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1.8.17

OVAR – Origem etimológica

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2017)
TEXTO: M. Antonino Fernandes

Sobre a origem do topónimo Ovar, o P.e Miguel de Oliveira, em “Ovar na Idade Média”, houve por bem fazer uma pertinente recensão de cinco explicações, vulgarizadas em corografias, enciclopédias, etc., que ele tachou de falsas. Permito­-me recordá-las, em síntese:
1.ª - do verbo “Ovar – pôr ovos”, por Ovar “ficar na orla ma­rítima e servir de refúgio às aves”.
2.ª- = de Vale, por se estender num vale e os moradores trocarem o l por r e dizerem Bar por Vale;
3.ª - de Var, por haver em França um rio assim chamado, e os autores pensarem que se estabele­ceram aqui marinheiros franceses e lhe teriam dado também o nome de “Vila do Var”.
4.ª- do radical céltico balt, comparado com o grego bar e o árabe bahr, que daria o substantivo grego ò bar;
5.ª de Oduarii, antropónimo germânico, por haver na Galiza uma herdade chamada Ovar, que fora de um presor Oduário.
Ora a raiz Bal e Var, proposta nos n.º 2, 3 e 4, prova-se documen­talmente. Tanto assim que vemo-la bem clara na onomástica mevieval, já em 922, e, depois, em 1046, 1081, 1083 e 1151, primeiro como “porto de Obal” e seguidamente como “villa Obar” e “rio (ou ria) Ovar”. E, até mesmo arqueológica e cartograficamente, ela figura em “Lavara”, topónimo mencionado em Monarchia Lusitana, t. I, p. 130 verso, bem como em “Lava­re”, outro topónimo, sito na nossa costa marítima, entre as cidades Lancóbriga e Talábriga, como revelou Manuel Malícia em 1-8- 2013, no n.º 150 deste jornal.

DO ATLAS DE JOÃO TEIXEIRA (ALBERNAZ) - 1648
O mais prolífico cartógrafo português da 1.ª metade do século XVII
Sociedade de Geografia de Lisboa - Reservados 14 A-1

CLIQUE NO MAPA PARA AUMENTAR

Assim sendo, como se explica e justifica esta incontroversa raiz do topónimo Ovar?
Atendendo à sua situação ge­otopográfica, num amplo vale banhado pela ria e pelo mar, onde aportaram vários invasores, no­meadamente os Mouros, que do­minaram na área mais de 5 séculos, é natural que este vale fosse visto e nomeado por eles “ALBAHR”, pois este vocábulo significa “Lagoa e mar”, na lín­gua deles. A presença deles aqui é, aliás, também confirmada pelo topónimo ALMIARES, mencio­nado pelo sobredito P.e Miguel, o qual significa “celeiro, depósito de provisões”.
O dito vocábulo Albahr serviu também para nomear ALBUFEI­RA, no algarve, que se encontra em situação idêntica à de Ovar, e disso nos dão conta o Elucidário de Santa Rosa Viterbo e o Dicionário Onomástico de J. Pedro Machado.
De resto, o próprio P.e Miguel de Oliveira aponta-o no n.º 4, mas não se deu ao trabalho de o aproveitar e explorar, o que acho estranho, pois não tenho a menor dúvida sobre a origem árabe deste radical de Ovar.
Mas, o problema fundamental, em que esbarraram as sobreditas explicações, foi a origem do prefi­xo Ò (aberto), para o qual chamou a atenção o mesmo autor de “Ovar na Idade Média”.
O certo é que o prefixo ò é uma contração oral de ao e este ao resulta da junção da preposição latina ad com o artigo árabe Al, que “he huma partícula inseparável dum nome e serve para todos os géneros, números e casos”, como esclarece Frei Joan de Souza, em “Vestígios da língua Arábica”, pág. VIII. Este artigo Al deu la e le, em francês, donde se escrever Lavara e Lavare, já referidos; e os artigos definidos a e o, em vernáculo, os quais, juntos com ad, que perdeu o d por apócope, se aglutinaram em à (= aa) e ò (= ao). Isto, desde longa data, na língua oral, donde ser vulgar dizer-se: vou à ria; vou ò mar, vou ò Porto, etc.
Fica, assim, esclarecido e jus­tificado aquilo que os intérpretes, na sua visão onomástica, não atinaram.
É que o típico OVAR fala-nos duma origem histórica remota, que tem raízes profundas no mar. Disso não tenho a menor dúvida, nem receio contraditas.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de julho de 2017)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/08/ovar-origem-etimologica.html

ADENDA -----------------------------------------



Leia AQUI mais informação sobre este Atlas do século XVII 

[clique nos links]


Na edição de 1960 dos Portugaliae Monumenta Cartographica é dado a conhecer um pequeno atlas de Luís Teixeira, que descreve a costa de Portugal, datado de 1648. Na época foram identificados quatro exemplares e mais uma cópia do mesmo. Na Nationalbibliothek de Viena existem dois exemplares deste atlas. No British Museum, em Londres existe um outro exemplar. Finalmente, em Portugal tinha sido também encontrado um exemplar, que se encontra na Sociedade de Geografia de Lisboa.


22.2.17

A mais antiga história de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2017)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

A Trupe de Reis JOC/LOC de Ovar apresentou este ano, como primeiro número do seu programa (saudação), um texto baseado num documento histórico de Ovar datado de 28 de abril de 1026, e que vem publicado (em latim e em português) nas páginas 36, 37 e 38 da obra “Ovar na Idade Média” (C.M. Ovar, 1967) do historiador vareiro padre Miguel de Oliveira.


