Mostrar mensagens com a etiqueta JÚLIO DINIS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta JÚLIO DINIS. Mostrar todas as mensagens

30.1.14

Júlio Dinis e Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

As principais obras de Júlio Dinis, exceptuando “Uma Família Inglesa”, que é um romance urbano cuja acção se desenrola na cidade do Porto, têm os seus enredos na província.
Joaquim Guilherme Gomes Coelho – era este o seu verdadeiro nome – esteve em Ovar, entre os anos 1863 e 1866 em casa de sua tia Rosa Zagalo, para convalescer de uma tísica, a doença que, na época, mais vidas dizimava, especialmente entre a população jovem.
O Dr. Egas Moniz e outros biógrafos deste magnífico escritor dizem serem oriundas de Ovar muitas das personagens e dos ambientes narrados por Júlio Dinis nos seus romances, especialmente nas “Pupilas do Senhor Reitor”.
Este texto vem a propósito de algumas conversas que, há anos atrás, mantive com uma tia-avó, nascida em 1879, e que sempre manifestou muita vontade de conversar e de recordar factos da sua infância.
Dizia-me ela ter ouvido sua mãe contar muitas histórias de quando era mais nova, sendo uma delas relacionada com a ida à nossa Igreja ouvir um missionário cujos sermões chegavam, por vezes, a assustar os fiéis.
Afirmava ele, numa das suas práticas, ser a vaidade a maior ofensa a Deus e a responsável pela queda de muitas almas no Inferno. Para remir tal pecado, uma forma de expiação sugerida por esse sacerdote consistia no corte do cabelo das raparigas jovens, e não só, especialmente daquelas cujo penteado era composto de lindas tranças ou outros enfeites.
Essas pregações, que se desenrolavam, geralmente, ao longo de uma semana – a Santa Missão –, eram anunciadas de véspera, ao toque de uma campainha, enquanto o seu portador ia cantarolando:

“Vinde pais e vinde mães,
Vinde todos à missão,
Vinde ver os vossos filhos,
À mesa da comunhão.”

Ao reler, agora, a “Morgadinha dos Canaviais”, e ao entrar no episódio do missionário que manda cortar as tranças às raparigas para fazerem penitência, levando Ermelinda, filha do Cancela, a tomar essa atitude perante o desespero do pai, logo me lembrei das conversas tidas com minha tia-avó, interrogando-me se a personagem do missionário não será também fruto do que Júlio Dinis viu ou ouviu durante a sua estadia em Ovar, embora ele dê sempre a ideia de que tudo isso tenha acontecido no Minho.
Deixo essas considerações ao cuidado dos estudiosos do laureado escritor, falecido precocemente em 1871, com apenas 32 anos de idade.
 
Páginas de rosto do livro “Missão Abreviada” (1861)
pertencente a Maria de Oliveira Zagallo, do Largo dos Campos,
irmã de Rosa Zagallo Gomes Coelho (casada com António Gomes Coelho,
tio paterno de Júlio Dinis). O livro está assinado em 1863, ano em que o escritor
pela primeira vez para casa destas suas tias.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/01/julio-dinis-e-ovar.html

