, onde se formou com boa classificação. Vindo para Ovar, contratado pela Câmara para atender, como médico, todos os podres e todos quantos a ele recorressem, aqui casando e estabelecendo o seu lar.
Foi, para Ovar, um verdadeiro filho, sempre lutador, cheio de génio, de bondade e de saber.
Não sendo político, sempre batalhou pelo progresso de Ovar. A ele se deve a ideia e o arranque de uma estrada que ligaria a nossa vila a Pardilhó, a partir do novo Matadouro, construído em terrenos seus, após permuta amigável com a Câmara. Para que a estrada fosse possível (e só agora passou a sê-lo em parte!) comprou várias parcelas de terra naquela zona. Essa estrada, que começava em propriedade suas, era, naquele tempo, de grande interesse regional, pois não havia transportes públicos, e vinha muita gente de Pardilhó à nossa Praça, a pé, com esteiras, vassouras de junco, cestos e outras utilidades, para além dos almocreves, que aqui vinham comprar diariamente sardinha.
Desde 1903 que em Ovar se começara a falar em iluminar a vila com luz eléctrica. De 1907 a 1909 o desejo cresceu, e um grupo de cinco homens, dos mais abastados e corajosos, começou a mexer-se, formando uma sociedade. Eram eles: José de Oliveira Lopes, Afonso José Martins, Dr. António Baptista Zagalo dos Santos, João Ferreira Coelho e Dr. António dos Santos Sobreira.
Apesar da boa vontade de todos eles, faltava qualquer coisa que desse o impulso decisivo ao arranque da ideia. É que nem todos os vareiros compreendiam o alcance da iniciativa, e alguns comerciantes locais, de quem esperavam colaboração, iam adiando a sua adesão de mês para mês, enquanto as ruas continuavam com lampiões.

A Companhia Portuguesa de Iluminação e Tracção de Ovar
Mas eis que em 1911 entra na liça o Dr. Almeida. Construindo uma pequena casa junto ao rio Cáster, que passava pelo meio da sua quinta, situada em frente da Igreja, ali assentou um motor que extraía água em abundância, água que ele encanou através de tubos de ferro ao longo da sua propriedade e, depois, pela estrada (Rua Gomes Freire) até à fabrica, onde ainda hoje funcionam os Serviços Municipalizados. Ali, ao fundo do actual pátio de serviço, construiu ele um grande tanque, hoje transformado em oficina e garagem.
O edifício principal fez-se depois. Na fachada, lia-se: “Iluminação e Tracção” (A Companhia Portuguesa de Iluminação e Tracção de Ovar, então formada, tinha tenções de levar até ao Furadouro a tracção eléctrica…).
O pavimento da fábrica era em cimento, mas, para trás, era mais baixo, em chão batido. Ali estava a caldeira com um grande forno sempre a arder, para onde metiam, à pá, toda a espécie de cepos, cascas secas de pinheiro, etc. Com a água a ferver, eram movidos os dínamos. Era assim, rudemente, que se fazia a energia eléctrica em Ovar.
Nos Reis de 1913, um grupo de reiseiros que eu ouvi cantar, à tardinha, junto da porta do Ferreira Dias, na Poça, cantava assim:

Luz eléctrica cá p’ra Ovar
Deve vir já, de repente,
Porque fica mais barata,
Cá na terra, a toda a gente.

Nossa terra iluminada
Alegra meu coração.
Dai pressa à malfadada,
Deitai fora o lampião!

Por aqui se vê a ansiedade com que todos esperavam a electricidade, que só em Outubro seguinte foi experimentada pela primeira vez. Logo em Novembro se fizeram mais duas experiências, acabando por se inaugurar no dia 1.º de Dezembro.
Ovar orgulhava-se, então, de ser uma das primeiras terras do País e a segunda do Distrito, depois de Espinho, a ser iluminada pela luz eléctrica! Não é possível descrever aqui a alegria que todos sentimos. Isso gastaria páginas do “João Semana”!
A realização desta grande obra foi conseguida através de acções, papéis que toda a gente comprava mas dos quais, segundo creio, ninguém recebeu quaisquer juros.
Por tudo isto se conclui que, se Ovar teve electricidade assim tão cedo, isso em grande parte se ficou a dever à energia, à coragem, ao saber e à generosidade do Dr. Almeida. E eu acho que a nossa terra não deveria esquecer isto. Até porque, no último mês de Novembro, quando tantos enfeitavam o nosso Cemitério, entristeci-me ao ver a acampa deste ilustre finado. Uma simples pedra de granito, escura, grosseira, sem qualquer data, cobre os seus restos mortais e os de sua Família. Impressionou-me tanta humildade e esquecimento. Nem uma flor, nem uma luz para quem tanto trabalhou pela nossa terra!
Daqui lançamos um apelo aos Serviços de Electricidade – agora a cargo da EDP – para que algo se faça para avivar a memória deste pioneiro da luz eléctrica em Ovar.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Março de 1983)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/11/avivando-memoria-de-um-pioneiro-da-luz.html