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15.9.13

O fim do Largo da Poça?

Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2012)
TEXTO: Joaquim Fidalgo

A regeneração urbana no casco velho de Ovar está em andamento moderado e cadenciado. As obras de reabilitação trazem sempre o propósito de acrescentar qualidade de vida aos seus munícipes.
A Arruela, ou “ruela”, situa-se na zona nascente da cidade, e abarca um extenso espaço que perde as suas raízes nos emaranhados caminhos do tempo.
Façamos um pequeno introito, para situarmos a Arruela, com o seu bairro característico, no mapa da freguesia de Ovar desde meados do século XVII.

A entrada na vila de Ovar pelo lado nascente fazia-se pela Ruela, que conduzia os povos vizinhos, principalmente de Válega e S. Vicente de Pereira, ao mercado semanal, que se realizava no centro da vila, junto aos antigos Paços do Concelho.

Um açougue na Ruela

A população da Ruela dedicava-se principalmente à pesca, primeiro na ria e, mais tarde, no mar.
Na vila, próximo dos paços do concelho, existia um açougue que abastecia de carne a população. Só que, enquanto os vareiros mais abonados se abasteciam facilmente, os pescadores, que regressavam à vila no fim de semana, depois de uma companha na costa, que batiam desde São Jacinto até Espinho, já não encontravam o açougue aberto. Isto motivou-os a fazerem uma petição ao Rei D. Filipe II (1580 – 1640) para permitir a construção de um açougue na Ruela, com garantia de que o preço da carne fosse o mesmo praticado no açougue da vila.
No seu livro “Memórias e Datas para a História da Vila de Ovar”, escrito em 1868 e publicado em 1959 pela Câmara de Ovar, o Dr. João Frederico Teixeira de Pinho publica duas cartas relativas à concessão deste segundo açougue para a vila.
“Dom Filipe por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves d’aquem e d’alem mar (…), os pescadores e arais da vila de Ovar me enviarão dizer por sua petição que o açougue que avia na dita villa não bastava mais que para os officiaes da câmara escudeiros e gente nobre d’ella. E por esse respeito elles suplicantes por virem tarde aos sábados e domingos pela manhã não achavam carne para tomar (…) e querião dar a isso remédio por serem mais de dusentos pescadores (…)”.
O Rei aprova a petição dos pescadores e manda abrir um segundo açougue na vila localizando-o na Ribeira. Os pescadores voltam a suplicar à coroa, explicando que a classe piscatória residia na ruela, e seria mais profícua a sua abertura no seu bairro, e obtêm resposta positiva: “Dizem os pescadores e arais da Vila (…) não podem ter na Ribeira d’ella o dito asougue nem carniseiro porque não há carne que baste para a villa nem para eles (…) pedem a vossa Magestade lhes faça mercê mandar por postilha na dita carta para que possão ter o dito assougue e carniseiro no lugar da Ruella termo da dita Villa cõ todas as clausulas declaradas na dita carta (…)”.
A confirmação da alteração do lugar da construção do açougue também a temos registada no livro do Dr. Frederico. O lugar da Ruela era um aglomerado importante, incluído no termo da vila de Cabanões, e mais tarde integrado na Vila de Ovar. Ali  se situa o característico largo da Poça, nome que lhe advém da confluência das águas da chuva que ali ficam retidas.

Largo da Poça

Espraiemo-nos um pouco sobre o largo da Poça, eixo central do bairro da Arruela, regressando ao livro do Dr. João Frederico Teixeira de Pinho, que nos transporta até ao século XVII e nos passeia pelo largo citado.
“É de forma triangular, com base para o nascente, não calando, resultando da bifurcação da rua dos Ferradores nas Ruas do Pinheiro e Bajunco, cujas faces são formadas por casas térreas. Tem um cruzeiro à volta do qual giram as procissões saídas de S. Pedro e S. Miguel, situados nos extremos opostos da Ruela. À distância de 180 metros havia um outro, no meio da rua principal, que foi abatido na noite de 12 de Junho de 1867, quando se começou de reconstruir à mac-adam. Sendo arvorejado em 1863, já não tem, há mais de um ano, uma só árvore!...”.
O largo da Poça fica num ponto intermédio entre duas elevações. Partindo de poente para nascente, deixamos o bairro de S. Pedro, extremo poente do bairro da Ruela, e rumamos ao extremo nascente, ao encontro do largo de S. Miguel, onde antigamente se realizava uma feira mensal no dia 29 de cada mês.
O nome do largo de S. Pedro passou a ser assim referido pelo povo, passou de geração em geração por existir ali, antes da construção da capela do Calvário, uma capela em honra de S. Pedro.