17.9.12

Júlio Dinis: Carácter do Homem e do Escritor

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2007)
TEXTO: António Ferreira Valente
Júlio Dinis
A Igreja de S. Francisco, no Porto, foi o local de culto de predilecção de Júlio Dinis durante a sua breve existência. Em frente a esta Igreja viveram os pais do escritor, na antiga Rua do Reguinho, a actual Rua de S. Francisco, na freguesia da Vitória. Nasceu e viveu, aqui,onde passou também a conviver com a morte, que atingiu a sua família e a ele próprio, aos 31 anos de idade.
Contrariamente à opinião de alguns críticos, que consideraram Júlio Dinis avesso à crença em Deus, a sua vida foi atravessada por valores e causas que reflectiam o contrário. Homem de alta moral, sempre foi, isso sim, crítico em relação a alguns que professavam a fé mas que, para ele, contrariavam o pensamento e o belo exemplo de vida de Cristo.
Isso mesmo se reflectiu nos seus registos, nas cartas trocadas com familiares e amigos íntimos, ou nos belos painéis pintados nos seus romances, em que é forte essa componente de homem de fé, mas resistente à hipocrisia da sociedade, seja ela religiosa ou pública. Em quantos momentos de angústia, de tristeza pela perda de mais um elemento da família ou de amigos, Júlio Dinis, no interior da Igreja de S. Francisco, encontrava a paz interior.
Por motivos da demolição de uma vasta zona ribeirinha (…), teve que se transferir, com seu pai, o vareiro Dr. Joaquim Gomes Coelho, para uma casa modesta da Rua de S. João Novo.
O seu irmão, Dr. Guilherme, falecido em 1855, viveu na zona de Monchique, onde deixou viúva sua esposa, com três filhos: Guilherme, Alberto e Ana, ou Anita, como Júlio Dinis a tratava.
Vem para Ovar, em Maio de 1863, por motivo do agravamento da sua saúde, precisamente numa altura em que tudo apontava para a possibilidade da sua entrada como Demonstrador na Escola Médico-Cirúrgica, no concurso aberto em Abril desse ano.
Igreja Matriz de Ovar, que Júlio Dinis frequentou, e em cujo adro observava
as brincadeiras da sobrinha Anita
Na casa da Tia Rosa Zagalo, no Largo dos Campos, onde estava hospedado, recebeu, por volta de Julho desse ano, a sobrinha Anita, a quem acompanhou pelas ruas centrais de Ovar, dando-lhe a conhecer alguns locais com interesse. No átrio da Igreja Matriz, enquanto aguardava pela hora da Missa, Júlio Dinis, à sombra de um plátano, observava as brincadeiras da sobrinha que, com as suas pequenas mãozitas, abria uma cova, e assim se entretinha.
Quarto que Júlio ocupou durante a sua
permanência em Ovar
Já no interior da igreja, Júlio Dinis colocava-se junto à nave direita, num gesto que se repetiria enquanto permaneceu em Ovar, como se o fizesse transportar até à igreja de S. Francisco, no Porto.
Momentos deliciosos e de encanto viveu-os Júlio Dinis quando, após o regresso da Anita a Monchique, se deslocava à Igreja e, estando debaixo daquele plátano, vindo-lhe à recordação a sua sobrinha, agora ausente, tomava a atitude, um tanto discreta (talvez porque não seria entendida por quem o visse), de renovar a covita que ela tinha feito.
Esta cena de extrema ternura – sua mãe falecera de tuberculose quando ele tinha 5 anos de idade –, os afectos maternais que encontrou da parte de sua tia D. Rosa Zagalo e os seus encontros com a ruralidade das personagens com quem conviveu intensamente, fizeram com que em alguns momentos se esquecesse da doença, razão que o tinha trazido a Ovar.
Recordar estes episódios é a melhor homenagem que podemos prestar a Júlio Dinis na passagem do 168.º aniversário do seu nascimento, ocorrido em 14 de Novembro de 1839 na rua do Reguinho, freguesia da Vitória, da cidade do Porto.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE NOVEMBRO DE 2007) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/09/julio-dinis-caracter-do-homem-e-do.html 

ADENDA -----------------------------------------

«Quando Júlio Dinis esteve em Ovar, em 1863, tinha a Anita 13 anos. Pouco tempo antes ela ali o visitara. À partida de seu tio do Porto, não se cansou de lhe pedir que escrevesse e desse notícias da terra, recordando-lhe as suas brincadeiras debaixo dos álamos que, ao tempo, ensombravam o largo da Igreja». (Egas Moniz, revista Aveiro e o seu Distrito, n.º 15, Junho 1973)

Aconselhamos a leitura dos artigos publicados no sítio da revista Aveiro e o seu Distrito. (Clique nos links que se seguem).

Antologia Aveirense – Júlio Dinis, por Waldemar Gomes de Lima
http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/Boletim15/page039.htm

Júlio Dinis – O médico das almas simples, pelo Dr. António Tavares Simões Capão
http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/Boletim11/Page07.htm

15.7.11

Manuel Cascais de Pinho – Na peugada de Júlio Dinis

Jornal JOÃO SEMANA (01/10/2010)
TEXTO: Fernando Pinto

Manuel Rodrigues de Pinho nasceu em Ovar, em 1 de Outubro de 1918 – faria hoje 92 anos! – na Travessa da Rua Castilho, n.º 28, actual Rua Silva Porto. Era filho de Manuel Rodrigues de Pinho e de Rosa da Conceição Pinto Cascais, também naturais de Ovar. Casou em 1950 com Maria dos Prazeres, na cidade da Beira (Moçambique). Em 1973, já em terras vareiras, acrescentou ao seu nome o apelido materno Cascais.
Manuel Cascais Rodrigues de Pinho partiu deste mundo aos 87 anos, no dia 4 de Março de 2006. Foi um dos ovarenses que lutou pela conservação e restauro da Casa onde viveu Júlio Dinis. Agraciado com a Medalha de Mérito Municipal (Bronze), tem hoje uma rua com o seu nome, entre a Rua Luís de Camões e as traseiras da Casa de S. Thomé.