CLIQUE na gravura para aumentar

Do texto original reproduzimos parte da tradução portuguesa:
“Cristo. Em nome de Deus, eu Meitili, faço-te a ti, Octício carta de venda de toda a quarta parte das nossas propriedades, que possuí­mos por herança de pais e avós, na vila de Cabanões e em Muradões, sob o monte Castro de Recarei, no território da cividade de Santa Maria, junto do curso do rio Ovar (…) porque nos resgataste do cati­veiro a mim Meitili e a minha filha Guncina e nos tirastes das barcas dos Normandos, dando por nós um manto de pele de lobo, uma espada, uma camisa, três lenços, uma vaca e três moios de sal, tudo no valor de 70 módios, em presença dos próprios senhores que moravam na casa de Santa Maria da Civi­dade, Tedom, Galindes, Fernando Gonçalves e Erro Teles, e do preço nada deixaste de pagar. (…) E eu Meitili reboro por minha mão esta carta de venda, perante as testemu­nhas presentes: Ederónio, Cáceme, Erigo, David, Songemiro. Notário, o abade Vasco”.
(O Castro de Recarei situa­-se em S. Martinho da Gândara. Cássemes é o nome de um lugar de S. Vicente de Pereira. A Casa de Santa Maria da Cividade é o Castelo da Feira.)

A mais antiga história de Ovar

Voz: Este ano, em noite de Reis,
Diferente é o nosso saudar,
Trazendo à memória
A mais velha história
Da antiga terra de Ovar.

Coro: Há mil anos, em mil e vinte e seis,
Cumprindo dura sina,
Vão p’ra o mar,
De canastra e rapichéis,
Meitili e Guncina.
Noite de abril. Cobre o mar
Um céu de anil,
E num esteiro há um veleiro
Com piratas a espiar.

Trupe de Reis JOC/LOC 2017
(Foto: Fernando Pinto)
Voz: É um bando normando
Que assalta e rapina,

Coro: Que prende Meitili e Guncina.

Coro: O sol já brilha,
No veleiro há um debate
– Maravilha! – mãe e filha
Vão obter o seu resgate.

Voz: E um jovem pirata
Vendo tão bela donzela,

Coro: Suspira ficar cativo dela.

Voz: Este ano, na noite de Reis,
Diferente é o nosso saudar,
Trazendo à memória
Amais velha história
Da antiga terra de Ovar.

Coro: Há mil anos, em tarde de abril,
Finda tão dura sina,
Deixam o barco e o bando normando
Meitili e Guncina.
A um certo Octício,
Deram terras, p’ra as livrar,
Em Cabanões e Muradões,
Junto do rio Ovar.

Voz: E o bando normando
Alto preço determina

Coro: P’ra soltar Meitili e Guncina:
Uma espada,
Um manto de pele lupina,
Uma camisa, um animal
E muitos módios de sal.

Voz: Quando no esteiro há nevoeiro,
A voz do mar
Fala de um pirata a suspirar…

Letra de Manuel Pires Bastos

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/a-mais-antiga-historia-de-ovar.html



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5.3.16

Recordando a “Casa do Concelho de Ovar em Lisboa”

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2006)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Lisboa, como todas as grandes cidades cosmopolitas, acolhe dentro dos seus muros pessoas oriundas de localidades nacionais e estrangeiras que, para poderem confraternizar mais assiduamente com os seus conterrâneos, fundam colectividades.
Na capital existiam, em 1950, entre outras, as “Casas de Arganil”, das “Beiras”, do “Alentejo”. Talvez por isso, José Augusto da Cunha Lima insistiu, desde então, numa campanha, a que o extinto semanário “Notícias de Ovar” deu cobertura, para que fosse fundada a “Casa do Concelho de Ovar em Lisboa”.


Teve lugar em 19 de Junho de 1952 uma primeira reunião de ilustres ovarenses que aderiram a esta causa, tendo sido ali constituída uma comissão organizadora, formada pelos seguintes bairristas vareiros: Afonso Pereira de Carvalho, António Pinho Branco, Armando Oliveira Soares, Artur de Oliveira Faneco, Francisco de Oliveira Faneco, José André Redes, José Augusto da Cunha Lima, Manuel de Oliveira Ventura e Pelágio José Ramos.
Assim se fundava, em Junho de 1952, a “Casa do Concelho de Ovar em Lisboa”. As primeiras reuniões foram realizadas ao ar livre, beneficiando do arvoredo amigo de uma esplanada da Avenida da Liberdade. Posteriormente, realizaram-se na federação da Sociedade de Recreio, à Rua da Palma, onde reuniu a primeira Assembleia Geral, para aprovar os seus Estatutos. A Secretaria ficou instalada na casa de João André Boturão e, depois, na de Artur de Oliveira Faneco.

Num dos passeios fluviais a Vila Franca de Xira

A primeira sede situou-se no 3.º andar do prédio n.º 54 da Avenida da Liberdade. Mais tarde, a 15 de Março de 1959, em sessão solene presidida pelo Presidente da Câmara Municipal de Ovar dessa época, foi inaugurada uma nova sede na Calçada dos Santos, nº 37, 1º andar, junto à Igreja de Santos-o-Velho e aos jardins da embaixada de França, no coração da Madragoa, onde residiram e ainda residem tantos conterrâneos nossos, muitos deles lá registados pelos baptismo ou matrimónio naquele vetusto templo, em diversas gerações.
Em Dezembro de 1953 a Casa tinha 526 sócios. Em 18 de Junho de 1955 cantou-se pela 1.ª vez o hino da colectividade, com música do Dr. Elísio de Matos e letra do Dr. António Rasgado Rodrigues: ‘Nos quatro cantos do mundo, / Gente de Ovar se perdeu; / e o seu amor vagabundo, / Jamais a Pátria esqueceu’. Foi ensaiado pelo Dr. Elísio de Matos, na sua própria casa, a um grupo coral de homens e senhoras membros da Agremiação, grupo esse que viria a actuar na sede própria, na Avenida da Liberdade, então sob regência do Sr. Covas.

