Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2012)
TEXTO: Joaquim Fidalgo
A regeneração urbana no casco velho de Ovar está em
andamento moderado e cadenciado. As obras de reabilitação trazem sempre o
propósito de acrescentar qualidade de vida aos seus munícipes.
A Arruela, ou “ruela”, situa-se na zona nascente da
cidade, e abarca um extenso espaço que perde as suas raízes nos emaranhados
caminhos do tempo.
Façamos um pequeno introito, para situarmos a Arruela,
com o seu bairro característico, no mapa da freguesia de Ovar desde meados do
século XVII.
A entrada na vila de Ovar pelo lado nascente fazia-se
pela Ruela, que conduzia os povos vizinhos, principalmente de Válega e S.
Vicente de Pereira, ao mercado semanal, que se realizava no centro da vila,
junto aos antigos Paços do Concelho.
Um açougue na Ruela
A população da Ruela dedicava-se principalmente à pesca,
primeiro na ria e, mais tarde, no mar.
Na vila, próximo dos paços do concelho, existia um
açougue que abastecia de carne a população. Só que, enquanto os vareiros mais
abonados se abasteciam facilmente, os pescadores, que regressavam à vila no fim
de semana, depois de uma companha na costa, que batiam desde São Jacinto até
Espinho, já não encontravam o açougue aberto. Isto motivou-os a fazerem uma
petição ao Rei D. Filipe II (1580 – 1640) para permitir a construção de um
açougue na Ruela, com garantia de que o preço da carne fosse o mesmo praticado
no açougue da vila.
No seu livro “Memórias e Datas para a História da Vila de
Ovar”, escrito em 1868 e publicado em 1959 pela Câmara de Ovar, o Dr. João
Frederico Teixeira de Pinho publica duas cartas relativas à concessão deste
segundo açougue para a vila.
“Dom Filipe por graça de Deus Rei de Portugal e dos
Algarves d’aquem e d’alem mar (…), os pescadores e arais da vila de Ovar me
enviarão dizer por sua petição que o açougue que avia na dita villa não bastava
mais que para os officiaes da câmara escudeiros e gente nobre d’ella. E por
esse respeito elles suplicantes por virem tarde aos sábados e domingos pela
manhã não achavam carne para tomar (…) e querião dar a isso remédio por serem
mais de dusentos pescadores (…)”.
O Rei aprova a petição dos pescadores e manda abrir um
segundo açougue na vila localizando-o na Ribeira. Os pescadores voltam a suplicar
à coroa, explicando que a classe piscatória residia na ruela, e seria mais
profícua a sua abertura no seu bairro, e obtêm resposta positiva: “Dizem os pescadores e arais da Vila (…) não podem ter na
Ribeira d’ella o dito asougue nem carniseiro porque não há carne que baste para
a villa nem para eles (…) pedem a vossa Magestade lhes faça mercê mandar por
postilha na dita carta para que possão ter o dito assougue e carniseiro no
lugar da Ruella termo da dita Villa cõ todas as clausulas declaradas na dita
carta (…)”.
A confirmação da alteração do lugar da construção do
açougue também a temos registada no livro do Dr. Frederico. O lugar da Ruela
era um aglomerado importante, incluído no termo da vila de Cabanões, e mais
tarde integrado na Vila de Ovar. Ali se
situa o característico largo da Poça, nome que lhe advém da confluência das
águas da chuva que ali ficam retidas.
Largo da Poça
Espraiemo-nos um pouco sobre o largo da Poça, eixo
central do bairro da Arruela, regressando ao livro do Dr. João Frederico
Teixeira de Pinho, que nos transporta até ao século XVII e nos passeia pelo
largo citado.
“É de forma
triangular, com base para o nascente, não calando,
resultando da bifurcação da rua dos Ferradores nas Ruas do Pinheiro e Bajunco,
cujas faces são formadas por casas térreas. Tem um cruzeiro à volta do qual
giram as procissões saídas de S. Pedro e S. Miguel, situados nos extremos
opostos da Ruela. À distância de 180
metros havia um outro, no meio da rua principal, que foi abatido na
noite de 12 de Junho de 1867, quando se começou de reconstruir à mac-adam.
Sendo arvorejado em 1863, já não tem, há mais de um ano, uma só árvore!...”.