Manuel Cascais de Pinho, no Largo 5 de Outubro,
tendo em fundo o busto e a Casa-Museu Júlio Dinis
Tive o prazer de conviver com este meu conterrâneo, que dedicou grande parte da sua vida ao estudo da obra de Júlio Dinis, durante um passeio promovido pelo artista vareiro Marcos Muge, autor do recente restauro do retábulo-mor da Capela de S. Miguel.
Na tarde do dia 17 de Julho de 1999, o Sr. Cascais de Pinho, acedendo ao meu pedido, acompanhou-nos, de carro, a percorrer os locais por onde passou o escritor Júlio Dinis. Quatro anos antes, em 11 de Maio de 1995, por ocasião dos 122 anos da chegada do escritor portuense a Ovar, este ilustre vareiro organizara uma visita semelhante, denominada “Júlio Dinis passou por aqui”, um percurso pedestre que, infelizmente, não teve pernas para andar.

Cascais de Pinho (à direita), Fernando Pinto
(ao meio) e Marcos Muge, junto à ponte do Casal
Começámos por “acampar” debaixo dos salgueiros que ainda hoje embelezam as margens do rio Cáster, junto à ponte do Casal, local onde o autor de “As Pupilas do Senhor Reitor” costumava ficar sentado no banco de granito em forma de “meia-laranja”, a contemplar aquele belo cenário campesino. Sentado num pequeno banco que levámos para que pudesse repousar e estar mais confortável durante a entrevista que combináramos, o Sr. Cascais começou por recordar que o romancista passava ali várias horas a observar os camponeses:
– “No mês de Maio e Junho os trabalhos do campo estão no auge: há a sacha, a recolha do feijão, que é feita muito antes do milho, pois ele diz que já em Maio vai para a eira debulhar o feijão. Ele chega aqui no dia 7 de Maio de 1863 e escreve logo à sobrinha. Diz que está farto de comer pó, que é uma comida nada agradável... Mas, depois de conhecer a vila, chegou a afirmar que os quatro meses que passou em Ovar foi o tempo mais feliz da sua vida.
E o Sr. Cascais continuou a deliciar-nos com os esboços que fazia da figura veneranda do médico-escritor, desta feita junto à Fonte do Casal, hoje com o nome do romancista. Dali fomos desaguar ao Largo dos Campos, junto ao busto que lhe erigiram.
Apesar de termos insistido com ele para que nos acompanhasse numa visita guiada à Casa-Museu Júlio Dinis, para apreciarmos o seu recheio, não o quis fazer. Disse-nos que não queria ter nenhuma surpresa desagradável ao entrar naquele espaço que ajudou a abrir, mas que nos aguardava cá fora, para que pudéssemos prosseguir com o nosso passeio. À saída, pediu-nos emprestado o olhar, para que também ele pudesse apreciar um pouco daquilo que tínhamos presenciado.
– “Pelos vistos, está tudo na mesma”, atirou, quando nos deslocávamos para o carro.

Num texto escrito pelo seu punho, em 18 de Maio de 1950, no “Notícias de Ovar”, assume que é um fervoroso admirador da obra de Júlio Dinis, lembrando que “se não fossem, mesmo, alguns escritos do nosso saudoso Dias Simões (Pai), publicados (...) no semanário “A Pátria”, e, mais tarde, o Dr. Egas Moniz (...), não se saberia já que algumas das personagens da obra de Júlio Dinis foram nossas (...)”.
Deixámos o Jardim das Rosas, no Largo 5 de Outubro, e rumámos até ao Cais da Ribeira, lugar onde permanecemos quase até ao cair da tarde. Falámos um pouco de si, de África, da colaboração que tinha dado ao Museu de Ovar e aos jornais da terra, do seu gosto pelo coleccionismo, das relíquias que tinha reunido ao longo da vida, particularmente ligadas ao escritor (livros, fotografias, manuscritos, medalhas, objectos de uso pessoal, artigos de imprensa), espólio esse que doara, três anos antes, em 2 de Setembro de 1996, à Câmara Municipal de Ovar, para pertencerem ao acervo da Casa-Museu Júlio Dinis.
Antes de o deixarmos em casa, na Rua Manuel Arala, entregou-me alguns apontamentos que fotocopiara, referentes à obra de Júlio Dinis, que ele entendia serem-me úteis para a realização de um pequeno filme sobre o escritor portuense que eu tinha entre mãos.
Naquele dia, pude constatar que o Sr. Cascais de Pinho era uma voz inconformada, que não se calava sempre que o nome de Ovar era mordiscado. Mais do que um “detective literário”, como o apelidaram, era um grande bairrista, um homem apaixonado pelas coisas do seu torrão natal, como se comprova pela sua acção interventiva no Grupo de Reflexão Pró-Ovar, de onde nasceram diversas iniciativas com vista à defesa do património local.