Exercerem a presidência da direcção da “Casa do Concelho de Ovar em Lisboa”:
1 - Dr. Albino Borges de Pinho (1953-1957)
2 - Mário André Boturão (1959-1962)
3 - José Augusto da Cunha Lima (1963-1966)
4 - Salviano Zagalo de Lima (1967-1970)
5 - José Augusto da Cunha Lima (1971-1972, pela 2.ª vez)

Nos primeiros anos após a sua fundação, tendo como presidente o Dr. Albino Borges de Pinho, a Casa atingiu o período mais brilhante da sua existência, organizando grandes eventos, entre os quais as visitas a Ovar da Imprensa Diária (em 27 e 28 de Junho de 1953), do Núncio Apostólico D. Fernando Cento (6 de Junho de 1954), dos conferencistas Dr. António Luís Gomes (20 de Março de 1954), do escritor do jornal “O Século” Adelino Mendes (12 de Maio 1956), o Encontro (Setembro de 1953), e o Comboio da Saudade…

Visita do Cardeal Cento a Ovar (Chegada à Igreja Matriz)

Pela Páscoa, a Direcção comprava à Sr.ª Teresa da Olaria, fabricante de roscas doces, grande quantidade dessa especialidade vareira para ser distribuída pelos vareirinhos mais necessitados da capital, e nas festas natalícias fornecia géneros alimentícios aos ovarenses lisboetas mais carenciados. Anualmente, no Verão, organizava um passeio fluvial pelo rio Tejo, até Vila Franca de Xira, para sócios e seus familiares, juntando dessa maneira muita gente de Ovar, que dançava e cantava as cantigas da sua terra, numa alegre confraternização que durava enquanto o sol não se escondia.

Na Páscoa, distribuindo as roscas da Sr.ª Teresa da Olaria

A sede, na Avenida da Liberdade, foi algumas vezes visitada pela nossa conterrânea Maria Albertina, grande nome do fado e do teatro, que gostava de conversar com as pessoas mais idosas, recordando, com elas, os tempos antigos da sua infância…

Grupo Coral da Casa da da Comarca de Ovar em visita ao Estádio Nacional

Quando o Orfeão de Ovar se deslocou a Lisboa para apresentar, no Parque Mayer, em 16, 17 e 18 de Junho de 1956, a Revista “Aqui Ovar!”, a Casa do Concelho alugou um coche puxado por cavalos, que percorreu as ruas mais importantes da capital com uma tripulação de quatro jovens vestidas à varina, fazendo reclamo ao espectáculo. Ao apreciarem as nossas beldades vareiras, as pessoas de Lisboa dirigiam-lhes piropos, como este: – Se a Revista for tão bonita como as varinas do coche, vale a pena ir vê-la ao Teatro Variedades!...


Em 1955, por iniciativa de Elias Rodrigues Abade, funcionou nas instalações do Centro Vidreiro (antiga fábrica da Varina), ao sul da Praia do Furadouro, uma Colónia Balnear Infantil da Casa do Concelho de Ovar em Lisboa. Mais tarde, em 21 de Junho de 1958, nas comemorações do 6.º aniversário da colectividade, o Dr. João de Araújo Correia proferiu na sede da Casa do Concelho, na Avenida da Liberdade, uma brilhante conferência intitulada “Há Sal na Régua”, que encantou a todos presentes, e cujo texto está totalmente transcrito no “Boletim da Casa do Concelho de Ovar” de Julho de 1958, sendo publicado em separata, merecendo que se faça uma nova edição, para ser mais divulgado na nossa terra!...
A 27 de Janeiro de 1973, a Assembleia Geral da “Casa do Concelho de Ovar em Lisboa”, na sequência duma crise de dirigentes e do desinteresse da maior parte dos sócios, decidiu dissolver aquela Associação, que durou pouco mais de 20 anos.

Foram presidentes da Assembleia Geral da Casa do Concelho de Ovar em Lisboa:
1 - Major Manuel Gomes Duarte Pereira Coentro (1953-1954)
2 - Dr. Luís Valente da Silva (1955-1956), que faleceu Juiz Desembargador.
3 - António Coentro de Pinho (1957-1973)

A Casa acabou, como dizia o Sr. António Coentro de Pinho no “Notícias de Ovar” de 18/02/1988, “por terem falecido ou desistido muitas das suas dedicações, por falta de saúde de uns e cansaço de outros, e o desinteresse acentuou-se e a Casa do Concelho extinguiu-se, quase sem se saber como e porquê!...”
Eu diria que o principal porquê da extinção da Casa foi, precisamente, o falecimento das dedicações vareiras, daqueles que emigraram para Lisboa na primeira metade do século XX, porque actualmente já quase só existem na capital vareiros de 2.ª, 3.ª e 4.ª geração, os quais, embora tenham raízes ovarenses, já não manifestam por Ovar aquele acrisolado amor que os seus progenitores profundamente sentiram…

Fontes de informação: “Monografia de Ovar” e depoimentos de antigos sócios da colectividade.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Dezembro de 2006)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/03/recordando-casa-do-concelho-de-ovar-em.html

19.1.16

Ovar num mapa do século XVI

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2015)
TEXTO: Manuel Bernardo

“Em 1999 foi publicada a repro­dução de um fragmento manuscrito de Portugal, desenhado a cores sobre pergaminho, conservado na Real Academia de la Historia de Madrid, que mede 31,5 x 21 cm e foi utilizado para consolidar a capa de um livro, ainda não identificado…”[1].
Suzanne Daveau teve a oportu­nidade de analisar esse documento, publicando sobre ele o estudo “O fragmento de mapa corográfico de Portugal da Real Academia de la Historia de Madrid. Fases de realização e utilização” no n.º 26/27 – 2007-2008 dos Cadernos de Geografia (Coimbra, FLUC).
Uma cópia digital (de 2010) do fragmento do mapa em questão encontra-se disponível on-line, no site da Real Academia de la Historia de Madrid.
Trata-se de um mapa extraor­dinariamente interessante, onde a (então) vila de Ovar vem assinalada, assim como a povoação de Dagarei.