Largo da Poça, atualmente Largo Santa Camarão, com o monumento
 do artista ovarense Emerenciano, dedicado ao pugilista
Deixamos o largo, onde viveu o Dr. João José da Silveira, médico do partido – o Dr. João Semana de Júlio Dinis –, e rumamos a S. Miguel, destino da nossa viagem. Subindo a Rua Coronel Galhardo, residência da família Fragateiro, ligada à política local, passamos à Casa Provincial do Instituto Jesus Maria José, entramos na Rua Visconde de Ovar, onde residiram familiares do Visconde, e deparamos com o largo da Poça, atual Largo Santa Camarão, nome grande do desporto nacional. Um pouco mais além encontramos o largo das Tricanas, bifurcação das Ruas Capitão Leitão, Ferreira Meneres (benemérito de Ovar) e Visconde de Ovar, tendo ao centro um chafariz datado da última década do século XX, que substituiu o anterior, uma peça artística de finais do século XIX, que para ali veio da entrada do Lamarão, e que acabou ingloriamente destruído.
O espaço que medeia entre a Casa Provincial e o largo das Tricanas, por ser uma zona plana, concentra, após uma chuva intensa, um grande lençol de água, particularmente no largo da Poça, que daí retira a sua denominação popular, já registada nos livros de atas camarárias desde o século XVIII.
Integrado no coração da malha urbana da vila, o largo da Poça é referenciado em 1865 no livro de atas n.º 29 da Câmara Municipal. Em resposta ao orçamento apresentado pela Câmara de Ovar, o conselho de distrito, que validava os orçamentos camarários, acordou, em sessão de 14 de julho de 1863, deslembrasse completamente outros melhoramentos de grande alcance ou de mais urgente necessidade como o da poça, e rua velha da ruella o da rua dos maravalhas continuação da rua do loureiro, largo e rua dos campos, travessa das ribas para o casal, passagem da rua do pinheiro para Guilhovai e sobre tudo o abastecimento d’águas que é a primeira necessidade da população da vila de Ovar para que o conselho chama a especial atenção da câmara actual e das futuras (…) Secretaria do governo civil d’Aveiro 16 de Julho de 1863”. (Acórdão n.º 33)

Rua da Arruela

Na sessão camarária de 28 de abril de 1864, a vereação aprovou a construção da estrada que era a entrada na vila pelo lado nascente da ruela: “ (…) Disse mais o presidente que sendo a rua da ruela a maior desta vila (…) pela qual havia imenso transito vindo a ser a única por onde entravam as pessoas que vinham da populosa freguesia de Válega, da freguesia de S. Vicente e (…) freguesias limítrofes deste concelho pelo nascente. E achando-se calçada pelo sistema antigo e muitíssimo arruinada devido decerto à muita passagem que por ela se faz, tornando-se não só incómodo anda-la a pé, mas até perigoso transita-la em carro ou a cavalo e havendo de mais alguns pontos em que as águas estagnavam e apodreciam com grande prejuízo da saúde publica propunha igualmente que fosse renovada construindo-a pelo novo sistema de estrada (…)”.
Na sessão camarária de 25 de julho de 1867 a Câmara pôs em arrematação a construção da estrada da Ruela.
“Auto de arrematação da estrada da ruella por 997.000 reis
(…) Assistindo também o Exmo. Director das obras públicas Silvério Augusto Pereira da Silva, mandou a câmara por em arrematação a construção do lanço da estrada da ruella em harmonia com a planta e condições patentes neste acto (…)”.
“Na sessão camarária de 13 de Setembro de 1868 (…) auto de arrematação do levantamento da calçada da poça (…) o arrematante dará todos os materiais para os precisos aterros devendo a calçada ser feita regularmente e conforme as condições estipuladas para as outras calçadas. A calçada será levantada de forma que as águas venham correr pela estrada da ruella e a câmara indicara as alterações que se devem fazer (…)”.