Dois artigos

Cascais de Pinho e sua prima Deolinda Cascais, na Biblioteca
M. de Ovar (2002), durante o lançamento do n.º 2 da "Dunas"
Para que o leitor possa conhecer melhor o percurso deste homem, cujo esforço intelectual demorou a ser reconhecido, aconselho a leitura de dois artigos. O primeiro, “À procura da sombra de Júlio Dinis”, de Manuel Catalão, publicado no n.º 32 da revista “Reis” (1998), recorda que esta figura notável “ainda menino de berço, atravessou as vagas assustadoramente sibilantes do Atlântico, a caminho da aventura africana (...), e que “cresceu correndo pelas lamacentas ruelas de uma povoação temperada pelas tépidas e calmas águas do Índico”, acrescentando que aos 9 anos voltou a Ovar, mas ao entrar na maioridade retornou a Moçambique, onde trabalhou na Companhia Petrolífera Shell até 1971, ano do seu regresso definitivo à terra de origem.
Já Maria Deolinda Cascais Lopes Palavra, no seu artigo “Cascais de Pinho: Curiosidades, Autógrafos e Raridades para a História e Literatura Vareiras”, publicado no n.º 9 da revista “Dunas” (2009), para além de nos oferecer um valioso testemunho sobre o seu primo e padrinho, lança, no final do seu texto, este desafio de que nos fazemos eco: – Para quando a edição das cartas conhecidas que Júlio Dinis escreveu de Ovar?
Pode ser que a reabertura da Casa-Museu Júlio Dinis, que se espera para breve, nos possa trazer esta e outras agradáveis surpresas.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (01/10/2010)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2011/07/manuel-cascais-de-pinho-na-peugada-de.html

20.11.10

Ovar na evolução literária de Júlio Dinis

Júlio Dinis
Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2008)
TEXTO: António Ferreira Valente

O Dr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que usou o pseudónimo de Júlio Dinis, faleceu à primeira hora do dia 12 de Setembro de 1871, depois de uma longa agonia de três quartos de hora, em casa de seu primo José Joaquim Pinto Coelho, na Rua Costa Cabral, n.º 323, no Porto, onde, nos últimos momentos, teve a presença do seu amigo Custódio Passos (irmão do poeta portuense ultra-romântico Soares de Passos).
Foi sepultado no cemitério que então havia junto da Igreja de Cedofeita.
Com a extinção deste cemitério, em 20 de Agosto de 1888 foram transladados os restos mortais do escritor, assim como os de seu irmão José Joaquim Gomes Coelho Júnior, para o jazigo n.º 58 do cemitério privativo da Ordem de São Francisco em Agramonte, onde já estava sepultado seu pai José Joaquim Gomes Coelho, irmão daquela Ordem, da qual também fora médico. (O pai faleceu em Lisboa, em casa de sua neta Ana, no dia 21 de Julho de 1885).
Em 1939, o 1.º centenário do nascimento do escritor Júlio Dinis foi comemorado com forte adesão popular e de várias instituições portuenses, com iniciativas próprias, culminando com a romagem que partiu do Palácio de Cristal para o cemitério de Agramonte, com uma enorme moldura humana que ladeava a campa humilde onde pai e filhos repousam para a eternidade.
Actualmente, este pequeno jazigo é pouco frequentado, para não dizer esquecido, pois que até nos dias de finados raramente algum anónimo vai ali depor algumas flores.
Sinto um desgosto profundo quando visito este túmulo, pois, apesar de já ter denunciado o facto, há anos que permanece na mesma a desastrosa intervenção ali efectuada na intenção de avivar caracteres, mas que levou à adulteração ridícula das quadras de Soares de Passos dedicadas a José Joaquim Gomes Coelho Júnior, que faleceu em Dezembro de 1855, com 20 anos.
Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Júlio Dinis), enamorado por Ovar, aqui permaneceu em 1863, na casa modesta de sua tia Rosa Zagalo, por um período de quatro meses, e em outras breves passagens posteriores, aqui encontrando motivos para escrever. Ovar, com o decorrer dos dias, ia-lhe dando elementos, desde a ida ao Furadouro, que o inspirou a escrever “O Canto da Sereia”, à intensa correspondência enviada e recebida, até à criação da sua obra-prima, “As Pupilas do Senhor Reitor”, e de “A Morgadinha dos Canaviais”.
Em Ovar o seu coração também foi tocado quando confrontado com os primeiros encontros com Ana Simões, uma das filhas de Tomé Simões, cuja casa Júlio Dinis passou a frequentar com maior regularidade. “Venceste meu coração com subtil arte de amor” é a dedicatória gravada, a seu pedido, num coração de madrepérola que, num momento único e íntimo, ofereceu a D. Ana Soares Barbosa Simões, personagem retratada na Margarida de “As Pupilas do Senhor Reitor”.
Esta jóia, que resistiu ao tempo, encontra-se entre o acerbo de Júlio Dinis instalado no Museu de História da Medicina “Maximiano Lemos” (na sala José Carlos Lopes, na Faculdade de Medicina do Porto, no 6.º piso do Hospital de S. João, no Porto). A mesma sorte não tiveram as cartas enviadas por Júlio Dinis a D. Ana Simões, porque esta, sentindo a vida extinguir-se, pediu à sua filha Emília para as queimar. Uma perda irreparável, pois as carta contribuiriam para dissipar o grande enigma, que alguns teimam em recusar, da possível paixão do escritor por D. Ana. Ou então, a hipótese provável da ida de Júlio Dinis, com familiares e conhecidos do lugar dos Campos, à tradicional e popular romaria ao Santuário de Nossa Senhora da Saúde em Vale de Cambra, “tão alto que a Senhora da Saúde é vista por quem anda no mar. (Os pescadores, em hora de aflição, viram-se para a santa e prometem pagar a ajuda divina. É por isso que os peregrinos são conhecidos por ‘vareiros’”).
Vejamos em que assenta aquela hipótese: Por essa altura, aquando da visita de dois dos seus melhores amigos vindos do Porto, o poeta Augusto Luso e Custódio Passos, estes não encontram Júlio Dinis na casa dos Campos, da qual se ausentara.
Tudo isto, e outros episódios interessantes são indicadores claros e evidentes da importância que Ovar veio a ter na vida literária de Júlio Dinis.

