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| Planta militar - Ovar em 1809 |
Na história local
ficaram referências precisas sobre a existência e localização, em Ovar, de
várias marinhas de sal, situadas ao longo das margens e até no interior da nossa
Ria. (Lembramos que toda a faixa litoral entre a laguna e o mar, pelo menos,
até São Jacinto, era considerada território vareiro).
A revista "REIS",
da JOC-LOC de Ovar, publicou, em 1985, um trabalho alusivo ao assunto
("Sal: Também são lágrimas de Ovar", da autoria do Chefe de Redacção deste Jornal). (CLIQUE no link, a azul)
Hoje, o "João
Semana", pela pena brilhante do nosso colaborador Dr. Armando de Almeida
Fernandes, faz uma incursão mais aprofundada pelas salinas do Cabedelo,
"na villa de Dagarei", em Válega, que foram, há mais de mil anos,
objecto de uma compra e venda.
Relatório sobre o Documento n.º 35
de «Diplomata et Chartae» (ano de 929)
1 - O Documento (traduzido do latim o mais literalmente
possível).
"Cristo. Em nome de Deus, eu Toresário presbítero,
juntamente com meus "irmãos e irmãs", a vós Viliulfo abade, e também
aos vossos "irmãos": "Apraz-nos que, por boa paz e vontade, vos
vendamos, a vós, sobreditos, tal como vendemos, as nossas salinas próprias, que
possuímos na «villa» Dagarei; e essas salinas estão situadas no lugar sobredito
onde dizem Cabedelo, junto à corte de salinas de Aires, da parte do esteiro de
Fontela. Vendemos a vós metade dessa corte por inteiro, com seus "muros"
e mar ou seus "vasos": tudo vos vendemos; e da parte do
"monte", vendemos a vós, aí, seus muros "pedrinhas" e o seu
"casar", com seu acesso e suas fontes, e, da parte do mar, seus
"cepais" e terreno para fazer salinas. Vendemos a vós tudo o que assim
consta acima, por inteiro, de tudo vós a meia e nós a meia; e recebemos de vós,
por preço, seis soldos "galicanos", como a nós apraz, e desse preço
nada fica (por pagar), para que, desde hoje em dia, essas salinas, ou tudo o
que assim acima consta, seja retirado da nossa posse e domínio para os vossos,
e o hajais em pacífico direito, e o reivindiqueis para sempre, vós e toda a
vossa descendência. Se alguém, em seu são juízo – o que não cremos minimamente
se faça – vier contra esta carta, para a desrespeitar, e nós a não reclamarmos
para a vossa parte, paguemos a vós em dobro essas salinas e quanto por vós
tiverem sido melhoradas, e a vós (garantamos) perene direito. Foi escrito no
dia dois das calendas de Setembro (31 Agosto) da era 967 (ano 929).
Toresário presbítero, juntamente com meus
"irmãos" e "irmãs", roboramos por nossas mãos. Sargentina
confirmo. David (que), sou, por testemunha.
Toresário presbítero, Ermegildo abade, confirmantes.
Ermegildo diácono, testemunha. Pepe, Aires, Vilifredo, Soniarico, Teudo,
Sisnando presbítero (testemunhas?).
Aires Dagaredes, confirmante por minha mão, Beloi, Froilo
e Donadilde, testemunhas. Ermemiro, testemunha. Astrualdo, confirmante.
Damiano, presbítero, testemunha. Ranemiro, Daniel presbítero, testemunhas.
Virlemundo, confirmante. Adaulfo converso, confirmante. Benedito presbítero,
testemunhas. Ortrefredo presbítero (notário?)".