Ovar num mapa do século XVI

Na ficha catalográfica da Real Academia de la Historia de Madrid há textos que atribuem a este docu­mento uma data anterior à de um outro mapa que tem sido, até hoje, considerado como o mais antigo do território continental português – o chamado “Portugal Deitado”, de Fernando Lavro Seco (c. 1560)[2].
Não é essa, no entanto, a opinião muito bem fundamentada de Suzan­ne Daveau, que afirma que se trata de uma cópia do mapa padrão de Portugal, sendo, portanto, posterior (1570?).
Seja como fora, trata-se de uma bela obra cartográfica do século XVI e é, seguramente, uma das primeiras representações de Ovar no mapa de Portugal. Se não a mais antiga, seguramente, a mais bonita.

Pormenor do fragmento do mapa de Portugal do séc. XVI com a referência a Ovar
e a Dagarei (zona sul de Válega), bem como à costa de Matosinhos a Vagos

[1] DAVEAU, Suzanne, O Frag­mento de mapa corográfico de Portu­gal da Real Academia de la Historia de Madrid, Fases de realização e de utilização, in Cadernos de Geografia, n.ºs 26/27 – 2007 – 2008, FLUC, p. 3. A publicação foi feita por Carmen Manso Porto na obra Cartografia Histórica Portuguesa. Catálogo de Manuscritos (siglos XVII-XVIII), Real Academia de la Historia, Madrid, 1999.

[2] Ver “Dagarei e Ovar no primeiro mapa impresso de Portugal” (João Semana, de 15/03/2006), ou ir a http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/10/dagarei-no-primeiro-mapa-impresso-de.html

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de dezembro de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/01/ovar-num-mapa-do-seculo-xvi.html

22.4.15

O Foral de Ovar, D. Duarte Nuno, os Huet, a Quinta do Búzio

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2014)
TEXTO: Álvaro Ribeiro

D. Duarte Pio agradecendo ao Dr. Álvaro Ribeiro a entrega
de um livro histórico que este tinha em sua posse
Levou a efeito, no dia 10 de Fevereiro passado, a Câmara Municipal de Ovar a cele­bração solene dos 500 anos dos Forais Manuelinos de Ovar, Pereira Jusã e Cortegaça, tendo como convidado de honra sua Alteza Real D. Duarte Nuno, descendente da ilustre família da Casa de Bragança.
Tal presença suscitou-me, de imediato, inúmeras razões para estar presente.

Deparando com as palavras de seu pai, enternecido, fixou-as com os olhos e, abrindo os lábios, pronun­ciou as seguintes palavras: “O meu pai tinha uma escrita muito bonita”.
De seguida, fixando-me, sur­preso, porque o tempo urgia, não esperei perguntas e interroguei: – “Lembra-se de Ancede? Casa de Penalva? Azaredos? (Pronunciei outros nomes que no momento foram lembrados).
– “Claro que sim”, responde ele. “Lembra-se das férias ali passadas com seu irmão, e do contacto com a minha pessoa? Num desses contac­tos, esqueceu-se V. Alteza deste missal, que há dois anos, numa remodelação do escritório, encon­trei e guardei com carinho, à espera de uma oportu­nidade para lho entregar. A opor­tunidade chegou e, por isso, aqui estou e lho entre­go, graças à sim­pática atenção do ilustre Presidente da Câmara”.
Seguidamente, entreguei­-lhe, com uma dedicatória adequada, o livro que escrevi e que daí a dias seria publi­camente apresentado sobre a minha terra: “Maceda – Um Marco Histórico”.
Assisti à sessão de manhã e, no final, após agradecer ao Sr. Presidente da Câmara a oportunidade que me pro­porcionara, fui abordado por elementos da Casa Real, que me pediram dados relaciona­dos com os encontros dessa época. Entregando-me um cartão, prometeram-me breve contacto, confirmado por sua Alteza num cumprimento final.
As voltas que a vida dá! Então recordei épocas distantes! A perda da nossa Independência (1580), o domínio Filipino, a Restauração e o espírito latente de libertação, bem co­nhecido de Filipe III de Portugal (IV de Espanha) que, prevendo a revolta, prendeu e mandou para o exílio, em Milão, o primogénito D. Duarte.
E agora o intrigante: Em Milão teve D. Duarte como aio o bretão Cláudio Huet, que serviu devota­mente o seu senhor até à sua morte, e a quem o mesmo dedicou grande afeto, oferecendo-lhe diversos benefícios e, sobretudo, sendo padrinho do seu Crisma, a pedido do interessado, e dando-lhe, nesse sacramento, o seu próprio nome, passando o aio a chamar-se Duarte Cláudio Huet.