Casa-Museu Júlio Dinis

É bom lembrar que “Uma Família de Ingleses” se encontrava, há anos, metida numa gaveta, e só perante o êxito que tiveram “As Pupilas do Senhor Reitor” (no ano de 1866, em episódios no “Jornal do Porto”), e após ter regularizado o seu projecto pessoal, ao ser integrado na Escola Médica do Porto, onde leccionou, é que finalmente em 1887 é impressa essa obra, que viria a tornar-se outro êxito literário (a par da outra obra “A Morgadinha de Canaviais”, que sai nesse mesmo ano).
Lamentavelmente para Ovar, decorridos que vão quatro anos e oito meses (desde Janeiro de 2004), a Casa-Museu Júlio Dinis “continua encerrada temporariamente” para obras de remodelação. Recentemente foi deliberado e aprovado pela C.M.O. o anteprojecto de Requalificação e Ampliação do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense. Mas é bom lembrar que este objectivo, que já é do conhecimento público há meses, continua sem qualquer resolução à vista, e neste já longo compasso de espera ainda não se vislumbra um final feliz, com todas as consequências da progressiva degradação que este edifício está sofrendo e da falta de cuidado por uma limpeza regular ao exterior que dignifique todo este espaço.
A obra de Júlio Dinis é “impregnada de bondade e de beleza, tão doce e tão afável, de tal modo conquistou o agrado do público”.
“O Homem morrera, mas o Escritor resistiu à morte, pois deixou uma obra que teve o raro condão de eternizar a memória do sublime artista que a concebera”!

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Agosto de 2008)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/11/ovar-na-evolucao-literaria-de-julio.html

17.4.10

Prof. Egas Moniz e Júlio Dinis

Egas Moniz
Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2006)
TEXTO: António Valente