Conclusão

Como se depreende das sucessivas intervenções das renovadas vereações ao longo dos sucessivos mandatos, não conseguiram eliminar as dificuldades encontradas para suprimir o problema na sua raiz, finar o largo da Poça.
As obras em curso neste anos de 2012, têm como finalidade evitar as cheias que em cada ano vamos suportando, mas na topografia vareira o largo da Poça perpetuar-se-á no tempo, mesmo que a solução encontrada resolva o problema na sua raiz.
A regeneração urbana que está em curso no casco velho da cidade poderia revitalizar os nomes toponímicos usados pelos nossos antepassados e fixá-los junto ao nome atual, como é proposto pelo Dr. Lamy na monografia de que é autor.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de julho de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/09/o-fim-do-largo-da-poca.html

16.9.12

RUA DE OVAR, em Lisboa

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/2007)
TEXTO: António Pinho Nunes

Numa tarde quente deste Verão, refugiei-me no ar condicionado da Livraria Municipal de Lisboa e fui vendo o que por lá havia. Eis senão quando dou com um livro intitulado “Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa”, 2.º vol., 1974-1989. Pensei: “Pode ser que haja aí alguma coisa que fale de Ovar: varinas, fragateiros ou alguma ilustre figura vareira”… E não é que, poucas páginas passadas, me aparece a Rua de Ovar?!
Varina (mulher de Ovar)
 vendendo peixe em Lisboa
Li o texto, que transcrevo no essencial:
“Acta n.º 1/2: Aos 18 dias de Fevereiro de 1982, reuniu a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia…, tendo emitido os seguintes pareceres:
Carta de José Maria Fernandes da Graça, propondo que a uma rua de Lisboa seja dado o topónimo Rua de Ovar, em homenagem às varinas e fragateiros que, desde tempos remotos, demandaram a capital, tornando-se suas figuras típicas. Parecer: a Comissão resolveu solicitar ao vogal Dr. Fernando Castelo Branco um estudo prévio sobre o fundamento das razões invocadas, pelo que, oportunamente, emitirá um parecer definitivo”.
É de notar que não demorou muito tempo a decisão. Assim, na Acta n.º 2/1982, lê-se:
Aos 22 dias de Julho de 1982, reuniu a Comissão… Emitiu, por unanimidade, os seguintes pareceres: Carta de José Maria Fernandes da Graça, propondo que a uma rua de Lisboa seja atribuído o topónimo Rua de Ovar, em homenagem às varinas e fragateiros que, desde tempos imemoriais, demandaram Lisboa, tornando-se suas figuras típicas. Parecer: A Comissão emite parecer favorável, propondo que a Rua J2 da Zona J de Chelas passe a denominar-se conjuntamente com os impasses 12/J e 11/J2, RUA DE OVAR”.
Foi assim que, na zona de Chelas, freguesia de Marvila, em Lisboa, foi atribuído o nome de Ovar a uma rua situada muito perto das Avenidas Paulo VI e Eduardo Mondlane.
É de realçar o facto de esta iniciativa ter sido tomada, a título meramente pessoal, por quem muito tem feito pela divulgação do nome de Ovar e do seu património histórico e cultural.

