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5.11.09

ALBANO CAMPOS: o “lorde” pugilista

NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO


Albano Campos (1903-1980)
Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2003)
TEXTO: Fernando Pinto

Para além de ter sido Campeão Nacional de Boxe, na categoria Professional de meios-leves, Albano Campos foi árbitro e treinador desta modalidade desportiva, bombeiro, camionista, pegador de toiros no Campo Pequeno, jogador de râguebi e massagista! Verdadeiro homem dos sete ofícios, nasceu em 2 de Março de 1903, na freguesia da Sé, no Porto, ou seja, há precisamente 100 anos.
Numa altura em que se está a comemorar o Centenário do seu colega e amigo Santa “Camarão”, o “João Semana” – como tinha anunciado na edição de 15 de Janeiro último – presta-lhe esta merecida homenagem.
Fomos até à casa onde viveu o pugilista, na Ponte Nova, Ovar, e falámos com o filho Rui Campos, de 53 anos. Em cima de uma mesa esperava-nos uma pilha de fotografias, a sépia e a preto e branco, que ilustram a brilhante carreira de seu pai, e algumas medalhas e outras condecorações.
Logo a abrir a conversa, mostrou-nos um recorte amarelado do “Jornal de Notícias” de 31 de Março de 1980, dando conta do desaparecimento de seu pai, aos 77 anos de idade:“Em Ovar, onde se radicara há mais de vinte anos, faleceu ontem o antigo campeão de “box” Albano Campos, que foi uma das figuras de proa da modalidade na década de 20 e começos da seguinte. O “box” era então um desporto extraordinariamente popular, com muitos e bons espectáculos, quer em Lisboa quer no Porto, e até aos “rings” portugueses vieram nesses tempos alguns pugilistas famosos estrangeiros (e não apenas espanhóis…), que aqui defrontaram as nossas mais destacadas vedetas da época – como, por exemplo, Tavares Crespo e José Santa “Camarão”, para citar apenas os dois nortenhos de maior fama e popularidade. Albano Campos era homem da mesma estirpe desses campeões (…).”

Tanto era verdade que conseguiu roubar, aos 21 anos, o título de Campeão Nacional, na sua categoria, a Tavares Crespo, o que lhe permitiu subir ao ringue com pugilistas de nomeada, como foi o caso do francês Carpentier.
– “O meu pai contou-me que fez uma viagem ao Brasil com o José Santa “Camarão” e outros “boxeurs”, isto depois de ser Campeão Nacional. No país irmão arrecadou o título de campeão Portugal-Brasil”, recorda Rui Campos, frisando que, ao contrário do que se diz por aí, o gigante Santa “Camarão”não lhe ensombrou a carreira porque “cada um tinha o seu valor e as classes em que lutavam eram diferentes: a do Santa era pesos pesados.”

Bombeiro destemido
Na tarde de 8 de Fevereiro de 1927, Albano Campos Júnior (o seu nome de registo) desafiou as chamas que consumiam o Edifício dos Correios e Telégrafos do Porto, sendo condecorado com a Medalha de Prata de Mérito Filantropia e Generosidade, pelas mãos do marechal Craveiro Lopes. “Atendendo aos relevantes serviços prestados por Albano Campos, bombeiro da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Porto, o qual tendo-se comportado com o maior denodo e extrema valentia, levou a sua audácia ao ponto de, com manifesto desprezo pela sua própria vida, enfrentar o perigo iminente que se lhe antevia”, leu Rui Campos, em voz alta, o primeiro parágrafo da curiosa distinção, reacendendo na sua memória um dos primeiros feitos de seu pai.

– “O Porto era tudo para ele. Quando íamos a passar de carro pela Ponte da Arrábida tirava o chapéu e dizia: – ‘Atenção… que estou na minha terra!’ ”, afirma o filho, com saudade, repetindo aquele gesto. – “Ele gostava das festas de S. João. As velhotas, que estavam a vender os alhos porros, vinham ter com o meu pai e diziam, abraçando-o: – ‘Ai o nosso querido Albaninho!’ – Era muito conhecido por aquelas bandas.

Começou por ser amador no boxe e, mais tarde, devido à sua técnica, passou a Profissional, travando inúmeros combates em Portugal – no Porto (Palácio de Cristal) e Lisboa (Coliseu dos Recreios) –, na vizinha Espanha e em França. Foi também, durante mais de duas décadas, chefe da secção de boxe do Futebol Clube do Porto, o seu clube de sempre.”