Foi à Ciência Médica que o Prof. Egas Moniz deu o máximo da sua vida, sendo um altíssimo embaixador da cultura literária e científica de Portugal.
Natural de Avanca, obrigatoriamente passava por Ovar a caminho do Furadouro ou da Torreira, e, no Largo dos Campos, o seu olhar ia naturalmente para a casinha de linhas simples onde, em 1863, Joaquim Guilherme Coelho esteve hospedado durante quatro meses. (Esta casa e Ovar tiveram um efeito positivo naquele período difícil na vida de Júlio Dinis, desde a desolação pelo infortúnio que lhe tinha batido à porta, até à ilusão das melhoras.)
O Prof. Egas Moniz batalhou com bastante insistência pela concretização do “sonho” que tinha em vista e que sugeriu às forças vivas de Ovar. Mas foi com grande tristeza e mágoa que viveu o resto da sua vida, ao reparar no desinteresse total dos vareiros por esse projecto.
Essa ideia de que a casa se tornasse um espaço único para a comunidade ovarense, um local de homenagem ao escritor Júlio Dinis, uma fonte de memórias dessa Ovar que o prendeu e encantou e um ponto de encontro de tertúlias de cultura, não encontrou eco, infelizmente.
Como diria o Prof. Egas Moniz, “(..) Ligações de família o arrastaram até Ovar, paredes-meias da minha aldeia. Ali gisou dois dos seus mais belos romances: As Pupilas do Senhor Reitor e A Morgadinha dos Canaviais…, páginas escritas, por certo, num surto febril da tuberculose que o ia minando. Por elas se vê que a actividade literária no curto período que esteve em Ovar onde tanto escreveu, andava aguilhada por forças imperiosas. Assim pôde trazer daquelas paragens, bastos elementos para a obra que conseguiu levar a bom termo”.
Ao recordar estas duas figuras de enorme estatura, é um dever, e não vem a despropósito, no momento da passagem do 167.º aniversário do nascimento de Júlio Dinis, também aqui e agora fazermos uma vénia a um ovarense recentemente falecido, um dinisiano de coração, que conviveu de perto com o Prof. Egas Moniz, lutando pela concretização desses sonhos e sofrendo decepções.
Falo do ovarense Manuel Cascais de Pinho, que só em 1996 pôde assistir, em parte, à concretização da abertura da Casa do Largo dos Campos como espaço dinisiano, mas já com perda irremediável da maior parte do respectivo espólio.
Passados quase três anos do encerramento da Casa Museu Júlio Dinis para obras de recuperação, já que se encontra num avançado estado de degradação, é caso para ficarmos preocupados por toda esta demora, pois todos desejamos que a Câmara Municipal de Ovar tome em mãos, e em acção imediata, o início das obras da casa, a fim de se evitar a iminente derrocada do telheiro, o que, a acontecer, causará irreparáveis danos às lajes do tanque, uma peça a preservar como elemento museológico.
Com este apelo vou terminar, citando um excerto de um poema do grande Guerra Junqueiro:

A vida é uma farsa!
Por conseguinte é rir, até que um dia o nada
Venha a tapar com terra a vossa boca impura!
É voar, é voar, na asa da loucura.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Novembro de 2006)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/04/prof-egas-moniz-e-julio-dinis.html



ADENDA -----------------------------------------

Júlio Dinis e Ovar

Monumento a Júlio Dinis,
junto à casa onde residiu em Ovar
Cuidado com o biografismo literário. Estou-me a referir à tendência para identificar personagens romanescas com modelos vivos, com pessoas da vida real.
Egas Moniz prestou um bom serviço, mas exagerou ao sustentar que Júlio Dinis encontrara em Ovar quase todo o material fabuloso de que precisava. Maria José Oliveira optou por Grijó e ultrapassou todos os limites.
Júlio Dinis era do Porto, mas para quem ler Egas Moniz ou Maria José até parece que o romancista viveu em Ovar, no primeiro caso, ou em Grijó, no segundo caso.
Discordo, em especial, da identificação de Júlio Dinis com Daniel, Henrique ou Carlos, e chamo a atenção para os artigos sobre o assunto que publiquei no “Notícias de Ovar”, números 2399 e 2401, de 1 e 15 de Setembro de 1994.
Se quisermos fazer uma comparação, estava bem mais próximo de Jorge ou de Augusto do que desses namoradeiros. Não era, na verdade, um galanteador frívolo; era um homem íntegro, quase na linha austera de Herculano e de Antero.

(Texto publicado na edição de 15/10/2004 do jornal “João Semana”, na rubrica “De tudo um pouco”, do Dr. Guilherme G. de Oliveira Santos)

21.1.10

Júlio Dinis e Ovar (II)

Roque Gameiro e a ilustração d'As Pupilas do Sr. Reitor de Júlio Dinis, em Santo Tirso e não em Ovar

TEXTO: Albano de Paiva Alferes (*)

Em finais do século passado, a empresa "A Editora", de Lisboa, promoveu uma edição monumental d'As Pupilas do Sr. Reitor, da autoria de Júlio Dinis que, como todos sabem, é o pseudónimo do Doutor Joaquim Guilherme Gomes Coelho.

