Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2014)
TEXTO: Joaquim Fidalgo
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Largo dos Combatentes, ao tempo do Quartel, e do antigo Teatro Ovarense |
O largo dos
Combatentes, localizado a nascente da cidade de Ovar, no antigo bairro de S.
Pedro, onde se situava o Teatro Ovarense, era, no princípio do século XX, ponto
de encontro das famílias vareiras na correria para o folguedo domingueiro.
Folheei a Monografia
de Ovar do Dr. Alberto Lamy, fiz um périplo imaginário pelo bairro, e respirei
história. Sentei-me num banco do jardim e, recuando no tempo, olhei em redor. O
largo estava cercado por um conjunto de edifícios que denunciavam o
desenvolvimento económico e cultural da vila, dividida em dois grandes polos.
No primeiro, localizado junto da Câmara Municipal, centrava-se o poder político
e económico. No segundo estava edificado um conjunto de equipamentos que
promoviam e prestigiavam a vila. O Colégio Ovarense, fundado por António Dias
Simões (1918-1929), o hospital, fundado pelo vigário João de Sequeira
Monterroso e Melo (1814-1911), a fonte do hospital (1814), o Teatro Ovarense
(1875-2000), a residência paroquial e o passal (1769-1853), a capela do
Calvário (1872), e, por fim a residência do médico João José da Silveira, o João
Semana das “Pupilas do Senhor Reitor”.
A minha ida
ao largo partiu da necessidade de ir no encalço de uma viela outrora famosa,
mas hoje desconhecida dos vareiros: a viela dos cavalos.
De Hospital a Quartel
A viela dos cavalos, por tradição oral chegada aos nossos
dias, ficava localizada no Largo dos Combatentes da Grande Guerra, não
existindo registos documentais sobre ela. Pessoas idosas da cidade,
interpeladas por mim, já nem se lembram de, no espaço ocupado pelo atual
centro educativo, terem estado aquartelados, nos princípios do século XX, os
soldados do 3.º batalhão do Regimento 24 de Aveiro. Mas há quem recorde
histórias contadas à lareira pelos seus antepassados acerca dos exercícios
militares executados no largo, a que a população assistia com regozijo.
Aquele edifício, que nos princípios do século XIX (1814)
fora construído para servir como hospital, transitou provisoriamente, em
fevereiro de 1911, por cedência da Câmara, para a Santa Casa da Misericórdia.
Em 1911, após a mudança do hospital municipal para a
nova casa, que até 1910 fora Colégio das Religiosas Doroteias (1911), a Câmara
Municipal, disponibilizou as antigas instalações do largo para ali instalar o
quartel, indo ao encontro do governo, a quem, para estender e enraizar no
território o ideal republicano, interessava a descentralização dos quarteis
pelo país.
Uma vez colocados em Ovar, militares e oficiais,
sacudiram a Vila com o novo estilo de viver o dia-a-dia. Um dos ecos chegados
até nós a propósito desse viver, foi uma vaga referência a uma viela dos
cavalos, que ouvi há cerca de quarenta anos e há pouco acordada em mim pelo
casal António e Albertina num almoço de amigos em sua casa, na rua Rodrigues
de Freitas, onde me deram a conhecer um troço da viela, e, a partir daí
permitiu o reconhecimento de todo o seu percurso e da sua história.
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| À direita da Capela do Calvário, junto à sineira, situava-se a entrada da viela dos cavalos |
A viela dos cavalos compreendia o trajeto que os
militares, saídos do quartel com suas montadas, efetuavam entre o portão
lateral da capela do Calvário e o rio das Luzes. Imaginamos vê-los sair do
quartel, atravessar, em fila, a estrada que vem da Arruela, apontarem ao cimo
do Calvário, passando junto à residência do Dr. João José da Silveira (mais
tarde barbearia e sapataria Mendonça), serpenteando, seguidamente, pelas
traseiras das habitações até descer ao rio das Luzes, onde hoje está localizada
uma moderna ponte de madeira. A ruína da viela, hoje sem o movimento dos
equídeos, pode ser visitada nas traseiras do mercado municipal.
Alguns testemunhos
Conversei com algumas pessoas daquela área, sobre a
existência da viela, e registei alguns apontamentos.
José Almeida (Baeta), nascido em 1928, recorda conversas
com seu pai Zeferino Almeida, que assentou praça em 1917 no quartel do 3º batalhão,
não tardando a marchar para a Flandres (França), para combater contra os
alemães. O militar Zeferino Almeida foi um militar polivalente, fruto da
aprendizagem na escola da vida, pois substituiu os números e as letras pela
“escola” da Mercantil de Ovar, que, multidisciplinarmente, abarcava várias
artes e ofícios. Ali especializou-se na arte de serralharia, o que lhe valeu
na chancela do passaporte marchar das trincheiras para as oficinas. As horas
que lembrava desses dias distantes, longe da família, eram as dos dias em que
o estômago se colava às costas. O Sr. José Almeida revive, ainda hoje, algumas
lamentações do seu pai: a falta do abastecimento obrigava-o a colher produtos
hortícolas pelas terras da região para saciar a fome, e os guisados de
ervilhas, cozinhados com os enlatados de corn beef que os ingleses enviavam
para os seus militares produziam “estrelas Michelin”.