O largo da Poça fica num ponto intermédio entre duas
elevações. Partindo de poente para nascente, deixamos o bairro de S. Pedro,
extremo poente do bairro da Ruela, e rumamos ao extremo nascente, ao encontro
do largo de S. Miguel, onde antigamente se realizava uma feira mensal no dia 29
de cada mês.
O nome do largo de S. Pedro passou a ser assim referido
pelo povo, passou de geração em geração por existir ali, antes da construção da
capela do Calvário, uma capela em honra de S. Pedro.
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| Largo da Poça, atualmente Largo Santa Camarão, com o monumento do artista ovarense Emerenciano, dedicado ao pugilista |
O espaço que medeia entre a Casa Provincial e o largo das
Tricanas, por ser uma zona plana, concentra, após uma chuva intensa, um grande
lençol de água, particularmente no largo da Poça, que daí retira a sua
denominação popular, já registada nos livros de atas camarárias desde o século
XVIII.
Integrado no coração da malha urbana da vila, o largo da
Poça é referenciado em
1865 no livro de atas n.º 29 da Câmara Municipal. Em resposta ao orçamento
apresentado pela Câmara de Ovar, o conselho de distrito, que validava os
orçamentos camarários, acordou, em sessão de 14 de julho de
1863, “deslembrasse
completamente outros melhoramentos de grande alcance ou de mais urgente
necessidade como o da poça, e rua velha da ruella o da rua dos maravalhas
continuação da rua do loureiro, largo e rua dos campos, travessa das ribas para
o casal, passagem da rua do pinheiro para Guilhovai e sobre tudo o
abastecimento d’águas que é a primeira necessidade da população da vila de Ovar
para que o conselho chama a especial atenção da câmara actual e das futuras (…)
Secretaria do governo civil d’Aveiro 16 de Julho de 1863”. (Acórdão n.º 33)
Rua da Arruela
Na sessão camarária de 28 de abril de 1864, a vereação
aprovou a construção da estrada que era a entrada na vila pelo lado nascente da
ruela: “ (…) Disse mais o presidente que sendo a rua da ruela a maior desta
vila (…) pela qual havia imenso transito vindo a ser a única por onde entravam
as pessoas que vinham da populosa freguesia de Válega, da freguesia de S.
Vicente e (…) freguesias limítrofes deste concelho pelo nascente. E achando-se
calçada pelo sistema antigo e muitíssimo arruinada devido decerto à muita
passagem que por ela se faz, tornando-se não só incómodo anda-la a pé, mas até
perigoso transita-la em carro ou a cavalo e havendo de mais alguns pontos em
que as águas estagnavam e apodreciam com grande prejuízo da saúde publica
propunha igualmente que fosse renovada construindo-a pelo novo sistema de
estrada (…)”.
Na sessão camarária de 25 de julho de 1867 a Câmara pôs
em arrematação a construção da estrada da Ruela.
“Auto de arrematação da estrada da ruella por 997.000
reis
(…) Assistindo também o Exmo. Director das obras públicas
Silvério Augusto Pereira da Silva, mandou a câmara por em arrematação a
construção do lanço da estrada da ruella em harmonia com a planta e condições
patentes neste acto (…)”.
“Na sessão camarária de 13 de Setembro de 1868 (…) auto
de arrematação do levantamento da calçada da poça (…) o arrematante dará todos
os materiais para os precisos aterros devendo a calçada ser feita regularmente
e conforme as condições estipuladas para as outras calçadas. A calçada será
levantada de forma que as águas venham correr pela estrada da ruella e a câmara
indicara as alterações que se devem fazer (…)”.
Conclusão
Como se depreende das sucessivas intervenções das
renovadas vereações ao longo dos sucessivos mandatos, não conseguiram eliminar
as dificuldades encontradas para suprimir o problema na sua raiz, finar o largo
da Poça.
As obras em curso neste anos de 2012, têm como finalidade
evitar as cheias que em cada ano vamos suportando, mas na topografia vareira o
largo da Poça perpetuar-se-á no tempo, mesmo que a solução encontrada resolva o
problema na sua raiz.
A regeneração urbana que está em curso no casco velho da
cidade poderia revitalizar os nomes toponímicos usados pelos nossos antepassados
e fixá-los junto ao nome atual, como é proposto pelo Dr. Lamy na monografia de
que é autor.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de julho de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/09/o-fim-do-largo-da-poca.html
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/09/o-fim-do-largo-da-poca.html