Nota: Na toponímia de Lisboa há, pelo menos, seis nomes referentes a Ovar: Rua Dr. Oliveira Ramos, Rua Padre Miguel de Oliveira, Rua Maria Albertina, Rua Alexandre de Sá Pinto, Rua José Santa Camarão e Rua de Ovar.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE NOVEMBRO DE 2007)

17.4.12

O chafariz do Largo Família Soares Pinto

Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2011)
TEXTO: Joaquim Fidalgo

No largo do chafariz Neptuno ficava a casa da família Teixeira de Pinho

O chafariz que ornamenta o centro da cidade de Ovar completou, há pouco tempo, 134 anos, já que foi inaugurado no dia 8 de julho de 1877, presidia à Câmara Municipal o Dr. Manuel Arala e Costa, do partido regenerador. (Bonita idade para quem deu de beber aos ovarenses por mais de um século!)
Antes da descoberta da mina no Sobral – a “Mãe d’Água” –, o povo vareiro recorria a algumas fontes existentes na vila, ou aos poços que abriam nas suas propriedades.

A "Mãe d'Água"
Mãe d'Água (Sobral, Ovar)
A descoberta da Mãe d’Água, com água suficiente para abastecer a vila, alterou o paradigma da vida diária dos ovarenses, mas não se pense que tudo foi pacífico. De facto, o projecto de encanamento e de localização do chafariz, que hoje é um lugar de referência no centro histórico da cidade e que ao longo de um século e meio tem sido um ex-libris de Ovar e um lugar de encontro de gerações que se reúnem para cavaquear, foi palco de guerras políticas entre os partidos regenerador e progressista, que se batiam por projectos políticos antagónicos.
No alto do seu pedestal, Neptuno, o deus dos mares, continua imponente, a olhar o formigueiro humano que num vai e vem constante, ao longo de mais de um século, contribuiu para o crescimento da malha urbana.
O engenheiro António Ferreira de Araújo e Silva, natural de Oliveira de Azeméis, autor do projeto de encanamento e chafarizes, introduziu-lhe uma inovação: em caso de incêndio, toda a água podia ser canalizada para o chafariz mais próximo.
O livro de atas n.º 30 da Câmara Municipal de Ovar regista esse dia histórico da inauguração do chafariz principal. A folha 82, frente, está em branco, provavelmente à espera de recolher todos os factos ocorridos nesse dia histórico para a vila. O verso contém as assinaturas de 28 individualidades que marcaram presença nesse importante evento, e que, de uma forma ou outra, estiveram ligadas a esta obra de grande impacto local. São elas:
Manuel d’Oliveira Arala e Costa (Presidente), Silvério Augusto Pereira da Silva, António Ferreira de Araújo e Silva (Eng.), Manuel José Pereira Valente (?), João Honorato da Fonseca Regala (Eng.), Francisco d’Assis, Manuel Marques Pires (Abade de Válega), Manuel Duarte Camossa (Abade de Ovar), Agostinho O. Pinheiro……, José Ferreira d’Araújo (vereador), Francisco Pereira da Cunha e Costa (Administrador do concelho), Joaquim Pereira de Magalhães (da Polícia Correcional), Augusto César d’Almeida Pinto de Sousa (Vogal do Tribunal), António Maria d’Oliveira Dias (representante da Contribuição Predial), Domingos Manuel Oliveira Arala, Francisco Joaquim Barbosa de Quadros (vereador), Manuel Augusto da Silva (vereador), Joaquim Maria Pereira Baldaia (vereador), José da Silva Figueiredo (vereador), Manuel Fernandes Leite (vereador), Manuel Bernardo de Carvalho e José de Sousa Azevedo (vogais do Conselho Municipal), Fortunato Ferreira Vidal, Manuel Costeira Dias, Antero Garcia d’Oliveira Cardoso Baldaia (licenciado em Direito), José de Oliveira Vinagre (Tesoureiro do Concelho), José Baptista d’Almeida Pereira Zagalo (Juiz), António José da Silveira (Regedor).
O presidente informou a Câmara da descoberta de uma mina de água com um manancial suficiente para abastecer a vila, então com 10 374 almas (sessão camarária de 2 de maio de 1876), sendo das freguesias mais populosas do distrito de Aveiro.