A vinda para terras vareiras
Albano Campos Júnior veio viver com a família para Ovar em 1954, porque a sua profissão de camionista assim o obrigou: transportava pedra da então Vila da Feira para o Carregal. Trabalhou também na Cavan. – “O meu pai era muito pândego… Gostava de ir jogar dominó até ao café da Emília, em frente aos Bombeiros velhos”. Em 1933 montou uma Escola de Boxe, onde dava aulas a quem tivesse jeito para aquele exigente desporto. Artur Loureiro, Manuel Santos (conhecido por Manuel Guarda-redes) e António Pinho (já falecido) foram alguns dos seus pupilos.
Em 1944 lutou em Ovar contra Santa “Camarão” durante umas Verbenas que tinham como objectivo recolher fundos para a equipa de basquete do Aliança.
Foi ainda massagista da Associação Desportiva Ovarense, como podemos comprovar na foto tirada na época desportiva 1957/58, publicada na edição anterior do nosso jornal, na recolha quinzenal para a história da ADO, assinada por José Pinto.
Em 1967 foi convidado para arbitrar um combate entre pugilistas do Porto e do Benfica, no Palácio de Cristal – era árbitro de 1.ª classe da Federação Portuguesa de Boxe –, sendo-lhe oferecida uma faixa de campeão e uma luva de prata pelo núcleo de amigos do pugilismo “Os Formidáveis do Boxe – Agrupamento dos ex-Boxeurs Portugueses”, do qual era o membro 115. Uma homenagem que pretendeu relembrar os méritos patenteados ao longo da sua carreira desportista.
Durante a década de 70 chegou a receber várias condecorações.
Albano Campos faleceu em terras vareiras no mês que o viu nascer, faz 23 anos. Amanhã, se fosse vivo, apagaria 100 velas. Mais um Campeão Nacional cujo espólio poderia enriquecer o tão falado, mas pouco desejado, Museu do Desporto. Campeões que nasceram em Ovar, ou que deixaram cá as suas raízes não faltam nesta terra. Disso é um bom exemplo este “boxeur”, homem simples com pose de “lorde”, que fumava cachimbo, cantava ópera quando lhe apetecia e declamava versos à sua maneira…

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Março de 2003)

http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 69)
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NOTA: "Na sessão de boxe efectuada em 1-1-1938 no Estádio Mário Duarte, em combate de fundo, Horácio Velha bateu João Carvalho por K. O. ao quarto round. Arbitrou Albano Campos". (Clique no link).

24.5.08

DR. JOSÉ MACEDO FRAGATEIRO - Recordando o político e o pedagogo

Jornal JOÃO SEMANA (01/12/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

José Macedo Fragateiro
(Clique na imagem)
É com muita saudade e alguma emoção que recordo o Dr. José Macedo Fragateiro, um grande político e um brilhante pedagogo, as duas facetas em que mais se distinguiu durante a sua vida. [CLIQUE NO LINK A AZUL].
Gostaria de evocar sobretudo o professor de quem tive a honra de ser aluno, mas não posso falar dele sem recordar, mesmo que resumidamente, alguns acontecimentos políticos onde esteve envolvido e que lhe provocaram muitos dissabores, só porque amava a liberdade, pela qual sempre combateu, repudiando todos os totalitarismos.
Nasceu em Portel, no Alentejo, em 7 de Maio de 1918. Seu pai, o Dr. Arnaldo Fragateiro de Pinho Branco, natural de Ovar, era Juiz de Direito naquela localidade, em cujo concelho, na freguesia de Amieira, já tinha nascido sua mãe, D. Romana Perpétua Macedo Fragateiro.
Em Santarém, onde seu pai também exerceu jurisprudência, frequentou o liceu. Mais tarde, matriculou-se na Faculdade de Letras de Lisboa, vindo a terminar o curso de Ciências Histórico-Filosóficas na cidade de Coimbra.
Casou, em 10 de Janeiro de 1948, em Lisboa, com a Dr.ª Laura Emília Alves Macedo Fragateiro, natural dessa cidade.

O político

Transferido, mais tarde, para Caxias, ali se encontrou, na cela 40, com Mário Soares e Salgado Zenha, entre outras figuras da política portuguesa mais conhecidas.Terminado o processo, e depois de ser julgado, foi absolvido das acusações que lhe fizeram – de incitar o povo à revolta –, o mesmo acontecendo aos seus companheiros de cela.
Opositor ao governo de Salazar, fez parte do Movimento de Unidade Democrática (MUD) de 1945 a 1948, sendo, por isso, acusado de actividades subversivas e impedido de leccionar.
Em 1949, na campanha de Norton de Matos, fez parte da comissão de Portel, sendo preso e humilhado nessa localidade de Évora, daí transitando, às ordens da PIDE, para a Rua de António Maria Cardoso, em Lisboa.