Capela de S. António, da Quinta do Búzio, Paços de Gaiolo, Marco de Canavezes,
que foi da família Huet e que hoje pertence ao autor deste texto

Morto o seu padrinho, Duarte Cláudio Huet acompanhou o seu féretro a Portugal, já de novo país independente, tendo como rei seu irmão, que o cumulou de bens em várias terras, sobretudo em Riba­douro, Resende, São João de Fon­toura, Anriade, Aregos, etc., bem como no Marco de Canavezes, em terras de Beira-Rio, com as Quintas de Portela, Búzio e Alijó.
E, agora, vejam os leitores: a Quinta do Búzio é hoje propriedade do autor deste texto, comprada, em 1972, a José Duarte Huet Sousa Pinto Cochofel, um dos herdeiros de D. Maria Brígida Huet Pinto.
Dá ou não dá, caro leitor, a vida muitas voltas? Para o confirmar, é bom lembrar que os Huet Bacelar são personagens nobres e ilustres, alguns dos quais viveram na sede do nosso concelho, Ovar, bem como nas terras vizinhas de São Vicente de Pereira e Souto.
Fiquemos por aqui, com a intenção de voltar ao tema, so­bretudo tendo em atenção o nome do Doutor António Luís Gomes, também ligado à Casa de Bragan­ça e fundador da obra social de S. Martinho da Gândara, cujas crian­ças vinham passar férias ao edifício então chamado Centro Vidreiro, no Furadouro, já destruído, e onde o autor se relacionou com aquele benemérito.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/04/o-foral-de-ovar-d-duarte-nuno-os-huet.html

22.1.15

MARAGE – Uma família do mar

Ovar tem o seu chão assente sobre a areia que há milénios foi fundo do mar. Hoje, e desde há séculos, a seis quilómetros da costa, os ova­renses respiram a maresia que lhes invade o sangue e lhes estimula a alma, fazendo chegar às mais distantes paragens do país o seu nome honrado, aí criando novas raízes.
É o caso das famílias Oliveira Alegre e Marage que, segundo a investigação de um descendente, o engenheiro Manuel Alegre, levaram a arte da xávega e os negócios da pesca para outras praias da nossa costa, chegando alguns deles a cruzar o Atlântico como intrépidos timoneiros de navios mercantes. (M. P. B.)

Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2014)
TEXTO: Fernando M. Oliveira Pinto

O jornal “João Semana”, em parceria com o Museu de Ovar e a Câmara Municipal, organizaram uma palestra no dia 28 de agos­to de 2014, orientada pelo engenheiro Manuel Alegre , da Universidade do Algarve e distinto genealogista, sobre o contributo de famílias vareiras na atividade piscatória em Portugal e com ramificações em vários pontos do mundo, com referência privilegiada à “Família Marage” (na gravura), do­cumentada desde o século XVIII.

Engenheiro Manuel Alegre
FOTO: Fernando Pinto
“Quero agradecer a amabilida­de que tiveram na pessoa do Sr. Aba­de, Manuel Pires Bastos, por me ter convidado para estar aqui presente para conversar com vocês sobre al­gumas coisas que estão intimamente ligadas com Ovar”, disse o enge­nheiro Manuel Alegre no início da sua apresentação, confessando que teve vários momentos gratificantes ao entrar no Museu: “Primeiro, co­meçou com este cartaz. Está espe­tacular. O segundo encantamento que tive foi o de rever o meu antigo colega de estudo [Engenheiro Pedro Braga da Cruz] que já não via há muitos anos”, disse Manuel alegre.
Deixamos-lhe alguns extratos da intervenção do engenheiro Manuel Alegre, que esperamos venha a ter eco em obra editada:
“Aproveitava agora para conver­sarmos um pouco sobre uma coisa que eu há cinco anos atrás desconhe­cia totalmente dentro da minha famí­lia. Vivi numa casa com nove pes­soas. Dessas pessoas só estão vivos o meu irmão e a minha tia. Comecei aos poucos à procura, mas não que­ria fazer o trabalho que normalmente é feito pelos genealogistas. Queria aliar aos nomes que ia encontrando a história de cada uma das pessoas.
Vim aqui para falar da família Marage. A minha família chama-se Oliveira Alegre Marage, mas só é Marage a partir de determinada altu­ra. Antes, era sempre Oliveira Alegre ou Fernandes Alegre, Costa Alegre ou Ricardo Alegre.
De onde é que vêm estas fa­mílias? De Ovar. Provêm de terras vizinhas, como Beduído, Bunheiro e Pardilhó, que encadearam pessoas de Ovar e que aqui ficam 400 anos. Fui pesquisar e consegui encontrar Ma­rages em França, na Alemanha, em Itália e no Condado Portucalense. Depois, no sul de Espanha, no norte de África, na Arábia Saudita... O ano mais recuado a que consegui che­gar foi o de 634. Por volta de 1820 há uma crise generalizada: fome na pesca do arrasto, crise de morte nas famílias miseráveis, vítimas do palu­dismo por causa da cultura do arroz. As pessoas fugiam da morte. E para onde é que foram? Por acaso, desco­bri que foram para Tentúgal (Monte­mor-o-Velho). Porque andavam aqui na Ria, e o trabalho que faziam em Ovar era muito parecido com o que iriam fazer no Mondego. E ficam em Tentúgal durante 5 ou 6 anos. Nas­cem ali uma série de filhos. De um momento para o outro, dão um salto. Vão para Lordelo do Ouro ou para a vizinha Foz do Douro. Estão lá dois séculos. Depois vão para África. Al­guns, não todos. Há mui­tos que morrem na Foz.
(...) Contactei o jornal dos Pesca­dores de Matosinhos que me ofere­ceram a base de dados dos pescado­res. As mulheres Alegre quais são? São as que saem de Ovar e que vão para Matosinhos, e que depois casam com senhores que vêm de Lavra; e ficam por lá 150 anos. (...) Depois vão para Lisboa, mas lá é muito di­fícil de pesquisar, porque, como os fragateiros viviam nas suas fraga­tas, os filhos eram registados onde eles estavam atracados no Tejo. Em Belém, ou noutra freguesia onde es­tivessem a trabalhar. E depois, há os que dão um salto para o Brasil e para os Estados Unidos. Eu sei o percur­so de todos eles, mas o núcleo cen­tral está em Ovar. O primeiro nome que me apareceu foi o do Francisco Oliveira Marage, casado com Maria Ferreira, da Lagoa dos Campos, na Igreja de S. Cristóvão de Ovar, em 12 de setembro de 1837. Investigar estas pessoas demora muito tempo. É um trabalho ciclópico, mas que merece ser publicado em livro.