2- Objecto da venda
Trata-se de salinas na "villa Dagarei", grande
parte (esta "villa") da actual freguesia de Válega. Essas salinas
situavam-se no sítio do Cabedelo, para a parte do esteiro da Fontela. O
documento, depois de dizer "salinas", define-as como "corte",
o que significava, sempre, quer uma parte quer, ainda melhor – e é o caso – um
conjunto delas: certamente bem determinado (pela situação acima expressa), pelo
que se diz que se trata de metade da "corte" (cuja outra metade
ficava na posse do vendedor, ou não era por ele vendida). A venda, todavia,
distingue, no objeto da venda, ainda um prédio (pelo menos) que nada tem com as
salinas, situado, como era, mais para o interior (sentido da expressão "de
parte monte", expressamente contraposta "de parte maris", no
litoral).
Na "parte do mar" ou para as "salinas",
são referidos notáveis acidentes: "muros", "vasos",
"cepais", e "terrenos" destinados a fazer salinas. Os
"muros" devem ser os das salinas, limitantes dos "vasos",
que só podem ser o interior deles, a preencher de água salgada para a extracção
do verdadeiro ouro branco que, então, era o sal, o boom económico da época. Os
"cepais" é óbvio que nada podem, aí, ter com as cepas da videira:
suponho que se trata de terrenos especiais (entre os "terrenos"
expressos), nos quais havia vegetação de porte (própria dos terrenos aquosos,
ou húmidos), e daí o nome "cepal". Compare-se com o topónimo minhoto
Cepa Poçã, que combina a "cepa" com a água (de poça, ou simplesmente
estagnada), e isto leva-me a crer que o termo "sapal", de hoje,
proveio de "cepal", quando os sons ç e s (surdo) se confundiram. Daí a
ideia de "sapo" (o batráquio) errónea; e, até, "assapar"
(com "sapa" regressivo, ou deverbal) no sentido de desmoronar (muros
e terrenos, sobretudo por efeito das águas). A confusão referida deve ter
começado no séc. XVI. Para melhor ou mais prova de que a venda não é só de salinas,
isto é, prova de contraposição – que até a escusava – do "mar" ao
"monte" (o litoral ou orla, e o interior) é que, neste, além de muros
de pedra ("pedrinhas"), havia também um "casar", palavra
arcaica sinónimo de "casal" (predial): a este estavam, ou estariam,
pois, adstritas as salinas vendidas; e daí figurar tudo como um todo.
O que logo resulta é o que já a geografia e, sobretudo, a
geologia podem demonstrar: a "ria" (aliás falsa: é um haff-delta) não existia ainda. O mar ou
água "marinha" livre (daí "marinha" a designar também uma salina,
entre outras acepções) chegava à localidade (Cabedelo, Fontela, etc.), em
Válega: mas a "ria" estava já a formar-se, como resulta da formação
de um "cabedelo" (qual na foz de outros rios notáveis), antecedente
ao cordão litoral que hoje limita, do lado do mar, aquele notável acidente
geográfico. Era o resultado da acumulação de detritos líticos, arrastados pelo
mar e pelas águas fluviais (do Vouga e outros cursos de água, embora menores,
como em Válega); e não podemos dar às salinas, em Válega, uma importância de maior,
visto que o haff-delta estava já em
formação, obstruindo a liberdade das águas marinhas ou salgadas; e o nosso
documento é ele mesmo a referir terrenos onde poderiam estabelecer-se salinas,
que, pois, ainda neles havia: "terreno pro salinas facere". Se mais
chegou a haver, não deveriam ser, pois, muitas – ou pelo menos muito
duradouras, e daí não por demais intensa e duradoura a exploração local do sal.
Enfim, é bem verdade que, se há uma História "geográfica", também há
(e aqui se revela) uma Geografia "histórica".
3- Os vocábulos
Já referi o suficiente a respeito de "muros",
"vasos" e "casar", e também de "cabedelo": mas
interessa a etimologia deste nome, que é um diminutivo medieval, em -ello,
se houve – como parece – "cabedo" (do lat. caput). De outro modo, "cabedello" teria provindo de um
lat. capitellu - (mais de "capitia" "cabeça" que de caput,
no mesmo sentido). De notar, em Geografia histórica, além do "cabedello),
a existência de um "esteiro", onde ia desaguar o riacho que originou
o topónimo Fontela: "stario (de) fontanella". Além do
"cabedello" (terreno), havia-se formado, pela mesma causa sedimentar,
o de certo modo seu oposto (águas), um "esteiro" < lat. aestuariu (> estuário"), a água de certo modo mesmo aprisionada pela sedimentação.