Um processo difícil...
De 27 de junho de 1874 a 8 de julho de 1877 um longo caminho foi percorrido. Com normalidade, mas arrastando um processo político e judicial.
Para a câmara concretizar este projeto foram feitos dois empréstimos (no valor de 8 mil reis) a dois negociantes: José d’Oliveira Vinagre, do Picoto, e Manuel d’Oliveira Barbosa, das Ribas, e para a construção do chafariz naquele local, considerado ideal para o efeito, foi necessário expropriar uma casa da família Teixeira de Pinho, que formava uma ilha no centro da vila, e cujos proprietários, ligados à medicina e à boticária, eram D. Rita Rosa Teixeira de Pinho, viúva, sua filha D. Maria Lúcia Fonseca, e seu genro Manuel Álvares Martins Fonseca.


Chafariz Neptuno - Ovar
Na sessão camarária de 2 de maio de 1876, em resposta a um ofício do governo civil ao administrador do concelho, a Câmara, em longa missiva, justifica a necessidade do encanamento das águas para o centro da vila baseada nas políticas contemporâneas de salubridade, e informa também que as obras estão a correr com normalidade.
Eis alguns extratos desse importante documento:
(…) Mandou a câmara proceder à construção da artéria principal do encanamento bem como a exploração de águas (…) todas estas obras estão concluídas desde a origem ate a praça, principal centro da vila trata-se actualmente dos chafarizes e suas pequenas ramificações. Dois estão prontos de cantaria aparelhada e vão ser assentes e outros dois estão em via d’execução (…) estão em projecto outros dois chafarizes (…). Todo o projecto do abastecimento está subordinado a um plano único. De entre os chafarizes há um que pela sua posição central aproximação das repartições públicas e funções que tem a exercer merece menção especial. Com efeito este chafariz tem de ser não só o centro da distribuição d’ águas para os incêndios (...) Está esta obra projectada de modo que no momento dado toda a água do abastecimento converge ao chafariz mais próximo do sinistro. (…) E perante uma planta geral de todas as ruas e largos (…) foi escolhido o ponto onde actualmente está uma casa pertencente a D. Rita (…) esta escolha foi feita pelo respectivo engenheiro distrital e aprovada pela câmara (…) o desaparecimento desta casa dá origem a um magnífico largo para colocação do chafariz principal. Fica assim optimamente situado tendo nada menos que cinco ruas convergentes (…).
 A câmara teve que depositar 2 800$000 para usufruir do imóvel. Assim, a 8 de setembro do mesmo ano, foram postos em hasta pública todos os materiais da casa expropriada, “no cruzeiro da Graça desta vila”, tendo auto de arrematação em cinco de outubro de 1876): “(…) e havendo vários lanços foi o ultimo e maior o de José Marques dos Santos, viúvo, esteireiro da rua direita das ribas que ofereceu pelos ditos materiais a quantia de duzentos mil reis (…).”
Os anos de 1876 e 1877 foram de convergência de esforços financeiros, focados na conclusão das obras e sua inauguração, que terá sido feita com pompa e circunstância, como nos conta o Dr. Alberto Lamy na Monografia de Ovar: “(…) E a 8 de julho de 1877é festivamente inaugurado o formoso fontanário em pedra da Ançã (…).
A política em pequena escala seguida nos Paços do Concelho de Ovar não variava muito das políticas que as câmaras com maior poder económico executavam. Enquanto, na cidade do Porto, a câmara expropriava um conjunto de habitações para construir a nova rua d’Alfândega, em Ovar a câmara expropriava a casa onde veio a levantar-se o chafariz, e protagonizava um conjunto de investimentos em melhoramentos materiais em espaços urbanos que deram identidade à vila.
Chafariz Neptuno, Ovar
FOTO: Fernando Pinto
No 3.º volume da Monografia (1865-1916), o Dr. Alberto Lamy baliza assim o espaço temporal durante o qual aquele chafariz presenteou o povo com o abastecimento de água aos seus conterrâneos:
Ovar, de 8 de julho de 1877 a 24 de junho de 1966 – isto é quase durante um século! – foi abastecida pelos chafarizes aralistas. Nesta última data (1966), foi inaugurado o novo abastecimento de água a Ovar, que se deve à câmara presidida pelo Dr. José Eduardo de Sousa Lamy.”  