O engenheiro Manuel Alegre e dois elementos da família Marage
trocando memórias familiares - FOTO: Fernando Pinto

MARAGE. Apelido ou alcu­nha? Na minha família é uma al­cunha de certeza absoluta. Através do Sr. José de Oliveira Neves tive a felicidade de conhecer a D. Maria de Lurdes (na foto, em cima). Ela não tem o Alegre, mas sim o Mara­ge. O Alegre é que passou a ser a alcunha dela. O avô do avô da se­nhora Maria e o meu, são a mesma pessoa.
(...) Há os Alegres que foram para Matosinhos (as mulheres); há os Alegres que foram para a Foz do Douro (homens); e depois há os Alegres que ficaram em Ovar, e des­ses que ficaram aqui nesta terra des­cendem os Marages comerciantes de sardinha em Matosinhos. Muitos deles partiram para o Brasil. Já in­vestiguei alguns, mas não chego a todos. E porquê? Como são recen­tes, chegamos a 1911 e, por direti­vas civis, o registo dos nascimentos, casamentos e óbitos, passou para o Registo Civil, que não são de acesso fácil.

O engenheiro Manuel Alegre acompanhado de Ilda Oliveira Elvas (“Marage”)
e de João Elvas, seu marido (colaborador do jornal “João Semana”)
FOTO: Fernando Pinto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de setembro de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/01/marage-uma-familia-do-mar.html

17.1.15

Onde ficava a viela dos cavalos

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2014)
TEXTO: Joaquim Fidalgo

Largo dos Combatentes, ao tempo do Quartel,
e do antigo Teatro Ovarense
O largo dos Combatentes, localizado a nascente da cidade de Ovar, no antigo bairro de S. Pedro, onde se situava o Teatro Ovarense, era, no princípio do século XX, ponto de encontro das famílias vareiras na correria para o folguedo domingueiro.
Folheei a Monografia de Ovar do Dr. Alberto Lamy, fiz um périplo imaginário pelo bairro, e respirei história. Sentei-me num banco do jardim e, recuando no tempo, olhei em redor. O largo estava cercado por um conjunto de edifícios que denunciavam o desenvolvimento económico e cultural da vila, dividida em dois grandes polos. No primeiro, localizado junto da Câmara Municipal, centrava-se o poder político e económico. No segundo estava edificado um conjunto de equipamentos que promoviam e prestigiavam a vila. O Colégio Ovarense, fundado por António Dias Simões (1918-1929), o hospital, fundado pelo vigário João de Sequeira Monterroso e Melo (1814-1911), a fonte do hospital (1814), o Teatro Ovarense (1875-2000), a residência paroquial e o passal (1769-1853), a capela do Calvário (1872), e, por fim a residência do médico João José da Silveira, o João Semana das “Pupilas do Senhor Reitor”.
A minha ida ao largo partiu da necessidade de ir no encalço de uma viela outrora famosa, mas hoje desconhecida dos vareiros: a viela dos cavalos.

De Hospital a Quartel

A viela dos cavalos, por tradição oral chegada aos nossos dias, ficava localizada no Largo dos Combatentes da Grande Guerra, não existindo re­gistos documentais sobre ela. Pessoas idosas da cidade, interpeladas por mim, já nem se lembram de, no espaço ocu­pado pelo atual centro educativo, terem estado aquartelados, nos princípios do século XX, os soldados do 3.º batalhão do Regimento 24 de Aveiro. Mas há quem recorde histórias contadas à lareira pelos seus antepassados acerca dos exercícios militares executados no largo, a que a população assistia com regozijo.
Aquele edifício, que nos princípios do século XIX (1814) fora construído para servir como hospital, transitou provisoriamente, em fevereiro de 1911, por cedência da Câmara, para a Santa Casa da Misericórdia.
Em 1911, após a mudança do hos­pital municipal para a nova casa, que até 1910 fora Colégio das Religiosas Doroteias (1911), a Câmara Municipal, disponibilizou as antigas instalações do largo para ali instalar o quartel, indo ao encontro do governo, a quem, para estender e enraizar no território o ideal republicano, interessava a descentrali­zação dos quarteis pelo país.
Uma vez colocados em Ovar, militares e oficiais, sacudiram a Vila com o novo estilo de viver o dia-a­-dia. Um dos ecos chegados até nós a propósito desse viver, foi uma vaga referência a uma viela dos cavalos, que ouvi há cerca de quarenta anos e há pouco acordada em mim pelo casal António e Albertina num al­moço de amigos em sua casa, na rua Rodrigues de Freitas, onde me deram a conhecer um troço da viela, e, a par­tir daí permitiu o reconhecimento de todo o seu percurso e da sua história.

À direita da Capela do Calvário, junto à sineira, situava-se a entrada da viela dos cavalos

A viela dos cavalos compreendia o trajeto que os militares, saídos do quartel com suas montadas, efetuavam entre o portão lateral da capela do Calvário e o rio das Luzes. Imaginamos vê-los sair do quartel, atravessar, em fila, a estrada que vem da Arruela, apontarem ao cimo do Calvário, passando junto à residência do Dr. João José da Silveira (mais tarde barbearia e sapataria Mendon­ça), serpenteando, seguidamente, pelas traseiras das habitações até descer ao rio das Luzes, onde hoje está localizada uma moderna ponte de madeira. A ruína da viela, hoje sem o movimento dos equídeos, pode ser visitada nas traseiras do mercado municipal.