Trata-se duma maravilhosa obra gráfica, com ilustrações em sépia escura, que constituem um riquíssimo perpassar de aspectos etnográficos: arquitectura rural, mobiliário artesanal, trajos típicos, rendas e bordados.
A citada empresa confiou a direcção e a iluminação da obra ao mestre ilustre Roque Gameiro [na imagem], autor de vários trabalhos deste género, como a grande edição das Obras Completas, de Ganes, uma edição monumental dos Lusíadas a História da Colonização Portuguesa do Brasil, e outras.
Decorridas algumas décadas, ou seja em 1934, o cineasta Leitão de Barros apresentou, nos ecrãs dos cinemas portugueses, o filme "As Pupilas do Senhor Reitor" que obteve um sucesso extraordinário, tendo ele declarado que decalcara o seu trabalho nas Pupilas Ilustradas de Roque Gameiro, que é, então, interrogado a propósito do local onde decorreu todo o entrecho das "Pupilas do Senhor Reitor".

Monumento a Júlio Dinis em frente à Escola Médico-Cirúrgica
onde foi aluno e, mais tarde, professor (1863 a 1865)
 
Roque Gameiro reconhece que está perante uma dificuldade de História Literária, e para explanar o assunto dizendo que lera e relera o texto, que consultara várias pessoas, entre as quais o ilustre oficial da marinha Gomes Coelho, tio e herdeiro do espólio e dos direitos de autor de Júlio Dinis, que nada souberam dizer acerca da localização daquela Crónica da Aldeia.
Esteve em Ovar algum tempo, tendo verificado que a paisagem descrita nas "Pupilas" não se amoldava, de forma alguma, à de Ovar: a sua ambiência, a proximidade do mar, os hábitos e costumes do povo vareiro assim o demonstravam.
Roque Gameiro confirma a sua peregrinação, a palmilhar, terras do Minho, onde Júlio Dinis se tinha refugiado para fugir à morte, que o veio a descobrir, aos 32 anos de idade, na flor da vida...

No final de todas estas andanças, Gameiro assentou arraiais em Santo Tirso, onde Júlio Dinis residiu bastante tempo, e então, descobre, ali, a paisagem, que se adaptava, dum modo admirável, às descrições da soberba "anedota" rural, num ambiente encantador de cor e beleza que ele tentou interpretar nas ilustrações do famoso romance.
Neste momento, sai-lhe à estacada o Senhor Doutor Pedro Chaves, a "protestar", reivindicando para Ovar a honra de ter sido, ali, onde se teria desenrolado toda a acção da obra do malogrado romancista.
Porém Gameiro responde ao Senhor Doutor Pedro Chaves duma forma respeitosa e elegante, dizendo: "Eu próprio aplaudo esse enternecido bairrismo, mas como ilustrador tive de deixar de parte qualquer outra atitude que fosse assente, por um lado, nas fontes da informação rigorosa, e, por outro, na minha lateral inspiração".
Não tem, pois, o menor fundamento o facto de haver pessoas, em Ovar, que afirmam que alguns dos seus antepassados forneceram a Roque Gameiro informações e trajos para a realização do seu trabalho.

A terminar, devemos concordar que são deveras maravilhosas as ilustrações do mestre Gameiro - o Gustavo Doré português.
Aquela do João Semana montado numa pileca famélica, de chapeirão na cabeça e um guarda-sol enorme vermelho e aberto, é magistral...
Esse João Semana que este jornal teima em perpetuar.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Abril de 1993)


(*) Padre Albano de Paiva Alferes (1908-1994)


Colaborador do jornal “João Semana”, nasceu a 20 de Março de 1908 em Duas Igrejas, Santa Maria da Feira.
Filho de José Augusto Benjamim de Paiva e de Maria Alves da Silva.
Frequentou o Seminário Diocesano do Porto onde se ordenou em 1931, celebrando Missa Nova a 18 de Outubro do mesmo ano.
Foi professor no Seminário das Missões, em Tomar, e Pároco de Freixo de Cima (Amarante), Escapães (Feira) e São Miguel de Souto (1943-1979).
Referência cultural do Concelho da Feira, foi condecorado com a Comenda de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Faleceu em Santa Maria da Feira em 1 de Fevereiro de 1994.