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE SETEMBRO DE 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/04/o-chafariz-do-largo-familia-soares.html

15.7.08

Como nasceu a Avenida da Igreja

 António Dias Fernandes
Jornal JOÃO SEMANA (15/04/1984)
TEXTO: António Dias Fernandes

Para quem ainda se recorde, a Av. da Igreja era uma quinta fechada, desde a casa antiga do Marmorista até às escadas (lado Norte) da Igreja.
Havia, então, um caminho estreito e fraco, ao comprido com o Cemitério, por onde mal passava um carro de bois. A proprietária era a Dona Maria Folhas (a Micas Folhas), que mais tarde a passou ao Sr. João Nunes, da Rua Dr. José Falcão, que a dividiu em talhões.
O 1.º talhão, do lado Norte, foi comprado pelo Sr. Santos, do Furadouro; o do centro por Albano Pinho Branco, da Rua Alexandre Herculano; o do centro-Norte por Augusto Resende, da Rua Elias Garcia.
Em 1949, o Pároco da Freguesia, Padre Crispim Gomes Leite, comprou todos os talhões a estes proprietários, e, após diálogo com o Presidente da Câmara, António Coentro de Pinho, comprometeu-se a rasgar uma rua ao longo da Quinta, ficando a Paróquia com o tal caminho junto ao Cemitério.
Foi assim que nasceu a Avenida da Igreja.


Avenida da Igreja, vendo-se, à esquerda, a casa de Elvira Ferreira – hoje da Paróquia – e a casa do Joaquim Marmorista; e à direita, a escadaria norte da Igreja, a Residência Paroquial e parte das casas de António Dias Fernandes e Henrique Russo (já falecido). Ao fundo, o cano da antiga caldeira (já demolida) da Sociedade Mercantil


Logo a seguir, a Igreja começa a ceder talhões. O 1.º (o do Centro) foi vendido a António Dias Fernandes; o 2.º a Henrique Russo. O 3.º a poente, e mais a norte, a Joaquim Marmorista. Assim nasceram as primeiras casas, após a Residência Paroquial e a casa em frente, de Elvira Gomes Ferreira, já falecida.
Outros dois lotes foram vendidos, bem como uma faixa de terreno, esta para dar frente (com a Avenida) ao prédio que Eugénio Vinagre vendeu à família Bonifácio mas que chegou a estar prometido à Igreja –, onde a Paróquia gostaria de construir na actualidade o seu Centro Paroquial, desejo de todos os vareiros, que viria a tornar realidade o sonho do falecido e dinâmico Padre Crispim.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE ABRIL DE 1984)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/07/como-nasceu-avenida-da-igreja-texto.html

3.7.08

A festa da árvore e a antiga Escola da Olaria

Jornal JOÃO SEMANA (01/04/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Quem passar pelo Largo da Olaria encontra uma palmeira já velhinha, com a idade bem vincada no tronco, tal como ficam vincadas as rugas no rosto das pessoas à medida que vão envelhecendo. A seu lado, uns bancos de jardim convidam ao descanso os moradores daquele largo e todos os que por ali passam, os quais, sentando-se neles, podem, nos dias mais quentes e soalheiros, usufruir da sombra da velha árvore.


Em 20 de Março de 1992 foi ali colocada uma placa em azulejo, com a seguinte inscrição: “Palmeira plantada pelas alunas da antiga Escola da Olaria no dia da festa da árvore, celebrada pelas Escolas Primárias de Ovar em 9 de Março de 1913.”
Quanto a mim, foi uma óptima ideia a colocação daquele registo, porque dá a conhecer às gerações futuras que existiu naquele local uma escola onde as alunas aprendiam a Instrução Primária e onde, na data assinalada, em clima de festa, plantaram uma árvore, aprendendo, da forma mais pedagógica, como se deve proteger a Natureza.