Alguns testemunhos

Conversei com algumas pessoas daquela área, sobre a existência da viela, e registei alguns apontamentos.
José Almeida (Baeta), nascido em 1928, recorda conversas com seu pai Zeferino Almeida, que assentou praça em 1917 no quartel do 3º ba­talhão, não tardando a marchar para a Flandres (França), para combater contra os alemães. O militar Zeferino Almeida foi um militar polivalente, fruto da aprendizagem na escola da vida, pois substituiu os números e as letras pela “escola” da Mercantil de Ovar, que, multidisciplinarmente, abarcava várias artes e ofícios. Ali especializou-se na arte de serralha­ria, o que lhe valeu na chancela do passaporte marchar das trincheiras para as oficinas. As horas que lem­brava desses dias distantes, longe da família, eram as dos dias em que o estômago se colava às costas. O Sr. José Almeida revive, ainda hoje, algumas lamentações do seu pai: a falta do abastecimento obrigava-o a colher produtos hortícolas pelas terras da região para saciar a fome, e os guisados de ervilhas, cozinhados com os enlatados de corn beef que os ingleses enviavam para os seus mili­tares produziam “estrelas Michelin”.
Maria da Silva Mendonça Pei­xoto, nascida em 1926, era filha de João Maria Pereira Mendonça e de Maria Silva Mendonça, proprietários da Barbearia e Sapataria Mendonça. (O prédio era da família Silveira, que ocupava o piso superior). Recorda que o tio Manuel Silva, irmão da mãe, militar no quartel, certo dia solicitou aos camaradas levar a montada até ao rio. Aceite o pedido, subiu para o cavalo como mandam as regras. Pés nos estribos, rédeas nas mãos, cavalo e cavaleiro lá seguiram em sincro­nia perfeita a caminho do rio. Mas como no pelotão muita “mordomia” deixava a desejar e as brincadeiras animavam o grupo, de repente o seu cavalo, refreado, assustou-se, empinou-se e galopou, a grande velocidade, pela viela, em direção ao rio. Não segurando a montada, e como a viela é estreita, o tio militar foi projetado contra a parede, tendo chegado ao rio todo arranhado.
D. Maria Mendonça recorda ain­da, da sua infância, os dias passados na sapataria. O pai cortava os sapatos, a mãe gaspeava, e o oficial fazia o acabamento. Continuando a lembrar factos da sua adolescência, conta que o passal, a que chamavam palacete, e que tinha sido residência paroquial, expropriado pelo regime liberal, foi vendido em 1912 em hasta pública, tendo sido comprado por seu pai João Mendonça, já não se recorda a quem. À morte deste, e tendo necessidade de realizar dinheiro para dar tornas aos seus irmãos, a viúva vendeu a propriedade à família Bonifácio.
Com a morte do João Mendonça, o filho António Mendonça (Toneca), que já trabalhava com o pai como barbeiro, seguiu o mesmo ofício, encerrando a sapataria.
D. Maria refere ainda que seu irmão, o António “Toneca”, que estava sempre pronto para a brinca­deira, num dia empacotou cabelo de clientes em onças simulando tabaco, colocando-as em lugares estratégicos, para enganar os mais incautos.
João Mendonça, filho do Toneca e sobrinho de Maria Mendonça Pei­xoto, que nasceu em 1930, não se lembra da viela, mas recorda-se dos armazéns que existiam no terreno do Passal, com os seus rendeiros, e recorda as filhas do Dr. João Semana, que o vestiam com as suas roupas de fidalgas e lhe colocavam um coco na cabeça.
Maria dos Anjos da Silva, viúva do Sr. Abílio Santos, nascida em 1930, recorda conversas em que o seu pai, Bernardo Pinto Garranas, militar no quartel, contava que o pelotão re­alizava exercícios físicos no exterior do quartel, e que ele próprio levava os cavalos ao rio.
José Matos, alfaiate reformado, nascido em 1928, e Joaquim Pereira, que foi empregado do Toneca Men­donça, reformado, nascido em 1927, relatam uma história que circulava na barbearia. O comandante do Ba­talhão, capitão Zeferino Camossa, deu a seguinte ordem aos militares do batalhão:
– Amanhã, o comandante do Exército vem visitar o quartel, pelo que os militares devem apresentar a melhor roupa.
O Ti Zé Catita, militar, morador no lugar da Marinha, rapaz bastante cómico e irónico, apresentou-se de fraque, cartola e pinguelim, e formou na retaguarda do pelotão. Sendo interpelado pelo comandante sobre a indumentária apresentada na presença do comandante do exército, exclamou :
– Oh! Sr. Major; não mandou trazer a melhor roupa na visita do comandante do exército? É a melhor que tenho!...
Joaquim Fernandes Monteiro
Por fim, uma lembrança contada pelo meu avô Joaquim Fernandes Monteiro (1899-1978), que assentou praça no exército em 1919, um ano após o fim da Grande Guerra.
O episódio ocorreu por altura da guerra da Traulitânia, ou Monarquia do Norte. Os movimentos dos milita­res afetos ao regime monárquico ain­da fervilhavam no Norte de Portugal. Os militares formavam a primeira barreira da defesa do jovem regime republicano, sendo colocados por locais estratégicos, para controlarem as entradas de Ovar.
Certo dia, ainda os ponteiros do relógio marcavam as primeiras horas do dia, os militares estavam distribuídos por grupos, em pontos estratégicos da vila. No grupo do militar Joaquim Monteiro o silêncio imperava quando, de repente, foi interrompido por um barulho que cortava a noite e se ia aproximando. Os soldados mantinham-se atentos e a tensão aumentava a cada segundo. Finalmente vislumbraram um vulto de mulher. Era uma pessoa idosa, que abriu um diálogo com os militares.
– Que horas são?
– Oh! Minha santa, aonde vai a esta hora?
– Vou para a missa das almas….
– Volte para a cama, que ainda é muito cedo!
O quartel do 3.º batalhão do Regimento de Infantaria 24 manteve­-se em Ovar, até ao fim da Primeira República (1926).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de dezembro de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/01/onde-ficava-viela-dos-cavalos.html

22.9.14

Histórias da Vela na Ria de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2003)
TEXTO: Helder Ventura

2 – Ventos do Norte
O Prof. José Hermano Saraiva no seu périplo pelos Horizontes da Memória passou por Ovar, e deste modo lá tivemos direito a umas tantas palavras do nosso melhor diseur da História.