O pedagogo

Libertado da prisão, o Dr. José Fragateiro fixou-se em Estarreja, onde trabalhou, durante vários anos, como funcionário da Nestlé, exercendo, ao mesmo tempo, o professorado.
Conheci-o durante esse período, em que era empregado durante o dia e em que dava aulas à noite, na antiga Escola do Carril (onde actualmente se encontra o posto da Guarda Republicana de Ovar).
Em 1971 matriculei-me nessa escola, no Curso de Aperfeiçoamento Geral de Comércio, e desde o 1.º ano até ao 4.º tive o privilégio de ser seu aluno nas disciplinas de História e Português.
As suas lições tinham um encanto especial. Eu comparava-as às que, na época, eram dadas na televisão pelo Professor Vitorino Nemésio.A forma entusiástica como ele, sempre de pé, junto ao quadro, e de ponteiro na mão, nos explicava a história e a literatura, entusiasmavam-nos. Ouvi-lo era um encanto!...
Uma vez, numa aula já tardia – a última da noite –, o Dr. Fragateiro desenhou no quadro o mapa da África e da Europa, para nos explicar uma lenda: a de ter sido Hércules, com a sua espada e a sua força, a separar os dois continentes, num golpe de que resultou o Estreito de Gibraltar. Talvez por reparar que alguns alunos não lhe prestavam a devida atenção, bateu com tanta força no ponto de separação dos dois continentes, que o ponteiro se partiu. Houve sorrisos na aula, mas todos ficaram a conhecer a lenda!...
Em outra vez, dava ele literatura, reparou que uma aluna não estava muito atenta. Dirigiu-se a ela, disse-lhe, a sorrir:
– A menina não gosta da Disciplina, pois não? Mas olhe que é bonito estar entre colegas e amigos a falar de literatura, ler um bom livro e saber distinguir um pleonasmo, ou uma anáfora, ou outra figura de estilo….Noutra ocasião, falando das manias de certos escritores, citou os casos de Almeida Garrett, que gostava de se pintar e usar cabeleira postiça, e de um outro (Cesário Verde?), que habitualmente trazia uma flor na lapela do casaco e, preso a esta, um frasquinho com água, para a flor não murchar!...
Um dia, ao subirmos as escadas que davam acesso a uma sala do 1.º andar, onde nos ia dar mais uma lição, mandou-me reparar num cartaz afixado na parede e para o qual poucos reparavam… Olhei, e li: “Mede bem os teus passos e caminha…”. Nunca mais me esqueci deste apotegma inscrito naquele pequeno quadro de parede.
Quando terminámos o 4.º ano, o último em que o Dr. Fragateiro nos deu aulas, fomos, por sua iniciativa, e juntamente com os restantes professores, fazer um piquenique na casa pré-fabricada que ele possuía junto à Estrada do Furadouro, actual Avenida do Emigrante. Foi uma tarde memorável, onde ouvimos o Dr. contar algumas histórias da sua passagem pelas cadeias da PIDE e de Caxias, e do retalhamento que faziam aos alimentos que a sua esposa lhe levava nos dias da visita.

O Deputado e o Autarca

Em 1974, logo após o 25 de Abril, fundou o Partido Socialista em Ovar, e em 3 de Junho do mesmo ano tomou posse da presidência da Junta de Turismo no Furadouro, cargo que exerceu até 1977.Foi eleito deputado pelo Partido Socialista para a Assembleia Constituinte em 25 de Abril de 1975 e para a Assembleia da República, pelo Círculo de Aveiro, em 25 de Abril de 1976.Nas eleições camarárias de Dezembro de 1979 foi eleito vereador pelo Partido Socialista, cabendo-lhe o pelouro da Cultura.
Homem de grande saber, trazia sempre debaixo do braço livros, revistas ou jornais, e possuía uma das melhores bibliotecas de Ovar.
Contava-nos que dormia muito pouco, por passar muitas horas a ler, mas que não se importava porque, quando morresse, teria muito tempo para dormir.
Era um filósofo e um grande democrata. Honesto e tolerante, nunca seduziu ninguém para fazer parte do seu partido, respeitando muito as ideias e a religião de cada um de nós.
Por não se querer aproveitar das facilidades que lhe seriam concedidas pelas amizades que contava e pelo seu passado de combatente pela liberdade e democracia, quis fazer o estágio pedagógico que lhe negaram no tempo da ditadura.
Impulsionador da construção do novo edifício da Escola Secundária N.º1 de Ovar, que dirigiu durante 11 anos, foi sempre muito estimado pelos alunos que, juntamente com o corpo docente, o homenagearam quando da sua aposentação.
Faleceu em 18 de Novembro de 1991 no Hospital de Aveiro, onde tinha sido internado.Ovar e Portel não o esqueceram. A 7 de Abril de 1992, o Presidente da Câmara de Ovar, José Augusto Pinheiro Guedes da Costa, propôs o seu nome para patrono da Escola Secundária N.1, e em 1997 foi dado o seu nome a um arruamento da Habitovar.
Em 1999, a Câmara concedeu-lhe, a título póstumo, a Medalha de Ouro do Município.
Também a Câmara de Portel, terra onde nasceu, o quis honrar, dando o seu nome uma rua daquela localidade em 9 de Outubro de 1993, e prestando-lhe nova homenagem, em 7 de Maio de 1999, com o descerramento de um painel da autoria de Marcos Muge e a reedição de um livro de contos – “Retalhos” – por ele escrito aos 16 anos de idade.

Com estes modestos apontamentos aqui presto a minha homenagem a um homem íntegro como poucos, que um dia conheci e que me incutiu o gosto pela leitura, pela escrita e pela poesia, três áreas que sempre me despertaram interesse desde muito jovem.
Sempre que passo pela Escola e vejo o seu nome inscrito, em letras metálicas, junto à porta principal, lembro-me sempre de que, um dia, me mandou olhar um quadro que me iluminou o futuro: “Mede bem os teus passos e caminha…”.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE DEZEMBRO DE 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/05/dr.html