Maria da Silva Mendonça Peixoto, nascida em 1926, era
filha de João Maria Pereira Mendonça e de Maria Silva Mendonça, proprietários
da Barbearia e Sapataria Mendonça. (O prédio era da família Silveira, que
ocupava o piso superior). Recorda que o tio Manuel Silva, irmão da mãe, militar
no quartel, certo dia solicitou aos camaradas levar a montada até ao rio.
Aceite o pedido, subiu para o cavalo como mandam as regras. Pés nos estribos,
rédeas nas mãos, cavalo e cavaleiro lá seguiram em sincronia perfeita a
caminho do rio. Mas como no pelotão muita “mordomia” deixava a desejar e as
brincadeiras animavam o grupo, de repente o seu cavalo, refreado, assustou-se,
empinou-se e galopou, a grande velocidade, pela viela, em direção ao rio. Não
segurando a montada, e como a viela é estreita, o tio militar foi projetado
contra a parede, tendo chegado ao rio todo arranhado.
D. Maria Mendonça recorda ainda, da sua infância, os
dias passados na sapataria. O pai cortava os sapatos, a mãe gaspeava, e o
oficial fazia o acabamento. Continuando a lembrar factos da sua adolescência,
conta que o passal, a que chamavam palacete, e que tinha sido residência
paroquial, expropriado pelo regime liberal, foi vendido em 1912 em hasta
pública, tendo sido comprado por seu pai João Mendonça, já não se recorda a
quem. À morte deste, e tendo necessidade de realizar dinheiro para dar tornas
aos seus irmãos, a viúva vendeu a propriedade à família Bonifácio.
Com a morte do João Mendonça, o filho António Mendonça
(Toneca), que já trabalhava com o pai como barbeiro, seguiu o mesmo ofício,
encerrando a sapataria.
D. Maria refere ainda que seu irmão, o António “Toneca”,
que estava sempre pronto para a brincadeira, num dia empacotou cabelo de
clientes em onças simulando tabaco, colocando-as em lugares estratégicos, para
enganar os mais incautos.
João Mendonça, filho do Toneca e sobrinho de Maria
Mendonça Peixoto, que nasceu em 1930, não se lembra da viela, mas recorda-se
dos armazéns que existiam no terreno do Passal, com os seus rendeiros, e
recorda as filhas do Dr. João Semana, que o vestiam com as suas roupas de
fidalgas e lhe colocavam um coco na cabeça.
Maria dos Anjos da Silva, viúva do Sr. Abílio Santos,
nascida em 1930, recorda conversas em que o seu pai, Bernardo Pinto Garranas,
militar no quartel, contava que o pelotão realizava exercícios físicos no
exterior do quartel, e que ele próprio levava os cavalos ao rio.
José Matos, alfaiate reformado, nascido em 1928, e
Joaquim Pereira, que foi empregado do Toneca Mendonça, reformado, nascido em
1927, relatam uma história que circulava na barbearia. O comandante do Batalhão,
capitão Zeferino Camossa, deu a seguinte ordem aos militares do batalhão:
– Amanhã, o comandante do Exército vem visitar o quartel,
pelo que os militares devem apresentar a melhor roupa.
O Ti Zé Catita, militar, morador no lugar da Marinha,
rapaz bastante cómico e irónico, apresentou-se de fraque, cartola e pinguelim,
e formou na retaguarda do pelotão. Sendo interpelado pelo comandante sobre a
indumentária apresentada na presença do comandante do exército, exclamou :
– Oh! Sr. Major; não mandou trazer a melhor roupa na
visita do comandante do exército? É a melhor que tenho!...
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| Joaquim Fernandes Monteiro |
Por fim, uma lembrança contada pelo meu avô Joaquim Fernandes
Monteiro (1899-1978), que assentou praça no exército em 1919, um ano após o fim
da Grande Guerra.
O episódio ocorreu por altura da guerra da Traulitânia,
ou Monarquia do Norte. Os movimentos dos militares afetos ao regime monárquico
ainda fervilhavam no Norte de Portugal. Os militares formavam a primeira
barreira da defesa do jovem regime republicano, sendo colocados por locais
estratégicos, para controlarem as entradas de Ovar.
Certo dia, ainda os ponteiros do relógio marcavam as
primeiras horas do dia, os militares estavam distribuídos por grupos, em pontos
estratégicos da vila. No grupo do militar Joaquim Monteiro o silêncio imperava
quando, de repente, foi interrompido por um barulho que cortava a noite e se ia
aproximando. Os soldados mantinham-se atentos e a tensão aumentava a cada
segundo. Finalmente vislumbraram um vulto de mulher. Era uma pessoa idosa, que
abriu um diálogo com os militares.
– Que horas são?
– Oh! Minha santa, aonde vai a esta hora?
– Vou para a missa das almas….
– Volte para a cama, que ainda é muito cedo!