Assim se realça mais a inexistência da "ria" há mil anos e o
princípio (já talvez adiantado) da sua formação.
Também já ficou dito o suficiente a respeito de
"cepales" (cepais, hoje sapais, como creio e julgo justificar): de
"ceppo" < lat. cippu –, tronco, como penso expliquei. Quanto a "muros petrineos", temos o adjectivo "pedrinho" (que a toponímia ainda conserva, às vezes já isolado), significativo de feito de pedra. Para os "solidos galliganos" < * gallecanos, não poderemos asseverar a Galiza, porque também poderia tratar-se da Gália (a França): como se trata de moeda, e se está, ainda, nos inícios do séc. X, será mais de crer em dinheiro da Galiza?
Dentro da morfologia e da fonética, são aqueles os
principais casos anotar: o onomástico pessoal merece um parágrafo próprio. A
terminologia do documento nada oferece de especial nem, bem assim, a sua
redacção, ou sintaxe: é o que há de mais usual ou vulgar, então.
4- As pessoas
Igualmente nada se oferece de especial ou notável:
eclesiásticos e leigos - entre estes, duas senhoras (Froilo e Donadíldi), sendo
que era muito raro servirem mulheres de testemunhas, como estas serviram. Nas
elucidações "fratres vel sorores", é que não sei se se trata de
irmãos e irmãs carnais (família), se deles religiosos, tanto mais que são
referidos a um "presbítero" (o vendedor) e a um "abade" (o
comprador). Nenhum personagem importante, ou que tivesse deixado nome, ou
renome.
Na origem, os antropónimos – ao todo, vinte e cinco – são
quase todos germânicos, e seria fastidioso, para além de sobretudo inútil
(afora ocupar muito espaço) versar, aqui, a sua etimologia. De notar, somente,
que "Sargentina" (confirmante) deve estar por "Sargentinu",
não só porque era raro o testemunho de mulheres, mas também porque é frequente
a confusão de u com a, ou de a com u,
em escrita visigótica. (Merece um reparo tal n. pessoal: ele nada tem com o n.
comum "sargento", que nos veio de França, com serg –, o bastante para
afastar tal procedência, ou ideia: deve ser um n. pessoal de origem zoonímica,
como vários da época, isto é, do lat. – sargu –, o "sargo", peixe
então, e hoje, de excelência, isto é, sargu- com o suf. entus, *sargentus, a que,
pessoalmente, se aplicou o suf. -inus, diminutivo, *Sargentinus. Pelo peixe – não só sal –, convém a Válega, e é caso único).
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de dezembro de 1995)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/04/salinas-da-villa-dagarei-valega.html
ADENDA -----------------------------------------
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/04/salinas-da-villa-dagarei-valega.html
ADENDA -----------------------------------------
Documentos do século XII e XIII aduzidos pelo Padre
Miguel de Oliveira no Arquivo do Distrito de Aveiro (vol. III, 1937, pág. 130)
falam não só da Igreja de S. Cristóvão (de Cabanões, 1147), mas de duas Capelas:
S. Donato (do tempo dos suevos?) e S. Miguel. Comenta aquele autor: “As marinhas
parecem estender-se desde perto da capela de S. Miguel para sul e poente até à
Ria” (pág. 132).
Julgamos que esta Capela de S. Miguel que o Padre Miguel
de Oliveira identifica como da Paróquia de S. Cristóvão (hoje de Ovar), será antes, a que fica na freguesia de
Válega, no lugar do mesmo nome, mais próxima da Ria e das suas antigas
marinhas de sal.

























