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2.6.08

“Enterraram o Senhor na Areia”…

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/1982)
TEXTO: Albano de Paiva Alferes

A maior afronta que se pode arremessar à fronte de um bom e legítimo vareiro é acusar os seus antepassados de terem enterrado o Senhor na areia, como se ouve, para aí, a cada passo, nos domínios da troça ou mesmo do insulto, como se os antigos vareiros, num movimento neo-judaico, fossem capazes de cometer tão hediondo crime, o que iria, além do mais, brigar com os pergaminhos e as gloriosas tradições cristãs do Povo Vareiro. Junot sabendo que Portugal não tinha possibilidades de realizar essa importância astronómica, e muito solícito em assuntos de pilhagens publicou, logo, ou seja em 1 de Fevereiro de 1808, um decreto determinando a recolha, no prazo de 15 dias, na Casa da Moeda, interpostas as recebedorias das décimas “de todo o ouro e prata das igrejas, capelas e confrarias do país, exceptuando apenas “as peças necessárias à decência do culto”.

A expressão "Enterraram o Senhor na areia" poderá referir-se ao enterramento, no  interior da
Capela do Calvário, da imagem de Cristo morto que seguia dentro do esquife
na Procissão do "Enterro do Senhor", em Sexta-feira Santa (MPB)
Deve ter, no entanto, uma origem este ultraje à memória vareira, e assim, eu, apegado ao Padre Oliveira Pinto, insigne investigador, não tenho o menor receio em afirmar que a origem em questão se topa nas invasões francesas e se prende com as mesmas.
Senão vejamos: Napoleão Bonaparte, encontrando-se no Palácio de Milão, em 3 de Dezembro de 1807, em plena invasão francesa, decreta, dali, um imposto de guerra de cem milhões de francos sobre a Nação Portuguesa “para resgate da sua propriedade particular”;
Nesta emergência, houve algumas pessoas e entidades que esconderam muitas alfaias de culto, enterrando-as. Consta que, na vizinha freguesia de Souto, estiveram enterrados, durante as invasões, um cálice “ricamente trabalhado” pertença da Capela de Tarei, uma píxide de estilo rococó, e uma custódia de certo valor, pertencentes à Igreja Paroquial, e ainda hoje existentes.
Ora é da tradição que os-de-Ovar enterraram bastantes dessas alfaias, entre as quais algumas cruzes paroquiais com o Cristo Crucificado e daqui teria nascido o vexame imputado aos Vareiros de terem “enterrado o Senhor na areia”. É curioso lembrar a extensão deste “desvio”; só da freguesia de Souto foram para não mais voltar: seis tocheiros, seis varas de pálio, um turíbulo com naveta, um lampadário, uma cruz paroquial, e uma vara de juiz, tudo em prata.
Com todas estas peças de prata e ouro recolhidas, Junot carregou dois barcos que lá foram pela barra fora…
É ainda curioso e triste lembrar que muitas pratas saídas das freguesias não chegaram às “recebedorias das décimas”, ficaram pelo caminho…

Alguns de cá estavam a trabalhar em sintonia com os de lá…
Modalidades da fraqueza humana.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE ABRIL DE 1977) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/06/enterraram-o-senhor-na-areia-texto.html

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Ovar: “Enterraram o Senhor na Areia"
A verdadeira interpretação

Lê-se no Livro de Contas de 1758 da Irmandade dos Passos: "De abrir e tapar cova na sacristia de S. Pedro para meter o caixão em Sexta-Feira Santa, 540 reis". (Alberto Sousa Lamy, Datas da História de Ovar, pág. 58)


Imagem que sai no esquife, em Sexta-Feira Santa, na Procissão do Enterro
 do Senhor, e que outrora era depositada numa cova ("na areia")
na sacristia da Capela do Calvário (S. Pedro)

1.4.08

Nossa Senhora da Graça – Entre a Lenda e a História

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/1977)
Nossa Senhora da Graça
TEXTO: Arada e Costa

Perde-se na ampulheta do tempo a data em que o nosso povo invoca Nossa Senhora da Graça.
Lendas, preces, favores e cantares envolvem, em Ovar, o seu culto, vindo do século XV.

Pelas ruas da nossa terra, ao cair das tardes de Abril e Maio, principalmente, viam-se ranchos de criancinhas a cantarem:

Senhora da Graça, 
De graça estais cheia,
Quando o mar abrange
a lua arrodeia!

Arrodeia, arrodeia,
volta a arrodear.
Nasce na terra,
põe-se no mar!

Põe-se no mar,
É lugar sagrado.
Cantemos todos:
Bendito louvado!


Eram as novenas e promessas a Nossa Senhora da Graça. Na velha lareira da casa avoenga, em noites de invernia, encarrapitado nos joelhos do meu avozinho, ele contava-me muitas histórias dentre as quais uma lenda de Nossa Senhora da Graça.
«A Senhora tinha aparecido nas escadas que davam acesso ao ancoradoiro das Hortas (1). A Senhora fora levada em procissão para a igreja matriz, cantando-se e rezando, louvando tão grande prodígio. A Senhora lá ficara entre flores e luzes. Mas, para grande espanto do povo, ao abrir-se a igreja, no dia seguinte, a Senhora já lá não se encontrava.

De novo regressaram ao cais. A imagem estava no seu antigo lugar. Nova condução para a matriz, e novo desaparecimento. Até que, após várias tentativas infrutíferas, a Virgem aparece com um dístico a seus pés: «Quero que me edifiquem aqui uma igreja em meu nome, e livrarei esta terra do flagelo da peste que grassa no Reino». (2)

Altar-mor da Capela da Nossa Senhora da Graça (Ovar),
dos finais do séc. XVII
O certo é que uma pequena ermida foi logo edificada na margem do cais. Mais tarde, em 1660, e porque a devoção à Virgem era muito intensa, não só em Ovar como nas terras limítrofes, o povo construiu uma magnífica capela recamada de preciosos azulejos quer no exterior quer no interior. O tecto era composto de quadros de talha, com telas pintadas representado os passos da vida da Virgem.
A linda imagem que a gravura mostra é de pedra, verdadeira relíquia da escola Coimbrã do século XV, possivelmente da primitiva ermida.
Nossa Senhora da Graça era festejada até 1854 em 15 de Agosto e a festa era precedida de uma feira que durava oito dias.
A confraria possuía muitos foros em propriedades rústicas e urbanas.

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Notas:
(1) Hortas: era assim denominado todo o bairro que vai do rio Graça ao Carril: Ali se situavam as salinas que o primeiro e segundo foral de Ovar referem.
(2) A peste grassou durante parte do reinado de D. Duarte, ano a que se atribui o culto de Nossa Senhora da Graça.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JANEIRO DE 1977)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/04/nossa-senhora-da-graa-entre-lenda-e.html