(O local onde existia a Escola é hoje ocupado
 pelo prédio que se vê por trás da palmeira)
Este facto vem assim narrado pelo Dr. Alberto Lamy no volume 2 da sua Monografia de Ovar:
“Realizou-se pela primeira vez em Ovar, por iniciativa dos professores, a festa da plantação da árvore, com o concurso dos alunos de todas as escolas, da Filarmónica Ovarense, da Comissão Municipal e de muito povo. Fizeram-se plantações em frente ou próximo das escolas oficiais.”Esta descrição vem ao encontro do que me disse, há alguns anos, uma veneranda senhora que frequentou a antiga Escola Padre Ferrer, na Rua que tem o seu nome. Recordava-se ela muito bem de que, numa festa semelhante, realizada no largo onde se encontrava esse estabelecimento, foi também plantada uma árvore, tendo as crianças da escola cantado uma cantiga que ainda trazia na memória e repetiu, cantarolando: “Ó escolas, semeai!”… Ó escolas semeai!...
A palmeira existente no Largo da Olaria é das poucas desse tempo – a única? – que chegaram aos nossos dias, porque as muitas outras árvores que foram plantadas nessa época secaram ou foram destruídas.


Naquele largo existiam também, nos meus tempos de criança, algumas amoreiras, de cujas folhas me abastecia para alimentar os bichos-da-seda. Teriam sido igualmente plantadas pelas alunas da velha escola em anos diferentes?...
Hoje ouve-se muito falar no Dia do Pai, da Mãe, dos Namorados, etc., datas muitas vezes inventadas para fins comerciais.
Contudo, não ouço anunciar, com a mesma ênfase, um dia dedicado à árvore que, como dizia o poeta, nos dá os frutos que nos alimentam, a sombra que nos protege do calor, o oxigénio que respiramos, e, depois de abatida, ainda nos fornece a lenha com que acendemos o lume, e a madeira para construir a casa e o caixão.
Quando toda a gente se preocupa com os fogos e outras calamidades destruidoras da natureza, seria bom ver as associações ligadas à Terra e ao Ambiente empenharem-se para anualmente podermos comemorar um dia dedicado à festa da árvore, como aquele que as escolas de celebraram em Março de 1913.
Não consegui saber exactamente o ano da inauguração da velha Escola da Olaria. Mas sabe-se que já existia na primeira década do séc. XX, e que, antes de funcionar como Escola de Instrução Primária (só para meninas) era conhecida pela Casa das Mestras Régias.
Constituída por duas salas, separadas entre si com um tapume de madeira e uma porta ao meio, em forma de arco, que servia de passagem, foi o principal estabelecimento de ensino do sexo feminino em Ovar até 1948, data em que encerrou, após a inauguração da Escola da Oliveirinha, que passou a substitui-la.
(Na foto - De pé, da esquerda para a direita: Maria do Céu, Sãozinha, Rosa, Olívia, Idalina e Eurídice.Sentadas, da esquerda para a direita: Lurdes, Maria, a Prof. D. Palmira Freire de Liz, Angelina e Antonieta).Quem frequentou esta escola recorda, ainda hoje, os métodos rigorosos de disciplina nela utilizados – como aliás acontecia em todas as outras escolas da época –, mas fala com saudade do respeito que havia entre alunas e professoras, e da educação e do saber por elas transmitido num sistema muito diferente do actual, sistema esse que hoje poderemos considerar polémico, mas que dava aos alunos e alunas conhecimentos de cultura e de educação em nada inferiores àqueles que são ministrados actualmente.
Nos anos 30, o corpo docente era composto por duas professoras: D. Palmira Freire de Liz e Margarida Pinho, cada uma delas incumbida de leccionar duas classes.
As alunas usavam batas brancas, como era habitual naquela época, e tinham aulas de manhã e à tarde.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de abril de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/07/festa-da-rvore-e-antiga-escola-da.html