22.2.09

Júlio Dinis e Ovar (I)

Ovar e “As Pupilas do Senhor Reitor”

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/1993)
TEXTO: José Rodrigues Palhas

(…) Em tempos li o livro "Júlio Diniz e a sua obra", da autoria do Prof. Doutor Egas Moniz, obra bem minuciosa sobre o ilustre escritor, cujo pai, Dr. José Joaquim Gomes Coelho, era natural de Ovar e foi médico-cirurgião no Porto.
Em conversa com o Sr. Cascais de Pinho, cidadão que foi o impulsionador da preservação da casa onde o ilustre Escritor viveu quando da sua passagem por Ovar, casa a que tem dedicado um carinho especial – à sua persistência se deve o poder perpetuar-se, hoje, em Ovar, a memória de Júlio Diniz –, foi-me chamada a atenção para outro biógrafo, Alberto Pimentel, que escreveu um ESBOÇO BIOGRAPHICO, em 1872, isto é, precisamente poucos meses após o falecimento de Júlio Dinis, acabando o mesmo por ser incluído na 2.ª edição de "OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA", ainda nesse ano de 1872 apreciada obra de que, como se sabe, o romancista já não conseguira rever as últimas provas tipográficas.
Neste ESBOÇO, dava-se já a conhecer que Júlio Dinis “então a instancias do seu pae, foi passar algum tempo, três ou quatro meses, a Ovar”, onde tinha parentes, acabando Alberto Pimentel por revelar, nesse trabalho, que:
“Foi em Ovar, onde deixamos em patriarchal tranquilidade, que planisou e traçou os primeiros capítulos das "PUPILAS DO SENHOR REITOR". O seu espírito, refocillado nos ócios d’uma convalescença despreocupada, comprazia-se nas variadas cenas com que a imaginação poderosa do poeta anima um mundo phantastico que para si creou. Assim se explica a espontaneidade com que não só encetou o romance PUPILAS DO SENHOR REITOR mas com que também foi trabalhando simultaneamente nesse formoso esboceto – UMA FLOR D’ENTRE O GELO –, cuja publicação começou no JORNAL DO PORTO em 21 de Novembro de 1864, aparecendo pela primeira vez o seu nome – GOMES COELHO”.
Temos assim que, desde então – repita-se, uma meia dúzia de meses após o falecimento do romancista –, se terá ficado a saber da ligação existente entre Ovar e as "Pupilas do Senhor Reitor", facto que acabaria por passar um tanto esquecido até que, em INÉDITOS E ESPARSOS, aparecidos em 1910, surge aquele apontamento do punho de próprio Júlio Dinis, onde este dá a conhecer:


Museu Júlio Dinis, uma Casa Ovarense, onde o escritor iniciou,
em 1863, “As Pupilas do Senhor Reitor”

"Principiei a escrever as Pupillas em “Ovar (1863) durante os mezes de Julho e Agosto. Terminei-as no Porto em Setembro ou Outubro. Ficaram-me na gaveta até ao ano de 1866 em que resolvi publicá-las. “Alterei bastante o romance e ampliei-o” introduzindo-lhe personagens a capítulos novos”.
Ora, já as cartas escritas de Ovar ao seu amigo Custódio José de Passos em 1863, e pela primeira vez publicadas em 1904 no PORTUGAL ARTÍSTICO – e desde 1910 reproduzidas nos Inéditos e Esparsos – deixavam prever que, nesse sentido, algo se viesse a passar.
De qualquer forma, não restam dúvidas de que AS PUPILAS nasceram em Ovar, e isso se sabe desde 1872.
O que parece querer ser esquecido por uns tantos!...
(…)


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Junho de 1993)

http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/02/ovar-e-as-pupilas-do-senhor-reitor.html


ADENDA -----------------------------------------


Júlio Dinis e Ovar 

Cuidado com o biografismo literário. Estou-me a referir à tendência para identificar personagens romanescas com modelos vivos, com pessoas da vida real.
Egas Moniz prestou um bom serviço, mas exagerou ao sustentar que Júlio Dinis encontrara em Ovar quase todo o material fabuloso de que precisava. Maria José Oliveira optou por Grijó e ultrapassou todos os limites.

I Encontro Dinisiano, em Grijó (11/05/2003)
A estudante Ana Catarina Campos, "à mesa com Júlio Dinis",
no I Encontro Dinisiano, em Grijó
Júlio Dinis era do Porto, mas para quem ler Egas Moniz ou Maria José até parece que o romancista viveu em Ovar, no primeiro caso, ou em Grijó, no segundo caso.
Discordo, em especial, da identificação de Júlio Dinis com Daniel, Henrique ou Carlos, e chamo a atenção para os artigos sobre o assunto que publiquei no “Notícias de Ovar”, números 2399 e 2401, de 1 e 15 de Setembro de 1994.
Se quisermos fazer uma comparação, estava bem mais próximo de Jorge ou de Augusto do que desses namoradeiros. Não era, na verdade, um galanteador frívolo; era um homem íntegro, quase na linha austera de Herculano e de Antero. (Guilherme G. de Oliveira Santos, jornal "João Semana" (15/10/2004)