Barcos normandos do século X (tapeçaria)
Os Normandos – Vikings
Esquecendo as imprecisões dos moios[1], que nas palavras do Prof. passaram de sal a arroz, mas que são efectivamente de sal, este identificou-nos como descendentes de Normandos.
De facto, confirmou o que já sabíamos, pois, ao deambular pelo Furadouro, ao Sul, pelo Lamarão, pela Rua Velha ou pela Ribeira, os nossos olhos confirmarão repetidas vezes, pelo porte, estatura, olhos e cabelos das pessoas que por ali vivem, a presença dos nossos ascendentes nórdicos.
No ano de 2000, ao visitar o pavilhão da Alemanha na feira de Hanover, deparei subitamente com um Drakkar. Confesso que me detive, imóvel, uns segundos. O lançamento da proa ao alto, as linhas e as proporções não me eram estranhas. Fazia-me lembrar um barco da arte xávega, daqueles com quatro remos. Sem dúvida um barco preparado para o embate com as ondas do Atlântico.
É também verdade que os Vikings subiram o Arade e invadiram Silves no ano de 937. Naturalmente, estes navegantes também por aqui pernoitavam, aventurando-se, terra dentro, para cumprirem os seus rituais de saque e pilhagem. Um destes périplos ficou mesmo registado na nossa história[2].

Documento original de 1026 que regista um acto de pirataria dos Normandos Vikings, que por aqui andavam há cerca de 2000 anos. (Dona Meitil e sua filha Gondina resgatados por Octício.
Torre do Tombo (cópia de M. Pires Bastos)

Mais interessa referir que estes navegadores ocuparam o lugar e as rotas para o Sul deixadas livres pela decadência do final do império romano. Os bárbaros não vieram só por terra.
Por estes tempos, com a decadência do comércio de longo curso e das viagens costeiras, com alterações de clima decorrentes de transformações na corrente quente do golfo[3], com a consolidação do Cristianismo na Europa e do Islão, emergente, via Norte de África, num contexto social e político em transição acelerada, sedimentavam-se novos rituais e hierarquias.

Os Árabes
Do Sul, no entanto, continuavam as influências, desta vez através dos árabes, com a sua poesia, música, tecnologia e “design”[4], e as técnicas de transformar a água em sal.
Por esta altura, Ovar já teria os seus primeiros habitantes instalados nas dunas junto à foz do Rio: o porto Obar. Verificou-se uma “transurbanização”[5], de Cabanões, S. Donato, Muradães, até à borda de água. Tal como aconteceu em relação ao Furadouro, mas aí por volta do séc. XVI. Consolidavam-se as viagens regionais ao longo da costa, até Esgueira, Aveiro, Águeda, Ílhavo. Surgia a carpintaria naval e o comércio do sal. A olaria andava por perto. O aproveitamento dos cursos de água para a moagem de cereais consolidava-se com a introdução de novas tecnologias. Os mercadores, agora com raízes e interesses mais regionais e locais, mercavam.


Árabe utilizando a cegonha para rega dos campos
Iniciava-se o comércio ribeirinho, complementando com o comércio agrícola. Estamos estrategicamente localizados numa área de múltiplas influências decorrentes das culturas marítimas e agrícolas, entre o Norte e o Sul, com a água a servir de elemento agregador, por muito paradoxal que pareça. A nossa religiosidade demonstra claramente este contexto. Não é por acaso que temos um padroeiro S. Cristóvão, e uma Senhora de Entre-Águas. E ainda um chafariz de Neptuno. E lendas de Senhoras que aparecem sobre penedos, junto às praias. Mas também um S. Donato com barbas e chapéu, de livro na mão.
Lentamente, sob as águas, as areias depositavam-se sobre os fundos lodosos da larga baía. Geravam-se correntes e contracorrentes. O clima agora era mais frio e chuvoso, os rios assoreavam, e a navegação tornava-se cada vez mais cautelosa…
O mar oceano iniciava assim o seu fulgurante processo de se afastar de nós, criando primeiro uma barreira arenosa, depois um mar interior…
No entanto, de tempos em tempos, lá vem ele, com saudades dessa antiga intimidade, lembrando-nos que já andou por ali, ao lado da Senhora da Graça…

[1] “Moio” era uma medida utilizada no comércio do sal.
[2] O episódio de Dona Meitil e sua filha Gondina, a quem venderam, como recompensa, a quarta parte de uma herdade em Cabanões e outra em Muradões, junto ao rio Ovar – Dr. Alberto Lamy, “Monografia de Ovar”, 2.ª ed. vol. I, pág. 41.
[3] A corrente quente do golfo influencia decisivamente o nosso clima, as correntes marítimas, a energia das ondas… Creio que a formação da Ria está intimamente relacionada com oscilações de direção e temperatura neste “rio oceânico”.
[4] Os “árabes” eram exímios artesãos. Criaram peças de uma enorme utilidade, como o almofariz, a alabarda… E sabem dar um enorme valor à água, pois têm falta dela.
[5] Transurbanização – processo de transferência urbana que, com a consolidação de certas funções pode assumir o papel de “novo Centro”. Este fenómeno ocorreu na formação da freguesia de Ovar, cujo porto veio a consolidar a sua importância. Como sabemos este é um dos temas mais fascinantes da nossa história local, pois não sabemos qual o núcleo mais antigo que por cá se consolidou. Quem teria primeiro pisado as areias de Ovar? Os navegadores Fenícios, ou os primeiros Hassaliotas?

(continua)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Março de 2003)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/09/historias-da-vela-na-ria-de-ovar.html